2

Achate a Curva! O que significa crescimento exponencial e o novo coronavírus

Desde que a pandemia de COVID-19 começou, você já deve ter ouvido falar várias vezes sobre o novo mantra global: “achatar a curva”. Essa curva que todos estão comentando é o gráfico que relaciona o número de casos da doença com o tempo que se passou desde a primeira infecção registrada.

Ou seja, achatar a curva significa garantir que o número de casos da doença cresça de forma menos rápida e menos agressiva, a fim de garantir que os sistemas de saúde ao redor do mundo consigam atender a todos os casos graves que exijam internação. Se os sistemas de saúde conseguem atender à demanda, menos pessoas infectadas morrerão, já que poderão ser atendidas caso cheguem a um estado grave. Além disso, pessoas que precisarão ser internadas em hospitais por quaisquer outros motivos, como doenças cardíacas, acidentes e pressão alta, também terão mais chances de serem atendidas e sobreviverem.

Figura 1 – Achate a curva! Créditos: Stephanie King – University of Michigan (https://news.umich.edu/pt-br/achatando-a-curva-do-covid-19-o-que-significa-e-como-voce-pode-ajudar/)

Esta curva, que a maioria dos países do mundo está trabalhando duro para achatar, é baseada em modelos matemáticos já adotados por experts em epidemiologia. O início dela é marcado pelo dia do primeiro caso confirmado, que é considerado o “dia 1”. O dia seguinte é considerado o “dia 2”, em seguida o “dia 3”, e assim por diante. No início, a curva tem um comportamento aproximadamente exponencial, ou seja, o número de casos novos em determinado dia é proporcional ao próprio dia. Em outras palavras, a taxa de variação do número de casos aumenta conforme o número de dias decorridos desde o dia 1 aumenta, de forma proporcional.

Figura 2 – Curva de crescimento exponencial. Créditos:Google.

Isso acontece porque o número de pessoas infectadas depende do número de pessoas que já eram contagiosas antes. No caso do coronavírus, cada pessoa infectada transmitirá o vírus em média para 2.3 pessoas. Ou seja, um grupo de 10 pessoas infectadas transmitem o vírus para 23 pessoas, totalizando 33 pessoas. Essas 33 pessoas transmitirão o vírus para aproximadamente 76 pessoas, totalizando 109 pessoas. Estas contaminarão mais 250 pessoas, totalizando 360 pessoas, e assim por diante, enquanto cada uma destas pessoas estiver contaminada (mesmo sem apresentar sintomas) e tendo contato com outras pessoas.

O COVID-19 é menos contagioso que doenças como o sarampo, em que cada pessoa infectada contamina em média 18 outras pessoas. Mas ao contrário do sarampo, ainda não temos vacina para o novo coronavírus, o que significa que apenas pessoas que já foram contaminadas e sobreviveram tem chances de estarem imunizadas – embora esta imunização ainda precise ser mais investigada.

Figura 3 – No começo, a curva de número de casos tem comportamento aproximadamente exponencial. Adaptado de Johns Hopkins Coronavirus Resource Center (https://coronavirus.jhu.edu/data/new-cases)

O tempo de incubação do novo coronavírus é de alguns dias. As pessoas que estão manifestando sintomas da doença agora podem ter sido contaminadas semana passada, então o “dia 1”, que representa o primeiro dia em que houve um caso confirmado da doença em determinado país ou região, na verdade indica apenas o primeiro caso que, após vários dias de incubação, tornou-se grave o suficiente para que a pessoa contaminada procurasse ajuda médica.

Mais que isso, esta pessoa precisa ter tido acesso ao teste para saber se foi contaminada com o vírus ou não. Alguns resultados de testes no Brasil levam mais de duas semanas para sair. Ou seja, somado ao tempo de incubação, o resultado positivo de hoje pode estar refletindo uma contaminação que aconteceu há três semanas. Apesar do atraso e das falhas para reportar todos as mortes causadas pela pandemia, o Brasil acaba de entrar para o ranking dos dez países mais afetados. Os dados alarmantes que temos agora são na verdade uma representação de como a real situação estava há algumas semanas.

Não só as pessoas testadas estão transmitindo o vírus, mas sim todas pessoas que foram contaminadas mesmo que elas não saibam disso, e mesmo que elas nunca sejam testadas. Algumas das pessoas contaminadas morrerão, e algumas sobreviverão com grandes chances de estarem imunizadas, o que significaria que elas passam a se tornar menos susceptíveis a desenvolverem a doença.

Contudo, é infactível (além de eticamente questionável) esperar que a pandemia passe naturalmente contando apenas com a imunização das pessoas recuperadas. O número de pessoas que morreriam seria altíssimo. Especialistas estimam que no Brasil mais de 2 milhões de pessoas morreriam se nenhuma medida de distanciamento social fosse tomada.

As medidas de isolamento social que estão sendo adotadas no mundo todo são fundamentais para que a taxa de contaminação diminua. Mesmo pessoas sem sintomas típicos da doença podem estar contaminadas, e o isolamento social reduz a chance de que cada pessoa transmita o vírus para outras pessoas, que transmitiriam para outras pessoas e assim por diante.

Para além dos modelos matemáticos, estamos lidando com números reais e com pessoas reais ficando doentes e morrendo. Mais de 5.500 brasileiros e brasileiras já faleceram confirmadamente por infecção pelo novo coronavírus até o dia da publicação deste artigo. O isolamento social salva vidas, e ficar em casa sempre que possível em tempos de pandemia é não apenas um ato de auto-proteção mas também um ato de cidadania e colaboração com o bem-estar do país.

Referências:
Centro de Recursos sobre o Coronavírus da Universidade Johns Hopkins
Universidade de Michigan
The New York Times
Math is Fun
Wikipedia
The Washington Post
Global news
Seti Institute
The Conversation

1

Maternidade no Brasil – Uma escolha?

Maternidade no Brasil - Uma escolha 1Crédito: Jirka.  Acesso aqui

A pergunta causa estranheza em tempos em que as escolhas pessoais não apenas são valorizadas, mas também servem de justificativa para boa parte das ações cotidianas. Mulheres inclusive vêm pleiteando a possibilidade de escolher, de possuir autonomia sobre seus corpos e projetos de vida – o que, evidentemente, se estende à maternidade. No entanto, essas demandas tão enfáticas por tomar decisões da forma mais livre possível respondem a um cenário complexo.

De acordo com a Secretaria de Atenção à Saúde, pelo menos metade das gestações brasileiras não são planejadas, embora possam ser desejadas.1 A pesquisa Nascer no Brasil: Inquérito Nacional Sobre Parto e Nascimento – realizada em hospitais públicos (conveniados ao SUS) e privados entre fevereiro de 2011 e outubro de 2012 pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) – apurou que 55.4% das gestações nacionais não são planejadas.2 Ao entrevistarem puérperas (mulheres que estão passando pelo puerpério, período desde o parto até que os órgãos genitais e o estado geral da mulher voltem ou ao menos se assemelhem às condições anteriores à gestação), alguns estudos encontraram valores em torno de 60% de gravidezes não planejadas no país.3

Infográfico Pesquisa Nascer no Brasil ENSP-FiocruzInfográfico gerado pelo Inquérito Nacional Sobre Parto e Nascimento, ENSP/Fiocruz. Acesso aqui

Esses dados se tornam importantes ao considerarmos que o planejamento de uma gestação envolve, ao mesmo tempo, o desejo e a intenção de engravidar. O desejo representa um sentimento que não necessariamente conduz a uma ação. E a intenção está ligada a fatores como o contexto sociocultural da mulher, apoio do(a) parceiro(a) ou da família e inserção no mercado de trabalho.4 A falta de coexistência entre esses elementos pode resultar em situações de insatisfação e abalo. Em entrevista conduzida para dissertação de mestrado profissional em Atenção Primária à Saúde, por exemplo, uma primigesta (mulher que está grávida pela primeira vez, em sua primeira gestação) relatou sua experiência com o teste rápido de gravidez. Segundo ela, ao descobrir que aquela gestação era desejada, a enfermeira revelou: “eu nem lembro da última vez que eu dei um resultado [positivo para gravidez] que a mãe ficou feliz”.5

Tal cenário se agrava em um país no qual a) o aborto é criminalizado e b) os índices de violência sexual contra mulheres são alarmantes.

