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O que a literatura nos mostra sobre identificação e manejo de risco de suicídio?

Estudo revisa literatura sobre o tema, apontando características importantes para a identificação e manejo efetivos de risco de suicídio.

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Fonte da imagem: https://pixabay.com/photos/autumn-cemetery-cross-death-decay-2182010/

O suicídio é considerado um problema global e, a cada ano, pesquisadores estudam maneiras de entender melhor as condições que podem levar à morte por suicídio. Pensando em como entender melhor e manejar o risco de suicídio, os pesquisadores Tiago Zortea e seus colaboradores, da Universidade de Glasgow, publicaram um estudo de revisão sobre risco de suicídio e comportamentos autolesivos, isto é, qualquer ato de autoenvenenamento ou automutilação independentemente do motivo aparente para tais comportamentos.

A escolha por estudar também comportamentos autolesivos ocorreu porque a literatura indica que há uma relação entre comportamentos autolesivos e suicídio. Estimativas mostram que mais de 800.000 pessoas morrem todos os anos por suicídio no mundo todo. Além disso, comportamentos de autolesão não suicidas são 20 vezes mais frequentes que o número de mortes contabilizadas por suicídio.

Um dos modelos utilizados para estudar suicídio é o modelo de iceberg, no qual existem três níveis: a ponta do iceberg consiste no número de mortes contabilizadas por suicídio. A camada abaixo é composta por comportamentos autolesivos onde o indivíduo em questão é hospitalizado. Por fim, a camada mais profunda deste iceberg é composta por comportamentos de autolesão realizados em casa e outros locais privados, porém sem levar a hospitalização, sendo, muitas vezes, feito de maneira privada e em segredo (só a própria pessoa sabe).

Alguns fatores especialmente importantes para profissionais da saúde se atentarem são a maior probabilidade de uma pessoa que já foi internada por tentativa de suicídio realizar uma nova tentativa ou morrer por suicídio em até cinco anos após a internação. Além disso, existem evidências de que hospitalização por comportamentos autolesivos é fortemente associada com morte por suicídio (esse risco é 30 vezes maior que o risco de morte por suicídio para a população geral). De acordo com os autores, se engajar em comportamentos autolesivos, com ou sem intenções suicidas, é o preditor mais consistente de morte por suicídio. Isso mostra a importância de se atentar para esse tipo de comportamento, mesmo que emitido sem uma intenção suicida aparente.

Embora existam evidências de que em torno de 90% das pessoas que morrem por suicídio tenham um transtorno psiquiátrico diagnosticável (isto é, poderiam ser encaixadas em um diagnóstico psiquiátrico), a grande maioria das pessoas com diagnóstico psiquiátrico não morrerão por suicídio, o que impossibilita que o diagnóstico psiquiátrico possa ser considerado um marcador de risco. Levando em consideração a dificuldade de encontrar tais marcadores de risco, e com a preocupação de descobrir quais fatores podem determinar a transição de pensamentos suicidas para uma tentativa de suicídio, alguns modelos foram desenvolvidos para auxiliar profissionais da saúde na identificação e manejo do risco de suicídio.

Apesar de possuírem diferenças entre esses modelos, os pesquisadores salientam alguns aspectos destes que são importantes para profissionais e indivíduos que buscam identificar e manejar o risco de suicídio. Em primeiro lugar, uma tentativa de suicídio é um preditor importante de uma nova tentativa. Exposição ao comportamento suicida de outros também parece incorrer em risco. Nesse sentido, estudos têm mostrado que esses fatores (chamados de fatores volitivos) parecem diferenciar quem têm pensamentos suicidas de quem de fato age sobre esses pensamentos.

Existem também instrumentos desenvolvidos para avaliar risco de suicídio em indivíduos, embora, de acordo com os autores, a evidência para o uso dessas escalas seja fraca. Muitas delas geram muitos resultados falso-positivos. Assim, o uso delas como única avaliação de risco de suicídio não é recomendado. Nesse sentido, é importante desenvolver outras maneiras de analisar esse tipo de risco. Um tipo de avaliação que tem sido relacionado com menor tentativa e repetição de comportamentos autolesivos foi o uso de avaliações psicossociais.

As três características comuns que os autores observaram em diferentes tipos de avaliações psicossociais são: uma avaliação clínica, uma resposta à crise individualizada e um plano de segurança, e por fim, o contato de acompanhamento (follow-up). De acordo com a recomendação de órgãos como a Organização Mundial da Saúde, a avaliação clínica não deve se basear no uso dos instrumentos de avaliação de risco previamente mencionados, e sim em uma entrevista interessada, estabelecendo uma relação de confiança e de apoio com o paciente. Estudos mostram que essas características são cruciais para uma avaliação efetiva. Na entrevista, deve-se perguntar diretamente ao paciente as características da ideação suicida (e.g., frequência de pensamentos, plano de suicídio e preparação para tal), além de perguntar sobre eventos da vida do paciente que possam ser estressantes. É importante contextualizar os eventos e os sentimentos e pensamentos dos pacientes (por exemplo, um indivíduo pode analisar um evento estressante, como ser pedida em casamento, como algo ruim, enquanto outra pode considerar bom ou até demonstrar sentimentos ambíguos). É preciso também ficar atento sobre o uso da internet (e.g., más práticas como a maneira pela qual suicídios são reportados na mídia podem servir de gatilhos para o paciente). Esse cuidado não deve ser no sentido necessariamente proibitivo; o ideal é combinar com o paciente as melhores maneiras de utilizar a internet (se ele quiser utilizá-la).

Também é importante identificar possíveis barreiras para que o paciente fale sobre pensamentos suicidas com pessoas próximas, uma vez que a literatura mostra que 60% das pessoas que morrem por suicídio não expressam ideação. Por fim, é importante também debater as estratégias de manejo (coping) dos pacientes, avaliando estratégias adaptativas e mal-adaptativas que podem reduzir ou não o risco de suicídio. Em resumo, deve-se analisar os pontos fortes e vulnerabilidades para o risco de comportamentos suicidas e avaliar fatores de risco e de proteção, de modo a desenvolver um plano conjunto com o paciente.

Com relação ao plano de segurança e a resposta à crise individualizada, é importante auxiliar o paciente a identificar variáveis que possam funcionar como gatilhos e sinais de alerta e desenvolver estratégias que reduzam eventos estressantes que possam levar a uma crise (também é importante desenvolver estratégias de coping para eventos não relacionados ao suicídio). O plano de segurança deve ter medidas de segurança, ou seja, a eliminação ou redução de meios que possam ser utilizados para o suicídio. Uma sugestão é ter esse plano por escrito e deixar uma cópia com o paciente e outra com a equipe de saúde. O contato de acompanhamento é imperativo, já que pessoas que já se engajaram em tentativas de suicídio possuem risco aumentado de tentar novamente, como mencionado no início do texto. Desse modo, é importante fazer, pelo menos, duas ligações de telefone para acompanhar o paciente depois que ele tiver alta, monitorando o risco de suicídio, revisando e discutindo com o indivíduo a experiência com o plano desenvolvido, sendo sensível e apontando os sucessos deste, mas também se atentando para as dificuldades e mudando o plano, se necessário.

