0

A baixa representatividade das mulheres no legislativo brasileiro: o Parlamentarismo resolve?

POSITIVE (1)

O Parlamentarismo é um modelo de governo que privilegia a figura da(o) primeira-ministra(o), cargo escolhido por parlamentares, em detrimento da figura de presidente, que perde poder. Entre as discussões sobre os pontos positivos e negativos do modelo atual, o Presidencialismo, e a nova proposta, surgiu a afirmação de que o Parlamentarismo aumentaria a representatividade das mulheres na política. Antes de discutirmos a veracidade dessa afirmação, é importante que se entenda qual a realidade da representatividade feminina hoje no legislativo brasileiro.

A situação das mulheres na política no Brasil não é das mais animadoras: de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as mulheres representam menos de 11% do legislativo federal, dados que apresentam melhoras tímidas a cada nova eleição. Na Câmara, são 51 mulheres do total de 513 deputados, enquanto no Senado são 11 representantes femininas para um total de 81 senadores. Esses números eram ainda menores em 2010, havendo apenas 45 e 8 mulheres entre os eleitos para a câmara e o senado, respectivamente.

Hoje, ainda existem estados brasileiros sem nenhuma mulher em suas respectivas bancadas da câmara e, ainda que tenha havido um aumento de 13,33% no número de deputadas, elas representam apenas 10% do total dos deputados em exercício. Em 2010, na eleição que renovou 2/3 do Senado Federal, somente 13% dos eleitos eram mulheres. A proporção de senadoras eleitas subiu na eleição de 2014 (18.5%) e hoje a bancada feminina do Senado representa 14% dos senadores com mandato vigente (ver esquemas abaixo). Esses números ainda estão bem longe dos ideais estabelecidos pela ONU, que indica que as mulheres devem ocupar ao menos 30% dos cargos de liderança em governos e partidos políticos para garantia da promoção da igualdade de gênero.

13,33%

13,33% (1)

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral.

Em contrapartida, a maioria do eleitorado brasileiro é feminino, representando mais de 50% em todas as faixas etárias consideradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (ver figura abaixo). Mulheres não estão votando em mulheres e isso tanto pode ser em decorrência da falta de candidatas como do próprio alcance das campanhas.

IMG_20170825_133835

Estatísticas do Eleitorado para as Eleições de 2014. Fonte: Tribunal Superior Eleitoral.

Na legislação eleitoral vigente na eleição de 2014, o financiamento privado era fundamental, o que beneficia tanto o candidato que possua fundos próprios como aquele que consiga mais doadores. Isso já coloca as mulheres em extrema desvantagem, uma vez que a maioria dos doadores tendem a apoiar candidatos homens e normalmente elas possuem menor capital econômico. A falta de capital político também prejudica as mulheres, já que elas sofrem mais para se integrarem a redes políticas e sociais ou chegarem a altos postos de hierarquia nas entidades de representação civil (como sindicatos, partidos etc). Além dos obstáculos elencados, as candidatas também enfrentam problemas intrapartidários, uma vez que os partidos tendem a repassar menos recursos dos fundos partidários para as mulheres (Sacchet, 2012). A recente Reforma Política proíbe doações de empresas, mas o quanto isso irá impactar na proporção da divisão de recursos entre homens e mulheres ainda será preciso observar.

Iniciativas que visam a inclusão da mulher na esfera política tem trazido resultados. A conscientização feminina e da sociedade nos últimos anos (por meio de campanhas das mais diversas origens), contribuiu para o aumento no número de candidatas ao cargo de deputada federal nas eleições de 2014. Esse aumento também resulta da Lei n° 12.034, aprovada em 2009, que obriga que as candidaturas aos cargos proporcionais – deputado federal, estadual ou distrital e vereador – sejam preenchidas (e não apenas reservadas, como era antes) com o mínimo de 30% e o máximo de 70% de cidadãos de cada sexo. Apesar dos números virem crescendo, a porcentagem de mulheres que se candidatam a cargos públicos ainda é inferior a dos homens. Além disso, o sucesso das candidaturas está fortemente ligado ao aporte de recursos, que não são igualmente distribuídos entre os gêneros. As mulheres recebem proporcionalmente menos dinheiro para suas campanhas (Sacchet, 2012), enquanto os homens têm mais facilidade na hora de arrecadar fundos – uma realidade sistemática na maioria dos estados brasileiros.

Quanto ao Parlamentarismo, não é claro o quanto sua implementação aumentaria a representatividade feminina no legislativo. O programa político do PSDB (partido favorável à implementação do modelo) do dia 17 de Agosto afirmou que:

Em todos os países parlamentaristas existe uma forte representação das mulheres.

