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Ser mãe e cientista: o que está por trás disso?

Aceitar a maternidade sem julgamentos e estimular a pesquisadora mãe, um combo que requer mais investimentos por parte da sociedade.

A psicóloga Wendy M. Williams é professora no Departamento de Desenvolvimento Humano na Universidade Cornell, nos Estados Unidos, onde fundou e dirige o Instituto Cornell para Mulheres na Ciência. É de autoria dela e do professor Stephen J. Ceci, também do mesmo Departamento, um breve artigo de 2012 publicado na revista American Scientist: “When scientists choose motherhood” (“Quando as cientistas escolhem a maternidade”, na tradução para o português).

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Ciência e maternidade: a engenheira industrial Lillian Gilbreth, que também foi estudiosa da psicologia aplicada ao trabalho, em momento de trabalho e família com os filhos na casa de Rhode Island, em 1916.

No texto, eles enumeram os motivos que geralmente são mencionados nas explicações sobre a escassez de pesquisadoras, a nível internacional, em áreas como a matemática, física e química e em posições de destaque dentro do universo acadêmico. Um complexo sistema de opressões e questões negligenciadas está por trás disso: o chamado “teto de vidro” da Academia, que já rendeu texto para as Cientistas Feministas. O artigo da American Scientist ressalta a importância de se discutir e reconhecer a maternidade como um elemento que contribui para a sub-representação feminina dentro da ciência. A culpa não é da maternidade, claro, mas de fatores históricos e sociais que acompanham esse momento.

Segundo os autores, é quando a cientista “decide ser mãe que os problemas reais começam”, e as crianças parecem não afetar a vida profissional dos pais tanto quanto afetam a das mães. É mais comum encontrar pesquisadores heterossexuais com esposas que ficam em casa ou que têm empregos mais flexíveis que as permitem permanecer em casa com os filhos, enquanto os maridos estão mais livres para focar no trabalho. O cenário contrário (mulheres cujos maridos ficam mais em casa) acontece em menor grau, de acordo com o artigo.

O contexto histórico é muito importante aqui, já já iremos falar dele. Escrito por autores norte-americanos, o artigo menciona bastante um sistema de cargos que existe nos Estados Unidos e no Canadá que é similar a um período probatório para cientistas, o famoso “tenure-track”. Ao longo desse estágio probatório, ela ou ele precisa acumular experiências (bolsas, prêmios, artigos e aulas ministradas, por exemplo) para apresentá-las num portfólio impecável ao final de mais ou menos seis anos. No outro lado do arco-íris, geralmente, está o emprego estável, bem remunerado e de prestígio, como o cargo de professor dentro da universidade. No Brasil, podemos dizer que temos um equivalente, que é o cargo de professor titular.

Pois bem, mas qual é o problema? O sistema “tenure”, de acordo com Williams e Ceci, abrange a idade dos 27 aos 35+, momento em que muitas mulheres expressam desejo por ser mãe e acabam tendo o primeiro filho. Como disse acima, a história é importantíssima. Vejam o que os autores escrevem: “O sistema ‘tenure’ foi criado numa época em que poucas mulheres trabalhavam fora de casa e quando a criação dos filhos era assumida como sendo responsabilidade da mulher. Então, ele foi desenhado para pessoas sem muitas responsabilidades significativas com o trabalho doméstico ou o cuidado com os filhos. De fato, muitos professores jovens não eram homens casados e esperava-se que eles vivessem em residências dentro da universidade. Muito mudou desde então, mas o sistema ‘tenure’ continuou mais do mesmo”.

Se as relações e papéis sociais felizmente mudam com o tempo, a sociedade deveria acompanhar essas mudanças em vez de ficar presa em valores do passado. Ou, pior: apoiar medidas contra a desigualdade de gênero, mas não fazer efetivamente nada ou fazer muito pouco para mudar as estruturas dominantes. Na luta contra as desigualdades de gênero, há que se prestar atenção na sociedade que fundamentou uma determinada estrutura e é urgente reescrever linhas e entrelinhas para que tudo fique explícito e claro, sem nada a esconder em letras miúdas.

Voltando ao artigo, os autores, ao final, traçam o percurso dos caminhos possíveis que poderiam ser adotados pelas universidades para lidar com essa questão que desestimula as cientistas a persistirem na carreira científica ou, até mesmo, a desistirem de ser mães. A resposta parece passar pela compreensão a respeito do tempo da mulher, já que uma das medidas cabíveis é aumentar o período de tenure-track para elas, reconhecendo o espaço que a maternidade ocupa na vida de muitas.

Como vimos no primeiro texto sobre maternidade e ciência publicado aqui no CsFs, a trajetória de uma pesquisadora brasileira após a graduação envolve, geralmente, mestrado, doutorado e pós-doutorado. É apenas após o pós-doc que a maioria das cientistas consegue uma posição mais estável dentro das universidades brasileiras. Para muitas, numa idade que tende a ser a primeira metade dos 30 anos, como mostrou a pesquisa do grupo Parent in Science, isso significa o início da consolidação da carreira acadêmica. E também, para muitas, a época de tornar-se mãe. Em dezembro de 2017, o governo brasileiro sancionou a Lei 13.536, que “permite a prorrogação dos prazos de vigência das bolsas de estudo concedidas por agências de fomento à pesquisa nos casos de maternidade e de adoção” por até 120 dias. No entanto, no Brasil, ainda faltam oportunidades de bolsa que compreendam a maternidade como um todo e o período da licença-maternidade.

Para escrever este artigo, li também a pesquisa de mestrado de Ana Maria Urpia, mestre em psicologia pela UFBA: “Tornar-se mãe no contexto acadêmico: narrativas de um self participante”. E, aqui, abro um parênteses de desabafo. Em todo o momento da leitura, uma pergunta incômoda atravessava a minha cabeça: por mais que muitos avanços tenham sido feitos e que a generalização não caiba dentro deste comentário, até quando veremos homens omissos e pouco pró-ativos nos quesitos compartilhar igualmente tarefas domésticas, cuidar dos filhos e arcar com a carga mental que provém do gerenciamento dessas tarefas?