Quer saber mais?

O estudo: Zortea, T. C., Cleare, S., Melson, A. J., Wetherall, K., & O’Connor, R. O. (2020). Understanding and managing suicide risk. British Medical Bulletin, 1-12. Online First Publication. https://doi.org/10.1093/bmb/ldaa013

 

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O impacto do script sexuado de carreira nas trabalhadoras brasileiras em tempos de pandemia

Mulher se dividindo entre o trabalho, casa e os filhos (Foto: Getty Images)

Falar sobre a pandemia no Brasil é falar também sobre desigualdade de gênero. Sabemos que a realidade mudou para todos, mas em especial para as mulheres, mesmo que se encontrem em diferentes realidades sociais. E neste momento de isolamento social, surgiram adaptações na vida laboral. O trabalho remoto, que antes era eventual, agora se tornou o cotidiano de muitas mulheres, em diferentes profissões, transformando os cômodos da casa em escritórios para atendimento a clientes, reuniões para tomadas de decisões e até conciliações judiciais, em alguns casos.

E junto com ele, por conta da pandemia, muitas escolas cancelaram as aulas presenciais, adotando, em alguns casos, atividades virtuais, sendo muitas vezes necessário o acompanhamento por um adulto para a realização dos deveres – geralmente a mãe. Além disso, os afazeres domésticos em geral, como preparação das refeições, brincadeiras com os filhos, cuidados com os animais de estimação e a limpeza, agora são feitos pelos moradores das residências e que por conta da tradição cultural, recai às mulheres.

Em meio a tudo isso, também existem os cuidados com as pessoas mais idosas – pais, mães, sogras, avós – que se encontram no grupo de risco de contaminação pela COVID-19, cabendo às mulheres, novamente, a proteção e resguardo destas pessoas.

Junte todas estas ações aos prazos regulares de entrega dos trabalhos exigidos pelos superiores destas profissionais, bem como o aumento da demanda de serviço por conta do isolamento social e a “facilidade” da comunicação virtual. São nestas condições que as mulheres precisam demonstrar, em tempo integral, sua disponibilidade, a fim de não serem rotuladas como incompetentes por seus pares, aumentando, ainda mais, sua carga emocional. E quando isso não é atingido por alguma mulher, sentimentos como a culpa e a frustração tomam conta, além da sensação de não estar comprometida o suficiente com seu trabalho pelo fato de se encontrar em casa.

Nicky Le Feuvre e Nathalie Lapeyre (2005), ao estudar a ascensão feminina no contexto de escritórios de advocacia na França, chegaram à conclusão que mulheres precisavam demonstrar que sempre possuíam disponibilidade de tempo, diferentemente de seus colegas homens, reajustando, por conta disso, suas vidas e desejos pessoais com o receio de serem tachadas de não comprometidas com as tarefas.  A esse fenômeno social as autoras deram o nome de script sexuado de carreira.

Nicky Le Feuvre e Nathalie Lapeyre observaram que assim como em outros mercados de trabalho, a presença prolongada no escritório era um critério para que se fosse percebido um compromisso junto à profissão. E em um ambiente altamente competitivo, como nos escritórios de advocacia franceses, uma possível indisponibilidade poderia causar a perda de uma vaga.  Entretanto, as empresas sempre viram – e ainda veem – as mulheres como menos disponíveis, justificando, em razão disso, os atrasos em sua ascensão profissional. As autoras ressaltaram, ainda, que mesmo quando as mulheres apontavam esse tempo disponível para o trabalho, a elas recaía a desconfiança se realmente o teriam.

As pesquisadoras perceberam, ainda, que tanto as advogadas quanto os advogados relatavam que as mulheres possuíam mais dificuldade de ascensão na carreira que os homens. E mesmo tendo um número substantivo de mulheres nas corporações, parecia que nada mudava em relação às diferenciações de gênero: o grupo feminino ainda enfrentava um ambiente hostil em relação à sua presença profissional.  Dessa forma, o script sexuado de carreira surgia como uma forma de impedimento na progressão da carreira, na tentativa de mostrar como mulheres experimentavam uma ascensão mais lenta ou limitada em relação a seus colegas masculinos.

Durante as entrevistas, ficou explicitado que apesar de a grande maioria dos profissionais dos escritórios serem do sexo feminino, esse grupo ainda permanecia sub- representado nos níveis hierárquicos mais altos das carreiras jurídicas francesas. Assim, o conceito de script sexuado de carreira foi mobilizado pelas pesquisadoras para demonstrar tal marginalização.

Para as autoras, através dessa sub- representatividade das mulheres, ficava demonstrada que existia uma segregação interna na advocacia francesa, onde raramente as mulheres atingiam o status de associadas ou demoravam bem mais que seus colegas do sexo masculino. Logo, a utilização do conceito script sexuado de carreira demonstraria como funcionava o peso dessa construção normativa em diferentes momentos das carreiras dos profissionais. Às mulheres, ainda, era feita uma associação natural de um trabalho artesanal dos serviços jurídicos na França.  Entretanto, as pesquisadoras pedem cautela em relação a essa “especificidade”, haja vista que poderia estar havendo uma essencialização da profissão.

E agora em que todos estão – ou deveriam estar – confinados por conta da maior crise sanitária global moderna, fica difícil manter a produção e a disponibilidade quando se tem que cuidar da casa, dos filhos, da família e do trabalho, tudo ao mesmo tempo. Ao contrário, aos homens essas responsabilidades não recaem. Logo, o script sexuado de carreira, que já era perceptível antes da pandemia, permanece, ou se acentua, neste momento de isolamento social.

Por isso, não apenas novas políticas públicas para o enfrentamento da COVID-19 no Brasil devem visar a situação das mulheres, em geral. Com o final do confinamento, as relações de trabalho e sociais deverão sofrer algumas modificações. E para muitas mulheres brasileiras, o enfrentamento a esta nova realidade poderá decidir seus futuros, seja como mães, como profissionais ou simplesmente como mulheres.

Referências

FOLHA. Mulheres fazem jornada tripla, e home office na pandemia amplia desequilíbrio de gênero na Justiça. Disponível em: https://folha.com/r0bhfto8. Acesso em: 19 mai. 2020.

LE FEUVRE, Nicky; LAPEYRE, Nathalie. Les “scripts sexués” de carrière dans le professions juridiques en France. Work & Society vol. 1, nº 3, Londres: Mirella Giannini, 2005, pp.102-126. Disponível em: https://core.ac.uk/download/pdf/18165723.pdf. Acesso em: 29 mai. 2019.

LEITE, Maria Carolina Loss. As mulheres e o trabalho remoto: “Script sexuado de carreira” acentua-se em tempos de pandemia. Folha de São Paulo. São Paulo, ano 100, n. 33.291, p. 3, 26 mai. 2020. Disponível em: https://folha.com/0gipqjw4. Acesso em 26 jun. 2020.

