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Pandemia de COVID-19: Quando a Saúde precisa encontrar as Ciências Humanas

Créditos: Canva

Nos últimos dias, temos acompanhado o colapso do sistema de saúde do Estado do Amazonas, especialmente na capital, Manaus, que sofre com a falta de cilindros de oxigênio nos hospitais. Situação que se agrava diante do recorde de internações por COVID-19 na cidade.¹ Para piorar, muitas pessoas estão infectadas pelo que foi identificado como uma nova cepa do vírus, ou seja, uma nova variante dele, que parece capaz de se espalhar mais depressa dos que as outras cepas até então verificadas no país.² Tudo isso integra um preocupante cenário mais amplo: o Brasil tem, hoje, a maior média diária de casos de COVID-19 desde o início da pandemia. São mil mortes diárias pela doença.³ O número assusta, mas não se pode dizer que surpreende.

Desde a primeira quinzena de agosto de 2020, o infectologista Jesem Orellana, pesquisador da Fiocruz-Amazônia, alerta para a subida da curva de óbitos na capital amazonense. Em setembro, os números continuaram subindo. A equipe de Orellana, então, recomendou o lockdown ao Ministério Público, à Defensoria Pública e à Secretaria de Saúde do Estado.² Apesar do aumento do número de mortes e casos confirmados de COVID-19 no Amazonas, o governador Wilson Lima cedeu às pressões dos comerciantes e permitiu a reabertura do comércio não essencial: bares, restaurantes, cinemas, casas de show.4 O estímulo à economia serviu de justificativa para a retomada de atividades comerciais que, meses depois, elevariam ainda mais o número de infectados e de mortes.

Manaus não foi a única capital a ignorar pesquisadores e profissionais de saúde. O Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (DMIFC-UERJ), em cartas abertas ao público, há meses aponta como o enfrentamento à pandemia tem evoluído de forma equivocada e lenta no país, com negação de sua gravidade ou mesmo de sua existência. Em dezembro de 2020, o DMIFC-UERJ alertou que, enquanto protocolos de saúde estavam sendo flexibilizados e acelerados, com grandes interesses econômicos e políticos envolvidos nessa corrida, não havia movimentação para garantir os recursos necessários à aplicação da(s) futura(s) vacina(s), treinamento de profissionais ou ao estabelecimento da logística de distribuição — problemas que se refletem hoje, no baixo número de vacinas disponíveis até mesmo para um único segmento dos grupos prioritários.5 À época, não havia sequer trabalhos coordenados nas esferas municipal, estadual e federal para garantir uma vacinação segura.

A denúncia se torna mais grave ao considerarmos a existência do Programa Nacional de Imunizações (PNI), disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ele é responsável pela aplicação de mais de 300 milhões de doses anuais de vacinas, soros e imunoglobulinas por todo o território nacional. Contudo, o desmonte do SUS afeta todos os seus serviços, inclusive o PNI. “A política do atual governo reforça a iniciada em 2016, a partir do golpe de estado. Esta orientação, para a área da saúde, visa o desmonte do SUS como política pública”, esclarece Maria Inez Padula Anderson, professora do DMIFC-UERJ, em entrevista concedida também em dezembro ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU). Ela continua: “Todas as informações — que deviam vir de forma sistemática e organizada por parte do Ministério da Saúde — só vêm à tona por pressão judicial e/ou popular e/ou da classe científica”. Por fim, sentencia: “O presidente e forças políticas, que atuam através de supostas práticas religiosas e fake news, promovem — de forma proativa e deliberada — desconfiança e insegurança da população em relação à vacina”.

