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Como se formam os furacões e porque eles podem se tornar mais frequentes e mais destrutivos.

Harvey, Irma, José, Kátia, Maria… A temporada dos furacões e tempestades tropicais do Atlântico 2017 veio com muito intensidade e potencial destrutivo, atingido principalmente as ilhas caribenhas, mas também partes dos Estados Unidos. Essa temporada tem chamado a atenção não somente pela quantidade de furacões, mas também pela intensidade deles e pelo seu tamanho. Pela primeira vez desde 2010, três furacões de alto potencial destrutivo estiveram ativos ao mesmo tempo no Oceano Atlântico (Ver figura abaixo); um deles, Irma, atingiu o continente com categoria 5 na escala Saffir-Simpson (ver Infográfico) com área de ação maior que o estado do Texas. O rastro de destruição deixados por esses furacões, em especial Harvey e Irma, é similar à temporada de 2005 quando os furacões Katrina e Wilma protagonizaram a maior destruição já registrada ao atingirem à Louisiana e o Caribe, respectivamente.

Os recentes eventos levantam o questionamento se a frequência e intensidade desses fenômenos seria considerada normal. Para discutir isso, o blog Cientistas Feministas explica como se formam os furacões e como o aquecimento global pode estar fortalecendo e aumentando a ocorrência desses fenômenos.

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Registro dos três furacões ativos no Oceano Atlântico na temporada de 2017. Fonte: National Hurricane Center, NOAA.

 

Como se formam os furacões?

Furacões são as tempestades mais violentas do nosso planeta e, como necessitam de calor para se formarem, normalmente ocorrem na região equatorial. Eles são classificados em cinco categorias em uma escala chamada Saffir-Simpson que levam em consideração a pressão medida no centro do fenômeno, velocidade dos ventos e tempestades provocadas pelo furacão¹.

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Infográfico da Escala Saffir-Simpson comparando com os ventos esperados para o furacão Irma. Fonte: BBC Brasil.

Os ingredientes básicos para a formação de um furacão são:

1) Ar quente e úmido como combustível || Os furacões se alimentam da água quente do oceano superficial e é por isso que somente se formam em regiões tropicais e equatoriais onde as águas oceânicas estão acima dos 26°C nos primeiros 50m de profundidade.

2) Vento || No caso dos furacões do oceano Atlântico, os ventos de leste para oeste que vêm da África na região equatorial são os responsáveis pela formação dessas estruturas. Quando em contato com a superfície do oceano quente, a água evapora e sobe. Esse vapor de água se resfria à medida que ganha altura, condensando novamente em gotículas de água e, eventualmente, formando as conhecidas nuvens de tempestade cumulonimbus.

Como o ar quente, mais leve, se moveu para cima, há menos ar deixado perto da superfície do oceano, gerando uma baixa pressão. O ar das áreas circundantes de maior pressão é “empurrado” para a área de baixa pressão. Então, esse ar “novo” aquece, fica mais úmido e também sobe. É dessa forma que as tempestades se formam: à medida que mais ar quente continua a subir, o ar circundante se arrasta para tomar seu lugar e, conforme o ar aquecido e úmido se eleva e esfria, o vapor d’água condensa formando mais nuvens. Todo o sistema de nuvens e vento gira (por conta do efeito de rotação da Terra) e cresce, alimentado pelo calor do oceano e água evaporando da superfície. Conforme o sistema vai girando mais rápido um olho com pressão bastante baixa se forma no centro para onde o ar das pressões mais alta flui enquanto a tempestade gira. Quando os ventos atingem 62 km/h, a tempestade é chamada de tempestade tropical. E quando as velocidades do vento atingem 119 km/h, a tempestade é oficialmente um furacão.

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À esquerda, um esquema feito pela NASA de um furacão, como se ele tivesse sido fatiado na horizontal. As setas vermelhas finas mostram o ar subindo da superfície do oceano e formando as camadas de nuvens ao redor do olho. As setas azuis representam o ar já resfriado e seco de alta pressão fluindo para o olho entre as nuvens. As setas vermelhas largas mostram o giro do cone de nuvens em ascensão.

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À direita uma imagem de satélite do Furacão Irma fornecida pelo NOAA Satellite and Information Service.

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Enquanto estiverem sobre o oceano superficial de águas quentes, os furacões irão crescer e aumentar sua velocidade. Esses sistemas geralmente se enfraquecem quando atingem a terra, porque já não estão sendo “alimentados” pela energia das águas quentes dos oceanos. No entanto, muitas vezes se movem para o interior, causando destruição por conta dos fortes ventos e grandes volumes de chuva antes de se desfazerem completamente².

Mudanças Climáticas vs Eventos Extremos

Já existe consenso entre a comunidade científica no sentido de que o aquecimento global levará, em tempo, à intensificação e ao aumento da frequência de eventos extremos, como enchentes, deslizamentos, secas, ondas de calor e furacões³. Já falamos um pouco sobre isso no último Dia Mundial dos Oceanos.

No caso da presente temporada de furacões do Atlântico, além do impacto do aquecimento global, é preciso analisar outros fatores que influenciam na formação dos furacões nessa região. Em anos de El Niño, fenômeno de aquecimento anômalo das águas do oceano Pacífico equatorial, os furacões tendem a aumentar sua incidência no Pacífico e reduzir sua frequência no Atlântico. Como nesse ano de 2017 não estamos em um ano de El Niño, é preciso também levar isso em consideração ao caracterizar a intensidade desses fenômenos².

De qualquer modo, a formação dos furacões e sua intensidade estão intimamente ligadas às temperaturas superficiais dos oceanos que aumentaram significativamente nas últimas décadas e continuarão aumentando pelo menos até o fim do século4. Um oceano mais quente tende a formar furacões em maior número e de maior intensidade. A série histórica do National Hurricane Center já mostra que houve um aumento nos furacões mais intensos e que a frequência dos furacões observada em 2017 não é normal, mas também não pode mais ser considerada uma exceção, visto que essa situação se repete a cada 15 anos em média².

O aumento na frequência e força desses fenômenos até que deixem de ser extremos e passem à chamada “condição normal” é uma das consequências diretas das mudanças climáticas de maior impacto econômico. Mais pesquisas são necessárias para que se quantifique a relação entre o aquecimento global e os furacões, mas as evidências já apontam para a necessidade imediata de mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e controle de emissões de gases do efeito estufa a fim de evitar um futuro cenário catastrófico.

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Referências:

¹ What are Hurricanes? NASA knows series. https://www.nasa.gov/audience/forstudents/k-4/stories/nasa-knows/what-are-hurricanes-k4.html

² Tropical Cyclone Climatology, National Hurricane Center, NOAA, USA. http://www.nhc.noaa.gov/climo/

3 From, A. Explaining Extreme Events of 2014. 2015. Bulletin of the American Meteorological Society, 96 (12).

4 Change, IPCC Climate. 2013. The physical science basis. Contribution of working group I to the fifth assessment report of the intergovernmental panel on climate change, 1535 pp.

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Uma nova maneira de divulgar descobertas científicas

Você que é pesquisador, pós-doc, doutorando, mestrando ou até mesmo um aluno de Iniciação Científica, provavelmente, já se deparou com as dificuldades inerentes à publicação de um artigo científico. Pra quem não é da área acadêmica, eu explicarei as etapas necessárias para que um artigo seja aceito para publicação em um bom periódico.

Primeiramente, é necessário o desenvolvimento de um projeto que deve ser avaliado quanto a sua justificativa, objetivo e métodos para obtenção de resultados confiáveis e consistentes. Após o desenvolvimento de todo o seu projeto e análise dos seus resultados, nada mais o impede de começar a escrever o seu artigo científico.

A maioria dos artigos da área de ciências biológicas e saúde é dotada de cinco seções: Resumo, Introdução, Material e Métodos, Resultados e, por fim, Discussão. Essa estrutura é a mais comum, porém alguns artigos das áreas de ciências humanas e sociais podem adotar estilos de redação diferentes. Se você quiser o passo-a-passo de como um artigo científico deve ser escrito, acesse o texto: Como escrever um artigo científico do site Pós-graduando.

Em geral, artigos científicos são curtos e não ultrapassam 10 páginas. Por isso, a capacidade de síntese é algo importante, apesar de difícil, na hora de escrever. Depois de conseguir fazer toda a sua pesquisa caber em poucas páginas escritas em inglês formal¹ você estará pronto para submeter seu artigo, juntamente com todas as suas figuras, gráficos e tabelas, em um periódico científico de preferência com alto fator de impacto².

Uma vez submetido, o artigo passará por uma análise de revisão rigorosa que conta, geralmente, com 2 revisores e 1 editor. Eles vão ler seu trabalho, avaliá-lo e decidir se será aceito, negado ou se precisará passar por correções e uma nova análise para poder ser publicado. A maioria dos periódicos são “peer-reviewed”, ou seja, revisado por pares, isso significa que os pesquisadores que revisarão seu manuscrito são, preferencialmente, da mesma área de pesquisa que você.

Digamos que após algumas correções e rigorosa análise, o seu artigo tenha sido aceito em um periódico. Você pensa: “nossa que ótima notícia, agora todos os pesquisadores do mundo inteiro que tenham interesse pelo meu campo de trabalho poderão acessar meu texto e ler minhas contribuições para a área.” Na verdade, não é bem assim que as coisas funcionam…

Os bons periódicos com acesso aberto (Open Access) ao público, geralmente cobram na faixa de U$1,000 para publicar um artigo. Existem revistas que não cobram para publicação, porém o acesso ao seu artigo fica restrito a assinantes daquela revista, como universidades e institutos de pesquisa. Para os não assinantes, existe uma taxa de cerca de U$40  para permitir acesso ao texto.

Por conta dessas dificuldades, surgiram algumas iniciativas, como o sci-hub. O sci-hub é um site fundado em 2011 pela neurocientista Alexandra Elbakyan, no qual são encontrados cerca de 62 milhões de artigos científicos das mais variadas áreas e revistas. Apesar de ser uma nobre iniciativa, que visa derrubar as barreiras da ciência, o sci-hub é ilegal, já foi retirado do ar diversas vezes e enfrenta graves acusações de roubo de direitos autorais.

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Fonte: Sci-hub. Tradução livre: ..para remover todas as barreiras no caminho da ciência.

Mais um importante projeto criado pela instituição Cold Spring Harbor Laboratory sediada em Nova Iorque, é o BioRxiv (lê-se bio-archive), um site autointitulado de “the preprint server for biology” (em tradução livre: “servidor para artigos pré-publicados de biologia”) que opera como uma revista científica para artigos que ainda não foram formalmente revisados e publicados. O BioRxiv foi lançado no final de 2013 e já conta com cerca de 10 mil manuscritos disponíveis para serem acessados por qualquer pessoa.

A plataforma funciona da seguinte maneira: pesquisadores podem submeter  rascunhos de seus artigos assim que estiverem prontos para serem compartilhados, com semanas, ou meses antes de serem formalmente publicados em uma revista científica.

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Fonte: Nature. doi: 10.1038/503180a. Tradução livre: Os “preprints” ganham vida.

O objetivo do BioRxiv é acelerar o compartilhamento de resultados científicos importantes que ficariam “escondidos” até serem aceitos para publicação em algum periódico. O mais legal desta plataforma é que outros cientistas podem deixar comentários e te ajudar no processo de evolução do seu manuscrito. Uma vez que um artigo é adicionado no BioRxiv ele não pode ser removido, pois o site permite sua citação por outros autores. Depois de ser aceito para publicação, o site atualiza automaticamente a versão “preprint” com um link para a versão publicada.

Em abril deste ano foi divulgado que o servidor recebeu uma grande contribuição de Chan Zuckerberg Initiative (CZI) para a expansão do site e adição de mais ferramentas. “O acesso expandido a esses manuscritos pode acelerar o ritmo de descobertas e, como consequência, nosso entendimento de saúde e doenças”, afirmou o neurocientista Cori Bargmann, presidente do Departamento de Ciências da CZI.

Iniciativas como o BioRxiv já são altamente disseminadas em outras áreas do conhecimento, como no  campo da física, matemática e ciências sociais com o site Rxiv (archive) que aceita “preprints” dessas áreas há 25 anos, mas para os pesquisadores do campo da biologia e de saúde isso tudo é uma grande novidade.

O servidor certamente contribuirá para todas as áreas da biologia,  principalmente para a saúde. Uma das contribuições mais evidentes é reportar rapidamente surtos de doenças infecciosas, como no começo do ano de 2013, quando cientistas submeteram ao Rxiv um relatório a respeito de surtos de gripe aviária (H7N9) que ocorriam na China.

O sistema atual de publicação de artigos científicos é caro, restringe o acesso à ciência aos meios especializados e torna o desenvolvimento científico mais lento, artigos podem levar até um ano para serem publicados.  Diante desse cenário, a comunidade científica deve considerar que uma ação como o BioRxiv pode realmente representar um avanço no jeito de fazer e divulgar ciência.

¹Nem todos os artigos científicos são, obrigatoriamente, escritos em inglês, porém os textos em inglês podem ser lidos por qualquer pessoa ao redor do mundo.

²Fator de impacto: é uma medida que calcula o número médio de citações de artigos científicos publicados em determinado periódico.

 

Links

Mais sobre Sci-hub

BioRxiv

Mais sobre BioRxiv (inglês)

 

 

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A semente do ódio

Diversos estudos tem buscado compreender melhor o que leva nascidos em países desenvolvidos e distantes dos atuais conflitos armados que engendram grupos considerados terroristas a integrarem esses mesmos grupos, com destaque para as teorias no campo das ciências psicológicas e comportamentais.

Em esforço de campo considerável para subsidiar essas teorias, a equipe liderada por Milan Obaidi (Uppsala University, Suécia) publicou recentemente estudo em que buscou confrontar dois grupos: de um lado, imigrantes muçulmanos nascidos na Dinamarca ou sem experiência direta com intervenções militares no país de origem; de outro, afegãos que residiam no país de origem à época da intervenção militar da OTAN nesse país em 2001. No primeiro grupo, cerca de 93% tinha idade entre 18 e 34 anos — a faixa etária da maioria dos suspeitos de terrorismo [1]. No segundo, eram cerca de 66% de 20 a 30 anos [2].

Esse estudo, entre outros resultados relevantes, indicou que muçulmanos nascidos na Dinamarca comparados aos de primeira geração (aqueles que imigraram para a Dinamarca, tanto os com quanto sem experiência direta com a intervenção da OTAN)  [3]:

  • sentem-se mais identificados com muçulmanos pelo mundo;
  • acham menos justa a política externa ocidental;
  • sentem mais ódio coletivo;
  • pensam mais em apoiar a comunidades muçulmanas por meios não-violentos;
  • ressentem mais as intervenções militares da OTAN em um país no qual não foram nascidos.

Algo acontece, portanto, nos países que acolhem esses muçulmanos que os ali nascidos sentem mais “ódio” do que os pais e mais do que quem ficou no local de origem destes, mesmo a milhas de distância do conflito a que veementemente repudiam [4].

Mais ressentidas, as novas gerações nascidas longe dos conflitos estariam ainda mais propensas à violência do que os inseridos nesses contextos e de quem, por sua maior proximidade geográfica, poderia se esperar um envolvimento mais direto com os grupos ditos terroristas.

Para os autores, essas conclusões são exemplo de “resposta psicológica por substituição”, a qual poderia se agravar em casos de isolamento e exclusão em comunidades étnicas como ocorre com a muçulmana na Europa. A esse respeito, vale citar um entrevistado da segunda geração, para quem outros dinamarqueses os veriam como: “(…) elementos indesejáveis na sociedade dinamarquesa, e nós nunca seremos ‘dinamarqueses’ a seus olhos. Para eles, nós sempre seremos um grupo indesejável e excluído.” [5]

A semente do ódio, afinal, muito mais do que em uma ou outra religião, pode ser encontrada simplesmente naquela velha inimiga: a exclusão social. Essa semente, definitivamente, não “nasce” com as pessoas.


Notas:

[1] OBAIDI et. al.; 2017; p. 10. No original e na íntegra: “Respondent ages ranged from 16 to 74, with the majority between 18-34-age (i.e., 93.6% of the total sample). Importantly, the age of these participants matches the distribution of those who join terrorist organizations in Europe (e.g., Bakker, 2006). All participants identified as either first (56.7%) second (34.9%) or third (1.9%) generation Muslim immigrants to Denmark.” Trad. livre.

[2] OBAIDI et. al.; 2017; p. 17. No original e na íntegra: “Respondent ages ranged from 18 to 65, with the majority between 20-30-age (i.e., 65.9% of the total sample). All participants identified as either first (63.9%), second (27.7%) or third (1.3%) generation Muslim immigrants in Denmark.” Trad. livre.

[3] OBAIDI et. al.; 2017; p. 22. No original e na íntegra: “Beyond the path models, additional results from Study 1 showed that native-born participants were more strongly identified with Muslims, perceived Western foreign policies as more unjust, felt more group-based anger and showed stronger intentions to support Muslims by non-violent means. In study 2 we found the same trends.” Trad. livre; grifos no original.

[4] OBAIDI et. al.; 2017; p. 22. No original e na íntegra: “Overall, an important lesson from this inquiry is that the current focus on the relation between Muslims and non-Muslims in the Middle East must be complemented with a stronger focus on the intergroup dynamics within Western societies.” Trad. livre.

[5] OBAIDI et. al.; 2017; p. 23. No original e na íntegra: “As one interviewee put it “many Danes [ethnic Danes] see us as an undesirable element in the Danish society, although we are born and raised here. We speak Danish, we think Danish and we feel Danish, but we will never be ‘Danes’ in the Danes’ eyes. For them we will always be an unwanted and excluded group of people” (Translated from Danish; Obaidi, 2017).” Trad. livre.

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– Bibliografia –

OBAIDI, Milan; BERGH, Robin; SIDANIUS, Jim; THOMSEM, Lotte. The Mistreatment of My People: Victimization by Proxy and Behavioral Intentions to Commit Violence Among Muslims in Denmark. IN: Political Psychology, jun 2017. Disponível: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/pops.12435/abstract>

Free version (for review only):<www.academia.edu/32662712/The_Mistreatment_of_My_People_Victimization-by-proxy_and_Behavioral_Intentions_to_Commit_Violence_among_Muslims_in_Denmark_The_Mistreatment_of_My_People_Victimization-by-proxy_and_Behavioral_Intentions_to_Commit_Violence_among_Muslims_in_Denmark>

 

Ver também:
Journalists Resource. “Muslims in Europe: Considering anger among immigrants’ children” [26 Jul 2017]. Disponível: <https://journalistsresource.org/studies/international/conflicts/muslims-europe-radicalism-immigrants-children-jihad?utm_source=JR-email&utm_medium=email&utm_campaign=JR-email>

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O blockchain veio para ficar?

(Imagem: allanlau2000)

A tecnologia blockchain tem sido comentada em diversas notícias na imprensa e na maior parte das vezes atrelada ao uso de moedas digitais como o bitcoin. Porém, ela tem potencial para muitos outros usos, podendo auxiliar no desenvolvimento de estruturas sociais e econômicas mais transparentes e distribuídas. Mas afinal, o que é esse tal de blockchain?

O blockchain é um tipo de banco de dados descentralizado que guarda um registro de transações de modo permanente e à prova de violação. Ele possui a função de criar um índice global para todas as transações que ocorrem em uma determinada área. Pode-se pensar no funcionamento similar ao dos livros de registro de um cartório, só que de forma pública, compartilhada e universal, que cria confiança na comunicação direta entre duas partes, ou seja, sem o intermédio de terceiros.

Há dois tipos de registros no blockchain: transações individuais e blocos. Um bloco é a parte atual do blockchain na qual são registradaas algumas ou todas as transações mais recentes e, uma vez concluído, é guardado de modo linear e cronológico no blockchain como um banco de dados permanente. Assim que um bloco é concluído um novo é gerado, existindo um número infinito de blocos, que são linkados uns aos outros através de uma referência para o bloco anterior.

Além de ser um banco de dados descentralizado, o blockchain também é uma rede peer-to-peer (P2P). Essa rede consiste em uma série de computadores e servidores que atuam como nós na rede. Quando uma nova transação ocorre na rede, a informação dela é propagada entre todos os nós da rede P2P, normalmente criptografada, não havendo como rastrear quem adicionou a informação na rede e sendo possível apenas verificar sua validade. Cada nó obtém uma cópia do blockchain após o ingresso na rede.

O blockchain tem sido aplicado a situações em que é necessário manter a informação de propriedade e o histórico das interações. Já existem diferentes usos sendo explorados em pesquisas científicas e até algumas soluções já chegaram ao mercado.

O uso mais difundido é o de moedas digitais ou criptomoedas. O bitcoin é considerada a primeira moeda digital descentralizada e permite executar transações financeiras sem intermediários, sendo que estas transações são verificadas por nós da rede P2P e gravadas em um banco de dados distribuídos, usando a tecnologia blockchain. A transferência de bitcoins se dá através do seguinte processo:

  1. O usuário que fará o pagamento precisa saber o endereço destinatário que pode ser informado através de texto, ou através de um código de barras do tipo QR code, que será escaneado pelo dispositivo do usuário pagador;
  2. O programa de carteira do usuário pagador criará a transação, sendo que o usuário precisa apenas informar a quantia de bitcoins que enviará e qual o endereço de destino;
  3. Para transmitir a transação à rede bitcoin, o usuário precisa apenas conectar-se à Internet. Não é possível cancelar ou reverter uma transação após ela ter sido enviada pela rede. Para ter os bitcoins associados ao seu próprio endereço, o destinatário não precisa estar online no momento da transação e não precisa confirmá-la.

Uma carteira bitcoin armazena as informações que são necessárias para se fazer transações com bitcoin, utilizando criptografia de chave pública. A chave privada é responsável pelo acesso aos fundos da carteira, enquanto que a chave pública pode ser espalhada para receber fundos.

Vários países já estão atentos a esse movimento das moedas digitais e estudam a possibilidade de adotá-las, como é o caso da Estônia que pretende ser o primeiro país a criar uma moeda digital estatal, o EstCoin. Nesse mesmo sentido, a empresa R3 lidera um consórcio de mais de 80 instituições financeiras no mundo para a pesquisa e o desenvolvimento usando blockchain para esse mercado. Um dos estudos vai no sentido de facilitar o processo de transferência internacional de valores entre diferentes instituições financeiras, o que hoje é um processo bastante burocrático e demorado.

Porém, há muitos outros exemplos interessantes de aplicações usando blockchain. O MIT desenvolveu uma prova de conceito em que o blockchain é usado para disponibilização de certificados de conclusão de curso, possibilitando a verificação da autenticidade dos mesmos sem a necessidade de cartório. Uma startup inglesa desenvolveu uma solução em que se rastreia a origem, a qualidade e outras várias características dos diamantes encontrados no mercado com o uso de blockchain. Na mesma linha de rastreamento de objetos, a empresa londrina Deloitte, especializada em prestação de serviços financeiros e assessoria de riscos, desenvolveu uma prova de conceito em que o blockchain é usado para o rastreamento de obras de arte e empréstimo entre museus, sendo possível verificar a autenticidade de determinada obra. Na área de benefícios sociais, o blockchain já vem sendo empregado pelo governo da Finlândia na concessão de ajuda financeira para refugiados.

Apesar de já existir alguns usos comerciais do blockchain, ele ainda é um tema quente de pesquisa, pois há várias questões a serem respondidas: será que ele veio para ficar? em quais casos é vantajoso usá-lo em detrimento a soluções já bem estabelecidas? ele irá acabar com a estrutura financeira atual do mundo? e com os cartórios? será que ele irá auxiliar no desenvolvimento de estruturas sociais e econômicas mais transparentes e distribuídas? Essas e tantas outras são perguntas que só o tempo e muita pesquisa poderão responder.

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Organoides: os “miniórgãos” criados em laboratório.

Você já ouviu falar nos “miniórgãos”? Também chamados de organoides, essas estruturas estão sendo bastante estudadas atualmente, e não é de se espantar! Os organóides são estruturas tridimensionais originadas a partir de células-tronco ou células progenitoras (células com seu potencial de diferenciação completo e células já no início do processo de diferenciação em um tipo celular específico) e que se assemelham a um tecido original específico. Para que essas células se rearranjem corretamente e deem origem a um organóide cerebral ou intestinal, por exemplo, algumas especificidades serão atendidas durante a sua produção. Apesar de sua produção ainda ser estudada e aprimorada, muitos modelos organoides já estão sendo utilizados na pesquisa científica em busca de resultados que sejam fisiologicamente semelhantes a órgãos in vivo (ou seja, em um organismo vivo e funcional).

Modelos de intestino, estômago, pâncreas, fígado, próstata e cérebro já são utilizados em trabalhos que buscam respostas em relação a diversas doenças relacionadas a estes órgãos, além de serem modelos eficientes para estudos na área da medicina regenerativa (para saber mais sobre a medicina regenerativa clique aqui). Recentemente, a Dra. Patrícia Pestana Garcez, o Dr. Steves Rehen e sua equipe na UFRJ demonstraram a relação entre a microcefalia e o vírus da zika a partir de organoides cerebrais, os “minicérebros”. Com a utilização de organoides, as pesquisas zika-microcefalia continuam ativas buscando compreender o máximo desta relação e, consequentemente, encontrar soluções sempre que possível (para saber mais sobre o vírus Zika, clique aqui). Na Keio University, no Japão, o pesquisador Toshi Sato produziu germes dentários (estrutura embrionária que dá origem ao dente) a partir de organoides formados pelo conjunto de células-tronco mesenquimais e epiteliais e os implantaram em camundongos. A partir dos implantes, um novo dente foi eficientemente formado.

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Fonte:  Sousa & Resende, Bio&Tecnologia, Neurociência, Saúde, 2014.

Os organoides são um modelo muito atrativo, já que tem potencial para se assemelhar ao local de interesse de uma determinada área de estudo. Assim, as respostas observadas nas experimentações em laboratório serão mais próximas da realidade, o que é especialmente importante se o interesse da pesquisa é encontrar respostas e melhor compreender doenças, suas relações com fatores externos ou mesmo testes farmacológicos.

 

Referências

https://cientistasdescobriramque.com/2017/05/16/organoides-muito-mais-que-apenas-orgaos-em-miniatura/

Yin, X. et al. Engineering Stem Cell Organoids. Cell Stem Cell, 2015.

Sousa & Resende MODELO TRIDIMENSIONAL DE CÉREBRO HUMANO PARA ESTUDO DE DOENÇAS NEURODEGENERAGIVAS. Bio&Tecnologia, Neurociência, Saúde, 2014.

http://ciencia.estadao.com.br/blogs/herton-escobar/cientistas-brasileiros-mostram-que-zika-pode-matar-celulas-neuronais/

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Como os microplásticos jogados no mar estão chegando ao fundo dos oceanos?

Nos dias de hoje, muito se fala sobre a poluição que nós, humanos, causamos ao meio ambiente. Um dos principais problemas neste âmbito se deve ao descarte inadequado de plásticos e microplásticos (partículas com diâmetro menor que 5mm) nos oceanos, podendo prejudicar todo aquele ecossistema. Caso não haja nenhuma alteração significativa em relação ao descarte deste tipo de material, a previsão é que a quantidade a ser jogada no mar aumente até 250 milhões de toneladas métricas até 2025! A previsão caso não haja nenhuma alteração significativa em relação ao descarte desse material, é que a sua quantidade a ser jogado no mar até 2025 aumente até 250 milhões de toneladas métricas !

Dessa maneira, é importante entender as consequências que estes resíduos podem trazer para os ambientes marinhos e seus organismos. Já existem estudos mostrando impactos no ecossistema causados por resíduos de plásticos variando desde riscos físicos, bloqueio digestivo devido a ingestão pela fauna marinha até danos ecotoxicológicos gerados por contaminantes provenientes do plástico e sua transferência entre os níveis tróficos da cadeia alimentar marinha.

Com o objetivo de elucidar um pouco melhor a relação dos animais marinhos com os resíduos os quais estão sendo submetidos frequentemente, Kakani Katija e outros pesquisadores, do Instituto de Pesquisa do Aquário de Monterey Bay, nos Estados Unidos, resolveram submeter um organismo conhecido como larvacea gigante (Bathochordaeus stygius) (figura 1) a pedaços de microplásticos coloridos. Assim, eles poderiam analisar o que aconteceria com o plástico ao ser ingerido e processado pelo animal.

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Figura 1 – Bathochordaeus stygius também conhecida como larvacea gigante

B. stygius é um animal marinho, que faz parte do zooplâncton e são filtradores ativos. Eles são conhecidos por secretarem muco que constrói o local onde habitam. Além disso, são transparentes (figura 1) e dessa maneira, seria possível visualizar os pedaços coloridos de microplástico ao longo de seu corpo. Os animais foram submetidos às partículas de microplástico colorido e, com auxílio de um robô submarino acoplado a uma câmera, os pesquisadores conseguiram monitorar a ingestão.

De maneira geral, foi possível concluir que estes animais são capazes de ingerir estes resíduos e eliminá-los como forma de agregados que irão afundar para o fundo oceânico. Sendo assim, B. stygius pode ser um vetor importante para a movimentação de grandes quantidades de resíduos microplásticos de perto da superfície para o fundo do mar, levando a conclusão de que a poluição causada por plástico pode não ser somente um problema da superfície do mar, como é comumente caracterizada. O significado real desta movimentação e se ela de fato ocorre no ambiente marinho (in situ), ainda precisam ser mais investigados.

Vídeo mostrando o experimento sendo realizado: clique aqui.

 

Referências:

1 – K. Katija et al. From the surface to the seafloor: How giant larvaceans transport microplastics into the deep sea. Science Advances. Vol. 3. August 16, 2017, p. E1700715. doi 10.1126/sciadv.1700715

2 – https://www.sciencenews.org/blog/science-ticker/giant-larvaceans-could-be-ferrying-ocean-plastic-seafloor – Acessado em 13 de setembro de 2017

3 – http://advances.sciencemag.org/content/3/8/e1700715 – Acessado em 13 de setembro de 2017

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Projeto em universidade visa trazer mais meninas para as áreas de exatas e tecnologias

É notável que as áreas de exatas e tecnologias sejam praticamente dominadas por homens. Dado a este cenário, um projeto desenvolvido na Universidade de Caxias do Sul (UCS-RS) tem por intuito mudar esse panorama. Intitulado “Engenheiros do Futuro”, o projeto atua no ensino médio de escolas da região, buscando trazer mais jovens para as áreas de exatas, em especial as engenharias. Atuando desde 2007, o projeto possui apoio da Universidade de Caxias do Sul e das agências de fomento MCTIC/FINEP/FNDCT. Dentro desse projeto, uma das vertentes é o subprojeto intitulado Encorajando meninas na ciência e tecnologia. Ele incentiva meninas no ensino médio a escolherem carreiras nas áreas de engenharia, mostrando de forma divertida que a área das exatas não é um bicho de sete cabeças.

Segundo a Professora Valquíria Villa Boas, coordenadora do projeto, “A Engenharia é uma profissão dominada pelos homens. Apesar das diferenças dos números relativos à presença das mulheres em Engenharia nos diferentes países, de modo geral, a caracterização e concepção da Engenharia como uma profissão masculina ainda é senso comum. Nas últimas décadas, o pequeno número de estudantes de Engenharia do sexo feminino, bem como de engenheiras atuantes no mercado de trabalho no mundo, tem sido motivo de debate para os estudiosos que se preocupam com as questões de gênero e com a importância da participação feminina em Ciência e Tecnologia (C&T)”.

No Brasil, o processo de inserção das mulheres nas carreiras científicas e tecnológicas ocorreu nas mesmas proporções que em outros países do mundo, entretanto, durante boa parte do século XX ainda havia um grande preconceito questionando aptas ou até mesmo capacidade intelectual das mulheres para atuarem nas carreiras científicas. Apesar do enorme avanço ocorrido na C&T nas últimas décadas do século XX, neste início de século XXI, e das profundas transformações do status jurídico da mulher e de sua condição social, as carreiras científicas e tecnológicas não passaram a constituir uma prioridade para as estudantes que concluem o ensino médio.

De acordo com o relatório anual da UNESCO, A porcentagem de  mulheres trabalhando em pesquisa e desenvolvimento para o ano de 2014  :

  • 28,8% para o mundo;
  • 39,9% para os Estados Árabes;
  • 39,6% para a Europa Central e Oriental;
  • 47,2% para a Ásia Central;
  • 22,9% para a Ásia Oriental e o Pacífico;
  • 44,7% para a América Latina e o Caribe;
  • 32,2% para a América do Norte e Europa Ocidental;
  • 19,0% para Ásia do Sul e Oeste;
  • 30,4% para África subsaariana.

Apesar de estarmos em 2017, os dados ainda são impactantes, o que mostra a necessidade de incentivar a participação das mulheres nas áreas de exatas e tecnologias.

Segundo a Professora Valquíria Villas Boas há expectativas para a ampliação do projeto a nível nacional para os próximos anos: “Estamos na 8ª edição do Encorajando Meninas em Ciência e Tecnologia, e com certeza temos interesse em continuar a oferecer esta atividade do Programa ENGFUT. E quanto a ampliar o projeto a nível nacional, é uma ambição que pode se concretizar, pois desde dezembro de 2016, eu faço parte da diretoria da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (ABENGE) e umas das minhas tarefas junto à ABENGE é promover ações junto a escolas de Educação Básica. Assim sendo, o Encorajando Meninas em Ciência e Tecnologia pode vir a ser uma das atividades a ser disseminada entre as universidades brasileiras. Vale mencionar que em 2013, o CNPq lançou uma chamada pública (MCTI/CNPq/SPM-PR/Petrobras nº 18/2013) intitulada Meninas e Jovens Fazendo Ciências Exatas, Engenharias e Computação. Esta chamada pública permitiu que várias universidades brasileiras propusessem atividades para incentivar meninas a ingressarem em carreiras científicas e tecnológicas.” Contudo, foi observado que ao término do projeto a maioria das universidades brasileiras não deram continuidade atividades. Enquanto isso, o projeto desenvolvido em Caxias do Sul está na sua 8ª. edição anual, e se depender da Professora Valquíria irá perdurar por muitos anos.

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Projeto” Encorajando Meninas na Ciência e Tecnologia”, liderado pela professora Valquíria Villas Boas na Universidade de Caxias do Sul-RS. Fonte: Universidade de Caxias do Sul-Acervo

Dados do projeto

  • 4 Docentes atuantes: Valquíria Villas Boas-coordenadora, Odilon Giovannini, José Arthur Martins e Rejane Rech;
  • Número de escolas atendidas = 29;
  • Números de alunos que passaram pelo projeto (durante os 7 anos) = 320.

Referências:

http://www.ucsminhaescolha.com.br/noticias/122/programa-encorajando-meninas-inicia-oficinas-em-agosto

http://uis.unesco.org/sites/default/files/documents/fs43-women-in-science-2017-en.pdf

http://www.abenge.org.br

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Criptococose: uma doença fúngica que precisa de atenção

Era 2 setembro de 2016 e o Hospital São José do Avaí, no Rio Janeiro, realizava os atendimentos como de costume, até que o paciente Sérgio* deu entrada se queixando de dores na região torácica e na cabeça. Uma semana após a internação, ele piorou: teve insuficiência respiratória e perda do nível de consciência. Depois de uma bateria de exames e por ser ex-tabagista, suspeitou-se de câncer de pulmão ou tuberculose. O que a equipe médica não sabia é que, na verdade, a causa da doença do sr. Sérgio era um fungo do gênero Cryptococcus.

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Levedura de Cryptococcus neoformans observada ao microscópio. Disponível aqui.

Cryptococcus é o gênero de um fungo distribuído mundialmente e que, em ambientes naturais, é encontrado principalmente em árvores, como eucalipto, e em excretas de aves, especialmente pombos. Ele tem formato de levedura e é caracterizado pela presença de uma cápsula polissacarídica que envolve toda a sua célula (halo observável na figura), cuja função é impedir a fagocitose por células do sistema imune do hospedeiro. Esse fungo foi primeiramente descrito por pesquisadores alemães e italianos em 1894, mas somente foi reconhecido como uma grande ameaça à saúde com o início da pandemia da AIDS na década de 1980. São duas espécies de Cryptococcus, C. neoformans e C. gattii,  que causam uma das mais sérias doenças fúngicas do mundo, a criptococose.

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Ciclo de Infecção por Cryptococcus. Disponível no link, com adaptação.

A criptococose acomete animais silvestres e domésticos, principalmente cachorros e gatos, e humanos. É uma doença oportunista que ocorre majoritariamente em indivíduos imunocomprometidos, como os portadores de HIV, pacientes submetidos à quimioterapia ou pacientes transplantados tratados com imunossupressores. Todavia, também pode acometer pessoas com o sistema imunológico normal, como ocorreu no grande surto de infecções por Cryptococcus gattii, no final da década de 90, na ilha de Vancouver, no Canadá.

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Radiografia de tórax de Sérgio. Disponível em GENTIL et al., 2016.

Durante a realização dos exames de Sérgio, uma radiografia de tórax evidenciou a presença de uma massa no lobo inferior do pulmão direito do paciente. De fato, a infecção por Cryptococcus se dá pelas vias respiratórias, por meio da inalação de partículas infecciosas. O fungo então se aloja nos alvéolos pulmonares, onde pode se proliferar. A criptococose afeta, assim, inicialmente os pulmões, onde a infecção pode ser erradicada ou contidas num glanuloma ou, ainda, disseminada para o resto do corpo. Em hospedeiros imunocompetentes, a maioria das infecções primárias são assintomáticas e erradicadas. O desenvolvimento ou não da doença dependerá da resposta do sistema imune do hospedeiro: pode se tornar latente com o patógeno contido em glanulomas (podendo, entretanto, ser reativada depois se estabelecido um quadro de imunossupressão), ou evoluir para a sua forma aguda. O quadro clínico mais grave da criptococose se dá ao atingir o sistema nervoso central, causando a meningite criptocócica. Isso pode justificar as dores de cabeça das quais Sérgio se queixava.

Infelizmente, após uma parada cardiorrespiratória, o paciente não resistiu. Sr. Sérgio foi um dos 625 mil casos de mortes, dentre os um milhão de casos de criptococose que ocorrem a cada ano, especialmente em países em desenvolvimento.  A grande dificuldade de um diagnóstico rápido e adequado é um dos empecilhos para a erradicação deste patógeno, uma vez que os sintomas da criptococose (tais como as dores torácicas e na cabeça, e insuficiência respiratória apresentadas por Sérgio) são facilmente confundidos com de outras doenças.

Recentemente, houve um grande avanço no combate da criptococose: o desenvolvimento de um teste rápido que, além de permitir o diagnóstico precoce, é de baixo custo e, portanto, acessível. Esforços como este têm sido realizados por pesquisadores de todo o mundo, inclusive pelo grupo de pesquisa da Universidade de Brasília do qual faço parte , para cada vez mais conhecermos a biologia desse fungo e desenvolvermos, assim, alternativas terapêuticas e de prevenção.

*Nome fictício.

PRINCIPAIS REFERÊNCIAS:

DOERING. How does Cryptococcus get its coat? Trends Microbiology, 8(12). 2000.

GENTIL et al. Criptococose: Relato de Caso. Acta Biomedica Brasiliensia, 7 (2). 2016.

MAY et al. Cryptococcus: from environmental saprophyte to global pathogen. Nature Reviews Microbiology, 14(2). 2016.

 

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Origem da vida e os desentendimentos entre Ciência e Religião

Você provavelmente já se perguntou várias vezes como a vida começou. Esse é um questionamento que muitas pessoas possuem e causa um grande debate entre ciência e religião.

Ciência e religião utilizam abordagens distintas para explicar a realidade. Para nós, cientistas, a forma como tentamos entender o mundo natural é aplicando o método científico. Isso quer dizer que, a partir de experimentação e observação dos eventos naturais ao longo dos anos, nós formulamos hipóteses que podem ser confirmadas ou refutadas.

Sabemos que o Homo sapiens é uma espécie bem curiosa e essa curiosidade nos ajudou a sobreviver ao longo dos anos, pois modificamos o nosso entorno como nenhuma outra espécie, utilizando a nossa capacidade de observação do ambiente e da experimentação. Com o passar do tempo, melhoramos o nosso entendimento sobre o mundo natural e aperfeiçoamos as formas de transmitir esse conhecimento entre as gerações. Assim, nós sobrevivemos e nos multiplicamos. E como multiplicamos! Somos 7,5 bilhões e continuamos contando. Por conseguinte, com a formação das diversas sociedades em diferentes locais do planeta Terra, utilizamos a nossa observação e imaginação para responder as nossas curiosidades e dúvidas mais basais, como: qual é a nossa origem? Qual é a origem da vida?

Penso que a ideia por trás dessas perguntas talvez esteja associada ao fato de que, sabendo a origem, talvez encontremos um motivo para a nossa existência. Assim, centenas de religiões e crenças oferecem as respostas para esses anseios da nossa espécie. Seguindo essa lógica, nós sempre praticamos ciência. Nós sobrevivemos por conta da ciência e, ao mesmo tempo, utilizamos a nossa abstração do mundo natural para criar religiões e, em muitas delas, obter o conforto para as nossas perguntas. Porém, a ciência aplicada à sobrevivência – como práticas agrícolas, contar o tempo, cozinhar os alimentos e explorar o mundo natural – sempre foi permitida. Mas à medida que a nossa curiosidade foi aumentando e o caminho da ciência começou a cruzar com o da religião historicamente estabelecida, as coisas mudaram de configuração.

Com o passar dos anos, religião e moral se tornaram um bloco único e passaram a atuar como organizadores sociais. Assim, a expansão do conhecimento científico se tornou algo considerado perigoso, pois as respostas que a experimentação científica nos trouxe começaram a ameaçar interesses religiosos e, com isso, abalaram também os fundamentos de uma ordem social, majoritariamente religiosa. Por outro lado, como o progresso científico sempre trouxe mais conforto para o ser humano, a ciência também era vista como algo bom, desde que estivesse aprisionada em uma caixinha de só prover produtos. As outras áreas do conhecimento como o campo social, político e moral sempre foram reservadas, e continuam sendo nos dias atuais, obrigatoriamente à religião.

Por outro lado nós, cientistas, enfrentamos os bloqueios ao longo dos séculos para expandir o nosso conhecimento sobre o mundo. Com isso, mais cedo ou mais tarde, chegamos nas fronteiras da nossa caixinha científica, sendo que, agora, temos respostas para muitas dúvidas que antes eram atribuídas a uma criação divina. Para começar a citar essas descobertas, é impossível não lembrar de Darwin que presenteou a humanidade com o livro “A origem das espécies”. Nos dias de hoje, até o representante de uma das maiores religiões mundiais (o papa) de alguma forma aceita a ideia da evolução. A outra novidade é que agora estamos muito próximos de outra descoberta: a explicação sobre a origem da vida. Os cientistas estão a cada ano mais empenhados em solucionar essa questão e possuem alguns experimentos que comprovam esses dados. Vamos lá!

Atualmente, os fósseis mais antigos conhecidos têm cerca de 3,5 bilhões de anos, 14 vezes a idade dos primeiros dinossauros [1]. Porém, em agosto de 2016, pesquisadores descobriram registros fósseis na Austrália de uma comunidade de microorganismos, chamados de estromatólitos [2], que datam 3,7 bilhões de anos. Outro estudo ainda mais recente, em março de 2017, mostra evidências de vida na Terra há aproximadamente 4,28 bilhões de anos. Lembrando que a Terra em si não é muito mais antiga: os cálculos mais aceitos revelam que o nosso planeta foi formado há 4,5 bilhões de anos, isso quer dizer que a vida na Terra teve origem muito cedo.

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Estromatólitos (Fonte: Nutman e colaboradores, Nature).

As descobertas não param por aí. A curiosidade científica nos fez olhar para o mundo através de lentes de aumento, e com a criação do primeiro microscópio no século XVII nós descobrimos algo fantástico: as células! Não demorou muito para a gente entender que todos os seres vivos eram formados por células (nota 1). Além disso, diversos organismos que vivem nos mais diferentes lugares do planeta possuem apenas uma única célula, como por exemplo as bactérias. Ao observar a atual árvore da vida, podemos notar que quase todos os ramos principais são compostos por esses seres unicelulares.

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Árvore da vida (Fonte: Hug, Banfield e colaboradores, Nature Microbiology).

Enxergar essas unidades celulares nos fez pensar sobre como as células podem ter se formado e o que existe dentro de uma única célula. O desenvolvimento de tecnologia nos permitiu identificar que as células possuem internamente diferentes organelas, que são majoritariamente estruturas formadas por proteínas, e estas, utilizando uma explicação bem básica, são resultado de ligações entre diferentes elementos químicos.

Assim, após esta descoberta, a saga para entender como os elementos químicos presentes na Terra inicialmente se transformaram em compostos orgânicos começou! A primeira hipótese, que é muito conhecida, fala sobre uma sopa primordial de elementos químicos. Essa proposta é proveniente da junção de ideias de dois cientistas, o soviético Alexander Oparin e o biólogo inglês John B.S. Haldane. A ideia de Oparin-Haldane basicamente é que os oceanos primitivos eram como uma sopa quente, que possibilitaria a combinação de diferentes compostos químicos e assim, espontaneamente, o aparecimento dos primeiros organismos vivos [3]. A vida então não precisaria de nada divino para ser explicada.

Essa hipótese era instigante e foi até mesmo encontrada em uma correspondência de Darwin anos antes de ser pensada por Oparin e Haldane, na qual ele dizia:

“Mas, se (Oh, mas que grande “se”) pudéssemos conceber em algum lago pequeno e quente com todos os tipos de amônia e sais fosfóricos com a presença de luz, calor, eletricidade assim um composto protéico foi quimicamente formado, pronto para passar por mudanças mais complexas…”

Porém, o problema para todos esses questionamentos era conseguir realizar um experimento para testar essa hipótese. Nesse momento, surgem outros dois cientistas nesta história, Harold Urey e Stanley Miller. Urey, ganhador de um prêmio Nobel, explicou em uma palestra que a atmosfera inicial era praticamente desprovida de oxigênio, e que isso seria o suporte para a teoria da sopa primordial. Miller, que estava na plateia, propôs para o professor testar essa ideia, e assim o fez em 1952. Ele conectou por meio de frascos de vidro quatro produtos químicos (água fervente, gás hidrogênio, amônia e metano) e submeteu esses gases à choques elétricos, para simular relâmpagos.

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Experimento de Miller e Urey (Fonte: Francis Leroy, Biocosmos/Science Photo Library).

Miller descreveu que após o primeiro dia a água estava um pouco rosa e no final da semana turva e avermelhada. Ao analisar seu conteúdo, ele encontrou dois aminoácidos formados: glicina e alanina. E olha que incrível, as proteínas, que são basicamente a constituição dos seres vivos, são formadas por uma cadeia de nada mais, nada menos do que aminoácidos! Os resultados foram publicados na revista Science em 1953 [4].

Com o passar dos anos, outros cientistas começaram a encontrar maneiras de criar moléculas biológicas simples a partir de soluções químicas, e uma explicação para o mistério sobre a origem da vida parecia próxima. Porém, ao mesmo tempo ficou claro que a vida era mais complicada do que se pensava. Células vivas possuem um modo de funcionamento próprio, não são apenas uma bolha com produtos químicos dentro, e uma das características que as tornam especiais é a capacidade de se dividirem.

Contribuições para o entendimento dessa incrível maquinaria celular foram impulsionadas com o descobrimento do DNA em 1953 [5]. Na verdade, proteínas são estruturas quimicamente complexas, e entender o processo de conversão de uma simples molécula de DNA em RNA, e esse RNA posteriormente em proteínas, trouxe várias outras ideias para explicar a origem da vida. Aqui no blog existem dois textos muito bons sobre esse assunto, o primeiro trata da descoberta do DNA e o outro sobre este processo de conversão.

O processo DNA-RNA-proteína ocorre em todas as células existentes. Assim, explicações sobre a origem da vida devem basicamente mostrar como essa “trindade biológica” começou a funcionar. Sobre esse tema, você deve estar pensando agora. “- Isso é muito complicado!” E, na verdade, é sim. Mas os cientistas olharam para o processo e pensaram que, talvez, se fosse possível encontrar um composto químico orgânico que conseguisse reproduzir-se por si mesmo, esse poderia ser a chave para o questionamento de como a vida surgiu. E assim surgiu a hipótese do “mundo de RNA”.

Esta hipótese foi proposta por Walter Gilbert em 1986 [6]. Ele sugeriu que moléculas de RNA poderiam realizar atividades catalíticas necessárias para se auto montar a partir de uma sopa de nucleotídeos. Ao cortar e colar diferentes pedaços, as moléculas de RNA poderiam criar sequências cada vez mais úteis, e isso tudo passaria por aperfeiçoamento até chegar a versão de vida que temos hoje. A ideia ganhou um suporte muito grande em 2000, quando outro cientista, Thomas Steitz, ao detalhar a imagem dos ribossomos, descobriu que o RNA era o centro do funcionamento desta organela [7]. Ribossomos são tão antigos e fundamentais para a formação da vida, que fez com que a hipótese do mundo de RNA parecesse possível. Porém, os problemas dessa hipótese são que, primeiro, até os dias atuais ainda não foi encontrado um RNA que pudesse se auto-replicar inteiramente. Segundo, será que a estrutura química do RNA poderia ser formada nas condições da Terra antigamente?

Assim, outro time de cientistas propôs uma nova teoria de que a vida tenha surgido como um mecanismo para aproveitar energia, ou melhor, ter um metabolismo. Afinal, ao observar o mundo natural a ordem dos acontecimentos é nascer, crescer e se reproduzir, assim, para alguns pesquisadores, a energia para crescer seria primordial e ainda mais importante do que a reprodução. Seguindo essa lógica, os cientistas buscaram por locais capazes de prover energia para a existência de uma célula e com composição química similar à que observamos nos organismos atualmente e, no fundo do Oceano Pacífico, pesquisadores liderados por Jack Corliss descobriram as fontes hidrotermais. A ideia é que essas fontes hidrotermais pudessem criar complexas misturas de produtos químicos e que cada abertura funcionasse como uma espécie de bomba de sopa primordial [8].

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Fontes hidrotermais e a formação de células (Fonte: Richard Bizley/Science Photo Library).

O fluxo de água, aliado ao calor e a pressão, faria com que compostos orgânicos simples, como os elementos presentes no ambiente, se tornassem mais complexos, como aminoácidos, nucleotídeos e açúcares, que posteriormente se ligariam em cadeias – formando carboidratos, proteínas e o próprio DNA. Então, a medida que a água perdesse calor, esses compostos teriam se juntado e formado as primeiras células simples. Aliando essa hipótese à outras descobertas de fontes hidrotermais alcalinas no oceano e, unindo com toda a tecnologia que temos atualmente, pesquisadores publicaram em 2016 [9] a ideia de um ancestral comum universal entre todos os organismos da Terra, denominado LUCA (Last Universal Common Ancestor), em português, último ancestral comum universal.

Para investigar essa possibilidade, os pesquisadores analisaram 1.930 microorganismos modernos e identificaram 355 genes comuns. A ideia é que provavelmente esses 355 genes foram transmitidos, de geração em geração, remetendo a um único antepassado comum. Porém, o problema para esta hipótese é reproduzir em laboratório essa possibilidade. E o mais legal, um grupo está atualmente trabalhando na construção de um reator para reproduzir as condições de um ambiente prebiótico onde a vida poderia ter surgido [10] e, com isso, talvez teremos novidades nos próximos anos.

Além desses trabalhos, um terceiro grupo de pesquisadores apostou na hipótese de um “mundo de lipídeos” [11]. A ideia é que para existir uma célula, precisa existir proteção, precisa existir uma membrana. Assim, unindo essa ideia com o “Mundo de RNA”, os pesquisadores criaram em laboratório as protocélulas [12]. Essas protocélulas podem manter seus genes internamente enquanto absorvem moléculas úteis de fora, e ainda crescer, se dividir, e até mesmo competirem entre si. O RNA pode se replicar dentro dessas estruturas e elas conseguem “sobreviver” a temperaturas de até 100 °C.

Por fim, os cientistas pararam de pensar em teorias separadas e juntaram todas as ideias em uma única. Ao constatar a constituição química das células atuais, como a presença de potássio e fosfato, e além disso metais, que são necessários para o funcionamento de várias enzimas, os pesquisadores encontraram um cenário ideal para o surgimento da vida. A ideia com todas essas pistas é que a vida surgiu em lagoas de superfície em uma área geotérmica-ativa, com abundância de radiação ultravioleta do Sol. As protocélulas nesse ambiente poderiam ficar em zonas mais frias na maior parte do tempo, mas seguindo o fluxo da água teriam também ciclos de aquecimento que poderia auxiliar no processo de replicação do RNA. Além disso, haveriam correntes, conduzidas por essa diferença de temperatura no lago que poderiam ajudar a dividir as protocélulas [13].

Agora, será muito trabalho em laboratório para tentar provar esta nova hipótese. Mas finalmente estamos mais perto do que nunca de descobrir a verdade sobre a nossa origem. Em 1859 Darwin revolucionou o mundo com a verdade sobre a origem das espécies, apresentando dados tão claros que podem ser comprovados diariamente. Você consegue imaginar como o mundo irá reagir quando a verdadeira história da origem da vida for contada?

