0

O laboratório e o dia-a-dia – Parte II: O que um cientista faz com aquilo que ainda não conseguiu explicar?

Na parte 1 do artigo, conversamos um pouco sobre variáveis dependentes e independentes, falseabilidade e sobre alguns dos objetos de estudo da ciência, e sobre como evitar uso de explicações não consistentes ou não verificáveis dentro do aparato teórico que já temos, evitando extrapolações de afirmações sobre as causas dos fenômenos que estamos estudando. 

Em resumo, queremos evitar misturar afirmações que são verificáveis na prática com conceitos abertos e subjetivos que não temos como verificar, já que esta mistura pode tanto atribuir uma falsa credibilidade científica a pensamentos que estão fora do escopo da ciência (como a existência do sobrenatural) quanto limitar a investigação de um fenômeno complexo através do uso de hipóteses que buscam unicamente cobrir buracos que a teoria ainda não explicou, o que chamamos de hipóteses ad hoc.

Não é só fora do léxico científico que acontecem falhas lógicas para explicar fenômenos. É muito comum, especialmente em manchetes de revistas não especializadas que falam sobre a área de saúde, que se divulguem pesquisas que relacionam, por exemplo, determinados hábitos a doenças. Muitas destas relações possuem de fato fundamentação e uma teoria coerente que as suporta, mas muitas vezes o fenômeno ainda não foi completamente desvendado, ou mesmo está sendo estudado através da observação de padrões que não necessariamente possuem relevância estatística ou relação de causa-consequência, como já foi ilustrado neste artigo.

Muitas vezes também, a chamada da revista que menciona a pesquisa faz um recorte muito reduzido do que a pesquisa realizou de fato, ou menciona números de casos de determinada doença sem mencionar a proporção na população. Daí a importância de não se ater aos títulos e de procurar outras fontes antes de, por exemplo, começar aquela nova dieta que vai te ajudar a evitar rugas, emagrecer e prevenir o câncer.

Alguns fenômenos são bastante complexos e envolvem situações impossíveis de serem reproduzidas em laboratório, até porque nem todas as variáveis são conhecidas. Alguns envolvem uma complexidade que é controlável mas cujas relações estabelecidas não são necessariamente diretas.

Suponha que eu queira, por exemplo, estudar a relação entre o tamanho de uma sala onde uma festa está acontecendo e a probabilidade de alguém quebrar um copo de cerveja. Talvez a chance de algum premiado espatifar um copo esteja relacionada com outros fatores, como a faixa etária dos convidados, a proporção entre homens e mulheres e até mesmo os tipos de cerveja que estão sendo servidas. Mas se queremos descobrir se pode existir um modelo que relacione apenas a probabilidade com a área livre da sala, ignorando todas as demais variáveis (conhecidas e desconhecidas), estamos analisando a probabilidade como variável dependente e a área livre da sala como única variável independente.

Qual a relação entre o tamanho da sala e a chance de alguém quebrar um dos copos? Crédito: Daniel Valverde/pixabay.

Pode ser que, após estudar muitas festas e muitas salas, eu chegue a um padrão que pareça relacionar de forma consistente as duas variáveis. Tudo deve passar por testes estatísticos criteriosos e, mesmo que a relação passe por todos estes testes, dificilmente teremos uma explicação de fato para as causas da relação entre quebra de copos e o tamanho da sala. Além disso, pode haver ligação entre vários fatores que foram ignorados (por exemplo, o tamanho da sala pode interferir a quantidade de pessoas que serão convidadas para a festa, que vai interferir no número de copos que serão quebrados, ou ainda pode ser que os dados que foram disponibilizados não tenham levado em conta a faixa etária e o poder aquisitivo dos anfitriões, ou mesmo se foram utilizados copos de plástico no lugar de copos de vidro). 

Para que se desenvolva de fato um estudo, tese ou teoria sobre como o tamanho da sala influencia na quantidade de copos quebrados, não basta achar correlações entre números.  O papel do cientista aqui é apresentar um olhar crítico sobre a relação encontrada e, se for o caso, propor abordagens do problema que tenham embasamento teórico a partir do trabalho já realizado por outros cientistas, levando em consideração todas as variáveis conhecidas e propondo, quando for o caso, a influência de variáveis que não foram levadas em conta, que poderão ser então verificados por outros cientistas.

Enquanto não houver nenhum resultado baseado em evidências e verificável por outros cientistas, ainda não se está fazendo ciência. Ou seja, se eu encontrar uma relação mágica entre os tamanhos das salas e o número de copos quebrados na festa, esta relação só passa a ser cientifica se ela puder ser posta à prova por outras pessoas em condições rigorosas e reprodutíveis. Isto não quer dizer que teorias científicas constituem a verdade absoluta, ou que elas proporcionem respostas sobre todas as causas dos fenômenos estudados, mas sim que aquele é o ponto máximo a que se pôde chegar, neste momento, a conclusões com o máximo de rigor possível utilizando-se o pensamento racional.

Trata-se de um trabalho cumulativo, lento, colaborativo e que exige tempo e muita verificação e senso crítico para se consolidar e gerar aplicações para a sociedade e para outras áreas da ciência.

 

 

Anúncios
0

Nova estratégia para tratar hipertensão portal a caminho?

Já foi abordado neste blog a utilização de antigos fármacos para tratar novas doenças (https://cientistasfeministas.wordpress.com/2019/04/03/eu-estava-aqui-o-tempo-todo-e-so-voce-nao-viu-quando-velhos-remedios-tratam-novas-doencas/) ou para tratar doenças que já existem há algum tempo mas são diferentes daquelas para qual o medicamento foi originalmente desenvolvido (https://cientistasfeministas.wordpress.com/2019/ 05/01/batalha-contra-a-doenca-de-alzheimer-uma-nova-esperanca-na-forma-de-coquetel-de-moleculas-terapeuticas/). Este texto tem o objetivo de destacar a possibilidade de utilização do fármaco Sivelestat, um inibidor da enzima elastase de neutrófilos e mais comumente usado para tratar insuficiência respiratória aguda, para tratamento de hipertensão portal.