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Por que precisamos falar sobre práticas sexuais?

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criação de novas formas de vida, de relações, de amizades nas sociedades, a arte, a cultura de novas formas que se instaurassem por meio de nossas escolhas sexuais, éticas e políticas. Devemos não somente nos defender, mas também nos afirmar, e nos afirmar não somente enquanto identidades, mas enquanto força criativa.
Michel Foucault

No início da pandemia, diversos meios de comunicação em diferentes países, escreveram notas sobre como a masturbação seria uma forma eficaz de lidar com o stress causado não só pelas incertezas com relação a vida cotidiana, mas também pelo isolamento social. Além de artigos falando sobre os benefícios da masturbação com dicas práticas, surgiram instruções de como utilizar brinquedos sexuais, que deveriam ser rigorosamente higienizados, antes e depois, para evitar contágio e propagação de doenças.

Hoje, alguns meses depois do início do distanciamento social, não é difícil encontrar relatos de pessoas que furaram a quarentena para satisfazer as necessidades sexuais, como aponta uma pesquisa informal realizada pelo grupo Meu Clitóris Minhas Regras, na qual, 49% das pessoas que participaram da enquete, responderam que descumpriram as regras da quarentena por motivos sexuais. Também não é raro encontrar narrativas sobre a falta de sexo entre aqueles que estão cumprindo o isolamento total.

Porém, apesar de uma certa abertura sobre a temática sexual e a autonomia do próprio prazer, ainda nos é difícil normalizar certas conversas. Falar sobre práticas sexuais não é um assunto tão explorado na nossa sociedade, o que contribui para o aumento dos estigmas. Se mal falamos sobre masturbação e orgasmo, pensar em conceitos como Bondage/Disciplina, Dominação/Submissão e Sadismo/Masoquismo – conhecido pela sigla BDSM – costuma levar, infelizmente, à associação dos indivíduos que exercem essas práticas à desvios psíquicos ou violentos. Entretanto o BDSM pode ser definido, segundo Marques da Silva (2017: 26), como:

um conjunto de atividades eróticas regidas pelo princípio SSC, ou seja, São, Seguro e Consensual. Esse princípio, central para o grupo, determina, portanto, como pré-requisitos à realização de jogos BDSM: a saúde física e mental dos envolvidos; o domínio das técnicas eróticas que serão aplicadas, a higiene dos apetrechos utilizados, o cuidado com o corpo do outro, portanto, a segurança; e a negociação entre os envolvidos sobre o que será feito e seus limites, consensualmente.

O desenvolvimento do conceito de BDSM veio inicialmente dos termos sadismo e masoquismo criados por Krafft-Ebing no livro Psychopathia sexualis, publicado em 1885. Segundo Freitas, o autor cunhou o nome sadismo a partir dos romances do Marquês de Sade, nos quais o prazer era alcançado por meio da violência e da produção da dor não consensual. Já o termo masoquismo veio do romance de Leophold von Sacher-Masoch (1983), A vênus das peles, no qual cabia à mulher a posição de dominadora. A junção dos termos – sadomasoquismo – foi feita por Freud, que acreditava que o masoquismo era o sadismo voltado para si mesmo e que uma pessoa que experimenta o prazer causando dor também pode obtê-lo recebendo-a.

Em razão da disseminação desses conceitos, a ideia que se formou no senso comum é que as práticas BDSM são permeadas de dor, sofrimento, força e violência. Porém, tal concepção nada tem a ver com as práticas aqui descritas, já que o consentimento é a regra básica das práticas de BDSM. É preciso uma comunicação clara e aberta entre os participantes sobre as práticas, os limites e os sentimentos envolvidos. Outro motivo que reforça preconceitos é o fato de tais práticas serem categorizadas pela medicina como patológicas, já que não se enquadram nos padrões heteronormativos de práticas sexuais, ligadas aos genitais.

Porém, um conselho de cientistas defendeu, em 2011, a retirada do fetichismo e do sadomasoquismo do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais ou Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), no qual constam todos os transtornos mentais e que serve de base consultiva para o atendimento em consultórios de diversas partes do mundo, como aponta Marques da Silva (2017).

Um dos resultados apontados por esses cientistas é a constatação que não há relação entre práticas sadomasoquistas e relações familiares patológicas durante a infância, nem que praticantes de BDSM sofreram, em sua maioria, estupros na infância. Mas, infelizmente, mesmo com o relatório, as práticas de fetichismo e sadomasoquismo continuaram como patológicas na reformulação do DSM publicada em 2013.

Em abril deste ano, outra pesquisa foi publicada com a finalidade de esclarecer os mecanismos biológicos gratificantes associados às interações BDSM, em uma tentativa de desmitificar as práticas. A pesquisa foi realizada com 35 casais praticantes de BDSM, cujos níveis hormonais de estresse e recompensa do cortisol, beta-endorfinas e endocanabinóides antes e depois das interações foram acompanhados. A pesquisa concluiu que os sujeitos que estavam em papéis de submissão mostraram aumentos nos níveis de cortisol e endocanabinóides e os que estavam em papéis dominantes sinalizaram apenas aumento dos níveis de endocanabinóides.

Segundo Freitas (2012), refletir sobre práticas BDSM é entender o prazer e o desejo deslocados da genitalidade e dos corpos, construindo e vivenciando jogos de poder, prazer e dor em contextos consensuais.

Em outra perspectiva, algumas feministas argumentam que a vivência de outras práticas sexuais, como o BDSM pode ampliar o universo de desejo feminino e empoderar mulheres. Por outro lado, existem críticas da própria comunidade com relação aos jogos de poder, uma vez que esses momentos poderiam ser vistos como ambientes de perpetuação da dominação masculina. Já o contra-argumento a esse posicionamento é a observação que os espaços de BDSM seriam um dos poucos, segundo relatos, onde o não é realmente entendido e aceito.

Outro ponto em defesa das práticas de BDSM, a partir de uma perspectiva feminista, é que as regras dos jogos de poder entre os praticantes não são definidas a partir de gêneros, mas sim de escolhas pessoais. Assim sendo, não haveria uma regra que define que mulheres sempre terão papéis submissos – dados apontam que quem estão nesses papéis são os homens.

Discutir práticas sexuais enriquece, de forma geral, o debate sobre gênero e sexualidades. O ser humano é complexo e entender a multiplicidade das dinâmicas sociais, entre elas a sexualidade e suas diferentes práticas, é uma forma de criar espaços de respeito, aceitação e coletividade.

Além disso, é possível problematizar questões como os privilégios sociais dos quais os participantes de práticas BDSM gozam. Como apontou Weiss (2014), é necessário capital para investir nos acessórios e vestimentas que as práticas BDSM exigem. Podemos também, levantar questionamentos a respeitos de outros recortes, como o de raça. Tanto o homem submisso quanto a dominatrix são comumente representados por pessoas brancas. Seria interessante pensar como as pessoas negras – um grupo que historicamente é hipersexualizado – recriam papéis sexuais dentro das práticas BDSM, como provoca a artista Mollena Williams-Haas, no artigo “Racism or Race Play: A Conceptual Investigation of the Race Play Debates”, escrito por Schotanus.