Quanto ao primeiro aspecto, se grande parte das gravidezes não são planejadas e, exceto em casos comprovados (sendo esta comprovação excessivamente burocrática) de estupro, feto anencefálico ou risco de vida à mãe, não se pode interromper a gestação, significa que, pelas leis brasileiras, a mulher é obrigada a gestar e parir a(s) criança(s) caso engravide – mesmo que não queira, não possa, não esteja preparada. Entre 2012 e 2017, foram registrados 85 processos criminais por aborto no Brasil, sendo que a maioria das denúncias contra aquelas que praticaram ou auxiliaram em algum aborto partiu de familiares e profissionais de saúde.6 Além disso, o aborto legal é negado em 57% dos hospitais que o governo indica para o procedimento.7

Quanto ao segundo aspecto, em 2018 o anuário sobre crimes violentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou que o número de estupros contra mulheres registrados no país em 2017 ultrapassou 60 mil. Todavia, apenas cerca de 10% dos casos são denunciados. O número anual de ataques sexuais a mulheres, portanto, estaria em torno de 600 mil.8 Somam-se a isso outras violências que também podem resultar em gestações involuntárias. Os relacionamentos abusivos respondem por boa parte dessas possibilidades. Dados reunidos pela ONG Artemis apontam que três em cada cinco brasileiras sofreram, sofrem ou sofrerão violência em um relacionamento afetivo.9 Obrigar a companheira a ter relações sexuais sem vontade foi apontado enquanto prática por parte de homens que, em pesquisa conjunta realizada pelo Data Popular e o Instituto Avon em 2013, admitiram já terem sido violentos com a(s) parceira(s).10 Podemos inferir que o número de mulheres pressionadas a fazerem sexo sem proteção nesse tipo de relacionamento também seja elevado, o que pode acarretar em gravidezes não planejadas/desejadas.

Maternidade no Brasil - Uma escolha 3Gráfico da pesquisa Percepções dos homens sobre a violência doméstica contra a mulher, Data Popular/ Instituto Avon. Acesso aqui 

Tal conjuntura integra o que se denomina maternidade compulsória: conjunto de práticas sociais, culturais e políticas que levam as mulheres a se tornarem ou desejarem ser mães sem que isso represente de fato uma escolha, já que as opções disponíveis à mulher seriam tornar-se uma pária social (vale lembrar que, além do baixo investimento em asilos públicos, não existe auxílio governamental a mulheres sem filhos que venham a necessitar de cuidados durante a velhice) ou ceder às pressões maternais que sofre desde a infância. Em outras palavras, mecanismos que naturalizam a maternidade, posta como norma e, para muitas, colocada enquanto única opção disponível (e cabível) às mulheres, sendo a não maternidade sequer apresentada como existente.

Diante do exposto, cabe refletir: afinal, no Brasil, quem de fato pode e consegue escolher se tornar mãe?

1 SECRETARIA de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Atenção ao pré-natal de baixo risco/ Ministério da Saúde. 1 ed. rev. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2013.

2 Nascer no Brasil. Principais resultados. [sem data informada]. Disponível em: https://bit.ly/2vfQke3.

3ANVERSA, Elenir Terezinha Rizzetti et al. Qualidade do processo da assistência pré-natal: unidades básicas de saúde e unidades de Estratégia Saúde da Família em município no sul do Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 28, n. 4, p. 789-800, abr. 2012.

4 BORGES, Ana Luiza Vilela et al. Planejamento da gravidez: prevalência e aspectos associados. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 45, n. 2 (esp.), p. 1679-1684, 2011.

5 NUNES, Priscila Bizzotto. Análise do pré-natal na Atenção Primária à Saúde com base no método clínico centrado na pessoa: perspectiva de gestantes em Clínicas da Família do Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado Profissional em Atenção Primária à Saúde) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2019.

Universa. Processadas por aborto. [13/09/2019]. Disponível em: https://bit.ly/2Vv2GYQ.

7 Folha de S. Paulo. Aborto é negado. [19/06/2019]. Disponível em: https://bit.ly/2MXXr3p.

8 Jornal Nacional. Casos de estupro aumentam no Brasil. [10/08/2018]. Disponível em: https://glo.bo/2BipK4o.

9 Artemis. Violência doméstica. [sem data informada]. Disponível em: https://bit.ly/2Sy4GhZ.

10 TEIXEIRA, Thainá Battesini. Relacionamentos abusivos. Movimento de Mulheres Olga Benário do Rio Grande do Sul. [06/11/2016]. Disponível em: https://bit.ly/38nCi8I.

0

Tecnologia em tempos de Pandemia: o que está sendo usado na área tecnológica para combater o COVID 19.

Não é preciso lembrar a todos que o momento que estamos é bastante singular na história da humanidade, porém não é o único. Em 1918 tivemos a famosa Gripe Espanhola que recomendava ao povo medidas como bons hábitos de higiene, toque de recolher, evitar aglomerações e cuidados maiores com pessoas idosas entre outros conselhos como mostrado na figura 1.

conselhos2

Figura 1: Conselhos na gripe espanhola. Fonte: O Globo (2020)

Apesar das semelhanças nas medidas, a luta no combate é muito diferente. Falamos de 102 anos de diferença e de muita tecnologia desenvolvida nesse período. Incluindo, por exemplo, o desenvolvimento dos computadores, controle, automação, materiais e muita aplicação na área hospitalar. E é sobre essas tecnologias que falaremos a seguir.

Temos ouvido falar muito nos últimos dias que temos que usar máscaras para nossa proteção, que é preciso saber higienizá-las ou descartá-las de forma adequada. Além disso, sabemos que muitas pessoas estão usando respiradores pulmonares em casos graves e que novas invenções brasileiras estão amenizando o tempo de internamento. Mas muitas dúvidas ficam no ar: qual a melhor máscara? Onde o respirador realmente atua? O que temos feito para amenizar os riscos? Então agora vamos explicar!

Segundo os Médicos Sem Fronteiras (2020) o vírus COVID 19 (SARS-CoV2, coronavirus desease 2019) – mais conhecido como coronavírus – é da mesma família da Síndrome Aguda do Oriente Médio (MERS-CoV) e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-CoV), e apresenta desde característica comuns de uma gripe até crise respiratórias graves levando à óbito por insuficiência respiratória.

 Não há vacina nem cura  até o momento, então o que pode ser feito é o tratamento para amenizar os sintomas.

A transmissão ocorre por meio físico, não pelo ar. Para isso é necessário que haja contato com quem tem a doença ou com algo que essa pessoa tocou. No entanto é necessário que o vírus tenha contato com as mucosas da pessoa: olhos, nariz, boca. Por isso nossas mãos são o agente transmissor mais provável. E para isso destaca-se a necessidade de higienizá-la sempre, seja com água e sabão ou álcool em gel,  já que levamos muito as mãos ao rosto. Para evitar esse processo o Ministério da Saúde tem recomendado que as pessoas usem máscaras quando saem de casa.

O uso de máscaras se faz necessário para evitar que gotículas da saliva de alguém contaminado possam  atingir outra pessoa seja em um espirro ou mesmo em uma conversa. A máscara também evita que as pessoas contaminadas transmitam o vírus. Por isso é essencial que saibamos qual máscara devemos usar.

O ideal seria que todos pudessem usar as máscaras cirúrgicas, feitas de TNT (Tecido Não Tecido), PFF (Peça Semifacial Filtrante), N95, N99 ou N100 (o número indica a Eficiência de Filtragem de Partículas).

A TNT seria melhor para uso comum em ambientes hospitalares, além de ser descartável (figura 2).

mascara-cirurgica-coronavirus-03042020160648791

Figura 2: Máscara de TNT. Fonte: Pixabay.

Ela seria a ideal para o uso pelas pessoas nas ruas, no entanto como o coronavírus é uma pandemia mundial, e a maioria das máscaras deste material eram exportadas pela China (primeiro epicentro de contágio), há uma escassez nesse produto. No Brasil elas estão sendo direcionadas principalmente para os locais de atendimento às pessoas com suspeita de contaminação.

Desta maneira o Ministério da Saúde tem recomendado que as pessoas usem máscaras caseiras (figura 3), feitas de pano, que têm um grau de eficiência de filtragem baixa, mas que protegem de forma razoável, brandamente. 

As máscaras de panos são fáceis de fazer, mas alguns cuidados são necessários como: usar no máximo por 2 horas se o usuário falar durante o uso, e por 4 horas em caso contrário, além da higienização assim que deixar de usá-la que pode ser 20 minutos em água sanitária e depois lavar com água e sabão esfregando bem. Também jamais colocar as mãos na parte externa da máscara e evitar ficar ajustando-a ao rosto. Especialistas da UFSC mostram aqui como é possível fazer a máscara com as medidas e tecidos certos.

como-fazer-mascara-de-tecido-970x550

Figura 3: Máscara caseira. Fonte: Pixabay.