 

A hipertensão portal consiste na elevação de pressão na veia porta hepática (ou mais comumente chamada veia porta – Figura 1), responsável por drenar o sangue das glândulas associadas ao sistema digestivo e do sistema digestivo para o fígado (http://www.sobrice.org.br/paciente/condicoes-clinicas/hipertensao-porta).

 

Figura 1 blog

Figura 1: Fígado e vasos importantes envolvidos em sua circulação. A veia porta pode ser visualizada na imagem.

As causas mais comuns de hipertensão portal são doenças crônicas do fígado, formação de coágulos ou outras alterações vasculares em veias circundantes, ou ainda em regiões endêmicas de esquistossomíases ou esquistossomoses. Para os pacientes, as consequências são severas e há grande ameaça à vida destes com possibilidade de evolução para hemorragia, inchaço da cavidade abdominal por acumulação de fluidos, comprometimento de função cerebral, etc (https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/dist%C3%BArbios-hep%C3%A1ticos-e-biliares/abordagem-ao-paciente-com-doen%C3%A7a-hep%C3%A1tica/hipertens%C3%A3o-portal). Apenas em 2015 ocorreram no Brasil 28337 mortes devido a cirrose, câncer hepático e transtornos por uso de álcool (http://www.scielo.br/pdf/rbepid/v20s1/1980-5497-rbepid-20-s1-00061.pdf).

Os tratamentos para o problema envolvem opções limitadas que contemplam técnicas invasivas como endoscopias seriadas, associadas ou não, ao uso de medicamentos que ajudem no controle de pressão.

Uma pesquisa desenvolvida recentemente nos EUA por pesquisadores da Mayo Clinic liderados por Vijay Shah, no entanto, tem o potencial de mudar esta situação no futuro. O medicamento Sivelestat foi capaz de diminuir a hipertensão portal em modelos de camundongos usados no estudo, e os resultados obtidos pelos pesquisadores também se mostraram promissores em amostras de fígados humanos.

Os pesquisadores perceberam que um importante fator para a hipertensão portal ocorrer é a formação de coágulos e que as células do sangue conhecidas como neutrófilos têm importante papel no desenvolver do quadro.

O fármaco, ao inibir a função de uma enzima do neutrófilo (elastase) relacionada à formação dos coágulos, contribuiu para que a hipertensão portal fosse diminuída nos animais.

Camundongos nos quais foi induzida a hipertensão portal congestiva foram tratados com injeções de Sivelestat três vezes na semana durante seis semanas, e ao final do tratamento apresentaram não só menos formação de fibrina e outros componentes associados a coágulos, mas também redução de pressão portal (Figura 2).

Figura 2 blog

Figura 2: O tratamento de animais de experimentação com Sivelestat reduziu não apenas a produção de fibrina (a e b), mas também como consequência a pressão portal. Adaptada de (https://doi.org/10.1053/j.gastro.2019.03.013).

A partir dos resultados encontrados no trabalho, incluindo a compreensão do envolvimento de trombos no quadro de hipertensão portal e a possibilidade de se atenuar os sintomas com Sinvelestat, abrem-se novas possibilidades para o desenvolvimento de novos medicamentos para tratar esta enfermidade que pode levar a óbito.

0

Em trabalho inédito, pesquisador brasileiro aborda a audiodescrição de histórias em quadrinhos

Na última quinta-feira, 20 de junho, o blog Cientistas Feministas entrevistou o pesquisador Victor Hugo Cruz Caparica, que recentemente defendeu sua tese de doutorado. Nela, Victor discutiu como audiodescrever histórias em quadrinhos a partir da semiótica e ofereceu inclusive um roteiro experimental da graphic novel Turma da Mônica Laços. A pesquisa inédita e de grande importância social foi o tema da entrevista:

Imagem: capa da graphic novel Turma da Mônica Laços

– Muito obrigada por conversar com a gente, Victor. Você poderia falar um pouco sobre sua pesquisa?

Em 2013 eu descobri que os parâmetros de audiodescrição, as diretrizes de boas práticas, os principais manuais de audiodescrição, tanto no Brasil quanto lá fora, não cobriam as histórias em quadrinhos – na verdade não falavam nada sobre histórias em quadrinhos. Os poucos que tocavam no assunto colocavam dentro de audiodescrição de imagens estáticas, o que simplesmente não funciona. Eu percebi isso notando nenhuma oferta de audiodescrição de quadrinhos, por mais que a oferta em outras áreas seja pequena ela existe. E aí conversando com pesquisadores e audiodescritores eu descobri que nenhum nunca havia tentado trabalhar com isso porque não sabia como. Eu comecei o doutorado em educação especial e, após um semestre, percebi que o meu problema de pesquisa – que era desenvolver parâmetros, diretrizes, uma espécie de protomanual de audiodescrição de quadrinhos – que isso não era um problema de educação especial especificamente, era muito mais um problema de linguagem, de linguística, de tradução. E que eu poderia depois aplicar essas diretrizes em pesquisas na área de educação especial. Então eu fui pro doutorado em linguística na UNESP, em Araquara.

– Sua metodologia incluiu a semiótica, é isso mesmo? Como que foi?

Eu tive a ideia de tentar resolver esse problema usando a semiótica discursiva, de matriz francesa, e a partir dessa ideia eu soube quem procurar e fui atrás do Arnaldo [orientador]. Então a gente passou a trabalhar com autores franceses e brasileiros em cima de semiótica geral do discurso, quanto de autores específicos da semiótica de quadrinhos. Então a gente usou principalmente autores da semiótica para trabalhar análise do texto das histórias em quadrinhos. E, a partir dessa análise, tentar estabelecer um entendimento de como traduzir essa estrutura em palavras.