Vale lembrar que profissionais de saúde de boa parte dos Estados permanecem sem instruções claras de como funcionará o início do processo de imunização no Brasil. Além disso, muitos profissionais de saúde, entre eles, os médicos da rede pública do Rio de Janeiro, têm atuado em condições precárias, com atraso ou falta de pagamentos, cortes nos direitos trabalhistas e escassez de equipamentos de proteção individual adequados durante a pandemia.6 Até o dia 14 de janeiro de 2021, entre os nove Estados que abrigam a Amazônia brasileira, foram registrados 739 falecimentos de indígenas, pertencentes a 103 povos distintos. Apesar disso, no auge da crise de desabastecimento de oxigênio em Manaus, o Ministério da Saúde pressionou a distribuição de tratamento precoce contra COVID-19 pela rede pública de saúde estadual e municipal. O chamado kit covid contém remédios com cloroquina, hidroxicloroquina, além do antibiótico azitromicina e até do antiparasitário ivermectina, que são administrados como tratamento preventivo para a doença, mesmo sem terem eficácia comprovada.7 Diferentes cidades da região norte do Brasil já decretaram estado de calamidade pública devido à falta de condições para atender aos infectados pela COVID-19. Pessoas estão morrendo em casa, por sufocamento — dos pulmões e dos hospitais.

Nessas horas, o diálogo com as Ciências Humanas seria proveitoso. Os estudos sociais apontam, há décadas, que não existe economia fortalecida com uma população fragilizada. Que comportamentos individuais se inserem dentro de conjunturas mais amplas, que devem ser levadas em consideração. Que todo discurso é dotado de intencionalidade, contribuindo para determinadas agendas. Por isso, devemos nos atentar aos interesses por trás dos discursos proferidos pelos principais responsáveis (Governo Federal, Ministério da Saúde, institutos de pesquisa, laboratórios farmacêuticos etc.) pelo gerenciamento da pandemia. Eles visam o bem maior? Têm embasamento empírico, ou seja, se apoiam no registro de fenômenos e estudos que acontecem durante o cenário pandêmico?

Na área de Comunicação Social, particularmente, existem trabalhos dedicados a mapear redes de informação (ou desinformação), buscando entender como essas comunidades se formam, os agentes que as sustentam, os valores e pautas que nelas circulam, os arranjos (inclusive midiáticos) que permitem sua continuidade.8 Diferentes estudos apontam que as mensagens que alguém assimila e transmite dialogam com aquilo em que já acredita ou que gostaria que se comprovasse. Isso reforça sua visão de mundo, constrói sensação de segura. Para dialogar com essas pessoas, portanto, seria preciso entender de que referenciais elas partem ao ler os acontecimentos e notícias ao seu redor. Assim, é possível pensar estratégias de comunicação adequadas para alcançar diferentes grupos sociais de forma mais eficiente, checando como as mídias (tradicionais ou não) podem ser acionadas nesse processo. Foi esse o esforço empreendido na China para orientar a população sobre os cuidados necessários para conter a circulação do coronavírus, que se deu com apoio da Associação Chinesa de Ciência e Tecnologia (CAST). Ela abriga um departamento de comunicação científica, cuja função é servir de ponte entre os pesquisadores e o público para promover a compreensão da ciência. Durante a pandemia, a CAST garantiu que as campanhas informacionais alcançassem cada canto do território chinês, por variados meios: mídia impressa, rádio, TV e plataformas online. 9

Por outro lado, existem indivíduos e veículos comunicacionais que deliberadamente disseminam informações distorcidas ou falsas, tendo em vista algum objetivo (político, social, econômico) que os contemple. É necessário mapear esses agentes, aplicando sobre eles penas correspondentes ao dano que tenham causado. Reformulações nas leis vigentes propostas por pesquisadores e profissionais do Direito, da Comunicação, das Ciências Políticas e de áreas afins buscam atualizar o código penal para que abarque crimes como o espalhamento intencional de fake news.10

A junção dessas diferentes análises e pesquisas permite traçar planejamentos mais assertivos por parte dos poderes públicos. Por exemplo, o isolamento social de uma faxineira que ganha salário mínimo e divide um sobrado com outras cinco pessoas é diferente do isolamento social de um engenheiro que recebe salário alto, mora em um apartamento espaçoso e consegue trabalhar de casa. Para evitar que pessoas que se encaixam na primeira categoria se exponham ao vírus para complementarem a renda, um auxílio-emergencial de maior valor deve ser concedido a elas, em tempo hábil. Assim como a comunicação sobre o isolamento social dirigida à faxineira e ao engenheiro precisa ser capaz de dialogar com as vivências de cada um deles.

