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Aqui só entram matemáticas

Como a Escola de Matemática de Berlim incentiva as alunas a buscar carreira e fazer pesquisa na área, visando um ambiente mais acolhedor.

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Horário do almoço do dia 10 de novembro. No terceiro andar do prédio 17, na rua An der Urania, em Berlim, a sala Curie acolhe um encontro entre oito matemáticas, com mestrandas, doutorandas, pós-doutorandas e professoras. Uma pesquisadora era interrogada e participava de um bate-papo informal. Ali, uma vez a cada semestre letivo, apenas mulheres entram. A reunião, organizada pela Escola Matemática de Berlim (BMS), tem como nome Kovalevskaya Lunch (Almoço Kovalevskaya, em português), em homenagem à matemática russa Sofia Kovalevskaya (1850-1891). Primeira mulher a assumir o cargo de professora numa universidade europeia em pleno século XIX, ela é reconhecida por diversos trabalhos e iniciativas. Os estudos com equações diferenciais parciais e a luta para estudar matemática numa época em que quase todas as universidades da Europa só aceitavam homens são só alguns exemplos.

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Sofia Kovalevskaya, a matemática russa que foi a inspiração para o nome do almoço. (Imagem retirada da Wikipedia)

A convidada do dia 10 é Ilaria Perugia, pesquisadora da Universidade de Viena, e a pauta principal do almoço gira em torno das oportunidades, vitórias e desafios vivenciados pela cientista em sua trajetória acadêmica. Ela estuda, entre outros campos, métodos de Galerkin descontínuos, eletromagnetismo computacional e problemas de propagação de onda. Alguns dias depois do encontro, uma matemática que participou disse em entrevista: “A palestra dela foi muito boa; sou de um campo da matemática que está distante do dela. Geralmente, quando os campos são distantes na área, é difícil entender um ao outro. Ela transferiu uma mensagem que compreendi”.

Se os próprios matemáticos podem não entender as especificidades um do outro, fiquei tranquila. Os assuntos do almoço, no entanto, são comuns a muitas mulheres pelo mundo e, portanto, fáceis de acompanhar. Como deixar o ambiente acadêmico mais acolhedor numa área que é conhecida por ser bastante masculina? O objetivo do encontro é este: criar um local em que as pesquisadoras possam se conectar e se ouvir, compartilhar suas experiências e construir uma rede de apoio, tanto pessoal como profissional.

Segundo Ilaria, é comum observar poucas mulheres em algumas comunidades matemáticas de certos países. Além disso, há quase sempre poucas mulheres no nível de professor universitário. Na Alemanha, esse cargo de professor é considerado o mais difícil de se alcançar: oferece menos vagas, mas garante mais estabilidade do que cargos temporários, como as bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado. A pesquisadora frisa que o fato de haver poucas mulheres pode dar a impressão de que a matemática é um trabalho para homens, o que pode desencorajar jovens pesquisadoras a ir atrás de uma carreira acadêmica na área.

“Esta iniciativa da BMS ajuda a dar uma imagem mais ampla e a conscientizar as pessoas de que não é esse o caso. Compartilhar experiências durante a discussão informal pode ressaltar que algumas dificuldades podem ser superadas ou que um ponto de vista diferente pode ser adotado. O “modelo masculino” que geralmente temos em mente para o nosso trabalho não é o único possível. O networking é outro aspecto extremamente importante e acredito que a oportunidade de se conhecer colegas também por um ponto de vista pessoal ajuda na promoção de conexões”, afirma.

“Mas o encontro é só para as alunas?”

Gerente de diversidade e relações públicas da BMS, Tanja Fagel menciona que já foi parada por alunos homens que gostariam de participar do almoço. Nestes casos, ela sugere uma inversão de realidade: “Imagine se você fosse o único homem numa área em que só há mulheres. Por favor, fique contente por existir esta iniciativa para nossas alunas!”, diz. O almoço é restrito às cientistas, mas, para o colóquio que acontece depois, todos estão convidados. Este ocorre algumas vezes ao longo do semestre letivo e, em um deles, uma pesquisadora é convidada para o almoço.

A estudante Luzie, de 23 anos, que está fazendo mestrado na BMS, compareceu pela primeira vez. “O encontro é muito útil porque, na realidade, você tem alguém com quem se relacionar. Há outras pessoas ali que estão na mesma posição que você”, explica. “Eu vim para obter perspectivas diferentes e para aprender. Eu não sei o que quero fazer no meu doutorado. Eu quero muito continuar na pesquisa, mas sei que não é muito fácil dentro da Alemanha em relação a posições permanentes, como a de professor”.

Já a doutoranda Nevena Palic, também da BMS, conta que já foi em torno de seis vezes. “Cada semestre há uma mulher diferente, com uma história diferente e o jeito como ela alcançou aquilo também é diferente. É bom ouvir de alguém que está numa posição em que eu gostaria de estar daqui a cinco, dez ou 20 anos. É uma questão de ouvir os problemas que ela teve, como ela lidou com tudo e o que aconteceu na vida dela para que ela abrisse a porta de se tornar uma matemática de sucesso, mãe, esposa ou seja lá o que ela é na vida dela”, detalha.

