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O admirável mundo novo é aqui: o desenvolvimento de fetos em ambiente extra-uterino

No livro Admirável Mundo Novo, de 1932, Aldous Huxley descreveu uma sociedade distópica do futuro, na qual fetos humanos se desenvolviam fora do útero até o momento do “nascimento”.  Em 2017, a pesquisadora Emily Patridge e seus colegas do The Children’s Hospital of Philadelphia Research Institute nos mostram que isso pode ser uma realidade. Com o avanço dos estudos na área da saúde, já é possível manter vivo prematuro extremo, ou seja, uma criança nascida entre 23-25 semanas de gestação. No entanto, para garantir a sobrevivência dos prematuros extremos, estes são mantidos em incubadoras dentro de unidades de terapia intensiva, aguardando a maturação final dos órgãos, especialmente os pulmões, através da administração de medicamentos como corticoides que ampliam o volume e aceleram a drenagem do líquido amniótico dos pulmões. Além disso, a exposição dessa criança ainda em formação ao ambiente externo ao útero aumenta o risco a infecções, o que diminui a possibilidade de sobrevivência. Com o intuito de reduzir os casos de infecção e facilitar o amadurecimento dos pulmões de forma mais natural, Emily Partridge e seus colaboradores criaram um sistema fechado que mimetiza o ambiente uterino, chamado Biobag: uma bolsa plástica transparente que pode ser hermeticamente fechada preservando o ambiente interno. Dentro da Biobag, um feto de carneiro foi mantido submerso em uma solução equivalente ao líquido amniótico, com seu cordão umbilical ligado a um sistema que funciona como o organismo da mãe: “limpa” o sangue do feto ao retirar gás carbônico e impurezas, e ao mesmo tempo injeta nutrientes e oxigênio. Nesse sistema, os pesquisadores conseguiram ver o desenvolvimento dos animais. A Biobag é formada por um plástico translúcido o suficiente para permitir a observação externa sem comprometer o desenvolvimento dos olhos do feto já que não há barriga para protegê-los da luz. A equipe observou que o aparato manteve os fetos saudáveis durante seu desenvolvimento natural por quase um mês, tempo suficiente para um feto de carneiro se desenvolver e nascer naturalmente. Ao término dos procedimentos, foi verificado que os pulmões estavam totalmente maduros, não houve nenhum tipo de infecção nem indício de problemas no desenvolvimento cerebral, mesmo sem nenhum tipo de intervenção farmacológica. Comparado a todas as tentativas anteriores de promover o desenvolvimento de fetos de cobaias, esse foi a mais bem-sucedida.

Se por um lado a medicina ajuda a salvar vidas, por outro pode prolongar uma vida que, naturalmente, seria perdida. De fato, nenhum feto nascido com 25 semanas de gestação sobreviveria sem auxílio médico. No entanto, cerca de 50% destes prematuros sobrevivem. Dos sobreviventes, a maioria cresce com problemas neurológicos e comportamentais. Considerando-se que o objetivo da bioética é “buscar benefício e garantia da integridade do ser humano, tendo como fio condutor o princípio básico de proteção à dignidade humana” (Bezerra et al, 2014), no caso de um neonato, quem determina o que é melhor para ele: os pais ou a equipe médica? E, independente de quem escolha, em que basear a escolha? É importante ressaltar que além do acesso a técnicas médicas, fatores culturais e religiosos muitas vezes influenciam as decisões, trazendo mais atores para a decisão mais ética.

No caso do aparato usado por Emily Patridge e seus colegas, alguns especialistas em reprodução humana e os próprios autores do trabalho levantam mais algumas questões éticas. Como testar esse dispositivo em seres humanos? Seria ético testar em fetos que seriam abortados? Seria ético colocar um prematuro que foi abortado espontaneamente em uma Biobag? As mulheres seriam estimuladas a dar à luz antes da hora para voltar ao trabalho mais cedo? O parto prematuro seria uma opção de redução do tempo de gravidez mesmo sem risco para mãe e feto?

À medida que a real ciência avança, temos que analisar os inúmeros dilemas éticos para não virarmos uma distopia de pesadelo parecida com as que consumimos por entretenimento.

Referências

Emily Patridge et al. An extra-uterine system to physiologically support the extreme premature lamb. Nature Communications 8, Article number: 15112 (2017).

Bezerra et al. Ética na decisão terapêutica em condições de prematuridade extrema. Rev. bioét. (Impr.), 22 (3): 569-74 (2014).

Tereza Del Moral, Dilemas éticos no limite da viabilidade. IX Congresso Iberoamericano de Neonatologia-SIBEN

https://www.theverge.com/2017/4/25/15421734/artificial-womb-fetus-biobag-uterus-lamb-sheep-birth-premie-preterm-infantfigura

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As múltiplas vozes na luta pelos direitos trabalhistas das mulheres no Brasil

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A historiadora Gláucia Fraccaro apresenta um exemplar do jornal operário A Plebe. Fonte: Antoninho Perri

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Exemplar do santinho da campanha de Bertha Lutz. Fonte: Arquivo Nacional / Antoninho Perri

Quando lemos sobre a história do feminismo e da conquista dos direitos das mulheres aqui no Brasil, inevitavelmente são destacados os nomes de “líderes” famosas como Bertha Lutz (1894-1976, fundadora da Fundação Brasileira pelo Progresso Feminino em 1919) e Carlota Pereira de Queiroz (1892-1982, primeira deputada federal do Brasil). Ainda que o desempenho dessas mulheres junto ao governo brasileiro tenha sido, de fato, de uma importância inegável, o foco em suas atuações acaba perpetuando duas ideias muito limitadoras a respeito desse tema: a primeira, de que a história do feminismo no Brasil foi um só movimento, com uma pauta única e igual para todas as envolvidas; e, segundo, a de que foi apenas com a luta de mulheres da classe média e alta que houve avanços nas conquistas dos direitos femininos.