Para população em geral as duas máscaras citadas acima já são o suficiente, no entanto, os profissionais da saúde necessitam de mais proteção que o normal, pois estão em contato direto com as pessoas contaminadas. Nesses casos eles usam as máscaras PFF2 ou N95 (figura 4) mais comumente, estas máscaras podem ser reutilizadas se forem usadas somente como máscara normal, mas em qualquer contato com gotículas elas devem  ser descartadas.

descarpack-mascara-protecao-n95-pff-2

Figura 4: Máscara N95. Fonte: Bisturi Material Hospitalar (2020).

Estas máscaras têm elementos filtrantes bastante eficientes e por isso oferecem mais proteção ao profissional da saúde que realmente necessita devido ao contato com pacientes com Covid-19. Algumas também possuem respiradores que facilitam o uso contínuo e dão mais conforto ao usuário. Pessoas infectadas também devem usar este tipo de máscara, assim evitam contagiar outras pessoas (lembrando que o isolamento integral também é indicado para os pacientes que não estão em casos graves).

Estas máscaras podem ser desinfectadas e reutilizadas, mas é necessário que sejam usados métodos confiáveis, uma vez que o vírus não pode ser visto. Pensando nisso a USP – Universidade de São Paulo, através do Instituto de Física de São Carlos,  fez uma Câmara de Ozônio (figura 5) que desinfecta 1000 máscaras em 2 horas. Inicialmente as máscaras são colocadas em sacos de poliéster e submetidas a um ambiente de vácuo e depois é injetado ozônio (O3), este ciclo é repetido várias vezes, pois o ozônio deve penetrar nas tramas das máscaras. A ação do ozônio é microbiocida, ele consegue destruir a cápsula proteica (envelope do vírus) e destruí-lo.

20200409_câmera-de-ozônio-2-copy-765x384

Figura 5: Câmara de Ozônio. Fonte: Jornal da USP (2020)

Outro tipo de proteção muito usado que evita ainda mais o contágio nos profissionais de saúde são as máscaras tipo Face Shield, que protegem todo o rosto do usuário (figura 6).

face-shields

Figura 6: Máscara tipo Face Shield. Fonte: Governo de São Paulo (2020).

Essas máscaras estavam em falta no mercado, “estavam” pois, várias pessoas que possuem impressoras 3D estão se unindo em prol da saúde do país e estão produzindo milhares de máscaras e doando para os hospital e postos de atendimento. Alguns grupos disponibilizaram o projeto (figura 7) na Internet de forma gratuita. Para quem tem interesse o grupo de Pernambuco Hardware PE abriu aqui no seu site. É necessário filamento para impressão 3D usado no fixador e base de acrilato transparente para proteção.

 

720X720-faceshield-hpe-flat

Figura 7: Projeto Face Shield. Fonte: Pernambuco Hardware (2020).

Além destes equipamentos, outros fundamentais para recuperação dos pacientes são os respiradores, ou Ventiladores Pulmonares (figura 8), como são mais conhecidos.

 

admin-ajax-1-11

Figura 8: Ventilador Pulmonar. Fonte: Emitec (2020) 

Um dos sintomas mais graves do Covid-19 é a falta de ar, isso significa que o paciente não consegue realizar atividades simples como levantar-se ou tomar banho. Nesses casos é necessário que a pessoa procure imediatamente o sistema de saúde. Desta forma, observando a gravidade da situação o paciente será necessário o uso desse equipamento. Em alguns casos mais brandos a ventilação externa, com inalador pode ser o suficiente. Em outros somente a ventilação mecânica ajudará o paciente a respirar. Segundo Button (2002), na maioria dos ventiladores uma fonte de pressão positiva entrega ar para os pulmões do paciente que faz a troca gasosa, e então retira a pressão para que ocorra a expiração. A ventilação artificial pode ainda ser feita pela via nasal, oral ou por tubo de traqueostomia. O processo que o equipamento trabalho é explicado na figura 9.

ventilador-manutenção-1

Figura 9: Ventilador mecânico. Fonte: Button (2002)

O processo consiste em controlar três parâmetros importantes: pressão, volume e ciclo (tempo). Assim será controlado o fluxo de entrada do ar nos pulmões, na quantidade certa e respeitando o ciclo respiratório do paciente. São fatores que devem trabalhar em sincronia perfeita. A diferença entre a respiração pulmonar comum e a com o ventilador está representada nos gráficos da figura 10 a seguir.

respiracao

Figura 10: (a) Ventilação espontânea; (b) Ventilação mecânica. Fonte: Button (2002).

Normalmente nesta situação o paciente ficará sedado para não sentir qualquer incômodo ao processo, no entanto, mesmo com esse procedimento muitas pessoas estão vindo a óbito. Portanto a melhor indicação ainda é prevenir, manter os grupos de risco longe de contágio, e ficar em casa o máximo possível, seguindo todas as recomendações da OMS – Organização Mundial de Saúde.

Nem todo leito de UTI possui ventilador mecânico, o Ministério da Saúde recomenda que haja um ventilador para cada dois leitos. No entanto, nesse momento, o uso deste equipamento será de grande demanda, assim muitas pessoas querem inventar equipamentos de baixo custo para auxiliar nessa necessidade urgente. Devemos ficar alertas ao seguinte: a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) é que aprova se esses equipamentos poderão ser utilizados, e os parâmetros sobre a segurança do paciente são super rigorosos. Então mesmo que alguns pareçam bastante eficientes, só serão aprovados após muitos testes de validação que duram meses, até anos. Por isso é bom ficarmos alertas a soluções milagrosas.

Outras soluções estão sendo propostas e uma que tem dado resultados positivos é a manutenção dos ventiladores que estão em desuso em todo país. Universidades, Senai’s e o Exército Brasileiro formaram grupos para colocarem esses equipamentos em funcionamento, já que se estima que haja no país aproximadamente 3500 respiradores parados por falta de manutenção. Um desses grupos é o Médico de Máquinas formado na UFPR (Universidade Federal do Paraná) que começou com alunos do curso de Especialização em Manutenção 4.0 e agora já conta com mais de 180 profissionais em sua maioria da área de engenharia. Em alguns casos o ventilador consertado é o único disponível na cidade e que estava parado. A iniciativa começou na cidade de Curitiba, agora é vista por todo o estado do Paraná e outros estados têm entrado em contato para poderem replicar essa experiência em suas regiões.

E assim é o brasileiro, não desiste de lutar. E foi observando a situação dos pacientes nos leitos e nas condições de tratamento que a Samel Health Tech através do Instituto Transire de Tecnologia e Biotecnologia do Amazonas criaram a Cápsula Vanessa (figura 11).

15868067475e94bfdb670bb_1586806747_3x2_md

Figura 11: Cápsula Vanessa. Fonte: Folha (2020).

Ela é composta de uma proteção revestida de vinil transparente, armação de pvc e um exaustor para troca de ar que cobre a cabeça e a região torácica do paciente. Desta maneira, evita mais contaminação externa, além de proteger melhor os profissionais da saúde. Os resultados foram apresentados pela Rede Samel que afirmam que com 80 pacientes em internamento nenhum precisou de ventilação mecânica, além de reduzir o tempo de internamento em unidade intensiva para 6 ou 7 dias. Essa alternativa foi desenvolvida em Manaus, onde o Covid 19 está em grau elevado de contaminação, mas já está sendo estendida para outros estados. Entendendo a gravidade da situação, eles mantiveram a patente aberta e disponibilizam aqui o manual de construção. O custo fica em torno de R$ 200,00. Ainda não há estudos mais aprofundados que atestem a eficiência, mas não possui nenhuma contra indicação, só cuidados na montagem e desinfecção.

O brasileiro mostra, nesse momento, que além de muito solidário é bastante criativo. Várias pessoas ajudando como podem: confeccionando máscaras caseiras e distribuindo, face Shields para hospitais, câmaras de ozônio, câmara Vanessa como foi descrito. Ainda estão fazendo álcool gel, distribuindo comida para os mais necessitados, ajudando o vizinho que faz parte do  grupo de risco a fazer suas compras sem se expor, e tantas outras ações. Se você quer ajudar e não sabe como têm vários grupos que precisam de voluntários, rapidamente você conseguirá achar algo onde pode ser útil. E não vamos esquecer que em algum momento todas as áreas serão necessárias. Senão agora, depois da pandemia certamente. O melhor que podemos fazer sem dúvida é ficar em casa, não somente para não nos contaminarmos, mas também para não transmitirmos o vírus caso sejamos assintomáticos. Fiquem em casa!