Conversar com representantes de comunidades ou grupos sociais, entender suas demandas, conhecer seu estilo de vida. Entre outros efeitos, esses métodos, comuns em trabalhos qualitativos nas Ciências Humanas, facilitariam a implementação de hábitos recomendados pelos pesquisadores para reduzir a circulação do coronavírus entre moradores de determinadas regiões de uma cidade ou Estado. A área de Humanidades aponta e registra problemas que, posteriormente, podem ser resolvidos por intervenções de outras áreas. Durante a pandemia, por exemplo, há empresas que adotam o trabalho remoto. Em outras, os funcionários precisam trabalhar presencialmente, seja porque sua atividade só pode ser desempenhada dessa forma, seja por se tratar de uma decisão empresarial que não considera o contexto pandêmico.11 Esses trabalhadores precisam utilizar o transporte público tanto na ida quanto na volta do trabalho. É necessário, portanto, realizar um planejamento para que não haja aglomerações no trajeto que esses trabalhadores costumam fazer. E assim por diante.

Como os pesquisadores da Saúde, os cientistas de Humanas também prezam pela integridade e dignidade do ser humano, entendendo que ele se insere em um corpo social. Corpo este que rege todas as relações e estruturas que atravessam as pessoas e as comunidades às quais pertencem. Se a pandemia ensina algo, é que o bem mais valioso que temos é a vida. Ensinamento que os povos originários sul-americanos há muito já transmitem, e vêm sendo retomado nos trabalhos de diferentes cientistas sociais (muitos deles, também indígenas). No combate à COVID-19, as Ciências Biológicas salvam vidas. A luta das Ciências Humanas é assegurar que as vidas salvas sejam acolhidas, para que pulsem com saúde, respeito, potência, construindo um Brasil mais funcional e justo.

1 G1 AM. Superlotado, maior pronto-socorro do AM recusa novos pacientes. [15/01/2021]. Disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2021/01/15/superlotado-maior-pronto-socorro-do-am-para-de-receber-novos-pacientes.ghtml

2 Uol Notícias. ‘Explosão de casos em Manaus é de nova cepa’, aponta infecciologista. [15/01/2021]. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2021/01/15/explosao-de-casos-em-manaus-e-de-nova-cepa-aponta-epidemiologista.htm

3 Agência Brasil. Covid-19: Brasil tem 8,39 milhões de casos e 208,1 mil mortes. [15/01/2021]. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-01/covid-19-brasil-tem-839-milhoes-de-casos-e-2081-mil-mortes

4 G1 AM. Publicado decreto que estabelece as regras de reabertura do comércio no Amazonas. [28/12/2020]. Disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2020/12/28/publicado-decreto-que-estabelece-as-regras-de-reabertura-do-comercio-no-amazonas.ghtml

5 Uol Notícias. Secretário de SP admite início tímido de vacinação e projeta mais doses. [18/01/2021]. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/18/secretario-de-sp-admite-inicio-timido-de-vacinacao-e-projeta-mais-doses.htm?cmpid=copiaecola

6 Conforme denunciado pelo Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro. Ver mais em: https://www.facebook.com/SinMedRio/posts/1691484071032730

7 Uol Notícias. MPF investigará prioridade à cloroquina e não ao oxigênio em Manaus. [15/01/2021]. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/15/mpf-investigara-improbidade-por-prioridade-a-cloroquina-e-nao-ao-oxigenio.htm

8 Thaiane Oliveira tem trabalhado os conceitos de desinformação científica e fake sciences ligadas à saúde. Para mais investigações sobre redes de desinformação, checar os trabalhos de Afonso de Albuquerque, Viktor Chagas e Marcelo Alves. Todos os pesquisadores aqui referidos pertencem ao PPGCOM UFF.

9 Na província chinesa de Zhejiang, por exemplo, medidas de comunicação científica multinível foram adotadas para prevenção e controle de doenças, o que inclui a COVID-19. Ver mais em: https://go.nature.com/3p4mwYT

10 ConJur. Especialistas afirmam: ‘Lei das Fake News’ é fundamental para o Brasil. [10/07/2020]. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2020-jul-10/especialistas-afirmam-lei-fake-news-fundamental-brasil

11 A precarização do trabalho durante a pandemia tem sido tema de discussão em diferentes áreas e trabalhos das Ciências Humanas. Checar, por exemplo, a entrevista concedida ao Jornal da USP por Wilson Amorim, professor associado do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo: https://jornal.usp.br/atualidades/pandemia-da-covid-19-acentuou-precarizacao-das-relacoes-de-trabalho/

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A circulação forçada de trabalhadores e o grande número de casos de Covid-19 nas periferias

O núcleo “Direito à Cidade” do LabCidade (Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade – FAU/USP), coordenado pelas professoras Raquel Rolnik e Paula Santoro, publicou recentemente uma pesquisa inovadora sobre a relação entre o deslocamento para trabalho dentro da cidade de São Paulo e a disseminação do Covid-19 nas periferias.