Para Mollena, é importante demarcar que jogos de poder dentro das práticas BDSM não podem ser lidos da mesma forma que o racismo estrutural vigente na sociedade, e reforça que no primeiro caso esses jogos são negociados de forma consensual. Mas, por outro lado, Mollena também entende que tais práticas podem ser levadas para a cena BDSM como uma transposição dos episódios de hierarquização racial vividos na sociedade.

Assim, é importante falar sobre sexo e práticas sexuais a fim de utilizar essas experiências para entender as dinâmicas sociais vigentes. Para Carrara&Simões (2004: 76), o estudo da sexualidade é “mais do que um meio de revelar experiências silenciadas, oprimidas e marginalizadas; é uma chave para o entendimento das convenções culturais e das estruturas de poder mais amplas”.

É preciso lutar contra um sistema de opressão sexual que entende o sexo e comportamentos eróticos não convencionais com desconfiança, visto que “atos sexuais são sobrecarregados com um excesso de significância” e presentes, como aponta Rubin (1981: 13-14) em um “sistema hierárquico de valores sexuais”, no qual “heterossexuais maritais e reprodutivos estão sozinhos no topo da pirâmide erótica”.

Relativizar, problematizar ou renomear os papéis e práticas de homem, mulher, dos dois ou de nenhum dos dois no sexo é importante pois (re)significa diferentes modos de ser e diferentes identidades. Questões de identidade estão ligadas a questões de experiência, subjetividade e relações sociais.

Falar sobre práticas sexuais não só amplia o leque sensorial e de experiências como também normaliza práticas, que alguns consideram “bizarras”, e nomeia práticas não saudáveis, vistas por muitos como “normais”. Quantas mulheres não cresceram ouvindo que sexo é uma obrigação conjugal? Que sexo só deve ser feito para procriação e saciar os desejos do marido? É esse mesmo tipo de discurso que nos leva a acreditar que outras práticas sexuais, entre elas o BDSM, são pervertidas e que devem ser banidas do nosso repertório. Discutir práticas sexuais é um ato político, que dialoga com quem somos e com as nossas relações nessa sociedade, explorando nosso potencial criativo e nossa agência.

Referências:

Carrara, Sérgio; Simões, Júlio Assis. Sexualidade, cultura e política: a trajetória da identidade homossexual masculina na antropologia brasileira. Cadernos Pagu, Campinas, n. 28, p. 65-100, 2007.

Ferreira, Glauco Batista. Produção de sujeitos, sexualidades e mercadorias no BDSM: as técnicas e os circuitos SM em San Francisco na etnografia de Margot Weiss. Rev. Estud. Fem., Florianópolis, v. 22,n. 1,p. 375-380, abr. 2014.

Foucault, Michel. Michel Foucault, uma entrevista: sexo, poder, e a política da identidade; tradução Wanderson Flor do Nascimento. In: Verve, 5. p. 260-277, 2004.

Freitas, Fátima Regina Almeida de. Bondage, Dominação/Submissão e Sadomasoquismo: euma Etnografia sobre Práticas Eróticas que envolvem prazer e poder em contextos consensuais. Dissertação de mestrado. Universidade Federal de Goiás. Goiânia. 2012.

Marques da Silva, Vera Lúcia. A Psiquiatrização do sexo não normativo: BDSM e a 5ª revisão do Manual Diagnóstico e estatístico de doenças mentais. Vivência: Revista de Antropologia, v. 1, n. 48, p. 25-37, 5 abr. 2017.

Rubin, Gayle. “The leather menace: Comments on politics and S/M.” In: SAMOIS (Organization e Ed.), Coming to power: Writings and graphics on lesbian S/M. Boston: Alyson Publications, 1981. p. 194-229.

Sacher-Masoch, Leopold von. A Vênus de Peles. Rio de Janeiro: Taurus, 1983.

Weiss, Margot. Techniques of Pleasure: BDSM and the Circuits of Sexuality New York: Duke University Press, 2011, 336p.

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Estudando Evolução Humana com Bioinformática

Chimpanzé comum no zoológico de Leipzig, Alemanha. Créditos: Thomas Lersch.

Você já parou para pensar no que nos torna humanos, ou então o que nos diferencia de outras espécies, como os chimpanzés? Biólogos e outros cientistas têm trabalhado nessas questões há muito tempo, comparando humanos com outras espécies  e usando o método científico. Anteriormente, as abordagens giravam em torno de observar as características físicas e comportamentais das espécies para entender as especialidades de cada uma. A pesquisadora Jane Goodall contribuiu imensamente para a ciência estudando chimpanzés, e permanece hoje como uma das grandes cientistas da história.

Pesquisadora Jane Goodall. Créditos: Franz Johann Morgenbesse/wikimedia.

Desde o sequenciamento do genoma humano em 2002, a humanidade recebeu uma importantíssima fonte extra de informações, que nos permitiu atacar essas mesmas questões com uma abordagem complementar àquelas mais tradicionais. Agora é possível estudar as espécies a nível molecular. Atualmente, temos sequenciados os genomas não só da espécie humana, mas também de diversos outros primatas, como chimpanzés, bonobos, orangotangos e gorilas. Dessa forma, podemos comparar os genomas e genes diretamente e entender como a evolução agiu em cada espécie.

Nesse artigo, vou apresentar a você a minha contribuição para esse tema científico. Minha pesquisa foi feita durante o meu Doutorado, realizado no Laboratório de Bioinformática da Universidade de Leipzig, Alemanha, pelo programa brasileiro Ciência sem Fronteiras. Essa pesquisa foi feita em bioinformática com um time multi-disciplinar de Biologia e Ciência da Computação.

Quais genes nos diferenciam de espécies evolutivamente próximas, como os chimpanzés e bonobos? Para responder a essa pergunta nós estudamos famílias de genes de primatas para descobrir quais genes têm funções humano-específicas. Para isso usamos técnicas avançadas de bioinformática. A bioinformática é uma área relativamente nova da ciência, que aplica o imenso poder de processamento e análise da ciência da computação nos problemas existentes em biologia.

Nuvem de palavras de bioinformática. Créditos: Maria Beatriz Walter Costa.

Genes podem ser classificados em dois grandes grupos igualmente importantes: as proteínas e os menos conhecidos RNAs não codificadores (ncRNAs). Esses últimos estão envolvidos na regulação e manutenção das células do nosso corpo. No meu trabalho publicado na revista científica BMC Bioinformatics em 2019, apresentei o SSS-test (test for Selection on Secondary Structure), primeiro programa da comunidade científica mundial capaz de analisar famílias de ncRNAs e reportar o grau evolutivo de cada espécie. 

Árvore evolutiva de cinco espécies de primatas (à esquerda) em contraste com a evolução de um ncRNA (um tipo de gene) com estrutura humano-específica (direita). O novo programa de bioinformática SSS-test encontra tais genes, nos ajudando a entender o que exatamente nos diferencia de outras espécies. Créditos: Maria Beatriz Walter Costa.