Reconhecendo que, em nossa cultura, “as responsabilidades dos cuidados parentais” ainda recaem majoritariamente sobre as mulheres, Urpia buscou entender o que acontece quando estudantes universitárias jovens, de 19 a 25 anos, acabam virando mães e têm que conciliar a transição para a fase adulta com a maternidade e a vida acadêmica. Com a descoberta da gravidez, geralmente ocorre a interrupção de estudos, sonhos, projetos e até relacionamentos. A pesquisadora afirma que “a narrativa de vida construída pelas mães-estudantes revela-se como uma espécie de balanço prospectivo, ‘apresentando o estado de relação com o possível e buscando, no reconhecimento do passado, pontos de referência para o futuro’”. Nos relatos do estudo, aparece muito o discurso das estudantes que se veem “lançadas para frente graças à necessidade de responsabilizar-se por uma outra vida e ao desejo de verem-se qualificadas para o mercado de trabalho”. Elas estão, conforme a pesquisa explica, orientadas por um futuro em que existe um “projeto de si mesmo”, onde poderão retomar o que foi deixado lá atrás. Além de ser um referencial teórico riquíssimo que pode orientar políticas dentro das universidades a favor das estudantes mães, a pesquisa também dialoga com as dificuldades enfrentadas pelas jovens pesquisadoras mães adultas. Até quando a maternidade será vista como interrupção e não como uma fase da vida que precisa ser integrada? Até quando a vida dessas mães precisará ser escrita APESAR da maternidade e não COM a maternidade? Gostaríamos de ter mais respostas para essas dúvidas.

Fontes:

Dissertação de Ana Maria Urpia | “Tornar-se mãe no contexto acadêmico: narrativas de um self participante”

Gênero e número – Edição Mulheres na ciência, com foco especial em maternidade

Vamos falar de raça e classe na ciência: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2018/04/06/vamos-falar-de-raca-e-classe-na-ciencia/

Is Motherhood the Biggest Reason For Academia’s Gender Imbalance?: http://science.sciencemag.org/content/335/6072/1030

When scientists choose motherhood: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3939045/

Career gaps: maternity muddle – https://www.nature.com/nature/journal/v509/n7500/full/nj7500-389a.html

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Primavera feminista latino-americana

Buenos Aires, Argentina, junho 2015; São Paulo, Brasil, outubro 2015; Cidade do México, abril 2016; Lima, Peru, agosto 2016—em diversos cantos da América Latina as mulheres estão tomando as ruas para gritar em um coro uníssono: basta!

Você com certeza já leu algo sobre os novos movimentos de mulheres no Brasil que clamam pela igualdade de gênero, pelo fim da violência contra a mulher, pelo direito à escolha. Talvez aqui mesmo no blog, onde publicamos textos sobre a maravilinda hashtag “Meu Amigo Secreto” e, mais recentemente, sobre diversos relatos de abusos machistas que muitas de nós sofremos. Desde que fomos às ruas no ano passado para dizer um categórico “não” ao projeto de lei 5069, de autoria de um ex-deputado deveras questionável cujo nome prefiro nem mencionar, nós, brasileiras, ganhamos novo fôlego para reagir a uma agenda política conservadora que pretende ditar regras sobre nossos corpos e nosso comportamento (homis, cês são tudo bem vindo no rolê, mas vou tomar a liberdade de falar de irmã pra irmã aqui, belê? Não se sintam excluídos não, a gente gosta quando vocês vêm pra somar, mas a gente está construindo sororidade). Inúmeras iniciativas surgiram para dar vazão ao nosso descontentamento com a cultura machista do país, à nossa revolta frente a crimes hediondos de violência contra a mulher e às nossas demandas por políticas públicas que respeitem e protejam nossa vida e nossa saúde.

Mas não é apenas no Brasil que as mulheres têm protagonizado movimentos feministas de rua: nossas hermanas latino-americanas também estão gritando por mais direitos, mais respeito, e menos violência. Essas demandas não são novas—movimentos feministas articulados existem no continente desde, pelo menos, os anos 1960,  e em muitos casos desempenharam inclusive um papel importante na luta contra os regimes autoritários da época.[1] Há também iniciativas transnacionais como o Encuentro Feminista Latinoamericano y del Caribe, que desde 1981 promove eventos bi-anuais para discutir a situação da mulher nos vários países da região.[2] Ainda assim, é possível falar em uma primavera feminista latino-americana. O que distingue o momento atual das décadas anteriores é a sincronicidade entre manifestações feministas de massa ao redor da América Latina e o fato de responderem a casos específicos de violência contra a mulher. Para que isso fique mais claro, vejamos abaixo um resumo das causas que têm nos levado a protestar.

 Por que vamos às ruas?

*Estupro e outras formas de assédio sexual. Os dados são reveladores—e chocantes. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (9ª edição, outubro 2015), a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Casos recentes e horripilantes de estupros coletivos deixaram essa realidade ainda mais escancarada.  No México, em média 40 mulheres sofrem abuso sexual por dia, e no Peru as autoridades chegam a registrar 53 denúncias diárias de crimes de violência sexual contra mulheres. Números como estes é que nos levam a falar de uma cultura do estupro no continente; isso quer dizer que atentados sexuais de gênero estão tão disseminados que fazem parte da realidade diária de milhares de mulheres, de Tijuana à Ushuaia. Toda mulher latina sabe que se sair de casa com um vestido em um dia quente de verão, vai ouvir pelo menos um assobio. Como sabe que, mesmo encapuzada em um dia frio de inverno, pode ouvir isso, ou mais. Relatos de assédios os mais variados abundam na rede, e ficaram ainda mais visíveis depois de campanhas como #meuprimeiroassédio (em Português) / #miprimeracoso (em Espanhol). E, francamente, nós estamos cansadas. Nós queremos liberdade plena para usar a roupa que quisermos sem que isso seja visto como um convite para cada membro do sexo oposto fazer um “elogio”, um comentário, ou dar aquela olhada que te deixa com a sensação de estar sendo observada em um raio-x. Não queremos que o decote da nossa blusa ou o tamanho da nossa saia levem a culpa se somos estupradas. Queremos poder ocupar os espaços públicos (as praças, os parques, os centros comunitários, os museus, O BUSÃO) sem ter medo de que nossa mera presença nestes lugares coloque nossa integridade ou nossa vida em risco. Queremos que o nosso “não” seja ouvido e respeitado.

*Feminicídio. Pra falar curto e grosso: nós vamos às ruas por que estão nos matando. No ano passado, na Argentina, após uma adolescente ter sido espancada até à morte pelo namorado e enterrada no quintal com a ajuda da família dele, milhares de pessoas saíram em marcha pelas ruas de Buenos Aires para denunciar o feminicídio no país. Segundo dados de uma ONG local, o país tinha registrado 277 casos de feminicídio no ano anterior ao protesto (2014). O movimento realizou nova passeata este ano, e a hashtag “Ni Uma Menos” teve repercussão no Chile, no Uruguai, e no Peru. No México, onde os dados sobre feminicídio são dos piores no mundo, multidões se uniram via redes sociais, com a hastag “Vivas Nos Queremos”, e tomaram as ruas no último 24 de abril para protestar contra o crime de gênero.