 

BMS

O site da BMS disponibiliza, em inglês, uma lista com todas as matemáticas que já foram convidadas para o almoço. (Imagem: reprodução do site da BMS)

Ainda de acordo com Nevena, o networking é relevante, assim como a sensação de pertencimento. “Não é apenas um momento bom, faz parte de eu perceber que eu pertenço a essa comunidade. É sobre perceber que, as questões que eu tenho, alguém também tem. É necessário conhecer pessoas, fazer colaborações. O almoço nos ajuda a estabelecer conexões umas com as outras, mas não é o único jeito pelo qual fazemos isso”, explica.

Uma breve comparação com o Brasil

Em números, Alemanha e Brasil não estão muito distantes quando se trata de mulheres em cargos de liderança ou posições de prestígio na área de pesquisa. Primeiro, ao olharmos no nível de graduação, no semestre letivo de 2016 para 2017, 73,6 mil alunos aplicaram para matemática em cursos pela Alemanha. Destes, 33,9 mil eram mulheres, ou seja, próximo de 50%. No entanto, no total de acadêmicos na posição de professor, considerando todas as áreas do conhecimento, as mulheres estavam em apenas 23,4% em 2016. Os dados são do Escritório Federal de Estatística Alemão, o Destatis.

No Brasil, em 2015, segundo dados do CNPq, 306 mulheres obtiveram bolsas 1A de produtividade em pesquisa – uma das mais altas bolsas concedidas pelo CNPq, abaixo apenas da bolsa sênior -, contra 938 homens. Considerando a grande área Ciências Exatas e da Terra, na qual matemática se encaixa, 7.219 mulheres receberam bolsas de diferentes níveis nessa área, enquanto os homens estão em 13.784. Na distribuição de pesquisadores por sexo segundo a condição de liderança, o número é um pouco mais animador: em 2016, 17.326 pesquisadores foram registrados como líderes, fazendo frente às 15.092 pesquisadoras líderes.

A matemática Diana Sasaki, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), uma das vencedoras do prêmio L’oréal-Unesco-ABC Para mulheres na ciência de 2017, acredita que a mulher ainda precisa conquistar mais espaço na área. A premiação, em suas palavras, é importante para o avanço da pesquisa brasileira e veio para fortalecer a carreira e contar positivamente em futuras candidaturas. “Eu tive muitos colegas homens no laboratório que estive durante a minha pós-graduação e graduação. Fui me acostumando com estes ambientes. Para mim, agora, é natural.”

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O que nos faz distinguir uma voz de outra?

Você já parou para pensar o que nos faz distinguir a voz de uma pessoa da voz de outra? E como conseguimos identificar diferentes instrumentos musicais que estão tocando a mesma nota?

Com treinamento musical, é possível inclusive distinguir diferentes marcas e qualidades de um mesmo tipo de instrumento musical, e identificar vários instrumentos sendo tocados simultaneamente em um concerto. A característica musical que nos permite distinguir todos estes aspectos é o timbre.

Música, acústica e psicoacústica

Algumas características do som podem ser facilmente traduzidas entre o “musiquês” e o “fisiquês”. Por exemplo, quando falamos sobre altura, em música, estamos nos referindo à frequência fundamental da nota que está sendo tocada. Quando falamos sobre intervalo, estamos nos referindo à relação entre as frequências fundamentais de duas notas, que geralmente são representadas por frações (no caso de afinações naturais) ou por produtos de frequências por números reais. Quando pensamos em “volume”, estamos nos referindo subjetivamente ao nível de pressão sonora. Mas quando falamos sobre timbre, as coisas ficam mais complicadas. É comum escutarmos e lermos em sites de divulgação científica que o timbre é o “formato da onda”. Mas o que isso quer dizer?

As grandezas que mencionamos, a frequência e o nível de pressão sonora, podem ser tanto medidos fisicamente, através do uso de microfones, quando avaliados em termos perceptivos, ou seja, perguntando-se a voluntários o “quão alto” ou “quão intenso” diferentes amostras sonora soam para eles. Com um número suficiente de voluntários e uma boa estatística, é possível encontrar padrões entre humanos com audição normal, e a ciência que estuda estes fenômenos é a Psicoacústica.

Figura 1 – O que nos faz distinguir diferentes instrumentos e vozes?.

Investigando o timbre

A fim de se estudar a percepção de timbre, vários modelos psicoacústicos foram propostos nas últimas décadas. Entende-se que o timbre é um conjunto de vários atributos auditivos, e portanto tem sido utilizadas modelagens multi-dimensionais, que são bastante úteis na síntese sonora utilizada em instrumentos musicais eletrônicos ou mesmo em música composta e executada com uso de computadores, além de trazer pistas sobre como nosso cérebro processa a música [1,2], ramo da neurociência que tem demonstrado cada vez mais ser extremamente complexo e interessante.

A composição espectral do som, ou seja, quais frequências fazem parte de determinada nota, e as proporções entre as amplitudes destas frequências, é uma das características mais importantes do timbre. Além disso, o fluxo espectral, ou seja, a forma como a composição espectral varia ao longo do tempo durante a execução de uma nota, também é fundamental para definir o que chamamos de timbre do instrumento [2].

Além destas características, e de muitas outras que podem ser estudadas e associadas ao termo guarda-chuva “timbre”, existe aquela que chamamos de “tempo de ataque”, que é o tempo entre o início da execução de um som até a identificação do mesmo, e que varia consideravelmente entre um instrumento e outro. As batidas percussivas, por exemplo, possuem um tempo de ataque inferior ao tempo de ataque das notas executadas por um violino [2].

