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Feminismos: o feminismo marxista

“Se a aparência e a essência das coisas coincidissem, a ciência seria desnecessária.” – Karl Marx

Ao contrário do que diz o senso comum, nunca é demais repetir: feminismo não é o contrário de machismo.

Feminismo é uma grande corrente ideológico-política que conta com muitas vertentes. Não existe um feminismo, existem feminismos. O que todos os feminismos possuem em comum é o fato de acreditar que as mulheres deveriam ter os mesmos direitos que os homens, deveriam ser tratadas de maneira igual.

Ou seja, todas as correntes do feminismo percebem que as mulheres, em nossa sociedade atual, – e em muitas outras sociedades, mas não todas[1] – não são sempre tratadas como seres humanos. Somos tratadas como cidadãs de segunda classe. Quando, por exemplo, a história das mulheres não é contada, reflexo do fato de que, por séculos, foram apenas os homens que tiveram acesso garantido aos estudos. Quando, por exemplo, as mulheres são mais interrompidas em suas falas públicas do que os homens. Quando, por exemplo, as meninas são criadas para ajudar as mães nas tarefas domésticas e dos meninos não se exige que realizem as mesmas tarefas. Quando, por exemplo, o homem trata sua companheira como sua posse e se sente no direito de matá-la ou agredi-la por ciúmes. Etc etc etc.

Muitos são os exemplos de opressões diárias pelas quais as mulheres passam. Hoje, falaremos de uma corrente feminista específica, que enxerga as diferenças entre homens e mulheres de uma maneira peculiar.

Antes de falarmos sobre o feminismo marxista, é importante perguntarmos: o que é marxismo? Quem foi Karl Marx? O que ele tem a ver com o feminismo?

Representação de Karl Marx, retirada do Twitter https://twitter.com/karlthemarxist

Representação de Karl Marx, retirada do Twitter https://twitter.com/karlthemarxist

Karl Marx não era “feminista”. Marx era um homem de sua época, com todas as limitações que isso implica. Mesmo tendo sido um homem genial que desvendou o “mistério da mercadoria” e da sociedade capitalista, não foi capaz de chegar até outras opressões dentro da opressão “maior”, a de classes.

No entanto, sua contribuição para entendermos o funcionamento da sociedade capitalista é gigantesca. De maneira resumida, ele nos mostrou como o capitalismo faz com que as relações entre as pessoas passem a ter a aparência de uma relação entre coisas, entre mercadorias. A própria força de trabalho passa a ser tratada como uma mercadoria qualquer, que pode ser vendida no mercado. Ou seja, a violenta passagem do modo de produção feudalista para o modo de produção capitalista retirou dos trabalhadores os meios de produção. Ao mesmo tempo que ficaram despossuídos, também foi implementada a ideologia de que todos seriam livres, iguais e proprietários perante o direito. Isso significa que a classe trabalhadora seria, aparentemente, tratada de forma igual. Teria, assim, a sua força de trabalho como sua única mercadoria e que poderia ser “livremente” vendida no mercado (enquanto os capitalistas deteriam os meios de produção). Acontece que a classe trabalhadora não escolhe “livremente” trabalhar, já que passaria fome se não vendesse sua força de trabalho pelo preço que os capitalistas escolheram pagar.

Marx também contribuiu para a ciência com seu método. Ele nunca escreveu sobre o que chamamos de materialismo histórico dialético, já que esse método sempre esteve entrelaçado com o próprio conteúdo de seus escritos. O materialismo histórico dialético é uma grande contribuição para as ciências humanas (polemizando: até para as ciências naturais), já que sai da aparência apresentada pela sociedade capitalista e busca a essência dos problemas, a sua raiz.

Simplificando: o método é materialista já que busca a verdade na materialidade, naquilo que de fato acontece no mundo (ao invés de primeiro inventar uma teoria para depois tentar encaixar o mundo nela). É a teoria que deve se adequar aos fatos, e não o contrário. É um método histórico, pois nenhuma categoria pode ser explicada sem se buscar seu passado. Não se pode, por exemplo, explicar o “surgimento” do capital financeiro sem buscar todo o desenvolvimento histórico que o possibilitou. É um método dialético, pois, nas ciências humanas, não existe uma divisão estanque entre objeto de estudo e pesquisador ou pesquisadora. Quem pesquisa está inserido na sociedade e não podemos acreditar no mito do discurso neutro. Quem escreve sobre ciências humanas está sendo influenciado pelos seus próprios preconceitos, opinião política, posição de fala etc.

Finalmente, chegamos ao ponto. E o feminismo marxista?