A tecnologia hoje nos mostra um cenário muito diferente da época da gripe espanhola, temos acesso à informação em casa pela televisão e pelos celulares. Sabemos quase em tempo real a situação atual, mas também podemos nos estressar com excesso de informação. Então vamos usar os recursos de forma útil, e desconectar também é importante. Para que a saúde mental se mantenha bem.

Tecnologia e proteção temos, é só usar com responsabilidade.

 

Referências

ttps://blogs.oglobo.globo.com/blog-do-acervo/post/coronavirus-resgata-recomendacoes-e-medidas-restritivas-da-epidemia-de-gripe-espanhola.html

Batista, F. Você conhece um ventilador pulmonar? Saiba o seu funcionamento e as principais falhas. https://blog.arkmeds.com/2018/02/23/saiba-o-funcionamento-e-as-principais-falhas-de-um-ventilador-pulmonar/ Acesso em 15 de abril de 2020

Button, V. L. S. N. Equipamentos médico hospitalares e gerenciamento da manutenção. Ministério da Saúde, Brasília, 2002.

https://www.myminifactory.com/object/3d-print-faceshield-hardware-pe-flat-protetor-facial-116206

https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/covid-19-orientacoes-sobre-o-uso-de-mascaras-de-protecao/

https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-04-08/como-fazer-sua-mascara-de-protecao-em-casa.html

https://ciclovivo.com.br/covid19/aprenda-a-fazer-uma-mascara-caseira-segura/

https://www.folhadelondrina.com.br/tags/coronavirus

https://www.segurancadopaciente.com.br/protocolo-diretrizes/mascaras-n95-recomendacoes-para-uso-prolongado-e-reutilizacao/

https://jornal.usp.br/ciencias/camara-de-ozonio-criada-na-usp-descontamina-ate-mil-mascaras-em-duas-horas/

https://www.samel.com.br/wp-content/uploads/2020/04/samel-cabine-de-protecao-passo-a-passo.pdf

https://bncamazonas.com.br/municipios/samel-esclarece-capsula-vanessa/

https://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/coronavirus?utm_source=adwords_msf&utm_medium=&utm_campaign=covid-19_comunicacao&utm_content=_epidemias_brasil_39923&gclid=CjwKCAjwhOD0BRAQEiwAK7JHmDjMZqxn3qUvtD2bbBXqkDJmv4THPTlI_xTQ-OY_DL04ST3ebcxB6RoCn8sQAvD_BwE

https://www.ufpr.br/portalufpr/noticias/engenheiros-da-ufpr-criam-grupo-para-consertar-e-fazer-a-manutencao-em-respiradores-hospitalares/

 

 

0

O dia em que a Terra parou: crises e oportunidades para pensar a vida na atualidade

image0

Acervo pessoal

Há alguns meses, dificilmente imaginaríamos a situação de confinamento que estamos vivendo hoje. Naquele momento, o COVID-19 era algo que estava no radar, mas ainda bem distante, sendo mais um problema internacional, do que algo que poderia trazer as drásticas mudanças vivenciadas atualmente. No dia 11 de março de 2020, a OMS define que estamos numa pandemia do novo coronavírus, anunciando a extensão e a gravidade do que estaria por vir. A velocidade de disseminação da doença acaba coincidindo com as transformações acarretadas na vida de todas as brasileiras nas últimas semanas. A maior parte dos estados brasileiros decretou o “distanciamento social”, recomendando que as pessoas deixassem de circular livremente e proibindo aglomerações. Todos os serviços considerados não essenciais pararam de funcionar e eventos coletivos foram adiados ou cancelados.

Do ponto de vista prático, cada pessoa teve seu cotidiano diretamente impactado em todas as suas esferas: trabalho, educação e vida social para resumir os principais eixos. As instituições tiveram que se adaptar à necessidade de reclusão populacional imposta para diminuir o contágio e evitar o colapso dos serviços de saúde. Home office e aulas online passaram a ser a rotina de muitas famílias brasileiras, estabelecendo um arranjo familiar nunca visto antes. Nesse sentido, torna-se difícil vislumbrar quais serão as consequências psicossociais dessa nova dinâmica de vida, no entanto, fica fácil perceber que não sairemos os mesmos dessa pandemia.

Pensando nas relações pessoais, fortes desafios estão sendo colocados para as famílias, diante da imposição de uma convivência intensa e prolongada restrita à rotina domiciliar. Um fator que não pode deixar de ser mencionado, se refere à ausência de trabalhadoras domésticas nas casas das classes média e alta, exigindo que as famílias se organizem nessa gestão cotidiana. Trata-se de uma excelente oportunidade para construir uma divisão de tarefas domésticas e cuidado com os filhos mais igualitária e justa, a partir da inclusão dos homens, redefinindo esses papéis sociais e problematizando questões de gênero tão silenciadas no mundo doméstico.

Para dar conta dessas diversas mudanças, uma série de dicas, manuais, recomendações e orientações brotaram no mundo virtual com o objetivo de apaziguar as dificuldades que advém de uma situação de confinamento. Ansiedade, depressão e síndrome do pânico estão entre os principais quadros de saúde mental que têm assolado as sociedades contemporâneas. Para profissionais de saúde, é interessante conhecer o guia de saúde mental da OMS para emergências humanitárias que foi recentemente traduzido para o português pela sua contribuição no manejo de casos, especialmente em contextos difíceis como essa pandemia do coronavírus. Diante desse contexto, especialistas do campo da saúde mental avaliam que essa situação de confinamento é preocupante e deve ser a atenção devida, considerando que aproximadamente 4,5 bilhões de pessoas estão nessa condição. As indefinições não apenas sobre quando se encerrará o confinamento, mas sobretudo a impossibilidade de vislumbrar as consequências pós-pandemia e as inseguranças a que todas estamos submetidas são aspectos importantes que afetam diretamente nossas vidas e também nossa saúde mental.

Sabemos que uma coisa é desejar ficar em casa, outra coisa completamente distinta é ser obrigada a ficar em casa. Dizendo de modo mais enfático: não poder sair de casa. Essa “pequena” diferença pode se tornar um fator extremamente estressor e/ou ansiogênico para muitas pessoas. O que podemos afirmar é que essa conjuntura de confinamento acentua dificuldades e conflitos preexistentes, ou seja, uma pessoa ansiosa tende a ficar mais ansiosa; um indivíduo hipocondríaco tem uma propensão a agravar seus sintomas; uma situação de violência de gênero apresenta uma probabilidade de piora e assim por diante. No Rio de Janeiro, nos primeiros dias de confinamento, verificou-se o aumento de 50% de casos de violência doméstica, representando aproximadamente 70% da demanda de plantão da Justiça nessa localidade. Preocupado com essa situação, o Estado de São Paulo está viabilizando que ocorrências de violência doméstica possam ser relatadas diretamente no site da Polícia Civil, divulgando também um passo a passo de como fazer a denúncia.

Vale ressaltar que uma tendência não significa uma profecia, ou melhor dizendo, poder agravar não quer dizer necessariamente que irá agravar. Diversas outras variáveis estão em jogo nessa dinâmica, podendo resultar em diferentes cenários. A capacidade das pessoas em lidar com adversidades, o livre arbítrio e as redes de apoio são fundamentais nessa complexa matemática da vida cotidiana.

O psicanalista Christian Dunker, em recente entrevista, falando sobre as reações das pessoas diante da pandemia, compreendeu existir três grandes grupos de pessoas: os “tolos” que negam a situação e seguem sua vida como se nada houvesse; os “desesperados” que ficam reféns do contexto e se sentem completamente impotentes e os “confusos”, que oscilam entre os dois primeiros. Talvez seja o momento de construirmos o quarto grupo como sendo aquele que consegue reconhecer a gravidade da conjuntura sem se deixar paralisar e, ao mesmo tempo, é capaz de extrair possibilidades diante de tamanha adversidade.

Fazendo uma alusão ao clássico de Raul Seixas, podemos aproveitar esse momento em que a Terra parou para perceber a vida que levamos e o que, de fato, desejamos dessa vida que levamos. Além das fortes e abruptas restrições impostas, fica evidente como literalmente tivemos que parar, algo impensável em contextos neoliberais comandados pelos imperativos de lucro e produtividade. Os modelos usuais de trabalho, educação, consumo, lazer e meio ambiente já estão sendo repensados nessas poucas semanas de confinamento mundial, começando a incomodar o sistema socioeconômico vigente. Os elementos para pensarmos uma organização social distinta da atual já estão se colocando no cenário, possibilitando a adoção de uma nova forma de vida.

