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Resultados Recentes da Missão Juno

A sonda Juno, lançada pela NASA em 2011, tem como objetivo estudar profundamente o maior planeta do Sistema Solar, Júpiter. Aspectos como campo gravitacional, campo magnético e a composição do núcleo do planeta são alguns dos mistérios que Juno poderia ajudar a desvendar.

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Figura 1: 95 Minutos Sobre Júpiter. Fonte: https://www.nasa.gov/mission_pages/juno/images/index.html

Na mitologia Juno é a esposa do deus Júpiter e muitas brincadeiras foram feitas em relação a sonda, visto que muitos satélites de Júpiter, como Europa, Calisto e Io têm nomes de amantes de Júpiter.

Juno entrou na órbita de Júpiter em meados de 2016, e já estamos colhendo os frutos da missão. Quatro artigos sobre os resultados de Juno foram publicados na edição de 8 de março da revista Nature.

Entre as descobertas, divulgou-se que as famosas faixas atmosféricas de Júpiter, já conhecida desde Galileu Galilei, seriam mais profundas do que se imaginava. A superfície visível de Júpiter é dividida em um número de bandas paralelas com o equador. Existem dois tipos de bandas: “zonas”, que possuem uma cor clara, e “cinturões”, bandas de cor mais escura. A diferença na aparência entre zonas e cinturões é causada por diferenças na opacidade das nuvens. As bandas de Júpiter são limitadas por fluxos atmosféricos zonais chamados “jatos”. Os fluxos atmosféricos (ventos) do planeta gigante se estendem profundamente em sua atmosfera e duram mais do que os processos atmosféricos similares encontrados aqui na Terra.

Os jatos penetrariam cerca de 3.000 quilômetros de profundidade e conteriam uma massa equivalente a três Terras, cerca de 1% da massa de Júpiter. Em contraste, a atmosfera da Terra tem menos de um milionésimo da massa total da Terra.

A sonda Juno tem fornecido uma imagem em 3D desses fluxos. Como os ventos de Júpiter podem chegar a cerca de 360 km/h, isso perturba a massa espalhada pelo planeta. Portanto, o mapeamento do campo gravitacional de Júpiter pode esclarecer o quão profundo essas faixas se estendem abaixo da superfície. Quanto mais profundos os jatos, mais massa eles contêm, levando a um sinal mais forte do campo gravitacional. Assim, a magnitude da assimetria na gravidade determina a extensão das correntes de jato.

 

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Figura 2: Hemisfério Sul de Júpiter. Fonte: https://www.nasa.gov/mission_pages/juno/images/index.html

Outro resultado interessante é que sob a camada climática Júpiter giraria quase como um corpo rígido e não como um fluído como esperávamos para um planeta gasoso. Isso ocorre porque as altas pressões encontradas no planeta geram forças que impedem os ventos de fluirem em direções opostas.

Já os pólos de Júpiter são um contraste gritante com os cinturões e zonas que circundam o planeta em latitudes mais baixas. Seu pólo norte é dominado por um ciclone central cercado por oito ciclones circumpolares com diâmetros que variam de 4.000 a 4.600 quilômetros de diâmetro. O pólo sul de Júpiter também contém um ciclone central, mas é cercado por cinco ciclones com diâmetros que variam de 5.600 a 7.000 quilômetros de diâmetro.

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Figura 3: Formações de Nuvem em Júpiter. Fonte: https://www.nasa.gov/mission_pages/juno/images/index.html

A sonda Juno tem feito um ótimo trabalho possibilitando descobertas fantásticas, podendo até colaborar para desvendar os mistérios da formação planetária. Além disso, Juno tem nos fornecido belíssimas imagens, como podemos ver no decorrer do texto.

Referências:

[1] Ingersoll, A.P.; Dowling, T.E.; Gierasch, P.J.; et al. (2004). “Dynamics of Jupiter’s Atmosphere”. In Bagenal, F.; Dowling, T.E.; McKinnon, W.B.Jupiter: The Planet, Satellites and Magnetosphere.

[2]L. Iess, et al., “The measurement of Jupiter’s asymmetric gravity field,” Nature volume 555, pages 220–222 (08 March 2018).

[3] Y. Kaspi, et al., “Jupiter’s atmospheric jet-streams extending thousands of kilometers deep,” Nature volume 555, pages 223–226 (08 March 2018).

[4] T. Guillot, et al., “A suppression of differential rotation in Jupiter’s deep interior,” Nature volume 555, pages 227–230 (08 March 2018).

[5] A. Adriani, et al., “Clusters of Cyclones Encircling Jupiter’s Poles,” Nature volume 555, pages 216–219 (08 March 2018).

 

 

 

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A terapia de estimulação cerebral profunda e a Doença de Parkinson

No dia 11 de abril se comemora o Dia Mundial de Combate ao Mal de Parkinson. A doença de Parkinson é degenerativa e afeta o sistema nervoso central (SNC). Dentre as doença degenerativa do SNC é a segunda mais comum (a doença de Alzheimer é a mais comum), acometendo 1 a cada 10 pessoas após os 80 anos de idade.