O feminismo marxista defende a centralidade do trabalho na explicação de todas as outras categorias comumente utilizadas ao se tratar de relações de opressão. A categoria gênero, para o feminismo marxista, não pode ser lida autonomamente, sem se pensar em classe, em trabalho. Não só a categoria gênero, como também raça e sexualidade, só podem ter uma leitura que vá à raiz da opressão se forem analisadas a partir da centralidade do trabalho. Ou seja, antes dessas categorias, devemos pensar na noção de “classe”.

Isso porque o feminismo marxista argumenta que o capitalismo, apesar de não inventar a opressão de gênero, apropriou-se dela a seu favor. Só para dar um exemplo mais gritante: o capitalismo se apropria gratuitamente do trabalho da mulher quando ela faz todo o trabalho doméstico sozinha. Além de se apropriar desse trabalho, ainda se espalha a ideologia de que o trabalho doméstico é improdutivo[2] e, portanto, sem importância. Ora, o trabalho doméstico é socialmente necessário para a “manutenção da ordem”. Sem alguém para lavar, cozinhar, cuidar dos filhos, dos idosos, etc, o trabalho produtivo não poderia ser executado. Ninguém sai para trabalhar se não tem roupa lavada e passada, se não se alimentou, etc. Historicamente, esse trabalho essencial para o funcionamento da nossa sociedade é invisibilizado e tratado como dispensável.

E a questão de classe? Após ler o parágrafo anterior, muitas pessoas poderão pensar que “ah, mas hoje em dia as mulheres trabalham fora, as mulheres não estão mais presas ao lar”. As mulheres de classe média saem para trabalhar e quem fica “no seu lugar” são as mulheres pobres, em sua grande maioria negra, trabalhando como empregadas domésticas. No caso de outros países, como os Estados Unidos, são as mulheres imigrantes também precarizadas. O trabalho doméstico não desapareceu, ele apenas passou de uma mulher para outra. Enquanto outras correntes do feminismo acreditam que a “mulher conquistar o mercado de trabalho” (sendo que as mulheres pobres trabalham desde sempre) é um grande avanço, o feminismo marxista questiona: e a mulher pobre? E a mulher negra? E a mulher trans? Somos todas mulheres…

Muitas correntes feministas acreditam que o feminismo marxista está ultrapassado e que não é possível explicar gênero através de uma leitura marxista. Eu, enquanto feminista marxista, acredito que enquanto a sociedade capitalista não for superada o marxismo não será superado. As estruturas são as mesmas, afinal. Outra questão é que o feminismo marxista pensa no coletivo, não no individual. Essa corrente de feminismo não tenta explicar “gênero” ou os processos individuais de empoderamento, por exemplo. Não que feministas marxistas acreditem que esse processo é desimportante (é muito importante sim!), apenas não é o objeto de disputa desse feminismo.

Outra questão que se enfrenta no debate teórico é que muitos marxistas acreditam que não é importante debater a questão de gênero, que apenas a categoria classe é suficiente. Também discordo desse marxismo, já que a opressão de gênero não desaparecerá automaticamente com a abolição das classes. Um grande exemplo disso é o caso da Revolução Russa de 1917, que apesar de hoje sabermos que falhou (até porque a União Soviética ficou isolada e não existe socialismo de um país só), na época da tentativa de instalação do comunismo as tentativas de igualar os gêneros falharam. As mulheres continuaram em situação mais precária que os homens, apesar do governo tentar resolver isso juridicamente, como com as leis do divórcio e do aborto. Sobre esse assunto recomendo o interessante “Mulher, estado e revolução”, de Wendy Goldman, que narra exatamente esse período histórico.

Capa do livro

Capa do livro “Mulher, estado e revolução”, retirado do site da Boitempo Editorial http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/titles/view/a-mulher,-o-estado-e-a-revolucao

Por fim, importante salientar que a discussão na academia – pelo menos na área em que eu me insiro – sobre esses assuntos é ainda muito deficitária. Felizmente muitas outras áreas das ciências humanas se preocupam em produzir e pesquisar sobre gênero, marxismo etc. Na área do direito, ao contrário, é muito pouca a discussão séria tanto sobre marxismo quanto sobre feminismo e menos ainda sobre feminismo marxista. É muito prejudicial para a produção de conhecimento se perder a categoria marxista da historicidade, por exemplo. O direito é ensinado em nossas academias como se fosse uma categoria eterna e a-histórica, como se os institutos jurídicos surgissem do nada e não servissem ao capitalismo. Isso empobrece o estudo do direito já que não o contextualiza na sociedade em que ele esta inserido. Não pensar na questão de gênero também é muito prejudicial, já que se invisibilizam as mulheres presentes nesse espaço. Não só na academia, em todos os espaços.