*Impunidade. Outro motivo pelo qual temos ocupado as ruas é que nossas denúncias não dão resultado. Superada a dificuldade tremenda que é reportar um crime de gênero (por vergonha, por falta de apoio, ou por falta de meios apropriados para tal), os resultados não são encorajadores: dos casos de violência sexual denunciados no Peru em 2011, 90% tiveram como resultado a absolvição do réu. Vou repetir: NOVENTA POR CENTO DOS CASOS DE VIOLÊNCIA SEXUAL DENUNCIADOS NÃO RESULTARAM EM PUNIÇÃO. As mexicanas que sofrem abusos sexuais também têm bastante dificuldade em ver suas denúncias como efetivas, já que, pelo menos até 2014, 26 entidades do país não puniam com a seriedade devida os crimes dessa natureza.

*Aborto. É inacreditável, mas em pleno 2016 o aborto ainda não é permitido na quase totalidade dos países latino-americanos. Com exceção do Uruguai, onde as mulheres podem decidir interromper a gravidez até a 12ª semana da gestação, e Cuba, primeiro a descriminalizar a prática (1979), via de regra as leis variam de limitadas (caso do Brasil e Argentina, por exemplo, onde até o momento o aborto é legalizado em casos de estupro ou de riscos à vida da gestante[3]) à bastante limitadas (como no Paraguai, onde o aborto apenas é permitido em caso de grave risco à saúde da gestante) ou até mesmo inexistentes (como no Chile, onde a prática ainda está totalmente proibida). Para além dos riscos que essas restrições impõem à saúde da mulher, já que a opção passa a ser  aborto ilegal e inseguro, o aborto legal é uma das bandeiras mais fortes do feminismo porque traz no seu cerne um dos pilares do movimento: o direito de escolher o próprio destino.

 Como estamos nos mobilizando?

Eu sei, o cenário é assustador. A realidade bruta é de deixar qualquer uma sem esperança, descrente na humanidade, revoltada, frustrada, com a dupla sensação de impotência e medo. Mas não precisa ser assim! Como eu disse antes, há um número cada vez maior de mulheres levantando a voz, expressando esses sentimentos, e se mobilizando. As mídias digitais têm sido um diferencial importante com relação aos movimentos anteriores. Hashtags, blogs, e outros fóruns na rede permitem que várias gerações de mulheres se articulem independente de uma estrutura fixa. Assim, feministas de carteirinha e jovens que nunca antes participaram de uma associação formal podem facilmente organizar passeatas, marchas, intervenções e abaixo-assinados.

Além das ruas, temos também ocupado outros espaços, como a imprensa, para que nossas vozes sejam ouvidas. Há poucos meses atrás, as peruanas se mobilizaram para deixar claro que as esterilizações forçadas de mais de 300 mil mulheres pelo governo do Fujimori não serão página virada da história, e a voz delas alcançou o mundo depois que o texto lindo da edição em Espanhol do NY Times foi traduzido. Revistas digitais como a mexicana La Que Arde, e blogs como o #AgoraÉQueSãoElas e esse nosso Cientistas Feministas também são uma ótima estratégia para ressaltar nossas demandas e oferecer uma perspectiva feminina e feminista sobre temas variados. Campanhas de consicentização que visam educar sobre questões de gênero e extirpar o machismo também vieram à tona nos últimos tempos, como o Chega de Fiu Fiu e o Guia Didático para o carnaval.

Em suma, se a realidade ainda é dura, uma coisa é certa: nós não vamos mais tolerar. As mulheres da América Latina dizem: Basta! E com isso semeamos essa primavera feminista, cujo resultado não serão apenas flores, mas mais direitos, igualdade, e respeito.

Notas

[1] Para o caso brasileiro, veja-se: SARTI, Cynthia A. “Feminismo e contexto: lições do caso brasileiro.” Cad. Pagu, Campinas, n. 16, p. 31-48, 2001. Disponível em http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332001000100003 Último acesso em 15 de set. 2016.

[2] Uma boa síntese dos primeiros anos do Encuentro pode ser vista em: STERNBACH, Nancy Saporta, Navarro-Aranguren Marysa, Chuchryk Patricia, and Alvarez Sonia E. “Feminisms in Latin America: From Bogotá to San Bernardo.” Signs vol. 17, n. 2, p. 393-434, 1992. http://www.jstor.org.proxy.library.vanderbilt.edu/stable/3174469. A 14 ª edição do evento deve ocorrer em novembro de 2017, no Uruguai. Mais detalhes na página do grupo no Facebook: https://www.facebook.com/14EFLACUruguay/

[3] No Brasil, além dessas duas exceções, a prática também é permitida no caso de má formação cerebral do feto, o que não ocorre na Argentina.

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Nós, que resolvemos falar

O machismo é naturalizado. A violência é diária e se manifesta de diversas maneiras.
Cada uma de nós têm uma história que não queremos contar

Deitada no sofá em um dia quente, eu tentava me encolher e esquecer tudo aquilo que tinha acontecido horas antes. Segurava o choro e pensava calada “não foi nada, você também pediu por isso”, afinal, ele era o bonitão do colégio, mais velho e qualquer menina teria gostado de ficar com ele. Só que eu não sentia a euforia do beijo, nem o frio na barriga, ou o calor nas bochechas. Na verdade, era o oposto de tudo isso. Era um misto de vergonha, culpa e pesar. Eu não sabia o que tinha acontecido direito, então me calei.

Deitada no sofá em um dia frio, eu lembrei desse episódio. Hoje, sei o que aconteceu comigo, e não comporto mais o sentimento de culpa, e também não acho que a garota de anos atrás era burra. Sinto-me mais uma vítima, agarrada a uma sociedade naturalizada do machismo, patriarcal, e que me obrigou a ter os sentimentos do passado. Não mais. Escrevo essas palavras de coração aberto, porque fui acolhida por tantas outras garotas que, como eu, foram vítimas e se calaram. E por que nos calamos? Nossa, é muito difícil responder. São tantas coisas… Vergonha? Medo? Culpa? Acho que tudo isso e mais um pouco.