Essa afirmação foi checada pelo Truco, projeto de checagem de fatos da Agência Pública, que descobriu 79 países parlamentaristas nos quais a representação feminina no parlamento está abaixo do ideal de 30% estabelecido pela ONU. De acordo com dados da União Interparlamentar (UIP) (ver Tabela), organização internacional que promove a colaboração e o diálogo entre parlamentos de todo o mundo, somente 47 países de diferentes sistemas atingem a proporção indicada pela ONU em suas Câmaras, sendo 29 deles parlamentaristas e 17 presidencialistas. Além do número expressivo de países parlamentaristas com representatividade feminina abaixo do considerado ideal, o número de países acima do mínimo não é significativamente relevante para que se afirme que o Parlamentarismo teria uma ligação direta com o aumento da representatividade feminina no legislativo.

IMG_20170825_152544

Fontes: Truco, União Interparlamentar (UIP), CIA The World Factbook.

No caso do Brasil, a inclusão das mulheres na política e a diminuição na desigualdade de representação parecem estar mais relacionadas às iniciativas de combate às desigualdades intrínsecas das campanhas, que continuarão operando quase que inalteradas no que diz respeito à promoção da igualdade de gênero na política.

____________________________________________________________________________________________
 Referências:
L12034, de 29 de Setembro de 2009.
Sacchet, Teresa, and Bruno Wilhelm Speck. “Financiamento eleitoral, representação política e gênero: uma análise das eleições de 2006.” Opinião Pública 18.1 (2012): 177-197.
Anúncios
0

Como se formam os furacões e porque eles podem se tornar mais frequentes e mais destrutivos.

Harvey, Irma, José, Kátia, Maria… A temporada dos furacões e tempestades tropicais do Atlântico 2017 veio com muito intensidade e potencial destrutivo, atingido principalmente as ilhas caribenhas, mas também partes dos Estados Unidos. Essa temporada tem chamado a atenção não somente pela quantidade de furacões, mas também pela intensidade deles e pelo seu tamanho. Pela primeira vez desde 2010, três furacões de alto potencial destrutivo estiveram ativos ao mesmo tempo no Oceano Atlântico (Ver figura abaixo); um deles, Irma, atingiu o continente com categoria 5 na escala Saffir-Simpson (ver Infográfico) com área de ação maior que o estado do Texas. O rastro de destruição deixados por esses furacões, em especial Harvey e Irma, é similar à temporada de 2005 quando os furacões Katrina e Wilma protagonizaram a maior destruição já registrada ao atingirem à Louisiana e o Caribe, respectivamente.

Os recentes eventos levantam o questionamento se a frequência e intensidade desses fenômenos seria considerada normal. Para discutir isso, o blog Cientistas Feministas explica como se formam os furacões e como o aquecimento global pode estar fortalecendo e aumentando a ocorrência desses fenômenos.

3hurricane-1

Registro dos três furacões ativos no Oceano Atlântico na temporada de 2017. Fonte: National Hurricane Center, NOAA.

 

Como se formam os furacões?

Furacões são as tempestades mais violentas do nosso planeta e, como necessitam de calor para se formarem, normalmente ocorrem na região equatorial. Eles são classificados em cinco categorias em uma escala chamada Saffir-Simpson que levam em consideração a pressão medida no centro do fenômeno, velocidade dos ventos e tempestades provocadas pelo furacão¹.

_97717132_hurricane_scale_inf624_v2_ws_portuguese

Infográfico da Escala Saffir-Simpson comparando com os ventos esperados para o furacão Irma. Fonte: BBC Brasil.

Os ingredientes básicos para a formação de um furacão são:

1) Ar quente e úmido como combustível || Os furacões se alimentam da água quente do oceano superficial e é por isso que somente se formam em regiões tropicais e equatoriais onde as águas oceânicas estão acima dos 26°C nos primeiros 50m de profundidade.

2) Vento || No caso dos furacões do oceano Atlântico, os ventos de leste para oeste que vêm da África na região equatorial são os responsáveis pela formação dessas estruturas. Quando em contato com a superfície do oceano quente, a água evapora e sobe. Esse vapor de água se resfria à medida que ganha altura, condensando novamente em gotículas de água e, eventualmente, formando as conhecidas nuvens de tempestade cumulonimbus.

