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Síndrome de impostor

Talvez em algum ponto da sua vida você já tenha se questionado se “merece” estar onde chegou. Até aí tudo bem, muitas pessoas também devem se perguntar isso vez ou outra. O que não é normal é que, a cada feito, conquista e/ou realização sua você pense que foi por acaso, sorte e que logo vão descobrir que na verdade você é uma fraude. Se você se sente assim, saiba que não está sozinha(o): é bem provável que você sofra de síndrome de impostor!

O que é síndrome de impostor?
O termo “síndrome de impostor” foi cunhado em 1978 pelas psicólogas Pauline R. Clance e Suzanne A. Imes e definido como “uma experiência interna de falsidade intelectual, que parece ser particularmente prevalente e intenso em uma amostra de mulheres bem-sucedidas”. O termo inicialmente se aplicava a mulheres, mas hoje se sabe que homens também podem sofrer desse mal (em porcentagem menor). O termo vem sendo usado para definir aqueles indivíduos com uma incapacidade de aceitar suas realizações e com um medo persistente de serem expostos como uma fraude. Embora não seja tida como uma desordem psicológica, a síndrome de impostor tem sido alvo de diversos estudos.

Síndrome de impostor na Academia
As sociólogas Jessica L. Collett e Jade Avalis conduziram uma pesquisa na Universidade de Notre Dame com 461 estudantes de doutorado, dos quais 46% eram mulheres. Elas descobriram que mais mulheres do que homens (11% versus 6%) que aspiravam a seguir na carreira acadêmica desistiram. Para elas, isso está relacionado a síndrome de impostor.

Em áreas onde ainda predominam mais homens que mulheres, a pressão sobre elas pode ser ainda mais forte. Ter uma orientadora, no entanto, nem sempre ajuda: o estudo conduzido por Collett mostrou que um número significativo das entrevistadas afirmou sentir que nunca será tão boa quanto sua mentora.

Você não está sozinha(o)
Se você se sente assim, saiba que não é a única(o). Até mesmo pessoas consideradas bem-sucedidas pela sociedade sofrem com a síndrome de impostor. A atriz Emma Watson confessou que logo após terminar as filmagens de Harry Potter, sentiu-se uma fraude. Conversar com outras pessoas sobre como você se sente pode ter resultados muito bons. Você vai perceber que boa parte também tem suas inseguranças, seus altos e baixos e que não existe pesquisador-maravilha.

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Fique tranquila(o): diferente do cãozinho, você está habilitada(o) para desempenhar suas funções!
Legenda da imagem: cachorro em um laboratório de química com a frase “Eu não tenho ideia do que estou fazendo”.

Não se preocupe: se você se sente uma fraude, é bem provável que não seja uma. Se, no entanto, você tem um nível de confiança muito alto, cuidado! Pode ser que você sofra o efeito Dunning-Kruger, ou seja, não percebe sua própria ignorância.

Para saber mais:

Teste (em inglês) para saber se você sofre de síndrome de impostor
http://paulineroseclance.com/pdf/IPscoringtest.pdf

PRICE, Michel. ‘Impostors’ downshift career goals. Disponível em:<http://www.sciencemag.org/careers/2013/09/impostors-downshift-career-goals >.

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As mulheres na ditadura civil-militar brasileira

Como já foi teorizado por várias historiadoras – e mesmo aqui no blog -, a história das mulheres costuma ser ignorada pelos livros de história e ciências humanas. A história que é vista como “geral”, frequentemente, conta, apenas, a história dos homens, colocando a história das mulheres como “específica”.

Ora, as mulheres são metade da população mundial. As questões de homens são vistas como se fossem questões “gerais” por causa do poder instituído masculino. Na nossa sociedade capitalista (e em outros modos de produção também, mas esse não é o objeto desse texto), os lugares de poder são ocupados por homens que o exercem para satisfazer as vontades e necessidades de homens.