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A cada 11 minutos, um a mulher é estuprada no Brasil. São cerca de 130 abusos por dia. Foto: Nayara Kobori

De acordo com dados divulgados pelo Banco Mundial, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil – o que resulta em 130 estupros todos os dias. E desses números, apenas 10% das mulheres violentadas denunciam o agressor. Isso sem contar os assédios (fiu fiu não é cantada, viu?), as tentativas de silenciamento, a subordinação da mulher pelo homem, etc.

Pois é. Somos todas filhas de Eva, a grande culpada pela desgraça do mundo. As histórias que vocês vão ler a seguir são de mulheres próximas do meu convívio, e que por trás de sorrisos, escondem muitas histórias. O pequeno trecho que relatei no começo do texto é apenas um. Somos muitas. Optei por não divulgar o nome das mulheres, por dois motivos: resguardar o direito dessas meninas (nunca é fácil falar sobre isso), e porque elas representam todas nós. São meninas sem rosto, mas que tem todos os rostos do mundo dentro delas.

Falar sobre mim

“Acho que a coisa mais difícil do mundo é falar sobre mim! Adoro conversar com as meninas e ajudar com tudo o que posso, sempre que posso. Eu tive um relacionamento que durou mais de dois anos, tinha acabado de fazer 15, quando comecei a namorar um rapaz que iria fazer 18 naquele ano. O meu “não” parecia graça para ele – não aceitava. Se mantinha insistente, até eu ceder. Começou com coisas bobas, por assim dizer, como sentar no colo, dar uns amassos mais quentes e tudo mais. Mas, foi evoluindo. Primeiro, houve insistência para masturbação, e eu sempre demonstrei meu desconforto. Eu não queria, mas ele queria. Eu era namorada dele, eu devia fazer isso, porque era o meu papel. Houve um dia em que ele me segurou com força pelos cabelos para que eu fizesse sexo oral nele. Foi aí que eu percebi que tinha muita coisa errada”.

Não vou receber ordens de mulher

 “Aqui no meio rural em que trabalho, eu tenho muita dificuldade às vezes pelo ambiente machista, em liderar e isso prejudica meu desenvolvimento profissional. Cheguei a ter um funcionário que se demitiu porque não aceitava receber ordens de mulher. A esposa desse funcionário veio esbravejando pra mim que só ela dava ordem pra ele (no meio rural, geralmente as famílias moram dentro da propriedade, a gente tem casa para isso). Depois disso, ficou insustentável! Levei o assunto pro meu pai (que é diretor) e o cara se demitiu porque não aceitava que fosse uma mulher a chefe direta dele. Meu pai fica do meu lado quando surge alguma questão assim. Mas, ele é daqueles que analisa a roupa pra não ~dar motivos para termos problemas~”.

Você me deixou muito irritado

“Meu namoro era sim abusivo, mas eu não sabia. Achava que era normal, me habituei à aquela situação. Mas, dentro de mim eu sabia que alguma coisa estava errada. O término foi desastroso. Eu acabei saindo com um cara uma noite só, daí meu ex descobriu. Estávamos em casa, quando eu fui tomar banho e ele mexeu em tudo no meu quarto, e aí soube que eu tinha saído com esse cara. Foi um inferno! Ele destruiu tudo onde colocou a mão e chegou a me bater, fiquei até desnorteada quando a minha irmã – por sorte – chegou e ele, com medo de dar alguma coisa mais errada, foi embora. Ele me perseguiu nas redes sociais por um bom tempo, pra me fazer sentir culpada, e com sucesso! Passei quase um ano me culpando por todo o relacionamento. E essa não foi a primeira vez que ele me agrediu. Houveram duas outras ocasiões em que eu deixei “muito irritado”. Eu simplesmente não sabia o que estava rolando, mas me sentia como se não tivesse valor nenhum. Eu tinha um medo sincero de apontar os erros que ele estava cometendo, por achar que eu o irritava. Então ficava na minha, porque afinal, ele era o único homem que me amaria pra sempre”.

É difícil sair de um relacionamento abusivo

“Eu tive um relacionamento que acabou este ano e durou dois anos e nove meses. Foi um relacionamento extremamente abusivo, mas no inicio eu não percebia isso, porque eu acreditava que certos comportamentos eram normais apesar de horríveis. Isso acontecia porque eu não sabia que merecia ter mais amor e respeito do que eu recebia, era meu segundo namoro e era a primeira vez que aparentemente eu estava sendo correspondida. O que as manas feministas precisam entender é que quem está em um relacionamento abusivo não sai dele rapidamente por diversos motivos. As pessoas pensam que esse tipo de relacionamento é ruim o tempo todo e que são só brigas, lagrimas e sofrimento diário, mas não é exatamente assim. Nele também existe companheirismo, carinho, etc. e é por isso que leva tempo para tomarmos coragem e sair, leva tempo para colocar na balança e perceber que presentes, flores, desculpas, ajuda na limpeza de casa, caronas para o médico não justificam mentiras, xingamentos, sexo não consensual, gaslighting, proibição de uso de roupa, proibição de ter amigos e frequentar festas. O pior sentimento que eu nutri nessa relação foi a culpa, tudo o que eu sofria era, porque eu tinha merecido aquilo, era porque eu reclamei, eu vi problema onde não tinha e essas coisas deixam marcas”.

 

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Assédio, o teto de vidro da academia

O silêncio institucional brasileiro na contramão do século 21

No ano em que as feministas dominaram e revolucionaram as redes sociais, um assunto continua tabu: o assédio na academia. De consequências devastadoras para as vítimas – de transtornos psiquiátricos ao suicídio – o tema raramente é abordado no ambiente acadêmico ou fora dele. Falar sobre o assunto significa questionar o status quo das posições de poder e colocar o dedo na ferida das sombrias estruturas da universidade.

Ciberativismo
O ano de 2015 entrou para a história do movimento feminista brasileiro. Chamada por muitos de “a primavera feminista”, o movimento gerou debates, criou “hashtags”, discutiu polêmicas e permitiu denúncias. As redes sociais foram as ferramentas encontradas pelas feministas para falar sobre a rotina de ser mulher em uma sociedade machista e patriarcal. A primeira campanha de impacto foi a “Chega de fiu-fiu”, da página feminista Think Olga, criada em 2013 para combater o assédio sexual em espaços públicos. Fez tanto sucesso que gerou uma pesquisa online sobre a percepção das mulheres em relação às cantadas de rua. Foram quase 8 mil participantes, das quais 98% relataram já ter sofrido assédio na rua e 33% no trabalho. Dessas, 13% receberam cantadas de um superior, 21% de um colega e 9% de outros funcionários. Em 2015 a página lançou a hashtag “primeiro assédio” após comentários sexualizando uma participante de 12 anos em um programa de televisão. A ideia era relatar a primeira vez em que sofreram assédio e totalizou mais de 82 mil entradas. A surpresa ficou por conta da idade das vítimas quando da primeira agressão, em torno dos 9 anos para muitas delas. Logo em seguida a tag “meu amigo secreto” emplacou, onde mulheres falaram sobre práticas machistas de seus cotidianos, muitas vezes aceitas como comportamentos normais pela sociedade.

