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As plantas são seres inteligentes?

As plantas são vistas muitas vezes como seres inertes que não respondem da mesma forma, nem na mesma rapidez, que animais ao seu ambiente. Assim, de forma depreciativa, chamamos pacientes em coma de “vegetais” ou pessoas que não são muito rápidas ou muito ativas de “plantas”. Porém, quem tem plantinhas em casa sabe que, na verdade, vemos muitas respostas (às vezes até bem rápidas) desses seres vivos à diferença de luminosidade, nutrientes no solo, contato com outras plantas e até nosso amor (brincadeira haha).

Pois é, existe uma visão bastante antropocêntrica ou até zoocêntrica de que inteligência (ou cognição) é uma capacidade presente apenas em seres vivos com sistema nervoso ⎯ isso inclui humanos e quase todos os animais. Isso porque o processamento das informações do ambiente coletadas através da percepção precisaria passar por um cérebro, ou pelo menos um sistema nervoso básico, que criaria um sentido, uma representação do mundo com o qual o organismo pode interagir.

Novas propostas para a cognição entendem que ela acontece em todo o corpo do organismo e muitas vezes de forma direta com o ambiente. Isso significa que muitas capacidades cognitivas não exigiriam o processamento de um cérebro que daria sentido a informação, mas aconteceriam na relação direta do organismo como um todo com seu ambiente. Importante pontuar que estou resumindo essas propostas de forma bem simples aqui.

Esse é um papo super filosófico e bem espinhoso, mas a questão é que essa segunda perspectiva sobre a cognição acaba abrindo possibilidades para organismos bem inesperados serem considerados inteligentes ou cognitivos. Um exemplo são as plantas. Os comportamentos desses organismos foram constantemente considerados fixos, inflexíveis, sempre como resposta a situações do aqui e agora. Porém, nas últimas décadas, pesquisas vêm descobrindo que o repertório comportamental de plantas contêm muito mais do que reflexos instintivos e imutáveis. Estudos vêm descrevendo comportamentos que os autores identificam como capacidades cognitivas a exemplo de mecanismos de tomada de decisão, aprendizado e memória. 

Ervilheira (Pisum sativum) Fonte: Jun Seita

As raízes das plantas são extremamente sensíveis a condições ambientais como disponibilidade de água, nutrientes e gravidade e são essenciais no processo de tomada de decisão de uma planta. Em uma série de experimentos feitos em ervilheiras (Pisum sativum), pesquisadores encontraram que o crescimento de raízes variava em relação à variação temporal de nutrientes no solo. Parte das raízes de uma mesma planta foram colocadas em um solo com concentração de nutrientes constante; uma outra parte foi colocada em um solo com concentração variável de nutrientes. Em vez de considerar apenas a quantidade absoluta de nutrientes no solo, como esperaríamos de um ser com respostas instintivas ou fixadas, as plantas decidiram investir no crescimento das raízes do meio em que a taxa de nutriente média era maior. Isso levou cientistas a afirmarem que os mesmos modelos usados em animais para explicar tomada de decisão e comportamento ótimo poderiam ser utilizados também em plantas.

Não-me-toque / dormideira (Mimosa pudica) Fonte: Krishnendu Pramanick

A habituação é um dos comportamentos de aprendizagem mais antigos estudados em plantas e também faz parte das capacidades cognitivas descritas em humanos e outros animais. Em 2014, Monica Gagliano e colegas da Universidade do Oeste da Austrália e da Universidade de Firenze na Itália, testaram as capacidades de aprendizagem de uma plantinha chamada dormideira ou não-me-toque (Mimosa pudica). Seu nome vem da maneira como suas folhas se fecham em resposta a uma ameaça (vemos isso quando tocamos nela). Quando eles derrubaram as dormideiras de uma altura (algo que a planta normalmente não teria encontrado em sua história evolutiva), as plantas aprenderam, depois de algumas tentativas, que isso era inofensivo e que não precisavam dobrar suas folhas. Surpreendentemente, os pesquisadores observaram que essa habituação pode ser mantida por até 28 dias! Outro experimento incrível de aprendizagem – não de habituação, mas de associação – é descrito pela @herbaweb nesse outro artigo aqui do blog.

Malva (Lavatera cretica) Fonte: Luis Nunes Alberto

Finalmente, chegamos em um exemplo de memória. As plantas chamadas malvas (Lavatera cretica), horas antes do amanhecer, orientam suas folhas para a direção do nascer do sol. Elas parecem se lembrar de onde e quando o Sol nasceu nos dias anteriores e se certificam que vão obter o máximo de energia luminosa possível todas as manhãs. Alguns experimentos foram realizados com essas plantas, trocando a localização da fonte de luz, mas parece que as plantas simplesmente conseguem aprender e lembrar da nova orientação. Quando criamos memórias, possivelmente retemos algumas informações para uso posterior offline. A capacidade de acessar as informações sobre algo que não está presente naquele momento, afirma o filósofo Francisco Calvo, é a razão pela qual a memória é considerada a marca da cognição. A menos que possa operar offline, um estado ou mecanismo não é genuinamente cognitivo.

Pois é, minha gente, ainda há muito o que se estudar sobre a cognição ou inteligência nas nossas plantinhas, mas os exemplos que trouxe aqui com certeza mudam nossa perspectiva sobre elas. Ainda há muita resistência, mesmo dentro da comunidade científica, de que esses exemplos realmente se referem a casos de cognição. Isso pode ser resultado de um fenômeno chamado “plant blindness” (que eu traduziria como cegueira vegetal) – uma tendência a ignorar as capacidades das plantas, o seu comportamento e os papéis ambientais únicos e ativos que desempenham. Esse fenômeno faz com que as tratemos como parte do pano de fundo, e não como agentes ativos em um ecossistema.

Claro, é um esforço imaginativo tentar entender o que o pensamento pode significar para esses organismos, na falta da divisão cérebro (mente) e corpo (motor), que estamos acostumados a lidar. No entanto, ao tentarmos, podemos acabar expandindo esses conceitos e entendendo melhor como as capacidades cognitivas dos animais humanos e não-humanos evoluíram, o que pode ser extremamente benéfico. 

Espero que depois de ler esse texto você pare um momento para olhar para suas plantinhas com novos olhos. E claro, reconsiderar chamar alguém de planta ou vegetal pejorativamente, já que agora você sabe das possíveis extraordinárias capacidades cognitivas das plantas.

Referências

Calvo Garzón, F. (2007). The quest for cognition in plant neurobiology. Plant signaling & behavior, 2(4), 208-211.

Gagliano, M., Renton, M., Depczynski, M., & Mancuso, S. (2014). Experience teaches plants to learn faster and forget slower in environments where it matters. Oecologia, 175(1), 63-72.Segundo-Ortin, M., & Calvo, P. (2019). Are plants cognitive? A reply to Adams. Studies in History and Philosophy of Science Part A, 73, 64-71.

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COVID-19 e a necessidade de colaborarmos mutuamente pelo bem comum

O ano de 2020 tem sido marcado pela pandemia da COVID-19 em escala mundial. Trata-se de um período de muitas incertezas, debates políticos e uma época em que buscamos ansiosamente por tratamentos e por uma vacina, não é mesmo? Mas também tem sido um período de várias reflexões. Uma delas é a necessidade de aprendermos a viver juntos (apesar de distantes), de sermos solidários e de pensarmos no coletivo ao invés de apenas no individual (Figura 1). Como disse Ricardo Abramovay (pesquisador do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo): “Não há melhor momento para pensar sobre o significado de viver juntos do que quando uma pandemia nos impõe estarmos separados”.

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Figura 1: Representação da interdependência entre os seres humanos. Fonte: Casa Firjan, 2020.

Viver juntos é mais do que a questão física, de estarmos próximos da nossa família, amigos, parceiros de trabalho e da comunidade em geral. Viver juntos é buscar o bem comum, ou seja, uma vida que vale a pena ser vivida, de modo que os outros ao nosso redor também se beneficiem. Assim, como o secretário-geral da ONU, António Guterres, mencionou, lidar com a pandemia envolve uma “interconexão essencial da nossa família humana” e de uma “responsabilidade compartilhada por todos nós” (Figura 2). 

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Figura 2: Trecho do discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, durante a pandemia da COVID-19. Adaptado de Nações Unidas, 2020.

No entanto, observamos inúmeros problemas em manter o isolamento social ou mesmo em respeitar medidas sanitárias de segurança para evitar a dispersão da COVID-19. Por exemplo, são ações que prejudicam o coletivo pessoas que saem às ruas sem usar máscaras e/ou que fazem festas e grandes aglomerações para fazer compras. Mas, “por que viver juntos é algo tão difícil?”. Porque viver juntos tem a ver com a ética das sociedades. E essa ética envolve três dimensões: a cooperação entre os seres humanos, a solidariedade entre as gerações e a nossa relação com o meio ambiente, segundo Abramovay (Figura 3) [aliás, aqui no blog, tem um texto muito bacana sobre “A importância dos coletivos de mulheres feministas no apoio às mulheres em situação de vulnerabilidade na Pandemia da COVID-19”].

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Figura 3:  Três dimensões da ética relacionadas ao viver juntos: cooperação entre os seres humanos, solidariedade entre as gerações (intergeração) e relação com o meio ambiente, segundo Ricardo Abramovay (2020). Fontes: FUMC Saline; Ipads, 2016; Donnelly, 2016.