Isso porque, historicamente, foi reservado às mulheres o espaço doméstico/privado. Às mulheres é imposto o papel social de mães, esposas e donas de casa, que devem cuidar do marido, dos filhos e dos idosos. Mesmo hoje – que se diz que as mulheres “conquistaram o mundo do trabalho” (o que é falacioso, já que as mulheres pobres precisam trabalhar há séculos para complementar a renda familiar) -, as responsabilidades domésticas continuam nas mãos das delas. Já aos homens é destinado o espaço público, a política, a voz, o poder.

Nesse sentido, é importante recuperar a história das mulheres para mostrar que elas sempre estiveram presentes como atrizes sociais e não apenas como “apêndices” dos homens. Michelle Perrot, uma historiadora francesa, por exemplo, dedicou-se a contar a história dos excluídos e das excluídas da história. Ela é uma grande teórica que merece ser visitada (no final do texto serão indicadas obras dessa historiadora para leitura).

 

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Imagem retirada do site: https://goo.gl/vmiJkA

 

Após essa breve introdução, falaremos, então, sobre a importância do papel das mulheres durante o período da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). Muitas brasileiras estiveram na linha de frente na luta contra a ditadura, como Amelinha Telles, Iara Iavelberg, Conceição Imaculada de Oliveira, etc.

Inclusive, o movimento feminista organizado no Brasil foi desenvolvido de maneira particular, se comparado ao desenvolvimento em outros países. Ele nasceu junto aos movimentos de esquerda na luta contra a ditadura. As mulheres, além de lutar contra o regime de exceção, começaram a apontar o machismo dentro dos movimentos de esquerda ortodoxos, lutando para que os homens do movimento passassem a “desnaturalizar” práticas sexistas que prejudicavam a luta revolucionária.

Nesse sentido, importante destacar que todos e todas militantes de esquerda, identificados como “comunistas” de maneira pejorativa pelo governo militar, sofreram intensas perseguições e punições. Mas também é importante destacar que as mulheres sofreram um tipo de tortura específico.

São numerosos os relatos de mulheres que sofreram torturas através da violência sexual. Elas foram obrigadas a ficar nuas diante de vários homens, que ficavam lhes dirigindo ofensas machistas (já que as mulheres de esquerda militantes políticas eram vistas como desviantes do padrão moral burguês). Além disso, inúmeras foram estupradas, algumas abortaram em sessões de tortura (levavam chutes na barriga e choques na vagina), muitas foram torturadas na frente de seus filhos para traumatizar as crianças, etc.

 

“Maria Amélia estava amarrada na cadeira do dragão, quando o torturador Lourival Gaeta, o “Mangabeira” começou a masturbar-se na sua frente. Ao gozar, jogou o sêmem em cima de seu corpo. “Não gosto de falar sobre isso, mas sei da importância de tratar desse assunto, da desigualdade entre homens e mulheres na hora da tortura. Eles usaram da desigualdade para nos torturar mais”, disse, sob forte emoção, Maria Amélia de Almeida Teles. Ela relatou o abuso sexual que sofreu na abertura da audiência pública “Verdade e gênero- a violência da ditadura contra as mulheres”, ocorrida na segunda-feira, 25, organizada pela Comissão Nacional da Verdade e Comissão Estadual da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva”.”
(fonte: http://www.adrianodiogo.com.br/noticias/internas/id/1885/comissoes-da-verdade-debatem-violencia-da-ditadura-contra-as-mulheres/)

 

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Imagem da militante feminista Amelinha Teles, retirada do site: http://goo.gl/38D2ES

 

Por outro lado, também houve uma explosão no número de organização de mulheres nos bairros periféricos. Essas mulheres organizadas começavam a se reunir incentivadas pela igreja católica para discutir o evangelho e fazer tricô. Com o tempo passaram a debater os problemas da comunidade e cobrar soluções como a construção de creches, asfaltamento de vias públicas etc.

Foi um importante passo para a organização dessas mulheres da periferia, em sua maioria negras, que tinham suas demandas ignoradas tanto pelo governo quanto pelos movimentos de esquerda, já que muitas não trabalhavam como assalariadas (mas trabalhavam em suas casas).