– Foi um trabalho totalmente inédito, não havia nada parecido.

Não. Embora existam tentativas anteriores pontuais de tentar audiodescrever quadrinhos para pessoas cegas, eram sempre de historinhas curtas, normalmente tirinhas. Nada parecido com tentar descrever uma graphic novel, por exemplo.

– E você conseguiu elaborar um método de tradução?

Com bastante dificuldade, mas consegui. Eu falo na tese que a gente mais conseguiu oferecer um ponto de partida. Eu apresento um conjunto de parâmetros, de diretrizes de audiodescrição semioticamente embasada de histórias em quadrinhos e com um roteiro experimental de uma graphic novel demonstrado a viabilidade, a aplicação experimental dessas diretrizes. No caso, a gente escolheu a graphic novel Turma da Mônica Laços, que agora virou filme inclusive.

– Quais as diferenças da história em quadrinhos para outras mídias?

Uma das coisas que a gente trabalhou foi o que aproveitar de outras diretrizes de audiodescrição, e foi pouca coisa, na verdade. As histórias em quadrinhos são uma linguagem, uma forma de expressão muito peculiar nas suas características. Por exemplo: as histórias em quadrinhos utilizam muito conhecimento técnico e principalmente estético do cinema. Então é muito comum usar técnicas de enquadramento, de angulação do cinema. Mesmo estéticas de cor. Há muito do cinema que as histórias em quadrinhos absorveram. Então dá pra entender um pouco disso a partir das diretrizes de audiodescrição pro cinema? Não, não dá. Porque no cinema você não tem o grande problema das histórias em quadrinhos que é o tempo. Na audiodescrição de um filme, o filme está passando, o tempo de decorrência de um filme é impositivo, o filme não vai pausar para ser audiodescrito, porque a ideia é que pessoas que enxergam assistam junto com as que não enxergam. Então um filme audiodescrito corre no tempo normal do filme e encaixa as descrições nos espaços entre os diálogos. Não há isso nas histórias em quadrinhos. Então em tese não há nada que me diga quanto tempo eu devo ficar descrevendo um mesmo quadro. E a gente sabe que se eu quiser me aprofundar em minúcias, dependendo do autor, eu posso passar uma hora olhando para uma página só. Qual é o tempo? Quando é o momento de virar a página e continuar? Qual é o limite de detalhe? É uma decisão que gastou algumas páginas de reflexão na tese. Ao mesmo tempo, se for comparar os quadrinhos com uma linguagem de imagem estática. Não é cinema, então eu vou descrever um quadro por vez. Isso também é uma discussão que a gente faz na tese. Não é conveniente para o leitor, para a tradução, descrever um quadro por vez, como se fosse só uma sucessão de imagens estáticas. Como dizem praticamente todos os pesquisadores da área e artistas, a história em quadrinhos não acontece nos quadros. A imensa maioria da história em quadrinhos acontece entre os quadros, no que não foi desenhado, no que é pressuposto entre dois estados de ação. Os quadros, em si, são instantes congelados muito pequenos. O ponto é: grande parte da história em quadrinhos ocorre na imaginação. Ocorre no preenchimento mental das lacunas entre um quadro e outro, entre uma página e outra. E isso você não captura descrevendo cada página. Isso requer subjetividade, requer leitura por parte do tradutor. Requer muita reflexão, muita discussão teórica sobre qual a melhor maneira de fazer isso sem incorrer em arbitrariedades do tipo “tem que ser dessa maneira porque eu gosto mais assim”, porque aí você não está fazendo ciência.

– O que te motivou a pensar em audiodescrição para as histórias em quadrinhos? É uma linguagem que você gosta?

Demais. Foi principalmente pela falta que eu sentia e ainda sinto da oferta de material audiodescrito em quadrinhos. Há uma oferta, ainda que pequena, para cinema, séries de televisão, mesmo para teatro, artes plásticas, fotografias. Mas para quadrinho simplesmente não tinha. Eu sou deficiente visual há dezesseis anos, e até então eu consumia muito esse tipo de literatura e passei a sentir muita falta. Então também é uma forma de preencher uma lacuna que me causa muito desconforto.

– Você foi bolsista durante o doutorado?

Fui bolsista da CAPES.

– E você tem planos de continuar com a pesquisa?

Eu adoraria. Gostaria muito de começar um núcleo de audiodescrição no estado de São Paulo, que não tem nenhum. A UFMG, a UFBA, a UFPA e a UECE são algumas universidades que tem núcleos muito legais de pesquisa em audiodescrição e em São Paulo não tem. Seria muito legal iniciar um aqui e produzir mais pesquisa.

– E como você está falando, ainda tem muita coisa a ser estudada…

Muita mesmo.

– Você acha que a academia é um ambiente capacitista?

A sociedade é um ambiente capacitista e a academia faz parte dela. No meu círculo acadêmico há uma preocupação progressista maior. Eu fiz minha parte, ajudei eles [UNESP] a conhecer melhor os déficits de acessibilidade do campus. Não posso reclamar de maneira alguma da questão da boa vontade. Sempre que eu levei qualquer problema foi prontamente atendido, prontamente resolvido na medida do possível. O problema, como sempre, é: qual é a medida do possível? Sobretudo dentro das limitações materiais. Da mesma maneira como é barato projetar um lugar, uma instituição, um conteúdo, vai custar proporcionalmente mais caro depois de feito, de pronto, adequá-lo. É sempre muito mais eficiente projetar para ser acessível do que adaptar. Adaptar custa dinheiro e estamos vivendo um dos períodos mais sombrios de investimento público na ciência brasileira, então isso afeta inclusive a capacidade das instituições serem acessíveis e inclusivas.

0

Você considera sua microbiota parte de você?