A tese de doutorado de Gláucia Fraccaro, Os Direitos das Mulheres – Organização Social e Legislação Trabalhista no Entreguerras Brasileiro (1917-1937), defendida em 2016 na Universidade Estadual de Campinas, mostra claramente que é possível contestar essas duas ideias. A sua pesquisa foi baseada tanto na análise de textos legislativos e jurídicos desse período quanto da imprensa operária, sem perder de vista também um interessante viés internacional a partir da forma como a ideia de se defender direitos trabalhistas específicos para as mulheres, como a licença-maternidade, estava sendo pensada em outros países, em especial através da Organização Internacional do Trabalho. Assim, Fraccaro conseguiu mostrar que havia outras vozes em jogo nessas décadas tão importantes para a consolidação das leis do trabalho brasileiras.

Em especial, a historiadora investiga a participação das trabalhadoras paulistas nas organizações sindicais, nas greves e na imprensa operária para indicar que as suas reivindicações, pautadas pelo lema “trabalho igual, salário igual”, precederam em muito tempo as ideias de Lutz e Queiroz. Na verdade, ao iluminar as experiências das operárias nas fábricas de São Paulo, Fraccaro nos mostra que os estudos sobre os conflitos entre as classes dentro do capitalismo abrangem questões muito complexas a partir da permanência de uma mentalidade patriarcal que, no caso das trabalhadoras, obrigava-as, além de lidar com a mesma exploração econômica enfrentada pelos operários, como jornadas de trabalho excessivas, a se organizarem para lutar contra outros problemas sofridos exatamente por serem mulheres, como salários muito menores, nenhuma segurança durante a gravidez ou pós-parto, e abusos sexuais por parte dos capatazes das fábricas. A sua atuação, ao contrário da imagem tradicional de que os movimentos sindicais e operários contavam apenas com homens, foi tão relevante que Fraccaro conseguiu localizar documentos que circulavam entre os donos das fábricas em que se percebe como várias mulheres eram consideradas “agitadoras” e, por isso, deveriam ser demitidas de seus empregos e vigiadas.

A sua luta se fazia ainda mais complicada porque não se dava apenas na relação patrão-empregado: os próprios operários, ainda que concordassem com a defesa de salários iguais, por exemplo, consideravam que o lugar primeiro de atuação das mulheres deveria ser o lar e, por isso, em tempos de desemprego, defendiam que elas deveriam ceder seus postos de trabalho para seus parentes homens. Fraccaro cita, por exemplo, um documento elaborado pela União dos Operários em Fábricas de Tecido que acusava os industriais de preferirem contratar mulheres pois, segundo sua opinião, elas se submetiam com mais resignação a todas as injustiças, e propunha que “os lugares ocupados hoje por mulheres nas indústrias fossem, numa porcentagem crescente, de mês a mês, ocupados por homens, até a extinção do total do elemento feminino nas indústrias”, e que “toda mulher que trabalha na indústria e no comércio possa ser substituída pelo marido, irmão, tio ou pai desempregados da mesma profissão” (apud Fraccaro, 2016, p.55). Tudo isso porque, segundo o mesmo documento, homens desempregados oferecem “assim um espetáculo ao mesmo tempo ridículo, vergonhoso e revoltante: o de ver a mulher na fábrica e o marido em casa cuidando dos serviços domésticos e levar as crianças ao portão das fábricas para serem amamentadas” (idem, p.54).

Mesmo em relação ao movimento feminista sufragista havia fortes divergências, em especial a partir das mulheres anarquistas, como Maria Lacerda de Moura que, em 1928, escreveu: “Não sou do progresso feminino pró-voto da senhorita Bertha Lutz e nem do bando militarizado e catequista da Professora Daltro. Voto? – Nem secreto, nem masculino, nem feminino” (Moura, apud Fraccaro, p.67). Mas ainda assim é preciso reconhecer que a atuação de mulheres como Lutz foi importante para defender no congresso a necessidade de leis específicas para o trabalho feminino, principalmente a partir do reconhecimento da jornada dupla. Em seu “santinho” da campanha para a Assembleia Constituinte, Lutz defendia, por exemplo, que a “mulher proletária cumpre pena dobrada, acrescentando ao horário da fábrica o trabalho sem horário medido que desempenha no lar” (apud Fraccaro, p.126). O resultado, curiosamente, parece ter sido ao mesmo tempo composto de conquistas e entraves. Por exemplo, a lei que proibia que mulheres trabalhassem no período noturno, salvo algumas exceções – profissionais da saúde, por exemplo – parece indicar que também houve uma legislação “superprotetora” baseada na ideia de que o local primordial da mulher deveria ser o lar, mas que, em nome de salvaguardar uma pretensa fragilidade feminina e seu papel como mãe, acabava por prejudicar sua atuação no mercado de trabalho ao impedir seu acesso a algumas atividades bem remuneradas para a época.