Em relação à cooperação mútua, “viver juntos” vai além de um pensamento individual de precisar do outro para nossas necessidades individuais. Trata-se da noção de interdependência, de coletividade, sem que haja necessariamente um vínculo ou benefício pessoal direto. Porém, caso algumas pessoas provoquem aglomerações, sem usar equipamentos de proteção individual, há prejuízos para todos, porque pode haver proliferação do vírus para diferentes pessoas, contribuindo assim, para os hospitais ficarem cheios e para o aumento dos perigos aos agentes de saúde, que ficam mais expostos ao vírus. Em outras palavras, há um descomprometimento com o “viver juntos”.

Essa cooperação mútua também nos faz pensar nas desigualdades socioeconômicas, as quais foram escancaradas com a pandemia. Por exemplo, muitos têm dificuldade em cumprir a quarentena, pois não têm o que comer, não podem acessar o conteúdo escolar porque não têm internet ou computador, entre outros problemas de infraestrutura domiciliar. Ao mesmo tempo, essa situação tem mostrado a solidariedade entre as pessoas e a importância da empatia. Assim, percebemos que a cooperação mútua para o bem comum envolve diversas facetas, as quais precisam ser, desde já, pensadas para agora e para o momento pós-pandemia. Além disso, apesar da globalização, muitas vezes, vivemos fechados em nossos grupos sociais, o que nos leva a insistir em nossos modos de vida, de produção e de consumo. Entretanto, a crise da COVID-19 colocou esses hábitos ainda mais para reflexão, apontando a necessidade urgente de mudanças na forma de organização das nossas sociedades (Figura 4), como a perspectiva de investir em bens públicos e coletivos e no bem estar das pessoas.

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Figura 4: Representação da comunidade extensa de pares e a busca pelo bem comum de todas e todos frente à pandemia da COVID-19. Fonte: Nações Unidas, 2020.

A outra dimensão ética é a responsabilidade intergeracional, conservando, por exemplo, os conhecimentos, capacidades, histórias, realizações humanas e condições ambientais,  mantendo-as para as gerações seguintes. Para isso, a questão ética é muito importante, necessitando de prudência e sabedoria para deixar condições para o bem comum futuro de maneira que as pessoas daqui uns anos também tenham a capacidade de florescer e viver uma vida que vale a pena ser vivida. Um caso é o monitoramento de centros urbanos, como no estado de São Paulo, que tem mostrado a redução da concentração de poluentes durante a pandemia. Isso indica que podemos deixar condições ambientais e de saúde melhores para as futuras gerações, caso tomemos a responsabilidade de mudar nosso modo de produção e de pensar desde já.

Esse último ponto também nos faz lembrar da terceira dimensão ética: nossa relação com o meio ambiente, de respeitar não apenas a vida humana, mas todos os processos e formas de vida no planeta. Se as agressões ao meio ambiente persistirem de maneira preocupante da maneira que tem ocorrido, pode ser que outras pandemias similares surjam em breve. Por exemplo, a COVID-19 é considerada uma zoonose (Figura 5), ou seja, doença transmitida de animais para humanos. No caso da COVID-19, acredita-se que a transmissão inicial foi pelo morcego  [há um texto no blog que trata mais profundamente da relação entre os morcegos e a COVID-19 e existe uma publicação acerca da prevenção de outras pandemias]. Acharam que só a COVID-19 foi uma zoonose nos últimos tempos? Não! Há outros exemplos de zoonoses que surgiram recentemente, como ebola, gripe aviária e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS). Sabem um fato em comum entre elas? Estão todas ligadas à atividade humana.

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Figura 5: Conceito sobre zoonose e comparação com as doenças infecciosas. Fonte: Nações Unidas, 2016.

Assim, muitas de nossas ações podem aumentar a chance de zoonoses (Figura 6), como:

– O desmatamento e a redução da integridade dos ambientes naturais. Por exemplo, quando os morcegos (polinizadores noturnos e predadores de insetos) perdem suas áreas naturais, podem buscar novas áreas perto dos seres humanos e, assim, transmitir doenças.

– O crescimento da interação de seres humanos ou rebanhos (pecuária) com animais selvagens.

– O comércio ilegal ou irregular de animais selvagens, pois esses animais podem ser transmissores em potencial de doenças.

Nesse sentido, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) aponta a interdependência entre os seres humanos e o meio ambiente, indicando que as ameaças ambientais impactam a humanidade: “A natureza está em crise, ameaçada pela perda de biodiversidade e de habitat, pelo aquecimento global e pela poluição tóxica. Falhar em agir é falhar com a humanidade”. 

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Figura 6: Fatores que favorecem o aparecimento de doenças zoonóticas. Fonte: Nações Unidas, 2016.

Como vimos, a pandemia da COVID-19 não envolve apenas medidas sanitárias e de saúde pública, mas também questões éticas, econômicas, de cooperação, responsabilidade intergeracional e relação com o meio ambiente. Para o caso da COVID-19, o mundo inteiro se tornou uma comunidade extensa de pares, visto que o comportamento e as atitudes de indivíduos e coletivos se tornaram cruciais para uma resposta bem-sucedida ao vírus, buscando o bem comum. Portanto, as reflexões e mudanças que estão se acentuando na pandemia terão de continuar após seu fim, necessitando tocar em questões sobre organização social e o modo como enxergamos nosso papel frente às pessoas e ao planeta. Nesse sentido, esse trecho do professor Abramovay é pertinente para refletirmos e nos reconstruirmos constantemente, pois o viver juntos está ligado à ética: “Viver juntos, nestas três dimensões não é um antídoto passageiro em época de pandemia. É uma forma de estar no mundo e imprimir sentido à vida de cada um de nós”. 

Referências:

António Guterres. Coronavírus: ‘Estamos todos juntos nesta situação – e juntos vamos superá-la’, diz secretário-geral da ONU. Disponível em: https://nacoesunidas.org/coronavirus-estamos-todos-juntos-nesta-situacao-e-juntos-vamos-supera-la-diz-secretario-geral-da-onu/

Nações Unidas. PNUMA lista 6 fatos sobre coronavírus e meio ambiente. Disponível em: https://nacoesunidas.org/pnuma-lista-6-fatos-sobre-coronavirus-e-meio-ambiente/

Nações Unidas. COVID-19 e o novo coronavírus. Disponível em: https://nacoesunidas.org/tema/coronavirus/

Nakada, L. Y. K.; Urban, R. C. (2020). COVID-19 pandemic: Impacts on the air quality during the partial lockdown in São Paulo state, Brazil. Science of The Total Environment, 139087. doi:10.1016/j.scitotenv.2020.139087.

Ricardo Abramovay. VIVER JUNTOS E O BEM COMUM. 2020. Disponível em: https://gamarevista.com.br/sociedade/viver-juntos-e-o-bem-comum/

Ricardo Abramovay. Covid-19: riscos globais exigem gestão racional e cooperativa. 2020. Disponível em: https://ricardoabramovay.blogosfera.uol.com.br/2020/03/25/covid-19-nao-ha-como-responder-nacionalmente-a-ameacas-globais/?cmpid=copiaecola

Ricardo Abramovay. COVID-19 e o Capitalismo em Estado Crítico – uma conversa com Ricardo Abramovay. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pWonCTeYihY&t=372s

Waltner-Toews, D.; Biggeri, A.; Marchi, B.; Funtowicz, S.; Giampietro, M.; O’Connor, M.; Ravetz, J.R.; Saltelli, A.; van der Sluijs, J.P. Post-Normal Pandemics: Why Covid-19 requires a new approach to Science. Disponível em: https://discoversociety.org/2020/03/27/post-normal-pandemics-why-covid-19-requires-a-new-approach-to-science/

Zambrano-Monserrate, M. A.; Ruano, M. A.; Sanchez-Alcalde, L. (2020). Indirect effects of COVID-19 on the environment. Science of the Total Environment, 138813. doi:10.1016/j.scitotenv.2020.138813.

 

 

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Deficiência: você tem certeza que sabe o que é?

Existem realidades que entram em contato com o nosso mundo por vias indiretas: nós sabemos que existem, mas elas parecem tão distantes que apenas seus elementos simbólicos nos impõem a constatação da sua existência. Para muitas pessoas, esse pode ser o caso da deficiência e do símbolo da cadeira de rodas.

         De acordo com a ONU, uma em cada sete pessoas de todo o mundo está em situação de deficiência e apesar disso, o símbolo da cadeira de rodas pintado nas vagas de estacionamento e nos assentos e caixas preferenciais é o máximo de contato de muita gente com o universo da deficiência no seu cotidiano. Por isso, não é de surpreender que o amplo debate em torno do próprio conceito de deficiência seja desconhecido por uma grande parte da população.

Legenda: Símbolo Internacional de Acesso.  Imagem de Christopher Strolia-Davis por Pixabay.
#Descrição da Imagem: Símbolo internacional de acesso em fundo azul e desenho de pessoa em cadeira de rodas em branco. [Fim da descrição].

No ano de 2011 foi decretado pelo governo federal o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência e de acordo com essa legislação:

Art. 2º São consideradas pessoas com deficiência aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas (BRASIL, 2011).

Essa definição se alinha ao entendimento presente na Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, do qual o Brasil é signatário desde 2009. Observe que nela, a identificação da pessoa com deficiência envolve duas dimensões: o indivíduo e a sociedade e é a participação desta segunda no conceito de deficiência que pode ser uma novidade para muita gente!