Os pesquisadores envolvidos propõem uma nova maneira de entender o avanço da pandemia na capital que contraria a associação, pouco evidenciada, entre pobreza, densidade populacional e contágio. Ou seja, a ideia de que as zonas mais pobres da cidade são as mais atingidas devido às condições precárias de habitação, por exemplo – a máxima “onde tem favela, tem pandemia” (Marino et al, 2020) – não se sustenta. Ao contrário, o resultado do estudo do LabCidade aponta para uma outra causa: a circulação da população periférica em transporte público para outras regiões pela necessidade de trabalhar.

O método da pesquisa envolveu o cruzamento de dados de várias fontes: registros do SUS de hospitalizações por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda e Grave) não identificada e Covid-19 até o dia 18 de maio, que incluíam o CEP de residência dos internados; a Pesquisa Origem Destino (2017) do Metrô; e dados da SPTrans a partir de GPS dos ônibus para identificar o ponto de origem e destino de cerca de 3 milhões de viagens realizadas apenas no dia 5 de junho de 2020. Dentre essas viagens, os pesquisadores identificaram aquelas pessoas que usam o transporte púbico como forma primeira de chegar ao local de trabalho, buscando o perfil de pessoas sem ensino superior e em cargos não executivos. A justificativa para essa seleção é a probabilidade alta de que as pessoas com ensino superior em cargos executivos ou profissionais liberais estejam trabalhando de casa, no sistema de “home office”.

O resultado foi a produção do mapa abaixo, que indica uma grande equivalência entre as zonas com a maior incidência de internações e as zonas com maior número de residentes circulando pela cidade para ir ao trabalho.

Os pesquisadores ressaltam que ainda não foi possível determinar onde teria ocorrido o contágio desses casos: se na origem (área de residência), no percurso (transporte público) ou se no destino (área do trabalho). Contudo, a conclusão evidente é que “quem está sendo mais atingido pela Covid-19 são as pessoas que tiveram que sair para trabalhar” (Marino et al, 2020).

Parece alarmante, portanto, que as prefeituras e governos estaduais baseiem seus planos de reabertura a partir de dados de zoneamento que não levam em conta nem esse fluxo diário interno de trabalhadores, nem o fluxo diário de trabalhadores para as cidades menores do entorno. A reabertura do comércio, das escolas e de outros serviços acarretaria o aumento de pessoas utilizando o transporte público, seja para trabalho, seja para consumo, o que provavelmente levará ao aumento do contágio e colocará em risco maior inclusive os profissionais da saúde tão necessários nesse contexto. Sendo assim, os pesquisadores concluem: “Se o maior número de óbitos está nos territórios que tiveram mais pessoas saindo para trabalhar durante o período de isolamento, temos que pensar tanto em políticas que as protejam em seus percursos como ampliar o direito ao isolamento paras as pessoas que não estão envolvidas com serviços essenciais mas precisam trabalhar para garantir seu sustento, o que reforça a importância de políticas de garantia de renda e segurança alimentar, subsídios de aluguel e outras despesas, e ações articuladas a coletivos e organizações locais para a proteção dos que mais estão ameaçados durante a pandemia.” (Marino et al, 2020).