A experiência das mulheres da periferia e das mulheres operárias organizadas no período da ditadura é narrada por Elizabeth Souza-Lobo, que fez várias pesquisas na época das greves do ABC nos anos 70 e 80. Ela mostra como as trabalhadoras não se sentiam contempladas pela luta dita como “geral” liderada pelos homens. Os sindicatos não ouviam suas demandas e não se importavam com as denúncias de violências sexistas e menores salários pagos às mulheres.

 

“(…) a própria utilização do termo específico, cada vez que se quer referir a questões que concernem às mulheres, supõe uma universalidade neutra que se opõe à especificidade feminina.”
(SOUZA-LOBO, 2011, p. 256)

 

Portanto, é sempre necessário trazer luz a essas experiências das mulheres, que, raramente, são contadas e, mais raramente ainda, são ouvidas. Mulheres revolucionárias estão lutando para ter seu espaço há muito tempo, precisamos relembrá-las sempre que possível para que cada vez mais mulheres possam se inspirar nelas e ingressar na luta anticapitalista e antipatriarcal.

 

Bibliografia e livros sugeridos:

CORDEIRO, Janaina Martins. Direitas em movimento: A campanha da mulher pela democracia e a ditadura no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009.

LOBO, Elizabeth Souza. A classe operária tem dois sexos. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2011.

PERROT, Michelle. Os Excluídos da História: Operários, Mulheres e Prisioneiros. 2010, São Paulo: Paz e Terra.

_______. Minha história das mulheres. 2007, São Paulo: Editora Contexto.

_______. As mulheres ou os silêncios da história. 2005, Bauru: EDUSC.

RAGO, Margareth. Trabalho feminino e sexualidade. in História das mulheres no Brasil. Mary Del Priore (org). São Paulo: Editora Contexto, 2013.

TELES, Amelinha; LEITE, Rosalina Santa Cruz. Da guerrilha à imprensa feminista: a construção do feminismo pós luta armada no Brasil (1975-1980). São Paulo: Martins Fontes, 2013.

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Einstein na crista das ondas

[Atualizado em 20/11/17]

No dia 03 de outubro de 2017, a Academia Real de Ciências da Suécia anunciou que o  Nobel de Física de 2017 iria ser dividido entre Rainer Weiss e a outra metade dividida entre Barry C. Barish e Kip S. Thorne, os três pertencentes à colaboração científica internacional LIGO/VIRGO, “por suas contribuições decisivas ao detector LIGO e a observação das ondas gravitacionais”.

Weiss e Thorne estão trabalhando desde a década de 1970 para tornar possível a detecção das ondas gravitacionais. Weiss, inclusive, criou o primeiro modelo de interferômetro no qual os detectores LIGO são baseados. Barish foi pesquisador principal da colaboração por mais de 10 anos, de 1994 a 2005, e diretor do laboratório LIGO de 1997 a 2005, sendo portanto seu primeiro diretor.

Comemorações à parte, não foi nenhuma surpresa que o prêmio Nobel fosse entregue a representantes do LIGO. A grande questão do ano era exatamente como o comitê do Nobel iria escolher essas pessoas. A observação das ondas gravitacionais tem uma história de mais de 100 anos de pesquisas. Desde a sua predição feita por Einstein em 1916, cientistas do mundo todo deram grandes e pequenas contribuições para a sua descoberta. Só o fato de escolherem indivíduos específicos para premiar, já cria um certo desconforto.

Nas palavras do próprio Thorne: “Eu esperava que o prêmio fosse para a colaboração LIGO/VIRGO, que fez a descoberta, ou para o laboratório LIGO, os cientistas do laboratório LIGO, que criaram e construíram e aperfeiçoaram os detectores de ondas gravitacionais e não para Barish, Weiss e eu. Nós vivemos numa era na qual algumas descobertas gigantescas são realmente o resultado de enormes colaborações, com contribuições relevantes vindo de um número muito grande de pessoas. Eu espero que no futuro o comitê do Prêmio Nobel encontre uma forma de premiar as grandes colaborações que fazem isso e não apenas as pessoas que talvez tenham sido seminais no início do projeto, como nós fomos.”