Em meados da década de 1960, no contexto da contracultura, um grupo de sociólogos britânicos começou a questionar a naturalização que existia em torno da conceituação de deficiência. Até então, vigorou no meio científico o entendimento de que a deficiência se tratava de um problema individual, uma tragédia que acometia uma pessoa e removia dela a “normalidade” e por isso, os esforços eram voltados para adequá-la ao normal através de sua cura ou reabilitação. Essas pessoas eram frequentemente institucionalizadas e submetidas a tratamentos que muitas vezes violavam sua dignidade sem que sua vontade fosse levada em consideração. Isso porque, geralmente, essas pessoas eram consideradas incapazes.

Isto começou a mudar quando, inspirados pelos questionamentos produzidos pelos movimentos feminista e negro, estes sociólogos passaram a refletir sobre as formas como a sociedade produz barreiras que geram a exclusão de pessoas com deficiência, evidenciando que este é um fenômeno social.

Desde então, este campo do conhecimento, conhecido como Disability Studies ou Modelo Social da Deficiência, vem analisando como as pessoas com deficiência se tornaram particularmente vulneráveis após a Revolução Industrial e o fortalecimento do capitalismo, quando a metáfora de corpos humanos como máquinas (e consequentemente, sua capacidade produtiva) passou a regular o valor de nossos corpos.

Apesar de ainda restarem muitos direitos a serem conquistados, a contribuição do modelo social para a dignidade das pessoas com deficiência – principalmente por seus desdobramentos políticos – é incontestável. Isso, no entanto, não impediu que esse corpo teórico recebesse críticas, inclusive de pessoas que se alinhavam mais ao modelo social que ao modelo médico. Esses debates vêm constituindo um novo campo que se encontra em formação: os estudos críticos da deficiência ou modelo pós-social, que pode ser entendido como uma nova geração do modelo social e conta com importantes contribuições e críticas do pensamento feminista.

Fonte: imagem de upklyak por <a href="http://<a href="https://br.freepik.com/vetores/escola">Escola vetor criado por upklyak – br.freepik.comFreepik

#Descrição da Imagem: desenho colorido de crianças com deficiência de diferentes etnias se encontrando em frente a uma escola em um dia de céu azul com algumas nuvens branquinhas. Um menino utiliza cadeira de rodas, e o outro tem uma prótese como braço esquerdo, uma das meninas utiliza óculos escuros e uma bengala e a outra utiliza uma muleta. Elas se encontram em um caminho pavimentado plano que fica em meio a um gramado verde claro. Da lado esquerdo estão duas árvores e uma placa parcialmente encoberta por uma das crianças, onde se pode ler as letras SCHO e do lado direito, há uma bandeira azul claro balançando com o vento e uma árvore. O caminho leva ao prédio da escola, que tem cor de tijolos de barro, dois andares, muitas janelas e uma entrada grandiosa cercada por colunas. O único acesso à porta de entrada da escola é uma escadaria. [Fim da descrição].

O modelo social enfatiza as dimensões públicas da vida cotidiana, como as barreiras arquitetônicas e a exclusão do mercado de trabalho, em sua análise do papel da sociedade na produção da deficiência. Já para o modelo pós-social é necessário que sejam considerados também os aspectos da vida da pessoa com deficiência considerados privados, como o papel da dor, os efeitos da linguagem excludente, a sexualidade da pessoa com deficiência e ainda, a extensão dessas análises para a questão do cuidado e da interdependência, inerente à condição humana.

Justamente por todo o histórico de exclusão já vivido, o lema das pessoas com deficiência é “Nada sobre nós sem nós”. Por isso, para saber mais sobre esse debate, nada melhor que o Guia Feminista de Mulheres com Deficiência produzido pelo Coletivo Feminista Helen Keller, que você encontra clicando aqui

REFERÊNCIAS

BISOL, Cláudia Alquati; PEGORINI, Nicole Naji; VALENTINI, Carla Beatris. Pensar a deficiência a partir dos modelos médico, social e pós-social. Cad. Pesq., São Luís, v. 24, n. 1, p. 87-100, jan./abr. 2017.

BRASIL. Presidência da República. Decreto N° 6.949, de 25 de agosto de 2009 – Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo facultativo, assinado em Nova York, em 30 de março de 2007. Organização das Nações Unidas – ONU. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Decreto/D6949.htm. Acesso em 17 ago. 2020.

BRASIL. Decreto n°. 7612, de 17 de novembro de 2011. Institui o Plano Nacional de Pessoa com Deficiência – Plano Viver sem Limite. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/_Ato2011-2014/2011/Decreto/D7612.htm . Acesso em: 25 jul 2020.

DINIZ, Débora. O que é deficiência. São Paulo: Brasiliense, 2007.

DINIZ, Débora. Deficiência e Políticas Sociais – Entrevista com Colin Barnes. SER Social,  Brasília,  v. 15, n. 32, p. 237-251,  jan./jun.  2013. 

NAÇÕES UNIDAS BRASIL. A ONU e as pessoas com deficiência. Disponível em: https://nacoesunidas.org/acao/pessoas-com-deficiencia/. Acesso em 25 jul. 2020.

PICCOLO, Gustavo Martins. Contribuições a um pensar sociológico sobre a deficiência. 2012. 231 f. Tese (Doutorado em Educação Especial) – Programa de Pós-Graduação em Educação Especial, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2012. Disponível em: https://repositorio.ufscar.br/handle/ufscar/2898 . Acesso em 04 jun. 2020.

RUMO ao Fazendo Gênero 12 – Oficina Anticapacitismo. Seminário Internacional Fazendo Gênero, 2020. 1 vídeo (152 min). Publicado pelo canal Instituto de Estudos de Gênero – UFSC. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SFxsLgJeDVA . Acesso em 30 jul. 2020. 

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Quando um estudo é confiável? Os casos do ozônio e da hidroxicloroquina

Com o mundo inteiro passando por uma pandemia que está desafiando a ciência (e os nervos), está sendo possível acompanhar o desenvolvimento de medicamentos e possíveis tratamentos para COVID-19 (Para mais informações sobre alguns tratamentos, você pode ler esses posts aqui no blog: 1, 2, 3, 4) . Como nem todo mundo está acostumado com o andar da ciência, a chuva de notícias mostrando que uma hora tal medicamento é promissor, e na semana seguinte já não é mais, causa muita confusão na cabeça da população que só quer sair da p%%¨&%$&*$¨ do isolamento. Falta de paciência misturada com falta de conhecimento científico e gente mal intencionada acaba gerando um caos.

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Figura 1: O ânimo durante o isolamento social. Fonte: Justin Sullivan / Getty Images North America / AFP

O caso mais recente foi o que aconteceu na cidade de Itajaí (SC), onde o prefeito, que é médico, queria indicar para a população uma terapia com ozônio baseado em alguns estudos e relatos de melhoras de pacientes com COVID-19. O caso mais grave foi o da hidroxicloroquina que foi recomendada não só pelo presidente do Brasil, mas também pelo presidente norte americano, e que não tem eficácia comprovada. A confusão em ambos os casos se deu porque os defensores dessas terapias baseiam a sua opinião em estudos publicados que afirmavam que os tratamentos funcionavam. A questão toda aqui é que nem todo estudo pode ser considerado válido a nível populacional. Existem diferentes tipos de estudos para comprovar a eficácia e segurança de um medicamento e alguns são mais confiáveis que outros. Nesse texto eu vou tentar explicar um pouco quais as características de um estudo que conferem mais ou menos credibilidade.

Nesse texto aqui do blog, a autora apresenta algumas metodologias de pesquisa, conceitos e detalha quais são as classificações dos estudos. Dependendo do que se quer estudar, o desenho do estudo, a quantidade de pacientes incluídos e o tempo de observação vão ser diferentes. Como regra geral, quanto mais pacientes e variáveis avaliadas por um período maior de tempo, melhor o estudo.

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Figura 2: Diferença entre o método científico, no qual o pesquisador observa o fenômeno, formula hipóteses a faz testes que podem ou não confirmar a hipótese inicial, de outros métodos que “produzem” medicamentos, tratamentos ou teorias sem comprovação. Fonte: https://conhecimentocientifico.r7.com/metodo-cientifico/ acesso em 18 de agosto de 2020.

No caso da ozonioterapia, por exemplo, o prefeito de Itajaí citou estudos feitos na Itália e Espanha que comprovaram a eficácia desse tratamento. Um ponto importante é que em nenhuma reportagem ou entrevista ele citou que estudos são esses, então eu fui procurar o que tem publicado. Na maioria dos casos, os artigos trazem informações teóricas de outros estudos e extrapolam os resultados para chegar à conclusão que ozônio seria um possível tratamento para COVID-19. Um desses estudos, publicado na revista Antioxidantes, mostra dados de uma série de outros estudos nos quais o ozônio atuou como protetor celular em diversas condições de estresse. É um tipo de estudo de revisão, que agrupa informações sobre um determinado assunto, permite comparar essas informações de diferentes fontes e avaliar a consistência dos dados. O problema aqui é que ele não mostrou nenhum dado específico de ozônio no tratamento de COVID-19. Nem mesmo em experimentos em laboratório. Nesse caso não é um estudo que podemos nos basear para iniciar tratamento de pacientes. Num outro estudo, pesquisadores utilizam a mesma técnica, mas agora focando mais em uma característica específica. O artigo fala de problemas de microcirculação pulmonar que é característico em diversas outras doenças e faz um gancho dizendo que ozônio, em teoria, aumentaria a oxigenação, concluindo que se COVID-19 causar um problema de falta de circulação sanguínea, e consequentemente falta de oxigênio no pulmão, isso já seria evidência suficiente para usar ozônio para tratamento de COVID-19. A conclusão do artigo é ainda mais chocante:

“The use of the ozone-dilution technique in physiological solution and its infusion could also be evaluated and, in the future, the possibility of using ozone therapy with endonasal  insufflation as a substitute for the vaccine could be evaluated.”