Nesse sentido, podemos olhar essa situação como um convite para perceber essa crise, na perspectiva oriental, ou seja, crise não apenas como uma situação difícil, mas também como oportunidade. Assim, fica a reflexão: já que fomos obrigadas a parar, o que realmente importa?

Referências:

OMS afirma que COVID-19 é agora caracterizada como pandemia. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6120:oms-afirma-que-covid-19-e-agora-caracterizada-como-pandemia&Itemid=812. Acesso em 15 mar 2020.

Manejo Clínico de Condições Mentais, Neurológicas e por Uso de Substâncias em Emergências Humanitárias. Guia de Intervenção Humanitária mhGAP (GIH-mhGAP). Disponível em: https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/51948/9789275722121-por.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em 2 abr 2020.

Especialistas pedem mais atenção à saúde mental por confinamento. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/afp/2020/04/19/especialistas-pedem-mais-atencao-a-saude-mental-por-confinamento.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 19 abr 2020.

Violência doméstica cresce 50% na quarentena do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/03/24/violencia-domestica-rj-quarentena.htm. Acesso em 19 abr 2020.

Passo a passo para você registrar ocorrência de violência doméstica e familiar contra a mulher. Disponível em https://api.tjsp.jus.br/Handlers/Handler/FileFetch.ashx?codigo=119216. Acesso em 19 abr 2020.

Christian Dunker: a pandemia no divã. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-52160230. Acesso em: 7 abr 2020.

3

Por que chineses trocam o “r” pelo “l” e por que o Ministro está errado?

Em meio a um contexto de intensa crise política e social e diante do incontestável cenário de avanço mundial da pandemia de COVID19, o Ministro da Educação do Brasil atuou como um dos protagonistas de uma crise diplomática que tem se desenvolvido entre o Brasil e a China. Em um post realizado em seu perfil no twitter, Abraham Weintraub não apenas insinuou que “alguém” estaria por trás da pandemia com o objetivo de sair fortalecido geopoliticamente e que, para tanto, contaria com aliados no Brasil, como também utilizou em seu texto dois recursos para responder àquilo que ensinuou em forma de pergunta: a capa de uma revista em quadrinhos da Turma da Mônica, da qual a história se passa na China, e a marcação gráfica da troca de “r” por “l”, característica comumente associada à pronúncia de chineses falando português. Há, pelo menos, duas características fundamentais na construção desse post sobre as quais vou discorrer a seguir.

postministro

A primeira delas diz respeito a como a narrativa construída no post segue elementos característicos de uma teoria da conspiração. De acordo com o especialista em pandemias Steven Taylor (2019), essas teorias são muito comuns em momentos de pandemia e geralmente buscam fornecer uma explicação simples sobre “porque alguém fez algo, quem se beneficiou disso e quem devemos culpar”. Tipicamente, esses discursos são construídos por meio de perguntas retóricas que tentam desafiar visões aceitas ou mais estabelecidas e que, ao mesmo tempo, são vagas o bastante para que os “fatos” mencionados não sejam passíveis de verificação (a vagueza das afirmações não permite que a hipótese levantada possa ser testada). Além disso, as teorias da conspiração geralmente se opõem abertamente a narrativas oficias. É curioso observar, nesse caso, que, desde sua condição de autoridade enquanto Ministro da Educação de uma nação, o autor se oponha a um outro discurso que seria oficial (mas a quem ele não atribui autoria de modo declarado). Ao invés de assumidamente “anticientífico”, esse discurso tenta se construir como “antissistêmico”, ainda que a voz do autor só seja ouvida com a amplitude que tem atualmente devido ao cargo oficial que ocupa dentro do sistema.

A segunda delas diz respeito mais especificamente à grafia utilizada no texto que marca a troca de “r” por “l”, traço linguístico usualmente associado à fala de chineses mediante palavras com a ocorrência do som de “r”. Vale mencionar que embora qualquer pessoa provavelmente apresente diversas dificuldades ao falar uma determinada língua que não aquela em que é nativa, em nosso país, o chavão “pastel de flango” talvez seja uma das “piadas” mais amplamente conhecidas que têm como alvo aspectos da pronúncia de imigrantes falando nossa língua. Em um post antigo aqui do blog falei um pouco sobre alguns efeitos de determinados temas que, ao se tornarem alvos de piadas, acabam  produzindo e revelando, concomitantemente, nossas percepções sobre a língua e nossa sociedade. Neste post, contudo, vou me dedicar a explicar um pouquinho mais a respeito desse fenômeno (substituição de “r” por “l”, como em “plato” no lugar de “prato”) conhecido dentro da linguística por “lambdacismo”.

Esse tipo de ocorrência é bastante frequente entre pessoas com uma condição congênita popularmente conhecida como “língua presa”, crianças e imigrantes chineses. O primeiro caso, com o qual se costuma associar o personagem do quadrinho, Cebolinha, consiste em uma condição em que a membrana inferior da língua (o “freio”) é muito curta ou pode estar muito próxima da ponta da língua, dificultando alguns movimentos no momento da fala. Com o treino adequado, contudo, é possível que o falante consiga aprender como articular os diferentes sons. O próprio Cebolinha, ao crescer, para de realizar a troca de “r” por “l”, como é possível observar nos desenhos e quadrinhos da Turma da Mônica Jovem.

No que diz respeito às crianças, embora por muito tempo tal característica tenha sido associada a algum tipo de patologia causadora de atraso no desenvolvimento da fala (diagnosticada em alguns casos como“dislalia”), cada vez mais cresce na literatura dedicada ao tema a defesa de que essa dificuldade na pronúncia se daria, dentre outros fatores, pela mesma razão em que ocorre entre falantes chineses. Tanto “r” como “l” são o que chamamos de “consoantes líquidas” e têm o mesmo modo e o mesmo ponto de articulação. Além disso, diversos estudos na linguística demonstram que, devido à sua complexidade, a consoante líquida não lateral (como o “r”) em diversas línguas é aquela mais tardiamente desenvolvida pelas crianças e também uma das primeiras a ser perdida em casos de afasia.

No que diz respeito às similaridades entre “r” e “l”, o movimento que realizamos com nosso aparelho fonador para realizar as duas pronúncias é extremamente parecido. Ative o áudio do seu computador e dê uma olhadinha no vídeo a seguir para poder visualizar melhor ao que me refiro:

 

Por conta das características das duas consoantes, é muito fácil que ocorra certa dificuldade na distinção entre uma e outra tanto na articulação de cada uma delas no momento da fala quanto na percepção dos dois sons por parte daqueles que ainda não estão devidamente habituados a eles. Essa dupla dificuldade de distinção, aliás, não se dá por acaso, pois é muito mais difícil para os falantes produzirem sons que não são capazes de reconhecer ao os ouvirem.

A língua chinesa tem dentre seus sons aquele que representamos com a letra “l”, contudo, não tem o som de “r”. Por isso, diante de uma construção em que ocorre o som de “r”, chineses tendem a substituí-lo em suas falas por “l” (que, como já mencionado, tem pontos de articulação muito similares a “r” e, portanto, é o som mais próximo a esse dentre aqueles que eles conhecem). Além disso, ao ouvir alguém emitindo uma palavra com esses som, chineses tendem também a perceber o som de “r” como um som mais próximo de “l”.

Vale a pena ainda mencionar que esse tipo de fenômeno ocorre em final de sílaba (como em “carne”/”calne”) ou quando “r” é antecedido por outra consoante (como é o caso de “cravo”/”clavo”). Diferente daquilo sugerido pelo ministro com as construções “sel”, “dominal” e “sail”, porém, essas substituições jamais ocorrem em final de verbo no infinitivo em que, mesmo entre falantes nativos de português, o que costuma acontecer é o apagamento de “r”, de modo que na fala corrente pronuncia-se “sê” no lugar de “ser”, “dominá” no lugar de “dominar” e assim por diante.