Agora que entendemos todo esse cenário de descobertas, fica difícil acreditar que toda essa complexidade de relações possa ser explicada por um evento que durou apenas sete dias, como é apresentado por muitas perspectivas teológicas. Por isso, apesar da importância cultural que as religiões têm para o desenvolvimento da sociedade e da própria humanidade, precisamos ser bem cautelosos quando se trata de utilizar suas perspectivas, principalmente para a criação de políticas públicas envolvendo ciência, educação e saúde.

Podemos avançar muito mais em nosso conhecimento e chegar a conclusões inimagináveis atualmente, mas as descobertas científicas necessitam de uma sociedade que apoie a ciência e entenda as contradições existentes no que hoje é tido como senso comum da própria sociedade.

Notas:

  1. Deixarei fora dessa discussão todas as conceituações teóricas sobre os vírus serem ou não organismos vivos.

Bibliografia utilizada:

  1. Allwood, A.C., Walter, M.R., Burch, I.W., Kamber, B.S. 3.43 billion-year-old stromatolite reef from the Pilbara Craton of Western Australia: Ecosystem-scale insights to early life on Earth. Precambrian Research. 158, 3-4, p. 198-227, 2007.
  2. Nutman, A.P., Bennet, V.C., Friend, C.R., Van Kranendonk, M.J., Chivas, A.R. Rapid emergence of life shown by discovery of 3,700-million-year-old microbial structures. Nature. 537, p. 535-539, 2016.
  3. Oparin A.I. The origin of life. 29 p.
  4. Miller S.L. A Production of Amino Acids Under Possible Primitive Earth Conditions.  Science. 1953. 
  5. Watson J.D., Crick, F.H.C. Molecular Structure of Nucleic Acids: A Structure for Deoxyribose Nucleic Acid. Nature. 171, p. 737-738, 1953.  
  6. GIlbert. W. Origin of life: The RNA world. Nature. 319, 618, 1986.  
  7. Cech, T.R. The Ribosome is a Ribozyme. Science. 289, 5481, p. 878-879, 2000.
  8. Corliss, J.B., Dymond, J., Gordon, L.I., Edmond, J.M., Herzen, R.P., Ballard, R.D., Green, K., Williams, D., Bainbridge, A., Crane, K., Andel, T.H. Submarine Thermal Sprirngs on the Galápagos Rift. Science. 203, 4385, p. 1073-1083, 1979.
  9. Weiss, M.C., Sousa, F.L., Mrnjavac, N., Neukirchn, S., Roettger, M., Nelson-Sathi, S., Martin, W. The physiology and habitat of the last universal common ancestor. Nature Microbiology. 16116, 2016.
  10. Herschy, B., Whicher, A.,  Camprubi, E., Watson, C., Dartnell, L., Ward, J., Evans, J.R.G., Lane, N. An Origin-of-Life Reactor to Simulate Alkaline Hydrothermal Vents. Journal of Molecular Evolution. 79, 5-6, p. 213–227, 2014.
  11. Segré, D., Ben-Eli, D., Deamer, D.W., Lancet, D. The lipid World. Origins of life and evolution of the biosphere. 31, 1–2, p. 119–145, 2001.
  12. Hanczyc, M.M., Fujikawa, S.M., Szostak., J.W. Experimental Models of Primitive Cellular Compartments: Encapsulation, Growth, and Division. Science. 302, 5645, p. 618-622, 2003.
  13. BBC earth (Michael Marshall). The secret of how life on earth began. 2016.

 

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Violência doméstica: Impactos na vida profissional de mulheres nordestinas

A data da entrega desse texto se aproximava, e eu estava fazendo o que sei fazer de melhor: procrastinando e pensando qual poderia ser o tema do texto. Eis que na televisão era transmitido o Jornal Hoje e uma das matérias me chamou a atenção. Um estudo recém-publicado pela Universidade Federal do Ceará em conjunto com o Instituto Maria da Penha, apontava o impacto da violência doméstica na vida profissional das mulheres nordestinas. O assunto chamou atenção não apenas por seu ineditismo, mas também por ser publicado no mês em que a Lei Maria da Penha completa 11 anos. Ano passado, publicamos aqui no blog um texto sobre o impacto e a importância da lei para a defesa dos direitos das mulheres. E nunca é demais falar sobre uma lei que impactou fortemente a vida das mulheres no Brasil e tem transformado a maneira como lidamos com esse tipo de violência, seja por meio de conversas e debates mais amplos pela sociedade, ou das denúncias.

Chamada de “Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica Familiar contra a Mulher” (PCSVDFmulher), ela teve como objetivo principal obter dados nacionais sobre a violência doméstica e as inter-relações entre contexto econômico e social que possam refletir sobre a violência de gênero. Em um primeiro momento, entende-se que o empoderamento da mulher ajude a diminuir a violência, uma vez que ela se torna independente financeiramente, o que permite que ela possa sair de casa se descontente com a relação. O que tem sido observado, é que quando esse empoderamento subverte normas culturais e estereótipos de gênero, a incidência de violência aumenta. Portanto, é natural pensar então que a violência possa ter um impacto negativo no mercado de trabalho, interferindo na capacidade laboral das mulheres e na manutenção do emprego. Como apresentado na Figura 1, essa relação entre violência doméstica e mercado de trabalho é bastante complexa, incluindo diferentes variáveis, e pode também levar em conta as consequências a curto e longo prazo.

Mercado de trabalho e violência doméstica

Tendo como base a Lei Maria da Penha, o estudo levou em conta as violências física, emocional e sexual. Das mulheres entrevistadas, 3 em cada 10 relatam ter sofrido pelo menos um episódio de violência em sua vida e 1 em cada 10 relata ter sido vítima nos últimos 12 meses, sendo que os parceiros atuais ou mais recentes são os perpetradores. Devido às sequelas físicas e/ou emocionais ocasionadas, são perdidos em média 18 dias de trabalho por ano. A massa salarial perdida, somente para a região nordeste é de R$ 64,4 milhões, extrapolando a mesma média para todo o país, temos um prejuízo de R$ 975 milhões, sem contar os gastos previdenciários e dos serviços de saúde. Outro ponto alarmante revelado pelo estudo, é que mulheres que sofreram violência nos últimos 12 meses, permanecem menos tempo no emprego quando comparadas àquelas que não foram violentadas.

Então aqui temos dois impactos importantes na vida profissional da mulher: a redução de sua produtividade imediata devido às faltas, e histórico de trabalho inconsistente, alternando curtos períodos de emprego com longos períodos de desemprego. Nesse ponto entramos em um círculo vicioso, em que a violência dificulta a manutenção do emprego, ao mesmo tempo em que estar empregada pode gerar maior violência por parte de seu parceiro.

É assustador pensar que o número de mulheres que sofrem de violência doméstica pode ser ainda maior que o observado nesse estudo, devido à recusa da vítima em denunciar o perpetrador. Essa recusa perpassa pela culpabilização da vítima e também por crenças morais e religiosas por parte dos envolvidos. Quantas vezes não ouvimos justificativas para a violência “ela deve ter provocado”, “mas eles são casados, ninguém tem nada com isso”, “certeza que ela mereceu”.

Onze anos após a promulgação da lei, esse estudo nos mostra que os impactos da violência doméstica são ainda mais amplos e complexos, influenciando de maneira direta as diferenças de gênero, perpetuação da pobreza e a desigualdade no país. Muito foi conquistado, mas é importante e necessário que continuemos na luta para não perdermos nossos direitos, de maneira a garantir que nenhuma mulher seja violentada.

 

Para saber mais sobre o Instituto Maria da Penha e sobre o estudo:

http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/

http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/documentos/relatorio.pdf

http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/documentos/relatorio_v06.pdf

Dúvidas frequentes sobre a LMP: http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/index.php/duvidas-frequentes-sobre-a-lei-11-340-06