“Você é o que você come” é uma frase normalmente utilizada quando nos referimos aos tipos de alimentos que ingerimos e que vão fazer parte do nosso corpo. Seja na forma de energia, a partir de carboidratos, ou para formação das proteínas, extremamente importantes para nosso corpo. Microrganismos também podem fazer parte da nossa dieta e são muito recomendados em uma dieta saudável! Estes microrganismos frequentemente já fazem parte do nosso corpo. Eles compõem a microbiota gastrointestinal e são responsáveis pelo processamento de muitos alimentos que consumimos e, assim, contribuem para absorção dos nutrientes que precisamos. Um exemplo clássico são os lactobacilos (vivos!) presentes nos leites fermentados e iogurtes.

Lactobacillus_paracasei

Lactobacilos. Wikimedia Commons, Creative Commons, 2018.

Lactobacilos são bactérias do gênero Lactobacillus, que fazem parte da nossa microbiota intestinal e nos protegem contra a ação de patógenos, além de criar um ambiente propício para que outros microrganismos benéficos se estabeleçam no nosso organismo.

Sem estes microrganismos, nosso corpo não consegue absorver a energia necessária para seu funcionamento e desenvolve doenças metabólicas como obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares (mais sobre a importância da microbiota e sua relação com o corpo aqui e aqui). Da mesma forma, se nosso fígado está desregulado, nós não conseguimos metabolizar e armazenar nutrientes que foram processados e absorvidos no estômago e no intestino, além de prejudicar outras diversas funções que esse órgão executa. Dessa forma, os microrganismos que formam nossa microbiota podem ser comparados aos vários órgãos que formam o nosso corpo, pois estes são essenciais para o seu funcionamento. Assim, será que podemos dizer que eles fazem parte de nós?

Uma das discussões quentes na filosofia da biologia hoje é o problema da delimitação do indivíduo biológico. De maneira geral, essa discussão tenta determinar o que pode ser considerado uma unidade coesa, funcional e bem delimitada no mundo biológico, como um organismo. O problema parece trivial, porque convivemos com vários indivíduos fáceis de identificar, como um cachorro, um pássaro ou um cacto. Você reconhece com facilidade os limites destes organismos. No entanto, alguns indivíduos podem ser menos simples de determinar. Um exemplo são os corais. Corais são formados por animais chamados cnidários, o mesmo filo das águas vivas e anêmonas do mar. Estes animais vivem em colônias e secretam um exoesqueleto de calcário que forma os lindos recifes de corais que conhecemos, um dos ecossistemas mais ricos do planeta.

coral-567688_960_720

Recifes de corais. Fonte: Jan-Mallander/Pixabay, Domínio Público, 2014.

Os corais frequentemente se associam com outros animais, as chamadas zooxantelas, que são dinoflagelados endossimbiontes do gênero Symbiodinium, um grupo diverso de microalgas. Bem resumidamente, os corais se beneficiam dos produtos da fotossíntese fornecidos pelas zooxantelas além da conservação e reciclagem de nutrientes que contribuem para o aumento das taxas de calcificação do coral. As zooxantelas, por sua vez, ficam protegidas de predadores, tem fácil acesso a luz e ainda adquirem compostos essenciais para seu metabolismo fotossintético. Sem as zooxantelas, os corais enfraquecem e morrem, um fenômeno descrito como branqueamento de corais, um dos grandes problemas para a vida marinha hoje (leia sobre outros aqui).

Symbiodinium

Zooxantelas do gênero Symbiodinium. Fonte: Wikimedia Commons, Creative Commons, 2015.

A partir dessa relação de dependência, alguns autores têm usado esse exemplo como chave para explicitar o problema da determinação do indivíduo na biologia. Mas beleza, como isso se aplica aos nossos microrganismos? Vocês lembram que falei que eles são essenciais para o nosso corpo assim como nós somos importantíssimos para eles? Então! O problema parece se aplicar a gente também!

Como resolução desse problema, alguns pesquisadores têm proposto que o sistema imune deve ser considerado juiz no que concerne às barreiras dos indivíduos (ex: Pradeu, 2010; 2016). Este sistema trabalha para defender o corpo contra organismos indesejados como patógenos, mas também incorpora organismos que são essenciais para nossa sobrevivência. Dessa forma, é aquele que julga quem é rejeitado e quem é incorporado. Além disso, o sistema imune é o único no nosso corpo realmente sistêmico, ou seja, aquele que pode influenciar todo o organismo. Assim, ele teria o poder de determinar os limites do indivíduo como uma unidade funcional que se mantém no tempo apesar de mudanças no ambiente.

De acordo com esta proposta, nós fazemos parte de um indivíduo que não inclui apenas nosso corpo, mas toda a microbiota essencial para a nossa sobrevivência (!!!). Somos então um mega ecossistema complexo que trabalha de maneira funcional e coesa com limites bem estabelecidos pelo nosso sistema imune. Uma vantagem dessa proposta é que ela não se aplica apenas a gente, todos os seres vivos possuem um sistema imune, cada um de forma diferente, mas que têm esta mesma função.

E apesar de parecer trivial a discussão sobre quem seria o indivíduo como unidade funcional, ela foi impulsionada principalmente pela pesquisa de transplantes de tecidos e órgãos. Acontece que, para comparar a compatibilidade e entender o sucesso ou falha de um transplante entre duas pessoas, não deveríamos apenas investigar o seu corpo ou seu material genético, mas entendê-lo como um indivíduo composto por vários organismos.

É isso, cuidem bem de vocês, cuidem bem do seu ecossistema

 

Referências:

Kikuchi, R. K. P., Leão, Z. M. A. N., Oliveira, M. D., Dutra, L. X., & Cruz, I. C. (2004). Branqueamento de corais nos recifes da Bahia associado aos efeitos do El Niño 2003. Cong. Planejamento e Gestão das Zonas Costeiras dos Países de Expressão Portuguesa, 2, 213.