Essa pode ser uma oportunidade para mencionar também que o fenômeno de troca no sentido contrário, ou seja, de “l” por “r” (“probrema” no lugar de “problema) ocorre no português falado no Brasil e é chamado por linguistas de “rotacismo”. Embora esse fenômeno seja alvo de muito preconceito nos grandes centros urbanos, em cidades menores do país, mesmo pessoas com alto nível de escolaridade falam dessa forma. O que é bastante curioso é que filólogos estudiosos do português como Nascentes (1953) vêm demonstrando como esse processo de troca do “l” por “r” na transição do latim para o português fez com que palavras de nossa língua fossem como as conhecemos hoje:

blandu (latim) > brando (português)
clavicula (latim) > cravelha (português)
flaccu (latim) > fraco (português)
gluten (latim) > grude (português)
plancto (latim) > pranto (português)

Desses exemplos, talvez tenha ficado minimamente ilustrado como fenômenos linguísticos que são altamente estigmatizados e ridicularizados em um determinado período por determinados grupos provavelmente já fizeram ou farão parte da história das línguas. Observar justamente quais fenômenos são selecionados como mais aceitos e corretos e quais são mais ridicularizados e rejeitados nos diz muito sobre nossos percursos sociohistóricos e, na maior parte do tempo, sobre nossa ignorância a respeito do processo de formação de nossas próprias línguas.

*

Para saber mais:

Neste site é possível brincar vendo a articulação de diversos sons da nossa língua e consultar materiais muito interessantes http://www.fonologia.org/fonetica_consoantes.php

Para saber um pouco mais sobre essas mudanças no português (e de sobra descobrir por que é possível falar em um “português brasileiro”), sugiro ouvir os episódios 2 e 3 do podcast Linguística Vulgar https://anchor.fm/lingustica-vulgar-podcast

Aqui tem um vídeo muito interessante do canal Vox (em inglês) sobre as pronúncias de chineses e japoneses e suas representações na cultura pop https://www.youtube.com/watch?v=2yzMUs3badc

Um vídeo muito importante da Sissi, chinesa que vive há 9 anos no Brasil, sobre as piadas geralmente feitas com a pronúncia de chineses e como é para ela emitir esse som https://www.youtube.com/watch?v=ezyZMvZzhkI

Referências

DA SILVEIRA, Regina Célia Pagliuchi. Estudos de fonologia portuguesa. Cortez Editora, 1986.

ESPÍRITO SANTO, Julia Maria França. Entre o campo e a cidade: rotacismo em São Miguel Arcanjo. Dissertação (Mestrado). Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Departamento de Linguística. 2019.

MARCHESAN, Irene Queiroz. Frênulo de língua: classificação e interferência na fala. Rev Cefac, v. 5, n. 4, p. 341-5, 2003.

MASSI, Giselle. A dislexia em questão. São Paulo: Plexus Editora, 2007.

MENYUK, Paula. Children with language problems. What’s the problem: Georgetown University roundable on language and linguistics. Washington, DC: George Town University Press, 1975.

MIRANDA, Ana Ruth M. A aquisição do “r”: uma contribuição à discussão sobre seu status fonológico. Porto Alegre: Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 1996.

NASCENTES, Antenor. O linguajar carioca. 2. ed. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953.

TAYLOR, Steven. The Psychology of Pandemics: Preparing for the Next Global Outbreak of Infectious Disease. Cambridge Scholars Publishing, 2019.

0

Trabalhando na era coronavírus ou como meu dia mudou

Chego ao hospital com um saquinho com três pães (um para mim e para mais dois colegas), abro meu setor, acendo as luzes e começo a reunir objetos de teste e as fontes radioativas para aferir os equipamentos da seção de medicina nuclear do hospital de câncer onde trabalho. É uma movimentação e tanto. São três grandes equipamentos e, enquanto caminho pelo setor preparando fontes, atenta aos tempos dos controles de qualidade de cada um deles, pergunto como está a netinha da auxiliar de limpeza, converso sobre maternidade com a médica que tem três filhos mais velhos que os meus, peço a receita da torta salgada maravilhosa da técnica de enfermagem e discuto protocolos com um físico amigo meu. Na verdade, não faço mais nada disso há quatro semanas. Todo o balé que compreendia minhas tarefas e a chegada de funcionários e pacientes silenciou e foi substituído por falas e aproximações essenciais abafadas por máscaras e luvas intocáveis. O contato físico, agora quase inexistente, foi trocado pela incessante lavagem das mãos e higienizações com álcool gel.

Apesar de todos os meus estudos formais terem sido na área de exatas, sou uma profissional de saúde. E, como uma física dentro de um hospital, considero-me um pouco como uma “forasteira de dentro” da Patrícia Hill Collins ou uma “estrangeira” de Simmel nessa interface entre a rigidez da física e a imprevisibilidade da medicina. De onde eu falo, há muitos privilégios nesse momento. O hospital no qual trabalho não é generalista, ou seja, atende um grupo bem específico de pacientes e a posição que exerço não está exatamente na ponta do enfrentamento do COVID-19. Ainda assim, o que vejo em minha prática diária, são pessoas, profissionais da saúde, que estão trabalhando em carga total, no limite da exaustão, do medo, da insegurança para atenderem a população no meio desta pandemia.

Tenho uma colega enfermeira, cujo marido é dono de uma loja que está fechada por conta da necessidade de isolamento social. E para dar conta das suas responsabilidades financeiras (os dois sustentam uma família extensa), ela passou a fazer plantões extras noturnos, que pagam mais. Mas na prática, o que isso significa é que ela está, voluntariamente, se expondo mais à possibilidade de contaminação por um contexto econômico, que certamente não está dissociado de nossas preocupações.

Somos mães, filhos, cuidadores e cuidadoras que fomos jogadas nesse caos e que, a cada semana, recebemos orientações diferentes para administrar a crise (uma vez que tudo é muito novo para nós). É exaustivo, mas seguiremos.

stay at home

Casa foto criado por crowf – br.freepik.com

A despeito do que muito foi dito nestes últimos 15 meses, são os profissionais da saúde pública, servidores e servidoras, cientistas de universidades públicas que têm trabalhado dobrado para conter esta pandemia. É a eles e elas a quem devemos nossa gratidão e é deles e delas que devemos lembrar quando falarmos em recursos para saúde, educação, ciência e tecnologia. Li hoje um artigo que dizia “cientista não acredita, cientista testa”, nós fomos treinadas a seguir um método e várias recomendações rígidas de confiabilidade para garantir que tudo que estudamos possa ser reproduzido com segurança. E o que a ciência te diz hoje é, se puder, fique em casa. Fique em casa para que, aqueles que não possam, consigam trabalhar mais seguros e para que eu possa voltar a trabalhar o quanto antes com meu saquinho de pão.

 

Referências:

Patricia Hill Collins. Aprendendo com a outsider within: a significação sociológica do pensamento feminista negro. Revista Sociedade e Estado – Volume 31, Número 1, Janeiro/Abril 2016. http://www.scielo.br/pdf/se/v31n1/0102-6992-se-31-01-00099.pdf

Georg Simmel. O estrangeiro. 1950 https://www.academia.edu/9565522/Georg_Simmel_-_O_Estrangeiro

Stephen M. Kissler, Christine Tedijanto, Edward Goldstein, Yonatan H. Grad, Marc Lipsitch. Projecting the transmission dynamics of SARS-CoV-2 through the postpandemic period. Report | Science. 14 abril 2020 DOI: 10.1126/science.abb5793

Correia, Sergio and Luck, Stephan and Verner, Emil, Pandemics Depress the Economy, Public Health Interventions Do Not: Evidence from the 1918 Flu (March 30, 2020). https://ssrn.com/abstract=3561560

Mariana Schreiber. BBC News Brasil em Brasília. Cidades dos EUA que usaram isolamento social contra gripe espanhola tiveram recuperação econômica mais rápida, diz estudo. 28 março 2020. https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52075870

Ignacio Fariza. El País. Lições de 1918: as cidades que se anteciparam no distanciamento social cresceram mais após a pandemia. 30 março 2020. https://brasil.elpais.com/economia/2020-03-30/licoes-de-1918-as-cidades-que-se-anteciparam-no-distanciamento-social-cresceram-mais-apos-a-pandemia.html

0

Mulheres Palhaças: que história é essa?

Introdução

Embora a presença das mulheres na comicidade humana seja tão antiga quanto a dos homens, percebe-se que, tanto no cinema, teatro ou na televisão, a presença de mulheres como palhaças ganhou força nos últimos vinte anos. Assim, o destaque para a atuação cômica masculina em relação às femininas por muito tempo ganhou o imaginário  da população ao se falar na arte do palhaço.

Não raro, a comicidade acerca de um imaginário de  grupos marginalizados socialmente, em especial das mulheres, enfatizava e ridicularizava  os corpos e trejeitos femininos a partir da atuação e do olhar masculino.