Em tradução livre: “O uso da técnica de diluição de ozônio em solução fisiológica e sua infusão poderia ser avaliada e, no futuro, a possibilidade de uso da ozonioterapia por insuflação endonasal como um substituto da vacina poderia ser avaliado”.

Não só o artigo não traz dados clínicos e experimentais específicos de COVID-19, como ainda sugere que a terapia pode ser usada ao invés de uma vacina. Outro detalhe importante, o artigo não é revisado por pares, o que significa que os autores o escreveram e publicaram sem ninguém ler e emitir uma opinião a respeito. Para vocês terem uma ideia, todos os textos publicados aqui no blog são revisados por pelo menos duas outras pessoas e discutidos antes de serem finalizados. Isso evita erros, vieses, e falha de comunicação por exemplo. Novamente, aquele é um artigo científico? Tecnicamente sim. Tem algum valor para o conhecimento e prática clínica? Não. E porque não? Porque não traz dados de pacientes com COVID-19, não faz comparação entre pacientes que usam ozônio e os que que não usam ozônio, e absolutamente nenhum dado que nos indique que os pacientes que usam ozônio não tiveram efeito adverso, nem mesmo dados de experimentos em laboratório. Você está disposto a usar algo que nunca foi testado antes e além de não ter comprovação de eficácia, não se sabe se é seguro?

Existem registros de pelo menos dois estudos clínicos sendo feitos na China para avaliar o uso da ozonioterapia no tratamento de COVID-19. Pelo menos um deles é randomizado, ou seja, os pacientes são escolhidos aleatoriamente, o que é uma vantagem porque representa melhor a população. Ainda assim, esse estudo em andamento conta com somente 152 participantes. Quando os resultados saírem, podemos ter uma ideia melhor de como o ozônio afeta os pacientes com COVID-19.

A questão da hidroxicloroquina segue a mesma linha de raciocínio. É verdade que alguns estudos publicados mostraram resultados diretamente em pacientes tratados em hospitais, o que já é uma vantagem em relação à ozonioterapia, mas as notícias boas acabam por aí. Um dos estudos que trouxe a hidroxicloroquina para as notícias foi conduzido na França avaliando 20 pacientes infectados com COVID-19. O problema deste estudo é que 20 pacientes não representam a população. Ele é válido no sentido de despertar uma possibilidade de tratamento que precisa ser mais investigada e ponto. Não se pode dizer que porque 20 pessoas tiveram uma melhora por conta de um tratamento, aquele tratamento pode ser feito em todo mundo. Muito menos comprar estoques e estoques de um medicamento e indicar que a população se automedique porque 20 pessoas tiveram uma melhora. Quem são essas 20 pessoas? elas tinham algum problema pré-existente? eram homens? mulheres? quais eram suas idades? Um detalhe importante desse artigo é que do grupo de pacientes que iniciaram tratamento com a hidroxicloroquina, 6 morreram antes de terminar o tratamento. Nenhum paciente do grupo controle morreu. Os autores não levaram em consideração essas mortes durante a análise dos resultados, então quando eles concluem que 100% dos pacientes tratados com hidroxicloroquina e azitromicina testaram negativo para o vírus depois do tratamento, eles estão considerando somente os pacientes que terminaram o tratamento vivos. Não te parece errado não considerar e não avaliar o porquê outros pacientes morreram durante o tratamento? Já temos outros estudos maiores e com resultados confiantes mostrando que a hidroxicloroquina não oferece nenhuma vantagem no tratamento de COVID-19.

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Figura 3: Ás vezes muita informação e dados divergentes podem fazer a gente ficar confuso. Fonte: Arquivo pessoal.

Eu entendo que nem todo mundo lê e entende um artigo científico. Fica confuso e difícil avaliar em quem confiar quando muitos jargões são usados e a comunicação não é eficaz. Na situação atual, tudo que queremos é uma cura, deixar de ter medo, rever amigos e familiares e voltar a nossa rotina, mas não existe milagre. Desconfie de tudo que for muito bom pra ser verdade. Desconfie da pílula mágica ou super alimento que cura desde unha encravada até câncer. Procure diversas fontes antes de chegar a uma conclusão. Veja o que grandes organizações, como OMS, Conselhos de Medicina, institutos de pesquisa ou universidades estão falando a respeito. Nessas organizações o consenso não é baseado em uma ou outra opinião, são milhares de pesquisadores, médicos, e profissionais de saúde conversando e avaliando todos os pontos de vista. A evolução da ciência não depende da nossa opinião e não acontece do dia para a noite. É resultado de testes, experimentos, cálculos, interpretação e principalmente trabalho árduo de cientistas. Tudo o que queremos é ter uma cura, uma vacina, uma notícia positiva e estamos nos esforçando para isso, mas queremos ter certeza de que tudo o que fazemos vai ser seguro e certeiro. Como diz minha mãe, não queremos que a emenda saia pior que o soneto.

 

Referências:

Martínez-Sánchez G, Schwartz A, Di Donna V. Potential Cytoprotective Activity of Ozone Therapy in SARS-CoV-2/COVID-19. 2020. Antioxidants, 9: 389. DOI: 10.3390/antiox9050389.

Ranaldi GT, Villani ER, Franza L, Motola G. 2020. Devils and Angels: Ozonetherapy for microcirculation in covid-19. DOI: https://doi.org/10.31226/osf.io/c2jvt.

Gautret P, Lagier, Parola JCP, Hoang VT, Meddeb L, Mailhe M, Doudier B, Courjon J, Giordanengo V, Vieira VE, Dupont HT, Honoré S, Colson P, Chabrière E et al. 2020. Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open-label non-randomized clinical trial. International Journal of Antimicrobial Agents, 56 (1): 105949. DOI: https://doi.org/10.1016/j.ijantimicag.2020.105949.

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Estudando Evolução Humana com Bioinformática

Chimpanzé comum no zoológico de Leipzig, Alemanha. Créditos: Thomas Lersch.

Você já parou para pensar no que nos torna humanos, ou então o que nos diferencia de outras espécies, como os chimpanzés? Biólogos e outros cientistas têm trabalhado nessas questões há muito tempo, comparando humanos com outras espécies  e usando o método científico. Anteriormente, as abordagens giravam em torno de observar as características físicas e comportamentais das espécies para entender as especialidades de cada uma. A pesquisadora Jane Goodall contribuiu imensamente para a ciência estudando chimpanzés, e permanece hoje como uma das grandes cientistas da história.

Pesquisadora Jane Goodall. Créditos: Franz Johann Morgenbesse/wikimedia.

Desde o sequenciamento do genoma humano em 2002, a humanidade recebeu uma importantíssima fonte extra de informações, que nos permitiu atacar essas mesmas questões com uma abordagem complementar àquelas mais tradicionais. Agora é possível estudar as espécies a nível molecular. Atualmente, temos sequenciados os genomas não só da espécie humana, mas também de diversos outros primatas, como chimpanzés, bonobos, orangotangos e gorilas. Dessa forma, podemos comparar os genomas e genes diretamente e entender como a evolução agiu em cada espécie.

Nesse artigo, vou apresentar a você a minha contribuição para esse tema científico. Minha pesquisa foi feita durante o meu Doutorado, realizado no Laboratório de Bioinformática da Universidade de Leipzig, Alemanha, pelo programa brasileiro Ciência sem Fronteiras. Essa pesquisa foi feita em bioinformática com um time multi-disciplinar de Biologia e Ciência da Computação.

Quais genes nos diferenciam de espécies evolutivamente próximas, como os chimpanzés e bonobos? Para responder a essa pergunta nós estudamos famílias de genes de primatas para descobrir quais genes têm funções humano-específicas. Para isso usamos técnicas avançadas de bioinformática. A bioinformática é uma área relativamente nova da ciência, que aplica o imenso poder de processamento e análise da ciência da computação nos problemas existentes em biologia.

Nuvem de palavras de bioinformática. Créditos: Maria Beatriz Walter Costa.

Genes podem ser classificados em dois grandes grupos igualmente importantes: as proteínas e os menos conhecidos RNAs não codificadores (ncRNAs). Esses últimos estão envolvidos na regulação e manutenção das células do nosso corpo. No meu trabalho publicado na revista científica BMC Bioinformatics em 2019, apresentei o SSS-test (test for Selection on Secondary Structure), primeiro programa da comunidade científica mundial capaz de analisar famílias de ncRNAs e reportar o grau evolutivo de cada espécie. 

Árvore evolutiva de cinco espécies de primatas (à esquerda) em contraste com a evolução de um ncRNA (um tipo de gene) com estrutura humano-específica (direita). O novo programa de bioinformática SSS-test encontra tais genes, nos ajudando a entender o que exatamente nos diferencia de outras espécies. Créditos: Maria Beatriz Walter Costa.