É a partir de interessantes questões como as apresentadas aqui que Gláucia Fraccaro nos mostra como a história do feminismo no Brasil e dos direitos trabalhistas das mulheres não deve ser vista de forma homogênea, silenciando importantes debates a partir de uma versão heroicizada focada em apenas algumas líderes. Seguindo exemplos como a da famosa historiadora francesa Michelle Perrot, Fraccaro indica, portanto, que a categoria de gênero, em especial a partir de um olhar para os vários grupos de mulheres atuantes, tem muito a contribuir para as pesquisas e entendimento da história das relações de trabalho no mundo.

Referências:

FRACCARO, Gláucia Cristina Candian. Os Direitos das Mulheres – Organização Social e Legislação Trabalhista no Entreguerras Brasileiro (1917-1937). Unicamp, 2016. Tese de Doutorado. http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/321562 

PERROT, Michelle. As Mulheres ou os Silêncios da História. Bauru: EDUSC, 2005.

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Sedimentos de Cavernas dão Respostas sobre a Evolução Humana

O DNA antigo e suas possibilidades

Há 100 anos os cientistas não imaginavam que as técnicas moleculares poderiam auxiliar nos estudos evolutivos de amostras do passado. Somente em 1980 ocorreu a primeira extração de DNA antigo (aDNA) de uma múmia chinesa, abrindo as possibilidades para este tipo de estudo. As amostras de aDNA podem ser arqueológicas (humanas) ou paleontológicas (animais extintos). Porém, existem dificuldades que persistem nos estudos de aDNA: a maior delas é que o material genético está fragmentado. O que isto significa? O DNA é um composto orgânico em formato de dupla hélice. Existem bases nitrogenadas ligadas a ele e que possuem ligação entre si. Essas bases possuem informação genética: A base Adenosina (A) se liga por duas pontes de hidrogênio com a base Timina (T). Já a base Guanina (G) e Citosina (C) se ligam por três ligações de hidrogênio. A fragmentação e degradação do DNA ocorre quando a ligação destas bases se rompe por ações internas ou externas. Tal degradação dificulta o acesso ao aDNA, e é um desafio para os pesquisadores. Quando o aDNA é recuperado com sucesso, torna-se possível realizar estudos genéticos de organismos do passado, além da pesquisa de doenças e parasitoses não passíveis de serem identificadas morfologicamente, como por exemplo o protozoário Trypanosoma cruzi, causador de Doença de Chagas. Esses estudos são realizados por linhas de pesquisa chamadas de Paleoparasitologia e Paleomicrobiologia.

Será possível recuperar DNA em sedimentos?

Recentemente, Slon e colaboradores de instituições da Austrália e de diferentes países da Europa, publicaram um estudo na Revista Science que mostra a recuperação de aDNA de hominídeos e animais extintos em amostras de sedimentos de cavernas na Europa. Hominídeos são ancestrais humanos, como os Neandertais. Encontrar amostras de ossos com mais de mil anos é raro, e a grande contribuição deste estudo foi apresentar novas possibilidades de extração do aDNA a partir dos sedimentos de cavernas datados de mais de 14 mil anos. A extração de DNA significa recuperar todo o DNA presente na amostra, para que depois possa ser analisado. A técnica utilizada para a análise do sequenciamento é, além de inovadora, bastante eficaz já que analisa todas as bases nitrogenadas presentes naquele material sequenciado e então, são transferidas para uma biblioteca de DNA. Esta técnica, denominada Sequenciamento de Nova Geração, permite encontrar amostras de molécula de DNA mesmo quando muito degradadas e fragmentadas. Estes fragmentos sequenciados com esta nova tecnologia passam por uma análise bioinformática e são interpretados, gerando correspondência (ou não) a algum organismo (vegetal ou animal). Porém, como na ciência nem tudo são flores, 79 a 96% das amostras extraídas, sequenciadas e colocadas nesta biblioteca não puderam ser interpretadas devido à alta fragmentação do DNA. Apesar disso, 10% do que pôde ser identificado correspondeu a mamíferos já extintos.

Os pesquisadores analisaram a composição taxonômica através de genomas do DNA mitocondrial, incluindo o DNA mitocondrial humano (mtDNA). A escolha do mtDNA tem um motivo: em células eucariotas, este tipo de DNA está presente em número de cópias maior do que o DNA do núcleo da célula e portanto há um aumento das chances de se conseguir material suficiente para ser analisado. Além disso, é possível analisá-lo evolutivamente, já que uma de suas características é o fato de ser o DNA presente em mitocôndrias, organela que é passada da mãe para filhos.