A doença de Parkinson acarreta morte celular progressiva no cérebro e na medula espinhal, ocasionando sintomas como tremor de repouso da musculatura e rigidez muscular, lentidão de movimentos, que se tornam descoordenados, perda de equilíbrio, dentre outros. Os sintomas podem evoluir para demência, se ocasionar comprometimento do pensamento nos pacientes.

As regiões mais afetadas são locais profundos no cérebro constituídos de substância negra: os gânglios basais (http://parkinsonhoje.blogspot.com.br/p/substancia-negra.html) (Figura 1). Estas regiões estão envolvidas em controle de postura e suavização/estabilização de movimentos musculares.

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Figura 1: Gânglios da base (em azul) participantes no controle de posturas e movimentos musculares. Fonte: http://sistemanervosocentral304.blogspot.com.br/p/curiosidades.html

Para comunicar estímulos a neurônios vizinhos e alcançar as ações citadas acima, o principal neurotransmissor (mensageiro químico) utilizado pelos gânglios da base é a dopamina. Em pacientes com Parkinson, no entanto, este mensageiro encontra-se em teor reduzido, não podendo ser realizadas com eficiência as ações de coordenação de movimentos e postura (o que ocasiona os sintomas descritos). Os pacientes chegam a apresentar dificuldades para realizar tarefas simples do dia-a-dia, como beber água.

​Os indivíduos afetados podem ser tratados com fármacos como levodopa e/ou carbidopa (http://www.medicinanet.com.br/bula/1168/carbidopa_e_levodopa.htm) e requerem o atendimento mais multidisciplinar possível: envolvendo fisioterapia, fonoaudiologia, atendimento psicológico e avaliação nutricional. No entanto, existem outras estratégias de tratamento além da terapia com medicamentos (como uso de células tronco).

Até o momento não existe cura para a doença – apenas estratégias que visam melhora de qualidade de vida do paciente. Uma destas foi recentemente noticiada amplamente na mídia: a terapia de estimulação cerebral profunda, do inglês Deep Brain Stimulation (DBS).

A DBS (que pode ser realizada no Brasil em hospitais como Albert Einstein, HCor e Cassems – Campo Grande) é popularmente referida como marcapasso cerebral. Consiste em terapia invasiva reversível que implementa, via cirurgia, um eletrodo no cérebro. Por uma extensão sob a pele, que desce pelo pescoço até, geralmente, a parte superior do peito, este eletrodo se conecta ao neuroestimulador (semelhante ao marcapasso cardíaco) produtor de pulsos elétricos. Este neuroestimulador  é um dispositivo com bateria e componentes eletrônicos que tem como objetivo oferecer estimulação elétrica de alta frequência a regiões definidas dentro do cérebro, visando evitar sintomas motores incapacitantes da doença (Figura 2). A regulação do aparelho para cada paciente pode ser feita pelo médico de forma não invasiva para permitir maior controle imediato sobre os movimentos (no início é comum que a configuração dos padrões seja incômoda ao indivíduo).

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Figura 2: Componentes da técnica de estimulação cerebral profunda. Fonte:  https://hospitaljoaoevangelista.wordpress.com/2012/05/08/tecnica-de-estimulacao-cerebral-profunda-pode-reverter-sintomas-da-doenca-de-alzheimer/

É um procedimento indicado a pacientes de 5 a 10 anos após o diagnóstico, nos quais os sintomas já se encontram em estágios moderadamente avançados; quanto mais precocemente se inicia o tratamento neste intervalo, maiores as chances de melhora potencializada na qualidade de vida do paciente. No geral, DBS permite a redução das medicações, favorecendo a redução dos efeitos colaterais que não costumam ser poucos. Apenas 8% das pessoas diagnosticadas, no entanto, se encontram no grupo daquelas para as quais o procedimento é recomendado, pois é procedimento invasivo, ou seja, envolve a realização de uma cirurgia.

O procedimento cirúrgico dura cerca de quatro horas e possui alto custo (aproximadamente R$ 150 mil que se somam a trocas de bateria de R$ 70 mil a cada 5 anos). O Sistema Único de Saúde (SUS), sob ordem judicial, já chegou a custeá-la para pacientes.

Grandes empresas do setor continuam a realizar pesquisas para ampliar o espectro de doenças para as quais a técnica pode ser utilizada para trazer benefícios, e para oferecer equipamentos mais precisos, de implementação mais simples e de materiais que causem menos interferências em metodologias de diagnóstico como ressonância magnética.

 

Principais referências utilizadas

HCor – Implante de marca-passo cerebral possibilita ao paciente com Mal de Parkinson retomar o controle de seus movimentos (2017) <http://www.hcor.com.br/imprensa/noticias/implante-de-marca-passo-cerebral-possibilita-ao-paciente-com-mal-de-parkinson-retomar-o-controle-de-seus-movimentos/ >.

dos Santos, A.; Mecchi, Y. (2017) De alto custo, marca-passo estimula cérebro e atenua Parkinson. <https://www.campograndenews.com.br/cidades/capital/de-alto-custo-marca-passo-estimula-cerebro-e-atenua-parkinson >.