[1] Acreditamos que se trata de anacronismo dizer que todas as sociedades oprimiram as mulheres. Além de ser inverídico (sobre essa questão ver o livro “A origem da família, da propriedade e do estado” de Friedrich Engels, em que ele mostra como as sociedades surgiram matriarcais e foi a transmissão de propriedade que causou a opressão da sexualidade das mulheres), é necessário, a partir do método marxista, observar cada período histórico em suas especificidades, sem generalizações descontextualizadas.

[2] Através de uma leitura marxista, o trabalho doméstico pode ser considerado um trabalho “improdutivo”, mas está longe de ser sem importância e desnecessário.

Bibliografia

CASTRO, Mary Garcia. Marxismo, feminismos e feminismo marxista: mais que um gênero em tempos neoliberais. Crítica Marxista, n. 11, p. 98-108, 2000.

HIRATA, Helena. Nova Divisão sexual do trabalho?. 1ª Edição. São Paulo: Ed. Boitempo, 2002.

MORAES, Maria Lygia Quartim de. Marxismo e feminismo: afinidades e diferenças. Crítica Marxista, n. 11, p. 89-97, 2000.

SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.

_________. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. São Paulo: Expressão Popular, 2013.

SOUZA-LOBO, Elisabeth. A classe operária tem dois sexos. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2011.

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Aproveitamento de Resíduos para Produção de Combustíveis e Bioprodutos

bioprodutos

Atualmente, os produtos utilizados na química industrial e seus derivados são principalmente obtidos de recursos fósseis e não renováveis, para construir compostos mais complexos com as mais diversas aplicações, como solventes, combustíveis, polímeros, tecidos, nutrientes, aromatizantes e produtos farmacêuticos. Considerando a ascensão da engenharia metabólica e a otimização dos processos industriais, aumentou-se a possibilidade dos bioprodutos atingíveis a partir de um mesmo conjunto de matérias primas. As conversões químicas demonstram a diversidade de produtos que podem ser derivado de biomassaNo Brasil, o Programa Nacional do Álcool (PROALCOOL) foi criado com o intuito de prover alternativa para frota leve, entretanto os veículos pesados, como caminhões e ônibus, ainda utilizam o diesel como combustível.

Os processos bioquímicos envolvem dois tipos de processos: os enzimáticos e os fermentativos. Os processos químicos englobam os processos termoquímicos, a transesterificação química, o hidroprocessamento, o craqueamento catalítico e a síntese de Fischer-Tropsch.

O conceito de biorrefinaria aplica-se para processos que utilizam matéria-prima renovável, como a biomassa. As fontes de biomassa se diferenciam de acordo com suas características ou origens e esta diferenciação deve ser considerada quando se pretende utilizá-la como fonte eficiente para geração de energia.

Um breve levantamento da origem, características e possíveis reutilizações de várias agriculturas e resíduos e efluentes agro-industriais é necessário. Subprodutos e efluentes, muitas vezes contêm substâncias de elevado valor agregado, que podem ser diretamente recuperados ou podem representar um substrato de baixo custo para processos de fermentação destinadas à produção de biocombustíveis ou de biomoléculas de interesse comercial. Em primeiro lugar, o foco é analisar os critérios e estratégias de atualização geral (BOCANEGRA, et al., 2015).

Uma alternativa adequada para substituir os combustíveis fósseis é a produção de bioetanol a partir de resíduos agroindustriais. O objetivo atualmente de alguns estudos é investigar a utilização de resíduos agroindustriais fontes de carbono naturais, para promover a síntese de bioetanol pela levedura Saccharomyces cerevisiae  (LÓPEZ, et al., 2015).

Em outro estudo a fermentação direta de biomassa celulósica para bioetanol tem sido muito promissora e, portanto, atraiu a atenção nos últimos anos. A produção de bioetanol a partir de hidrolisado de bagaço de maçã (produto de resíduos agro-industrial) foi investigada por Trichoderma harzianum por cocultura, Aspergillus sojae e Saccharomyces cerevisiae usando abordagens estatísticas. Triagem e otimização de experimentos foram realizados a fim de determinar os fatores significativos e seus níveis ótimos para máxima produção de bioetanol. Taxas de inoculação, aeração e velocidade de agitação foram considerados como variáveis ​​fator e produção de bioetanol como variável de resposta. A maior concentração de etanol e de rendimento no consumo do teor total de açúcar dependem dessas variáveis do processo . O método pode criar uma matéria-prima alternativa renovável para produção de combustíveis fósseis e sugerir uma solução viável para vários problemas ambientais (Tari, et .al., 2015).