Tempo de ataque – Testando seu ouvido

Quando o chamado “envelope” inicial do ataque é retirado artificialmente, nossa percepção de timbre pode ser consideravelmente alterada. E você, será que percebe a diferença entre pares de notas com e sem o tempo de ataque? Que instrumentos foram tocados? Em quais deles a diferença fica mais evidente quando o tempo de ataque é artificialmente retirado? clique aqui para descobrir. E conte para nós nos comentários! Aviso: Ajuste o volume antes de reproduzir.

Referências

[1] Thoret, E.; Depalle, P.; McAdams, S. (2017), Perceptually Salient Regions of the Modulation Power Spectrum for Musical Instrument Identification. Front. Psychol. 8:587. DOI: 10.3389/fpsyg.2017.00587. Disponível aqui.

[2] McAdams, S. (2012), , Musical Timbre Perception , capítulo em The Psychology of Music. Editado por Deutsch, D.; Terceira edição, Academic Press.

Créditos da figura
Figura 1 – Julia Freeman-Woolpert

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Vamos conversar sobre a história da Aids?

mortes por aidsNo último dia 1o, celebramos mais um Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Esse dia foi estabelecido pela Assembleia Mundial de Saúde e ONU em 1987, e é adotado pelo Ministério da Saúde desde 1988, devido à grande relevância dessa doença, que é responsável por mais de 1 milhão de mortes anualmente no mundo. E mesmo já passados 30 anos do estabelecimento desse dia de reflexão e conscientização, a Aids ainda acomete grande número de pessoas no Brasil e no mundo, e continua cercada de preconceitos e tabus. E para melhor lutarmos contra essa grave doença, ainda no espírito do dia 1o de dezembro, nada melhor que conhecermos a sua história. Vamos nessa?

A Aids, sigla para síndrome da imunodeficiência adquirida, é uma doença do sistema imunológico causada pelo vírus HIV, sigla para vírus da imunodeficiência humana. O HIV originou-se de um outro vírus, chamado SIV, que é encontrado no sistema imunológico de chimpanzés e do macaco-verde africano. O SIV não causa doença alguma nos animais que infecta; porém, como é um vírus altamente mutante, deu origem ao HIV. Acredita-se que a transmissão para o ser humano aconteceu em tribos da África Central que caçavam ou domesticavam chimpanzés e macacos-verdes. Não há consenso sobre a data das primeiras transmissões, mas é provável que tenham acontecido muitas décadas antes do reconhecimento da doença, em 1982, e que ela tenha inicialmente permanecido restrita a pequenos grupos e tribos da África Central, na região subsaariana. Só então na década de 1970, Estados Unidos, Haiti e África Central apresentaram os primeiros casos da infecção: surgiram diversos casos de doenças que ninguém sabia como explicar na época. Isso se deve ao fato da Aids fragilizar o sistema imune e, portanto, deixa o portador mais susceptível a diversas outras doenças, como à  criptococose (uma doença fúngica oportunista que já comentamos aqui no blog neste link), que podem ser fatais. Ou seja, o paciente não é acometido fatalmente pela Aids, mas sim de outras doenças que não são combatidas pelo organismo em decorrência da Aids.

How to Have Promiscuity in an EpidemicAcreditava-se que a primeira pessoa a levar o vírus para os Estados Unidos foi um comissário de bordo franco canadense chamado Gaetan Dugas, conhecido como o “Paciente Zero”. No entanto, um estudo publicado na Nature no ano passado (2016) revelou que a amostra do sangue de Dugas continha uma variação do vírus que já havia infectado homens antes dele começar a frequentar Nova York, mudando assim a história da epidemia. Imagina-se que o erro tenha ocorrido por uma confusão: Dugas era identificado como “paciente O”, com a letra “O”, que significa “out[side]-of-California” (termo utilizado para pacientes infectados fora do estado), e o símbolo circular ambíguo começou a ser lido como zero, erroneamente. Assim, a troca levou a se pensar que ele teria sido a primeira pessoa infectada fora da África e a o intitularem como “o homem que nos deu a Aids”, conforme manchete do New York Post.

peste gayO primeiro caso de Aids no Brasil foi registrado em 1980 e confirmado dois anos depois. No Brasil, como no restante do mundo, a história da Aids está repleta de preconceitos e foi até intitulada como “Peste-Gay”, conforme reportagem publicada no Jornal Notícias Populares, em 1983. É fato que, embora o HIV seja encontrado em vários fluídos corporais (sangue, leite materno, secreções vaginais e sêmen), a carga viral presente no sêmen é maior, tornando-o a via mais comum de infecção. Assim, homens que fazem sexo com outros homens (HSH) têm probabilidade maior de se infectarem, o que não dizima a possibilidade de outros grupos se infectarem igualmente. O sexo não é a única via de contaminação, como ocorreu no caso reportado no Journal of Medical Case Reports em 2017: infecção pelo vírus HIV foi adquirida através de um ritual de curandeiro tradicional no qual ocorreu o corte da pele do curandeiro seguido pela da paciente usando o mesmo instrumento, na Tanzânia, África Oriental. Fanáticos diziam que a Aids havia sido criada por uma força divina para acabar com os gays e, depois, com os afrodescendentes, grupos nos quais os primeiros casos de Aids foram registrados. Vale lembrar que esses dois grupos já eram discriminados naquela época, o que explica a postura preconceituosa adotada. Infelizmente esse preconceito ainda persiste nos dias atuais, mesmo com todo o esclarecimento acerca da doença, criando uma barreira entre populações-chave para essa epidemia e a testagem e serviços de tratamento.