[Fim da atualização]

 

Dia 11 de fevereiro de 2016 cientistas do mundo todo reuniram-se em anfiteatros, salas de reunião, com grandes telas, com telas de TV ou simplesmente notebooks para ouvir uma das coletivas de impressa mais esperada do século. “Nós detectamos ondas gravitacionais. Sim, nós conseguimos!” (“We have detected gravitational waves. We did it!”, em tradução livre), anunciou o muito entusiasmado (e com razão!) David Reitze, diretor executivo do LIGO diretamente de Washington, D.C., nos EUA.

Mas o que é LIGO? O que são ondas gravitacionais? E, mais importante, por que os cientistas-tá-tudo-chorando-de-emoção a mais de uma semana?

É verdade. Não se falava em outras coisa nas últimas semanas nos institutos e departamentos de física ao redor do mundo. Os primeiros rumores alcançaram ouvidos incrédulos: Não… Deve ser notícia falsa, claro. Depois atingimos o nível de fofoca quente, fofoca com potencial: Fulane ouviu de fulano que fulana viu a medida. Eles estão preparando o artigo! Finalmente, na semana do comunicado oficial dava para ouvir gente gritando pelos corredores: Eu tô tão empolgade!!! E, realmente, gente chorou, gente se emocionou e todo mundo aplaudiu. E o mundo inteiro viu.

Então, vamos lá! Um guia rápido para entender a notícia.

O que são ondas gravitacionais?

Começamos por “coisas” mais comuns. Sabemos que as ondas eletromagnéticas transportam energia (radiação eletromagnética) nas mais diversas frequências, desde ondas de radio (baixa energia), passando pela pequena faixa de comprimentos de onda que conseguimos enxergar (luz) até raios gama (super energéticos). Diferentes eventos produzem diferentes ondas eletromagnéticas, basta acelerar partículas carregadas e voilá!, lá temos ondas eletromagnéticas. Nossos corpos emitem radiação eletromagnética infravermelha, o Sol emite 90% de radiação visível e infravermelha e 10% de ultravioleta ou menores comprimentos de onda, o GPS do seu celular comunica-se com satélites emitindo e recebendo ondas de radio. A ideia é essa: ondas eletromagnéticas transportam energia (radiação) de eventos que produzem campos elétricos e/ou magnéticos.

Ondas gravitacionais, portanto, transportam energia gravitacional. Enquanto ondas eletromagnéticas propagam-se no espaço-tempo, ondas gravitacionais são ondulações do próprio espaço-tempo. Einstein publicou, em 1916, uma teoria para a gravitação, a teoria da relatividade geral (TRG), levando em consideração a relatividade do tempo e do espaço, ou seja, limitando a velocidade de propagação da gravitação. Nessa teoria, a energia gravitacional se propaga com velocidade finita, igual a velocidade da luz. De uma maneira bem simplista, a teoria da relatividade especial (TRE) diz que todos os observadores sempre estão sujeitos as mesmas leis físicas e que a velocidade da luz no vácuo é a mesma para todos os observadores e a velocidade máxima de qualquer fenômeno que ocorra no universo. A teoria da relatividade geral (TRG) oferece uma descrição dos fenômenos gravitacionais de acordo com a teoria da relatividade especial. A TRG subtitui a anterior teoria da gravitação de Newton, na qual a força gravitacional se propaga instantaneamente em todo o universo.

