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As mulheres e o direito ao voto

Cartaz do filme “As sufragistas”

Por muito tempo, achei que a luta feminista tinha acabado “lá atrás” com as sufragistas. Se minha imaginação voasse muito, podia até pensar em umas lutas mais recentes, “contra o sutiã” e “pela minissaia” que eu nunca entendi muito bem direito. Daí, no caso brasileiro, surge a Constituição de 1988 e atende a todas as demandas sociais – novamente, era o modo como tudo se passava na minha cabeça, pelo menos, até o final da faculdade.

Foi um acaso que me levou ao tema das lutas feministas no Brasil no meu TCC, no último semestre. Precisava de um recorte social no estudo das medidas trabalhistas de Vargas, a que eu inicialmente me dedicara, e adotei o de gênero. Depois de formada, aderi a um grupo de pesquisas sobre o tema. A tomada de consciência cabal de que eu estava errada em situar todo o “fervor” da luta feminista no pleito ao direito a voto, todavia, não veio de uma só vez. Essa ideia é poderosa como aquela de que bruxas foram queimadas na idade média (todas sabem, porém, que as fogueiras eram acesas pela Inquisição na idade Moderna durante a Contra-Reforma, e nem por isso fazem um exercício contra-factual). Toda ideia falsa repetida mil vezes demora muito a ser desconstruída.

Ainda assim, tenho esperança no poder da internet – a cujo advento, a minha geração assistiu – de disseminar informação para que as pessoas entendam cada vez mais a urgência das pautas feministas atuais. Que elas envolvem medidas ligadas a homens e mulheres na busca pela equidade, o que envolve olhar ambos os pais, por exemplo, como igualmente responsáveis na criação de seus filhos, e que o olhar paternalista e por vezes machista da Justiça é o que leva a tanta alienação parental por todo o lado.

Que homens e mulheres, portanto, na hora de exercer sua cidadania no Brasil esse ano, possam ao menos ouvir as propostas de quem afirma apoiar ou militar na causa feminista, sobretudo a partir de plataformas interativas como a supra-partidária do “Me Representa”. Para que o voto seja não só cada vez mais “consciente”, como algo de foro íntimo, como também “transformador” de consciências, cumprindo, assim, o seu papel democrático em nossa sociedade.

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Tópicos quentes de pesquisa na área de Internet – Parte I: Uma visão sobre CDNs

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A Internet é vista por muitos como algo posto e imutável. Mas o que poucos sabem é que ela suscita debates acadêmicos acalorados sobre como deve ser o desenvolvimento de sua arquitetura daqui para frente. A arquitetura da Internet e seus protocolos não foram desenvolvidos pensando no uso atual da rede e todas as aplicações que foram criadas desde o surgimento .

Apesar da arquitetura flexível que permitiu com que ela se desenvolvesse até o momento atual, há várias limitações que advém dessa mesma arquitetura e do conjunto de protocolos utilizados.

Um exemplo é a numeração IP, que identifica cada um dos dispositivos que se conecta à Internet. Atualmente é usada a versão 4 do protocolo IP que que permite a conexão de quase 4,3 bilhões de endereços e, por incrível que pareça essa quantidade praticamente já se esgotou.

Só não se esgotaram ainda mais rápido devido a algumas mudanças emergenciais que foram implementadas na arquitetura da Internet, como o NAT e o uso de IPs dinâmicos. O NAT permite que um único endereço IP possa ser utilizado por toda uma rede de computadores, sendo que essa passa a ter endereços privados que não podem ser acessados de fora dela. Já o uso de IPs dinâmicos permite que as operadoras do serviço de conexão à Internet possam usar os mesmos IPs para vários clientes: em um dado momento, um IP pode estar atribuído a um cliente, assim que ele desconecta, esse IP fica livre para ser usado em outro cliente.

A ideia inicial da Internet era a de que cada dispositivo tivesse o seu próprio IP e de que ele não fosse compartilhado com outros dispositivos. Então, o NAT e o uso de IPs dinâmicos contrariam a arquitetura inicial prevista para a Internet. Além disso, esses artifícios adicionam uma complexidade no gerenciamento da rede não prevista inicialmente.

Apesar desses mecanismos, chegou-se a um nível em que o gerenciamento está bastante complexo e que algumas aplicações não funcionam tão bem com todas essas camadas. Por isso, foi proposta uma nova versão do protocolo IP conhecida como IPv6, em que há um aumento significativo no número de endereços disponíveis e que não necessitará do uso desses artifícios.

Casos como esse suscitam debates sobre como a arquitetura da Internet deve evoluir daqui para frente. Há basicamente duas linhas de pensamento entre os pesquisadores da área: os defensores da linha evolutiva e os da linha clean-slate. Os primeiros acreditam que a arquitetura atual da Internet deve evoluir conforme as necessidades e que as mudanças devem ser bem pensadas para que se mantenha a compatibilidade dos equipamentos já funcionando na rede. Os adeptos ao clean-slate são mais radicais e acreditam que para resolver as questões que existem hoje na Internet seria necessário pensar em uma nova arquitetura para ela, basicamente reconstruindo uma nova rede mundial com base nos aprendizados do que deu certo e errado com a atual. Para conhecer mais sobre essas duas linhas, veja [1].

Dentro dessas duas linhas de pensamento há diversos tópicos quentes de pesquisa na área. Esse texto pretende fazer um breve resumo, de forma didática, de um dos tópicos quentes de pesquisa na área de Internet. Textos no futuro se debruçarão em outros tópicos.

CDNs

Uma CDN (Content Delivery Network) é um sistema distribuído de larga escala constituído por muitos servidores implantados em diversos data centers espalhados na Internet. O objetivo dela é tornar acessível conteúdo aos usuários com alta disponibilidade e um bom nível de qualidade de serviço. Existem diversas empresas globais dedicadas a fornecer esse tipo de solução aos provedores de conteúdo, sendo a maior delas a Akamai.

Para deixar mais claro como uma CDN funciona, analisaremos um exemplo na prática. Existe um grande provedor de conteúdo em vídeo que tem usuários em diferentes países. Ele tem um data center com vários servidores em sua sede. Todos os usuários que desejam assistir vídeos desse provedor terão que acessar a esses servidores. Porém, alguns desses usuários passam a experimentar uma demora e lentidão nesse acesso. Um dos fatores a se considerar é a própria distância física entre esses usuários e esses servidores na Internet. Se os servidores de alguma forma pudessem estar mais próximos aos usuários, eles acessariam esse conteúdo de forma mais rápida e teriam uma experiência mais satisfatória. Então, esse provedor de conteúdo faz um acordo com algumas operadoras de Internet para que possa colocar na rede delas servidores com cópias do conteúdo mais acessado naquela região e assim os usuários terem acesso mais rápido. Isso é basicamente o que é uma CDN.

Sintetizando, as vantagens no uso das CDNs são:

  • A carga do servidor “central” é reduzida, uma vez que as solicitações de conteúdo são distribuídas para vários servidores;
  • Como os usuários são atendidos pelos servidores mais próximos, o atraso é reduzido; e
  • As CDNs oferecem aos provedores de conteúdo um grau de proteção a ataques externos (por exemplo, DDoS) usando sua infraestrutura de servidores em larga escala para absorver o tráfego de ataque.