Hospital Albert Einstein (2016) Centro de Estimulação Cerebral Profunda < https://www.einstein.br/especialidades/neurologia/estrutura/centro-estimulacao-cerebral-profunda&gt;.

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Você sabe o que é Microfluídica? E para que ela serve?

Já pensou que futuramente não haverá mais testes em animais? E, melhor ainda, existirá uma plataforma que permita testes mimetizando alguns órgãos em escala micrométrica.

Essa realidade já existe, trata-se dos dispositivos microfluídicos! Mas opa lá: “O que é mesmo microfluídica?”.

A microfluídica é uma ciência que deriva da hidrodinâmica, ou seja, trabalha com fluxo de fluído de forma constante. Seu grande avanço aconteceu nos anos 90 especialmente pelo grupo Whitesides da Universidade de Harvard (EUA), que começaram os primeiros dispositivos feitos de silicone para o uso biológico. Anteriormente, os dispositivos microfluídicos eram construídos de papel e de silício. Com o avanço da tecnologia, diferentes técnicas foram aplicadas para desenvolver dispositivos mais robustos, com diferentes funções, tamanhos e geometrias. O uso de materiais biocompatíveis e transparentes facilitam a visualização em microscopia e dessa forma, torna os dados obtidos nos dispositivos mais confiáveis.

Outro fator favorável a essa técnica é devido às suas proporções muito pequenas, resultando em um baixo consumo de reagentes. Isso é importante quando um teste tem um custo de reagente ou fármaco muito elevado. Por exemplo: Quando um novo fármaco está sendo desenvolvido ele passa por 3 fases:

Fase 1 – Testes in vitro, no qual o fármaco de interesse é testado em células em placas.

Fase 2 – Testes in vivo: Essa parte é dividida em testes em animais primeiro após testes em humanos, com diferentes grupos controle.

Fase 3 – Perante os resultados apresentados, o fármaco poderá comercializado.

No entanto, cerca de 1/3 desses fármacos falham na primeira fase, consumindo muitos reagentes e produtos. É na fase 1 que o uso de dispositivos com escala micrométrica são úteis pois, além do baixo consumo de amostras, também podem mimetizar ambientes próximos ao encontrado ao corpo humano, diferentes os apresentando em placas.

Com esse intuito surgiram os chamados organ on a chip (órgão em um chip). São chips que mimetizam um órgão (coração, pulmão, pele) com algumas funções similares aos órgãos humanos. Dessa forma auxiliam os pesquisadores a estudar o funcionamento de uma determinada doença, ou mesmo qual a concentração de fármaco mais recomendada para aquele tipo específico de órgão e/ou células.

O Wyss Institute da Universidade Harvard (USA) criaram um microchip denominado: Lung on a chip. Como o nome em inglês indica, trata-se de um microdispositivo que mimetiza um pulmão. Neste trabalho os cientistas criaram uma plataforma que permite trabalhar com co-culturas de células (mais de um tipo de células) em um sistema de fluxo contínuo mimetizando o sistema de circulação, além de um sistema de membranas semipermeáveis e de um sistema de pressão responsável pela contração dessa membrana imitando assim um sistema respiratório. Segundo os autores a ideia do desenvolvimento desse chip é possibilitar o estudo de edema pulmonar e compreender o mecanismo dessa doença para assim, indicar um tratamento especializado. Dados disponíveis pelo DATASUS permitem fazer análise apenas para edema agudo de pulmão, que em 2002 teve 21.553 internações, com taxa de óbito (número de internações sobre o número de óbitos) de 17,30; em 2007, foram 20.405 casos com aumento da taxa de óbito para 19,2. Nesse contexto, o uso de uma plataforma que possa simular ambientes próximo ao organismo e com um gasto menor de reagente mostra-se atrativa aos olhos das empresas farmacêuticas.

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Lung on a chip: Microchip que simula um pulmão humano criado pelo grupo de pesquisa Wyss Institute (Harvard). Créditos: Havard/Wyss Institute

Com o avanço e a complexidade desses chips será possível estudar diversas doenças de forma mais concisa e quem sabe futuramente substituir testes em animais. Vamos aguardar os as cenas dos próximos capítulos.

Referências:

Artigo: The origins and the future of microfluidics– George M Whitsides- Review: Nature 442, 368–373 .27 July 2006.DOI:10.1038/nature05058

https://wyss.harvard.edu/media-post/lung-on-a-chip/

http://gmwgroup.harvard.edu/research/index.php?page=24

https://www.hospitalsiriolibanes.org.br/sua-saude/Paginas/edema-pulmonar-pode-ser-fatal-deve-ser-tratado-urgencia-.aspx

http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sih/cnv/piuf.def.

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“É claro que a vida é boa…Mas acontece que eu sou triste* ”: Como nosso corpo funciona durante a depressão.