Todos os testes a que a TRG foi submetida foram bem sucedidos. Já na sua publicação, a TRG conseguiu explicar a precessão da órbita de Mercúrio, problema não resolvido pela gravitação Newtoniana. Posteriormente, durante o eclipse total de 1919, o primeiro teste foi realizado e, de acordo com uma das predições da TRG, foi observado que a luz curva-se quando passa por uma fonte de gravitação suficientemente intensa: a luz emitida por estrela curvou-se ao passar pelo Sol. Essa correta predição lançou a TRG com força como uma das teorias fundamentais da física. E, conforme os anos passaram, os resultados de outros testes aumentaram cada vez mais o prestígio e a confiança na TRG: precessão do periélio de mercúrio; deflexão da luz pelo Sol; efeito de lentes gravitacionais; o atraso temporal que a luz sofre quando passa próxima de fontes gravitacionais; desvio para o vermelho gravitacional; precessões seculares na órbita de partículas teste que se movimentam ao redor de fontes gravitacionais em rotação (precessão de Lense-Thirring); detecção indireta de ondas gravitacionais através da observação de pulsares binários e a super recente detecção diretíssima de ondas gravitacionais. Você pode ler um pouquinho sobre esses teste aqui (link em inglês).

Por que foi tão difícil detectar as tais ondas?

Durante cem anos as ondas gravitacionais foram aguardadas por uns e questionadas por outros. Cientistas dividiam-se em dois grupos: os que acreditavam que encontrar ondas gravitacionais era uma questão de tempo (e de melhores e mais precisos instrumentos). E os que apontavam a sua não-detecção como indício de que a teoria de Einstein não estaria correta. Os últimos 50 anos foram dedicados a criação e construção de projetos em busca das ondas gravitacionais. As dificuldades técnicas são compreensíveis. Tome a nossa modesta comparação entre ondas gravitacionais e ondas eletromagnéticas, por exemplo. A força eletromagnética é da ordem de 10 elevado a 36 vezes mais intensa que a força gravitacional! É de se imaginar que para observar ondas gravitacionais seja necessário eventos muito muito muito mais intensos e assim obter sinais suficientemente fortes. Porém, eventos intensos são raros e, por isso, difíceis de detectar. Além do mais tem toda a dificuldade técnica de diferenciar que sinal é de quê, uma vez que o sinal de ondas gravitacionais vem “misturado” com outros tantos sinais. E por aí vai.

Em setembro do ano passado, a galera do LIGO (falaremos do observatório mais adiante) detectou um sinal que correspondia exatamente com as predições da colisão de dois buracos negros. Imagina: dois buracos negros separados a uma distância menor do que Rio-São Paulo. Um pesando 29 vezes a massa do Sol. O outro, 36 vezes a massa do Sol. Eles giravam um em torno do outro cada vez mais rápido, se aproximando cada vez mais, com velocidade em torno da metade da velocidade da luz, até que BAM! Eles viram um buraco negro só. As ondas gravitacionais (o sinal medido) desse evento, dessa coisa absurda de poderosa, demorou 1,3 bilhões de anos para chegar até a Terra. Chegou, distorceu o espaço e o tempo, e o LIGO mediu. Sabe o tamanho do sinal? 1 milésimo do diâmetro do próton!!! Minha gente, é muito pequeninho esse sinal! E é por isso que o LIGO tem que ter uma precisão boladona: ele tem precisão suficiente para medir a distância da Terra ao Sol dividindo 150 milhões de kilômetros em pedacinhos menores do que a espessura de um fio de cabelo! E é por isso que os cientistas-chora-tudo-de-emoção. :p

Vídeo da simulação de dois buracos negros colidindo. Esse vídeo é uma simulação de computador do que seria visto na realidade por um astronauta que estivesse perto o suficiente para ver mas longe o bastante para não participar!

Tá… Mas esse tal de LIGO é o quê?

LIGO (Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory) são dois interferômetros construídos em 1992 com a missão de detectar ondas gravitacionais. Não são os únicos equipamentos no mundo com esse objetivo, mas são os mais precisos e os reponsáveis pela detecção badalada. Os dois interferômetros foram construídos nos EUA e estão separados a uma distância de mais de 3000 Km. Isso porque é necessário que dois instrumentos meçam simultânea e independentemente o mesmo evento para ter certeza que o sinal não é ruído ou outro evento local qualquer (lembra, sinal com 1 milésimo do tamanho do diâmetro do próton…). Se os dois interferômetros medem a mesma coisa ao mesmo tempo significa que o evento tem origem astrofísica, ou seja, vem lá dos confins do universo.