A história da Aids está repleta de luta! Não só luta contra o preconceito, mas também luta em prol de condições de tratamento. Esse cenário é bem retratado no filme “Clube de Compras Dallas”, que é baseado na vida de Ron Woodroof, um eletricista heterossexual de Dallas que foi diagnosticado com Aids em 1985. Woodroof se recusou a aceitar o prognóstico de apenas 30 dias de vida e criou uma operação de tráfico de remédios alternativos, na época ilegais. Ron passa a adquirir, ilegalmente, AZT, medicamento utilizado até então em pacientes com câncer, que só em 1987 foi autorizado para o tratamento da Aids. O filme, que ganhou Oscar de melhor ator em 2014, é interessantíssimo e retrata a luta dos portadores de HIV, marginalizados na sociedade, por acesso à saúde. Felizmente, pela primeira vez, o relatório UNAIDS de 2017 mostra que mais da metade de todas as pessoas que vivem com HIV no mundo (53%) agora têm acesso ao tratamento do HIV (dado de 2016).

A Aids mata e, assim como o preconceito, segue, infelizmente, presente com força na nossa sociedade. Precisamos combater tanto a doença quanto a discriminação, por meio do conhecimento e da prevenção. A luta contra a Aids é necessária e responsabilidade de todos nós: o dia 1o de dezembro deve ser todo dia.

 

REFERÊNCIAS:

WOROBEY et al. 1970s and ‘Patient 0’ HIV-1 genomes illuminate early HIV/AIDS history in North America. Nature, 539(7627). 2016. Disponível neste link.

PALLANGYO et al. Human immunodeficiency virus infection acquired through a traditional healer’s ritual: a case report. Journal of Medical Case Reports, 11. 2017. Disponível neste link.

http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2016/10/homem-culpado-pela-epidemia-de-aids-e-inocentado-pela-ciencia.html

http://www.ioc.fiocruz.br/aids20anos/linhadotempo.html

https://mundoestranho.abril.com.br/saude/como-surgiu-a-aids/

https://jovemsoropositivo.com/2014/08/09/carga-viral-no-semen/

https://unaids.org.br/estatisticas/

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50 anos de endossimbiose: a mulher por trás da teoria

Há 50 anos, um artigo que se tornaria um marco na história da Biologia era publicado por uma mulher. Lynn Margulis (na época Lynn Sagan), em seu artigo “On the Origin of Mitosing Cells”, publicado em 1967, defendia a teoria da endossimbiose: uma teoria unificadora sobre a origem das células eucarióticas. Resumidamente, a teoria da endossimbiose propõe que algumas organelas, como mitocôndrias e cloroplastos, eram, no início da vida na Terra, procariontes (bactérias) de vida livre, que foram englobados por outros seres unicelulares. A partir dessa união, chamada simbiose, se originaram as células eucarióticas. Apesar de essa hipótese já ter sido levantada anteriormente, Margulis considerou e organizou evidências celulares, bioquímicas e paleontológicas para suportá-la, bem como sugeriu meios pelos quais ela poderia ser testada experimentalmente.

Atualmente, a teoria da endossimbiose é amplamente aceita e reconhecida, mas o primeiro trabalho de Lynn Margulis a defendendo foi rejeitado por mais de uma dúzia de revistas. Ainda após a publicação, Margulis precisou de muita argumentação e persistência para defender suas ideias. Tais qualidades, no entanto, faziam parte de sua personalidade desde cedo. Quando criança, era considerada uma má aluna, pois não aceitava argumentos de autoridade e acreditava apenas no que via com seus próprios olhos. Margulis achava o ambiente escolar tradicional entediante. Aos 14 anos foi aprovada na University of Chicago Laboratory Schools, onde pôde desenvolver sua paixão pela ciência, num ambiente que considerava academicamente estimulante e onde tinha acesso a trabalhos científicos de diferentes áreas. Margulis foi uma “naturalista à moda antiga”. Não se contentava em fazer o que diziam que ela deveria fazer e não se restringia a uma área de conhecimento ou a uma época. Buscava informação sobre tudo que despertava seu interesse e que a ajudasse a entender o mundo, sempre com uma visão abrangente. Lynn Margulis dizia que seu amor pela ciência surgiu porque percebia que a ciência não era uma questão sobre sua opinião política ou orientação, mas uma forma de descobrir o mundo diretamente a partir de evidências: “E eu nunca havia visto isso na minha vida. Eu via apenas pessoas dizendo ‘você deve fazer isso porque ele disse, e ele sabe mais do que você’.” (tradução livre).

Lynn Margulis (Ilustra por Juliana Adlyn)

Além da teoria da endossimbiose, Lynn Margulis colaborou com James Lovelock no desenvolvimento da hipótese Gaia, que defende a ideia da biosfera como um sistema ativo de controle, capaz de manter a Terra em homeostase. Perceba que essa ideia é diferente do que muitos pensam sobre a hipótese de Gaia, considerando o planeta como “um organismo”. Tal má interpretação do conceito originalmente proposto por Lovelock e Margulis colaborou para que ele se tornasse popular entre movimentos anti-ciência. Ainda, essa hipótese gerou mais discussão entre cientistas de diferentes áreas, pois muitos consideram uma hipótese bonita, poética, mas difícil de ser testada. Mais uma vez, a visão de Margulis ia contra o que a maioria dos cientistas de sua época pensavam. Para ela, entretanto, Gaia nada mais é do que a “simbiose vista do espaço”. Ainda hoje, Gaia trata-se, no mínimo, de uma hipótese inspiradora e intrigante, e muita discussão ainda deve rolar a respeito dela.