Como isso é feito? Primeiro, construímos um algoritmo teórico com os seguintes passos: 

  • (i) recebe como entrada as sequências de genes tipo ncRNAs,
  • (ii) detecta as diferenças entre as espécies e 
  • (iii) constrói modelos estatísticos de impacto estrutural. 

Após definir esse novo algoritmo, nós o implementamos por meio de uma linguagem de programação. Dessa forma, traduzimos as teorias e fórmulas estatísticas em um programa, o qual o computador entende e processa. 

Parte do programa SSS-test. Créditos: Maria Beatriz Walter Costa

Com o programa SSS-test finalizado, processamos todas as 15 mil famílias de ncRNAs conhecidas de primatas (Walter Costa, LGBio) e encontramos um pequeno grupo de 110 ncRNAs com sinais humano-específicos. Um deles é o MIAT, ilustrado na figura acima da árvore evolutiva de primatas. O MIAT e mais alguns desses ncRNAs estão ativos no nosso cérebro, o que pode levar a descobertas futuras ainda mais intrigantes sobre a nossa biologia e o que nos difere de outras espécies próximas, como os chimpanzés e bonobos.

Dentre as principais diferenças entre nós e nossos primos genéticos, estão as nossas habilidades únicas de fala, cognição e linguagem. Outro exemplo dos ncRNAs que estudamos, denominado HAR1, está ativo no desenvolvimento do cérebro ainda na gestação, e pode estar relacionado à cognição. As descobertas do meu Doutorado juntamente com nosso novo software, o SSS-test, ajudam a compreender melhor todas essas complicadas questões sobre o que nos torna humanos.

Referências

Conversa com a Dra Maria Beatriz Walter Costa pelo LGBio. “Pesquisa em Bioinformática: Evolução e Seleção Adaptativa de ncRNAs”. Youtube. 2020   https://www.youtube.com/watch?v=7wC2dL3QadM 

Walter Costa, Maria Beatriz; Höner zu Siederdissen, Christian; Dunjić, Marko; Stadler, Peter e Nowick, Katja. “SSS-test: a novel test for detecting positive selection on RNA secondary structure”. BMC Bioinformatics. 2019 https://bmcbioinformatics.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12859-019-2711-y

Nowick, Katja; Walter Costa, Maria Beatriz; Höner zu Siederdissen, Christian; Stadler, Peter. “Selection Pressures on RNA Sequences and Structures”. Evolutionary Bioinformatics 2019  https://doi.org/10.1177/1176934319871919 


Walter Costa, Maria Beatriz. Tese de Doutorado (Doctor rerum naturalium) em Ciência da Computação. “Adaptive Evolution of Long Non-Coding RNAs”. Universidade de Leipzig, Alemanha. Programa Ciência sem Fronteiras – CNPq/Brasil 2018  https://nbn-resolving.org/urn:nbn:de:bsz:15-qucosa2-323898

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SARS-CoV-2, como fazer para essa Pandemia não acontecer novamente?

 

Virus

Figura 1- imagem do SARS-CoV-2. Piro4d por pixabay.

No dia 30 de janeiro de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou Estado de Emergência Global em razão do SARS-CoV-2, dois meses após o primeiro caso em Wuhan, China. Desde então pesquisadores de todo o mundo começaram a estudar diferentes métodos de tratamento, mecanismos de dispersão e transmissão do vírus, uma nova vacina, etc. Ainda assim, estamos em julho e com muita pesquisa e análises para serem feitas e que possam nos ajudar a entender um pouco mais sobre esse vírus. No entanto, ainda que façamos o isolamento social e estejamos impactados pelo surgimento do coronavírus e com o número de pessoas que estão infectadas no planeta (mais de 11 milhões de pessoas no dia 4 de julho), o mundo não pára: o aquecimento global continua acontecendo, tendo como consequência o aumento de temperaturas, como aconteceu na Sibéria que atingiu 38°C, a mais quente na história daquele país, outro exemplo são as nuvens de gafanhoto que têm se dispersado na África, Ásia e na América do Sul

Alguns pesquisadores apontam: apertem os cintos, porque isso é só o começo. Grandes pandemias podem ocorrer após a COVID-19 e ter um impacto ainda maior na população mundial se não cuidarmos do nosso planeta. Visto isso, um estudo publicado por um grande grupo de pesquisadores, liderado pelo Dr. Dan Brooks em maio de 2020, traz algumas soluções para se tentar amenizar essas catástrofes iminentes.

O PARADIGMA DE ESTOCOLMO

O Paradigma de Estocolmo é um conceito utilizado nos estudos parasitológicos e sugere que a capacidade dos patógenos de se associarem a algum hospedeiro está relacionada a ocorrência de características específicas do próprio hospedeiro. Estas características representam os requisitos necessários para a ocorrência daquele patógeno.

No entanto, para entender um pouco mais sobre esse conceito, vamos trazer aqui a definição de parasitismo. De acordo com Araújo e colaboradores (2013), o parasitismo é composto por três subsistemas: o parasito, o hospedeiro e o meio ambiente. O parasito pode ser definido como um organismo que encontra seu nicho ecológico em outro organismo. Um parasito não causa necessariamente uma doença, sendo esta uma consequência do desequilíbrio em um dos subsistemas.

O Paradigma de Estocolmo propõe que os parasitos utilizam suas características pré-existentes para colonizar um novo hospedeiro; ou seja, não representam a evolução de novas ou de características especiais nesses parasitos. No caso do SARS-CoV-2, os receptores existentes nos morcegos (quer ler mais sobre? Clique aqui), essenciais para a sobrevivência do vírus, estão presentes em um grupo diverso de mamíferos, que por sua vez têm potencial para se tornarem novos hospedeiros. Esse parasito foi então “oportunista” e acabou infectando novos hospedeiros. E quem seriam esses novos hospedeiros? Nós, os humanos.

Os coronavírus são um grupo de vírus que parasitam mais frequentemente os morcegos, no entanto existem algumas variantes que ocorrem em outras espécies. Apesar da grande maioria dos coronavírus não serem transmitidos diretamente para os humanos, existem alguns fatores que podem facilitar a transmissão: um exemplo são os mercados que comercializam uma diversidade de animais silvestres para o consumo por humanos. A emergência dos vírus SARS-CoV em 2003 e agora do SARS-CoV-2 é resultado dessas práticas. A exposição a novos patógenos aumenta devido a globalização, importação e exportação de alimentos, viagens turísticas e de negócios. A cereja do bolo deste quadro já bastante complexo são as mudanças climáticas, potencializadas e influenciadas pelas práticas humanas

mundo

figura 2- imagem de gerd altmann por pixabay.

O Paradigma de Estocolmo nos ensina que a emergência das crises e pandemias de doenças infecciosas está associada a mudanças que facilitam a oportunidade que esses patógenos têm para ocupar novos hospedeiros e reservatórios, devido às alterações em seus espaços. Esses espaços são os habitats que esses organismos ocupam.