Pradeu, T. (2010). What is An Organism? An Immunological Answer. History and Philosophy of the Life Sciences, 32(2/3), 247-267. http://www.jstor.org/stable/23335074

Pradeu, T. (2016). Organisms or biological individuals? Combining physiological and evolutionary individuality. Biology & Philosophy, 31(6), 797-817. https://doi.org/10.1007/s10539-016-9551-1

NIH Human Microbiome Project (Projeto Microbioma Humano): https://hmpdacc.org/

 

0

Meninas não são mães: Gravidez na adolescência e os entrelaçamentos de raça, gênero e classe

Na América Latina e no Caribe ainda apresentam taxas elevadas de fecundidade adolescente (68 a cada mil meninas) em comparação com a média mundial (46 a cada mil meninas) e outras regiões do mundo, superados somente pela África. A gravidez na adolescência é o resultado da violência sexual, falta de acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva e da violação de múltiplos direitos das meninas.

Os dados sobre gravidez na adolescência no Brasil, revelam que esse fenômeno tem relação com as situações de vulnerabilidade presentes na vida de parte das meninas que vivenciam a maternidade muito cedo. São os múltiplos contextos que determinam essa situação como: o início cada vez mais precoce de relações sexuais e da menarca, a falta de acesso aos serviços de saúde sexual e reprodutiva e o baixo uso de contraceptivos modernos, violência sexual e uniões precoces, o baixo acesso à educação de qualidade, atraso e deserção escolares, relações assimétricas de gênero, raça, classe, geração e outras opressões correlatas. São as adolescentes em situação de pobreza, com baixa escolaridade, indígenas, negras ou de áreas rurais têm três vezes mais chances de riscos de engravidar que meninas com educação escolar e de zonas urbanas (UNFPA: Gravidez na adolescência).

Segundo os dados do Sistema de Informação de Nascidos Vivos (SINASC/DATASUS/MS) nos últimos 10 anos tem-se observado que a participação das adolescentes entre as mulheres que tiveram filhos têm apresentado diminuição ao longo do tempo, entretanto são as adolescentes brancas (12,3%) que tem apresentado um maior declínio quando comparadas ao Brasil (17,5%) e as adolescentes negras (20,6%), que inclusive, esta última, apresenta uma queda lenta com uma diferença de mais ou menos 8% em relação ao outro grupo (gráfico 1).Imagem 1 Meninas não são mães

O gráfico 1 também apresenta uma informação importante sobre as desigualdades raciais, que as disparidades entre negras e brancas permanecem durante toda série histórica e as adolescentes negras apresentam um atraso de 10 anos, na redução da maternidade precoce, pois as brancas em 2002 apresentaram um percentual de 20,8%, enquanto as negras em 2016 apresentam 20,6%, ou seja, os valores demonstram que as negras ainda estão se equiparando às brancas de 10 anos atrás e estão muito longe de alcançar as brancas do mesmo ano.

A maior ocorrência de gravidez na adolescência é em negras, de menor renda e escolaridade e de periferia, e podendo desta forma ser observado que as questões de ordem social interferem na saúde reprodutiva e no exercício do seu direito. Notícia recente, revela que houve um aumento de grávidas adolescentes (15 a 19 anos) nas periferias de São Paulo, enquanto há uma queda na capital e são as meninas negras que adensam esse percentual de mães adolescentes (Leia: Cresce proporção de bebês de adolescentes na periferia de São Paulo).

No ano de 2016 tivemos no país 501.385 adolescentes mães (10 a 19 anos) e 69,7% eram negras e 24,7% eram brancas (SINASC/DATASUS/MS) (Figura 2). Tanto as evidências científicas quanto às denúncias de ativistas relatam que as adolescentes negras são as mais expostas a uma gravidez não prevista ou não planejada e também são elas as mais vulneráveis à opressão interseccional de gênero, raça, geração e classe, marcadores sociais, que, geralmente, envolvem o fenômeno da gravidez na adolescência.Imagem 2 Meninas não são mães

As relações assimétricas de gênero, raça e geração, pautadas no sistema patriarcal racista, vão contribuir para o não exercício da autonomia das adolescentes e dificultar a negociação do uso de camisinha, por exemplo. Com isso, observa-se uma maior ocorrência de gravidez, próxima a iniciação sexual, sobretudo para adolescentes negras, de periferia ou interior.

Fatores associados à falta de acesso aos serviços de saúde sexual e reprodutiva contribuem para o aumento de mães adolescentes, o serviço de saúde ainda é um lugar de discriminação e estigma para as meninas, se tornando uma barreira na procura pelo serviço. Ainda sim, a diferença no acesso entre os grupos raciais, segundo o artigo citado são as brancas têm mais acesso a informação, a métodos contraceptivos e realizam o aborto de forma mais segura.

Em que pese os contextos acima citados serem determinantes para que mulheres ainda adolescentes engravidem e sejam mães precocemente, a violência sexual tem sido um determinante que requer atenção e cuidado, pois muitos casos não são denunciados e nem são vistos como violência, além da culpabilização das vítimas do ocorrido que de alguma forma, as meninas e adolescentes, poderiam ter evitado a violência sexual/estupro. A opressão e a culpa fazem com que as meninas e adolescentes, mesmo identificando a violência se recusem a denunciar, com isso temos uma subnotificação em todos os casos de violência. Ao observar os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN/DATASUS/MS) do ano de 2016 entre as adolescentes (10 a 19 anos) houve 12.447 casos de estupros notificados no sistema, estão entre as negras a maior concentração quando comparada aos outros grupos raciais, figura 3.