A palavra assédio remete, imediatamente, a casos ligados à violência física e sexual. No entanto, outro tipo de assédio também ocorre, o assédio moral. Esse tipo de assédio é aquele que coloca sua vítima em situações vexatórias e humilhantes. Quatro comportamentos bastante comuns, mas limitadores, estão diretamente relacionados a essas situações de assédio: o “manterrupting”, o “bropriating”, o “mansplaining” e o “gaslighting”. A primeira significa “homens que interrompem” e é comum em reuniões e palestras, onde um ou mais homens presentes constantemente impedem que uma mulher conclua sua fala. Já a segunda se refere à apropriação, por homens, de ideias previamente apresentadas por mulheres. A terceira, “homens que explicam”, desmerece o conhecimento da mulher, tira sua confiança e autoridade sobre o que fala. Pode tanto servir para explicar de maneira condescendente coisas óbvias, que já são de conhecimento da mulher, como para afirmar que ela está errada a respeito de algo sobre o qual ela está certa e/ou é de sua área de domínio. Por último, e mais grave, o “gaslighting” é a manipulação psicológica, que leva a mulher a acreditar que está enlouquecendo ou que é mentalmente incapaz.

Um dos primeiros estudos sobre assédio a mulheres no mercado de trabalho foi realizado em 1979 por Peggy Crull, pelo Working Women’s Institute. Ele revelou que 63% das vítimas que sofreram assédio sexual exibiram sintomas físicos e 96% apresentaram sintomas de estresse emocional. Entretanto, há relatos históricos que falam de casos em 1908, mas é possível que os casos sejam tão antigos quanto a inserção da mulher no mercado de trabalho. Os pesquisadores Eros DeSouza e Joseph Solberg, em um levantamento sobre assédio nas universidades em 2003, relatam que há consenso entre os pesquisadores sobre as dificuldades em definir assédio e uma metodologia eficiente para levantamento de dados. Além disso, parte das vítimas falham em reconhecer a experiência vivida como tal, mesmo que seja recorrente. Mas também existe consenso de que sintomas físicos e psicológicos se manifestarão, acarretando em prejuízo sociais e profissionais.

O assédio sexual, ao contrário do senso comum, não se limita apenas a casos de violência física e estupro. Ele pode ocorrer por meio de cantadas, contato físico indesejado, piadas machistas e insinuações de caráter sexualizado. Para a psicóloga e doutoranda em psicologia forense Arielle Sagrillo Scarpati, nos dois tipos de assédio o objetivo do agressor é a limitação do espaço e da atuação de sua vítima, atentando contra sua integridade psíquica e/ou física. “Ambos se manifestam de maneira verbal e podem, ou não, vir a evoluir para uma agressão física. Importante destacar, ainda, que as duas formas de assédio podem acontecer de maneira concomitante”, afirma a psicóloga. Completa dizendo que “as agressões levam as vítimas a um estado de silenciamento, com restrição de suas condutas não apenas no ambiente acadêmico, mas também fora dele. A literatura indica o surgimento de quadros diversos, como anorexia e bulimia, ansiedade, transtornos de pânico e sono, depressão, dores crônicas, distúrbios gastrointestinais, problemas com a própria sexualidade e sentimentos de culpa”. A professora, antropóloga e pesquisadora de violência de gênero Hilda Maria Gaspar Pereira afirma que casos mais graves, como estupro e violência física, podem levar ao Transtorno de estresse pós-traumático e até mesmo a pensamentos suicidas, danando gravemente todos os aspectos da vida das vítimas. A advogada especialista em Direito Digital Gisele Truzzi – colaboradora jurídica do Think Olga e sócia-proprietária de Truzzi Advogados – lembra que conforme a definição legal do crime de assédio sexual (artigo 216-A, do Código Penal), é possível configurar o assédio na relação professor-aluna, pois há certa superioridade no tratamento e as medidas legais são cabíveis nesses casos. Continuar lendo

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Mulheres cientistas: O que acontece na torre de marfim?


Alerta de conteúdo: assédio moral, assédio sexual, violência psicológica.


Se falarmos em tempo de formação, temos uma média de 10 anos entre o início da graduação e a obtenção do diploma de doutorado. Se falarmos no tempo entre a titulação e um emprego permanente, temos uns 5 anos, no mínimo. Um pouco menos para uns e alguns anos a mais para outros. Quem faz pesquisa em universidades tem que lidar com o malabarismo entre horas em sala de aula e horas dedicadas ao laboratório/investigação científica.

No Brasil, a grande demanda por doutores nos dá o dobro de postos de trabalho em comparação com EUA e países europeus. Em números, significa que temos 1 vaga permanente na academia para cada 6 doutores, enquanto EUA e Europa têm 1 vaga para cada 12. De acordo com o censo de 2013, o país tem 171.063 doutores, 1 doutor para cada 1.171 habitantes… Destes, 37,7% seguem a carreira acadêmica, uma profissão extremamente competitiva que exige algo semelhante a devoção por parte de seus aspirantes: menos que a metade será empregada em cargos permanentes.

Existe uma tradição nefasta dentro da academia de selecionar cientistas com base na pressão que conseguem aguentar durante a trajetória profissional: pressão por publicar, por empregos instáveis e incertos, pelas longas cargas horárias, etc. Recentemente, muitos jovens profissionais começaram a denunciar a debilidade mental e emocional que sofrem dentro das universidade e centros de pesquisa. Estudos mostram que a depressão no ambiente acadêmico é consideravelmente maior quando comparada com sua frequência na população em geral.