São três os elementos que compõem essa alteração no espaço:

1) mudanças climáticas que levam a mudança de habitat e comportamento de diversas espécies e consequentemente seus parasitos;

2) globalização do comércio e viagens, que aumenta a diversidade e frequência dos encontros de parasitos;

3) aumento da urbanização, com mais de 50% da população humana residindo em cidades, o que aumenta a emergência de doenças parasitárias.

Caso haja alguma alteração no habitat de um hospedeiro, por exemplo, o desmatamento de florestas para criação de gado, esses hospedeiros não têm para onde ir e acabam entrando em locais onde os humanos habitam, e carreiam seus parasitos e consequentemente a população que habita o local é exposta a novos microrganismos.

As cidades são os locais mais vulneráveis devido: ao clima, que é mais quente; à dependência de insumos que vêm de outros locais e que acabam trazendo microrganismos; à ocorrência de espécies que são vetores de microrganismos e que afetam os humanos e seus animais de estimação; à alta densidade populacional e aglomeração aumentando a chance de exposição aos patógenos; à divisão laboral e interdependência; à desigualdade social que leva a falta de saneamento básico e à exposição a doenças emergentes.  

O PROTOCOLO DAMA

Esse protocolo é uma extensão do Paradigma de Estocolmo. Os pilares do DAMA são:

Documentar a existência de microrganismos causadores de doenças em cada país, e também seu ciclo de vida, onde circulam, quais são os hospedeiros, vetores e os mecanismos de transmissão;

Avaliar a importância relativa desses parasitos encontrados na documentação, a fim de focar nos mais importantes;

Monitorar os parasitos considerados significativos na avaliação;

Ações efetivas quando for necessário, engajar governos e ONGs.

A aplicação deste protocolo é urgente: há 15 anos pesquisadores da China identificaram um coronavírus com similaridade genética ao SARS-CoV-2 em morcegos que habitavam uma caverna na província de Yunnan. Caso o protocolo DAMA tivesse sido aplicado, provavelmente teríamos hoje mais informações a respeito desse vírus.

Mapa

figura 3. Mapa da Província de Yunnan, China. Fonte: Google Maps.

A crise relacionada ao SARS-CoV-2 não é somente uma crise de saúde, é um problema relacionado à biodiversidade, ecologia e evolução, e está interligado às ações humanas. A pandemia de hoje nos alerta sobre a necessidade de usarmos todas as ferramentas necessárias para tentar diminuir o impacto que a espécie humana causou no nosso planeta. A ciência tem avançado, mas o negacionismo ainda a cerca, limitando a propagação do conhecimento científico para o grande público, e trazendo fake news que diminuem a credibilidade dos cientistas. Apesar de parecer quase impossível combater as alterações climáticas, e também os negacionistas da ciência e suas fake news, ainda há esperança para pelo menos diminuir os impactos e ter um mundo que as próximas gerações possam usufruir. Estamos indo para um caminho que talvez não tenha mais volta, portanto precisamos de toda ajuda necessária de cada um que habita o nosso planeta, e principalmente confiar nos cientistas que trabalham para isso.

Arvores

figura 4- imagem de mystic art design por pixabay.

Vamos fazer a nossa parte?

Referências:

– Brooks et al. (2020). Before The Pandemic Ends: Making Sure This Never Happens Again. World Complexity Science Academy Journal, vol. 1(1).

– Araújo et al. (2013). Paleoparasitology: the origin of human parasites. Arquivos de Neuropsiquiatria, 71(9-B): 722-726.

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A importância dos coletivos de mulheres feministas no apoio às mulheres em situação de vulnerabilidade na Pandemia da Covid-19.

Imagem 1: http://anamontenegro.org/cfcam/2020/03/30/mulheres-e-a-pandemia-de-covid-19/. Acesso em: 23/06/2020.

Julho, 10, 2020|IANYCOSTA

Não é de hoje que as mulheres têm se organizado coletivamente para enfrentar as estruturas em busca de melhores condições de vida, bem como pela conquista de direitos sociais e a viabilidade de políticas públicas que tem o gênero como prisma identitário. Em uma arqueologia da construção social da figura da mulher na sociedade ocidental, a emergência do Movimento Feminista na segunda metade do século XIX, primeiro na Europa, depois em outros lugares do mundo, teve um impacto decisivo na mudança da figura da mulher como sujeito do lar para a mulher que ocupa diferentes esferas sociais. Vale lembrar que na cerne do feminismo clássico estas mulheres eram majoritariamente brancas, heterossexuais e de classe média, e suas demandas e reivindicações passavam longe das lutas das mulheres de cor [1] que passaram a vivenciar uma zona do não-ser dentro deste movimento, legando-as à necessidade urgente da construção de outros lugares de fala que visibilizassem suas pautas.

Por isso, em meio às sucessivas ondas do Movimento Feminista enquanto coletivo, mas também como epistemologia [2], o feminismo negro, seguido do feminismo indígena e do feminismo decolonial [3] durante o século XX e nas primeiras décadas do século XXI, nas Américas e no Caribe, vem construindo um lugar de resistência, ou melhor, r-existência que perpassa a negação do “torna-se mulher” a partir do pensamento de Simone de Beauvoir, visto que nem todas as mulheres tem historicamente sua condição de sujeito reconhecida, que dirá terem direitos. Portanto, ao pautarem suas falas na denúncia da invisibilidade, do abandono e da negação de direitos sociais que violam diretamente os direitos humanos e tem na lógica da política neoliberal orquestrada por um Estado do qual a necropolítica [4] é palavra de ordem, encontram um lugar comum [5] de enfrentamento às diversas formas de violência que grafam seus corpos em um feixe interseccional [6] de gênero, classe e raça.

Enquanto mulheres que compartilham uma cidadania insurgente [7] no Brasil, principalmente, no pós-88, diferentes coletivos de mulheres feministas ligados às universidades e ao movimento social se estruturam para construir lugares de apoio, de fala e de produção de conhecimento no intuito de acolher, empoderar e contribuir para a asseguração de direitos e a transformação das vidas de outras mulheres em situação de vulnerabilidade social. Por isso, em tempos da pandemia da Covid-19 que tem grafado a monstruosa desigualdade social no Brasil [8], estes coletivos tem assumido um lugar vazio da política de assistência social que tem sido desestruturada desde o golpe de 2016 e se evidencia com o recorte interseccional do avanço da doença e suas mazelas.