Slon e colaboradores detectaram fragmentos de mtDNA de 12 famílias de mamíferos. A variação e correspondência genética dessas famílias foi estudada, para se investigar não só a quais espécies o DNA analisado correspondia, mas também seus padrões evolutivos para análises de filogenia. Nas sequências que tinham DNA de Elephantideos (ancestrais de elefantes) houve correspondência genética ao DNA de mamutes uma espécie extinta há 10 mil anos. Nas sequências da família Hienidae (hienas) encontradas nos sedimentos analisados, houve correspondência genética com o DNA de hienas pintadas e com a hiena extinta das cavernas. Hoje em dia, a hiena pintada só ocorre na África, portanto a presença de seu material genético em cavernas da Europa indica a possibilidade desta espécie ter habitado esta região no passado. Por último, 90% das sequências de mtDNA que correspondem à família Ursidae (ursos) possuem variantes correspondentes a uma espécie de urso extinta 25 mil anos atrás (Ursus ingressus).

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Fig. 1. Animais detectados das amostras de sedimentos de sete sítios do Período Pleistoceno (LP– Pleistoceno Superior; MP–Pleistoceno Médio). Ref. Slon et al. 2017.

Além das análises sobre os animais, os pesquisadores também queriam saber quais hominídeos ocorriam naqueles locais. Mas, somente as amostras do sítio arqueológico El Sidrón, na Espanha geraram sequências correspondentes apenas a hominídeos. Portanto, os pesquisadores decidiram verificar se nas amostras de outras cavernas em que foi encontrado DNA de animais extintos também teriam DNA de hominídeos. Para isso, as análises de DNA foram repetidas visando encontrar mtDNA humano. Eles conseguiram recuperar entre 10 e 165 sequências em quatro sítios arqueológicos diferentes, encontrando mtDNA correspondendo aos ancestrais humanos: Neandertais e Denisovans.

O último passo deste estudo foi então uma análise filogenética, com o objetivo de verificar a variação genética e a relação ancestral de humanos modernos com o material genético recuperado dos hominídeos. Nestas análises, os autores puderam identificar maior proximidade filogenética entre humanos modernos e Neandertais .

A importância desse estudo não é apenas a recuperação do DNA antigo de hominídeos e animais extintos, mas também a possibilidade de recuperação de material genético encontrado em sedimentos, sem a necessidade de esgotar amostras raras. Amostras raras são aquelas em que só existem disponíveis para análise poucos exemplares ou somente um, podendo ser tanto de animais quanto de humanos. Para se ter acesso a estas amostras é necessário uma parceria entre vários grupos de pesquisa, em especial com arqueólogos, pois estes realizam as escavações em que estas amostras são encontradas. Além destas dificuldades podemos citar outras: sua manipulação é complicada, e tanto a análise quanto conservação exigem técnicas e ambientes especiais. Além disso, há a dificuldade de poder acessar e conseguir um fragmento de DNA para análise molecular em corpos de animais e hominídeos antigos. No Brasil ainda há a falta de verba para pesquisas em geral e para o emprego destas tecnologias citadas, portanto a reprodução destas metodologias ainda é inviável.

O estudo dos pesquisadores reforça o fato de que a biologia molecular pode trazer muitas respostas para a evolução, saúde e condições de vida de animais extintos e hominídeos, e mesmo com as dificuldades mencionadas acima, muitos estudos relevantes já foram (e estão sendo) publicados. A biologia molecular ainda é uma ciência em crescimento, e muitas descobertas estão por vir.

Referências:

  1. Slon et al., Science 10.1126/science.aam9695 (2017).
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Mexeu com uma, mexeu com todas!

“Outra vez na rua!”, ouviu-se da boca de um “varão assinalado” quando começamos a ocupar a Praça dos Leões, no Porto. Sim, outra vez e todas as vezes que forem necessárias até conseguirmos um espaço público seguro, porque a rua também é nossa. A prova disso é que quando o Colectivo Feminista do Porto e a rede de activistas Parar o machismo, Construir a igualdade lançaram o repto “Mexeu com uma, mexeu com todas” num evento criado nas redes sociais para protestar contra a cultura da violação (no dia de ontem, 25 de Maio), juntaram-se logo mais quatro cidades (Lisboa, Braga, Coimbra e Faro) e mais de quarenta associações, como a UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta, as Panteras Rosa – Frente de Combate à LesBiGayTransfobia, a AEFLUP – Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e o blog Cientistas Feministas [1,2,3,4,5].

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Concentração em Coimbra. Foto: Marcela Uchôa

Em Portugal, este é um assunto que se encontra na ordem do dia, porque durante a Queima das Fitas no Porto [6], dentro de um autocarro, foi captado um vídeo que evidencia um abuso sexual sobre uma jovem. Esse vídeo foi divulgado em várias redes sociais e até meios de comunicação social, sem o conhecimento e consentimento da vitima. Tal como foi defendido pela organização do evento, no manifesto que apresentou, essa cultura da violação “ao invés de defender e proteger as vítimas, culpabiliza-as, trazendo para a discussão a forma como as mulheres se vestem, os locais que frequentam, as horas a que o abuso ocorre e o estado de lucidez da vítima e/ou do agressor como argumentos aceitáveis para o desagravo de um comportamento que é crime. Esta cultura tolhe a liberdade das mulheres, porque faz recair sobre elas a responsabilidade de não serem agredidas.”

Foi para dizer um “Basta!” a esse status quo que ontem saímos às ruas e ocupamos as praças de cinco cidades. Foi para transmitir mensagens, por um lado, de sororidade (“Por mim, por ti, por nós e pelas outras”, “Uma por todas e todas por nós” e “ReSister”) e, por outro, de revolta (“Não é não!”, “A tua mão no meu cu, o meu punho na tua cara!” ou “Nem mais uma!”)