Todo mundo já teve ou conhece alguém que teve uma experiência com ela: a depressão. Esse mal que pode atingir qualquer um, sem aviso nem piedade, já acomete mais de 300 milhões de pessoas e mata 800 mil pessoas por ano no mundo todo segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Estima-se que em Portugal, por exemplo, na ocasião da maior crise político-econômica do país, em 2011, o número de casos de depressão disparou (1). Alguns especialistas acreditam que a atual crise brasileira possa, num futuro próximo, causar um aumento expressivo dos números dos casos desta doença aqui no Brasil (2).

O diagnóstico da depressão está sempre envolto pela nevoa da doença mental e esse é um dos principais motivos da falha do tratamento: o paciente quer um remédio, mas não quer fazer a psicoterapia. Mas o quão eficazes são os antidepressivos? Como uma doença que não se mede por exames de sangue ou de imagem pode ser tratada farmacologicamente? Antes de falarmos como a doença é controlada, vamos voltar um pouco e comparar como funciona o corpo de uma pessoa saudável com uma com depressão.

Recentemente falamos aqui no blog sobre como a microbiota intestinal interfere no comportamento das pessoas. Um dos fatores que controla essa relação é a serotonina. Esta pequena notável é um neurotransmissor, ou seja, uma substância que atua no cérebro regulando funções como ciclo sono-vigília, humor, memória, entre outras atividades. Apesar de ser essencial no cérebro, 95% de sua produção acontece no intestino, daí a relação microbiota e comportamento. Depois de sua produção no intestino, a serotonina entra na corrente sanguínea e circula até alcançar receptores na membrana do neurônio onde ela, juntamente com a noradrenalina, pode desempenhar suas funções. Caso exista serotonina não utilizada pelos neurônios, ela é recaptada por moléculas transportadoras e degradadas para posterior eliminação. Quando esse sistema funciona, temos uma pessoa saudável.

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No entanto, fatores genéticos, biológicos e/ou psicossociais podem desregular esse sistema e levar a quadros de alteração comportamental, incluindo a depressão (4). Ora, se a falha pode acontecer em vários lugares (ao mesmo tempo ou não) e os médicos não sabem onde é o defeito, como os antidepressivos funcionam?

Pois é, antidepressivo não é um assunto trivial. Imagine todas as questões éticas envolvidas em testar um medicamento para uma doença que pode levar a morte. A primeira geração de antidepressivos foi identificada por acaso na década de 1950 quando médicos observaram que alguns anti-histamínicos causavam alterações de humor. Com o aumento do conhecimento do sistema serotoninérgico, a segunda geração foi especialmente sintetizada para “encaixar” nas moléculas recaptadoras e inibi-las, deixando a serotonina disponível para atuar nos neurônios (inibidores de recaptação de serotonina, ou SSRI, do inglês “selective serotonin reuptake inhibitors”)(3). Entretanto, apesar de amplamente utilizados, não existe um consenso na comunidade médica sobre a eficácia dos antidepressivos. Entre as várias razões para o descrédito dessa classe de medicamento está a condução de estudos com poucos pacientes, somente um ou dois medicamentos são comparados por vez, e existe um alto índice de abandono do tratamento já que antidepressivos demoram a fazer efeito.

Para tentar esclarecer se os antidepressivos são, afinal de contas, eficazes, vários grupos de pesquisadores de diversas universidades da Europa, Estados Unidos e Japão, lançaram mão de uma ferramenta simples, mas muito eficaz. Os autores, ao invés de submeter pacientes a testes, revisitaram toda a literatura médico-científica que fala sobre o tratamento com os 21 antidepressivos mais utilizados. Os autores identificaram quase 30 mil publicações sobre o assunto e puderam comparar os dados de pouco mais de 87 mil pacientes. Caso esses mesmos pesquisadores tivessem feito os estudos de eficácia, nunca teriam tantos pacientes! A partir das análises desses dados, os autores verificaram que todos os antidepressivos eram mais eficazes quando comparados com o grupo placebo. No entanto, 5 antidepressivos se destacaram pois eram os que tinham menor taxa de abandono de tratamento e maior eficácia quando comparado aos outros 16 estudados. Entre os 5 que se destacaram, havia 4 de segunda geração e 1 de terceira geração (que inibe a recaptação da serotonina e de noradrenalina). Além disso, eles observaram que fatores como a idade influenciam na eficácia do medicamento: medicamentos eficazes em adultos não reproduziam o mesmo efeito em crianças e adolescentes.