Como o ar quente, mais leve, se moveu para cima, há menos ar deixado perto da superfície do oceano, gerando uma baixa pressão. O ar das áreas circundantes de maior pressão é “empurrado” para a área de baixa pressão. Então, esse ar “novo” aquece, fica mais úmido e também sobe. É dessa forma que as tempestades se formam: à medida que mais ar quente continua a subir, o ar circundante se arrasta para tomar seu lugar e, conforme o ar aquecido e úmido se eleva e esfria, o vapor d’água condensa formando mais nuvens. Todo o sistema de nuvens e vento gira (por conta do efeito de rotação da Terra) e cresce, alimentado pelo calor do oceano e água evaporando da superfície. Conforme o sistema vai girando mais rápido um olho com pressão bastante baixa se forma no centro para onde o ar das pressões mais alta flui enquanto a tempestade gira. Quando os ventos atingem 62 km/h, a tempestade é chamada de tempestade tropical. E quando as velocidades do vento atingem 119 km/h, a tempestade é oficialmente um furacão.

hurricane_diagram_large.en

À esquerda, um esquema feito pela NASA de um furacão, como se ele tivesse sido fatiado na horizontal. As setas vermelhas finas mostram o ar subindo da superfície do oceano e formando as camadas de nuvens ao redor do olho. As setas azuis representam o ar já resfriado e seco de alta pressão fluindo para o olho entre as nuvens. As setas vermelhas largas mostram o giro do cone de nuvens em ascensão.

irma
a
a

À direita uma imagem de satélite do Furacão Irma fornecida pelo NOAA Satellite and Information Service.

a
a
a
a

Enquanto estiverem sobre o oceano superficial de águas quentes, os furacões irão crescer e aumentar sua velocidade. Esses sistemas geralmente se enfraquecem quando atingem a terra, porque já não estão sendo “alimentados” pela energia das águas quentes dos oceanos. No entanto, muitas vezes se movem para o interior, causando destruição por conta dos fortes ventos e grandes volumes de chuva antes de se desfazerem completamente².

Mudanças Climáticas vs Eventos Extremos

Já existe consenso entre a comunidade científica no sentido de que o aquecimento global levará, em tempo, à intensificação e ao aumento da frequência de eventos extremos, como enchentes, deslizamentos, secas, ondas de calor e furacões³. Já falamos um pouco sobre isso no último Dia Mundial dos Oceanos.

No caso da presente temporada de furacões do Atlântico, além do impacto do aquecimento global, é preciso analisar outros fatores que influenciam na formação dos furacões nessa região. Em anos de El Niño, fenômeno de aquecimento anômalo das águas do oceano Pacífico equatorial, os furacões tendem a aumentar sua incidência no Pacífico e reduzir sua frequência no Atlântico. Como nesse ano de 2017 não estamos em um ano de El Niño, é preciso também levar isso em consideração ao caracterizar a intensidade desses fenômenos².

De qualquer modo, a formação dos furacões e sua intensidade estão intimamente ligadas às temperaturas superficiais dos oceanos que aumentaram significativamente nas últimas décadas e continuarão aumentando pelo menos até o fim do século4. Um oceano mais quente tende a formar furacões em maior número e de maior intensidade. A série histórica do National Hurricane Center já mostra que houve um aumento nos furacões mais intensos e que a frequência dos furacões observada em 2017 não é normal, mas também não pode mais ser considerada uma exceção, visto que essa situação se repete a cada 15 anos em média².

O aumento na frequência e força desses fenômenos até que deixem de ser extremos e passem à chamada “condição normal” é uma das consequências diretas das mudanças climáticas de maior impacto econômico. Mais pesquisas são necessárias para que se quantifique a relação entre o aquecimento global e os furacões, mas as evidências já apontam para a necessidade imediata de mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e controle de emissões de gases do efeito estufa a fim de evitar um futuro cenário catastrófico.

__________________________________________________________________________________________

Referências:

¹ What are Hurricanes? NASA knows series. https://www.nasa.gov/audience/forstudents/k-4/stories/nasa-knows/what-are-hurricanes-k4.html

² Tropical Cyclone Climatology, National Hurricane Center, NOAA, USA. http://www.nhc.noaa.gov/climo/

3 From, A. Explaining Extreme Events of 2014. 2015. Bulletin of the American Meteorological Society, 96 (12).

4 Change, IPCC Climate. 2013. The physical science basis. Contribution of working group I to the fifth assessment report of the intergovernmental panel on climate change, 1535 pp.

Continuar lendo

0

Uma nova maneira de divulgar descobertas científicas

Você que é pesquisador, pós-doc, doutorando, mestrando ou até mesmo um aluno de Iniciação Científica, provavelmente, já se deparou com as dificuldades inerentes à publicação de um artigo científico. Pra quem não é da área acadêmica, eu explicarei as etapas necessárias para que um artigo seja aceito para publicação em um bom periódico.

Primeiramente, é necessário o desenvolvimento de um projeto que deve ser avaliado quanto a sua justificativa, objetivo e métodos para obtenção de resultados confiáveis e consistentes. Após o desenvolvimento de todo o seu projeto e análise dos seus resultados, nada mais o impede de começar a escrever o seu artigo científico.

A maioria dos artigos da área de ciências biológicas e saúde é dotada de cinco seções: Resumo, Introdução, Material e Métodos, Resultados e, por fim, Discussão. Essa estrutura é a mais comum, porém alguns artigos das áreas de ciências humanas e sociais podem adotar estilos de redação diferentes. Se você quiser o passo-a-passo de como um artigo científico deve ser escrito, acesse o texto: Como escrever um artigo científico do site Pós-graduando.

Em geral, artigos científicos são curtos e não ultrapassam 10 páginas. Por isso, a capacidade de síntese é algo importante, apesar de difícil, na hora de escrever. Depois de conseguir fazer toda a sua pesquisa caber em poucas páginas escritas em inglês formal¹ você estará pronto para submeter seu artigo, juntamente com todas as suas figuras, gráficos e tabelas, em um periódico científico de preferência com alto fator de impacto².

Uma vez submetido, o artigo passará por uma análise de revisão rigorosa que conta, geralmente, com 2 revisores e 1 editor. Eles vão ler seu trabalho, avaliá-lo e decidir se será aceito, negado ou se precisará passar por correções e uma nova análise para poder ser publicado. A maioria dos periódicos são “peer-reviewed”, ou seja, revisado por pares, isso significa que os pesquisadores que revisarão seu manuscrito são, preferencialmente, da mesma área de pesquisa que você.

Digamos que após algumas correções e rigorosa análise, o seu artigo tenha sido aceito em um periódico. Você pensa: “nossa que ótima notícia, agora todos os pesquisadores do mundo inteiro que tenham interesse pelo meu campo de trabalho poderão acessar meu texto e ler minhas contribuições para a área.” Na verdade, não é bem assim que as coisas funcionam…

Os bons periódicos com acesso aberto (Open Access) ao público, geralmente cobram na faixa de U$1,000 para publicar um artigo. Existem revistas que não cobram para publicação, porém o acesso ao seu artigo fica restrito a assinantes daquela revista, como universidades e institutos de pesquisa. Para os não assinantes, existe uma taxa de cerca de U$40  para permitir acesso ao texto.

Por conta dessas dificuldades, surgiram algumas iniciativas, como o sci-hub. O sci-hub é um site fundado em 2011 pela neurocientista Alexandra Elbakyan, no qual são encontrados cerca de 62 milhões de artigos científicos das mais variadas áreas e revistas. Apesar de ser uma nobre iniciativa, que visa derrubar as barreiras da ciência, o sci-hub é ilegal, já foi retirado do ar diversas vezes e enfrenta graves acusações de roubo de direitos autorais.

Scihub

Fonte: Sci-hub. Tradução livre: ..para remover todas as barreiras no caminho da ciência.

Mais um importante projeto criado pela instituição Cold Spring Harbor Laboratory sediada em Nova Iorque, é o BioRxiv (lê-se bio-archive), um site autointitulado de “the preprint server for biology” (em tradução livre: “servidor para artigos pré-publicados de biologia”) que opera como uma revista científica para artigos que ainda não foram formalmente revisados e publicados. O BioRxiv foi lançado no final de 2013 e já conta com cerca de 10 mil manuscritos disponíveis para serem acessados por qualquer pessoa.

A plataforma funciona da seguinte maneira: pesquisadores podem submeter  rascunhos de seus artigos assim que estiverem prontos para serem compartilhados, com semanas, ou meses antes de serem formalmente publicados em uma revista científica.

preprints

Fonte: Nature. doi: 10.1038/503180a. Tradução livre: Os “preprints” ganham vida.

O objetivo do BioRxiv é acelerar o compartilhamento de resultados científicos importantes que ficariam “escondidos” até serem aceitos para publicação em algum periódico. O mais legal desta plataforma é que outros cientistas podem deixar comentários e te ajudar no processo de evolução do seu manuscrito. Uma vez que um artigo é adicionado no BioRxiv ele não pode ser removido, pois o site permite sua citação por outros autores. Depois de ser aceito para publicação, o site atualiza automaticamente a versão “preprint” com um link para a versão publicada.

Em abril deste ano foi divulgado que o servidor recebeu uma grande contribuição de Chan Zuckerberg Initiative (CZI) para a expansão do site e adição de mais ferramentas. “O acesso expandido a esses manuscritos pode acelerar o ritmo de descobertas e, como consequência, nosso entendimento de saúde e doenças”, afirmou o neurocientista Cori Bargmann, presidente do Departamento de Ciências da CZI.