Uma abordagem de engenharia de sistemas pode ser aplicada para enfrentar os desafios associados com a biorrefinaria à base de microalgas, fungos e leveduras por exemplo, através do desenvolvimento de um quadro metodológico sistemática para localizar as configurações de biorrefinaria promissores em termos de relação custo-eficácia, robustez e sustentabilidade ambiental (RIZWAN; LEE; GANI, 2015).

Portanto, novos conceitos de fabricação estão continuamente desenvolvendo para a produção de combustíveis, produtos químicos orgânicos, polímeros e materiais provenientes da biomassa que utilizam tecnologias de processamento complexas. Esses conceitos de fabricação são análogos às refinaria de petróleo e petroquímica integrada comumente conhecido como biorrefinaria (MAITY, 2015).

Continuaremos com maiores informação no próximo post !

RIZWAN, M.; LEE, J. H.; GANI, R. Optimal design of microalgae-based biorefinery: Economics, opportunities and challenges. Applied Energy, v. 150, n. 0, p. 69-79,  2015.

MAITY, S. K. Opportunities, recent trends and challenges of integrated biorefinery: Part II. Renewable and Sustainable Energy Reviews, v. 43, n. 0, p. 1446-1466,  2015.

Alma Rosa Domínguez-Bocanegra, Jorge Antonio Torres-Muñoz, Ricardo Aguilar López. Production of Bioethanol from agro-industrial wastes. Fuel. Volume 149, June 2015, Pages 85–89.

Ezgi Evcan ,Canan Tari,.Production of bioethanol from apple pomace by using cocultures: Conversion of agro-industrial waste to value added product. Energy, In Press, Corrected Proof — Note to users, June 2015.

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Uma revolução na manipulação de genomas

Nos últimos três anos, um novo método vem sendo utilizado para editar a sequência de DNA de qualquer organismo, incluindo humanos. É o sistema CRISPR/Cas (CRISPR é um acrônimo do inglês: clustered, regularly interspaced, short palindromic repeats), que originalmente é usado por bactérias para se defender de infecções causadas por vírus. Quando a bactéria detecta a presença de DNA viral, ela incorpora parte desse DNA e produz dois tipos de RNA de pequeno comprimento, sendo que um deles é complementar à sequência do DNA viral. Essas duas sequências de RNA formam um complexo com a enzima Cas, que é uma nuclease, um tipo de enzima que corta DNA. Quando a sequência de RNA guia (aquela complementar ao DNA viral) acha seu alvo dentro do DNA viral, a Cas corta esse DNA, degradando o DNA viral. Isso confere à bactéria uma resposta imune adaptativa, algo que não se imaginava existir antes.

CRISPR

Figura 1. Sistema CRISPR/Cas. Fase de adaptação: a bactéria reconhece o DNA viral e incorpora ao próprio DNA. Fase de transcrição: a bactéria produz pequenos RNA baseados no DNA viral incorporado. Fase de interferência: os RNA se ligam a enzima Cas e esse complexo destrói o DNA viral. (Modificado de http://sitn.hms.harvard.edu/flash/2014/crispr-a-game-changing-genetic-engineering-technique/)

Este mecanismo foi modificado de forma que hoje é possível cortar qualquer sequência de DNA, de qualquer organismo, em uma localização específica, apenas modificando a sequência do RNA guia. E isso pode ser feito tanto no tubo de ensaio como nos núcleos de células vivas. Uma vez que esse sistema corta a fita de DNA, a célula tenta reparar esse DNA cortado. Entretanto o processo de reparo de DNA é propenso a erro, levando a mutações que podem fazer com que esse gene perca a função. Essas mutações são aleatórias, mas as vezes queremos algo mais preciso, por exemplo, repor um gene mutado por um sem a mutação. Isso pode ser feito adicionando um outro pedaço de DNA, um que contenha a sequência desejada. Então, uma vez que o complexo com Cas corta o DNA em uma região especifica, esse outro pedaço de DNA que contém a sequência desejada serve de molde para reparar o corte, e substitui a sequência original, alterando assim o DNA. Tudo isso pode ser feito em células em cultura no laboratório, em óvulos fertilizados, permitindo a criação de transgênicos com mutações dirigidas. E ao contrário de outros métodos, o sistema CRISPR/Cas permite que muitos genes possam ser alterados de um vez.

O avanço dessa tecnologia tem sido rápido, o que pode trazer grandes avanços nas pesquisas básicas, no desenvolvimento de drogas, na agricultura, e talvez, no tratamento de doenças genéticas, até mesmo daquelas complexas em que muitos genes estão envolvidos.