Imagem 3 Meninas não são mães

O Relatório Saúde Brasil 2017 com a finalidade de identificar os casos de adolescentes que tiveram filhos e foram notificadas por estupro, realizou a linkage entre os dados de nascidos vivos de mães adolescentes registrados no Sinasc e as notificações de violência sexual por estupro inseridas no Sinan. O estudo demonstrou que 49.489 adolescentes (10 a 19 anos) notificaram estupros entre 2011 e 2016, 19,5% dessas tiveram filhos nesse mesmo período, ou seja, possivelmente muitas dessas gravidezes foram originárias da violência sexual. Para o estudo o estupro parece ser um fator de risco importante, que repercute de forma negativa na gestação, no parto e no nascimento, e sua ocorrência aprofunda os riscos inerentes à gravidez na adolescência.

A campanha #NiñasNoMadres, que inclusive inspirou o título deste texto, é uma campanha regional para informar sobre as graves consequências da violência sexual e maternidade forçada na vida de meninas latino-americanas, atuando por meio de mobilização da sociedade para a proteção das meninas e de seus direitos, como o acesso aos serviços de aborto legal, a educação de qualidade e ao livre exercício da sua saúde sexual e reprodutiva.

No Brasil no ano de 2016 tivemos apenas 322 internações de adolescentes (10 a 19 anos) para a realização de aborto por intervenções médicas, entre elas o aborto legal, um número de internações muito pequeno quando comparado ao número de adolescentes mães e de estupros notificados no mesmo ano para este grupo etário. Um outro fato alarmante é o número de adolescentes de 10 a 14 anos que tiveram filhos em 2016 (SINASC), cerca de 24.135 e com menos de 10 anos, houveram quatro meninas, números esses que nem deveriam existir, porque meninas não são mães, a maternidade compulsória é uma violência contras as meninas, uma violação da vida, uma tortura.

A falta de oportunidades para as comunidades nas diversas agendas sociais e políticas, assim como a necessidade de um ambiente saudável para que possibilidades sejam lançadas, as meninas e adolescentes não poderão tomar decisões, planejar a sua reprodução e exercitar a sua sexualidade com liberdade e autonomia (Leia: Justiça Reprodutiva ou Direitos Reprodutivos, o que as mulheres negras querem?)

A gravidez na adolescência deve ser compreendida a partir de suas dinâmicas que estão no âmbito pessoal e nas condições sociais em que as adolescentes estão inseridas. Pois, este fenômeno reprodutivo determina diversos desfechos nas trajetórias de vida das adolescentes, podendo resultar em abandono escolar, dificuldade de inserção no mercado de trabalho e conflitos familiares, além dos fatores relacionados à gravidez que podem ocasionar complicações maternas e fetais, seja por fatores biológicos, psicológicos ou socioeconômicos, além e o mais importante, a interrupção do direito de viver plenamente a infância e adolescência.

O Sistema Patriarcalista/Racista/Sexista incide sobre a vida sexual e reprodutiva de meninas e adolescentes, que não tem o direito de exercer a sua cidadania com justiça social, estão cercadas numa ilha de negação de serviços de saúde, de relações afetivas, de acesso à educação de qualidade e de um ambiente livre de opressões. Essas ausências irão marcar as suas trajetórias e as maternidades. E continuamos dizendo e reivindicando que meninas não são mães.

Referências

Brasil. Ministério da Saúde. Saúde Brasil 2017 : uma análise da situação de saúde e os desafios para o alcance dos objetivos de desenvolvimento sustentável. Brasília : Ministério da Saúde, 2018

UNFPA. Gravidez na adolescência. Disponivel em: https://brazil.unfpa.org/pt-br/gravidez-na-adolesc%C3%AAncia 

Marina Estarque. Cresce proporção de bebês nascidos de adolescentes na periferia de SP: Em queda na capital, gravidez precoce passa a se concentrar entre meninas negras e pobres. Disponivel em https://folha.com/bm10du2l

0

Uma aranha que “amamenta” e a percepção dos avanços científicos pela população.

O texto de hoje é sobre uma descoberta científica e a importância da pesquisa básica. Esse tópico surgiu por conta de uma reportagem a respeito da dita descoberta que eu falo a seguir e os comentários de alguns leitores.

A descoberta

Um time de pesquisadores do Jardim Botânico de Xishuangbanna, Universidade de Hubey e Instituto de Zoologia Kunming, todos na China, descobriu que uma espécie de aranha saltadora, Toxeus magnus (Figura 1), “amamenta” seus filhotes e mostra um cuidado parental por mais tempo que o usual para esse tipo de animal. E sim, é isso mesmo que você pensou: essas duas características juntas são basicamente o que definem os mamíferos. Pensa na surpresa dos cientistas quando descobriram uma aranha com esses comportamentos.

Zhanqi Chen et al.

Figura 1: Aranha Toxeus magnus com os filhotes “mamando”. Zhenqi Chen et al.

A pesquisa não começou com a hipótese da amamentação. Na verdade a primeira coisa que o grupo notou foi que os filhotes dessa espécie de aranha passavam um tempo consideravelmente longo no ninho comparado com outras espécies de aranhas saltadoras. Isso fez os cientistas levantarem a hipótese de que os pais ofereciam cuidado parental e alimentação à prole, mas como? Os cientistas notaram que a aranha mãe não levava alimentos para dentro do ninho, então eles formularam três hipóteses de como a aranha estaria alimentando seus filhotes:

1-    Ela poderia estar alimentando os filhotes através de regurgitação;

2-    Os filhotes poderiam estar ingerindo ovos não fecundados, comportamento que já foi visto em outros invertebrados;

3-    Ou ainda poderia estar acontecendo alimentação fecal.

Depois de alguns testes e observações vieram mais surpresas: nenhuma dessas hipóteses estava correta!

Numa noite, em seu laboratório, um dos autores do estudo, Chen, notou que um filhote estava atrelado à mãe, como um mamífero que é amamentado. Esse deve ter sido aquele momento que o cientista disse: Eureka! (mentira, cientistas nem fazem isso, haha). Voltando a seriedade, segundo Chen, esse foi o momento que ele decidiu testar outra hipótese: a de que a aranha mãe estaria “amamentando” seus filhotes.