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Esse é o LIGO Livington, cada bracinho desses mede 4 Km. O outro interferômetro fica em Hanford. Créditos: LIGO.

A construção inicial data de 1992, mas claro que já houveram várias alterações e melhorias. A última foi em setembro de 2015, e o LIGO passou a ser conhecido como Advanced LIGO (LIGO Avançado, em tradução livre.) As alterações na precisão foram tão drásticas que muitos apostaram que se ondas gravitacionais não fossem detectadas (e logo!) significaria que o modelo de gravitação do Einstein (a TRG) estaria errado. Detectaram os dois buracos negros colidindo dois dias depois do início das atividades do Advanced LIGO… Para você ver que esse pessoal não está brincando…

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Esse é um esquema simplificado e fora de escala dos interferômetros. Cada braço tem 4 Km de comprimento. O sinal emitido pelo laser chega nas extremidades dos braços e é refletido por espelhos que encontram-se nas extremidades e no “cotovelo” entre os braços. Quando as ondas gravitacionais passaram pela Terra, um dos braços do interferômetro encolheu enquanto o outro esticou, isso durante o primeiro ciclo de onda. No segundo ciclo, o braço que havia esticado encolheu e o braço que havia encolhido,  esticou. O mesmo aconteceu com o outro interferômetro que fica a 3000 Km de distância. O mapinha marca a localização de cada um dos interferômetros nos EUA. Créditos: Artigo da Colaboração LIGO.

E tem muita gente envolvida nessa descoberta. Fora o pessoal que trabalhou na teoria e nas técnicas de detecção ao longo desses cem anos, tem o pessoal diretamente ligado ao LIGO na chamada LIGO Scientific Collaboration (Colaboração Científica LIGO, em traduação livre): mais de 1000 cientistas de 16 países em 80 instituições ao redor do mundo estão com os nomezinhos marcados na História. O Brasil é o único país da América Latina participando e tem 7 pesquisadores envolvidos: 6 do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e 1 do International Center for Theoretical Physics (ICTP-SAIFR).

Tá… E isso muda o quê? O que vem por aí?

Olha, vem coisa grande por aí… O que exatamente ninguém sabe. Mas imagina que até então nós observávamos o universo com ondas eletromagnéticas e só “enxergávamos” o universo de 400 000 anos para cá, porque antes disso ele era opaco às ondas eletromagnéticas. Agora, nós vamos poder investigar as origens do universo com ondas gravitacionais que são transparentes durante T-O-D-A a existência do universo. Fora buracos negros, estrelas de nêutrons, matéria escura e o escambau… tudo poderá ser “visto” de maneira diferente agora. Imagina assim: Quando Galileu apontou uma luneta para observar o Sistema Solar, quando Hertz gerou ondas de radio em laboratório pela primeira vez… A parada é nervosa nesse nível.

A nova era começou! E não é papo de cartomante. É ciência! *_*

Referências e sugestões (mas em inglês :/):

O artigo bombadão pra quem é (ou quer ser!) da área.

Comunicado oficial (em vídeo) com gente feliz e videozinhos legais para todo mundo curtir.

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Uma breve história dos foguetes e do início das viagens espaciais

“Um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”. A famosa frase do astronauta Neil Armstrong, ao descrever sua caminhada em solo lunar, dá uma boa dimensão das conquistas humanas no século XX. A corrida espacial travada entre Estados Unidos e União Soviética, que culminou na chegada da humanidade à lua em 1969, é uma história bem conhecida de todos. O que muita gente não sabe, no entanto, é que o início da atividade espacial é bem menos glamoroso e ocorreu, por vezes, de forma amadora, apenas pouco antes.