Fonte:

Sontheimer, E. J. & Barrangou, R. The Bacterial Origins of the CRISPR Genome-Editing Revolution. Hum. Gene Ther. 26, 413–424 (2015).

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Eventos acadêmicos e representatividade das cientistas

A universidade, por ser um local de produção de conhecimento, é considerada por muitos como um ambiente privilegiado, onde supostamente imperaria um pensamento crítico. No entanto, a universidade não é uma instituição descolada do contexto social no qual está inserida. Também os pesquisadores que a integram são pessoas que vivem em uma sociedade onde não há igualdade de gênero e, muitas vezes, acabam reproduzindo, no ambiente acadêmico, atitudes e pensamentos sexistas.

A reprodução de comportamentos sexistas ocorre frequentemente em eventos acadêmicos, como congressos, seminários, palestras, etc. Não é incomum depararmo-nos com mesas compostas exclusivamente por palestrantes homens, mesmo existindo mulheres especialistas nos temas que estão sendo debatidos. Veja-se, por exemplo, o tumblr Congrats, you have an all male panel!

Esse quadro recorrente possui efeitos perversos na trajetória profissional das mulheres cientistas.

Em primeiro lugar, a falta de representatividade das mulheres em eventos acadêmicos pode servir para desestimular que jovens alunas sigam a carreira acadêmica. Há muito tempo os movimentos feministas vêm debatendo a importância de meninas e jovens se identificarem com modelos de mulheres fortes e independentes em filmes, livros, programas de televisão, etc. O mesmo acontece no campo da ciência. Para que as jovens sejam incentivadas a seguir a carreira acadêmica, é muito importante que possam reconhecer-se como possíveis profissionais da área. Ora, se essas jovens vão a um evento científico onde só há homens falando, como poderão se sentir representadas pelo campo e, portanto, incentivadas a seguir na carreira?

Além disso, a presença de uma maioria masculina em determinados eventos acadêmicos expressa uma característica mais profunda de nossa sociedade: a divisão entre público e privado. A sociedade patriarcal está estruturada em uma separação entre o público e o privado que relega as mulheres, predominantemente, à esfera privada, limitando seu espaço de fala no ambiente público. Essa estrutura social acaba sendo reproduzida no ambiente universitário: as mulheres ocupam postos de pesquisa, mas, muitas vezes, são preteridas para debater publicamente. Ou seja, também no meio acadêmico e universitário é mais difícil para uma mulher do que para um homem aceder a um lugar público de fala, de debate.

Diante desse quadro, algumas pessoas têm se mobilizado para garantir a representatividade das mulheres cientistas em eventos acadêmicos. Quando organizamos um congresso, um seminário ou uma palestra, é muito importante termos em mente a importância de montar mesas compostas também por mulheres. E isso não somente em eventos que debatem gênero, história das mulheres, saúde das mulheres ou qualquer outro assunto diretamente relacionado às mulheres. É fundamental termos mulheres debatendo todos os temas, não apenas aqueles que discutem especificamente temas “de mulheres”.

Além das iniciativas individuais, também é necessário começar esse debate no ambiente universitário, inclusive nos espaços mais institucionalizados, como conselhos, reuniões departamentais, etc. Para que esse quadro de desigualdade de gênero se reverta, as iniciativas individuais não bastam. São necessárias políticas institucionais, como, por exemplo, exigência de mulheres em mesas para concessão de financiamento para eventos.

A igualdade de gênero não é algo inerente à supostamente “ilustrada” academia. É um ideal pelo qual as mulheres cientistas devem lutar cotidianamente. Nessa luta, a batalha pela representatividade e pela ocupação de lugares de fala é fundamental. Somente com mulheres ocupando espaços públicos de debate poderemos alcançar um ambiente verdadeiro igualitário nas universidades.

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Desigualdade social: desafio para a saúde

Nos últimos anos, o Brasil tem passado por uma conjuntura complexa, com importantes transformações políticas, econômicas e sociais no sentido de construção de uma sociedade democrática e alguns retrocessos na garantia dos direitos sociais. Contudo, a injustiça social e exclusão são aspectos históricos e estruturantes da sociedade brasileira, que conserva profundas desigualdades internas, com muitos desafios a enfrentar. E o que isso tem a ver com saúde?

A conjuntura socioeconômica afeta as condições de saúde das pessoas e populações, que se expressam através das iniquidades em saúde. As iniquidades em saúde dizem respeito àqueles problemas que são evitáveis, injustos, desnecessárias, e que atingem de forma desigual a população. É importante lembrar que, para explicar a situação de saúde de um país, não é sua riqueza total que importa, mas a maneira pela qual ela é distribuída.