Lynn Margulis recebeu diversos prêmios ainda em vida, principalmente por causa da teoria da endossimbiose. Dentre eles, destacam-se a “National Medal of Science”, dada pelo presidente dos EUA a cientistas por suas contribuições de destaque, e a medalha “Darwin-Wallace” – dada pela Linnean Society of London a cada 50 anos em reconhecimento a “grandes avanços na biologia evolutiva”  Como se não bastasse a carreira brilhante como cientista, Lynn Margulis também escreveu diversos livros (muitos em parceria com seu filho Dorian Sagan) para divulgação de suas teorias e de ciência em geral para público leigo. Margulis faleceu em novembro de 2011 – sua história e seu amor pela ciência, entretanto, continuam a nos inspirar.

Para saber mais:

Lynn Margulis sobre sua vida, carreira e visão sobre ciência:

Teoria da endossimbiose:

Sagan, L. 1967. On the origin of mitosing cells. Journal of Theoretical Biology. 14 (3): 225–274. doi:10.1016/0022-5193(67)90079-3

Gray M. W. 2017. Lynn Margulis and the endosymbiont hypothesis: 50 years later. Mol. Biol. Cel. doi:10.1091/mbc.E16-07-0509

Hipótese Gaia:

Lovelock, J.E.; Margulis, L. 1974. Atmospheric homeostasis by and for the biosphere: the Gaia hypothesis. Tellus. Series A. Stockholm: International Meteorological Institute. 26 (1–2): 2–10. doi:10.1111/j.2153-3490.1974.tb01946.x

Doolittle, W.F. 2017. Darwinizing Gaia. Journal of Theoretical Biology. doi: https://doi.org/10.1016/j.jtbi.2017.02.015

Margulis, L. 1998. The symbiotic planet: a new look at evolution. (Recomendo fortemente a leitura deste livro!!)

Livros de Lynn Margulis e Dorion Sagan traduzidos para português:

O que é vida?

O que é sexo?

Microcosmos

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Fadiga crônica e a relação com a microbiota intestinal

Sente-se cansado o tempo todo? Com dificuldade de concentração e de memorização? Mesmo após uma boa noite de sono, essa sensação de cansaço não vai embora?

Se esses sintomas ocorrem há mais de 6 meses, pode ser que você tenha a Síndrome da Fadiga Crônica (SFC), também conhecida como encefalomielite miálgica (ME). O paciente com a SFC apresenta piora da memória, dores musculares e nas articulações, distúrbios digestivos e sonolência ao longo do dia, que pioram com a atividade física ou mental.

A SFC é de difícil diagnóstico porque é preciso que qualquer outro tipo de doença causadora dos mesmos sintomas seja descartada, como o hipotireoidismo ou anemias. Sem um marcador específico que caracterize a síndrome, o diagnóstico pode ser muito demorado. Porém um estudo publicado este ano aponta um caminho promissor para que esses marcadores sejam enfim utilizados.

O estudo aponta que o problema pode começar no seu intestino, com a sua microbiota intestinal!

Sindrome da fadiga ronica

Imagem adaptada de: shutterstock.com

A microbiota é formada pelo conjunto de bactérias e fungos que vivem em nosso organismo. Sem as mesmas, não poderíamos sobreviver. Quando os micro-organismos presentes na microbiota entram em desequilíbrio, podem causar distúrbios ao organismo.

A pesquisa conduzida pela Dr. Dorottya Nagy-Szakal da Universidade de Columbia nos Estados Unidos relata a relação entre o desequilíbrio de espécies de bactérias intestinais com essa síndrome.

Os cientistas compararam pessoas saudáveis com pessoas portadoras da SFC e observaram que a maioria dos portadores da SFC também possuíam a Síndrome do Intestino Irritável (SII). De acordo com os autores de 35-90% dos pacientes com SFC também são portadores da SII.

A Síndrome do intestino irritável é um transtorno gastrointestinal que causa mudanças na movimentação (motilidade) do intestino, podendo levar a constipação ou diarreia, acúmulo de gases e cólicas. 

Ao analisarem o perfil das pessoas que possuem SFC com ou sem a SII, os autores do estudo não encontraram diferenças entre células do sistema imune, já que em artigos anteriores publicados por outros grupos haviam suspeitas de que a SFC fosse causada pelo aumento de células inflamatórias circulantes. O que encontraram de diferente entre os grupos analisados foram os tipos de bactérias intestinais de cada paciente. Ao identificar esses diferentes tipos de bactérias entre os pacientes, os pesquisadores puderam encontrar possíveis biomarcadores para o diagnóstico da SFC.

Chamamos de biomarcador tudo aquilo que pode ser utilizado como um indicador de alguma doença ou distúrbio. No caso deste estudo, os cientistas identificaram que pessoas com a SFC+SII possuem como biomarcadores o aumento de bactérias do gênero Alistipes e diminuição do gênero Faecalibacterium no intestino, em comparação a pessoas saudáveis. Já pacientes somente com SFC apresentaram como biomarcadores o aumento de gênero Bacteroides juntamente com uma diminuição específica na espécie Bacteroides vulgatus. Sabendo desses perfis de bactérias que funcionam como biomarcadores, os pesquisadores conseguiram prever os 3 tipos de pacientes: pacientes saudáveis, pacientes somente com SFC e pacientes com SFC+SII. Além disso, os cientistas encontraram uma forte correlação entre a gravidade dos sintomas (dores, fadiga extrema e motivação reduzida) e a quantidade dessas bactérias nos pacientes portadores da SFC.