Como isso é feito? Primeiro, construímos um algoritmo teórico com os seguintes passos: 

  • (i) recebe como entrada as sequências de genes tipo ncRNAs,
  • (ii) detecta as diferenças entre as espécies e 
  • (iii) constrói modelos estatísticos de impacto estrutural. 

Após definir esse novo algoritmo, nós o implementamos por meio de uma linguagem de programação. Dessa forma, traduzimos as teorias e fórmulas estatísticas em um programa, o qual o computador entende e processa. 

Parte do programa SSS-test. Créditos: Maria Beatriz Walter Costa

Com o programa SSS-test finalizado, processamos todas as 15 mil famílias de ncRNAs conhecidas de primatas (Walter Costa, LGBio) e encontramos um pequeno grupo de 110 ncRNAs com sinais humano-específicos. Um deles é o MIAT, ilustrado na figura acima da árvore evolutiva de primatas. O MIAT e mais alguns desses ncRNAs estão ativos no nosso cérebro, o que pode levar a descobertas futuras ainda mais intrigantes sobre a nossa biologia e o que nos difere de outras espécies próximas, como os chimpanzés e bonobos.

Dentre as principais diferenças entre nós e nossos primos genéticos, estão as nossas habilidades únicas de fala, cognição e linguagem. Outro exemplo dos ncRNAs que estudamos, denominado HAR1, está ativo no desenvolvimento do cérebro ainda na gestação, e pode estar relacionado à cognição. As descobertas do meu Doutorado juntamente com nosso novo software, o SSS-test, ajudam a compreender melhor todas essas complicadas questões sobre o que nos torna humanos.

Referências

Conversa com a Dra Maria Beatriz Walter Costa pelo LGBio. “Pesquisa em Bioinformática: Evolução e Seleção Adaptativa de ncRNAs”. Youtube. 2020   https://www.youtube.com/watch?v=7wC2dL3QadM 

Walter Costa, Maria Beatriz; Höner zu Siederdissen, Christian; Dunjić, Marko; Stadler, Peter e Nowick, Katja. “SSS-test: a novel test for detecting positive selection on RNA secondary structure”. BMC Bioinformatics. 2019 https://bmcbioinformatics.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12859-019-2711-y

Nowick, Katja; Walter Costa, Maria Beatriz; Höner zu Siederdissen, Christian; Stadler, Peter. “Selection Pressures on RNA Sequences and Structures”. Evolutionary Bioinformatics 2019  https://doi.org/10.1177/1176934319871919 


Walter Costa, Maria Beatriz. Tese de Doutorado (Doctor rerum naturalium) em Ciência da Computação. “Adaptive Evolution of Long Non-Coding RNAs”. Universidade de Leipzig, Alemanha. Programa Ciência sem Fronteiras – CNPq/Brasil 2018  https://nbn-resolving.org/urn:nbn:de:bsz:15-qucosa2-323898

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SARS-CoV-2, como fazer para essa Pandemia não acontecer novamente?

 

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Figura 1- imagem do SARS-CoV-2. Piro4d por pixabay.

No dia 30 de janeiro de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou Estado de Emergência Global em razão do SARS-CoV-2, dois meses após o primeiro caso em Wuhan, China. Desde então pesquisadores de todo o mundo começaram a estudar diferentes métodos de tratamento, mecanismos de dispersão e transmissão do vírus, uma nova vacina, etc. Ainda assim, estamos em julho e com muita pesquisa e análises para serem feitas e que possam nos ajudar a entender um pouco mais sobre esse vírus. No entanto, ainda que façamos o isolamento social e estejamos impactados pelo surgimento do coronavírus e com o número de pessoas que estão infectadas no planeta (mais de 11 milhões de pessoas no dia 4 de julho), o mundo não pára: o aquecimento global continua acontecendo, tendo como consequência o aumento de temperaturas, como aconteceu na Sibéria que atingiu 38°C, a mais quente na história daquele país, outro exemplo são as nuvens de gafanhoto que têm se dispersado na África, Ásia e na América do Sul

Alguns pesquisadores apontam: apertem os cintos, porque isso é só o começo. Grandes pandemias podem ocorrer após a COVID-19 e ter um impacto ainda maior na população mundial se não cuidarmos do nosso planeta. Visto isso, um estudo publicado por um grande grupo de pesquisadores, liderado pelo Dr. Dan Brooks em maio de 2020, traz algumas soluções para se tentar amenizar essas catástrofes iminentes.

O PARADIGMA DE ESTOCOLMO

O Paradigma de Estocolmo é um conceito utilizado nos estudos parasitológicos e sugere que a capacidade dos patógenos de se associarem a algum hospedeiro está relacionada a ocorrência de características específicas do próprio hospedeiro. Estas características representam os requisitos necessários para a ocorrência daquele patógeno.

No entanto, para entender um pouco mais sobre esse conceito, vamos trazer aqui a definição de parasitismo. De acordo com Araújo e colaboradores (2013), o parasitismo é composto por três subsistemas: o parasito, o hospedeiro e o meio ambiente. O parasito pode ser definido como um organismo que encontra seu nicho ecológico em outro organismo. Um parasito não causa necessariamente uma doença, sendo esta uma consequência do desequilíbrio em um dos subsistemas.

O Paradigma de Estocolmo propõe que os parasitos utilizam suas características pré-existentes para colonizar um novo hospedeiro; ou seja, não representam a evolução de novas ou de características especiais nesses parasitos. No caso do SARS-CoV-2, os receptores existentes nos morcegos (quer ler mais sobre? Clique aqui), essenciais para a sobrevivência do vírus, estão presentes em um grupo diverso de mamíferos, que por sua vez têm potencial para se tornarem novos hospedeiros. Esse parasito foi então “oportunista” e acabou infectando novos hospedeiros. E quem seriam esses novos hospedeiros? Nós, os humanos.

Os coronavírus são um grupo de vírus que parasitam mais frequentemente os morcegos, no entanto existem algumas variantes que ocorrem em outras espécies. Apesar da grande maioria dos coronavírus não serem transmitidos diretamente para os humanos, existem alguns fatores que podem facilitar a transmissão: um exemplo são os mercados que comercializam uma diversidade de animais silvestres para o consumo por humanos. A emergência dos vírus SARS-CoV em 2003 e agora do SARS-CoV-2 é resultado dessas práticas. A exposição a novos patógenos aumenta devido a globalização, importação e exportação de alimentos, viagens turísticas e de negócios. A cereja do bolo deste quadro já bastante complexo são as mudanças climáticas, potencializadas e influenciadas pelas práticas humanas

mundo

figura 2- imagem de gerd altmann por pixabay.

O Paradigma de Estocolmo nos ensina que a emergência das crises e pandemias de doenças infecciosas está associada a mudanças que facilitam a oportunidade que esses patógenos têm para ocupar novos hospedeiros e reservatórios, devido às alterações em seus espaços. Esses espaços são os habitats que esses organismos ocupam.

São três os elementos que compõem essa alteração no espaço:

1) mudanças climáticas que levam a mudança de habitat e comportamento de diversas espécies e consequentemente seus parasitos;

2) globalização do comércio e viagens, que aumenta a diversidade e frequência dos encontros de parasitos;

3) aumento da urbanização, com mais de 50% da população humana residindo em cidades, o que aumenta a emergência de doenças parasitárias.

Caso haja alguma alteração no habitat de um hospedeiro, por exemplo, o desmatamento de florestas para criação de gado, esses hospedeiros não têm para onde ir e acabam entrando em locais onde os humanos habitam, e carreiam seus parasitos e consequentemente a população que habita o local é exposta a novos microrganismos.

As cidades são os locais mais vulneráveis devido: ao clima, que é mais quente; à dependência de insumos que vêm de outros locais e que acabam trazendo microrganismos; à ocorrência de espécies que são vetores de microrganismos e que afetam os humanos e seus animais de estimação; à alta densidade populacional e aglomeração aumentando a chance de exposição aos patógenos; à divisão laboral e interdependência; à desigualdade social que leva a falta de saneamento básico e à exposição a doenças emergentes.  

O PROTOCOLO DAMA

Esse protocolo é uma extensão do Paradigma de Estocolmo. Os pilares do DAMA são:

Documentar a existência de microrganismos causadores de doenças em cada país, e também seu ciclo de vida, onde circulam, quais são os hospedeiros, vetores e os mecanismos de transmissão;

Avaliar a importância relativa desses parasitos encontrados na documentação, a fim de focar nos mais importantes;

Monitorar os parasitos considerados significativos na avaliação;

Ações efetivas quando for necessário, engajar governos e ONGs.

A aplicação deste protocolo é urgente: há 15 anos pesquisadores da China identificaram um coronavírus com similaridade genética ao SARS-CoV-2 em morcegos que habitavam uma caverna na província de Yunnan. Caso o protocolo DAMA tivesse sido aplicado, provavelmente teríamos hoje mais informações a respeito desse vírus.

Mapa

figura 3. Mapa da Província de Yunnan, China. Fonte: Google Maps.