Uma parte importante das doenças e do acesso ao cuidado, assim como as iniquidades em saúde, ocorre por conta das condições em que as pessoas nascem, vivem, trabalham e envelhecem.

É nesse sentido que o conceito de “Determinantes Sociais da Saúde” contribui para refletir sobre o processo de saúde-adoecimento para além dos estilos de vida e comportamentos individuais, destacando a perspectiva social como aspecto central para pensar a relação entre exposição a riscos e injustiça social.

As pesquisas recentes constataram que nem todos os determinantes sociais são igualmente importantes. Destacam-se aqueles que geram estratificação social: os estruturais que refletem a distribuição de riqueza, poder e prestígio nas sociedades. Isso significa que a estrutura de classes sociais, a distribuição de renda, o preconceito de gênero, a etnia ou deficiências e estruturas políticas são o que alimentam e reproduzem iniquidades relativas à saúde. Esse conceito foi representado graficamente no modelo abaixo – adotado pela Organização Mundial da Saúde (2011), no relatório produzido como resultado da Conferência Mundial de Determinantes Sociais da Saúde, sediada no Brasil -, que ilustra como se articulam os diversos determinantes que protegem ou afetam a saúde e que causam doenças e outros problemas.

 marco conceitual

Imagem: Marco conceitual dos Determinantes Sociais da Saúde. Fonte: A Saúde no Brasil em 2030

O quadro mostra que um conjunto complexo de fatores, que envolve desde um contexto socioeconômico e político mais amplo até aspectos individuais, como os comportamentais e biológicos, que produzem um impacto sobre a saúde e o bem-estar das pessoas e populações.

A maneira como as doenças e problemas de saúde atingem de forma desigual homens e mulheres no Brasil são emblemáticas, por mostrar como as desigualdades sociais se expressam na saúde. Dados do Ministério da Saúde (2013) mostram que as violências contra as mulheres no Brasil, por exemplo, são uma motivação importante de atendimentos ambulatoriais e internações no Sistema Único de Saúde, e colocam em sério risco a saúde e a vida das mulheres. Um dos grandes desafios no âmbito da Saúde Pública, estas violências são fortemente informadas por valores hegemônicos relacionados a gênero, machismo e relações sociais hierárquicas e desiguais de poder que estruturam a sociedade brasileira. Outras variáveis como raça, etnia e situação de pobreza acentuam ainda mais essas desigualdades. São problemas evitáveis, injustos e desnecessários, que devem ser enfrentados com um esforço conjunto no sentido de reduzir a desigualdade baseada em valores relativos a gênero. Assim, a vulnerabilidade das mulheres em relação a algumas doenças e sua mortalidade estão mais relacionadas com a situação de discriminação de gênero do que com questões biomédicas.

 Ação sobre os determinantes sociais – combater a causa das causas

Nos últimos anos, identifica-se uma vasta produção sobre desigualdades sociais na saúde e pesquisas sobre os Determinantes Sociais em Saúde resultaram em desdobramentos políticos (Comissão Nacional de Determinantes Sociais em Saúde) nacionais e internacionais (The Social Determinants of Health).  As produções acadêmicas indicam que as intervenções sobre os determinantes sociais em saúde devem incidir sobre o cerne das iniquidades em saúde.

Nesse sentido, considerando ainda o exemplo das violências contra as mulheres, pensar esse problema a partir do referencial dos Determinantes Sociais em Saúde significa reconhecer que para além da ampliação e melhoria dos serviços e qualificação dos profissionais para atender as mulheres, para a diminuição da desigualdade entre homens e mulheres na exposição a variados tipos e graus de risco, é imprescindível a formulação de políticas públicas que incorporem a perspectiva de gênero, em conjunto com o desenvolvimento de pesquisas acadêmicas críticas, assim como o envolvimento e diálogo com movimentos sociais, sobretudo o movimento feminista, e a sociedade.

Portanto, uma vez que essa perspectiva extrapola as competências das instituições de saúde e o âmbito acadêmico, fica clara a importância da participação ativa de diversos setores da sociedade para o desenvolvimento de estratégias e metodologias para a erradicação das desigualdades em saúde.

Mais informações podem ser encontradas nos sites:

– O Portal da Biblioteca Virtual em Saúde Determinantes Sociais em Saúde, para pesquisa de produção científica e documentos técnicos.