Esse estudo traz segurança à comunidade médica na hora do atendimento ao paciente, mas a depressão deve ser encarada de forma mais ampla. A própria OMS preparou um plano de ação até 2020 onde recomenda acolhimento dos doentes, mas, principalmente, preza pela prevenção. Realização de atividades físicas regularmente, investimento em autoconhecimento e inserção de práticas diárias que tragam bem estar são exercícios que não só previnem o aparecimento da depressão como devem ser usados junto do tratamento com antidepressivo. E como fala um dos vídeos educativos da OMS, “não tenha vergonha de pedir ajuda, tenha vergonha de não aproveitar a vida”.

http://www.who.int/mental_health/management/depression/en/

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Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

“A Revolução será feminista, ou não será! Construí-la é tarefa de todas nós. Vamos a isto!” Foi com esta provocação que Patrícia Martins deu por encerrado o primeiro encontro de mulheres [1] realizado no Porto, em Portugal, nos últimos 10 e 11 de Março. Esta iniciativa que teve lugar na Escola Artística Soares dos Reis, centrou-se em três eixos temáticos: mulheres e precariedade, mulheres e violência e mulheres invisibilizadas.

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Manifesto do Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

Pelas 12 mesas redondas e 7 oficinas passaram 200 pessoas, sendo que 95% foram mulheres, mas nem assim os homens foram descurados, uma vez que lhes foram dedicadas “orientações feministas para participantes que se identificam como homens”. Assinadas pelo Diogo Araújo e pelo Filipe Barbosa, estas orientações iniciavam-se com o seguinte alerta: “Dado que o espaço exterior ao Encontro de Mulheres, tanto público como privado, é maioritariamente dominado por pessoas que se identificam como homens, o do Encontro de Mulheres é gerido por pessoas que se identificam como Mulheres e os espaços de discussão destinados à participação das Mulheres” e terminavam com a seguinte convocatória: “Dá a tua vez a quem não tem voz!”

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Mesas no Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

Para sabermos a quem foi dada voz, falamos com Patrícia Martins e Ana Barbosa, duas das organizadoras do evento. Ana Barbosa esclareceu-nos que foi, na realidade, “a vontade de reunir diferentes vozes que levou à dinamização de reuniões em Braga, Bragança, Chaves, Coimbra, Lisboa e Vila Real onde convidamos as pessoas a juntarem-se à organização, desafiando-as a organizarem-se localmente para a divulgação, preparação e participação no Encontro. Deste esforço resultou a presença de participantes de outras cidades, para além das que tinham sido abordadas, como Barcelos, Esmoriz e Guimarães.”

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Oficinas no Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

E clarifica que “o Encontro de Mulheres partiu da vontade de mudar uma sociedade em que as mulheres ocupam espaços de sub-representação em várias áreas, desde a participação política, à esfera familiar, às decisões sobre os seus corpos e sexualidade, ao direito ao espaço público. Essa sub-representação é agravada quando as mulheres experienciam outras formas de opressão como a cor de pele, estatuto social e económico, orientação sexual não normativa, religião… O diagnóstico da falta de espaços onde haja discussão que reconheça essas opressões e em que exista um acesso igual à palavra, levou-nos a procurar alternativas de contexto para que as mulheres se sentissem capacitadas para a elaboração e resolução das suas próprias questões, apresentando livremente as suas opiniões e propostas.” Foi neste ambiente que circularam as já mencionadas 200 pessoas, “com uma média de idades de 26 anos”, informa-nos a Ana Barbosa e, continua: “Os homens presentes foram, sobretudo, voluntários nas tarefas de logística do evento permitindo assim uma maior disponibilidade das mulheres para participar nas mesas de debate.”

 

 

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Feira Feminista no Encontro – Todas as Vozes Contam

Foi ainda Patrícia Martins que elogiou a experiência horizontal dos debates explicando que: “O modelo do I Encontro de Mulheres 2018 foi pensado a partir das experiências dos Encontros de Mulheres da América Latina. Desse modo, pretendeu-se diluir as fronteiras de audiência/público e quem transmite conhecimento: a possibilidade das participantes construírem o debate a partir do tema que enquadra a mesa redonda e das pistas dadas pelas moderadoras. Procurou-se ter a presença de duas moderadoras no debate para a moderação não ficar centrada numa só pessoa, e possibilitar um espaço mais democrático. O feedback geral deste método revelou-se bastante pertinente: primeiro, a maioria das moderadoras comentou que no início havia alguma dificuldade das mulheres partilharem opiniões, experiências e ideias, mas quando o nível de participação começou a aumentar, houve uma grande participação e vontade de comunicar ( chegando a comentar que o tempo não era suficiente). Esta experiência reforça a ideia da necessidade de espaços que fomentam a participação e emancipação das mulheres. Para o trabalho de moderação foram recolhidas algumas técnicas de moderação de conversas e debates e divulgadas junto das moderadoras. Isto foi apenas uma experiência, pretendemos aprofundar este trabalho de moderação, no sentido horizontal da participação”.

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Recepção no Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

Ana Barbosa assumiu que o evento superou as expectativas que possuía, uma vez que “as 12 mesas redondas e as 7 oficinas foram muito participadas por intervenientes com diversidade de idades, estatuto social e nacionalidades (participantes de 10 países diferentes) e consequente pluralidade de opiniões e experiências.” E assegura que “ outro dos objectivos bem sucedidos deste primeiro Encontro foi a autogestão da iniciativa, sem qualquer tipo de financiamento ou patrocínio, procurou-se uma responsabilização colectiva para a recolha de fundos e doações, tendo sido dinamizadas várias actividades, entre elas o lançamento de uma campanha de crowdfunding. A nível local também houve iniciativas de recolha de verbas que serviram para o apoio aos transportes das participantes”.