Assim a construção de uma comicidade feminina em uma história considerada oficial, vem de um olhar masculino sobre os corpos e o imaginário acerca da mulher na sociedade. Na comédia grega Lisístrata, de Aristófanes, por exemplo, as mulheres utilizam a abstenção sexual para interromperem a guerra do Peloponeso. Escrita, e possivelmente atuada por homens, a peça tem uma comicidade relacionada aos corpos e instintos das mulheres. Como é possível perceber no seguinte diálogo (ARISTÓFANES,  2007, p.20-21)

Lisístrata-  Pois bem, vocês terão que se abster daquela pequena parte do homem que mais o classifica como tal. Ué, por que viram as costas? Onde é que vocês vão? Você aí por que morde os lábios? E você, por que balança a cabeça desse jeito? Estão todas pálidas! Até há algumas amarelas. Mudaram todas de cor. Estão chorando? Respondam, ao menos! Vão ou nao cumprir  o que prometeran? Qual é a dificuldade?

Cleonice- Pra mim, total. Eu não  resisto. Que a guerra continue.

Mirrina- Eu também. Que continue a guerra!

Lisístrata- ( para Mirrina). Mas não  era você que estava disposta a comer o próprio braço? 

Mirrina- Estou disposta a sacrificar esse membro, mas não a me privar do outro. Tudo, tudo que você quiser, amada Lisístrata. Menos isso.   

Outro exemplo, encontra-se no Mito de Perséfones, através da personagem  de Baubo que, não possuindo equivalente na mitologia romana, também aponta para a comicidade a partir da questão  corporal-sexual, assim

Vamos comemorar! Nós temos nossos úteros, nossas vulvas, nossa vida. Vamos dançar! Tente… não custa nada, dançar e rir ainda é de graça. Coloque a palma de suas mãos  um pouco abaixo do centro do abdômen ( em cima do útero) e embale- se em uma dança improvisada. Quando estiver pronta, ria alto e o quanto puder. Rir é contagioso, portanto, a partir de hoje, sorria muito e infecte o mundo com a epidemia de seu sorriso ( Felix, 2009).

Mulheres e palhaços no circo.

Em relação à figura do palhaço no ambiente circense, destaca-se que, embora seja possível encontrar a comicidade feminina em diversos papeis, a presença, atuação e, principalmente, o reconhecimento das mulheres nesta arte é considerada uma conquista recente. A história dessa relação aponta para o fato de que, na necessidade de substituir o palhaço do espetáculo, a mulher, em especial, deveria esconder-se sobre as roupas, figurinos e maquiagens dos tipos estabelecidos e reconhecidamente masculinos. 

Em geral, o palhaço é considerado uma figura importante no circo, e sua relação direta com o público garante, em muitos circos, a boa temporada na praça. Ainda que as mulheres participassem de toda estrutura do espetáculo circense (SILVA, 2009), as exigências sociais de comportamento para estas, era a mesma, tanto para o espaço público público quanto para o privado. 

Acrescenta-se que, embora dotada de muito improviso e relação com o público, a comicidade dos palhaços tradicionais girava em torno das relações de submissão de mulheres e grupos socialmente marginalizados em relação ao universo masculino (branco, heteronormativo , rico, fisico e mentalmente aptos,…).Em alguns momentos, a presença de mulheres palhaças deu-se na função de parceiras de cena para o palhaço, destacando- se que este seria, em geral, parente ou marido desta. 

Para alguns circenses, historiadores e pesquisadores, esse papel, secundário, visava “preparar a cena para o palhaço principal que, no final carregaria a graça do espetáculo. Esta função feminina, para alguns pesquisadores, colocaria as mulheres na condição de “bonitinhas, que faziam uma coisinha ou outra”, mas a graça mesmo ficaria com o palhaço ( CASTRO, 2005).

Assim, durante muito tempo esta arte foi vista como um campo de atuação exclusivamente masculino. A possibilidade de criação, atuação, reconhecimento e, sobretudo, reflexão das mulheres palhaças e de outras comicidades  ganhou notoriedade no Brasil e no mundo, com o surgimento das instituições formais de ensino voltadas para a arte circense a partir de 1974, ganhando destaque em 1980, assim, iniciativas como Ringling Bros. & Barnum Clown College (Estados Unidos); L’École de Cirque Annie Fratellini (França), Escuela de Circo Criollo ( Argentina), surgiram a partir de circenses tradicionais e tinham uma inquietação em comum acerca da continuidade do espetáculo.

Percebemos que o circo tinha cada vez menos artistas. Os que tiveram sorte foram para Europa ou Estados Unidos, e decidimos abrir a escola para incorporar sangue novo. Os nossos se opuseram. Estávamos em um momento errado… Acrescento, até meu pai não quis aceitar. Me disse: vai tirar o trabalho dos teus..(INFANTINO, 2016, p. 86)

Assim como a falta de artistas, a preocupação com a continuidade do espetáculo foi um fator motivador e comum ao surgimento de diversos espaços de ensino, a resistência de alguns circenses tradicionais também foi considerada uma preocupação relevante no processo de surgimento dessas escolas. 

No Brasil, algumas escolas que surgiram no final dos anos 70 também tiveram reflexos dessas inquietações  e resistências, tais como Academia Piolin de Artes Circenses (SP); Escola Nacional de Circo, no (RJ) e Circo Escola Picadeiro (SP). 

A presença desses espaços permitiu que outras escolas de circo surgissem  a partir de artistas sem parentesco com a lona, como a Escola Picolino de Artes Circenses (BA), criada por Verônica Tamaoki e Anselmo Serrat, ex- alunos das iniciativas paulistas. Atualmente localizada em Salvador, a escola destina-se à transmissão desta arte à pessoas de fora da lona, mulheres e  socialmente marginalizados. Assim, sem nenhuma necessidade de parentesco ou afetividade com circenses e/ou palhaços, que permitiu o maior acesso e liberdade de criação, sobretudo feminina nesta arte.

A resistência  a estes espaços deve- se ao fato de que, para os artistas considerados tradicionais o aprendizado circense ocorria no dia- a- dia do circo, na observação, treino e repetição cotidiana. Assim, para estes, a ideia de um espaço físico fora da lona seria impensável, além  de criar uma concorrência com os tradicionais.  

Por outro lado, enfrentando a oposição de seus familiares, uma pequena parcela de circenses, viu, nestes ambientes, não  a perda de um espaço de atuação profissional, mas de uma oportunidade, empregabilidade e difusão de suas artes e saberes .

Sobre a arte do palhaço, alguns circenses consideravam, outros ainda consideram, que seu ensino seria inútil, pois haveria o dom, que deveria ser aperfeiçoado. Para o palhaço de rua argentino Tomate, a escola seria um espaço importante de aperfeiçoamento e destaca que não  chegou a ser palhaço apenas pelo dom, mas pela busca constante de melhora de si e de sobrevivência. O circo de rua foi se definindo pela luta, crítica e trangressão (INFANTINO, 2016, p. 92). 

Em outro aspecto, a presença do palhaço, para além dos espaços da lona, e das escolas específicas, alcançou a academia, auxiliando na formação de inúmeros artistas de teatro. Essa outra vertente, cuja presença do palhaço atua nos palcos, está presente desde as origens desse personagem. No séc. XVII, a Commedia Dell’Arte apresenta, a partir de seus personagens, uma comicidade corporal, que dispensava questões  psicológicas. A carcterizaçao de jma comicidade a partir do corporal e da maquiagem também será observada no XIX, através do artista inglês Joseph Grimaldi que caracterizou-se a partir da pantomima e da maquiagem do palhaço, sua iniciativa serviu de inspiração para diversos artistas. Na iniciativa da Antiga União Soviética em 1920, a figura do palhaço foi uma importante ferramenta para o trabalho e aperfeiçoamento da técnica do artista de teatro que deveria servir para a luta do artista. Anos depois, na França, o artista Jacques Lecoq, retoma o trabalho corporal presente na Dell’Arte, para aperfeiçoamento do artista de teatro (SANTOS, 2014). 

Sobre as diferenças entre atuações dos palhaços de circo e de teatro, a artista paulista Cristiane Paoli Quito, cuja formação nesta arte ocorreu a partir da iniciativa de Lecoq, afirma que uma diferença entre os palhaços de circo e de teatro (SANTOS, 2014) estaria na energia destes personagens. Afirmação defendida por Burnier e pelo Lume teatro, escola de formação ligada à Universidade de Campinas.

Na mesma linha de formação, artista, Cida Almeida, baiana cujo contato com a arte do palhaço ocorreu através do curso na Escola de Artes Dramáticas, na Universidade de São Paulo, afirma que o palhaço precisa acompanhar as diversas mudanças sociais, políticas e econômicas de sua realidade (SANTOS, 2014), mas, principalmente, que a busca pelo palhaço seria, na realidade, uma busca pela aceitação pessoal. 