– O canal de vídeos do Centro de Estudos, Políticas e Informação sobre Determinantes Sociais da Saúde (CEPI-DSS) da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)

Fontes:

FILHO, A.P.; BUSS, P.M. ESPERIDIÃO, Monique, A. Promoção da Saúde e seus fundamentos: Determinantes sociais da saúde, ação intersetorial e políticas públicas saudáveis. In: ALMEIDA-FILHO, Naomar e PAIM, Jairnilson Silva. Saúde Coletiva Teoria e Prática, 2014.

Carvalho, A. I. Determinantes Sociais, Econômicos e Ambientais da Saúde. In: José Carvalho de Noronha e Telma Ruth Pereira. (Org.). A Saúde no Brasil em 2030. 1ed.Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2013, v. 2, p. 17-38.

BANDEIRA, Lourdes; ALMEIDA, Tânia Mara Campos de. Desafios das políticas e ações em saúde diante da violência contra as mulheres. SER Social, Brasília, v. 10, n. 22, p. 183-212, jan./jun. 2008.

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Novos Horizontes Para As Mulheres Brasileiras

Após nove anos e meio de viagem a sonda New Horizons chegou ao seu primeiro destino, o sistema Plutão-Caronte, causando grande alvoroço entre astrônomos e a mídia. Quando lançada em 2006, alguns dos satélites de Plutão acabavam de ser descobertos e outros ainda estavam por ser descobertos, e Plutão, acabou por ser “rebaixado” a planeta-anão.

Quando descoberto, em 1930, Plutão foi recebido com muito entusiasmo, e nomeou personagens de desenhos, o Pluto, e até elementos químicos, o plutônio. Plutão é classificado hoje como planeta-anão, ou seja, orbita em torno do Sol, está em equilíbrio hidrostático ( que ocorre quando a compressão devido à gravidade é equilibrada por um gradiente de pressão, que cria um gradiente de pressão na direção oposta, é responsável por manter estrelas de implodir e para dar planetas sua forma esférica), porém não foi capaz de “limpar” sua órbita, a qual contém diversos planetesimais.

Em 1978, foi descoberto seu primeiro “satélite”: Caronte. Mais tarde foi descoberto que se tratava de um sistema binário, pois Caronte tem mais de um décimo da massa de Plutão, e portanto não é apenas seu satélite. Em 2006, foram descobertos dois satélites no sistema Plutão-Caronte (Nix e Hydra) e em 2012, outros dois foram encontrados (Estige e Cérberos). Foi visto que todos eles orbitam o centro de massa do sistema Plutão-Caronte e não apenas Plutão, como comumente é pensado.

A New Horizons contou com a participação de dezenas de cientistas e, dentre eles, muitas mulheres. A Nasa reconheceu a importante participação das mulheres e chegou até a fazer uma publicação com uma foto do grupo de mulheres envolvidas no projeto.

http://www.nasa.gov/feature/the-women-who-power-nasa-s-new-horizons-mission-to-pluto

Além das mulheres da foto, a New Horizons teve contribuições importantes de mulheres brasileiras. A pesquisadora e professora Silvia Giuliatti Winter, do Grupo de Dinâmica Orbital e Planetologia, Universidade Estadual Paulista (Campus de Guaratinguetá) e outras pesquisadoras brasileiras contribuíram diretamente para o excelente resultado da missão. Na época, alunas orientadas pela professora Silvia, Ana Helena e Maria Rita (ambas estudantes da Unesp na época) começaram um estudo para mapear regiões de estabilidade nas proximidades do sistema Plutão-Caronte. As regiões de estabilidade do sistema podem conter detritos ou mesmo novos satélites, o que poderia atrapalhar ou até mesmo acabar com a missão da New Horizons, mas que por outro lado poderiam ser bons lugares para se apontar os equipamentos da sonda a fim descobrir novas características do sistema.

No contexto deste trabalho, a pesquisadora e professora da UERJ Pryscilla Pires, na época aluna de doutorado orientada pela professora Silvia, obteve resultados interessantes. Seus resultados renderam a atenção de uma das chefes da missão, Leslie Young, que as levou à equipe da New Horizons para que apresentassem seu trabalho. Lá, as pesquisadoras mostraram as melhores trajetórias para a sonda, evitando a colisão com outros objetos e o melhor posicionamento da câmera para a captura de imagens.

No dia 14 de Julho de 2015, a sonda fez sua aproximação ao sistema Plutão-Caronte e começou a medir os corpos através de espectrômetros que funcionam como incríveis câmeras. Durante toda a manobra, a sonda fez apenas um breve contato com a Terra, já que para se comunicar com a Terra a sonda deve parar as medidas que está fazendo. Só quando se afastar bastante e não houver mais o que registrar a sonda começará a passar todos os dados, o que deve levar cerca de 6 meses. De onde a sonda está neste momento, cada dado leva mais de 4 horas pra chegar aqui na Terra.