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Encerramento do Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

Patrícia Martins refere que a organização deste Encontro está, neste momento, a analisar profundamente as anotações de todas as relatoras das várias mesas e oficinas mas que pode adiantar que o que se conclui deste Encontro é que: “A sociedade actual estrutura-se segundo sistemas de opressão e discriminação que se articulam entre si. Deste modo podemos concluir que todas estas formas de opressão e exclusão das mulheres na sua diversidade racial, étnica, sexual ou de origem de classe prende-se com uma questão estrutural. As opressões não estão isoladas, não são caso pontuais, estão todas interligadas. Desta forma, a nossa resposta também não deve ser isolada, ou individual. Tem que ser colectiva, interseccional, de combate à precariedade, à exclusão e ao racismo.” E termina, tendo em mente vários desafios: “A nossa preocupação agora é como a partir das sínteses conclusivas deste Encontro podemos construir uma Greve de Mulheres 2019 e o 2º Encontro de Mulheres a partir de uma perspectiva mais estrutural das opressões e de maior representatividade das diferentes agendas.”

[1] https://www.facebook.com/encontromulheres.pt/

 

 

 

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Marielle e a luta contra a criminalização da pobreza

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Créditos da imagem: Nunah Alle

Marielle Franco, mulher, negra, bissexual e mãe. A quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro. Relatora da controversa intervenção federal no Rio de Janeiro. Socióloga e mestra em Administração Pública. Ela é, inegavelmente, parte do grupo que saúda nos agradecimentos de sua dissertação de mestrado, o “bonde de Intelectuais da favela”. Marielle é parte daqueles que frequentaram cursinhos populares, foram para universidades consagradas e ousaram ocupar os espaços da pós-graduação.

Nós, enquanto um coletivo de mulheres cientistas e feministas, composto por diferentes etnias e origens sociais, estamos em luto. Cada pedaço da história de vida de Marielle ecoa em diversas partes de nossas próprias histórias. Desejamos, acima de tudo, honrar sua trajetória e somar forças para que toda a dor proveniente dos últimos acontecimentos se converta em luta.

O engajamento social de Marielle aparece também no tema de sua pesquisa de mestrado, que analisa a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) na cidade do Rio de Janeiro e a implementação de um modelo de Estado Penal. Em tempos sombrios, tentamos aqui resumir em linhas gerais sua dissertação, potente e viva, como não poderia deixar de ser.

Para compreender sua proposição, é necessário, antes de tudo, entender do que se trata um “Estado penal”. De acordo com as definições trazidas ao longo do texto, o Estado Penal  é caracterizado pela redução das políticas públicas focadas na garantia de direitos básicos (como saúde, educação, moradia etc) e o aumento de políticas voltadas para o controle da ordem por meio de repressão estatal, por meio do aparato policial e Judiciário.

Nesse sentido, sua pesquisa se propôs a  investigar se as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), enquanto política de segurança pública adotada no estado do Rio de Janeiro, reforçam o modelo de Estado Penal. Para compreender esse fenômeno, Marielle considerou todo o processo de formulação da implementação das UPPs nas favelas do Rio de Janeiro, no período de 2008 a 2013.

Além disso, questionou “em que medida essas ações representam políticas que, de certo modo, alteram a realidade da administração da segurança pública; ou se operam uma espécie de maquiagem dos fatos reais que, com efeito, constroem uma capa ideológica que disfarça e aprofunda o Estado Penal; ou, ainda, se estas unidades seriam, realmente, uma mudança de percurso da política do Estado para a segurança pública do conjunto da cidade, especificamente nas favelas” (FRANCO, 2014, p. 17).

A pesquisa se fundamentou na análise de documentos oficiais, tais como decretos legislativos, normativas e o boletim interno da Polícia Militar.  Durante todo o processo de elaboração do trabalho foi utilizada a observação participante, que consistiu na participação da pesquisadora em diversas reuniões com os movimentos sociais e a cúpula da Segurança Pública. Além disso, o exercício profissional junto à equipe da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da ALERJ foi, sem dúvidas, um grande aliado na compreensão do fenômeno estudado.

A autora conclui que, do ponto de vista dos dados quantitativos,  a medida teve o efeito contrário ao prometido por parte de alguns gestores. O número de homicídios aumentou desde a implementação das UPPs:

“Desde o início das UPPs, alguns moradores de favela foram assassinados pelas mãos armadas do Estado. Somente em 2010, morreram no Brasil 49.932 pessoas vítimas de homicídio, ou seja, 26,2 a cada 100 mil habitantes, sendo que 70,6% das vítimas eram negras. Ao analisar a faixa etária desses mortos, 26.854 eram jovens entre 15 e 29, ou seja, 53,5% do total (ISP, 2013). Já no último ano da série oficial, refere-se o Instituto de Segurança Pública (ISP) ao ano de 2013, ocorreu o aumento de 16,7% nas mortes por homicídio, 4.081 em 2012 e 4.761 em 2013. Seguindo a lógica de raciocínio impetrada e maciçamente propagandeada pelo governo do Rio de Janeiro, 680 pessoas deixaram de ser salvas” (FRANCO, 2014, p. 102).