Além dos transtornos psicológicos, outros fatores podem influenciar a vida acadêmica. Afora a qualidade, muitas vezes o trabalho estará sujeito a sofrer vieses, preconceitos, por conta da universidade, do país e/ou da nacionalidade dx cientista. Esses vieses aumentam ou diminuem a visibilidade e credibilidade entre uma pesquisa de Cambridge/UK e outra da USP/SP, por exemplo. Questões desse tipo aparecem com frequência e transcendem o duo qualidade/relevância do trabalho que estamos apresentando, podendo inclusive flertar com racismo, xenofobia, regionalismo, eurocentrismo, por aí vai…

E, assim, construímos um pequeno panorama do porquê a carreira científica é tão difícil, independente do gênero dx cientista. A partir daqui poderíamos discutir maneiras de lidar com esse cenário, políticas públicas de fomento e popularização da ciência: do gabinete da presidência ao ensino fundamental, valorizar a ciência dentro das nossas casas e na Casa Civil. Poderíamos, por conseguinte, começar a discutir porquê investir em ciência é importante em todos os países, desenvolvidos ou em desenvolvimento.

E as mulheres? O que a questão de gênero tem a ver com tudo o que foi escrito até agora?

Nada.

Até então, eu escrevi como cientista. Principalmente, escrevi como se não houvesse desigualdade de gênero na ciência ou fora dela. Mas há. E ignorar não é uma opção.

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Nem todas as consequências causadas por discriminação de gênero estão analisadas e publicadas, infelizmente. O machismo está disseminado socialmente e reflete influências culturais mais do que segregação aberta e deliberada. Todo o conhecimento produzido ainda não libertou a torre de marfim do machismo e, em verdade, ela é um dos seus mais fortes e influentes perpetuadores. Sejam ações conscientes ou inconscientes, sutis ou explícitas, a carreira de uma cientista está constantemente sujeita à ataques e provações devido a sua condição de mulher dentro do organismo estruturalmente machista da academia.

Raras são as vezes que os casos de assédio moral e sexual são registrados e trazidos a público, em grande parte porque a vítima não encontra suporte para denúncia dentro da universidade, centro de pesquisa, etc. O processo burocrático não garante o anonimato da vítima, e questões hierárquicas podem expô-la ainda mais, sendo mais “fácil” optarem pelo silêncio. Essa configuração contribui para que muitos pensem que os problemas de gênero não existem ou não são tão graves.

Atentados contra a integridade física e mental de mulheres cientistas costumam ser desprezados por serem considerados irrelevantes ou apenas brincadeiras. Esse julgamento, entretanto, é executado pelo ofensor e por terceiros, criando uma estrutura na qual a vítima é condicionada a ignorar ou forçada a se calar. Vale lembrar que um simples comentário que faz alusão a esteriótipos de gênero pode diminuir a capacidade cognitiva a curto prazo [fonte, fonte ou divulgação]. O que dizer, então, da repetição sistemática de ofensas e das consequências do assédio moral durante anos?

Apesar da enorme importância em tratar do assédio sexual e moral no ambiente de trabalho, há uma relutância ou uma negação crônica da existência do problema por parte das lideranças científicas. A falta de levantamentos estatísticos do ambiente de trabalho acadêmico no Brasil ajuda a reforçar a falsa ideia de que não existem problemas. É como se nesses ambientes, ainda predominantemente masculinos, não houvesse nenhum caso de assédio ou fossem eventos singulares.

Para romper com esse paradigma, um grupo de jovens cientistas decidiu, em comemoração ao dia internacional da mulher, em 2015, realizar o primeiro levantamento de dados sobre a qualidade do ambiente de trabalho na astronomia do país, L.A.C.A.N. O levantamento contou com a participação de mais de uma centena de astrônomxs1 e tem como um dos seus objetivos trazer o debate sobre assédio moral e sexual para as universidades e centros de pesquisa, porém, com provas incontestáveis de existência de assédio.


1 A pesquisa alcançou em torno de 600 cientistas associadxs à Sociedade Brasileira de Astronomia, a qual apoiou o levantamento.


Os resultados sobre assédio moral são alarmantes tantos para homens quanto para mulheres. Mais de 76% das mulheres astrônomas e 64% dos homens relataram terem sofrido assédio moral. E, no caso de assédio sexual, fica evidente a vulnerabilidade das cientistas no ambiente acadêmico: 36% das mulheres contra 8% dos homens declaram terem sido vítimas de assédio sexual na carreira. Os números são ainda mais graves conforme a progressão funcional das astrônomas: 44% das pós-doutorandas sofreram assédio sexual e, de acordo com alguns relatos, as vítimas enfrentam, além de situações de isolamento e difamação por parte do ofensor, quadros de depressão e desestabilização emocional. Algumas, inclusive, abandonaram a carreira em decorrência dos assédios.

Diante desse quadro, podemos especular sobre as causas de algumas das famosas estatísticas elaboradas sobre as cientistas no ambiente de trabalho. Além de todas as dificuldades que qualquer cientista encontra durante a carreira, temos embasadas pesquisas mostrando que as mulheres têm menos chances de:

  • serem contratadas por instituições científicas [fonte];

  • serem escolhidas para realizar projetos ligados às ciências exatas [fonte];

  • de terem artigos científicos considerados de alta qualidade [fonte].

Em linhas gerais, os três estudos realizados submeteram o mesmo currículo (ou o mesmo artigo científico) a apreciação de outrxs cientistas, e o efeito de trocar o nome dx canditatx a vaga (ou a autoria do artigo) de “John” para “Jennifer” diminuiu o salário oferecido, as chances de emprego e a importância do artigo. Mais grave que isso é que tanto os cientistas quanto as cientistas tenderam a subestimar o trabalho de outras pesquisadoras. Infelizmente, ser vítima do machismo não exime aquele que sofre de dar continuidade à discriminação.

Além disso, em média, um cientista tem 45% mais artigos do que uma cientista [fontee eles têm o dobro de artigos como únicos autores. Os motivos variam desde o fato de termos mais homens como chefes de projetos/laboratórios/departamentos (o que muitas vezes garante a autoria em artigos de outros cientistas, para os quais eles proveram a verba e os recursos2), até situações nas quais as contribuições das cientistas são simplesmente ignoradas. Não é incomum homens serem incluídos como autores por conta de parcerias em outros trabalhos, por exemplo, enquanto mulheres são excluídas da autoria, apesar de contribuírem com ideias, a escrita ou análise de dados.


2 Caberia aqui discutir as implicações éticas dessa barganha acadêmica. No entanto, vamos deixar para uma próxima oportunidade.


Veja, a questão aqui não é discutir se há casos de mulheres com autoria fraudulenta ou homens com trabalhos roubados. A questão é apontar para casos estatisticamente mais prováveis e dar exemplos dessas situações nas quais o viés de gênero tem impacto muito mais negativo para uns do que para outros. Como, lamentavelmente, é o caso para as mulheres.

Continuando a analisar a autoria de artigos, as cientistas têm muito menos menos colaboradores e têm um papel menos central quando olhamos o panorama de pessoas publicando artigos científicos. Esse isolamento tem um forte impacto porque a carreira científica é, de modo geral, extremamente nepótica [fonte], principalmente nos estágios da carreira onde os contratos são feitos com base na avaliação de pares (peer-review).

Mas — você leitorx pode perguntar – por quais situações uma cientista passa? O que, de fato, acontece dentro dos laboratórios, salas de aula e durante reuniões?

Aqui eu vou pedir licença e contar alguns dos muitos casos que encontrei na carreira, sejam os que sofri ou que presenciei ou relatos que me foram contados e que não se restringem à minha área de atuação, mas a várias carreiras acadêmicas. Apesar de não haver qualquer tratamento estatístico sobre os mesmos, eles repetem-se, seja porque o ofensor é reincidente ou porque a mesma situação já se passou com outras mulheres em outras instituições.

Relato #1: Durante aulas num curso técnico, a aluna A sofreu assédio sexual de um professor. Ele comentava sobre sua aparência, alisava seus cabelos e braços na frente de toda a turma, que ria. O seu comportamento era conhecido por todxs xs professores do departamento, e várias outras alunas já haviam passado pela mesma situação.

Relato #2: Em todas as reuniões, a aluna B ouvia comentários brincalhões do seu supervisor sobre como ela era intelectualmente inferior aos outros alunos homens.

Relato #3: Após sofrer assédio sexual durante uma aula de graduação, a aluna C tomou conhecimento através de outro aluno que era normal que ela tivesse relações sexuais com o professor para assegurar boas notas à classe. A situação já havia sido imposta às alunas de outros períodos, com a intimidação partindo dxs colegas de turma.

Relato #4: Todas as ideias científicas que a aluna/cientista D expôs foram descredibilizadas pelo seu supervisor e posteriormente apresentadas como sendo de autoria dele.

Relato #5: Oferta de emprego negada porque a candidata era recém-casada e, por isso, poderia engravidar.

Relato #6: Durante reunião, a cientista E foi silenciada por estar, supostamente, no período pré-menstrual.

Relato #7: O professor Y negou disponibilizar material para a sua aula enquanto a aluna H não aceitasse ir a sua casa.

Relato #8: Enquanto negava ter atitudes preconceituosas contra mulheres, um pesquisador justificou que há poucas mulheres na ciência porque elas têm menos capacidade intelectual que os homens, biologicamente. As mulheres cientistas são exceções por serem as poucas com inteligência comparável a de outros homens…

Relato #09: Durante reunião de grupo, um estudante, enquanto apresentava seus resultados, foi incentivado pelo seu supervisor a ignorar e menosprezar os comentários da cientista presente. As mesmas retificações, quando apresentadas por outro cientista, homem, durante a mesma reunião, foram consideradas pertinentes.

Relato #10: Em uma reunião de um conselho científico, o diretor afirmou que não é mais necessária a ação afirmativa em pró aumento da participação de mulheres na ciência porque já existem muitas. Na presente reunião haviam quinze cientistas seniores homens e três mulheres: uma estudante, uma cientista e uma secretária.

A questão do assédio sexual é usualmente banalizada alegando-se que tanto homens quanto mulheres podem ser ofensores sexuais. Sob a luz da desigualdade de gênero, contudo, as duas situações não são equiparáveis. Sejam por questões de poder ou hierarquia, uma aluna sempre se encontrará numa situação muito mais vulnerável que um professor. Além do mais, conforme as estatísticas do grupo de astronomia, para cada homem assediado sexualmente, cinco mulheres são assediadas, o que significa que o grupo estatisticamente mais suscetível a sofrer assédio sexual são as mulheres.

A falta de mecanismos de denúncia, a reincidência dos ofensores e a omissão das lideranças científicas criam um ambiente de opressão para as vítimas de assédios moral e sexual. Ao desconsiderar ou desprezar políticas de prevenção e punição contra abusos, as universidade e centros de pesquisa acabam por acobertar os ofensores, numa nuvem de cumplicidade e ignorância, que projeta toda a incompetência dessas instituições ao enfrentar questões de gênero de maneira clara e ética. Enquanto não conseguirmos convencer a academia sobre o quão fundamental é garantir proteção às vítimas de abuso, pouco poderá ser feito para acabar com a discriminação de gênero encravada culturalmente na mente e nos hábitos dxs cientistas. Entender a urgência desses assuntos é crucial para um ambiente científico verdadeiramente livre de preconceitos.

Existe também quem tente descaracterizar a busca pela igualdade de gênero ao enumerar exemplos de mulheres bem sucedidas na academia. O argumento de aumentar o empenho intelectual com forma de ignorar as discriminações, as humilhações e os assédios sofridos apoia ainda mais a disparidade de oportunidades: para mulheres triunfarem em ambientes predominantemente masculinos, elas precisam ser mais competentes, mais resilientes, mais competitivas, mais inteligentes, mais independentes e emocionalmente indestrutíveis. A ciência é colaborativa: é necessário o trabalho de uma centena de homens comuns para que um gênio realize proezas. E enquanto é dado aos homens o direito de serem ordinários, a academia só aceita mulheres excepcionais.


Agradecimento especial para NM, CB, VP e Mme Curie que leram e releram dedicadamente o manuscrito desse artigo.

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Lois Jenson e a falta de metade da História

Lois Jenson é uma mulher muito importante para se pensar as relações de gênero no ambiente do trabalho. Infelizmente, é extremamente difícil encontrar livros, artigos ou qualquer tipo de fonte confiável que conte a história dessa mulher.

A ideia inicial desse texto era discutir “apenas” a vida e a contribuição de Lois para a questão de gênero nos Estados Unidos, mas com toda a dificuldade de encontrar informações sobre ela fez-se necessário aumentar o escopo do texto para se pensar: por que a história das mulheres não é contada?

Primeiramente, vamos pensar em Lois. Essa mulher inspirou um filme chamado “North Country” (Terra Fria, no Brasil). Tal filme contou um pouco da história dessa mulher que viveu na década de 70, em Minnesota, através de uma personagem fictícia chamada Josey Aimes. A construção da personagem não foi totalmente fiel à história de Lois, já que introduziu outros elementos de discriminação de gênero para criar uma personagem mais dramática. Mesmo assim, manteve o essencial.

Lois foi uma pioneira. Em uma época em que mulheres não eram nada bem vindas para trabalhar nas minas de carvão, ela insistiu em trabalhar com isso já que pagava melhor do que os empregos “de mulher” (veja-se a atualidade disso, já que até hoje os empregos mais precarizados são reservados às mulheres e ainda existem profissões em que mulheres não são bem vindas) e ela precisava sustentar seus filhos sozinha. Era mãe solteira e, por isso, já sofria incontáveis discriminações. Sua situação piorou em 1975, quando começou a trabalhar nesse emprego “de homem”.

Ela suportou um ambiente de trabalho extremamente incômodo até que, em 1988, finalmente ela convenceu suas colegas a entrar com a primeira ação “de classe” (class-action) por assédio sexual nos Estados Unidos. Ela e suas companheiras de trabalho eram alvos constantes de humilhação por parte não só de seus patrões, como também de seus companheiros de trabalho, que não admitiam o fato de estarem dividindo o mesmo ambiente de trabalho com mulheres.

Elas narraram que sofreram stalking (em português, é algo parecido com perseguição), assédio sexual, linguagem imprópria, intimidação, dentre outros abusos, inclusive físicos. O sindicato da classe não quis comprar a briga, já que era liderado por homens que concordavam que mulheres não deveriam se meter em “ambiente de homens”.

O caso ficou conhecido como “Lois E. Jenson vs. Eveleth Taconite Co” e só teve solução 10 anos depois, concedendo indenização para as mulheres. Foi documentado no livro “Class Action”, por Clara Bingham e Laura Leedy Gansler.

Além da história triste, mas de “superação”, que Lois nos mostra, temos outros questionamento a fazer. Falta metade da história para nos ser contada. Falta a metade da história em que são narradas as vidas e os problemas das mulheres. As mulheres são mais da metade da população mundial, por que só ficamos sabendo dos “grandes homens”, “grandes pensadores”, “grandes teóricos”?

Cadê a história das mulheres?

A ciência é masculina, o direito é masculino, a política é masculina… E quem conta a história é quem tem poder para isso. Não é à toa que a história de revoltas operárias também são “apagadas” da história. Classe trabalhadora não tem poder, não pode passar sua faísca de esperança de uma sociedade melhor para seus filhos e filhas. Assim como a população negra.

O livro que conta a história de Lois não está disponível no Brasil. Para se achar alguma fonte confiável sobre a história dessa mulher (veja, o caso foi solucionado em 1998, há não tanto tempo atrás), é necessária uma grande pesquisa. Além de mulher, operária. Quando vamos começar a ouvir e contar a história dos “excluídos” da história?

Bibliografia e referências:

PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Bauru: EDUSC; 2005.

_________.Os excluídos da História: operários, mulheres, prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 4ª.Ed , 1988.

PINSKY, Carla Bassanezi. Estudos de Gênero e História Social. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 17, n. 1, p. 159-189, Abril de 2009. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2009000100009&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em 30.8.15.

REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das letras, 2003.

https://en.wikipedia.org/wiki/Jenson_v._Eveleth_Taconite_Co. (consulta em 3.9.15)

http://www.pstu.org.br/node/6047. (consulta em 3.9.15)

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Crônicas de um congresso

Há um tempo, estive em um congresso acadêmico, como tantos que há por aí. Como em vários desses congressos, após os “trabalhos”, alguns participantes saíram para uma espécie de “happy-hour”. Durante esse “evento social”, um dos participantes do congresso passou a mão na bunda de uma das participantes. Um outro participante começou a conversar com uma quarta participante e, de repente, começou a relatar como seu pênis supostamente seria viril, já que ele é descendente de índios. Esse mesmo participante tentou beijar uma outra acadêmica à força. E não foram apenas essas “ocorrências”. Como também é muito comum em congressos, grande parte dos participantes estava hospedada no mesmo hotel. Então, durante a madrugada, depois que todos já estavam dormindo (ou quase), dois acadêmicos tentaram invadir o quarto de uma de nossas colegas.

Situações como essas não aconteceram excepcionalmente nesse congresso. Relatos de cientistas assediadas por seus colegas em eventos científicos são frequentes. E, assim como também acontece em outras situações de violência, essas mulheres assediadas preferiram não relatar o acontecido à organização. O motivo? Os assediadores, provavelmente, negariam o ocorrido e elas ficariam conhecidas na comunidade acadêmica como espalhadoras de boatos e causadoras de problemas. De fato, um desses assediadores passou o resto da semana indo conversar com cada um dos participantes para dizer-lhes que as cientistas assediadas estavam mentindo. E, em decorrência disso, uma dessas vítimas – que estava em seu primeiro congresso – teve que lidar com a preocupação e a tensão de ser considerada mentirosa pelos colegas.

Esses casos são mais uma expressão do machismo a que as mulheres cientistas estão sujeitas no ambiente acadêmico. Muitos pesquisadores ainda consideram que o corpo de suas colegas está disponível. Acham legítimo assediá-las em um ambiente de trabalho. Afinal, o que estariam fazendo essas mulheres desacompanhadas em cidades e países estranhos? Obviamente estão querendo “se divertir”. Só que não. O que essas mulheres querem é apenas conseguir expor o seu árduo trabalho de anos e serem respeitadas por seus colegas, como iguais, como seres intelectualmente tão capazes como eles.

Esse tipo de assédio torna o ambiente acadêmico ainda mais hostil para as mulheres. Ao longo de sua carreira, as mulheres cientistas já têm que enfrentar os mais diversos obstáculos: insuficiência de creches, dupla jornada, silenciamento, etc. O assédio em eventos agrega mais um item a essa lista. Ademais, frequentemente, as cientistas que são vítimas desses atos começam a questionar a própria qualidade de sua pesquisa: meu trabalho tem valor ou sou só mais um rosto bonitinho no congresso?

Já há algum tempo tenho conversado bastante com colegas em congressos e os relatos são os mesmos. Não importa a nacionalidade, as cientistas já vivenciaram – ou conhecem alguém que vivenciou – situações de assédio em eventos acadêmicos. É por isso que não podemos mais nos calar diante dessas situações. Se algo acontecer, considere a possibilidade de relatar à organização. A exposição da situação de assédio – e até mesmo do assediador – para os participantes do evento pode causar uma situação de constrangimento na comunidade acadêmica, o que talvez seja uma arma eficaz no combate a esse tipo de violência. Além disso, se uma colega vier te relatar um assédio, acredite nela e procure dá-la apoio para denunciar o agressor. Somente juntas conseguiremos tornar o ambiente menos hostil à presença das mulheres cientistas.