Além disso, as empresas que fornecem soluções de CDN acabam por ter uma rede de servidores em todo o mundo, gerando um grande volume de tráfego, o que lhes permite realizar análises sofisticadas do seu serviço de conteúdo que, por sua vez, pode ser usado para proporcionar uma maior segurança e confiabilidade.

Existem empresas que tem seus próprios serviços de CDN. A NetFlix é um exemplo disso. Os provedores de conexão à Internet podem entrar em contato com a empresa para pedirem um servidor com conteúdos da NetFlix. Todos os custos são cobertos pelo NetFlix, que faz monitoramento em tempo integral do funcionamento das CDNs. O provedor de conexão necessita apenas prover tráfego para atualização dos conteúdos no servidor. Essa atualização é feita diariamente durante o horário de menor uso (das 2h às 14h).

Apesar das CDNs já serem algo comercial e estarem implementadas, ainda há muito o que se pesquisar em relação a isso, como, por exemplo, melhor desempenho durante a cópia de conteúdos entre a CDN e o data center “central”, gerenciamento distribuído de CDNs e protocolo de comunicação entre CDNs federadas. As CDNs federadas são operadas por empresas regionais de telecomunicação. As empresas de diversas regiões fazem parcerias, tendo em vista que têm uma atuação limitada regionalmente, para que possam aumentar a sua abrangência e competirem com as CDNs conhecidas como tradicionais. Na referência [2] encontra-se disponível um estudo sobre a divisão de mercado entre os dois tipos de CDNs.

No próximo post irei continuar a falar sobre os tópicos quentes de pesquisa na área de Internet, acompanhem!

Bibliografia:

[1] Jennifer Rexford and Constantine Dovrolis. 2010. Future Internet architecture: clean-slate versus evolutionary research. Commun. ACM 53, 9 (September 2010), 36-40. DOI=http://dx.doi.org/10.1145/1810891.1810906

[2] Hyojung Lee, Dongmyung Lee, and Yung Yi. 2014. On the economic impact of Telco CDNs and their alliance on the CDN market. IEEE ICC 2014 – Next-Generation Networking Symposium. DOI=http://dx.doi.org/10.1109/ICC.2014.6883773

*imagem retirada do Pixabay (CC0 Public Domain, Free for commercial use, No attribution required).

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As mulheres abortam sozinhas, mas não engravidaram com o dedo

A maioria das mulheres em situação de abortamento inseguro são jovens negras com menor renda e escolaridade e estão sozinhas. De acordo com o de Fusco, Andreoni e Silva (2008) estudo entre aquelas mulheres com aborto provocado, 51% estavam sozinhas (solteiras ou separadas) e 86,4% referiram não contar com apoio do respectivo parceiro na resolução de suas gestações.

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Figura: ARTivismo

A participação do parceiro é importante no processo de decisão das mulheres pela interrupção da gravidez, no entanto as mulheres, principalmente em relações com vínculos não estabelecidos, preferem não revelar a gravidez e o possível aborto, por acreditarem que não receberão apoio emocional e/ou financeiro deles. Muitos parceiros, por outro lado, ao saber da gravidez, sugerem o aborto ou simplesmente somem e deixam as mulheres seguirem sozinhas na decisão (KALCKMANN E PINTO, 2010).

Assim, a situação socioeconômica ou o fato de estarem sozinhas são motivações relevantes para as mulheres recorrerem ao aborto. Segundo a Pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado, esses fatores foram citados por 61% das entrevistadas. A pesquisa ainda mostrou como a decisão pelo aborto recai sobre a mulher, pois 65% delas decidiram sozinhas e apenas em 8% dos casos envolveu ambos (mulheres e seus parceiros) (FARIA, 2013).

Os homens tem baixa participação na trajetória reprodutiva do casal, ficando quase sempre sobre a responsabilidade da mulher o planejamento reprodutivo, como por exemplo na escolha do método contraceptivo, sobretudo o método que não envolva a sua participação (que é o caso da camisinha masculina), pois as questões relacionadas ao planejamento reprodutivo do casal são apoiadas pelo imaginário social que é uma atribuição unicamente das mulheres.

“A compreensão dos processos históricos que em nossa sociedade transformaram a reprodução num atributo quase que exclusivamente feminino, tendo construído as representações sobre o masculino como algo que se opõe, quanto à compreensão dos fatores que nas últimas décadas tem atuado no sentido de modificar o perfil masculino tradicional” (MINELLA, 2005).

As assimetrias de gênero são evidentes ao se analisar as escolhas reprodutivas, pois muitas vezes as mulheres não se sentem donas do seu próprio corpo, assim como as decisões sobre a gravidez podem ser contrárias aos seus próprios desejos. As condições socioeconômicas, juntamente com as desigualdades de gênero, contribuem para a tomada de decisão sobre interrupção da gravidez, pois a falta de recursos financeiros interfere diretamente na própria decisão (KALCKMANN; PINTO, 2010).

O tipo de relação afetivo-sexual influencia a participação do parceiro na decisão do aborto. Quando a gravidez é fruto de uma relação sexual ocasional, um sexo casual, ou com um “ficante”, as mulheres decidem sozinhas pelo aborto, já a decisão consensual pode ser observada em relacionamentos estáveis (HEILBORN et al; 2012).

As relações raciais e o racismo também modelam a decisão pelo aborto. Um estudo realizado em dois bairros de periferia das zonas sul e leste da cidade de São Paulo, que entrevistou homens negros e brancos e mulheres negras e brancas, constatou que os homens brancos:

“Citam dificuldades sociais que relacionamentos com mulheres negras trariam às suas vidas, principalmente quanto à vida familiar, levando-os, muitas vezes, a não assumir a parceira negra, nem mesmo reconhecer um filho com elas” (KALCKMANN; PINTO, 2010).

Neste sentido, entendemos que as são mulheres negras, de baixa escolaridade e jovens que mais passam pelo processo do abortamento sozinhas, sem o auxílio ou apoio de uma amiga, familiar ou profissional da saúde, estando mais expostas ao risco de morbimortalidade materna e à violência obstétrica nos serviços de saúde.

As mulheres negras e em situação de pobreza são as que mais realizam aborto em locais com pouca ou nenhuma higiene, insalubres e sem supervisão médica e ainda utilizam métodos agressivos como sondas para provocar o aborto. O abortamento clandestino é na maioria das vezes inseguro e eleva as taxas de complicações pós-aborto expressas em internações hospitalares e a mortalidade materna por conta do aborto mal sucedido.

“Boa sorte” e uma sentença de morte

Foi o apoio recebido por Caroline de Souza Carneiro, de 28 anos antes de seguir para realização de um aborto inseguro e que teve como conseqüência a morte precoce de Caroline, ela teve sua vida ceifada pela criminalização do aborto, pela sua legalização restrita que desconsidera as mulheres sujeitas de direitos e agenciadoras de suas vidas. A vida de Carolina foi interrompida por conta da ausência do seu companheiro que a sua contribuição foi desejar “boa sorte”.

As mulheres são violadas no livre exercício dos direitos reprodutivos no campo das políticas de saúde e no campo relacional. A participação do parceiro na gravidez e no desfecho do aborto, tanto na decisão quanto na participação na procura do serviço, reduz as violações dos direitos reprodutivos das mulheres e de sua autonomia.

Referências:

BRASIL. Pesquisa nacional de saúde 2013: Ciclos de vida. Rio de Janeiro: Ministério da Saúde, 2015.
FUSCO, C. L. B.; ANDREONI, S.; SILVA, R. DE S. E. Epidemiologia do aborto inseguro em uma população em situação de pobreza Favela Inajar de Souza, São Paulo. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 11, n. 1, p. 78–88, mar. 2008.
KALCKMANN, S.; PINTO, E. A. Aborto: livre escolha? BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso), v. 12, n. 2, p. 185–191, 2010.
HERINGER, R. Desigualdades raciais no Brasil: síntese de indicadores e desafios no campo das políticas públicas. Cadernos de Saúde Pública, v. 18, p. S57–S65, 2002.
FARIA, N. Entre a autonomia e a criminalização: a realidade do aborto no Brasil. In: Mulheres Brasileiras e Gênero Nos Espaços Público e Privado – Uma Década de Mudanças na Op. Pública. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2013.
MINELLA, L. S. Gênero e contracepção: uma perspectiva sociológica. [s.l: s.n.].

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Estudo aponta a discriminação no mercado de trabalho alemão contra mulheres muçulmanas

Em 2011, diversos países do Oriente Médio e norte da África foram tomados por protestos no que ficou conhecido como “Primavera Árabe”. Na Síria, a situação transformou-se em guerra civil, que já dura cinco anos. A ONG Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) divulgou este mês que a guerra já deixou mais de 300 mil mortos. Uma outra consequência da guerra é que milhões de sírios deixaram suas casas fugindo do conflito sangrento. Turquia, Líbano, Jordânia e Alemanha são, nessa ordem, os países que mais receberam sírios até agora. Na Alemanha, estima-se que já sejam mais de 600 mil refugiados.

No novo país, além da dor da família e amigos deixados para trás, é preciso se acostumar com muitas diferenças: culturais, linguísticas, climáticas… Além disso tudo, as mulheres muçulmanas que desejam se inserir no mercado de trabalho alemão tem que enfrentar uma barreira de preconceito. É o que diz um estudo publicado este mês, intitulado “Discrimination against Female Migrants Wearing Headscarves” (Discriminação contra mulheres migrantes que usam véu, em tradução livre). O estudo foi conduzido pela professora Doris Weichselbaumer, da Johannes Kepler Universität Linz, em parceria com o IZA – Institute for the Study of Labor.

O estudo aponta que, sob uma perspectiva política, a inserção no mercado de trabalho é crucial para os migrantes. Além dos sírios, a Alemanha recebe migrantes muçulmanos oriundos da Turquia, que desde a década de 1970 são um grupo demográfico grande no país. O estudo, então, foca em nomes de origem turca e foi desenvolvido da seguinte maneira: três currículos fictícios de mulheres foram enviados para vagas de trabalho. As mulheres tinham qualificações similares, e a foto usada foi a mesma, apenas em uma delas um véu foi acrescentado. No primeiro currículo, um nome tipicamente alemão, “Sandra Bauer”; no segundo, a mesma foto mas um nome de origem turca, “Meryem Öztürk” e no terceiro, a mesma mulher e o mesmo nome, mas com véu. O estudo destaca que, na foto, o pescoço não aparece coberto com o véu, indicando que ela não seria particularmente rigorosa com a religião, muito menos uma religiosa radical.

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Legenda da imagem: fotos utilizadas no estudo e o percentual de resposta positiva dada a cada uma delas

Segundo o estudo, para receber a mesma quantidade de retornos para entrevistas, a candidata com nome turco e véu tem que enviar na média 4,5 vezes mais currículos do que a candidata com o nome alemão e sem véu, o que sugere discriminação contra mulheres migrantes – principalmente se elas usarem véus.

Esses números, no entanto, variam de acordo com a função pretendida. Para o cargo de secretária,“Meryem Öztürk” teve que enviar “apenas” 3,5 vezes mais currículos. Já para a função de chefe contábil foram 7,6 vezes mais: “Supõe-se frequentemente que a discriminação diminui com o aumento da escolaridade. No entanto, vestir um véu pode ser considerado ainda mais inapropriado para posições com maior status profissional” (Weichselbaumer, 2016, p. 13, tradução própria).

Como o estudo indica, houve um aumento na islamofobia depois dos ataques terroristas às torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001. Na Alemanha, ataques xenofóbicos contra muçulmanos vem se intensificando. A migração em massa de sírios para o país escancara essas tensões. Como Weichselbaumer apontou, o fim da discriminação no mercado de trabalho é um passo fundamental para a integração de muçulmanas e muçulmanos na Alemanha.

Fonte: Weichselbaumer, Doris. Discrimination against Female Migrants Wearing Headscarves. Disponível em: http://ftp.iza.org/dp10217.pdf

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Energia a partir do esgoto

E se eu te dissesse que podemos produzir energia através da água do esgoto doméstico? Isso mesmo, a partir de xixi e cocô! Essa é uma das mais novas descobertas científicas relacionadas a produção de energia.

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Combustíveis fósseis, até quando?

Sabemos que os combustíveis fósseis (petróleo, carvão mineral e gás natural) ainda são as principais matérias primas na produção mundial de energia. Porém, os combustíveis fósseis são extraídos das profundezas da terra e são finitos, portanto, mais cedo ou mais tarde não teremos essas fontes de energia. Mais do que isso, a queima dos combustíveis fósseis é irreversivelmente prejudicial para o meio ambiente, pois libera para a atmosfera uma quantidade gigantesca de gases do efeito estufa que estavam aprisionados, contribuindo para o aquecimento global[1].

Como o próprio nome já diz, o aquecimento global é o aumento da temperatura da atmosfera e dos oceanos. Este fenômeno é decorrente da absorção de parte da radiação solar, portanto, se houver uma quantidade aumentada de gases do efeito estufa, a radiação não se dissipará de volta para o espaço e ficará presa na atmosfera.

Intensificação do efeito estufa e mudanças climáticas

O efeito estufa em si é importante para manter a atmosfera habitável, porém o aumento demasiado das temperaturas acarreta uma série de problemas como: o derretimento das áreas com gelo e consequente aumento do nível da água dos oceanos (cidades costeiras poderão sumir do mapa); longos períodos de seca; aumento das queimadas em florestas; aumento das ondas de calor; aumento da duração, da intensidade e do número de tempestades tropicais e furacões[2].

Fontes de energia renovável? Yes, please!

Por conta dessa lista de problemas, é muito importante que fontes sustentáveis de energia sejam utilizadas, ou seja, fontes que gerem uma menor quantidade de gases do efeito estufa, que não poluam as águas e a atmosfera, além de serem mais baratas e seguras. Atualmente, as fontes renováveis de energia são: solar, eólica (vento), geotérmica (a partir do calor subterrâneo), hidroeletricidade, células de combustível (hidrogênio e oxigênio); bioenergia (biogás e biocombustíveis a partir de biomassa)[3] e célula combustível microbiana[4].

Microrganismos: os heróis que tratam esgoto e produzem energia sustentável!

Como o nosso foco neste texto é produção de energia a partir de esgoto doméstico, vou explicar as duas formas mais conhecidas até o momento:

  1. Biogás

A primeira é o biodigestor ou digestão anaeróbia (ausência de oxigênio) e está presente nas plantas de tratamento de água e esgoto, principalmente em países desenvolvidos. É largamente utilizada no processo final de tratamento de esgoto municipal, também para o tratamento de esterco animal (Figura 1) e outros resíduos orgânicos (ex. restos de alimento, bagaço de cana, lixo urbano etc). Este bioreator possui microrganismos capazes de fermentar os materiais orgânicos e produzir metano (biogás)[6]. O metano é então canalizado e utilizado para a produção de energia através de sua queima.

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Figura 1. Exemplo de biodigestor utilizado no tratamento de esterco de animais e restos de alimento e para a produção de biogás (metano) e fertilizante (co-produto). Fonte: imagem de domínio público retirada da Wikipedia[5].

  1.      Células Combustíveis Microbianas

O segundo método de produção de energia usando água do esgoto é conhecido como célula combustível microbiana. Esta tecnologia ainda não é uma realidade em grande escala, mas é realizada em pequenos biorreatores em laboratório[4].

Neste biorreator, as bactérias são utilizadas para consumir os resíduos orgânicos, tornando a água limpa através de um sistema que produz eletricidade, assim como nas pilhas comuns. Para isso, um eletrodo (ânodo) é colocado no fundo do biorreator com água de esgoto e é conectado por um fio condutor a um outro eletrodo (cátodo), em contato com o ar atmosférico (oxigênio). O ânodo e o cátodo são separados por uma membrana, para evitar que o oxigênio entre em contato com o ânodo e o processo desacelere. Além disto, no fio condutor que liga os dois eletrodos há uma pequena lâmpada que se acende com a passagem dos elétrons (produção de eletricidade), assim como apresentado na Figura 2.

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Figura 2. Exemplo de biorreator de célula combustível microbiana. As células dos microrganismos formam um biofilme (agregado de células) no ânodo (anode) onde ocorrerá a conversão dos compostos orgânicos em gás carbônico (CO2), prótons (H+) e elétrons (e). Os elétrons caminharão em direção ao cátodo (cathode) passando pela lâmpada e iluminando-a (produção de eletricidade). No cátodo, ocorre formação de água pura (H2O) através da reação química entre oxigênio (O2), próton (H+) e 1 elétron (e). Fonte: Wikipedia[7]

Nos dois processos acima apresentados é interessante observar a produção de energia a partir de materias que consideramos lixo, sem utilidade ou valor. Quando conseguimos reciclar todo esse material orgânico, estamos reduzindo a quantidade de resíduos enviados para aterros sanitários (lixões) e melhorando o processo de tratamento de esgoto. Em ambos os casos, estamos solucionando grandes problemas decorrentes do aumento populacional mundial.

Por fim, aguardemos o avanço da ciência e tecnologia das células combustíveis microbianas para combinarmos de forma mais sustentável o tratamento de esgoto e a produção de eletricidade dentro de um único biorreator.

Texto por: Silva, A.R.

Referências:

[1] http://www.eesi.org/topics/fossil-fuels/description

[2] http://climate.nasa.gov/

[3] http://www.eesi.org/topics/renewable-energy/description

[4] http://www.wur.nl/en/show/Generating-electricity-from-waste-water.htm

[5] https://pt.wikipedia.org/wiki/Biomassa#/media/File:Biodigestor.JPG

[6] V. Nallathambi Gunaseelan, Anaerobic digestion of biomass for methane production: A review, Biomass and Bioenergy, Volume 13, Issue 1, 1997, Pages 83-114, ISSN 0961-9534. (Acesso em: 19/09/2016, disponível em: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0961953497000202)

[7] MFCGuy2010 – Own work, CC BY-SA 3.0, (Acesso em 19/09/2016, disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=11750679)

*imagem retirada do Pixabay (CC0 Public Domain, Free for commercial use, No attribution required).

 

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Existe carreira após a maternidade?

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A gente completa 30 anos, conhece uma pessoa bacana, começa uma vida compartilhada e as perguntas de quando virá o(a) herdeiro(a) começam. Como pensar em colocar uma criança no mundo quando sua carreira não te dá estabilidade mesmo você já tendo 30 e poucos anos?

Ser cientista não é fácil, começando pelo fato de que são anos de estudo, pesquisa e trabalho para conseguir um título real de Doutor(a). Em geral, são 4 a 5 anos para obter um título de bacharel, 2 anos para o de Mestre e mais 4 anos para o de Doutor(a). Sem contar a alta concorrência dos concursos públicos para vagas de Professor(a) Universitário(a) que, ultimamente, acaba por exigir mais alguns anos de trabalho em pesquisa de Pós-Doutorado e muitos artigos publicados para sermos bem sucedidas. Somando tudo, gastamos pelo menos 13 anos para conseguir (com sorte) um emprego estável onde tenhamos pela primeira vez direito a férias, 13° salário e carteira de trabalho assinada.

Ser cientista em si já é difícil, mas e se a cientista for uma mulher? Aí temos uma dificuldade extra. O ambiente acadêmico é majoritariamente masculino, seja no Brasil ou em outros países do mundo[1]. E aí, nós mulheres que já estamos em torno dos 35 anos (e muitas vezes sem emprego estável), pensamos: engravidar ou não? Eis a questão! O mercado já é extremamente competitivo se você tem noites bem dormidas, se pode fazer horas extras de trabalho e se pode viajar sem preocupações. Agora, imaginou se adicionarmos maternidade nessa equação?

Não, não é fácil. Esta é a resposta que as cientistas (e profissionais de outras áreas) dão quando o assunto é carreira e maternidade[2,3,4]. Não que seja impossível combinar as duas coisas mas demanda jornada dupla (ou tripla) de trabalho, muito esforço e dedicação extra. Somos nós mulheres que carregamos o bebê por 9 meses, passamos pelo parto, puerpério e amamentamos. Se a mulher tem um parceiro que realmente divide as tarefas de cuidar da prole e da casa, a situação é um pouco melhor, mas sabemos que uma minoria dos homens ajuda nos afazeres domésticos (inclusive os desempregados)[5].

Pra não dizer que não falei de flores[6], recentemente, tivemos um avanço em relação à licença maternidade (de até 4 meses) para as pós-graduandas com bolsa CAPES/CNPq[7] e FAPESP[8]. Ainda assim, precisamos melhorar as condições de trabalho das mulheres para tornar o mercado de trabalho mais justo.

Mas e aí?! O que fazer? Escolher entre carreira ou maternidade? Há quem vá se dedicar exclusivamente à maternidade (por opção ou não), outras conseguirão combinar maternidade e carreira e, finalmente, as que preferirão dedicar-se à carreira e não ter filhos[2,3,4]. É importante frisar que cada uma dessas escolhas deve ser respeitada, incluindo o direito de trabalho igualitário às mulheres que continuam suas carreiras profissionais. Sabe-se que o emponderamento das mulheres[9,10] é fundamental para o desenvolvimento sustentável do planeta e é sobre isso que falarei com mais detalhes no meu próximo texto.

Se você se identificou com o assunto e tem algo para compartilhar, seu comentário será bem-vindo! Um abraço e até a próxima!

Texto por: Silva, A.R.

Referências:

[1]      http://www.catalyst.org/knowledge/women-academia

[2]      http://theconversation.com/juggling-a-career-and-motherhood-a-scientist-tells-her-story-46352

[3]       http://www.americanscientist.org/issues/pub/when-scientists-choose-motherhood

[4]      http://www.cientistaqueviroumae.com.br/sobre

[5]      http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2015-03-05/90-das-mulheres-fazem-tarefas-domesticas-entre-homens-indice-chega-a-40.html

[6]      https://www.youtube.com/watch?v=6oGlRrJLiiY

[7]      http://www.anpg.org.br/?p=6238

[8]      http://www.fapesp.br/8418

[9]      http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1540-4560.2012.01775.x/full

[10]    http://www.worldwatch.org/critical-role-women-sustainable-development

* Imagem retirada do Pixabay (CC0 Public Domain, Free for commercial use, No attribution required)

 

 

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Setembro Amarelo: é preciso falar sobre

O mês de Setembro destaca-se para salientar a luta pela prevenção do suicídio. No Brasil, essa organização acontece desde 2014 e envolveu três Instituições precursoras nesse trabalho: o Centro de Valorização da Vida, o Conselho Federal de Medicina e a Associação Brasileira de Psiquiatria.

Por que essa é uma temática relevante?

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De acordo com dados da OMS de 2015, mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio, ocorrendo uma morte por esse meio a cada 40 segundos. Em nosso país, são 32 mortes por suicídio por dia.

Ultrapassando os limites dos dados quantitativos, vale ressaltar a importância de refletir sobre os fatores que levam ao suicídio. O modo de organização da sociedade voltado para produção tende a influenciar e contribuir para o aumento da incidência de casos. Esse tema é uma questão de saúde pública, de educação, de organização do trabalho, em uma construção intersetorial  e de diálogo em políticas públicas para o bem estar social.

Nas redes sociais, é possível acompanhar campanhas que carregam o teor do Setembro Amarelo e que motivam pessoas a se disponibilizarem individualmente para participarem do processo de cuidado das pessoas em sofrimento psíquico.  De fato, quanto mais pudermos fortalecer nossas redes de afeto, mais estaremos lutando contra a lógica individualista que impera. Todavia, mais do que estarmos disponíveis pessoalmente, podemos compartilhar e ampliar conhecimentos acerca  da Rede de Saúde Mental, que está apta a prestar cuidado em um olhar amplo  e interdisciplinar.

Como buscar ajuda pelo SUS?

Como já foi detalhado em outra postagem, o SUS é organizado em Redes e territorialmente. Isso quer dizer que toda pessoa residente no Brasil possui uma equipe de referência para um cuidado específico. O local que é a porta de entrada para o sistema, é a Unidade Básica de Saúde (o postinho de saúde) mais próxima da casa do munícipe. A pessoa pode passar em acolhimento na unidade e, caso demande um cuidado considerado de atenção especializada, será encaminhada para o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

Os CAPS são porta aberta. Dessa forma, qualquer pessoa pode ser acolhida em um CAPS, sem agendar horário de atendimento e sem necessariamente precisar passar pela UBS. Em casos de sofrimento intenso, pode-se recorrer a um CAPS, que sempre deve ter uma equipe interdisciplinar disponível para acolhimento.

Além disso, o Centro de Valorização da Vida (CVV), que é uma organização sem fins lucrativos, oferece atendimento gratuito online via chat, skype, e-mail e também pelo telefone: 141.

Sigamos unidas e unidos nessa luta  por Saúde Mental a todas e todos.

Saiba mais:

Site de atendimento do Centro de Valorização da Vida (CVV), onde você pode se informar melhor sobre as especificidades de atendimento da sua cidade:

http://www.cvv.org.br/

Caso você seja munícipe de São Paulo, pode pesquisar qual a UBS ou CAPS mais proximos de sua casa por esse site, colocando seu endereço:

http://buscasaude.prefeitura.sp.gov.br/

Para os municípios que não possuem esse recurso, basta procurar a UBS (postinho) mais próximo da sua casa e os profisisonais podem dar maiores informações quanto ao cuidado em Saúde Mental.

Universidades em São Paulo que prestam atendimento psicológico:

Pontifica Universidade Católica- PUC

tel: 38626070. e-mail: www.pucsp.br/clinica

Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU):

tel: 3040 3400 ramal 2316.  e-mail: triagem.psico@fmu.br

Universidade Mackenzie

tel: 32566827 e-mail: ccbs.clinicapsicologica@mackenzie.br

Universidade de Santo Amaro (UNISA)

tel: 21418870  e-mail: clinicadapsicologia@unisa.br

Centro de Psicologia Aplicada (CENPA) da Universidade São Judas Tadeu

tel: 27991831 27991943 e-mail: cenpa@usjt.br

Universidade Bandeirantes de São Paulo (UNIBAN):

Campus: São Bernardo do Campo, Campo Limpo, Morumbi, Osasco e Vila Guilherme.

Universidade Paulista (UNIP):

Campus: Alphaville, Cantareira, Chácara Santo Antonio, Poméia, Tatuapé e Vergueiro.

Universidade Brás Cubas Mogi das Cruzes

tel: 47902241/ 47918240

Universidade de Guarulhos

tel: 24641676

Fontes:

Ilustração: Mariana Reis

Setembro Amarelo:

http://www.setembroamarelo.org.br/

Relatório OMS: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/131056/1/9789241564779_eng.pdf?ua=1&ua=1

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Sobre mulheres, educação e direito

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 No último número da revista Rechtsgeschichte – Legal History, a pesquisadora brasileira Laura Beck Varela publicou um artigo intitulado “Translating law for women? The Institutes du droit civil pour les dames in Eighteenth-Century Helmstedt”. Nele, a autora analisa o livro Institutes du droit civil pour les dames, publicado pelo jurista Johann Heinrich Kratzenstein (1726–1805), em 1751.

De acordo com Varela, Kratzenstein foi um jurista sem muita proeminência, mas que teve um convívio com a intelectualidade iluminista do século XVIII. Um dos temas que era debatido pelos intelectuais iluministas era a educação das mulheres, a chamada querelle des femmes. Esses debates giravam em torno, sobretudo, da educação das mulheres em disciplinas como filosofia, ciências naturais, línguas, etc. O ensino do direito para mulheres não era uma possibilidade aventada pelos intelectuais da época. A despeito disso, Kratzenstein decidiu escrever um livro que levasse temas jurídicos ao público feminino.

Uma das hipóteses que Varela levanta para explicar esse interesse de Kratzenstein em divulgar alguns temas jurídicos para as mulheres foi a admiração desse jurista por mulheres que conseguiram se destacar no meio intelectual da época, como, por exemplo, Maria Gaetana Agnesi (1718–1799), que lecionava matemática na Universidade de Bolonha, e a filósofa Johanna Charlotte Ziegler (1725–1782).

A autora também ressalta que, em seu livro, Kratzenstein utilizou as Institutas – compilação de normas promulgada pelo imperador Justiniano – como um guia, como um repertório de autoridade do qual ele extraiu os temas que o interessavam. O livro de Kratzenstein não abarcava todos os temas presentas nas Institutas de Justiniano e tampouco apresentava todos os assuntos sobre os quais as mulheres poderiam, possivelmente, ter algum interesse. Varela ressalta, por exemplo, que o jurista deixou de lado temas como o dote e os impedimentos para o casamento.

Outra característica da obra eram as constantes referências à “beleza” e à “utilidade”. Kratzenstein procurava convencer seu público feminino de que o direito (jurisprudência) era um conhecimento “prazeroso” e “útil”. Varela também ressalta que, ao adotar essa estratégia comunicativa, Kratzenstein procurava assegurar que o direito como objeto de conhecimento para mulheres seria visto como um tema socialmente apropriada, que poderia ser abarcado pela educação feminina. Assim, ele procurava se adequar às premissas dos intelectuais iluministas, para quem as mulheres tinham qualidades intelectuais, mas o exercício dessas qualidades deveria se ater a temas pertinentes à “natureza feminina” e ao papel social que as mulheres exerciam na sociedade estratificada do século XVIII. Assim, nos momentos em que o direito apresentado por Kratzenstein era obviamente limitador do exercício da autonomia das mulheres, o autor adotou a estratégia de apresentar essas normas excludentes como “úteis”, necessárias para que as mulheres se protegessem e garantissem o bom funcionamento da casa.

Apesar de o livro de Kratzenstein reforçar a existência de uma suposta “natureza feminina”, Varela argumenta que a obra pode ser considera como inovadora para o seu tempo, na medida em que admitia uma expansão da atuação da mulher na esfera pública. E, justamente por essa característica, o livro de Kratzenstein foi duramente criticado por outros juristas homens da época. Um crítico, por exemplo, argumentou que o direito (jurisprudência) perderia sua respeitabilidade se as mulheres começassem a debate-lo. Como afirma Varela, os juristas profissionais não gostaram nem um pouco da publicação de um livro que não os tinha como público alvo.

A autora também enfatiza que a má recepção do livro de Kratzenstein pode ser inserida em um contexto mais amplo de retrocesso no que dizia respeito à educação das mulheres e à sua participação na esfera intelectual. Nas últimas décadas do século XVIII e durante o século XIX, o ideal de educação das mulheres deixou de ser o erudito, defendido nos primórdios do movimento iluminista, e deu lugar a uma educação voltada para a “beleza” e para as necessidades práticas das mulheres no desempenho do papel social que lhes era imposto. Por fim, Varela afirma que o episódio envolvendo o livro de Kratzenstein era mais um aspecto da exclusão das mulheres dos círculos jurídicos: apesar da lenta inclusão das mulheres nos meios acadêmicos e universitários, o direito e a teologia permaneceram por muitas décadas como campos do conhecimento inacessíveis a elas.

Apesar de ser um livro vazado por ambivalências e de ter sofrido pesadas críticas de outros juristas, Varela argumenta que as Institutes du droit civil pour les dames podem ter tido alguma utilidade para o seu público feminino e contribuído para preparar as mulheres para problemas que elas enfrentavam na sua vida cotidiana como, por exemplo, a tutela de seus filhos em caso de viuvez.

O artigo de Varela, portanto, apresenta novos dados para aprofundar o debate historiográfico em diversos campos, como, por exemplo, história do direito, história do livro, estudos de gênero, história da educação, dentre outros. É um trabalho interdisciplinar muito bem feito, que articula os debates acadêmicos travados em diversas áreas das ciências humanas. Especificamente em relação à história do direito, o artigo possui o mérito de tratar das mulheres, de um livro escrito para elas, da maneira como a seleção dos temas foi feita e, ao fim, apresenta uma perspectiva crítica sobre o posicionamento dos juristas e de certos intelectuais iluministas a respeito da inserção feminina na esfera pública. Todos esses temas não são muito comumente abordados pelas pesquisas na área e, portanto, o artigo de Varela aponta novos caminhos que podem ser trilhados para os pesquisadores que têm o direito como seu foco de pesquisa.

Referência bibliográfica

VARELA, Laura Beck. “Translating Law for Women? The Institutes du droit civil pour les dames in Eighteenth-Century Helmstedt”. Rechtsgeschichte – Legal History, v. 24, 2016, pp. 171-189.

*A figura que ilustra esse post é o quadro La Liseuse ou La Jeune Fille lisant (1770), de Jean-Honoré Fragonard.

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E aí, e as girafas?

Lembra do colegial? Te ensinaram a definição clássica de espécie biológica: membros da mesma espécie são capazes de cruzar e gerar um indivíduo fértil. Em outras palavras: 1) se não conseguem se reproduzir: são de espécies diferentes ou, 2) se reproduzem, mas o indivíduo (híbrido) nasce estéril (não é capaz de se reproduzir): são de espécies diferentes, agora 3) se reproduzem e o descendente é capaz de procriar: são da mesma espécie. Simples, não?

Só que a natureza é mais complicado do que gostamos de assumir para os alunos. Isso porque a problematização não é vista como um bom método didático na leitura tradicional da educação, essa que a maioria das escolas brasileiras seguem.

Mas eu vou levantar a bola aqui: a definição clássica de espécie biológica encontra alguns empecilhos na natureza. Uma variável bem simples não contemplada por essa definição é a existência de populações isoladas. Como saber se são capazes de se reproduzir se encontram-se isoladas naturalmente, seja por um rio, seja por uma montanha e hoje em dia ainda pode ser isolada por uma cidade ou açude? O que quero dizer é: se existem duas populações de muriqui, cada uma em um fragmento diferente que não se conectam e eles possuem cores diferentes como saber se são ou não da mesma espécie?

Já os primeiros naturalistas encontraram problemas para reconhecer espécies na natureza. Claro que não há dúvidas em diferenciar uma anta de um macaco, mas essa diferenciação fica mais complicada quando se tenta diferenciar as espécies de macacos; mais difícil ainda entre populações de um mesmo “tipo” de macaco, como o caso do muriqui explicitado acima.

Esses primeiros naturalistas utilizavam uma análise cuidadosa, mas não muito sistemática: diferenças visuais de morfologia: como diferenças na coloração de pelagem. Contudo, sabendo que existe plasticidade de características, como definir até que ponto uma variação na coloração de pele seria suficientemente grande para caracterizar uma outra espécie? Pasme que, mesmo com as análises mais sistemáticas da morfologia atual, essa linha continua não apenas tênue, mas turbulenta e perigosamente subjetiva. Veja bem, são trabalhos seríssimos, mas que se apoiam numa falta de consenso de termos.

Um novo braço da ciência apareceu com ares de quem ia resolver esta questão: a genética. Mas na ciência não há respostas simples e/ou diretas, e as análises moleculares também estão sucetíveis à interpretações quase que subjetivas, afinal para consideramos que são espécies diferentes de quanto deve ser a diferença genética? Ou: há quanto tempo deve ter ocorrido essa separação filogenética?

Enquanto isso, uma nova pesquisa está “bombando” nos blogs científicos como BBCSCIENTIFIC AMERICAN, NATURE: a girafa não é mais uma espécie, mas quatro!

Isso devido a um estudo molecular que mostrou que na realidade as 4 populações existentes de girafas possuem diferenças moleculares  suficientes para serem consideradas espécies diferentes e que estas diferenças ocorreram entre 1 a 2 milhões de anos.

Mas não só de girafas os cientistas moleculares especulam. Como não voltar a atenção para a terra onde “ afinal as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá”? Assim, nossas espécies sul-americanas também tem passado por re-estruturação. Como exemplo eu não poderia de deixar de falar dos meu queridinho: os macacos-prego. Análises filogenéticas de macacos-prego o separam em dois gêneros: Cebus com 4 espécies e Sapajus com 8 espécies. O estudo mostra que as diferenças filogenéticas mas recentes que separam duas espécies de Sapajus foi de  apenas 400 mil anos. Em poucas palavras, a genética tem aumentado o número de espécies ao reclassificar o que era considerado uma espécie em múltiplas espécies diferentes.

Em aspecto de conservação essa super separação me parece lógica. Todas as populações selvagens desses animais são de extrema importância. Se separamos, fica mais fácil pedir verba e criar ações de preservação; por uma questão simples de matemática: se eu tenho duas populações de macacos-prego da mesma espécies, 1) uma com 50 indivíduos e 2) a outra com 5000 indivíduos, tenho na realidade 5050 indivíduos dessa espécie de macaco-prego. Agora, se nessa situação tenho duas espécies: espécie A com 50 indivíduos e espécie B com 5000, fica mais evidente que a espécie A precisa de ações imediatas de conservação.

O desafio está em decidir em que ponto as diferenças são suficientes para classificar como espécies diferentes ou são variabilidade populacional, ou seja, diferenças entre indivíduos e entre população. Afinal, se qualquer cor, qualquer variação morfológica e qualquer variação filogenética consideramos como suficiente para constituir uma nova espécie, além de não conseguirmos mais falar de evolução estaremos insinuando que nós, humanos somo de espécies diferentes. E a historia mostra como não somos bons em lidar com essas diferenças.

Seria as variações da nossa espécie a usada como limite para determinar variação populacional? Afinal, tenho certeza que todos temos calafrio só em pensar nas problemáticas que enfrentaríamos em querer afirmar que há mais de uma espécie humana. Já bastam as atrocidades que ainda se cometem quando falamos de diferença de gênero, identificação sexual, cultura e até roupa! Imagine se falarmos de espécies? Me fez re-lembrar quando alguns tinham alma enquanto outros não!

Contudo, esta e outras questões envolvendo definições biológicas, que não são tão simples e certeiras assim, precisam ser discutidas a sério pela sociedade. Afinal, mesmo que não se perceba de imediato a relação, a sociedade toma decisões baseadas nessas definições. Como exemplo: o que é vida? E, portanto, quando podemos desligar a respiração artificial? Ou quando começa a vida e, portanto, quando um aborto começaria a ser considerado assassinato? Ou o que é espécie e os cuidados que devemos tomar com a má interpretação da ciência?

Ignorar a problemática é deixar que alguém decida por você. Já não estamos cansados de decisões que refletem uma minoria e não a real compreensão e desejo da sociedade? Por medo de não se discutir, deixaremos que os mal intencionados decidam pela maioria.

É hora de falar de ciência.

Referências:

Rosenberg NA, et al. 2002 Genetic Structure of Human Populations. Science.

Lynch-Alfaro JW, Boubli JP, Olson LE, et al. 2011. Explosive Pleistocene range expansion leads to widespread Amazonian sympatry between robust and gracile capuchin monkeys. Journal of Biogeography 39:272-288.

Lynch Alfaro JW, Silva JD Jr, Rylands A. 2012. How different are robust and gracile capuchin monkeys? An argument for the use of Sapajus and Cebus. American Journal of Primatology 0:1-14..

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Primavera feminista latino-americana

Buenos Aires, Argentina, junho 2015; São Paulo, Brasil, outubro 2015; Cidade do México, abril 2016; Lima, Peru, agosto 2016—em diversos cantos da América Latina as mulheres estão tomando as ruas para gritar em um coro uníssono: basta!

Você com certeza já leu algo sobre os novos movimentos de mulheres no Brasil que clamam pela igualdade de gênero, pelo fim da violência contra a mulher, pelo direito à escolha. Talvez aqui mesmo no blog, onde publicamos textos sobre a maravilinda hashtag “Meu Amigo Secreto” e, mais recentemente, sobre diversos relatos de abusos machistas que muitas de nós sofremos. Desde que fomos às ruas no ano passado para dizer um categórico “não” ao projeto de lei 5069, de autoria de um ex-deputado deveras questionável cujo nome prefiro nem mencionar, nós, brasileiras, ganhamos novo fôlego para reagir a uma agenda política conservadora que pretende ditar regras sobre nossos corpos e nosso comportamento (homis, cês são tudo bem vindo no rolê, mas vou tomar a liberdade de falar de irmã pra irmã aqui, belê? Não se sintam excluídos não, a gente gosta quando vocês vêm pra somar, mas a gente está construindo sororidade). Inúmeras iniciativas surgiram para dar vazão ao nosso descontentamento com a cultura machista do país, à nossa revolta frente a crimes hediondos de violência contra a mulher e às nossas demandas por políticas públicas que respeitem e protejam nossa vida e nossa saúde.

Mas não é apenas no Brasil que as mulheres têm protagonizado movimentos feministas de rua: nossas hermanas latino-americanas também estão gritando por mais direitos, mais respeito, e menos violência. Essas demandas não são novas—movimentos feministas articulados existem no continente desde, pelo menos, os anos 1960,  e em muitos casos desempenharam inclusive um papel importante na luta contra os regimes autoritários da época.[1] Há também iniciativas transnacionais como o Encuentro Feminista Latinoamericano y del Caribe, que desde 1981 promove eventos bi-anuais para discutir a situação da mulher nos vários países da região.[2] Ainda assim, é possível falar em uma primavera feminista latino-americana. O que distingue o momento atual das décadas anteriores é a sincronicidade entre manifestações feministas de massa ao redor da América Latina e o fato de responderem a casos específicos de violência contra a mulher. Para que isso fique mais claro, vejamos abaixo um resumo das causas que têm nos levado a protestar.

 Por que vamos às ruas?

*Estupro e outras formas de assédio sexual. Os dados são reveladores—e chocantes. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (9ª edição, outubro 2015), a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Casos recentes e horripilantes de estupros coletivos deixaram essa realidade ainda mais escancarada.  No México, em média 40 mulheres sofrem abuso sexual por dia, e no Peru as autoridades chegam a registrar 53 denúncias diárias de crimes de violência sexual contra mulheres. Números como estes é que nos levam a falar de uma cultura do estupro no continente; isso quer dizer que atentados sexuais de gênero estão tão disseminados que fazem parte da realidade diária de milhares de mulheres, de Tijuana à Ushuaia. Toda mulher latina sabe que se sair de casa com um vestido em um dia quente de verão, vai ouvir pelo menos um assobio. Como sabe que, mesmo encapuzada em um dia frio de inverno, pode ouvir isso, ou mais. Relatos de assédios os mais variados abundam na rede, e ficaram ainda mais visíveis depois de campanhas como #meuprimeiroassédio (em Português) / #miprimeracoso (em Espanhol). E, francamente, nós estamos cansadas. Nós queremos liberdade plena para usar a roupa que quisermos sem que isso seja visto como um convite para cada membro do sexo oposto fazer um “elogio”, um comentário, ou dar aquela olhada que te deixa com a sensação de estar sendo observada em um raio-x. Não queremos que o decote da nossa blusa ou o tamanho da nossa saia levem a culpa se somos estupradas. Queremos poder ocupar os espaços públicos (as praças, os parques, os centros comunitários, os museus, O BUSÃO) sem ter medo de que nossa mera presença nestes lugares coloque nossa integridade ou nossa vida em risco. Queremos que o nosso “não” seja ouvido e respeitado.

*Feminicídio. Pra falar curto e grosso: nós vamos às ruas por que estão nos matando. No ano passado, na Argentina, após uma adolescente ter sido espancada até à morte pelo namorado e enterrada no quintal com a ajuda da família dele, milhares de pessoas saíram em marcha pelas ruas de Buenos Aires para denunciar o feminicídio no país. Segundo dados de uma ONG local, o país tinha registrado 277 casos de feminicídio no ano anterior ao protesto (2014). O movimento realizou nova passeata este ano, e a hashtag “Ni Uma Menos” teve repercussão no Chile, no Uruguai, e no Peru. No México, onde os dados sobre feminicídio são dos piores no mundo, multidões se uniram via redes sociais, com a hastag “Vivas Nos Queremos”, e tomaram as ruas no último 24 de abril para protestar contra o crime de gênero.

*Impunidade. Outro motivo pelo qual temos ocupado as ruas é que nossas denúncias não dão resultado. Superada a dificuldade tremenda que é reportar um crime de gênero (por vergonha, por falta de apoio, ou por falta de meios apropriados para tal), os resultados não são encorajadores: dos casos de violência sexual denunciados no Peru em 2011, 90% tiveram como resultado a absolvição do réu. Vou repetir: NOVENTA POR CENTO DOS CASOS DE VIOLÊNCIA SEXUAL DENUNCIADOS NÃO RESULTARAM EM PUNIÇÃO. As mexicanas que sofrem abusos sexuais também têm bastante dificuldade em ver suas denúncias como efetivas, já que, pelo menos até 2014, 26 entidades do país não puniam com a seriedade devida os crimes dessa natureza.

*Aborto. É inacreditável, mas em pleno 2016 o aborto ainda não é permitido na quase totalidade dos países latino-americanos. Com exceção do Uruguai, onde as mulheres podem decidir interromper a gravidez até a 12ª semana da gestação, e Cuba, primeiro a descriminalizar a prática (1979), via de regra as leis variam de limitadas (caso do Brasil e Argentina, por exemplo, onde até o momento o aborto é legalizado em casos de estupro ou de riscos à vida da gestante[3]) à bastante limitadas (como no Paraguai, onde o aborto apenas é permitido em caso de grave risco à saúde da gestante) ou até mesmo inexistentes (como no Chile, onde a prática ainda está totalmente proibida). Para além dos riscos que essas restrições impõem à saúde da mulher, já que a opção passa a ser  aborto ilegal e inseguro, o aborto legal é uma das bandeiras mais fortes do feminismo porque traz no seu cerne um dos pilares do movimento: o direito de escolher o próprio destino.

 Como estamos nos mobilizando?

Eu sei, o cenário é assustador. A realidade bruta é de deixar qualquer uma sem esperança, descrente na humanidade, revoltada, frustrada, com a dupla sensação de impotência e medo. Mas não precisa ser assim! Como eu disse antes, há um número cada vez maior de mulheres levantando a voz, expressando esses sentimentos, e se mobilizando. As mídias digitais têm sido um diferencial importante com relação aos movimentos anteriores. Hashtags, blogs, e outros fóruns na rede permitem que várias gerações de mulheres se articulem independente de uma estrutura fixa. Assim, feministas de carteirinha e jovens que nunca antes participaram de uma associação formal podem facilmente organizar passeatas, marchas, intervenções e abaixo-assinados.

Além das ruas, temos também ocupado outros espaços, como a imprensa, para que nossas vozes sejam ouvidas. Há poucos meses atrás, as peruanas se mobilizaram para deixar claro que as esterilizações forçadas de mais de 300 mil mulheres pelo governo do Fujimori não serão página virada da história, e a voz delas alcançou o mundo depois que o texto lindo da edição em Espanhol do NY Times foi traduzido. Revistas digitais como a mexicana La Que Arde, e blogs como o #AgoraÉQueSãoElas e esse nosso Cientistas Feministas também são uma ótima estratégia para ressaltar nossas demandas e oferecer uma perspectiva feminina e feminista sobre temas variados. Campanhas de consicentização que visam educar sobre questões de gênero e extirpar o machismo também vieram à tona nos últimos tempos, como o Chega de Fiu Fiu e o Guia Didático para o carnaval.

Em suma, se a realidade ainda é dura, uma coisa é certa: nós não vamos mais tolerar. As mulheres da América Latina dizem: Basta! E com isso semeamos essa primavera feminista, cujo resultado não serão apenas flores, mas mais direitos, igualdade, e respeito.

Notas

[1] Para o caso brasileiro, veja-se: SARTI, Cynthia A. “Feminismo e contexto: lições do caso brasileiro.” Cad. Pagu, Campinas, n. 16, p. 31-48, 2001. Disponível em http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332001000100003 Último acesso em 15 de set. 2016.

[2] Uma boa síntese dos primeiros anos do Encuentro pode ser vista em: STERNBACH, Nancy Saporta, Navarro-Aranguren Marysa, Chuchryk Patricia, and Alvarez Sonia E. “Feminisms in Latin America: From Bogotá to San Bernardo.” Signs vol. 17, n. 2, p. 393-434, 1992. http://www.jstor.org.proxy.library.vanderbilt.edu/stable/3174469. A 14 ª edição do evento deve ocorrer em novembro de 2017, no Uruguai. Mais detalhes na página do grupo no Facebook: https://www.facebook.com/14EFLACUruguay/

[3] No Brasil, além dessas duas exceções, a prática também é permitida no caso de má formação cerebral do feto, o que não ocorre na Argentina.