Os avanços da ciência do fim do século XIX e início do XX criaram em entusiastas um sentimento de que havia muito ainda a ser conquistado e que era apenas questão de tempo. Nas décadas de 1920 e 1930 diversos grupos amadores de foguetismo foram criados mundo afora. Em Nova Iorque, escritores de ficção científica e entusiastas se uniram no American Interplanetary Society, cujo objetivo era descobrir meios para chegar a outros planetas. O grupo foi fundado em 1930 por onze homens e uma mulher e, em um ano, já tinha mais de cem membros. Eles conseguiram, em 1933, lançar um fogute que atingiu pouco mais de setenta metros de altitude antes de explodir no ar. Eles ainda fizeram mais algumas tentativas, e uma delas acabou ferindo uma mulher que estava tentando fotografar o foguete. Em 1934, o grupo mudou seu nome para American Rocket Society e passou a concentrar os esforços mais em estudos do que em testes. Eles também mantinham bom relacionamento com outros grupos de foguetismo da época, em especial o britânico e o alemão, e trocavam informações e ideias.

Paralelo ao esforço de entusiastas amadores, cientistas também procuravam descobrir as fórmulas que levariam o ser humano para além da estratosfera. O cientista Robert H. Goddard vinha trabalhando com o tema desde a década de 10 e, em 1926, lançou o primeiro foguete movido a combustível líquido do mundo. Após um acidente em 1929 com um de seus protótipos, ele se mudou para o Novo México, onde continuou pesquisando.

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Imagem 01: Goddard e seu foguete
Fonte: Wikipedia

Goddard também se envolveu em uma polêmica bastante curiosa. Após a publicação de um artigo em 1919, no qual discutia a forma de alcançar altitudes extremas e chegar até mesmo à lua, um editorial no jornal The New York Times o acusou de não conhecer a lei de ação e reação, e que, no vácuo, uma reação não ocorreria. O editorial ainda afirmou que lhe faltava conhecimento dado no ensino médio. O jornal The New York Times se retratou em 1969, após a caminhada de Neil Armstrong na lua.

Um estudo pioneiro para o desenvolvimento dos foguetes foi publicado pelo russo Konstantin Tsiolkovsky, em 1903. Nele, Tsiolkovsky calculou que a velocidade horizontal necessária para a órbita mínima ao redor da Terra seria 8000 m/s, e que isso seria possível com um foguete movido a oxigênio e hidrogênio líquidos. Seu trabalho influenciou as conquistas do foguetismo não apenas na Rússia (depois de 1917 União Soviética), mas também na Alemanha e Estados Unidos.

Na Alemanha, um estudo importante para o foguetismo foi lançado em 1923 por Hermann Oberth. Isso impulsionou a criação de uma associação amadora de foguetismo, chamada Verein für Raumschiffahrt, em 1927. O grupo conseguiu lançar um protótipo de foguete com combustível líquido em 1930. Poucos meses depois, em um teste com álcool um foguete explodiu e matou um dos fundadores do grupo, Max Valier. Em 1932 o governo alemão propôs um contrato ao grupo. As divergências sobre o contrato (que foi rejeitado) enfraqueceram o grupo, que acabou no ano seguinte. O jovem Wernher von Braun, integrante do Verein für Raumschiffahrt, foi trabalhar no Departamento de Armas do Exército.

Com a ascenção do nazismo, as pesquisas sobre foguetes ganharam força na Alemanha. Isso porque o governo pretendia usá-los para fins militares. Em 1937 foi fundado o Centro de Pesquisas do Exército de Peenemünde. Lá, foram desenvolvidos foguetes e mísseis usados na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O mais famoso deles, o V-2, matou milhares de pessoas – mais em sua produção que em explosões. Estima-se que 9 mil pessoas, entre civis e militares, morreram em decorrência dos ataques de V-2s na guerra, e pelo menos 12 mil pessoas morreram em decorrência de sua produção – prisioneiros de campos de concentração usados em trabalhos forçados. O V-2 também foi o primeiro foguete a cruzar a atmosfera e atingir o espaço, em 1944.