A pesquisadora alerta para o fato de que o homicídio de policiais também aumentou, totalizando 16 mortes. Além disso, tais ações tiveram impacto direto no respeito aos direitos dos moradores e nas as alterações das relações sociais dessas comunidades. Não parece muito difícil de concluir, afinal de contas, que a presença constante de coerção e o aumento de homicídios tenham influência na vida da população.

Nesse sentido, o que estaria em disputa não seria, simplesmente, a preocupação ou não com a segurança pública, mas dois diferentes projetos de cidade:

A cidade como mercadoria, baseada no lucro dos grandes empreendimentos, em que determinados tipos de limpeza social acontecem a fim de tornar o ambiente mais propício para esses negócios, empurrando grande parte da população para o sistema penal ou para as periferias.

A cidade de direitos, que busca a implementação de políticas públicas para a superação dos problemas de segurança pública, na contramão dos projetos hegemônicos desenvolvidos até então.

Desse modo, as UPPs, acima de tudo, são “(…) uma iniciativa ideológica que responde às necessidades do momento, diante de megaeventos, exposição do Rio de Janeiro ao mundo e resposta a investidores, ao invés de assumirem um papel qualitativo de alteração de um dos aspectos centrais das políticas de dominação, que é o modelo de segurança pública” (FRANCO, 2014, p. 16).

A expansão do Estado Penal permite abafar a precariedade e o caos urbanos gerados pela desigualdade e pela má gestão pública e permite que políticos contenham seu nível de desaprovação em momentos em que não têm muito a oferecer aos seus eleitores. Ela é, basicamente, uma jogada de “marketing”, que apenas garante a manutenção do poder dos grupos de sempre.

Marielle termina sua dissertação dizendo que, apesar das graves consequências desse tipo de política, diante delas, cada vez mais, as periferias têm se constituído como locais de resistência e auto-organização, criando meios de fortalecimento e existência. Caso se faça a opção por outras políticas, focadas no desenvolvimento social, a periferia tem consigo não apenas dor e luto, mas imensa potencialidade de criação de alternativas.

 Enquanto isso:

“As marcas dos homicídios não estão presentes apenas nas pesquisas, nos números, nos indicadores. Elas estão presentes sobretudo no peito de cada mãe de morador de favela ou mãe de policial que tenha perdido a vida. Nenhuma desculpa pública, seja governamental ou não, oficial ou não, é capaz de acalentar as mães que perderam seus filhos” (FRANCO, 2014, p. 103).

Seguimos em luta.

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Fonte: Portal A Postagem

Referência

FRANCO, MARIELLE. UPP – A redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro. UFF: Niterói. Dissertação (Mestrado), 2014. Disponível em: <https://www.dropbox.com/s/uojapsz1tghgk5b/Marielle_Disserta%C3%A7%C3%A3o.pdf?dl=0&gt;. Acesso em: 16 mar. 2018.

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As luas geladas e suas implicações para a astrobiologia: Conheça Europa

Parte II

No primeiro texto dessa incrível série que fala das “luas geladas”, conhecemos um pouco mais sobre o que são essas luas, o que elas precisam ter para receber essa definição e falamos brevemente sobre Europa e sobre algumas missões espaciais que estão por vir. Quem quiser relembrar da primeira parte da nossa jornada, é só clicar aqui. A parte II da nossa saga, que ainda fala das luas de Júpiter, agora foca em Europa.

Características indispensáveis para que a vida possa existir e ser mantida:

Antes de falar desse satélite, gostaria resgatar um pedacinho do nosso primeiro texto para lembrarmos o que essas luas precisam ter para serem consideradas “luas geladas”. Para receberem esse título, os satélites naturais, cobertos principalmente por gelo, que orbitam os gigantes gasosos do nosso Sistema Solar precisam apresentar os três seguintes pré-requisitos:

  • um meio líquido,
  • uma fonte de energia e
  • condições necessárias para a formação de moléculas complexas responsáveis pelo surgimento e pela manutenção da vida.

Uma viagem por Europa

Feito! Com isso em mente, vamos focar na nossa lua principal, Europa, e entender com um pouco mais de detalhes como encontramos esses três pré-requisitos.

  1. Presença de meio líquido:

Sendo a menor das quatro “luas geladas” de Júpiter, Europa é formada por um núcleo metálico envolto por uma crosta, ambos localizados abaixo de uma camada de água (na forma líquida e de gelo). Estima-se que essa camada de água tenha de 80 a 170 quilômetros de extensão, sendo composta de uma crosta congelada localizada logo acima de um oceano líquido. A existência de um oceano global abaixo de sua crosta de gelo é o elemento mais importante para a habitabilidade de Europa e seu estudo é de grande interesse para determinar se a vida foi ou é capaz de surgir e de se manter na lua.