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Concentração no Porto. Foto: Helena Ferreira

Para Sara Leão, do Colectivo Feminista do Porto, essas acções são importantes porque “é preciso visibilizar a gravidade e inadmissibilidade desta cultura da violação: a normalização do assédio de rua, a culpabilização das mulheres pelas agressões de que são alvo, a desresponsabilização das instituições”. E acrescenta que “ainda há tanto, tanto para fazer e onde actuar. É preciso que as mulheres tomem o espaço público, se auto-organizem, se façam ouvir e juntas construam um espaço mais seguro e mais solidário”.

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Concentração no Porto. Foto: Nuno Fangueiro

Andrea Peniche, da rede de activistas Parar o machismo, Construir a igualdade, defende que, apesar de tudo, a sociedade machista portuguesa “felizmente, está a mudar. E acho que está a mudar precisamente porque cada vez se cala menos, cada vez se aceita menos e, cada vez mais, nós transformamos a rua em espaço de reivindicação e de conquistas”. Conforme defende a Andrea, o sentido da mobilização e do combate quotidiano é transformar a sociedade. Ela reitera: “Eu não quero isto para o meu filho, não quero isto para as filhas dos outros e lamento que a geração da minha mãe tenha passado por tudo isto. Na minha geração já é diferente e, com franqueza, espero que a próxima geração seja uma geração mais livre do que a minha”. [7]

Aida Suárez Gutierrez, do Colectivo Feminista do Porto, explica que é necessário clarificar que “não saímos à rua por um acto isolado, como se ouve pelas esquinas quando ocupamos as ruas. Não saímos à rua por capricho, como comentam desvalorizando a nossa voz quando gritamos bem alto no coração de cinco cidades.” Até porque segundo esta activista “actos isolados temos todos os dias e só não vê quem não quer ver e é por acontecerem todos os dias que esta é a terceira vez que as mulheres ocupam as ruas, ocupam espaço público, exigindo que seja um espaço seguro e livre”.

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Concentração em Lisboa. Foto: Daniel Cardoso

E termina reiterando que “não queremos um mundo onde alienar estes direitos seja normalizado e legitimado, não queremos uma sociedade onde nos são pedidas explicações quando reivindicamos os nossos direitos, não queremos uma sociedade onde nos responsabilizam quando o namorado nos agride psicologicamente, quando o marido nos bate e nos mata, quando o patrão nos ameaça com despedir-nos se não vamos para a cama com ele, quando um homem (conhecido ou não) acha que nos pode violar porque estamos a dançar, beber uns copos e divertir-nos numa festa à noite, quando responsabilizam a mãe porque o filho é um machista, quando desconhecidos fazem comentários desagradáveis por caminharmos pela rua seguras e de saia curta. É por estes e por todos os actos isolados de violência e discriminação machista que saímos à rua hoje e sempre que seja necessário”.

Mexeu com uma, mexeu com todas!

[1] https://www.facebook.com/events/1369724763082841/

[2] https://www.facebook.com/events/1317753578342672/

[3] https://www.facebook.com/events/1360704530681446/

[4]https://www.facebook.com/events/130725790816089/?acontext=%7B%22action_history%22%3A%22null%22%7D

[5]https://www.facebook.com/events/821130118036399/?acontext=%7B%22ref%22%3A%223%22%2C%22ref_newsfeed_story_type%22%3A%22regular%22%2C%22action_history%22%3A%22null%22%7D

[6] Festa de fim de curso dos estudantes universitários.

[7] https://www.facebook.com/antena1/videos/10155075524060659/

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Conceitos básicos da pesquisa em saúde – parte 1: o desenho do estudo

As pesquisas em saúde costumam receber bastante atenção da mídia, mas isso não significa que os veículos de mídia façam um bom trabalho em explicar os seus resultados. A impressão de que os cientistas estão constantemente mudando de ideia, por exemplo, quanto ao que “faz bem” ou “faz mal” para a saúde, já virou piada velha. Nesta série de textos, vamos discutir os principais conceitos para entender estudos em saúde. Para interpretar os resultados de qualquer estudo, precisamos entender como cientistas descobrem relações de causa e efeito, quais fatores podem interferir nos resultados e que medidas são usadas para contornar essas interferências. Este texto apresenta o desenho de ensaios clínicos, que são os estudos usados para testar novos tratamentos. O próximo discutirá as técnicas estatísticas usadas para analisar os resultados de estudos. O terceiro falará do efeito placebo e o último apresentará os conceitos de risco relativo e risco absoluto, que são fundamentais para entender os resultados de estudos observacionais, ou seja, aqueles que procuram identificar quais fatores levam as pessoas a ter determinadas doenças.