Eles fizeram uma porção de testes para avaliar o conteúdo do “leite” e descobriram que era composto de proteínas, carboidratos e açúcares. Uma observação é que a quantidade de proteína do “leite” de aranha é 4 vezes superior à quantidade de proteína do leite de vaca. Logo que as aranhas nascem (entre 2 e 36 em cada postura), elas ingerem gotículas de “leite” que a aranha mãe deixa em torno do ninho, mas logo que esse “leite” acaba, elas começam a sugar diretamente do canal do nascimento da mãe. Elas continuam se alimentando exclusivamente desse “leite” até atingirem a maturidade sexual e deixarem o ninho.

Chen e o grupo responsável pela pesquisa falam que essa é uma descoberta importante no ramo evolutivo, pois mostra que o cuidado parental evoluiu mesmo em organismos considerados menos complexos. Eles ressaltam que a evolução desse comportamento é um indicativo de situações extremas que pedem soluções extremas para a sobrevivência da prole, já que a mãe é bastante exigida (quem é mãe sabe do que eu estou falando). Além disso, a composição desse fluido, antes desconhecido da ciência, pode revelar algumas surpresas.

Ok, mas porque eu queria mostrar a importância da pesquisa básica nesse texto?

Bom, então vamos a segunda parte: Porque essa descoberta é importante?

Primeiramente eu tive a ideia de falar sobre isso após ler os comentários de uma reportagem sobre essa pesquisa publicada no Facebook. Alguns comentários falavam sobre a surpresa da pesquisa, mas outros diziam que pesquisadores estavam perdendo tempo pesquisando essas “coisas inúteis” ao invés de pesquisar a cura do câncer por exemplo. A foto abaixo é um exemplo do conteúdo dos comentários:

InkedScreenshot_20181212-225305_LI1

Figura 2: Exemplo de comentário na publicação da reportagem sobre a descoberta do comportamento da aranha.

Como uma pessoa que passou a vida acadêmica toda fazendo pesquisa básica, esse tipo de comentário me afeta bastante. Quando as pessoas me perguntavam por que, ao invés de estudar evolução molecular de primatas, eu não ia estudar algo que fosse útil eu ficava sem saber o que responder e falava apenas que eu estudava evolução de primatas porque eu gostava. Hoje eu tenho uma visão maior da pesquisa básica e sua importância e penso que o fato de ter muitas pessoas que não entendem isso é consequência de uma falha nossa como cientistas e comunicadores. Cientistas precisam aprender a se comunicar com a comunidade leiga de maneira que todos entendam o porquê é necessário tanto pesquisa aplicada, quanto pesquisa básica. A pesquisa básica é a fundação de conhecimento para que a pesquisa aplicada possa existir. Por exemplo, Carl Sagan, em seu livro “O mundo assombrado pelos demônios”, no capítulo em que fala sobre as contribuições do matemático e físico James Clerk Maxwell, aproveita para explicar porque a ciência básica e a curiosidade do cientista são tão importantes:

Como a imagem do cientista louco à qual está intimamente associado, o estereótipo do cientista nerd está disseminado em nossa sociedade. O que há de errado com um pouco de zombaria bem-humorada à custa dos cientistas? Se, por qualquer razão, as pessoas não gostam do cientista estereotipado, é menos provável que dêem apoio à ciência. Por que subsidiar pequenos projetos absurdos e incompreensíveis propostos por malucos? Bem, sabemos a resposta para essa pergunta: a ciência recebe apoio financeiro porque gera benefícios espetaculares em todos os níveis da sociedade, como já afirmei neste livro. Por isso, aqueles que acham os nerds desagradáveis, mas ao mesmo tempo desejam os produtos da ciência, enfrentam uma espécie de dilema. Uma solução tentadora é dirigir as atividades dos cientistas. É só não lhes dar dinheiro para saírem a pesquisar por caminhos estranhos; em vez disso, é preciso dizer-lhes do que precisamos – esta invenção ou aquele processo. Não é o caso de subsidiar a curiosidade dos nerds, mas aquilo que trará benefícios à sociedade. Parece bastante simples. O problema é que dar ordens a alguém para criar uma invenção específica, ainda que o preço não constitua obstáculo, não garante que ela seja realizada. Pode haver uma base de conhecimento ainda ignorada, sem a qual ninguém conseguirá construir o invento que se tem em mente. E a história da ciência mostra que tampouco se pode procurar esses conhecimentos básicos de modo dirigido. Eles podem surgir das cogitações ociosas de um jovem solitário em algum lugar isolado. São ignorados ou rejeitados mesmo por outros cientistas, às vezes até que surja uma nova geração destes. Exigir grandes invenções práticas e, ao mesmo tempo, desencorajar a pesquisa movida pela curiosidade seria espetacularmente contraproducente.

Ele continua, durante o capítulo, dando exemplos práticos de como invenções incríveis não teriam saído do papel (e nem da cabeça de ninguém) caso não houvesse conhecimento prévio de base. Agora volte um pouco para o início do texto. Pode parecer que a pesquisa sobre o comportamento da aranha não acrescenta em nada na sua vida, mas e se daqui a pouco o “leite” produzido pela aranha carrega uma substância capaz de ser utilizada como um potente antibiótico? Ou ele pode ter alguma molécula capaz de inativar uma célula cancerígena. Ou ainda o cuidado parental que a aranha demonstra pode instigar a curiosidade de outros cientistas que também pesquisam insetos e vamos acabar por descobrir que esse é um comportamento mais comum do que se imagina, acabando com a noção de que somente animais mais complexos o demonstram. Eu poderia ficar aqui citando diversos “e se…?”, mas acho que você já entendeu o meu ponto: Não há avanços científicos sem pesquisa de base.