Com isso, buscando trazer as experiências destes coletivos, sem ter a intenção de resumir suas ações devido às limitações deste texto, citamos exemplos de apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade no Brasil, como no estado da Paraíba o Coletivo de mães Pachamamá [9] que tem através de campanhas solidárias distribuindo cestas básicas, kits de higiene e enxovais para mães de diferentes comunidades periféricas de João Pessoa, o Abayomi – Coletiva de mulheres negras da Paraíba [10] em parceria com o fundo Baobá tem oferecido cursos online no intuito de articular mulheres lideranças comunitárias para o fortalecimento de seus territórios. No estado de Minas Gerais, na capital Belo Horizonte, o Coletivo Mulher eu sou [11] formado por mulheres capoeristas da nação Angola, tem usado da medicina popular para a produção de remédios naturais para aumentar a imunidade e fortalecer o sistema respiratório das mulheres vulneráveis na cidade. No estado do Rio de Janeiro, na cidade de Niterói, o GT “mulheres na ciência” da Universidade Federal Fluminense [12], vem organizado uma campanha coletiva para o apoio a mães estudantes da graduação e da pós-graduação desta universidade com o intuito de garantir segurança alimentar e ajuda financia em tempos de pandemia.

De diferentes modos os coletivos de mulheres feministas vêm atuando em seus territórios no intuito de apoiar outras mulheres vulneráveis. Embora com limitações econômicas e geográficas, suas ações tem impactado diretamente na vida de outras mulheres, para além do apoio alimentar, financeiro, intelectual, etc. A articulação desses coletivos trazem a sonoridade e o conforto de não estar sozinha no enfrentamento ao Covid – 19. Com isso, a importância destes coletivos perpassa a discussão de outras questões estruturantes como o racismo, o machismo e o sexismo e seus efeitos na violação dos direitos das mulheres. Sendo estes coletivos um elo entre a militância, a episteme e a vida prática, pois, ao saírem de suas casas, deixando suas famílias em meio à pandemia para buscar ajudar outras famílias, estas mulheres em marcha nos demonstram que sonoridade e solidariedade são sinônimos, a partir, do momento que o flagelo do outro passa a importar para você. Se “a revolução será feminista ou não será” [13], então, que sejamos nós mulheres que em tempos de ameaças aos direitos e de pandemia, mais uma vez sustentemos a pisada [14] no apoio mútuo a outras mulheres em situação de vulnerabilidade no Brasil.

Se puder fique em casa, se puder ajude a ajudar outras mulheres, cuide de si e da próxima.

Referências.      

[1] Para Lugones (2014) “mulheres de cor” são mulheres latinas dos Estados Unidos, asiáticas, chicanas, afro-americanas ou indígenas norte-americanas que vivenciam a violência e exploração do Estado pós-colonial e tem seus corpos oprimidos pela colonialidade de gênero que as condiciona a categoria de não sujeitos. LUGONES, M. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, 22 (3): 320, Setembro-dezembro, 2014. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/36755>. Acesso em: 15/06/2020.

[2] ALCOFF, L. M. Uma epistemologia pra a próxima revolução. Revista Sociedade e Estado, UNB, v. 1, Jan/Abr, 2016, pp. 129-143.

[3] CARNEIRO, S. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. In: ASHOKA Emprendimentos Sociais: Takano Cidadania (orgs). Racismos Contemporâneos. RJ: TAKANO, 2003, pp. 49-58. GELEDES, Portal, Conheça um pouco sobre o feminismo indígena no Brasil e sua importância. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/conheca-um-pouco-sobre-feminismo-indigena-no-brasil-e-sua-importancia/>. Acesso em: 20/06/2020. KAXUYANA, ValériaPaye Pereira; SILVA, Suzy Evelyn de Souza. A Lei Maria da Penha e as mulheres indígenas. In: VERDUM, Ricardo (Org.). Mulheres Indígenas, Direitos e Políticas Públicas. Brasília: Inesc, 2008. LUGONES, M. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, 22 (3): 320, Setembro-dezembro, 2014. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/36755>. Acesso em: 15/06/2020.

[4] MBEMBE, A. Necropolítica. Arte & Ensaios | revista do ppgav/eba/ufrj | n. 32 | dezembro 2016. Disponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/8993/7169>. Acesso em: 12/06/2020.

[5] DARDOT, P; LAVAL. C. Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI. Trad. ECHALAR, N. 1ª Ed. São Paulo: Boitempo, 2017.

[6] CRENSHAW, K. W. Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas. 2017 [1993] Trad. Carol Correia. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/mapeando-as-margens-interseccionalidade-politicas-de-identidade-e-violencia-contra-mulheres-nao-brancas-de-kimberle-crenshaw%E2%80%8A-%E2%80%8Aparte-1-4/>. Acesso em: 10/06/2020.

[7] Segundo Holston (2013, p. 22): possuímos: “uma cidadania que administra as diferenças sociais legalizando-as de maneira que legilitimam e reproduzem as desigualdades”, sendo a articulação dos movimentos sociais frente a uma cidadania desigual caracterizada como uma cidadania insurgente que visa a conquista de direitos negados e a desestabilização desse sistema excludente. HOLSTON, J. Cidadania insurgente: disjunções da democracia e da modernidade no Brasil. 1 ed. São Paulo Companhia das Letras, 2013.

[8] Instituto Socioambiental, Desigualdade racial é evidenciada na pandemia da Covid – 19 (08/05/2020). Disponível em: < https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-monitoramento/desigualdade-racial-e-evidenciada-na-pandemia-da-covid-19>. Acesso em: 08/06/2020. GOES, E. F; RAMOS, D. de O; FERREIRA, A. J. F. Desigualdades raciais em saúde e a pandemia da Covid-19. Trabalho, Educação e Saúde. (versão On-line), vol. 18, no. 3, Rio de Janeiro 2020, (29/05/2020). Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-77462020000300301>. Acesso em: 16/06/2020.

[9] Página em redes sociais do Coletivo de mães Pachamamá Disponível em: <ttps://www.instagram.com/coletivo_pachamama/>. Acesso em: 18/06/2020.

[10] Página em redes sociais do Abayomi – Coletiva de mulheres negras da Paraíba Disponível em: < https://www.facebook.com/abayomi.pb/>. Acesso em: 19/06/2020.

[11] Informação sobre a atuação do Coletivo Mulher eu sou. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2020/03/22/coronavirus-mulheres-capoeiristas-distribuem-remedios-naturais-nas-periferias-de-bh>. Acesso em: 10/05/2020.

[12] Página em redes sociais do Núcleo Interseccional de Estudos da Maternidade do qual faz menção a uma atividade do GT “Mulheres na Ciência” da Universidade Federal Fluminense – UFF. Disponível em:<https://www.facebook.com/nucleoniem/posts/455142188623367>. Acesso em: 15/06/2020.

[13] VILELA, E. A revolução será feminista ou não será. In: Página da Web – O Jornal de Todos os Brasis.  Disponível em: <https://jornalggn.com.br/artigos/a-revolucao-sera-feminista-ou-nao-sera-por-elenira-vilela/>. Acesso em: 16/06/2020.

[14] Usando da licença poética parafraseamos a música de Jacinto Silva “Pisa Madeiro” muito usada em protestos de diversos movimentos sociais na cidade de João Pessoa. Disponível em: https://www.letras.mus.br/jacinto-silva/1841563/. Acesso em: 04/07/2020.