Considerações

Assim, diversos interesses pessoais e sociais norteiam a busca de mulheres por essas iniciativas. Novos tipos de referências, reflexões e construções surgem para os palhaços e palhaças que ultrapassam a construção do personagem a partir do figurino e da maquiagem, atingindo novos patamares e questionamentos: gêneros, cis, trans, politicamente correto, incorreto, tudo passa a ser questionado, vivenciado, regras passam a ser apoiadas em novas estruturas cômicas e mulheres, assim como diversos grupos marginalizados passaram a rir de si mesmas, de seus universos femininos e, principalmente, dos masculinos.

Referências Bibliográficas

AVANZI, Roger; TAMAOKI, Veronica. Circo Nerino: São Paulo: Pindorama Circus: CÓDEX, 2004. 

AVANZI, Roger. La Mínima. In. La Mínima em cena: Registro de Repertório de 1997 a 2012. São Paulo: SESI-SP editora, 2012. Pgs. 17-19.

CASTRO, Alice Viveiros de. O Elogio da Bobagem: Palhaços no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: Família Bastos, 2005.

FELIX, Helena. Baubo: o poser da alegria. In. Sagrado Feminino, 2009. Disponível  em <<sagrado.feminino.blogspot.com>>, acesso em 12 de abril de 2020.

JARA, Jesús. Los juegos teatrales des clown: navegante de las emociones.Buenos Aires: Centro de publicEducativas

JUNQUEIRA, Mariana Rabelo. Da Graça ao Riso: contribuições de uma palhaça sobre a palhaçaria feminina. Dissertação (Mestrado). Defendida no departamento de Artes cênicas, UNIRIO, Rio de Janeiro. Orientador: Paulo Merísio, em 2012.

LEITE, José Wilson. “La Mínima”. In. La Minima em cena: Registro de Repertório de 1997 a 2012. São Paulo: SESI-SP editora, 2012. 

RÉMY, Tristan. Les femmes-clowns et les femmes-augustes. In: Les Clowns. França: Editíons Grasset & Fasquelle. 1945.

SANTOS, Sarah Monteath. Mulheres Palhaças: Percursos históricos da palhaçaria feminina no Brasil. Dissertação (mestrado). Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”- Instituto de Artes. São Paulo: 2014. Orientadora: Profª.Drª.Erminia Silva.

SILVA, Erminia. Respeitável Público… O Circo em cena. Rio de Janeiro: FUNARTE, 2009. 

SILVA, Guy. Le Cirque dans tous ses éclats. Paris: Le Castor Astral, 2000.

0

Brasil à Frente no Sequenciamento e Estudo do Coronavírus

A ciência brasileira é bastante respeitada no cenário mundial, em grande medida devido ao comprometimento e trabalho árduo dos nossos cientistas. Um exemplo inspirador foi o sequenciamento em somente 48 horas do coronavírus (SARS-CoV-2) do primeiro paciente registrado na América Latina, que foi contaminado na Itália. Como referência, outros países levam em média 15 dias para fazer o mesmo. Duas cientistas de destaque nesse projeto são a Dra Ester Sabino e a Dra Jaqueline de Jesus. Elas observaram que o vírus sequenciado no Brasil possui muitas semelhanças com o vírus sequenciado na Alemanha. Isso pode ser explicado a partir das pesquisas de cientistas italianos, que mostraram que o vírus chegou na Itália a partir da Alemanha.

Dra Ester Sabino (esquerda) e Dra Jaqueline de Jesus (direita). Crédito: USP Imagens e Currículo Lattes.

Mas o que é sequenciamento e o que podemos descobrir a partir dele? Todos os organismos, desde os vírus até os mamíferos têm material genético, ou genoma. O genoma é como um livro de receitas para a vida. Cada parágrafo desse livro contém uma instrução para o funcionamento celular. No caso do SARS-CoV-2, por exemplo, alguns capítulos (ou genes) são responsáveis pela produção da estrutura viral, outros pelos meios de infecção. Além de determinar as funções celulares, quando um vírus se reproduz, o genoma é passado adiante. Sequenciamento é a decodificação do genoma.

Isso tudo é feito a partir de uma pequena amostra de mucosa do paciente, do nariz ou boca. O genoma do vírus é extraído a partir da amostra por meio de técnicas de biologia molecular e enviado para um aparelho de sequenciamento. Essa tecnologia tem se desenvolvido enormemente nas últimas décadas. A técnica utilizada por Ester e Jaqueline, chamada MinION é portátil e barata, o que facilita o monitoramento de epidemias de diferentes organismos. É importante salientar que além da tecnologia avançada e relativamente barata, a experiência da equipe de pesquisa brasileira com estudos prévios de dengue e zika foram determinantes para o sucesso do sequenciamento do SARS-CoV-2. Isso mostra a importância do financiamento e apoio à pesquisa no nosso país.

Além das informações obtidas do aparelho de sequenciamento e do laboratório de biologia molecular, nós precisamos de técnicas de bioinformática e ciência da computação para compreender o significado do genoma. Com uma técnica de bioinformática denominada anotação, podemos descobrir onde estão os genes, e que funções eles têm. Também podemos comparar as sequências com outras cepas (variações) de coronavírus, e saber com quais delas o SARS-CoV-2 humano se assemelha. A partir dos genes, podemos também desenvolver tratamento e vacinas para a doença causada pelo vírus. Além dos estudos do genoma em si, os cientistas também aplicam simulações matemáticas para estudar como o vírus se propaga, e quais seriam as consequências de se aplicar diferentes políticas de quarentena para contenção do vírus. Essas simulações de propagação são muito bem explicadas nesse vídeo do canal 3Blue1Brown (que tem legendas em português disponíveis).

Sabemos sobre o genoma do SARS-CoV-2, a semelhança entre vírus de diferentes países e rotas de propagação. Mas de onde veio esse vírus originalmente, ele foi fabricado em laboratório? Um trabalho importantíssimo publicado na revista Nature Medicine estudou a origem do SARS-CoV-2 e mostrou que ele evoluiu em ambiente natural, e não surgiu em laboratório (ambiente artificial). A origem exata ainda é desconhecida, com duas hipóteses prováveis: evoluiu primeiro em humanos e foi passada a animais posteriormente, ou evoluiu primeiro em animais e foi passada a humanos posteriormente. Para obter esses conhecimentos, os autores deste trabalho compararam as cepas de coronavírus humana e de outros animais com uma técnica de bioinformática chamada alinhamento de sequências, na qual as sequências são agrupadas de acordo com similaridade (ilustrado na figura abaixo). O sequenciamento de mais amostras, tanto de animais quanto de humanos irá ajudar a descobrir a origem exata do vírus.

Genoma do coronavírus humano e comparações com sequências de outras espécies animais. Crédito: Andersen e colaboradores, revista Nature Medicine

É importante ressaltar que a comunidade científica e a indústria biomédica mundial estão trabalhando com afinco no desenvolvimento de vacinas e tratamentos para o SARS-CoV-2. Não existem medicamentos específicos contra SARS-CoV-2 no momento, e por isso medicamentos não tão eficazes estão sendo usados em casos mais graves. Apesar de todos os esforços, tais pesquisas são extremamente difíceis e delicadas, e não são imediatas. Cálculos atuais prevêem uma vacina para no mínimo o meio do ano de 2021. Para diminuir a taxa de contágio, governos e instituições do mundo inteiro estão aplicando políticas de quarentena. Atualmente, o distanciamento social é a principal medida de combate ao coronavírus.

Todos os estudos científicos do SARS-CoV-2 tem um valor imenso para os serviços de saúde e consequentemente para a população. Os cientistas estão nos apoiando diretamente nesse momento, assim como os profissionais da saúde. Mesmo se nós não somos da área de pesquisa ou saúde, podemos ajudar também no combate à pandemia ao praticar o distanciamento social o máximo possível, lavar as mãos com frequência e cuidar do nosso equilíbrio emocional e da nossa saúde física e mental.

Referências

[1] Primeiro Sequenciamento do SARS-CoV-2 no Brasil (29.02.2020)

[2] Brasileiras que lideraram o time de sequenciamento do SARS-CoV-2 (01.03.2020)

[3] Origem do SARS-CoV-2 no mundo (17.03.2020)

[4] Desenvolvimento de vacinas e tratamentos para o SARS-CoV-2 (02.04.2020)

[5] Coronavírus: cancelaram as aulas! E agora? (16.03.2020)

[6] Simulação de propagação viral (18.03.2020)

[7] Simulando uma epidemia (com legendas em português, 27.03.2020)