  1. Fonte de energia:

A superfície de Europa é plana e recente, com poucas crateras antigas, o que indica que é renovada constantemente. Podemos assumir que exista essa renovação constante devido ao fato de que a lua está submetida a constantes bombardeamentos, e que, se não há crateras antigas expostas, deve haver uma renovação da superfície para que ela esteja sempre lisa. Os processos responsáveis por essa renovação seriam inúmeros, dentre eles: erupções locais de água aquecida e sob pressão; elevação e submersão de sólidos congelados e líquidos em algumas regiões; rupturas de camadas superficiais de gelo, etc.

Outra característica importante de Europa, que também remete a renovação da superfície é a existência de uma variedade de linhas escuras que cruzam sua superfície (Figura 1). Dentre as possíveis hipóteses que tentam explicar esse padrão, a mais aceita diz que essas linhas devem ter sido formadas por uma série de erupções de gelo aquecido ao passo que a crosta da lua se abria para expor camadas interiores mais quentes. Uma possível explicação para o surgimento de suas linhas antigas torna Europa ainda mais interessante. Imagens provenientes das sondas Voyager e Galileo revelaram evidências de processos geológicos tais quais os que ocorrem aqui na Terra em regiões de convergência de placas tectônicas, quando uma placa se desloca para baixo de outra. A existência dessas placas em Europa faria dela o único corpo celeste que possui placas tectônicas além da Terra.

Figura 1_Europa.jpg

Figura 1. Superfície de Europa. As linhas que cobrem sua superfície tiveram a coloração adicionada para que ficassem mais visíveis. Fonte: Nasa/JPL-Caltech/SETI Institute.

Outro fator interessante é em relação à sua atmosfera. Observações realizadas pelo Hubble revelaram que a atmosfera fina de Europa é composta principalmente por oxigênio molecular (em sua camada interior) e hidrogênio molecular (em sua camada exterior). Infelizmente, para astrobiólogos, esse oxigênio não indica atividade biológica, sendo proveniente da quebra da molécula de água na superfície da lua. Essa quebra é ocasionada pela radiação ultravioleta do Sol e por partículas carregadas da magnetosfera de Júpiter (íons e elétrons). Dessa forma, podemos então encontrar as principais fontes de energia nessa lua, sendo elas a energia do núcleo metálico (decaimento radioativo dos elementos), da força das marés (do oceano interno), e da radiação de Júpiter.

  1. Condições necessárias para a formação de moléculas complexas

Considerando que Europa tenha uma origem condrítica (formada de poeira e pequenos grãos presentes no início do Sistema Solar) e levando em consideração o contexto de intenso bombardeamento no qual está inserida, a lua teria uma variedade de compostos essenciais para a vida semelhante tal qual como conhecemos na Terra. Adicionalmente, atividades hidrotermais, se constatadas como presentes, transportariam esses elementos do manto para os oceanos, fazendo com dessa interação oceano-rocha, um componente de extrema relevância para a formação de moléculas complexas e do desenvolvimento da vida.

Portanto, até agora, temos Europa preenchendo os nossos 3 pré-requisitos: 1) existência de um meio líquido: água na forma de gelo na crosta de Europa e na forma líquida, encontrada em seu oceano interno; (2) fonte de energia: força de maré originada no oceano interno da lua, decaimento radioativo de seu núcleo metálico, e possivelmente também proveniente da radiação ionizante dos anéis radioativos de Júpiter; (3) condições necessárias para a formação de moléculas complexas: provável interação água líquida-rocha no leito oceânico da lua e possível origem exógena (de fontes externas à lua), devido ao intenso contexto de bombardeamento em que Europa está inserida.

Somado à esses pré-requisitos modelos atuais de Europa sugerem que condições como temperatura, pressão, pH e salinidade dos oceanos internos estão dentro dos limites capazes de suportar vida como conhecemos. Além disso, as informações atuais sobre a lua indicam que Europa não só pode ser habitável  nos dias atuais como provavelmente foi assim durante a maior parte da história do nosso Sistema Solar. Daí o extremo interesse em estudar essa lua e a necessidade da criação de missões de exploração,que serão abordadas em mais detalhes em no nosso último texto dessa série. Futuras observações, particularmente aquelas realizadas através de pousos na sua superfície e coleta de material, permitirão análises não apenas qualitativas, mas também quantitativas sobre o potencial habitável de Europa, especialmente quanto às fontes de energia disponíveis e evolução química de seu oceano.

É fascinante entender o quão importante algumas das luas do Sistema Solar podem ser na busca pela vida fora do nosso planeta. Espero que tenham gostado de conhecer um pouco mais sobre Europa e que estejam ansiosas para saber mais sobre a nossa vizinhança cósmica. No próximo texto, ainda estaremos em Júpiter, mas vamos viajar por outras de suas luas, também incríveis e de amplo interesse astrobiológico: Ganimedes, Calisto e Io.

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