Para entender os ensaios clínicos, vamos primeiro pensar num modelo de experimento mais simples. Digamos que você quer testar se uma substância Y funciona como antibiótico. Você pega uma cultura de bactérias, introduz essa substância e espera para ver se as bactérias morrem. Depois de um tempo, você observa que as bactérias realmente morreram, mas como ter certeza de que foi mesmo a substância Y? Afinal, alguma outra coisa pode ter interferido em seu experimento sem você saber. Para evitar essa interferência e garantir que os resultados são, de fato, efeito da substância que você está medindo, é necessário ter duas culturas de bactérias, totalmente idênticas e mantidas nas mesmas condições, mas só introduzir a substância Y em uma delas. Qualquer diferença necessariamente tem que ser resultado dessa substância, pois todos os outros fatores – ou variáveis – foram controlados. Nesse experimento, a cultura que não recebeu a substância Y é o controle, pois é o que nos diz o que aconteceria sem a intervenção da variável que queremos testar.

A lógica de ensaios clínicos é a mesma desse tipo de experimento. O objetivo é tentar isolar ao máximo o efeito do que os pesquisadores estão medindo – seja ele um remédio, um procedimento, um aparelho, ou qualquer outro tipo de intervenção. Nesses estudos, como no nosso experimento anterior, as pessoas que recebem a intervenção são o grupo experimental e as que não recebem nada formam o grupo controle[1]. No entanto, ao contrário do nosso experimento imaginário, conseguir isolar o efeito de uma única variável é bem mais difícil em seres humanos. Tanto doenças quanto resultados de tratamentos costumam envolver um número grande de fatores, como histórico familiar, sexo, idade e hábitos de vida. Com isso, desenhar estudos para que os dois* grupos sejam idênticos e, ainda por cima, representem bem o conjunto da população é uma tarefa complexa. Uma forma de gerar grupos o mais parecido possível é definir aleatoriamente quais participantes estarão em que grupos. A aleatoriedade evita que pessoas que compartilham outras características – por exemplo, pessoas que têm um mesmo hábito, como fumar, ou que têm o mesmo histórico familiar de uma doença – sejam incluídas num mesmo grupo, algo que poderia interferir com os resultados do estudo (mais sobre isso no segundo texto).

Por outro lado, há o desafio de recrutar participantes com perfis diferentes. Isso é importante porque não há garantias de que os resultados de uma intervenção serão os mesmos para todas as pessoas. Assim, é necessário testar os resultados em pessoas com perfis diferentes para confirmar se a intervenção funciona para todos. Um exemplo disso diz respeito a mulheres grávidas, que geralmente são excluídas de ensaios clínicos devido a preocupações sobre os efeitos possíveis da intervenção na gravidez. Ainda que a preocupação seja justificada, essa exclusão também gera problemas, porque torna impossível obter informações sobre a segurança e eficácia de diferentes tratamentos em mulheres grávidas[2].

Conseguir um conjunto de participantes diverso e dividi-los em grupos semelhantes é com frequência um ponto fraco de ensaios clínicos. Assim, duas das principais críticas de cientistas a ensaios clínicos se focam no fato de terem um número pequeno de participantes, ou apenas participantes de um tipo (pessoas de países desenvolvidos, pessoas brancas, nenhuma pessoa acima do peso, e por aí vai). Em ambos os casos, o que essas críticas estão dizendo é que os resultados desses estudos não necessariamente se aplicam a todas as pessoas e precisam ser comprovados em estudos com um conjunto maior e mais diverso de participantes.

Até aqui, já temos alguns critérios que precisamos ter em mente quando lemos uma notícia sobre um estudo em saúde: qual era o número de participantes? O estudo buscou incluir um conjunto variado de participantes, ou todos tinham um perfil similar? O estudo tinha um grupo controle e um grupo experimental? Eles foram selecionados aleatoriamente? Mesmo que um estudo atenda a todos esses critérios, há outras questões a se considerar. No próximo texto, vamos discutir as técnicas estatísticas usadas para analisar os resultados dos estudos em saúde e algumas dificuldades que essas técnicas precisam superar.

* É possível ter mais de dois grupos em um só estudo, por exemplo, se os pesquisadores quiserem testar combinações de intervenções, mas a lógica do grupo controle/grupo experimental é sempre a mesma.

Fontes:
[1] Hinkelman, Klaus e Kempthrone, Oscar. Desing and Analysis of Experiments – Volume 1: Introduction to Experimental Designs. Hoboken: Wiley, 2008. Disponível em: https://books.google.de/books?id=T3wWj2kVYZgC&printsec=frontcover&redir_esc=y&hl=de#v=onepage&q&f=false
http://care.diabetesjournals.org/content/39/6/1004
[2] Phelan, Alannah L., Kunselman, Allen R., Chuang, Cynthia H., Raja-Khan, Nazia T. e Legro, Richard S. Exclusion of Women of Childbearing Potential in Clinical Trials of Type 2 Diabetes Medications: A Review of Protocol-Based Barriers to Enrollment. Diabetes Care, vol. 40, n. 5, 2017. Disponível em: http://care.diabetesjournals.org/content/39/6/1004

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Vamos falar de todos os campos?

Recentemente, a situação da população LGBT na Chechênia chamou a atenção mundial. A mídia noticiou que estavam sendo mantidos em “campos de concentração”, com casos de tortura e morte denunciados (1), e muita comoção pública, como não poderia deixar de ser.

Agora, com certo distanciamento temporal e geográfico, gostaria apenas de questionar: por que não falamos de campos ocidentais onde essa população está submetida a maus tratos?

Os campos de conversão dos EUA

Há anos, filmes e séries nos Estados Unidos denunciam as severas condições impostas a LGBTs nos “campos de conversão” que se espalham naquele país.