A crise relacionada ao SARS-CoV-2 não é somente uma crise de saúde, é um problema relacionado à biodiversidade, ecologia e evolução, e está interligado às ações humanas. A pandemia de hoje nos alerta sobre a necessidade de usarmos todas as ferramentas necessárias para tentar diminuir o impacto que a espécie humana causou no nosso planeta. A ciência tem avançado, mas o negacionismo ainda a cerca, limitando a propagação do conhecimento científico para o grande público, e trazendo fake news que diminuem a credibilidade dos cientistas. Apesar de parecer quase impossível combater as alterações climáticas, e também os negacionistas da ciência e suas fake news, ainda há esperança para pelo menos diminuir os impactos e ter um mundo que as próximas gerações possam usufruir. Estamos indo para um caminho que talvez não tenha mais volta, portanto precisamos de toda ajuda necessária de cada um que habita o nosso planeta, e principalmente confiar nos cientistas que trabalham para isso.

Arvores

figura 4- imagem de mystic art design por pixabay.

Vamos fazer a nossa parte?

Referências:

– Brooks et al. (2020). Before The Pandemic Ends: Making Sure This Never Happens Again. World Complexity Science Academy Journal, vol. 1(1).

– Araújo et al. (2013). Paleoparasitology: the origin of human parasites. Arquivos de Neuropsiquiatria, 71(9-B): 722-726.

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O futuro da biodiversidade no nosso planeta: qual caminho “normal” queremos voltar a seguir depois da quarentena?

Todo dia a gente vê um meme diferente sobre o que faremos quando a quarentena acabar (sobre a pandemia do Covid-19) e a vida voltar ao normal. Depois da crise que estamos vivendo e das discussões que ela traz, a perspectiva de querer voltar ao que vivíamos antes da pandemia, em vez de pensarmos em melhores alternativas de lidar com a realidade, me parece equivocada, já que foi aquela normalidade que nos trouxe até aqui. Hoje vou dar um exemplo dos frutos que a nossa antiga normalidade deve colher daqui a algumas décadas e porque precisamos pensar desde já em nova normalidade: a extrema perda da biodiversidade causada pela perda de habitat em todo o mundo. 

Para discutir esse tema, vou apresentar os resultados de um estudo que acabou de ser publicado na revista Biological Conservation pelos pesquisadores Daniel Gonçalves-Souza, Ricardo Dobrovolski (Universidade Federal da Bahia) e Peter H. Verburg (VU University Amsterdam, Holanda). Eles utilizaram um modelo para prever a perda da biodiversidade a partir da perda de habitat que vai acontecer daqui a 20 anos e os resultados dessa pesquisa não são nem um pouco promissores.

Não dá pra dizer que esse prognóstico é surpreendente. A perda da biodiversidade no nosso planeta está acontecendo em uma velocidade cada vez mais acelerada. O aumento da população combinado com nossos padrões de consumos extremos estimulam a perda de áreas naturais e consequentemente, a perda do habitat de inúmeros seres vivos que viveriam nessas áreas. Isso resulta na extinção de diversas espécies, além da perda de serviços ecossistêmicos fundamentais realizadas por elas para o bem-estar humano. As atividades de agropecuária são as principais responsáveis pela redução de áreas naturais e, apesar de estarmos sentindo que a pandemia levou a uma redução geral das atividades econômicas do país, o desmatamento na Amazônia só acelerou  — com 51% de aumento em relação ao mesmo momento no ano passado (se liguem na importância de deixar as florestas intactas aqui). 

Com o objetivo de ter valores mais claros acerca dessa perda de biodiversidade para guiar o desenvolvimento de melhores estratégias de conservação em todo o mundo, os pesquisadores responsáveis pelo estudo intitulado “Perda de habitat, previsibilidade da extinção e esforços de conservação das ecorregiões terrestres”  (em inglês “Habitat loss, extinction predictability and conservation efforts in the terrestrial ecoregions”) construíram um modelo para quantificar a ameaça de extinção de espécies de vertebrados terrestres como resultado da perda de habitat. Esse modelo é baseado numa relação espécie/área, considerando que o aumento de áreas disponíveis, também resulta em um aumento de espécies na área em questão (e vice-versa). Os pesquisadores utilizaram os dados de mais de 600 espécies de vertebrados distribuídos em diversas ecorregiões globais para aplicá-lo.

Esse modelo foi criado em duas etapas. Como uma das formas de quantificar a perda de biodiversidade é utilizar o número das espécies em extinção, eles primeiro avaliaram o risco de extinção atual, considerando a perda de habitat até o presente momento. Após terem uma previsão, eles compararam os resultados com os valores reais da lista vermelha de espécies em extinção da União Internacional pela Conservação da Natureza (ou IUCN em inglês). Esse passo é importante porque se os dados que o modelo previu para os valores atuais são iguais aos dados reais registrados de espécies ameaçadas, nos certificamos que as previsões do modelo se adequam à realidade. O modelo previu que 2073 espécies deveriam estar ameaçadas hoje e este número está muito próximo ao número real que consta na lista da IUCN. 

A segunda etapa do modelo foi construir uma previsão para o ano de 2040, depois de 20 anos de destruição. E é aqui que nossa velha normalidade entra em jogo. Os pesquisadores utilizaram as taxas de perda de habitat até a atualidade para prever a perda da biodiversidade que esperamos daqui a 20 anos. Infelizmente, se continuarmos os mesmos hábitos, essas taxas também irão se manter iguais e, mais de quatro mil espécies podem estar ameaçadas de extinção nas próximas décadas.

Adicionado a isso, o estudo identificou as ecorregiões que estão mais ameaçadas de perder biodiversidade. Os esforços de conservação estão normalmente voltados para áreas chamadas de hotspots de biodiversidade, que, basicamente, são áreas com um grande número de espécies importantes de serem conservadas, a exemplo das endêmicas (aquelas espécies que tem uma área de vida restrita a um certo local).  O interessante é que o estudo identificou algumas ecorregiões em perigo que estão fora desses hotspots de biodiversidade, chamando atenção para a necessidade de ampliação das estratégias de conservação no nosso planeta.  

Este mapa retirado do artigo em questão mostra a relação entre o número de vertebrados endêmicos previstos para extinção devido à perda de habitat acumulada projetada até 2040 (em vermelho – tons escuros indicam mais extinção) e a porcentagem da área de ecorregião que está protegida (em azul – tons escuros indicam mais área protegida). Fonte: Biological Conservation, volume 246 – Elsevier, 2020.

É importante pontuar que os autores afirmam que este não deve ser o único modelo utilizado para fazer essas previsões. Como é um modelo geral, ele simplifica as respostas diversas que as diferentes espécies podem apresentar em relação a perda de habitat, além de necessitar de dados das espécies que não estão sempre disponíveis. Precisamos de mais informações sobre a nossa biodiversidade para fazer previsões cada vez mais seguras sobre seu futuro. 

Mas, com certeza o artigo nos dá um grande exemplo para se repensar sobre qual mundo queremos (re)construir, quando sairmos desta pandemia. O jeito que estamos lidando com a natureza, da qual inclusive fazemos parte, não tem gerado consequências favoráveis. Agora que saímos do velho normal, talvez seja o momento perfeito para se pensar em um novo normal, muito mais responsável, consciente e ativo.

Fonte:

Gonçalves-Souza D., Verburg P. H., Dobrovolski R. (2020) Habitat loss, extinction predictability and conservation efforts in the terrestrial ecoregions. Biological Conservation, Volume 246, 2020, 108579.

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Mar profundo e o coronavírus, qual a relação?

A pandemia do coronavírus deixou o oceano muito mais quieto. Atividades como o transporte realizado por navios, a passagem de transatlânticos turísticos e a exploração de gás e óleo foram enormemente reduzidas. A ciência tem mostrado que os ruídos advindos desses usos podem causar impactos em mamíferos marinhos, como por exemplo, baleias, que se comunicam através de sons no ambiente para atividades como alimentação e reprodução. Para os cientistas, portanto, este momento de “silêncio’ no mar é muito importante para avançar no conhecimento sobre como esses animais vêm sendo afetados por pressões humanas. 

O mar não apenas sente as consequência do coronavírus, mas também poder ter importante papel em seu combate. Testes utilizados para detectar a doença, bem como no caso da AIDS e outras SARS, foram desenvolvidos a partir de enzimas extraídas de bactérias encontradas em regiões de altas temperaturas e pressões no mar profundo, em um ecossistema conhecido como fontes hidrotermais (Figura 1). Graças à resistência dessas bactérias a altas temperaturas, enzimas presentes nesses organismos são utilizadas na detecção do vírus SARS-CoV-2, responsável pela doença COVID-19, através da técnica de PCR. Essas bactérias são, portanto, um bom exemplo sobre a potencialidade do mar profundo, considerado ainda pouco explorado e compreendido, para o combate e tratamento de doenças, dentre outros benefícios possíveis que podem trazer aos seres humanos (Le et al., 2017).

As fontes hidrotermais são ambientes bastante peculiares, formados em zonas de convergência de placas tectônicas da Terra. Tratam-se de verdadeiras chaminés, que liberam um fluido quente muito rico em metais resultante do contato da água do mar com o magma da Terra. Em um ambiente aparentemente inóspito como esse, bactérias se adaptaram, utilizando os fluidos ricos em compostos químicos como combustível para produzir sua própria comida, processo conhecido como quimiossíntese. Os produtos da quimiossíntese, por sua vez, são fonte de alimento para outros organismos. Ou seja, muitas comunidades biológicas de fontes hidrotermais dependem das bactérias quimiossintéticas para sobreviver (van Dover, 2014).

Figura 1. Fonte hidrotermal expulsando fluido resultante do contato da água do mar com o magma da Terra. Imagem cortesia da NOAA Office of Ocean Exploration and Research, 2016 Deepwater Exploration of the Marianas.