Iniciativas como o BioRxiv já são altamente disseminadas em outras áreas do conhecimento, como no  campo da física, matemática e ciências sociais com o site Rxiv (archive) que aceita “preprints” dessas áreas há 25 anos, mas para os pesquisadores do campo da biologia e de saúde isso tudo é uma grande novidade.

O servidor certamente contribuirá para todas as áreas da biologia,  principalmente para a saúde. Uma das contribuições mais evidentes é reportar rapidamente surtos de doenças infecciosas, como no começo do ano de 2013, quando cientistas submeteram ao Rxiv um relatório a respeito de surtos de gripe aviária (H7N9) que ocorriam na China.

O sistema atual de publicação de artigos científicos é caro, restringe o acesso à ciência aos meios especializados e torna o desenvolvimento científico mais lento, artigos podem levar até um ano para serem publicados.  Diante desse cenário, a comunidade científica deve considerar que uma ação como o BioRxiv pode realmente representar um avanço no jeito de fazer e divulgar ciência.

¹Nem todos os artigos científicos são, obrigatoriamente, escritos em inglês, porém os textos em inglês podem ser lidos por qualquer pessoa ao redor do mundo.

²Fator de impacto: é uma medida que calcula o número médio de citações de artigos científicos publicados em determinado periódico.

 

Links

Mais sobre Sci-hub

BioRxiv

Mais sobre BioRxiv (inglês)

 

 

0

A semente do ódio

Diversos estudos tem buscado compreender melhor o que leva nascidos em países desenvolvidos e distantes dos atuais conflitos armados que engendram grupos considerados terroristas a integrarem esses mesmos grupos, com destaque para as teorias no campo das ciências psicológicas e comportamentais.

Em esforço de campo considerável para subsidiar essas teorias, a equipe liderada por Milan Obaidi (Uppsala University, Suécia) publicou recentemente estudo em que buscou confrontar dois grupos: de um lado, imigrantes muçulmanos nascidos na Dinamarca ou sem experiência direta com intervenções militares no país de origem; de outro, afegãos que residiam no país de origem à época da intervenção militar da OTAN nesse país em 2001. No primeiro grupo, cerca de 93% tinha idade entre 18 e 34 anos — a faixa etária da maioria dos suspeitos de terrorismo [1]. No segundo, eram cerca de 66% de 20 a 30 anos [2].

Esse estudo, entre outros resultados relevantes, indicou que muçulmanos nascidos na Dinamarca comparados aos de primeira geração (aqueles que imigraram para a Dinamarca, tanto os com quanto sem experiência direta com a intervenção da OTAN)  [3]:

  • sentem-se mais identificados com muçulmanos pelo mundo;
  • acham menos justa a política externa ocidental;
  • sentem mais ódio coletivo;
  • pensam mais em apoiar a comunidades muçulmanas por meios não-violentos;
  • ressentem mais as intervenções militares da OTAN em um país no qual não foram nascidos.

Algo acontece, portanto, nos países que acolhem esses muçulmanos que os ali nascidos sentem mais “ódio” do que os pais e mais do que quem ficou no local de origem destes, mesmo a milhas de distância do conflito a que veementemente repudiam [4].

Mais ressentidas, as novas gerações nascidas longe dos conflitos estariam ainda mais propensas à violência do que os inseridos nesses contextos e de quem, por sua maior proximidade geográfica, poderia se esperar um envolvimento mais direto com os grupos ditos terroristas.

Para os autores, essas conclusões são exemplo de “resposta psicológica por substituição”, a qual poderia se agravar em casos de isolamento e exclusão em comunidades étnicas como ocorre com a muçulmana na Europa. A esse respeito, vale citar um entrevistado da segunda geração, para quem outros dinamarqueses os veriam como: “(…) elementos indesejáveis na sociedade dinamarquesa, e nós nunca seremos ‘dinamarqueses’ a seus olhos. Para eles, nós sempre seremos um grupo indesejável e excluído.” [5]

A semente do ódio, afinal, muito mais do que em uma ou outra religião, pode ser encontrada simplesmente naquela velha inimiga: a exclusão social. Essa semente, definitivamente, não “nasce” com as pessoas.


Notas:

[1] OBAIDI et. al.; 2017; p. 10. No original e na íntegra: “Respondent ages ranged from 16 to 74, with the majority between 18-34-age (i.e., 93.6% of the total sample). Importantly, the age of these participants matches the distribution of those who join terrorist organizations in Europe (e.g., Bakker, 2006). All participants identified as either first (56.7%) second (34.9%) or third (1.9%) generation Muslim immigrants to Denmark.” Trad. livre.

[2] OBAIDI et. al.; 2017; p. 17. No original e na íntegra: “Respondent ages ranged from 18 to 65, with the majority between 20-30-age (i.e., 65.9% of the total sample). All participants identified as either first (63.9%), second (27.7%) or third (1.3%) generation Muslim immigrants in Denmark.” Trad. livre.

[3] OBAIDI et. al.; 2017; p. 22. No original e na íntegra: “Beyond the path models, additional results from Study 1 showed that native-born participants were more strongly identified with Muslims, perceived Western foreign policies as more unjust, felt more group-based anger and showed stronger intentions to support Muslims by non-violent means. In study 2 we found the same trends.” Trad. livre; grifos no original.

[4] OBAIDI et. al.; 2017; p. 22. No original e na íntegra: “Overall, an important lesson from this inquiry is that the current focus on the relation between Muslims and non-Muslims in the Middle East must be complemented with a stronger focus on the intergroup dynamics within Western societies.” Trad. livre.

[5] OBAIDI et. al.; 2017; p. 23. No original e na íntegra: “As one interviewee put it “many Danes [ethnic Danes] see us as an undesirable element in the Danish society, although we are born and raised here. We speak Danish, we think Danish and we feel Danish, but we will never be ‘Danes’ in the Danes’ eyes. For them we will always be an unwanted and excluded group of people” (Translated from Danish; Obaidi, 2017).” Trad. livre.

——-

– Bibliografia –

OBAIDI, Milan; BERGH, Robin; SIDANIUS, Jim; THOMSEM, Lotte. The Mistreatment of My People: Victimization by Proxy and Behavioral Intentions to Commit Violence Among Muslims in Denmark. IN: Political Psychology, jun 2017. Disponível: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/pops.12435/abstract>

Free version (for review only):<www.academia.edu/32662712/The_Mistreatment_of_My_People_Victimization-by-proxy_and_Behavioral_Intentions_to_Commit_Violence_among_Muslims_in_Denmark_The_Mistreatment_of_My_People_Victimization-by-proxy_and_Behavioral_Intentions_to_Commit_Violence_among_Muslims_in_Denmark>

 

Ver também:
Journalists Resource. “Muslims in Europe: Considering anger among immigrants’ children” [26 Jul 2017]. Disponível: <https://journalistsresource.org/studies/international/conflicts/muslims-europe-radicalism-immigrants-children-jihad?utm_source=JR-email&utm_medium=email&utm_campaign=JR-email>

1

O blockchain veio para ficar?

(Imagem: allanlau2000)

A tecnologia blockchain tem sido comentada em diversas notícias na imprensa e na maior parte das vezes atrelada ao uso de moedas digitais como o bitcoin. Porém, ela tem potencial para muitos outros usos, podendo auxiliar no desenvolvimento de estruturas sociais e econômicas mais transparentes e distribuídas. Mas afinal, o que é esse tal de blockchain?

O blockchain é um tipo de banco de dados descentralizado que guarda um registro de transações de modo permanente e à prova de violação. Ele possui a função de criar um índice global para todas as transações que ocorrem em uma determinada área. Pode-se pensar no funcionamento similar ao dos livros de registro de um cartório, só que de forma pública, compartilhada e universal, que cria confiança na comunicação direta entre duas partes, ou seja, sem o intermédio de terceiros.

Há dois tipos de registros no blockchain: transações individuais e blocos. Um bloco é a parte atual do blockchain na qual são registradaas algumas ou todas as transações mais recentes e, uma vez concluído, é guardado de modo linear e cronológico no blockchain como um banco de dados permanente. Assim que um bloco é concluído um novo é gerado, existindo um número infinito de blocos, que são linkados uns aos outros através de uma referência para o bloco anterior.

Além de ser um banco de dados descentralizado, o blockchain também é uma rede peer-to-peer (P2P). Essa rede consiste em uma série de computadores e servidores que atuam como nós na rede. Quando uma nova transação ocorre na rede, a informação dela é propagada entre todos os nós da rede P2P, normalmente criptografada, não havendo como rastrear quem adicionou a informação na rede e sendo possível apenas verificar sua validade. Cada nó obtém uma cópia do blockchain após o ingresso na rede.

O blockchain tem sido aplicado a situações em que é necessário manter a informação de propriedade e o histórico das interações. Já existem diferentes usos sendo explorados em pesquisas científicas e até algumas soluções já chegaram ao mercado.

O uso mais difundido é o de moedas digitais ou criptomoedas. O bitcoin é considerada a primeira moeda digital descentralizada e permite executar transações financeiras sem intermediários, sendo que estas transações são verificadas por nós da rede P2P e gravadas em um banco de dados distribuídos, usando a tecnologia blockchain. A transferência de bitcoins se dá através do seguinte processo:

  1. O usuário que fará o pagamento precisa saber o endereço destinatário que pode ser informado através de texto, ou através de um código de barras do tipo QR code, que será escaneado pelo dispositivo do usuário pagador;
  2. O programa de carteira do usuário pagador criará a transação, sendo que o usuário precisa apenas informar a quantia de bitcoins que enviará e qual o endereço de destino;
  3. Para transmitir a transação à rede bitcoin, o usuário precisa apenas conectar-se à Internet. Não é possível cancelar ou reverter uma transação após ela ter sido enviada pela rede. Para ter os bitcoins associados ao seu próprio endereço, o destinatário não precisa estar online no momento da transação e não precisa confirmá-la.

Uma carteira bitcoin armazena as informações que são necessárias para se fazer transações com bitcoin, utilizando criptografia de chave pública. A chave privada é responsável pelo acesso aos fundos da carteira, enquanto que a chave pública pode ser espalhada para receber fundos.

Vários países já estão atentos a esse movimento das moedas digitais e estudam a possibilidade de adotá-las, como é o caso da Estônia que pretende ser o primeiro país a criar uma moeda digital estatal, o EstCoin. Nesse mesmo sentido, a empresa R3 lidera um consórcio de mais de 80 instituições financeiras no mundo para a pesquisa e o desenvolvimento usando blockchain para esse mercado. Um dos estudos vai no sentido de facilitar o processo de transferência internacional de valores entre diferentes instituições financeiras, o que hoje é um processo bastante burocrático e demorado.

Porém, há muitos outros exemplos interessantes de aplicações usando blockchain. O MIT desenvolveu uma prova de conceito em que o blockchain é usado para disponibilização de certificados de conclusão de curso, possibilitando a verificação da autenticidade dos mesmos sem a necessidade de cartório. Uma startup inglesa desenvolveu uma solução em que se rastreia a origem, a qualidade e outras várias características dos diamantes encontrados no mercado com o uso de blockchain. Na mesma linha de rastreamento de objetos, a empresa londrina Deloitte, especializada em prestação de serviços financeiros e assessoria de riscos, desenvolveu uma prova de conceito em que o blockchain é usado para o rastreamento de obras de arte e empréstimo entre museus, sendo possível verificar a autenticidade de determinada obra. Na área de benefícios sociais, o blockchain já vem sendo empregado pelo governo da Finlândia na concessão de ajuda financeira para refugiados.

Apesar de já existir alguns usos comerciais do blockchain, ele ainda é um tema quente de pesquisa, pois há várias questões a serem respondidas: será que ele veio para ficar? em quais casos é vantajoso usá-lo em detrimento a soluções já bem estabelecidas? ele irá acabar com a estrutura financeira atual do mundo? e com os cartórios? será que ele irá auxiliar no desenvolvimento de estruturas sociais e econômicas mais transparentes e distribuídas? Essas e tantas outras são perguntas que só o tempo e muita pesquisa poderão responder.

0

Organoides: os “miniórgãos” criados em laboratório.

Você já ouviu falar nos “miniórgãos”? Também chamados de organoides, essas estruturas estão sendo bastante estudadas atualmente, e não é de se espantar! Os organóides são estruturas tridimensionais originadas a partir de células-tronco ou células progenitoras (células com seu potencial de diferenciação completo e células já no início do processo de diferenciação em um tipo celular específico) e que se assemelham a um tecido original específico. Para que essas células se rearranjem corretamente e deem origem a um organóide cerebral ou intestinal, por exemplo, algumas especificidades serão atendidas durante a sua produção. Apesar de sua produção ainda ser estudada e aprimorada, muitos modelos organoides já estão sendo utilizados na pesquisa científica em busca de resultados que sejam fisiologicamente semelhantes a órgãos in vivo (ou seja, em um organismo vivo e funcional).

Modelos de intestino, estômago, pâncreas, fígado, próstata e cérebro já são utilizados em trabalhos que buscam respostas em relação a diversas doenças relacionadas a estes órgãos, além de serem modelos eficientes para estudos na área da medicina regenerativa (para saber mais sobre a medicina regenerativa clique aqui). Recentemente, a Dra. Patrícia Pestana Garcez, o Dr. Steves Rehen e sua equipe na UFRJ demonstraram a relação entre a microcefalia e o vírus da zika a partir de organoides cerebrais, os “minicérebros”. Com a utilização de organoides, as pesquisas zika-microcefalia continuam ativas buscando compreender o máximo desta relação e, consequentemente, encontrar soluções sempre que possível (para saber mais sobre o vírus Zika, clique aqui). Na Keio University, no Japão, o pesquisador Toshi Sato produziu germes dentários (estrutura embrionária que dá origem ao dente) a partir de organoides formados pelo conjunto de células-tronco mesenquimais e epiteliais e os implantaram em camundongos. A partir dos implantes, um novo dente foi eficientemente formado.

modelo-3d-cerebro

Fonte:  Sousa & Resende, Bio&Tecnologia, Neurociência, Saúde, 2014.