Fonte:

MARINO, A., KLINTOWITZ, D., BRITO, G., ROLNIK, R., SANTORO, P. e MENDONÇA, P. “Circulação para trabalho explica concentração de casos de Covid-19”, Página do Labcidade, 30 de junho de 2020. Disponível em: http://www.labcidade.fau.usp.br/circulacao-para-trabalho-inclusive-servicos-essenciais-explica-concentracao-de-casos-de-covid-19/

Página do Labcidade: http://www.labcidade.fau.usp.br/

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Quando um estudo é confiável? Os casos do ozônio e da hidroxicloroquina

Com o mundo inteiro passando por uma pandemia que está desafiando a ciência (e os nervos), está sendo possível acompanhar o desenvolvimento de medicamentos e possíveis tratamentos para COVID-19 (Para mais informações sobre alguns tratamentos, você pode ler esses posts aqui no blog: 1, 2, 3, 4) . Como nem todo mundo está acostumado com o andar da ciência, a chuva de notícias mostrando que uma hora tal medicamento é promissor, e na semana seguinte já não é mais, causa muita confusão na cabeça da população que só quer sair da p%%¨&%$&*$¨ do isolamento. Falta de paciência misturada com falta de conhecimento científico e gente mal intencionada acaba gerando um caos.

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Figura 1: O ânimo durante o isolamento social. Fonte: Justin Sullivan / Getty Images North America / AFP

O caso mais recente foi o que aconteceu na cidade de Itajaí (SC), onde o prefeito, que é médico, queria indicar para a população uma terapia com ozônio baseado em alguns estudos e relatos de melhoras de pacientes com COVID-19. O caso mais grave foi o da hidroxicloroquina que foi recomendada não só pelo presidente do Brasil, mas também pelo presidente norte americano, e que não tem eficácia comprovada. A confusão em ambos os casos se deu porque os defensores dessas terapias baseiam a sua opinião em estudos publicados que afirmavam que os tratamentos funcionavam. A questão toda aqui é que nem todo estudo pode ser considerado válido a nível populacional. Existem diferentes tipos de estudos para comprovar a eficácia e segurança de um medicamento e alguns são mais confiáveis que outros. Nesse texto eu vou tentar explicar um pouco quais as características de um estudo que conferem mais ou menos credibilidade.

Nesse texto aqui do blog, a autora apresenta algumas metodologias de pesquisa, conceitos e detalha quais são as classificações dos estudos. Dependendo do que se quer estudar, o desenho do estudo, a quantidade de pacientes incluídos e o tempo de observação vão ser diferentes. Como regra geral, quanto mais pacientes e variáveis avaliadas por um período maior de tempo, melhor o estudo.

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Figura 2: Diferença entre o método científico, no qual o pesquisador observa o fenômeno, formula hipóteses a faz testes que podem ou não confirmar a hipótese inicial, de outros métodos que “produzem” medicamentos, tratamentos ou teorias sem comprovação. Fonte: https://conhecimentocientifico.r7.com/metodo-cientifico/ acesso em 18 de agosto de 2020.

No caso da ozonioterapia, por exemplo, o prefeito de Itajaí citou estudos feitos na Itália e Espanha que comprovaram a eficácia desse tratamento. Um ponto importante é que em nenhuma reportagem ou entrevista ele citou que estudos são esses, então eu fui procurar o que tem publicado. Na maioria dos casos, os artigos trazem informações teóricas de outros estudos e extrapolam os resultados para chegar à conclusão que ozônio seria um possível tratamento para COVID-19. Um desses estudos, publicado na revista Antioxidantes, mostra dados de uma série de outros estudos nos quais o ozônio atuou como protetor celular em diversas condições de estresse. É um tipo de estudo de revisão, que agrupa informações sobre um determinado assunto, permite comparar essas informações de diferentes fontes e avaliar a consistência dos dados. O problema aqui é que ele não mostrou nenhum dado específico de ozônio no tratamento de COVID-19. Nem mesmo em experimentos em laboratório. Nesse caso não é um estudo que podemos nos basear para iniciar tratamento de pacientes. Num outro estudo, pesquisadores utilizam a mesma técnica, mas agora focando mais em uma característica específica. O artigo fala de problemas de microcirculação pulmonar que é característico em diversas outras doenças e faz um gancho dizendo que ozônio, em teoria, aumentaria a oxigenação, concluindo que se COVID-19 causar um problema de falta de circulação sanguínea, e consequentemente falta de oxigênio no pulmão, isso já seria evidência suficiente para usar ozônio para tratamento de COVID-19. A conclusão do artigo é ainda mais chocante:

“The use of the ozone-dilution technique in physiological solution and its infusion could also be evaluated and, in the future, the possibility of using ozone therapy with endonasal  insufflation as a substitute for the vaccine could be evaluated.”