Mais um adendo

Quando eu estava no processo de escrita desse texto, me deparei com outro ótimo exemplo de pesquisa básica que gera conhecimento para uma futura pesquisa aplicada: Um grupo de pesquisadores do John Innes Centre, na Inglaterra, publicou um estudo no mês de dezembro, na revista Nature sobre como o catnip (Nepeta catariaaquela plantinha que deixa os gatos malucos) produz a substância psicoativa. Você vai se perguntar, eu sei, porque a Nature, essa revista de tamanho prestígio científico, publicou uma pesquisa sobre a substância que deixa os gatos drogados?

Bom, não foi à toa. Um dos conhecimentos extraídos desta pesquisa vai ser utilizado para entender melhor como outra molécula utilizada como quimioterápico (semelhante à substância psicoativa do catnip) é produzida pelas plantas. Talvez com esse conhecimento em mãos seja possível fabricar o quimioterápico sinteticamente, podendo diminuir seu custo.

Referências:

Zhanqi Chen, et al. Prolonged milk provisioning in a jumping spider. Science (2018), 362 (6418): 1052 – 1055.

A curiosa aranha que amamenta seus filhotes. BBC News Brasil (2018).

Carl Sagan. O mundo assombrado pelos demônios. Random house (1995).

Benjamin L. Lichman, et al. Uncoupled activation and cyclization in catmint reductive terpenoid biosynthesis. Nature Chemical Biology (2018), 15: 71 – 79.

How catnip makes the chemical that causes cats to go crazy. ScienceDaily. ScienceDaily, 11 December 2018.

0

O eclipse de 1919: pela paz e pelo método científico

A comprovação da Teoria da Relatividade está comemorando um século de idade. Neste 29 de maio, a comunidade científica rememorou as expedições de observação de um eclipse total do Sol em Sobral, no Ceará, e na Ilha do Príncipe, na costa oeste da África.

A data é relevante porque traz à memória uma contribuição extremamente importante daquele que provavelmente é o cientista mais conhecido de todos os tempos: Albert Einstein. Ele, que formulou a Teoria da Relatividade em 1915, não tinha como comprová-la apenas por cálculos. Era preciso fazer observações e comparações. Pesar evidências.

Einstein não acompanhou as expedições, que, lideradas por Arthur Eddington na Ilha do Príncipe e por Andrew Crommelin em Sobral, contaram com a participação de equipes da Royal Astronomical Society. Britânicos e brasileiros estavam atrás de evidências de que corpos massivos – como o Sol, por exemplo – “deformam” o espaço-tempo em seu redor. É mais ou menos como colocar uma bola de futebol sobre um tecido estendido ou em cima de uma cama fofa. Se essa bola fosse o Sol, a curvatura que causa no tecido, ou no Universo, é o que explicaria o movimento dos planetas ao seu redor. Não era mais a gravidade newtoniana.

Se fosse possível observar a luz de uma estrela próxima do Sol enquanto ele estivesse no céu – e se a posição dela fosse diferente quando o Sol não estivesse lá -, isso seria um forte indício de que a teoria de Einstein estava certa. Como o Sol ofusca as outras estrelas durante o dia, essa observação não era viável. No entanto, um eclipse solar era a oportunidade perfeita para fazer esse teste. E foi o que aconteceu em Sobral e Príncipe: os pesquisadores conseguiram observar a constelação de Touro e viram que sim, a posição dessas estrelas durante o dia não era exatamente a mesma durante a noite. Einstein tinha razão!

A descoberta catapultou o cientista alemão para o estrelato mundial, beneficiou a ciência brasileira e causou uma revolução no mundo da Física: as leis que valem para nós aqui na Terra não se aplicam a galáxias, estrelas e buracos negros.

1919_eclipse_positive

Esta foto, tirada na Ilha do Príncipe (oeste da África), consta no relatório de Arthur Eddington sobre as observações que fez com sua equipe. Fonte: Wikipedia, CC0

O feito também nos lembra sobre como o método científico funciona e como ele é importante para se chegar a fatos e conclusões. Hipóteses sem testes e análises continuam sendo hipóteses. Só se tem um fato comprovado quando grupos diferentes de pessoas se debruçam sobre aquela hipótese e procuram entender, com metodologias sólidas e de forma honesta, se ela se confirma na realidade.

O eclipse centenário tem outro legado que também fala muito sobre como a ciência funciona. Ela é, essencialmente, um empreendimento colaborativo e internacional, capaz de unir pessoas de crenças e valores diferentes na busca de um único objetivo. Não é exagero dizer que a ciência, por sua própria natureza, tem o potencial de promover a paz.

Não podemos nos esquecer de que as observações em Sobral e Príncipe aconteceram em um período imediatamente posterior à I Guerra Mundial. A busca de Einstein e Eddington resultou em uma colaboração científica entre Alemanha e Reino Unido. Em um período pós-guerra, isso definitivamente não foi pouca coisa.

Em um artigo de 2003, Matthew Stanley, pesquisador do departamento de história da ciência na Universidade Harvard, conta que as dores da guerra em curso deixou um gosto amargo que começou a atrapalhar a cooperação entre britânicos e alemães. Pesquisadores do Reino Unido não tinham o mesmo ânimo para continuar cooperando com seus colegas da Alemanha – e em 1916 houve quem dissesse que a Alemanha deveria ser banida da ciência internacional.

Arthur Eddington, em uma carta à publicação Observatory na mesma época, desejava que a guerra não envenenasse a cooperação científica entre países. A astronomia, em especial, era, e é, uma ciência altamente internacional. Para Eddington, levar as fronteiras da guerra para o empreendimento científico, relata Stanley, era “um completo desentendimento das necessidades básicas e dos objetivos mais nobres da ciência”.

Um alerta que continua válido mais de um século depois de publicado.