Nos últimos anos, as fontes hidrotermais despertaram o interesse dos seres humanos em um campo além da pesquisa científica, a mineração submarina. As substâncias químicas presente nos fluidos expelidos pelas fontes hidrotermais e que servem como matéria prima para a produção de alimento pelas bactérias são também fonte de metais de interesse comercial para os seres humanos. Quando em contato com a água do mar mais fria, o fluido quente da chaminé precipita-se em sulfetos polimetálicos, estruturas que possuem metais de interesse comercial para a indústria, como cobre, zinco e até ouro (SPC, 2013).

Muitas fontes hidrotermais são encontradas em regiões de fundos marinhos localizados além da jurisdição nacional dos países, parte conhecida como “a Área”. Essa zona não está sob a soberania de ninguém, o que significa que nenhum país do mundo pode controlar atividades de mineração nessas áreas por meio de suas leis, por exemplo. Além disso, os recursos minerais existentes na Área são reconhecidos como patrimônio da humanidade, ou seja, pertencem a cada um de nós e às próximas gerações por vir. O controle e elaboração das regulações (“regras”) que ditam a mineração na Área ficam a cargo de um órgão vinculado à Organização das Nações Unidas conhecido como Autoridade Internacional sobre os Fundos Marinhos (International Seabed Authority, ISA, em inglês).

Atualmente, o principal trabalho da ISA é desenvolver o passo-a-passo, ou marco regulatório, para extração de minerais na área para aplicação comercial (o processo envolve outras etapas antes da mineração para extração comercial, assunto para outra publicação). No entanto, essa é ainda uma discussão muito controversa, uma vez que assim como para a mineração terrestre, espera-se que essa atividade traga uma série de impactos ao ambiente marinho e sua biodiversidade. Além disso, os cientistas não estão convencidos de que há informação suficiente sobre o funcionamento do mar profundo e sobre as consequências de potenciais impactos da mineração nesses ambientes (Koschinsky et al., 2018).

Para discutir o processo, Estados Membros se encontram presencialmente duas vezes ao ano em Kingston, na Jamaica. Em 2020, no entanto, essas discussões vêm sendo impactadas pelo coronavírus, uma vez que há grandes restrições na entrada e saída de pessoas de seus países. Devido aos diversos interesses comerciais e estratégicos envolvidos na discussão, muitos Estados Membros se opõem à alternativa de dar continuidade ao processo de forma virtual, o que deverá ocasionar um atraso nas discussões.

Em uma nova realidade em que tentamos nos adaptar às novas condições e manter nossas atividades, reflito: mesmo em cenários complexos de decisão devemos continuar o diálogo e seguir em frente? Ou ainda é mais seguro aguardar e retornar às velhas práticas quando possível? Quais poderiam ser as implicações de uma ou outra?

O oceano grita no silêncio. Cabe a nós ouvir e acolher a mensagem trazida pelo corona ou apenas calar uma vez mais sua voz com nossos motores de navios e equipamentos de extração que nos ensurdecem há tantas décadas e talvez àquelas por vir.

Referências:

Koschinsky et al. 2018. Deep-sea mining: Interdisciplinary Research on Potential Environmental, Legal, Economic, and Social Implications. Integrated Environmental Assessment and Management, v.14, n.6, p. 672-691. https://doi.org/10.1002/ieam.4071 

Le et al. 2017. Incorporating ecosystem services into environmental management of deep-seabed mining. Deep Research Part II, v.137, p.486-503. https://doi.org/10.1016/j.dsr2.2016.08.007

SPC, Secretariat of the Pacific Community. 2013. Deep Sea Minerals: Sea-Floor Massive Sulphides, a physical,biological, environmental, and technical review. Baker, E., and Beaudoin, Y. (Eds.) Vol. 1A.

van Dover, 2014. Impacts of anthropogenic disturbances at deep-sea hydrothermal vent ecosystems: A review. Marine Environmental Research, v.102, p. 59-72. https://doi.org/10.1016/j.marenvres.2014.03.008

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Morcegos e Coronavírus Evoluindo Juntos OU Como Prevenir Novas Epidemias?

Após várias teorias de conspiração para o surgimento do SARS-Cov-2, vírus causador da atual pandemia, em março deste ano um grupo de cientistas publicou um estudo com fortíssimas indicações de que o SARS-Cov-2 não teria sido criado em laboratório e sua origem seria uma mutação do coronavírus presente em algumas espécies de morcegos e/ou pangolins. As duas espécies animais são portadoras de tipos de vírus similares ao que está causando a pandemia atualmente. Uma das possíveis origens da teoria de que SARS-Cov-2 teria sido criado em um laboratório em Wuhan (China) pode ter sido pelo longo histórico de laboratórios de pesquisa dessa cidade que estudam a relação entre coronavírus e morcegos. Esse não é um assunto novo, até porque outras espécies de coronavírus já são conhecidas por causar doenças em seres humanos como o coronavírus causador da MERS ou síndrome respiratória do Oriente Médio, mas nenhum deles tinha tido um impacto tão grande como o SARS-Cov-2. Você pode conferir mais sobre isso nesse texto aqui do blog.

transmissão

Figura 1: Modo de transmissão do coronavírus para seres humanos pode ser através de uma contaminação direta do hospedeiro ou pode envolver um hospedeiro intermediário como o pangolin no caso do SARS-Cov-2. Modificado de Freepik.

Entender a relação entre duas espécies que evoluem juntas pode nos dar indícios de como prevenir ou combater possíveis novas infecções causadas por qualquer agente que tenha origem animal, como ebola (causado pelo vírus Ebola) ou esquistossomose (causada pelo verme Schistosoma mansoni) por exemplo. É essa relação de evolução conjunta, chamada coevolução, que um grupo de cientistas da França, Estados Unidos, Madagascar, Moçambique, África do Sul, Ilhas Maurício e Seychelles estudaram entre 36 espécies de morcegos e diferentes tipos de coronavírus em uma área do sudeste da África continental (Moçambique) e diversas ilhas a oeste do Oceano Índico. O objetivo dos pesquisadores e pesquisadoras foi, entre outras coisas, avaliar possíveis formas de outros tipos de coronavírus se tornarem transmissíveis a seres humanos.

mapa de coleta

Figura 2: Mapa da região onde foram coletados os morcegos analisados em Joffrin et al. (2020). Crédito: Joffrin et al. (2020).

Em primeiro lugar foi avaliada a taxa de morcegos infectados com coronavírus. No total, 8,7% dos 1.036 indivíduos estavam infectados e a maior taxa de infecção foi encontrada em Moçambique, ou seja, no continente. Outras análises indicaram que a grande maioria dos vírus coletados era específica de uma determinada família de morcegos, ou seja, cada “espécie” de vírus é capaz de infectar somente uma família de morcegos (importante ressaltar aqui que família tem sentido taxonômico). Isso já era esperado, tanto que de acordo com o Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV em inglês) coronavírus são estruturados filogeneticamente em subgêneros e, em geral, cada subgênero infecta uma família de morcegos. É por isso que a denominação dos subgêneros virais é feita de acordo com a denominação da família de morcegos infectada por estes (Ex.: vírus do subgênero Rhinacovirus infectam morcegos da família Rhinolophidae por exemplo).

Um dos resultados inesperados encontrados pelos pesquisadores foi o modo de evolução viral. A hipótese era de que os vírus que infectam morcegos na área analisada (Ilhas e continente a oeste do Oceano Índico) evoluíram pela transferência de hospedeiro seguida de adaptação, como acontece com coronavírus que infectam morcegos africanos de acordo com um estudo feito por Anthony e colaboradores (2017). Isso significa que uma espécie de vírus que infecta a espécie X de morcego sofre uma mutação e passa a ser capaz de infectar a espécie Y e, após isso, se adapta ao novo hospedeiro até que seja diferente o suficiente para ser identificado como um tipo diferente de vírus. Os vírus encontrados nos morcegos da região oeste do Oceano Índico, por outro lado, evoluem, em sua maioria, por um processo chamado coevolução. Isso significa que mudanças evolutivas em morcegos geram mudanças evolutivas no vírus que infecta aquela espécie de morcego. Essa forma de evolução é comum em relações de parasita-hospedeiro ou em plantas e polinizadores. Houve um caso, entretanto, em que um grupo de cientistas encontrou o mesmo vírus infectando duas famílias de morcegos em uma área de Moçambique.

Morcego evolução

Figura 3: Filogenia fictícia que ilustra a ideia de que o coronavírus evolui junto com o seu hospedeiro natural, o morcego. Crédito: Richard Borge para Scientific American.

O artigo termina com uma análise de três outros tipos de coronavírus conhecidos por infectar humanos e morcegos (NL63 Human CoVs, 229E Human CoVs e MERS-like Cov). Ainda não se sabe exatamente como esses vírus começaram a ter capacidade de infectar humanos, mas estima-se que tenha sido através de um hospedeiro intermediário (vírus do morcego infecta outro animal e esse animal transmite a seres humanos). Para encerrar, o grupo de cientistas concluiu que, como em outras zoonoses, o surgimento, mutação e infecção de humanos por novos vírus são associadas a mudanças no ecossistema como fragmentação de habitat, práticas intensivas de agropecuária e consumo de carne de origem selvagem. Essa conclusão vem de acordo com os resultados de outro artigo publicado semana passada (4 de Maio) por um grupo de cientistas do Reino Unido que chama a atenção para como as práticas de manejo animal (pecuária intensiva, com o uso indiscriminado de antibióticos, o grande número de animais e baixa diversidade genética destes animais) são um risco enorme para o surgimento de epidemias. Uma reavaliação da nossa relação e o  impacto que causamos no meio ambiente se faz necessária o mais rápido possível ou pandemias, distanciamento social e todo o sofrimento causado por essas doenças vai se tornar o novo normal.