O trabalho de Dr. Dorottya Nagy-Szakal conclui ainda que essas bactérias específicas podem quebrar a comunicação que há entre o cérebro e o intestino, atuando por diferentes vias do metabolismo.  Isso pode ocorrer porque as bactérias há redução na produção de ácidos graxos e aminoácidos essenciais para o metabolismo corpóreo.

Há cerca de 10 anos, estudos científicos que exaltam a importância do papel da microbiota intestinal para o corpo humano crescem a cada ano. Uma gama de estudos vêm relacionando o papel das bactérias e fungos que temos em nossos corpos, principalmente nos intestinos, com o desenvolvimento de doenças.

Mas será mesmo que a microbiota está na intersecção de todas essas doenças?

No mundo da ciência este é um assunto muito novo e que ainda precisa ser muito explorado. Ainda estamos no princípio para o entendimento do papel que a microbiota pode exercer em nosso organismo.

Fatores genéticos, ambientais, se nascemos de parto normal ou cesariana, metabolismo e nutrição são fatores que influenciam diretamente em qual tipo de micro-organismos iremos ‘cultivar’ em nosso corpo. Desta lista, o fator nutricional parece ser o que mais podemos controlar de alguma forma. Por isso a prevenção ainda é o melhor remédio.

O tratamento para a síndrome da fadiga crônica depende de cada caso, mas inclui antidepressivos para ajudar no sono e nas dores musculares, psicoterapia para atenuar o stress, exercícios físicos e principalmente uma alimentação balanceada.

Em um futuro próximo, quem sabe, esses biomarcadores sirvam como base para probióticos que possam ajudar pessoas que sofrem com essas síndromes. Enquanto isso, a dica é tentar manter uma vida equilibrada. Evitar o stress e o álcool em excesso e manter uma rotina de exercícios físicos e de boa alimentação.

*Probióticos: organismos vivos que quando ingeridos exercem efeito benéfico ao organismo por balancear a microbiota intestinal.

Saiba mais sobre os micro-organismos que habitam nossos corpos nesse outro post do blog: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2016/08/29/o-ecossistema-que-nos-habita/

Saiba mais sobre microbioma: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2016/12/21/microbioma-uma-questao-de-peso/

 

REFERÊNCIAS

Giloteaux L, Goodrich JK, Walters WA, et al. Reduced diversity and altered composition of the gut microbiome in individuals with myalgic encephalomyelitis/chronic fatigue syndrome. Microbiome. 2016; 4:30.

Nagy-Szakal D, Williams BL, Mishra N, et al. Fecal metagenomic profiles in subgroups of patients with myalgic encephalomyelitis/chronic fatigue syndrome. Microbiome. 2017; 5:44.

 

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Quem chegou primeiro, o piolho ou o homem?

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Fig 1:Pediculus humanus. Fonte: Science

É só começar a falar na palavra piolho que as pessoas começam a se coçar. Pudera, esse inseto tão pequenino quando infesta alguém causa muito desconforto e chateação.  Mas o que as pessoas sabem sobre esses parasitos? De fato, quando pensamos em piolhos sempre vêm algumas perguntas à cabeça: como se pega? Será que voa ou pula?

Essas e algumas outras perguntas já foram desvendadas por pesquisadores, mas existem outras que ainda estão sendo estudadas, tais como: De onde surgiram estes ectoparasitos1? Será que os macacos passaram os piolhos para nós, ou fomos nós que passamos para os macacos? Essas questões e talvez  o famigerado piolho… sempre estiveram presentes na cabeça dos pesquisadores que trabalham com estes insetos, que têm características relevantes, dentre elas:

  1. Quase não sair do corpo do hospedeiro, onde se reproduzem e se alimentam;
  2. A transmissão ocorre pelo contato, pois não conseguem sobreviver muito tempo fora do hospedeiro. E ao contrário do que as pessoas pensam, piolhos não pulam ou  voam; eles saem andando do corpo, a fim de parasitar outro possível hospedeiro;
  3. São espécie-específicos. Só existem duas espécies de piolhos que parasitam o homem: Pediculus humanus e Phthirus pubis. Pediculus humanus é dividido em duas subespécies: Pediculus humanus capitis, que só ocorre na cabeça, vulgo “piolho de cabeça”; e Pediculus humanus humanus, que ocorre no corpo do indivíduo, vulgo “piolho de corpo”. Phthirus pubis ocorre na região genital e é vulgarmente chamado de “chato”.

A relação entre piolhos e seus hospedeiros vem de muitos anos: aves e mamíferos são parasitados por eles há mais de 65 milhões de anos. A grande maioria dos piolhos que parasitam mamíferos apresentam as características citadas acima. Essas características são interessantes e importantes de se considerar ao se pensar em modelos de co-evolução, ou seja, um modelo para se entender sobre a evolução da relação  dos piolhos com seus hospedeiros.

Em 2016, um estudo realizado por Rezak Drali, em parceria com grupos da França e Austrália, abordou os aspectos evolutivos entre este parasito, o homem e os macacos. O resultado deste estudo foi publicado na revista Infection, Genetics and Evolution sob o título “A mudança de hospedeiros de piolhos humanos para macacos do Novo Mundo na América do Sul”. Desde sua primeira classificação, por Ferris em 1916, os piolhos de macacos do Novo Mundo são considerados espécies muito parecidas com os piolhos de humanos, possibilitando a classificação no mesmo gênero: Pediculus. Rezak Drali e seus colaboradores, intrigados por esta grande semelhança morfológica, decidiram comparar em uma análise evolutiva as espécies destes parasitos dos homens e dos macacos da América do Sul.

Os humanos saíram da África há mais de 100.000 anos carregando seus parasitos, e dentre eles, o piolho. O “piolho de corpo” habita as vestes do hospedeiro, e para se alimentar sai das roupas para a pele. As fêmeas, ao se reproduzirem, fixam as lêndeas nas roupas.  Estudos anteriores mostraram que quando os homens começaram a usar roupas, os piolhos que habitavam a cabeça começaram a migrar para este outro “habitat”. Assim é possível que o “piolho de corpo” tenha surgido a partir do “piolho da cabeça”.

É comum que mudanças de habitat e migrações favoreçam mudanças genéticas nos indivíduos. Por exemplo, pessoas que moram na Ásia têm características morfológicas e genéticas distintas de nós que moramos na América do Sul. Estas características também acontecem nos piolhos. As suas diferenças genéticas vão de encontro com a sua distribuição ao redor do mundo. Por isso,  pesquisadores decidiram distribuí-los em haplogrupos A, B e C. O haplogrupo A ocorre no mundo todo e é formado por piolhos de cabeça e de corpo; haplogrupo B ocorre nas Américas, Leste Europeu, Austrália e Norte da África e é formado por piolhos de cabeça; o haplogrupo C ocorre no Nepal, Tailândia, Etiópia e Senegal, sendo formado por piolhos de cabeça.

Nas Américas, espécies como macacos prego e bugio têm piolhos muito parecidos com o dos humanos. Para se tentar entender um pouco sobre a relação entre Pediculus humanus e Pediculus mjobergi (piolho dos macacos), estes pesquisadores realizaram um extenso estudo com piolhos dos macacos provenientes da Guiana Francesa e da Argentina. A análise dos parasitos em humanos foi realizada com “piolhos de cabeça” coletados na Amazônia; além de “piolhos de cabeça” e “piolhos de corpo” coletados na França fornecendo dados do haplogrupo A, que ocorre no mundo inteiro. Destacamos também que as amostras dos “piolhos de cabeça” provenientes da Amazônia, vieram de local isolado e remoto, fora da zona de turismo, na comunidade de Wayapi de fronteira entre Guiana Francesa e Brasil. Este dado é importante para o estudo pois o isolamento geográfico diminui a probabilidade de piolhos de outros haplogrupos vindo de outras regiões se misturarem com os piolhos desta comunidade, interferindo nos resultados da pesquisa.

O que os pesquisadores viram em seu estudo? A morfologia entre ambas espécies é de fato muito parecida. Além disso, ao fazer análises comparativas do DNA, todas as avaliações indicaram alta similaridade entre as sequências dos piolhos de macaco com os piolhos de cabeça do grupo da Amazônia. Este resultado indica que há uma relação muito próxima entre estas espécies, com trocas genéticas entre elas.

Possivelmente a origem destes piolhos em macacos veio dos humanos, já que além da grande similaridade genética e morfológica foi observada a presença de duas linhagens (A e B) de piolho de humanos em um só macaco. Este fato pode ser explicado pela relação de proximidade de humanos com macacos naquela região (Fig.2). Além disso, é provável que por causa dessa proximidade os piolhos trocaram os seus hospedeiros originais, o que acabou gerando mudanças evolutivas. Essas mudanças, nos estudos evolutivos parasitológicos, são denominadas “host switching”.

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Fig.2. Criança indígena com macaco de estimação.Fonte: Greenpeace

Para finalizar, destaca-se que o artigo de Rezak Drali e colaboradores mostra a relação e o impacto do contato entre humanos e animais. A transmissão de um parasito para outro hospedeiro não ocorre só de animais para humanos, mas também de forma inversa. Apesar de parecer inofensivo, até então o “piolho de corpo” é a única espécie de piolho que é capaz de transmitir doenças para os seres humanos: tifo epidêmico, febre das trincheiras e febre recorrente. A ocorrência destes patógenos em Pediculus mjorbergi ainda é desconhecida, necessitando-se mais estudos.

Vai um piolhinho aí?

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Fig. 3: Crianças indígenas catando piolhos. Fonte: Blog impressões amazônicas.

 

1- Parasitos que ficam no exterior do corpo, ex: carrapatos, pulgas e piolhos.

Referências:

1- Kittler, Ralf, Manfred Kayser, and Mark Stoneking. “Molecular evolution of Pediculus humanus and the origin of clothing.” Current Biology 13.16 (2003): 1414-1417.

2- Drali, Rezak, et al. “Host switching of human lice to new world monkeys in South America.” Infection, Genetics and Evolution 39 (2016): 225-231.

3- http://phthiraptera.info

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Conceitos básicos da pesquisa em saúde – parte 3: o efeito placebo

Nesta série sobre conceitos básicos de pesquisa em saúde, já discutimos o desenho de experimentos e os conceitos de correlação, confundimento e significância estatística. Vamos agora discutir um fenômeno curioso com que ensaios clínicos – aqueles que buscam testar novos tratamentos ou intervenções – precisam lidar: o efeito placebo.

Brody [1] define o efeito placebo como “uma mudança na doença do paciente atribuível à importância simbólica de um tratamento ao invés de uma propriedade farmacológica ou fisiológica específica”. Em outras palavras, o efeito placebo ocorre quando há uma alteração no quadro de um paciente mesmo quando o tratamento não inclui uma substância ou intervenção eficaz. Pílulas de açúcar, injeções de soro fisiológico, cirurgias falsas (nas quais o paciente é anestesiado e apenas um corte é feito na pele) são exemplos de placebos. Nenhum deles trata de fato a doença ou condição, mas mesmo assim são capazes de provocar melhoras nos pacientes. As explicações para o efeito placebo são complicadas, envolvem uma multiplicidade de fatores e ainda estão em debate. O mais importante, contudo, é que o efeito placebo é fortemente relacionado com as expectativas dos pacientes [2]. Isso significa, por exemplo, que tratamentos têm mais eficácia quando pacientes estão cientes de que estão sendo tratados [3], mas o efeito placebo também age de maneira mais inusitada: as cores de pílulas têm efeito sobre o tratamento, com base nas associações sobre o efeito estimulante e calmante de cores quentes e frias, respectivamente [4], e até é possível induzir efeitos colaterais com tratamentos inertes (isto é, que não têm princípios ativos reais), desde que os pacientes tenham a expectativa de que sofrerão esses efeitos* [2]!

O efeito placebo pode ser usado para tornar tratamentos mais eficazes: médicos podem incorporar elementos que induzem esse efeito nos tratamentos que indicam a seus pacientes, aumentando as chances de que funcionem. Contudo, ele também representa um desafio à pesquisa em saúde. Se a expectativa de um paciente por si só já pode levá-lo a melhorar, como saber se uma intervenção de fato tem efeito sobre a doença, ou se é um mero placebo? É essa indagação que leva a que o objetivo de ensaios clínicos seja determinar se uma intervenção é mais eficaz do que um placebo**. Para dar conta desse desafio, ensaios clínicos costumam incorporar placebos em seus desenhos de estudo. Assim, o grupo experimental recebe a intervenção que está sendo testada e o grupo controle recebe o placebo. Para evitar que a percepção dos pacientes afete os resultados dos estudos, os participantes não são informados sobre o grupo em que estão. Para garantir que os pesquisadores não interfiram nos resultados dos dois grupos, nem revelem em que grupo cada participante está, eles também não sabem quem é quem durante o estudo. Esse tipo de estudo é chamado de duplo cego e, quando a alocação dos indivíduos nos grupos de tratamento é feita aleatoriamente, é o que fornece as evidências mais confiáveis sobre intervenções em saúde [5].

Contudo, nem sempre é possível fazer estudos desse tipo. Há casos em que não é possível esconder dos pacientes em que grupo estão, especialmente quando se trata de uma intervenção comportamental (é impossível alguém não saber se está fazendo exercício regularmente, por exemplo). Há também casos em que considerações éticas impedem que um grupo receba um placebo, ao invés de um medicamento de verdade. Nesses casos, as evidências produzidas pelos estudos são mais fracas, mas, ainda assim, esses estudos podem dar contribuições importantes à avaliação de intervenções em saúde.

Por que é importante entendermos o efeito placebo? Além de ser extremamente interessante por si só, o efeito placebo também nos ajuda a avaliar intervenções em saúde. Mesmo que você não faça pesquisa em saúde, entender o efeito placebo ajuda a questionar tratamentos vendidos por aí. Afinal, o simples fato de que alguém (ou mesmo várias pessoas) diz ter melhorado com um tratamento não significa muita coisa. Uma boa pergunta para se ter em mente é: “existe alguma evidência de que essa intervenção é melhor do que um placebo?”. Essa pergunta já ajuda a evitar tratamentos pseudocientíficos e é uma arma importante contra charlatães.

No próximo – e último – texto da série, vamos deixar de lado ensaios clínicos para discutir os conceitos de risco relativo e risco absoluto. Até lá!

*Nesse caso, temos o efeito nocebo, essencialmente a mesma coisa que o placebo, mas para efeitos negativos.
**Quando não há um tratamento já em uso. Quando já existe um tratamento, a nova intervenção precisa também ser testada contra o tratamento já existente.

[1] Brody, H. Placebos and the Philosophy of Medicine. Clinical, Conceptual, and Ethical Issues. Chicago: University of Chicago Press, 1980
[2] De Craen, AJ; Kaptchuk, TJ; Tijssen, JG; Kleijnen, J. Placebos and placebo effects in medicine: historical overview. Journal of the Royal Society of Medicine, v. 92, n. 10, 1999: 511-515. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1297390/
[3] Lanotte, M.; Lopiano, L; Torre, E; Bergamasco, B; Colloca, L; Benedetti, F. Expectation enhances autonomic responses to stimulation of the human subthalamic limbic region. Brain, Behavior, and Immunity, v. 19, n. 6, 2005: 500-509.
[4] De Craen, AJ; Roos, PJ; Leonard de Vries, A; Kleijnen J. Effect of colour of drugs: systematic review of perceived effect of drugs and of their effectiveness. BMJ : British Medical Journal. v. 313, n. 7072, 1996:1624-1626. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2359128/
[5] Schulz, KF; Grimes, DA. Blinding in randomised trials: hiding who got what. Lancet. v. 359, n. 9307, 2002: 696-700.