A próxima missão da sonda é obter informações de um objeto no Cinturão de Kuiper, localizado entre 30UA e 50UA do Sol (1 UA = Distância entre o Sol e a Terra). Este cinturão contém resquícios da formação do Sistema Solar, e a sonda deve chegar lá apenas em 2019.

A New Horizons estará ativa até 2030, quando seu combustível nuclear, o elemento químico plutônio, deixará de fornecer energia, mas os dados que está obtendo e ainda vai obter levarão muito mais tempo para serem processados.

Mais informações e imagens podem ser encontradas nos sites:

http://www.nasa.gov/mission_pages/newhorizons/main/index.html

http://simetriadegauge.blogspot.com.br/2015/07/plutao-combustivel-para-novos-horizontes.html

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Coisas que o tempo nos revela: a cronobiologia, as plantas e as descobertas que nos fascinam

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Você já parou para pensar que seu tempo é dividido em blocos de 24 horas? Esse tempo é aquele que a Terra precisa para completar um giro em torno de si mesma, e esse mesmo tempo de 24 horas regra a vida de quase todos os oganismos viventes no planeta.
Ao longo da evolução, surgiram independentemente em várias linhagens mecanismos moleculares que ajudam o corpo a se regular aos ciclos de 24 horas da Terra. A esse mecanismo damos o nome de relógio biológico, e o ritmo de 24 horas é chamado ritmo circadiano.
É interessante notar que várias linhagens tenham desenvolvido de formas diferentes uma maneira de controlar todo o metabolismo animal e vegetal! Nos seres humanos, há um órgão responsável por sincronizar as células do nosso corpo: os núcleos supraquiasmáticos. Em plantas, descobriu-se recentemente que a vasculatura funciona como um tecido sincronizador de diversas partes do vegetal: parte aérea e raízes, mas também diferentes células da parte aérea. Faz sentido pensar que possuir um mecanismo que lhe permita estar sincronizado com o ambiente em que vivemos pode conferir uma vantagem evolutiva, né? Imagina se nós tivéssemos ritmos de 36 horas, com a Terra tendo um ritmo de 24 horas… seria uma bagunça!
Nas plantas, o relógio biológico é composto de três “partes”: um oscilador central, vias de entrada (que recebem estímulos do ambiente) e vias de saída (que regulam o metabolismo em diversos níveis). O funcionamento do relógio é um assunto muito complexo, que tem intrigado cientistas da área de fisiologia molecular vegetal. Às vezes temos a impressão que tudo influencia o relógio e que o relógio pode influenciar tudo, uma vez que a regulação do metabolismo e as vidas de entrada e saída do relógio se interconectam em vários pontos.
Como manter então a fisiologia de um organismo relativamente estável, estando num ambiente instável, sujeito a variações das condições biótica e abióticas? Uma revisão recente sobre o assunto mostrou a que ponto estamos de compreender o funcionamento do relógio e como ele ajuda a regular o metabolismo vegetal. Desde a assimilação de carbono (quando as plantas absorvem CO2 do ar e transformam em compostos de carbono como o açúcar, por meio da fotossíntese), até à regulação da absorção de micro e macronutrientes no solo: tudo isso está de alguma forma controlad pelo relógio! A figura a seguir, retirada de um artigo publicado este ano na revista Frontiers in Plant Science, mostra como é complexa essa regulação.

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(Retirada de http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/fpls.2015.00299/full)

As siglas nos retângulos são nomes de genes do oscilador central do relógio, enquanto as flechas mostram como esses genes se regulam entre si. Se você olhar bem, os retângulos forma um círculo, mostrando quais genes são “usados” (ou expressos) ao longo do dia, no sentido horário. A parte amarela superior da figura mostra processos fisiológicos que a planta realiza durante o dia, enquanto a parte inferior mostra aqueles que acontecem de noite.
O relógio biológico das plantas está também relacionado a outros processos, como tempo de floração, percepção de estações do ano, senescência (envelhecimento e morte). Se você quiser se informar mais, que tal assistir a este vídeo curtinho que conta mais um pouco sobre como as plantas percebem o tempo?

http://ed.ted.com/lessons/how-plants-tell-time-dasha-savage

Fontes:
Haydon M, Román A & Arshas W (2015). Nurrient homeostasis withon the plant circadian network. Frontiers in Plant Science, doi10.3389/fpls.2015.00299.