 Referências: 

Joffrin L, Goodman SM, Wilkinson DA, Ramasindrazana B, Lagadec E, Gomard Y, Le Minter G, Santos A, Schoeman MC, Sookhareea R, Tortosa P, Julienne S, Gudo ES, Mavingui P, Lebarbenchon C. (2020). Bat coronavirus phylogeography in the Western Indian Ocean. Scientific Reports, 10 (1) DOI: 10.1038/s41598-020-63799-7

Coronaviruses and bats have been evolving together for millions of years: Different groups of bats have their own unique strains of coronavirus.” ScienceDaily. ScienceDaily, 23 April 2020. <www.sciencedaily.com/releases/2020/04/200423082231.htm>

Mourkas E, Taylor AJ, Méric G, Bayliss SC, Pascoe B, Mageiros L, Calland JK, Hitchings MD, Ridley A, Vidal A, Forbes KJ, Strachan NJC, Parker CT, Parkhill J, Jolley KA, Cody AJ, Maiden MCJ, Kelly DJ, Sheppard SK. (2020) Agricultural intensification and the evolution of host specialism in the enteric pathogen Campylobacter jejuni. Proceedings of the National Academy of Sciences, 201917168 DOI: 10.1073/pnas.1917168117

Anthony SJ, Johnson CK, Greig DJ, Kramer S, Che X, Wells H, Hicks AL, Joly DO, Wolfe ND, Daszak P, Karesh W, Lipkin WI, Morse SS, PREDICT Consortium, Mazet J, Goldstein T (2017). Global patterns in coronavirus diversity. Virus evolution, 3(1), vex012. https://doi.org/10.1093/ve/vex012

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O dia em que a Terra parou: crises e oportunidades para pensar a vida na atualidade

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Acervo pessoal

Há alguns meses, dificilmente imaginaríamos a situação de confinamento que estamos vivendo hoje. Naquele momento, o COVID-19 era algo que estava no radar, mas ainda bem distante, sendo mais um problema internacional, do que algo que poderia trazer as drásticas mudanças vivenciadas atualmente. No dia 11 de março de 2020, a OMS define que estamos numa pandemia do novo coronavírus, anunciando a extensão e a gravidade do que estaria por vir. A velocidade de disseminação da doença acaba coincidindo com as transformações acarretadas na vida de todas as brasileiras nas últimas semanas. A maior parte dos estados brasileiros decretou o “distanciamento social”, recomendando que as pessoas deixassem de circular livremente e proibindo aglomerações. Todos os serviços considerados não essenciais pararam de funcionar e eventos coletivos foram adiados ou cancelados.

Do ponto de vista prático, cada pessoa teve seu cotidiano diretamente impactado em todas as suas esferas: trabalho, educação e vida social para resumir os principais eixos. As instituições tiveram que se adaptar à necessidade de reclusão populacional imposta para diminuir o contágio e evitar o colapso dos serviços de saúde. Home office e aulas online passaram a ser a rotina de muitas famílias brasileiras, estabelecendo um arranjo familiar nunca visto antes. Nesse sentido, torna-se difícil vislumbrar quais serão as consequências psicossociais dessa nova dinâmica de vida, no entanto, fica fácil perceber que não sairemos os mesmos dessa pandemia.

Pensando nas relações pessoais, fortes desafios estão sendo colocados para as famílias, diante da imposição de uma convivência intensa e prolongada restrita à rotina domiciliar. Um fator que não pode deixar de ser mencionado, se refere à ausência de trabalhadoras domésticas nas casas das classes média e alta, exigindo que as famílias se organizem nessa gestão cotidiana. Trata-se de uma excelente oportunidade para construir uma divisão de tarefas domésticas e cuidado com os filhos mais igualitária e justa, a partir da inclusão dos homens, redefinindo esses papéis sociais e problematizando questões de gênero tão silenciadas no mundo doméstico.

Para dar conta dessas diversas mudanças, uma série de dicas, manuais, recomendações e orientações brotaram no mundo virtual com o objetivo de apaziguar as dificuldades que advém de uma situação de confinamento. Ansiedade, depressão e síndrome do pânico estão entre os principais quadros de saúde mental que têm assolado as sociedades contemporâneas. Para profissionais de saúde, é interessante conhecer o guia de saúde mental da OMS para emergências humanitárias que foi recentemente traduzido para o português pela sua contribuição no manejo de casos, especialmente em contextos difíceis como essa pandemia do coronavírus. Diante desse contexto, especialistas do campo da saúde mental avaliam que essa situação de confinamento é preocupante e deve ser a atenção devida, considerando que aproximadamente 4,5 bilhões de pessoas estão nessa condição. As indefinições não apenas sobre quando se encerrará o confinamento, mas sobretudo a impossibilidade de vislumbrar as consequências pós-pandemia e as inseguranças a que todas estamos submetidas são aspectos importantes que afetam diretamente nossas vidas e também nossa saúde mental.

Sabemos que uma coisa é desejar ficar em casa, outra coisa completamente distinta é ser obrigada a ficar em casa. Dizendo de modo mais enfático: não poder sair de casa. Essa “pequena” diferença pode se tornar um fator extremamente estressor e/ou ansiogênico para muitas pessoas. O que podemos afirmar é que essa conjuntura de confinamento acentua dificuldades e conflitos preexistentes, ou seja, uma pessoa ansiosa tende a ficar mais ansiosa; um indivíduo hipocondríaco tem uma propensão a agravar seus sintomas; uma situação de violência de gênero apresenta uma probabilidade de piora e assim por diante. No Rio de Janeiro, nos primeiros dias de confinamento, verificou-se o aumento de 50% de casos de violência doméstica, representando aproximadamente 70% da demanda de plantão da Justiça nessa localidade. Preocupado com essa situação, o Estado de São Paulo está viabilizando que ocorrências de violência doméstica possam ser relatadas diretamente no site da Polícia Civil, divulgando também um passo a passo de como fazer a denúncia.

Vale ressaltar que uma tendência não significa uma profecia, ou melhor dizendo, poder agravar não quer dizer necessariamente que irá agravar. Diversas outras variáveis estão em jogo nessa dinâmica, podendo resultar em diferentes cenários. A capacidade das pessoas em lidar com adversidades, o livre arbítrio e as redes de apoio são fundamentais nessa complexa matemática da vida cotidiana.

O psicanalista Christian Dunker, em recente entrevista, falando sobre as reações das pessoas diante da pandemia, compreendeu existir três grandes grupos de pessoas: os “tolos” que negam a situação e seguem sua vida como se nada houvesse; os “desesperados” que ficam reféns do contexto e se sentem completamente impotentes e os “confusos”, que oscilam entre os dois primeiros. Talvez seja o momento de construirmos o quarto grupo como sendo aquele que consegue reconhecer a gravidade da conjuntura sem se deixar paralisar e, ao mesmo tempo, é capaz de extrair possibilidades diante de tamanha adversidade.

Fazendo uma alusão ao clássico de Raul Seixas, podemos aproveitar esse momento em que a Terra parou para perceber a vida que levamos e o que, de fato, desejamos dessa vida que levamos. Além das fortes e abruptas restrições impostas, fica evidente como literalmente tivemos que parar, algo impensável em contextos neoliberais comandados pelos imperativos de lucro e produtividade. Os modelos usuais de trabalho, educação, consumo, lazer e meio ambiente já estão sendo repensados nessas poucas semanas de confinamento mundial, começando a incomodar o sistema socioeconômico vigente. Os elementos para pensarmos uma organização social distinta da atual já estão se colocando no cenário, possibilitando a adoção de uma nova forma de vida.

Nesse sentido, podemos olhar essa situação como um convite para perceber essa crise, na perspectiva oriental, ou seja, crise não apenas como uma situação difícil, mas também como oportunidade. Assim, fica a reflexão: já que fomos obrigadas a parar, o que realmente importa?

Referências:

OMS afirma que COVID-19 é agora caracterizada como pandemia. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6120:oms-afirma-que-covid-19-e-agora-caracterizada-como-pandemia&Itemid=812. Acesso em 15 mar 2020.

Manejo Clínico de Condições Mentais, Neurológicas e por Uso de Substâncias em Emergências Humanitárias. Guia de Intervenção Humanitária mhGAP (GIH-mhGAP). Disponível em: https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/51948/9789275722121-por.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em 2 abr 2020.

Especialistas pedem mais atenção à saúde mental por confinamento. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/afp/2020/04/19/especialistas-pedem-mais-atencao-a-saude-mental-por-confinamento.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 19 abr 2020.

Violência doméstica cresce 50% na quarentena do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/03/24/violencia-domestica-rj-quarentena.htm. Acesso em 19 abr 2020.

Passo a passo para você registrar ocorrência de violência doméstica e familiar contra a mulher. Disponível em https://api.tjsp.jus.br/Handlers/Handler/FileFetch.ashx?codigo=119216. Acesso em 19 abr 2020.

Christian Dunker: a pandemia no divã. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-52160230. Acesso em: 7 abr 2020.