Pesquisas recentes, no entanto, tem desafiado a pretensa “eficácia” desses lugares em mudar a orientação sexual de seres humanos, com destaque para o texto de Andrew Vierra (Georgia State University) e Brian Earp (Oxford University) de 2015 (na íntegra, em Inglês).

O texto em referência aborda as “tecnologias de conversão” para a heteronorma de aspectos da sexualidade, nas quais estão incluídos os chamados “campos de conversão” dos EUA e pesquisas hormonais para redução da libido.

Embora admitindo a falibilidade geral das modernas tecnologias de conversão nesse sentido, o texto lança mão da hipótese futurista de seu eventual sucesso e traz à baila três questões importantes para o debate.

A primeira é a corajosa noção da mutabilidade dos aspectos biológicos por meio da intervenção tecnológica. Afirmar isso significa clareza do dano potencial para os direitos das pessoas LGBT, cuja defesa atualmente se baseia na crença de que essas características são imutáveis:

Todavia, se as biotecnologias do futuro permitirem que as pessoas mudem suas orientações sexuais, o movimento dos direitos LGBT perderia um de seus argumentos centrais. Portanto, pensamos que são necessários argumentos melhores – e que não dependam do estado atual da tecnologia.” (2)

A segunda consiste na observação da mutabilidade da fé religiosa: “Você pode mudar a sua fé.” (3) Algo interessante, dado que a liberdade de crença é garantida em muitos países, e sobretudo nos EUA, a despeito das constantes “conversões” entre seus adeptos.

Enfim, a terceira advém da analogia entre o direito à liberdade religiosa e os direitos sexuais dessas pessoas, e consiste na conclusão de que todos os comportamentos humanos que não façam mal a outrem devam ser protegidos, uma noção basilar dos direitos humanos. Nas palavras dos autores citados:

No entanto, a crença religiosa está coberta por leis de direitos civis e estatutos anti-discriminação… A única vez que você ouve que um traço tem de ser imutável para se qualificar para as proteções de direitos civis é quando [os conservadores] falam sobre [ser] gay.” (4)

Considerações Finais

Para concluir, assim como os autores chegaram à conclusão da necessidade de uma proteção a todos os direitos por analogia entre dois grupos (religiosos e minorias sexuais), esse artigo propõe a necessidade de se refletir por analogia sobre as violações que ocorrem em todos os “campos” ou espaços para a “mudança” de pessoas LGBT, visem ou não seu aniquilamento direto ou indireto.

Assim, enquanto há estardalhaço na mídia dita ocidental em torno dos casos no Leste europeu, pouco se tem cogitado traçar um paralelo com os campos estadunidenses. Decerto, há diferenças. Na Chechênia, essa política parece ser eminentemente estatal. Nos EUA, uma breve análise de discurso demonstra que esta seria, atualmente, uma política de governo ligada ao seu vice-presidente (5) e diametralmente oposta à postura da gestão anterior (6). Seriam essas diferenças, porém, bastantes para aplicar a uns a nomenclatura da Segunda Guerra Mundial, e a outros apenas um eufemismo de fundo religioso?

Em vez de respostas, portanto, restam perguntas. Na presente ausência de dados sobre as reais condições dos campos onde são segregados os “indesejados” da modernidade, como os não-cisheteros e os drogaditos (estes últimos, temas para outro artigo), cautela é central.

Notas:

(1) www.huffpostbrasil.com/entry/chechnya-gay-concentration-camps_us_58ece3d2e4b0ca64d9194e28

(2) No original: “Yet if biotechnologies of the future do allow people to change their sexual orientations, then the gay rights movement would lose one of its central arguments. So we think that better arguments are needed – and ones that are not dependent on the current state of technology.” Trad. livre.

(3) No original: “You can change your faith.” Trad. livre.

(4) “And yet religious belief is covered by civil rights laws and anti-discrimination statutes…. The only time you hear that a trait has to be immutable in order to qualify for civil rights protections is when [conservatives] talk about [being] gay.” Trad. livre.

(5) “(…) [Donald Trump’s] vice president has actually worked to jail homosexuals for applying for a marriage license. Actually worked to redirect HIV treatment funding to Pray-The-Gay-Away™ conversion therapy.” In: https://medium.com/@tuckerfitzgerald/intolerant-liberals-4ecd712ac939

(6) “President Barack Obama called for a nationwide ban on psychotherapy aimed at changing sexual orientation or gender identity.” (VIERRA & EARP, 2015).

Referência:

VIERRA, Andrew; EARP, Brian D. Born this way? How high-tech conversion therapy could undermine gay rights. IN: https://www.researchgate.net/publication/275275148_Born_this_way_How_high-tech_conversion_therapy_could_undermine_gay_rights [May 23, 2017].

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Vírus, bactérias e Chuck Norris: O que eles tem em comum?

     Resistir ao tempo e a condições adversas são habilidades de diversos vírus e bactérias (e Chuck Norris, claro. No caso é o tempo que resiste a ele). Alguns desses micro-organismos são resistentes ao congelamento, calor, seca, falta de nutrientes, etc. O que acontece quando esses micro-organismos são reativados? No caso da península siberiana de Yamal, uma bactéria reativada causou uma epidemia de Anthrax. Em 2016, um garoto de 12 anos morreu e mais de 20 pessoas foram hospitalizadas infectadas pela bactéria. A doença era considerada erradicada e há 75 anos não haviam casos de Anthrax registrados na região.