Nos Estados Unidos, alguns membros da American Rocket Society fundaram, no final de 1941, a empresa Reaction Motors, Incorporated. Ao final da guerra, ela era a maior fabricante de foguetes movidos a combustível líquido no país. A empresa também ajudou a construir o Bell X-1, o primeiro avião a quebrar a barreira do som, em 1947. Muitos cientistas alemães que trabalharam em projetos aéreos migraram para os Estados Unidos após a guerra, incluindo Wernher von Braun, e continuaram a desenvolver o foguetismo. A corrida espacial, travada entre Estados Unidos e União Soviética a partir da década de 1950 deu um grande impulso no desenvolvimento de novas tecnologias.

Em 1957 a União Soviética lançou o Sputnik, o primeiro satélite artificial a orbitar a Terra. A URSS também foi pioneira no envio de uma pessoa ao espaço: o cosmonauta Yuri Gagarin foi o primeiro ser humano a ver a Terra de longe, em 1961. Dois anos depois, foi a vez da Valentina Tereshkova orbitar a Terra. Ela foi a primeira civil e também a primeira mulher a ir para o espaço. Valentina tinha apenas 26 anos à época, e passou quase 3 dias ao redor da Terra (mais do que a soma dos tempos de todos os americanos que tinham ido para o espaço até então). Ao todo, ela orbitou a Terra 48 vezes.

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Imagem 02: a cosmonauta Valentina Tereshkova
Fonte: BBC

A conquista de Valentina e da União Soviética foi tanto tecnológica quanto social:

“Em 1963, a russa Valentina Tereshkova orbitou a Terra; do ponto de vista da liberação das mulheres no Ocidente a vergonha do programa dos EUA não era tanto que uma mulher pilota não duplicou o feito como que a nossa sociedade não sentia que esse passo era sequer imaginável. Este tipo específico de história social era algo que revistas de ficção científica da década de 1930 e 1940 raramente, ou nunca, previram” (CARTER, 1977, p. 51 tradução própria).

De fato, levou vinte anos para que os Estados Unidos levassem uma mulher ao espaço. Entretanto Valentina foi – e continua sendo! – a única mulher a fazer uma missão sozinha no espaço. Uma pena que a igualdade de gênero não avance na mesma velocidade das conquistas espaciais.

Fontes: CHENG, John. “We want to play with Spaceships”: Popular Rocket Science in Action. In: Astounding Wonder: Imagining Science and Science Fiction in Interwar America. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2012 (p. 251-300).

CARTER, Paul A. The creation of tomorrow: Fifty years of magazine science fiction. New York: Columbia University Press, 1977.

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2016: Voltamos!

O ano passado foi muito importante na luta feminista. Durante a chamada “primavera feminista”, milhares de mulheres foram às ruas protestar contra o Projeto de Lei 5.069, que restringe o direito ao aborto. A mobilização nas redes, ao longo do ano, também foi bastante intensa: hashtags como #meuprimeiroassédio e #meuamigosecreto estimularam a discussão sobre temas que são, muitas vezes, silenciados por serem considerados exclusivos do âmbito privado. No campo do entretenimento, a luta das mulheres também encontrou eco em filmes como As sufragistas. E, no meio acadêmico, não podemos nos esquecer dos comentários machistas de Tim Hunt e de todo o debate a respeito do assédio no ambiente de pesquisa que ele gerou.

No entanto, ainda há muito pelo que lutar. Diariamente, as mulheres cientistas – e, obviamente, as mulheres em geral – continuam sofrendo situações de assédio, machismo e violência em seu ambiente de trabalho. Tudo isso possibilitado por uma divisão sexual do trabalho que também estrutura o ambiente acadêmico e universitário. Assim, optamos por continuar com o blog em 2016. Optamos por continuar dando espaço para que as mulheres cientistas se manifestem tanto no sentido da divulgação da produção científica, quanto na denúncia do machismo e da opressão na academia.

Que venha 2016 e que seja um ano marcado pela luta das mulheres!