Em tradução livre: “O uso da técnica de diluição de ozônio em solução fisiológica e sua infusão poderia ser avaliada e, no futuro, a possibilidade de uso da ozonioterapia por insuflação endonasal como um substituto da vacina poderia ser avaliado”.

Não só o artigo não traz dados clínicos e experimentais específicos de COVID-19, como ainda sugere que a terapia pode ser usada ao invés de uma vacina. Outro detalhe importante, o artigo não é revisado por pares, o que significa que os autores o escreveram e publicaram sem ninguém ler e emitir uma opinião a respeito. Para vocês terem uma ideia, todos os textos publicados aqui no blog são revisados por pelo menos duas outras pessoas e discutidos antes de serem finalizados. Isso evita erros, vieses, e falha de comunicação por exemplo. Novamente, aquele é um artigo científico? Tecnicamente sim. Tem algum valor para o conhecimento e prática clínica? Não. E porque não? Porque não traz dados de pacientes com COVID-19, não faz comparação entre pacientes que usam ozônio e os que que não usam ozônio, e absolutamente nenhum dado que nos indique que os pacientes que usam ozônio não tiveram efeito adverso, nem mesmo dados de experimentos em laboratório. Você está disposto a usar algo que nunca foi testado antes e além de não ter comprovação de eficácia, não se sabe se é seguro?

Existem registros de pelo menos dois estudos clínicos sendo feitos na China para avaliar o uso da ozonioterapia no tratamento de COVID-19. Pelo menos um deles é randomizado, ou seja, os pacientes são escolhidos aleatoriamente, o que é uma vantagem porque representa melhor a população. Ainda assim, esse estudo em andamento conta com somente 152 participantes. Quando os resultados saírem, podemos ter uma ideia melhor de como o ozônio afeta os pacientes com COVID-19.

A questão da hidroxicloroquina segue a mesma linha de raciocínio. É verdade que alguns estudos publicados mostraram resultados diretamente em pacientes tratados em hospitais, o que já é uma vantagem em relação à ozonioterapia, mas as notícias boas acabam por aí. Um dos estudos que trouxe a hidroxicloroquina para as notícias foi conduzido na França avaliando 20 pacientes infectados com COVID-19. O problema deste estudo é que 20 pacientes não representam a população. Ele é válido no sentido de despertar uma possibilidade de tratamento que precisa ser mais investigada e ponto. Não se pode dizer que porque 20 pessoas tiveram uma melhora por conta de um tratamento, aquele tratamento pode ser feito em todo mundo. Muito menos comprar estoques e estoques de um medicamento e indicar que a população se automedique porque 20 pessoas tiveram uma melhora. Quem são essas 20 pessoas? elas tinham algum problema pré-existente? eram homens? mulheres? quais eram suas idades? Um detalhe importante desse artigo é que do grupo de pacientes que iniciaram tratamento com a hidroxicloroquina, 6 morreram antes de terminar o tratamento. Nenhum paciente do grupo controle morreu. Os autores não levaram em consideração essas mortes durante a análise dos resultados, então quando eles concluem que 100% dos pacientes tratados com hidroxicloroquina e azitromicina testaram negativo para o vírus depois do tratamento, eles estão considerando somente os pacientes que terminaram o tratamento vivos. Não te parece errado não considerar e não avaliar o porquê outros pacientes morreram durante o tratamento? Já temos outros estudos maiores e com resultados confiantes mostrando que a hidroxicloroquina não oferece nenhuma vantagem no tratamento de COVID-19.

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Figura 3: Ás vezes muita informação e dados divergentes podem fazer a gente ficar confuso. Fonte: Arquivo pessoal.