Os organoides são um modelo muito atrativo, já que tem potencial para se assemelhar ao local de interesse de uma determinada área de estudo. Assim, as respostas observadas nas experimentações em laboratório serão mais próximas da realidade, o que é especialmente importante se o interesse da pesquisa é encontrar respostas e melhor compreender doenças, suas relações com fatores externos ou mesmo testes farmacológicos.

 

Referências

https://cientistasdescobriramque.com/2017/05/16/organoides-muito-mais-que-apenas-orgaos-em-miniatura/

Yin, X. et al. Engineering Stem Cell Organoids. Cell Stem Cell, 2015.

Sousa & Resende MODELO TRIDIMENSIONAL DE CÉREBRO HUMANO PARA ESTUDO DE DOENÇAS NEURODEGENERAGIVAS. Bio&Tecnologia, Neurociência, Saúde, 2014.

http://ciencia.estadao.com.br/blogs/herton-escobar/cientistas-brasileiros-mostram-que-zika-pode-matar-celulas-neuronais/

0

Como os microplásticos jogados no mar estão chegando ao fundo dos oceanos?

Nos dias de hoje, muito se fala sobre a poluição que nós, humanos, causamos ao meio ambiente. Um dos principais problemas neste âmbito se deve ao descarte inadequado de plásticos e microplásticos (partículas com diâmetro menor que 5mm) nos oceanos, podendo prejudicar todo aquele ecossistema. Caso não haja nenhuma alteração significativa em relação ao descarte deste tipo de material, a previsão é que a quantidade a ser jogada no mar aumente até 250 milhões de toneladas métricas até 2025! A previsão caso não haja nenhuma alteração significativa em relação ao descarte desse material, é que a sua quantidade a ser jogado no mar até 2025 aumente até 250 milhões de toneladas métricas !

Dessa maneira, é importante entender as consequências que estes resíduos podem trazer para os ambientes marinhos e seus organismos. Já existem estudos mostrando impactos no ecossistema causados por resíduos de plásticos variando desde riscos físicos, bloqueio digestivo devido a ingestão pela fauna marinha até danos ecotoxicológicos gerados por contaminantes provenientes do plástico e sua transferência entre os níveis tróficos da cadeia alimentar marinha.

Com o objetivo de elucidar um pouco melhor a relação dos animais marinhos com os resíduos os quais estão sendo submetidos frequentemente, Kakani Katija e outros pesquisadores, do Instituto de Pesquisa do Aquário de Monterey Bay, nos Estados Unidos, resolveram submeter um organismo conhecido como larvacea gigante (Bathochordaeus stygius) (figura 1) a pedaços de microplásticos coloridos. Assim, eles poderiam analisar o que aconteceria com o plástico ao ser ingerido e processado pelo animal.

b-charon

Figura 1 – Bathochordaeus stygius também conhecida como larvacea gigante

B. stygius é um animal marinho, que faz parte do zooplâncton e são filtradores ativos. Eles são conhecidos por secretarem muco que constrói o local onde habitam. Além disso, são transparentes (figura 1) e dessa maneira, seria possível visualizar os pedaços coloridos de microplástico ao longo de seu corpo. Os animais foram submetidos às partículas de microplástico colorido e, com auxílio de um robô submarino acoplado a uma câmera, os pesquisadores conseguiram monitorar a ingestão.

De maneira geral, foi possível concluir que estes animais são capazes de ingerir estes resíduos e eliminá-los como forma de agregados que irão afundar para o fundo oceânico. Sendo assim, B. stygius pode ser um vetor importante para a movimentação de grandes quantidades de resíduos microplásticos de perto da superfície para o fundo do mar, levando a conclusão de que a poluição causada por plástico pode não ser somente um problema da superfície do mar, como é comumente caracterizada. O significado real desta movimentação e se ela de fato ocorre no ambiente marinho (in situ), ainda precisam ser mais investigados.

Vídeo mostrando o experimento sendo realizado: clique aqui.

 

Referências:

1 – K. Katija et al. From the surface to the seafloor: How giant larvaceans transport microplastics into the deep sea. Science Advances. Vol. 3. August 16, 2017, p. E1700715. doi 10.1126/sciadv.1700715

2 – https://www.sciencenews.org/blog/science-ticker/giant-larvaceans-could-be-ferrying-ocean-plastic-seafloor – Acessado em 13 de setembro de 2017

3 – http://advances.sciencemag.org/content/3/8/e1700715 – Acessado em 13 de setembro de 2017