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Ebola: o inimigo volta a ameaçar

O Ebola é uma doença causada por vírus que tem como hospedeiros naturais espécies de morcegos frugívoros, e é nomeado devido ao rio da região na qual seu primeiro surto ocorreu, em 1976, no continente africano [1].

Se comparado ao coronavírus, que apresenta letalidade de cerca de 3% dos infectados, o Ebola é uma ameaça muito mais grave, podendo levar a óbito de 25 a 90% dos pacientes [2]. 

O Ebola vírus (Figura 1), assim como o HIV e o coronavírus (Sars-CoV-2), era transmitido inicialmente entre animais. Porém, através de um processo conhecido como spillover essas zoonoses virais passaram a infectar também seres humanos [3].

Figure 1 Ebola

Figura 1: Ebola vírus [4].

Essa transmissão de animais contaminados para seres humanos se dá via sangue e fluidos corporais. Posteriormente, os humanos infectados podem infectar outras pessoas via sangue, saliva, sêmen, e contato direto mesmo após a morte (os cadáveres são contagiosos [5]).

Após a infecção, o indivíduo pode demorar de 2 a 21 dias para manifestar sintomas da febre hemorrágica como: dor de cabeça e/ou garganta e/ou nas articulações, febre, fraqueza muscular, calafrios, diarreia com sangue, erupções cutâneas e olhos vermelhos. O mais grave desfecho conduz à hemorragia interna, com sangue extravasando até mesmo por reto, olhos, nariz e ouvidos [6].

De 2014 a 2016, o pior surto da história afetou 22 mil pessoas na África Ocidental (principalmente Guiné, Serra Leoa e Libéria – Figura 2) provocando a morte de 11 mil delas [7]. Mais recentemente a décima epidemia de Ebola em território congolês, que se iniciou em 2018 e foi considerada encerrada com a alta da última paciente internada em fevereiro de 2020, afetou mais de 3,4 mil pessoas das quais cerca de 66% faleceram [8].

Figura 2 Mapa

Figura 2: Mapa da África Ocidental, com destaque para a região mais atingida pelo surto de 2014 a 2016; modificado de [9].

O vírus possui capacidade de transmissão inferior ao Sars-CoV-2 e, apesar de não haver tratamento específico, já existe vacina contra o Ebola. A vacina rVSV-EBOV, conhecida comercialmente como Ervebo, foi desenvolvida contra a forma mais letal do vírus (a Zaire) [10] e já contribuiu para conter o avanço de contaminações na República Democrática do Congo e em Uganda [11]. Recebeu no final de 2019 a aprovação de agências como a americana e a europeia, e já foi aplicada em mais de 280 mil pessoas em área de risco [12].

No dia 01 de junho deste ano de 2020, no entanto, foi declarada nova onda de contaminações na República Democrática do Congo; dos 6 pacientes inicialmente diagnosticados, 4 morreram [13]. A Organização Mundial da Saúde considera um grande desafio lidar conjuntamente com o Ebola e o coronavírus, mas se prontificou a tentar [14]. 

Esse fato conduz a uma reflexão sobre os motivos de, mesmo com a existência de vacina, novas epidemias surgirem em regiões em que já aconteceram no passado. O que ocorre é que as regiões mais atingidas pelo vírus são áreas com conflitos armados e grande índice de violência, dificultando tanto a vacinação da população como o isolamento precoce dos doentes para tratamento dos sintomas. Soma-se a isso o fato de o grau de instrução baixo dos cidadãos conduzir a medo e relutância na vacinação. Uma situação delicada que ameaça seres humanos já em situação de grande vulnerabilidade no continente que historicamente é marcado por sofrimento e exclusão.

 

Referências

[1] – Médicos sem Fronteiras (2018) Ebola. Disponível através do link <https://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/ebola>. Acesso em 18/06/2020.

[2] – Cajé M, Fernandez A (2020) Na África Subsaariana, ebola ainda preocupa mais que novo coronavírus. Disponível através do link <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/03/10/na-africa-subsaariana-ebola-ainda-preocupa-mais-que-novo-coronavirus.ghtml>. Acesso em 18/06/2020.

[3] – Multini L (2017) Cientistas preveem spillover de vírus de mamíferos selvagens para seres humanos. Disponível através do link <https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/07/05/cientistas-preveem-spillover-de-virus-de-mamiferos-selvagens-para-seres-humanos/>. Acesso em 18/06/2020.

[4] – Monteiro L (2014) Ebola: 7 perguntas e respostas essenciais sobre esse vírus. Disponível através do link <https://saude.abril.com.br/bem-estar/ebola-7-perguntas-e-respostas-essenciais-sobre-esse-virus/>. Acesso em 18/06/2020.

[5] – Louise J (2018) Microrganismos da pesada e o Bioterrorismo. Disponível através do link <https://cientistasfeministas.wordpress.com/2018/08/08/microrganismos-da-pesada-e-o-bioterrorismo/>. Acesso em 18/06/2020.

[6] – Varella Bruna, MH (2020) Ebola. Disponível através do link < https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/ebola/>. Acesso em 18/06/2020.

[7] – Weller C (2018) Por que o ebola voltou – e dificilmente será erradicado. Disponível através do link < https://www.bbc.com/portuguese/geral-44062701 >. Acesso em 18/06/2020.

[8] – G1 (2020) Última paciente que tinha ebola na República Democrática do Congo recebe alta. Disponível através do link <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/03/05/ultima-paciente-que-tinha-ebola-na-republica-democratica-do-congo-recebe-alta.ghtml>. Acesso em 18/06/2020.

[9] – Blog da Cajucultura (2020) África ocidental impulsiona produção de castanha. Disponível através do link <https://www.blogdacajucultura.com/2018/10/africa-ocidental-impulsiona-producao-de.html>. Acesso em 29/06/2020.

[10] – Suder E, Furuyama W, Feldmann H, Marzi A, de Wit E (2018) The vesicular stomatitis virus-based Ebola virus vaccine: From concept to clinical trials. Disponível através do link <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6183239/>. Acesso em 18/06/2020.

[11] – Pucu E (2019) Disponível através do link < https://cientistasfeministas.wordpress.com/2019/09/23/vacina-contra-o-ebola-perspectivas-para-populacoes-africanas/>. Acesso em 18/06/2020.

[12] – Saphire E O (2020) A Vaccine against Ebola Virus. Disponível através do link < https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0092867420302737>. Acesso em 18/06/2020.

[13] – WHO (2020) New Ebola outbreak detected in northwest Democratic Republic of the Congo; WHO surge team supporting the response. Disponível através do link <https://www.who.int/news-room/detail/01-06-2020-new-ebola-outbreak-detected-in-northwest-democratic-republic-of-the-congo-who-surge-team-supporting-the-response>. Acesso em 18/06/2020.

[14] – Jornal Estado de Minas (2020) Congo tem surto de ebola durante pandemia do coronavírus. Disponível através do link <https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2020/06/01/interna_internacional,1152799/congo-tem-surto-de-ebola-durante-pandemia-do-coronavirus.shtml>. Acesso em 29/06/2020.