O que pode ter acontecido?

     A bactéria responsável pelo Anthrax, Bacillus anthracis, é capaz de formar endósporos (estrutura de algumas bactérias que proporcionam resistência e sobrevivência em meio a algum stress ambiental como frio ou calor excessivos, falta de nutrientes ou água, por exemplo), podendo ficar inerte por anos. Como os endósporos geralmente ficam no solo é comum que animais herbívoros ingiram esses esporos e, dessa maneira, forneçam um ambiente propício para a bactéria continuar seu ciclo de desenvolvimento. Depois que o endósporo é ingerido, o B. anthracis sai do período de latência, se multiplica e acaba causando a morte do animal. Nesse momento, a bactéria pode formar mais endósporos ou, caso as condições estejam favoráveis, infectar outros animais, inclusive o homem. Então, uma possível explicação para o que aconteceu em Yamal é que, em 2016, com a forte onda de calor que assolou a região, com temperaturas chegando a 35ºC, parte do solo, permanentemente congelado, descongelou, expondo animais mortos, principalmente renas (animais herbívoros que são a principal fonte de renda da região).  Possivelmente, há mais de 75 anos, uma dessas renas morreu infectada por Anthrax e ficou congelada no solo até o verão de 2016. A bactéria formou endósporos para resistir ao congelamento e, quando as condições se tornaram favoráveis novamente, ela pode se multiplicar e acabou por infectar uma parcela da população de Yamal.

Não são casos isolados

     Talvez você ache incrível que um organismo consiga resistir por quase 100 anos latente e após todo esse tempo continuar o seu ciclo. É realmente incrível, mas acreditem: 100 anos é relativamente pouco tempo para vírus e bactérias permanecerem em estado letárgico. Em 2014, Matthieu Legendre, pesquisador da Universidade Aix-Marseille na França, e colaboradores conseguiram reativar um vírus congelado há mais de 30 mil anos e, em 2007, um grupo de pesquisadores da Universidade de Nova Jersey e da Universidade de Boston obtiveram resultados positivos em testes de atividade metabólica de micro-organismos congelados em camadas de gelo datadas de 100 mil até oito milhões de anos atrás.

     Existem ainda outros exemplos de viabilidade de micro-organismos “adormecidos” não só no gelo, mas em diversos outros ambientes. Em 2017, Penelope Boston, astrobióloga da NASA, conseguiu reativar micro-organismos enclausurados dentro de cristais formados em uma caverna no México entre 50 mil e 10 mil anos atrás. O mais interessante é que o material genético dos organismos que ela analisou não era relacionado a nenhum outro organismo encontrado em bases de dados científicas. No final de 2016, pesquisadores do Canadá e Estados Unidos publicaram um artigo mostrando o resistoma (coleção de genes de resistência a antibióticos) de uma bactéria encontrada numa caverna no Novo México. Essa caverna e, consequentemente, os micro-organismos encontrados nela, estavam isolados da superfície há quatro milhões de anos. A bactéria em questão, Paenibacillus sp. LC231, mostrou resistência a 26 dos 40 antibióticos testados, incluindo um dos mais novos antibióticos utilizados para infecções resistentes, a daptomicina (nome comercial Cubicin®).

     Diante dos fatos expostos, surgem algumas perguntas: o que aconteceria se organismos desconhecidos entrassem em contato com nosso sistema imunológico? E se antigas bactérias super-resistentes conseguissem transferir os genes de resistência a outras bactérias? E se, simplesmente, esses organismos depois de um longo período ficassem viáveis e aptos a causar infecções e doenças novamente, trazendo epidemias consideradas erradicadas? Certamente essas são algumas questões que podem causar preocupação, mas há muito mais por trás desses estudos. Por exemplo, como uma bactéria que não tem contato com a superfície há quatro milhões de anos poderia apresentar tamanha resistência a antibióticos utilizados hoje em dia? Segundo os pesquisadores, os genes de resistência estavam inseridos no cromossomo da bactéria analisada e não havia sinais de inserções novas de elementos móveis, o que indica que esses genes estão ali há muito tempo. Através de análise filogenética, eles chegaram à conclusão que o fenótipo de resistência a diversas drogas é nativo do gênero Paenibacillus, que incluem uma gama de bactérias que vão desde as patogênicas até as fixadoras de nitrogênio. Possivelmente os mecanismos de resistência desse gênero se desenvolveram por acaso ou para combater inimigos naturais (e não os modernos antibióticos) há mais de quatro milhões de anos.

     A busca e descoberta de organismos extremófilos e altamente resistentes nos traz uma série de informações que podem ser utilizadas em diversas áreas, como meio ambiente (como o caso da onda de calor causada pelo aquecimento global em Yamal) e até astrobiologia, por exemplo. Para Penelope Boston, astrobióloga da NASA, o descobrimento de seres capazes de sobreviver em ambientes, no mínimo, inóspitos reforça a hipótese de que a vida pode não ter começado na Terra, já que alguns desses organismos sobrevivem a ambientes semelhantes aos encontrados em outros planetas e luas.

 

Referências: