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Mulheres e câncer: Tumor de útero

Para auxiliar na divulgação de informação sobre cânceres em mulheres, publicarei aqui no Cientistas Feministas, textos que descrevem aspectos gerais de câncer de ovário, corpo do útero, mama e colo do útero, este último conhecido também como câncer cervical. O primeiro texto sobre tumor de ovário você pode acessar aqui.

Como o mês de setembro é o mês de conscientização do câncer de corpo de útero, ou câncer de útero, para simplificar, abordarei aspectos gerais sobre esta enfermidade e tratamento.

Câncer de útero é proveniente da transformação de células do endométrio que estão localizadas na parte interior do corpo uterino. De acordo com dados do Instituto Nacional do câncer (INCA), este é o sexto tipo de tumor mais comum, sendo mais frequente em mulheres da região Sudeste. Diferentemente do câncer de ovário, que tem uma taxa de letalidade mais elevada, o tumor de útero não é tão agressivo. Em geral, a taxa de sobrevida é em torno de 80% e esta taxa vai depender da agressividade do tumor 1-2.

A agressividade está relacionada ao tipo de tumor de útero que pode ser classificado em dois tipos: 1) endometrioides: são os mais comuns e de caráter não agressivo e portanto com bom prognóstico e 2) não endometrioides: são mais agressivos, com mais chances de recorrência e com prognóstico ruim. A taxa de sobrevida de 5 anos para o primeiro é 85%, enquanto, para o segundo cai para 55%. Mulheres afrodescendentes têm maior probabilidade de desenvolver tumores de características não endometrioides 3.

Sintomas, diagnóstico e triagem

Geralmente, as mulheres afetadas apresentam-se no período pós-menopausa (50-60 anos) e somente 5% das mulheres com idade inferior aos 40 são diagnosticadas com tumor de útero. Os sintomas mais comuns são: sangramento uterino e corrimento vaginal. A infecção uterina (piometra) também pode estar presente 2-3.

Em estágios mais avançados, há similaridade com sintomas encontrados em pacientes com câncer de ovário, uma vez que ambas condições podem apresentar distensão e dor abdominal 2. O diagnóstico se dá pelo histórico da paciente mais informações provenientes de exames como ultrassom e biopsia, sendo que esta última técnica é que vai confirmar o diagnóstico da doença. Para avaliar a detecção de metástases nas estruturas da cavidade abdominal como linfonodos, utiliza-se métodos como ressonância magnética e tomografia 2-3. Mulheres que apresentam quadro de obesidade devem ser alertadas pelo fato de possuírem um risco maior de serem diagnosticadas com câncer de útero 2. Além disso, mulheres portadoras da síndrome de Lynch ou câncer hereditário de intestino, também tem riscos aumentados. Infelizmente, não há métodos eficientes para a identificação precoce deste tumor. O melhor método seria a biopsia, mas neste caso, não seria muito aceito pelas pacientes, já que é um método invasivo 2.

Tratamento

Para as mulheres que possuem câncer de útero localizado, isto é, não apresentam metástases (55% dos casos), o tratamento é cirúrgico. Na cirurgia são removidos o útero, trompas e ovários. As chances de recorrência para estas pacientes são muito baixas, ao redor de 5%. Quando há detecção de metástases, a taxa de recorrência varia de 20 a 40% 2. Estudos mostram que a radioterapia é eficaz para diminuir a metástases localizadas e não interfere no tempo de sobrevivência das pacientes. Para combater a disseminação a estruturas mais distantes, pesquisadores sugerem a combinação de tratamentos quimioterápicos com a radioterapia 4.

Fatores de risco

Fatores de risco estão conectados a idade precoce da primeira menstruação (menarca), o fato de nunca ter tido filhos (nuliparidade), infertilidade e idade tardia em relação à menopausa 3.

Terapias à base de estrógeno para minimizar os sintomas causados durante a fase de menopausa podem elevar de 2 a 20 vezes a chance da mulher de ser diagnosticada com câncer de útero 3.

É interessante que os índices deste tipo de tumor têm aumentado principalmente em países mais ricos como os Estados Unidos e países da Europa 2-3. Acredita-se que este fato deve estar associado com a taxa crescente de obesidade 2. Sabe-se que o tecido adiposo é responsável por converter andrógeno a estrógeno, e como foi citado acima, aumento de níveis de estrógeno podem aumentar o risco de desenvolvimento desta doença 3. O uso de medicamentos reguladores negativos da via de estrógeno como Tamoxifeno, utilizado para o tratamento de alguns tipos de cânceres de mama, exercem um efeito estimulador nas células endometriais e isso aumenta as chances de incidência de câncer de útero em 6-8 vezes 3. Embora, haja indícios da conexão com diabetes, estudos mostram resultados controversos 2-3.

Futuro

Como os Estados Unidos, o Brasil também apresenta um aumento na taxa de obesidade e o controle deste número pode definir a incidência do câncer de útero na população brasileira.

Embora o câncer de útero não seja agressivo para a maioria das pacientes, e exista tratamento eficaz, muitas mulheres morrem devido a progressão da doença. Até então, não há nenhum tratamento novo aprovado. Há vários testes clínicos que estão sendo feitos para determinar o efeito de imunoterapias no aumento da sobrevida daqueles pacientes com mais chance de recorrência 2. Vamos aguardar e torcer.

Referências

  1. Estimativa 2016 Incidência de Câncer no Brasil. Ministério da Saúde. http://www.inca.gov.br/estimativa/2016/estimativa-2016-v11.pdf
  2. Morice P, Leary A, Creutzberg C, Abu-Rustum N, Darai E. Endometrial cancer. Lancet. 2016;387(10023):1094-1108.
  3. Burke WM, Orr J, Leitao MS, Emery, Gehrig P, Olawaiye AB, Brewer M, Boruta D, Villella J, Herzog T, Abu SF.Endometrial cancer: A review and current management strategies: Part I. Gynecol. Oncol. 134, 385–392 (2014).
  1. Burke WM, Orr J, Leitao MS, Emery, Gehrig P, Olawaiye AB, Brewer M, Boruta D, Villella J, Herzog T, Abu SF. Endometrial cancer: A review and current management strategies: Part IIGynecol. Oncol. 134, 393–402 (2014).

 

 

 

 

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O “ecossistema” que nos habita

Os organismos se inter-relacionam a todo momento, procurando sobreviver e perpetuar as espécies. Assim como dependemos das plantas para produção de oxigênio e para a alimentação, os animais também podem ser fonte de sobrevivência de outros organismos. Dessa maneira, microrganismos e até outros animais podem residir e se multiplicar nos mais diversos ambientes, como nos pelos de um cachorro, na probóscide de um pernilongo, entre outros milhares de exemplos. No caso dos seres humanos, a microbiota é o conjunto de comunidades de microrganismos que habitam nosso corpo, por exemplo a pele, o sistema reprodutor e o trato gastrointestinal. Mais especificamente, a microbiota intestinal é a residente no nosso intestino, e que desempenha papel fundamental no metabolismo, sistema imune (atuando como antígenos e “exercitando” a resposta imune) e saúde dos seres humanos. Dessa maneira, uma microbiota “benéfica” pode promover melhorias na saúde do hospedeiro, enquanto uma microbiota “maléfica” pode levar a diversas desordens e doenças. A microbiota intestinal é influenciada principalmente pela alimentação, assim uma alimentação equilibrada pode aumentar as comunidades “benéficas” e gerar melhorias na saúde do hospedeiro.
Muitos estudos ainda são necessários para dimensionar a influência dessa relação, visto que o conhecimento das espécies que habitam nosso intestino permaneceu restrito por muitas décadas, devido a limitações de metodologia que impedem recriar as condições ideais para os microrganismos sobreviverem fora do ambiente intestinal. Alguns avanços recentes permitiram ampliar nosso conhecimento sobre essas espécies, que podem ser agrupadas nos seguintes grupos:

1) Bactérias: encontradas em grande quantidade no intestino humano, em um número de 10¹² células por grama de fezes, utilizam os nutrientes de nossa dieta como substrato para suas vias metabólicas. Os produtos desse metabolismo podem influenciar a saúde geral do organismo;

2) Archaea: esses organismos, que pertencem ao terceiro domínio taxonômico denominado Archaea (os outros domínios são: Eubacteria e Eukaria), eram geralmente encontrados em ambientes com condições ambientais de pH e temperatura extremas. Descobertas recentes mostram que esses organismos também fazem parte da diversidade da microbiota intestinal, podendo atingir até 1010 células por grama de fezes. Esses microrganismos são responsáveis pela produção de metano, um gás que é componente essencial para manter o “ecossistema” intestinal em condições ideais para a sobrevivência da microbiota;

3) Vírus: podem interagir com o “ecossistema” intestinal, influenciando a digestão dos alimentos, além de agir ativamente na saúde do hospedeiro, prevenindo a invasão de patógenos. Também estão relacionados com doenças como a gastroenterite;

4) Fungos: a comunidade de fungos residente no intestino é bem reduzida, entretanto algumas espécies residentes da microbiota podem desencadear doenças no hospedeiro, como em condições de vulnerabilidade imunológica. Além disso, um grande número de espécies encontrado tem origem nos alimentos que ingerimos, e o papel dos fungos permanece pouco elucidado;

5) Helmintos e protozoários: estão associados a casos de doenças e causam infecção em milhões de pessoas mundialmente, especialmente em locais com condições precárias de saneamento básico.

O equilíbrio entre as espécies “benéficas” e “maléficas” é fundamental para o bem estar do hospedeiro. Hábitos pouco saudáveis, como má alimentação, ingestão de álcool e tabagismo podem gerar desequilíbrio, favorecendo o crescimento das comunidades “maléficas” e consequentemente o desenvolvimento de doenças. Por outro lado, hábitos saudáveis e alguns alimentos favorecem o crescimento das comunidades “benéficas”. Um exemplo é o butirato, metabólito produzido a partir da fermentação bacteriana de fibras insolúveis provenientes da alimentação e que possui propriedades anti-inflamatórias e anti-carcinogênicas. Avanços nos estudos irão expandir o conhecimento científico acerca da microbiota intestinal, podendo mostrar como esses microrganismos atuam na nossa saúde, permitindo até que a modulação da microbiota seja uma técnica terapêutica promissora.

Referência:
2016, Hugon, P. et al. Repertoire of human gut microbes, Microbial Pathogenesis

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10 anos de Lei Maria da Penha: Garantir direitos, barrar retrocessos.

O problema da violência contra as mulheres já vem sendo enfrentado, em diferentes arenas e instâncias, há bastante tempo. Em nível internacional, data de 1979 a primeira convenção que abordou a temática, a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW). Outras importantes convenções e tratados como a Conferência de Viena (1993), a Convenção de Belém do Pará (1994) e a Conferência de Pequim (1995), abordaram a questão da violência contra as mulheres e as ações recomendadas aos países signatários para lidarem com este problema de forma específica (PANDJIARJIAN, 2006).

No Brasil, após muitas lutas dos movimentos feministas e de mulheres e a criação de instituições especializadas de enfrentamento à violência contra as mulheres (como as delegacias especializadas, por exemplo), é somente em 7 de agosto de 2006 que há a promulgação de uma legislação específica para o tratamento destes casos. A Lei de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, n° 11.340/06, mais conhecida como Lei Maria da Penha, completou 10 anos de promulgação este ano. A Lei Maria da Penha pode ser considerada como o ápice do ciclo de elaboração e implementação de políticas públicas de enfrentamento da violência contra as mulheres no Brasil. A referida Lei criou mecanismos para prevenir, punir e erradicar as violências contra as mulheres e previu que existissem equipes multidisciplinares para que as mulheres que vivenciam tais violências recebessem atendimento adequado.

Há também, com base em acordos internacionais assinados pelo Brasil (como a Convenção de Belém do Pará), a tipificação das violências vivenciadas pelas mulheres em física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Além da tipificação das violências, a Lei avançou ao definir em seu Artigo 5º “violência doméstica e familiar contra a mulher” como “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe causa morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial” (BRASIL, 2006).

Tal lei foi pensada a partir de propostas e ações públicas – estatais e não estatais – embasadas em três premissas: a) intersetorialidade, que pressupõe um planejamento comum desde a elaboração das políticas públicas até sua implementação, com definição de responsabilidades compartilhadas por uma miríade de instituições estatais e não estatais; b) transversalidade, assumindo que o enfrentamento às desigualdades de gênero demanda a integração entre políticas já existentes; e c) capilaridade, englobando todos os níveis de governo e também os órgãos pertencentes a cada nível – federal, estadual, municipal (PASINATO, 2011), além da sociedade civil organizada.

Entre as inovações apresentadas pela Lei Maria da Penha ao sistema de justiça brasileiro[1], observa-se a categorização das violências contra as mulheres como crime que estabeleceu que o Estado é responsável para tratar de tal problema. Além disso, a lei define e tipifica a violência contra as mulheres como ações ou omissões baseadas na violência de gênero, bem como a impossibilidade de punição dos agressores com penas pecuniárias (multas e cestas básicas) (BRASIL, 2006). Esta é, ao meu ver, uma das inovações mais importantes da Lei Maria da Penha. Isto porque a legislação anterior não tratava as violências contra as mulheres com base no gênero. Muito pelo contrário, as tratava como “um crime de menor potencial ofensivo” e a fiança, comumente, era o pagamento de cestas básicas e outros mecanismos considerados, por muitas, como formas de autorizar ainda mais as violências contra as mulheres (SAFFIOTI, 2004).

Com a promulgação da Lei Maria da Penha, vieram à tona resistências que conviviam com uma possível “autorização” e naturalização históricas da violência doméstica e familiar contra as mulheres, que reiteravam e reforçavam as relações de dominação características de um sistema patriarcal (BRASÍLIA, 2012: 7). Magistrados começaram a se pronunciar, de forma pública, a respeito de sua inconstitucionalidade. Dois anos após sua promulgação, em 2008, o juiz Marcelo Colombelli, da 2ª Vara Criminal de Erexim, no Rio Grande do Sul, afirmou que a melhor forma que as mulheres podem usar para se defender da violência que vivenciam é não se relacionarem com homens “bagaceiros” e “pudim de cachaça”, colocando, desta forma, a culpa da violência sobre as mulheres. Já no ano de 2010, o juiz Edilson Rumbelsperger Rodrigues foi afastado por dois anos da comarca de Sete Lagoas (MG) após declarações discriminatórias contra a Lei Maria da Penha. Rodrigues atacou a lei em algumas sentenças, classificando-a como um “conjunto de regras diabólicas”. Ainda segundo o juiz, a “desgraça humana” teria começado por causa da mulher (PASINATO, 2007, p. 5-6; MATOS, 2011; SARMENTO, 2013, p. 146).

Em 2012, o Supremo Tribunal Federal julgou a Lei Maria da Penha como pacífica e constitucional, dando passos importantes para o caminho da democratização da justiça brasileira bem como da vida das mulheres. Apesar disso, observa-se, agora na arena do Poder Legislativo brasileiro, proposições de alteração da Lei Maria da Penha que preocupam especialistas e feministas que estiveram envolvidas na elaboração da Lei[2]. Pretende-se aumentar o poder de delegadas(os) para expedição de medidas protetivas, o que, do meu ponto de vista, é um problema menor do que a necessidade eminente e sempre presente de capacitação de todos os agentes que estão envolvidos na implementação da Lei, e não apenas a ampliação de funções das instituições e atores. Por fim, cabe ressaltar o Projeto de Lei 477/15, de autoria do Deputado Eros Biondini (PROS-MG)[3], em tramitação na Câmara dos Deputados. O PL prevê a extinção da categoria “gênero” da Lei Maria da Penha, e, em substituição, a inclusão do termo “sexo”. É importante lembrarmos que ano passado, para aprovação da tipificação penal do feminicídio no Brasil, a mesma só foi aprovada quando retirada a categoria “gênero” do projeto.

Apesar de todos os retrocessos enfrentados, não podemos deixar de mencionar que avançamos. Muitas foram as instituições especializadas criadas para o acolhimento, atendimento e encaminhamento das mulheres em situação de violência. Conferências municipais, regionais, estaduais e nacional foram realizadas com a participação de milhares de mulheres e feministas para a elaboração de propostas para ampliar e aprimorar a política de enfrentamento da violência contra as mulheres no Brasil. Tais conferências tiveram como frutos a formulação dos I, II e III Planos Nacionais de Política para as Mulheres (PNPM), que possuem capítulos específicos para o enfrentamento da violência contra as mulheres.

A grande abrangência das temáticas que estão contidas nos três PNPMs, em especial no terceiro, demonstra o aprendizado das organizações feministas e de mulheres em torno do significado do que são os direitos humanos das mulheres. Segundo Barsted (2011, p. 14), houve a capacidade de compreender que os direitos humanos das mulheres são indivisíveis e que necessitam da superação de hierarquias temáticas de todas as ordens. As premissas apresentadas nos planos nacionais são corroboradas por outro mecanismo importantíssimo e de significativo avanço: o Pacto Nacional de Enfrentamento da Violência contra as mulheres, assinado por todos os estados brasileiros. Por fim, cabe mencionar a realização da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (2012), que percorreu a maioria dos estados brasileiros avaliando a situação da violência contra as mulheres no Brasil.

É certo que ainda enfrentamos entraves de todas as ordens para a devida e efetiva implementação da legislação específica para o enfrentamento das violências contra as mulheres, mas muitos são os avanços. É preciso que, juntas, mulheres de todos os movimentos, instituições e diferentes arenas, comprometam-se com ainda mais avanços para as mulheres, com a garantia dos direitos humanos das mulheres, por uma vida digna, sem violência, e livre.

[1] Assim como Avritzer et al (2014), compreendo sistema de justiça como um sistema global e integrado de diferentes instâncias de resolução de litígios, que não se circunscreve aos tribunais judiciais. No caso da violência contra as mulheres podemos pensar em instituições compondo este sistema tais como: Tribunal de Justiça, Vara Criminal, Defensoria Pública, Ministério Público, Delegacia de Atendimento às Mulheres, Polícias Militar e Civil.

[2] Para ver mais sobre esse debate, sugerimos o texto de Carmem Hein de Campos: http://agoraequesaoelas.blogfolha.uol.com.br/2016/06/14/alterar-a-lei-maria-da-penha-casuismo-ou-necessidade/

[3]  Para acesso à integra do Projeto de Lei: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=949119

 

Referências

BARSTED, Leila Linhares. Lei Maria da Penha: uma experiência bem-sucedida de advocacy feministaIn: Lei Maria da Penha: comentada em uma perspectiva jurídico-feminista. Rio de Janeiro: Lumen Juris, p. 13-38, 2011.

BRASIL. Lei número 11.340, Lei Maria da Penha, de 7 de agosto de 2006.

BRASÍLIA, Lei Maria da Penha Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Conheça a lei que protege as mulheres da violência doméstica e familiar, 2012

MATOS, Marlise et al. Acesso ao Direito e à Justiça Brasileiros na Perspectiva de Gênero/Sexualidade, Raça/Etnia: Entre o Estado e a Comunidade – Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2011

PANDJIARJIAN, Valéria. Balanço de 25 anos da legislação sobre a violência contra as mulheres no Brasil. Vinte e cinco anos de respostas brasileiras em violência contra a mulher (1980-2005). Alcances e Limites. São Paulo: Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde. Texto on-line disponível em: http://www.mulheres.org.br/25anos, 2006.

PASINATO, Wânia. Contribuições para o debate sobre violência, gênero e impunidade no Brasil. São Paulo em perspectiva, p. 5-14, 2007.

PASINATO, Wânia. Identificando entraves na articulação dos serviços de atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica e familiar em cinco capitais. Salvador: Observatório da Lei Maria da Penha, 2011.

SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. Gênero, patriarcado, violência – São Paulo : Editora Fundação Perseu Abramo, 2004

SARMENTO, Rayza. Entre tempos e tensões: o debate mediado sobre a Lei Maria da Penha (2001-2012). Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. 190 f. 2013.

 

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Eu não tô legal, não aguento mais birita. Trilogia da cerveja – Parte 2

Você já foi a uma festa com suas amigas e, depois de beber exatamente as mesmas canecas de chope você ficou super mal e elas continuaram bem? A verdade é que todo mundo já passou por uma situação assim, mesmo em lados diferentes da história. Nesse texto trataremos do etanol, que é o álcool presente nas bebidas alcoólicas mais comuns. O metabolismo desse álcool no corpo humano segue a mesma rota pra todos os indivíduos, mas a velocidade e eficiência com que ele faz esse caminho depende de diversos fatores e é isso que vamos investigar aqui.

“Que você seja feliz como Jason Momoa na cervejaria Guinness!”

Eu bebo sim e estou vivendo – o caminho da cerveja no nosso corpo

Quando você bebe uma cerveja, por exemplo, depois de fazer um carinho especial nas suas papilas gustativas, ela desce para o seu estômago e para seu intestino delgado. Esses são os pontos de absorção da bebida que é extremamente hidrossolúvel (muito solúvel em água) devido à presença das ligações de hidrogênio  entre a água e o álcool. A partir daí o álcool é transportado para todo o corpo.

Percorrendo os diferentes tecidos o álcool leva a muitos efeitos diferentes. Algumas pessoas sentem uma sensação de euforia, outras sentem um relaxamento profundo e algumas têm impulsos ainda mais estranhos como mandar mensagem pra ex amores. O que regula essas sensações é a concentração de álcool no sangue, que começa a ser alterada cerca de 20 minutos após a ingestão da bebida.

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Foto: Segredos do Balcão

Esses primeiros processos acontecem com a passagem da bebida no estômago e intestino delgado. Depois disso, o etanol precisa passar pelo fígado para ser metabolizado já que é no fígado que a mágica acontece.

Why’d you only call me when you’re high? – o metabolismo da cerveja no fígado

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No fígado, o etanol é recebido por duas famílias de enzimas: a álcool desidrogenase (ADH) e a aldeído desidrogenase (ALDH). A ADH catalisa a oxidação do álcool em acetaldeído. E, posteriormente, o acetaldeído é metabolizado por ALDH em acetato.

No entanto, essas duas reações precisam acontecer com uma grande coordenação devido ao acetaldeído, que é o grande vilão das nossas manhãs de domingo. O acúmulo desse composto no corpo leva a respostas aumentadas e também a reações bastante desagradáveis como rubor, náuseas, vômitos, hipotensão e taquicardia.

Chefia, amigão, desce mais uma rodada! – influências na absorção do álcool e embriaguez

A questão é que a condição do nosso corpo influencia (e muito!) na quantidade de álcool que vai levar a respostas tanto da embriaguez durante a ingestão, quanto à famosa ressaca no dia seguinte

  • Peso corporal

Esse é simples de explicar, não é? Duas pessoas com pesos corporais diferentes ingerindo as mesmas doses de álcool terão diferentes quantidades de sangue e, consequentemente, diferentes concentrações de álcool no sangue.

Esse fato aliado à distribuição da massa corporal – quantidades de gordura, músculos, massa óssea e líquidos – leva a diferenças mais proeminentes ainda. Pessoas com maior quantidade de gordura corporal ficam embriagadas mais rápido, por exemplo.

A questão é que o tecido adiposo não “recebe” o álcool. O etanol é um composto polar  – possui um polo negativo devido a presença do átomo de oxigênio –  e o tecido adiposo é formado lipídeos que são ésteres de ácidos carboxílicos com cadeias carbônicas longas e tem grande caráter apolar. Por isso, a interação entre a gordura e o álcool é tão pequena que chega ser desprezível

  • Gênero

Pois é, amiga. Não é impressão sua, você realmente fica “mais bêbada” que os rapazes da sua mesa.

Se doses iguais de álcool forem administradas a um homem e uma mulher de mesmo peso corporal, a mulher ficaria mais embriagada, ou seja, apresentará níveis alcoólicos mais elevados no sangue.

Esse fato é explicado pela maior proporção de tecido adiposo nas mulheres e por variações que acontecem durante o ciclo menstrual. Além disso, as mulheres têm uma menor concentração gástrica da ADH (álcool desidrogenase) que faz com que o corpo feminino demore mais tempo para converter o álcool em acetaldeído

  • Idade:

Essa já aconteceu comigo. Divido apartamento com uma menina mais jovem que eu. Saímos com nossos amigos no sábado e no domingo de manhã eu fui me arrastando pra cozinha em busca de um copo de água. Já a minha “roomate” estava feliz e maravilhosa preparando o seu café da manhã.

Isso acontece porque com o passar do tempo, as quantidades da enzima ALDH (aldeído desidrogenase) vão diminuindo gradativamente no nosso organismo. O que leva nosso corpo a demorar cada vez mais pra metabolizar o acetaldeído, fazendo com que os efeitos da ressaca demorem cada vez mais a passar.

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Foto: ornitorrinconerd

Chuva, suor e cerveja – como o álcool sai do nosso corpo

Com o passar das horas o corpo vai eliminando o álcool junto com outras excreções corporais, como a urina e o suor. Os efeitos da ressaca vão passando a medida que a enzima ALDH consegue converter o acetaldeído em acetato, menos tóxico ao nosso corpo.

Enquanto isso a ingestão de líquidos não alcoólicos (como água e sucos) é altamente recomendada para acentuar a excreção e tornar o efeito do acetaldeído menos devastador.

E eu recomendo fortemente desligar o celular ou entregá-lo a alguém de confiança quando o álcool começar a mostrar as garras, ok? Isso faz com que os efeitos da ressaca do dia seguinte apareçam como uma dor de cabeça ou um enjôo, sintomas mais simples de lidar do que as 11 ligações pros ex amores…

Referências:

  1. PADULA, Claudia B. et al. Gender effects in alcohol dependence: an fMRI pilot study examining affective processing.Alcoholism: Clinical and Experimental Research, v. 39, n. 2, p. 272-281, 2015.
  2. COLLINS, Allan C. et al. Variations in alcohol metabolism: influence of sex and age.Pharmacology Biochemistry and Behavior, v. 3, n. 6, p. 973-978, 1975.
  3. CARRIGAN, Matthew A. et al. Hominids adapted to metabolize ethanol long before human-directed fermentation.Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 112, n. 2, p. 458-463, 2015.
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O SUS, as Redes de Atenção e o direito à saúde

Saúde é um direito. Mas o que isso quer dizer?  No Brasil, o direito à saúde é garantido pela Constituição de 1988, como uma grande conquista do período de redemocratização, envolvendo ativa participação popular. A saúde é direito de todos e dever do Estado, não podendo ser mercantilizada, ou seja, não é uma mercadoria a ser comprada e sim um direito que deve ser garantido. As políticas Públicas de saúde devem ser elaboradas de modo a pensar a integralidade de cada indivíduo na sociedade, fomentando a participação social e a organização de redes descentralizadas e regionalizadas ¹.

Dentro desse contexto, foi sancionada a Lei nº 8080, de 19/09/1990, que instituiu o Sistema Único de Saúde (SUS) ².  O SUS impulsiona, por definição, a saúde como direito e possui princípios e diretrizes que regem as ações em saúde no país. Dentre estes, é possível destacar:

universalidade: garante o acesso ao sistema a toda pessoa residente no Brasil;

equidade: engloba uma abordagem simétrica a cada especifidade dos usuários do sistema;

integralidade: reforça a importância do olhar singular a cada pessoa e sua inserção com qualidade no SUS, em uso da Rede;

participação social: garante a participação de usuários na fiscalização e controle das ações do Estado, além de vincular o cuidado em saúde a aspectos democráticos e de construção conjunta ³.

Como organizar esse Sistema único de Saúde garantindo todos esses direitos e um cuidado de qualidade?

No final de 2010 foi publicada a Portaria nº 4.279, de 30 de dezembro de 2010, que estabelece diretrizes para organização das Redes de Atenção à Saúde (RAS), no SUS. As Redes de Atenção à Saúde devem, com toda a amplitude da palavra, tecer as ações e serviços de saúde de modo que estas estejam integradas em sistemas de apoio técnico, logístico e de gestão. O objetivo é garantir o direito a saúde integralmente 4.

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Dentro das Redes de Atenção, o cuidado é pensado em níveis organizacionais. Esses níveis, denominados Atenção Primária, Secundária e Terciária à saúde, possuem possibilidades e articulações distintas, garantindo a equidade e integralidade. A Atenção Primária (APS) é responsável pela entrada do usuário no sistema de saúde, pela continuidade, por manter o vínculo com o território e pela atenção em saúde a todo e qualquer acometimento em saúde, além de aspectos preventivos. Para questões que exigem maior densidade em tecnologia, é necessário acompanhamento na Atenção Secundária. A  Atenção Terciária assume casos de maior especificidade e gravidade clínica e densidade tecnológica. Ao contrário do que pode parecer, a organização em níveis de atenção não busca uma hierarquização, mas sim uma lógica focada no indivíduo que está inserido na Rede, sendo a Atenção Primária coordenadora desse fluxo 5.

As principais características da RAS envolvem a formação de relações horizontais entre os níveis de atenção. O centro e foco do cuidado são nas necessidades da população, assim como a clareza e compartilhamento na responsabilização, planejamento e ações em saúde junto com trabalhadores, gestores e usuários envolvidos no processo 6,7.

O espaço territorial e a população constituem o elo, o embrião, a linha para tecer a Rede, em construção sempre partilhada. O caminhar do usuário e sua identificação com espaço, profissionais e ações são fundamentais  para tal criação. Dessa forma, é possível pensar de fato em saúde não apenas como ausência de doença e sim no rompimento com o modelo biomédico, garantindo um olhar às especificidades biopsicossociais 6,7.

O tecer da Rede compõe o todo de cada pessoa, sem se limitar a segmentações individualizadas, mas se preocupando com o cuidado singular.

O SUS e seu modo de organização é uma conquista cidadã e a saúde é um direito de todos. O discurso midiático recorrente que nega tal feito deve ser tomado com cautela, já que ao capitalismo, pouco vale um sistema de saúde universal, que produza vida e não lucro.

Indicação:

Vídeo didático e em linguagem simples que explica a conceituação das Redes de Atenção à Saúde (RAS).Foi elaborado para a FOP Unicamp:

https://www.youtube.com/watch?v=0N_9KKu15oM

 

Fontes:

1 – http://www.reciis.icict.fiocruz.br/index.php/reciis/article/view/935

2- http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8080.htm

3- http://periodicos.ses.sp.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=s1518-18122010000200002&lng=pt&nrm=iso

4- http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2010/prt4279_30_12_2010.html

5- http://web.b.ebscohost.com/abstract?direct=true&profile=ehost&scope=site&authtype=crawler&jrnl=14138123&AN=115226391&h=P0vV8gCzJxAwMrouYoVJUGz6tfsruPtu1KCRrdGUHEE1jfZA5922BGLkRBELy0sBLprPhNlaDIyZ6VsB82XzDQ%3d%3d&crl=c&resultNs=AdminWebAuth&resultLocal=ErrCrlNotAuth&crlhashurl=login.aspx%3fdirect%3dtrue%26profile%3dehost%26scope%3dsite%26authtype%3dcrawler%26jrnl%3d14138123%26AN%3d115226391

6- http://s3.amazonaws.com/academia.edu.documents/46069630/ALBUQUERQUE_e_VIANA_Perspectivas_de_regiao_e_redes_na_politica_de_saude_brasileira_2015.pdf?AWSAccessKeyId=AKIAJ56TQJRTWSMTNPEA&Expires=1471486570&Signature=O%2FHt3kT5sd%2FyYPDyhReO4fkASwo%3D&response-content-disposition=inline%3B%20filename%3DALBUQUERQUE_e_VIANA_Perspectivas_de_regi.pdf

7- http://revista.uniplac.net/ojs/index.php/uniplac/article/view/1522

 

 

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Quando toca ninguém fica parado

O funk carioca e a identidade brasileira

As olimpíadas terminaram ao som de uma grande escola de samba. Samba. Gênero musical mundialmente conhecido como parte cultural do nosso país verde-amarelo. Ainda está fresco em nossa memória a festa que antecedeu os jogos olímpicos: teve MPB, samba, raízes históricas e funk. Sim, o funk carioca. E é por isso que resolvi escrever sobre isso.

Logo ao anunciarem que Ludmilla e Anitta iriam fazer parte da abertura das olimpíadas choveu comentários no Facebook menosprezando as cantoras, bem como o funk. Vi e ouvi muitos comentários dizendo que “onde já se viu colocar funk nas olimpíadas, tinha que ser MPB, Caetano, Maria Rita”. Ou: “já não basta o samba, ainda querem colocar funk?!”. Enfim, muitas pessoas indignadas com a presença do funk nas aberturas, afinal ele é parte da cultura “lixo” do Brasil. E só digo uma coisa: eu lamento muito por essas pessoas que disseram isso.

Ludmilla nas Olimpíadas aqui.

Dada a minha indignação (e opinião) inicial, resolvi utilizar esse espaço para demonstrar cientificamente, culturamente, argumentativamente e o mais racionalmente possível, o quanto esses comentários não fazem sentido nenhum, e só servem para estigmatizar e alimentar preconceitos contra o estilo musical. Para tanto, fiz uma leitura de diversas pesquisas e artigos que tratam sobre o tema do funk. Para a minha surpresa, haviam estudos datados da década de 1980, o que demonstra uma preocupação científica progressiva em compreender o fenômeno social e cultural. Portanto, a minha escolha não se baseou em apenas uma produção acadêmica, mas em vários pesquisadores que contribuíram e contribuem para ampliar os debates que cercam nossa realidade.


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Sou a história do funk, isso eu tenho que falar

A raiz histórica do funk está nos Estados Unidos, com o soul music e a mistura do blues e a música gospel, em meados dos anos de 1960 (VIANA, 2010). Segundo Medeiros (2006), James Brown é considerado o “pai do funk”, sendo que o termo era utilizado para designar o odor do corpo durante relações sexuais. No final da década, em 1968, a gíria “funky” perdeu o seu sentido pejorativo e passou a remeter ao orgulho negro – e tudo podia ser funk: desde uma roupa, até um jeito de andar e, é claro, o estilo musical (VIANA, 2010).

No Brasil, o gênero chega nos anos de 1970, na periferia do Rio de Janeiro. E assim como muitos estilos musicais, houve uma apropriação cultural do ritmo, que transformou algo norte-americano, em um novo estilo sonoro e híbrido. Viana (2010) salienta que o DJ Malboro foi um das principais figuras a construir um funk tipicamente brasileiro, com experimentações de bateria eletrônica e letras que retratavam a sociedade nacional.

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Xuxa e Dj Marlboro no programa Xuxa Park Hits. Foto: Site imguol.com

Em 1990, o funk toma o espaço midiático com o quadro Xuxa Park Hits, que contava com a participação do DJ Marlboro. E no mesmo período em que ganhava espaço público, o funk também era estigmatizado e difamado pelos meios de comunicação, através de argumentação de pânico moral e associação com atos criminosos que a música trazia (VIANA, 2010). Ainda assim, o funk continuou se expandindo e criando novas ornamentações, que configuram o que nós conhecemos hoje na música. 

Andar tranquilamente na favela onde eu nasci

Pedro Alexandre Sanches, no artigo “A luta do funk contra o preconceito”, publicado na Revista Fórum, diz o seguinte:

Esse gênero, na leitura mais habitual, tem a ver com diluição musical, sensacionalismo, exploração sexual, até apologia às drogas e ao crime nos chamados “proibidões”. Não são mentiras, mas são meias verdades, pois ficam na mais rasa superfície e elegem jogar foco apenas nos estigmas de sempre. Sob a bandeira da rejeição à precariedade musical de alguns funks, esconde-se a recusa em encarar e compreender as camadas sociais que os produzem (SANCHES, 2012).

O parágrafo sintetiza bem a disseminação do preconceito contra o funk. Os pesquisadores não negam, por sua vez, a conotação sexista e letras distorcidas na música. Todavia, Vianna (1988) discorre que essa alusão da música com a criminalização, aconteceu em parte nos bailes funks, desconhecidos pela elite carioca e demonizados pela mídia. Ao mesmo tempo em que estigmatizava o gênero, ele também ganhava espaço nos meios de comunicação, pois evocava o imaginário da sociedade (VIANA, 2010). Por isso, atualmente o gênero é conhecido como uma das mais significativas representações culturais do Brasil contemporâneo.

É som de preto, de favelado

Mas, então por que o funk ainda é tido como algo a ser combatido? Ok. Vamos por partes.

Primeiro, é necessário compreender o entendemos por CULTURA. Mil discussões antropológicas entrariam aqui, porque não há apenas um significado correto para o termo. Todos nós sabemos o que é cultura, só que não. Só que mesmo assim, insistimos em separar em ALTA CULTURA e BAIXA CULTURA. E é aí que está a chave da questão.

A alta cultura está sempre associada ao fator financeiro e intelectual. Algo visto como inferior, ou baixa cultura é aquilo que não atende às demandas das elites culturais/intelectuais/financeiras/sociais/blábláblá. Enfim. Não é preciso muito mais para perceber o porquê o funk passa a ser descaracterizado como algo legítimo da cultura brasileira. Voltamos ao início do texto: “Por que a Ludmilla e a Anitta na abertura, e não só os cantores de MPB?”. Praticamos algo chamado de etnocentrismo: temos uma visão de mundo da qual o grupo que pertencemos é tomado como centro de tudo e de todos, por meio de nossos valores, modelos e definições (ROCHA, 1988). Devemos parar de achar que a cultura é só aquilo que gostamos.

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REFERÊNCIAS

LOPES, A. C. Do estigma à conquista da autoestima: a construção da identidade negra na performance do funk carioca. Fazendo gênero. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, de 25 a 28 de agosto de 2008.

_________. A favela tem nome próprio: a (re)significação do local na linguagem do funk carioca. In: Revista Brasileira de Linguística Aplicada. V. 9. N. 2. Belo Horizonte, 2009.

MEDEIROS, J. Funk Carioca: crime ou cultura?. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2006.

ROCHA, E. P. G.O que é etnocentrismo?. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.

SANCHES, P. A. A luta do funk contra o preconceito. Revista Fórum, 2012.

VIANA, L. R. O funk no Brasil: música desintermediada na cibercultura. In: Revista Sonora. V. 3. N. 5. UNICAMP. Campinas, 2010.

VIANNA, H. O mundo do funk carioca. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1988.

__________. Funk e cultura popular carioca. In: Revista Estudos Históricos. V. 3. N. 6. Rio de Janeiro, 1990.

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“Game of Genomes”, por Carl Zimmer

Carl Zimmer é um jornalista científico, autor de diversos livros na área científica e colunista do New York Times desde 2013. Convidado por um pesquisador geneticista, Dr. Robert Green, Carl aceitou ter o seu genoma sequenciado. Após o primeiro genoma humano ter sido sequenciado, em 2001, qualquer um pode escolher sequenciar o seu genoma. No entanto, as poucas pessoas que fazem isso de fato só tem acesso aos resultados que buscam por marcadores genéticos de algumas doenças características, como câncer ou a doença de Huntington. A diferença no caso do jornalista, é que ele teria acesso aos dados crus da sequência do seu genoma. O que isso significa? Que além de descobrir se possuía alguma predisposição genética para alguma dessas doenças, ele poderia fazer uma análise mais completa e não usual desses dados. Isso necessitou da ajuda de diversos pesquisadores especializados em genética, é claro.

Além de aprender sobre si mesmo, Carl descreveu que com essa empreitada foi possível desvendar um pouco mais sobre o genoma humano em geral. Pedaços do DNA foram analisados evolutivamente, podendo concluir quais deles foram herdados dos homens-de-neandertal e como eles influenciam a saúde do jornalista.

Para divulgar sobre todo o processo do sequenciamento do genoma – desde os exames preliminares até as análises e conclusões finais – Carl Zimmer bolou uma série de posts, que ele nomeou de “Game of Genomes”. Além disso, ele separou cada post como forma de um episódio, totalizando em três temporadas, cada uma com um enfoque diferente. Em um primeiro momento, Carl descreve como surgiu a ideia – e o financiamento – desse projeto, além dos exames preliminares e os convites aos especialistas. Nas chamadas “Segunda Temporada” e “Terceira Temporada”, o jornalista se aprofunda nos detalhes das análises, sempre correlacionando tudo com a própria evolução humana.

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No “series finale”, Carl aponta que ainda existem muitos desafios para que o sequenciamento de genomas se torne uma ferramenta comum na medicina, pois ainda é uma técnica sujeita a muitas variações e erros. No entanto, cada genoma é importante e o conjunto pode ser relevante para o desenvolvimento de tratamento de muitas doenças.

Para ler todos os episódios e temporadas na íntegra, clique aqui:

Temporada 1

Temporada 2

Temporada 3