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O vírus do medo e a xenofobia

Desde as primeiras semanas desse ano, um medo vinha se alastrando pelo mundo sob o nome de coronavírus. Ainda não se sabe a causa [1] (e quem disser “sopa de morcego” provavelmente apenas se enganou por notícias falsas [2]), mas já impera o medo do vírus que se alastra antes mesmo de que apareçam sintomas [3], [4]. À medida que esses casos se acumulam – só no Brasil, já beiram os dois mil [5] -, precisamos dar um passo atrás para compreender melhor de onde viemos e para onde caminhamos.

No dia 30 de janeiro, a Organização Mundial da Saúde oficializou que se trata de uma “emergência de saúde pública de interesse internacional” segundo o Regulamento Sanitário Internacional (2007), um status conferido até então a apenas cinco epidemias [6],[7]. Acerca dessa mudança de postura, Deisy Ventura, docente na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), destacou aspectos tanto positivos, como o potencial aumento de “investimentos em pesquisa”, quanto negativos, tais como o “pânico” junto à população, pois, a seu ver:

“Todas as manchetes sobre o coronavírus que estão alarmando as populações mundo afora fariam melhor serviço se semeassem o pânico quanto ao desmonte dos sistemas públicos de saúde e à desvalorização da ciência. Estes sim são as grandes ameaças à segurança da saúde global.” Deisy Ventura, USP [7]

Longe de mera “retórica”, a ênfase da professora quanto à importância da saúde pública para combater epidemias desse nível consiste em um consenso internacional. Segundo especialistas da OMS: “Em epidemias contagiosas graves, é necessário acompanhar os contatos dos pacientes registrados para assegurar a identificação de todos os casos e limitar a disseminação da doença” (Bonita et. al., 2010, p. 126). Impossível pensar que planos de saúde privados poderiam dar conta dessa totalidade de casos sem o auxílio dos Estados, inclusive em áreas como alimentação e fisco [8], [9].

Na contramão desse auxílio, porém, ainda se fala muito em “corte de gastos” [10], [11], por um lado, e se testemunha muita xenofobia, pelo outro. Segundo o New York Times: “Em países da Ásia, empresas chegam a postar cartazes dizendo que chineses não são bem-vindos e pessoas chegam a assinar petições para proibir a entrada de cidadãos do país em seus territórios” [12]. Em São Paulo, o vírus da xenofobia não poupa sequer os descendentes de asiáticos, como a jovem escritora Fernanda Yumi, que sofreu um ataque no seu local de trabalho na maior cidade do país [13].

O fato de a China estar fazendo a sua parte a um ritmo impressionante [14], sem negar apoio material [15] e humano [16] a diversos países, já começa a mostrar resultados [17]. Resta a residentes em outras partes do mundo cobrarem de seus governos investimentos em saúde, ciência e tecnologia se quiserem ter igual segurança de um tratamento eficaz e gratuito para esta ou qualquer outra emergência que possa vir a surgir no futuro.

Quanto a nós, não teremos dúvidas na hora de escolher entre cobrar os governantes ou transmitir o preconceito. Esperamos de nossos leitores apenas o mesmo bom senso.

Referências

[1] Mercado de frutos do mar em Wuhan não foi origem do coronavírus, dizem cientistas (28.01.2020)
[2] Sopa de morcego exemplifica a desinformação e xenofobia no caso coronavírus (04.02.2020)
[3] Com casos confirmados em 13 países, coronavírus é transmissível antes dos sintomas aparecerem (26.01.20)
[4] Maioria dos casos de Covid-19 pode vir de pacientes assintomáticos, sugere estudo (16.03.2020)
[5] Worldometer – Coronavirus (Brazil) (Acesso em 23.03.2020)
[6] Coronavírus: o que significa a OMS declarar emergência global de saúde pública (30.01.2020)
[7] Coronavírus: não existe segurança sem acesso universal à saúde (31.01.2020)
[8] Covid-19: Criada Rede de Emergência Alimentar para população mais carenciada (20.03.2020)
[9] Com coronavírus, Itália anuncia suspensão de impostos e outras medidas de alívio (11.03.2020)
[10] Capes recua e diz que não cortará bolsas de estudantes no exterior por causa de coronavírus (19.03.2020)
[11] Governo facilita reduzir jornada e salário de funcionários e permite antecipação de feriados (18.03.2020)
[12] Sentimento anti-China se espalha com a propagação do Coronavírus (31.01.2020)
[13] Mulher borrifa álcool em jovem: “Você é o coronavírus” (19.03.2020)
[14] China construirá segundo hospital para tratar pacientes com coronavírus (25.01.2020) 
[15] Niterói declara guerra contra o coronavírus e limpa a cidade com tecnologia chinesa (23.03.2020)
[16] China envia médicos especialistas para Itália por pandemia (17.03.2020)
[17] China zera transmissão local do novo coronavírus pela 1ª vez (18.03.2020)

Bibliografia

Bonita, R.; Beaglehole, R.; Kjellström, T. (2010). Epidemiologia Básica. Santos, 2a ed. IN: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/43541/9788572888394_por.pdf;sequence=5

 

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Dia Internacional da Mulher

Créditos da ilustração: Mariana Reis

Em 2020, o tema do Dia Internacional da Mulher é sobre igualdade de gênero com a campanha internacional #EachforEqual. Aqui no Brasil, a organização ONU Mulheres lançou a campanha “Eu sou a Geração Igualdade: concretizar os direitos das mulheres”. Em especial, a comunidade global fez um balanço dos avanços alcançados nos direitos das mulheres desde a adoção da Plataforma de Ação de Pequim, que é um dos documentos reconhecidamente mais progressistas para o empoderamento de mulheres e meninas no mundo inteiro. Entretanto, os resultados deste balanço mostram que os progressos na direção da igualdade de gênero têm sido muito lentos, e pior, que os difíceis ganhos enfrentam ameaças

Apesar de alguns avanços na igualdade de gênero em muitos lugares do mundo, mulheres e meninas continuam sendo discriminadas e subvalorizadas: trabalhamos mais, ganhamos menos e temos menos opções. Continuamos sendo expostas a várias formas de violência em casa e em lugares públicos. 

Nas Ciências e áreas acadêmicas, continuamos sendo sub-representadas, especialmente em posições de liderança na pesquisa. Continuamos sofrendo os maiores impactos ao conciliar maternidade e família com produção e avanço na carreira. Continuamos sofrendo com machismo, estereótipos de gênero, transfobia, homofobia e discriminação racial

São muitos os problemas a serem enfrentados para se conseguir mudanças reais na direção da igualdade de gênero. Mas também há boas notícias, como o aumento da participação de mulheres na ciência brasileira; mulheres cientistas liderando pesquisas de grande impacto, como por exemplo, o sequenciamento do Coronavírus, os estudos da relação da microcefalia com o Zika vírus e busca por ondas gravitacionais. Além disso, duas cientistas apareceram pela primeira vez na lista Forbes de mulheres mais poderosas do Brasil. Para ler sobre mais cientistas brasileiras inspiradoras, veja o site Open Box.              

A luta por igualdade é diária. O 8 março é importante para lembrar que não estamos sozinhas e que a causa não está perdida. Muitas outras mulheres estão nessa luta e outras virão. Ter esse dia é importante para lembrar que somos muitas e lutamos para que as mulheres e meninas vivam em um mundo que lhes permita ser quem elas desejarem. Especialmente, como Cientistas Feministas, lutamos para que cada vez mais mulheres possam entrar e permanecer nas Ciências.