Eu entendo que nem todo mundo lê e entende um artigo científico. Fica confuso e difícil avaliar em quem confiar quando muitos jargões são usados e a comunicação não é eficaz. Na situação atual, tudo que queremos é uma cura, deixar de ter medo, rever amigos e familiares e voltar a nossa rotina, mas não existe milagre. Desconfie de tudo que for muito bom pra ser verdade. Desconfie da pílula mágica ou super alimento que cura desde unha encravada até câncer. Procure diversas fontes antes de chegar a uma conclusão. Veja o que grandes organizações, como OMS, Conselhos de Medicina, institutos de pesquisa ou universidades estão falando a respeito. Nessas organizações o consenso não é baseado em uma ou outra opinião, são milhares de pesquisadores, médicos, e profissionais de saúde conversando e avaliando todos os pontos de vista. A evolução da ciência não depende da nossa opinião e não acontece do dia para a noite. É resultado de testes, experimentos, cálculos, interpretação e principalmente trabalho árduo de cientistas. Tudo o que queremos é ter uma cura, uma vacina, uma notícia positiva e estamos nos esforçando para isso, mas queremos ter certeza de que tudo o que fazemos vai ser seguro e certeiro. Como diz minha mãe, não queremos que a emenda saia pior que o soneto.

 

Referências:

Martínez-Sánchez G, Schwartz A, Di Donna V. Potential Cytoprotective Activity of Ozone Therapy in SARS-CoV-2/COVID-19. 2020. Antioxidants, 9: 389. DOI: 10.3390/antiox9050389.

Ranaldi GT, Villani ER, Franza L, Motola G. 2020. Devils and Angels: Ozonetherapy for microcirculation in covid-19. DOI: https://doi.org/10.31226/osf.io/c2jvt.

Gautret P, Lagier, Parola JCP, Hoang VT, Meddeb L, Mailhe M, Doudier B, Courjon J, Giordanengo V, Vieira VE, Dupont HT, Honoré S, Colson P, Chabrière E et al. 2020. Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open-label non-randomized clinical trial. International Journal of Antimicrobial Agents, 56 (1): 105949. DOI: https://doi.org/10.1016/j.ijantimicag.2020.105949.

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SARS-CoV-2, como fazer para essa Pandemia não acontecer novamente?

 

Virus

Figura 1- imagem do SARS-CoV-2. Piro4d por pixabay.

No dia 30 de janeiro de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou Estado de Emergência Global em razão do SARS-CoV-2, dois meses após o primeiro caso em Wuhan, China. Desde então pesquisadores de todo o mundo começaram a estudar diferentes métodos de tratamento, mecanismos de dispersão e transmissão do vírus, uma nova vacina, etc. Ainda assim, estamos em julho e com muita pesquisa e análises para serem feitas e que possam nos ajudar a entender um pouco mais sobre esse vírus. No entanto, ainda que façamos o isolamento social e estejamos impactados pelo surgimento do coronavírus e com o número de pessoas que estão infectadas no planeta (mais de 11 milhões de pessoas no dia 4 de julho), o mundo não pára: o aquecimento global continua acontecendo, tendo como consequência o aumento de temperaturas, como aconteceu na Sibéria que atingiu 38°C, a mais quente na história daquele país, outro exemplo são as nuvens de gafanhoto que têm se dispersado na África, Ásia e na América do Sul

Alguns pesquisadores apontam: apertem os cintos, porque isso é só o começo. Grandes pandemias podem ocorrer após a COVID-19 e ter um impacto ainda maior na população mundial se não cuidarmos do nosso planeta. Visto isso, um estudo publicado por um grande grupo de pesquisadores, liderado pelo Dr. Dan Brooks em maio de 2020, traz algumas soluções para se tentar amenizar essas catástrofes iminentes.

O PARADIGMA DE ESTOCOLMO

O Paradigma de Estocolmo é um conceito utilizado nos estudos parasitológicos e sugere que a capacidade dos patógenos de se associarem a algum hospedeiro está relacionada a ocorrência de características específicas do próprio hospedeiro. Estas características representam os requisitos necessários para a ocorrência daquele patógeno.

No entanto, para entender um pouco mais sobre esse conceito, vamos trazer aqui a definição de parasitismo. De acordo com Araújo e colaboradores (2013), o parasitismo é composto por três subsistemas: o parasito, o hospedeiro e o meio ambiente. O parasito pode ser definido como um organismo que encontra seu nicho ecológico em outro organismo. Um parasito não causa necessariamente uma doença, sendo esta uma consequência do desequilíbrio em um dos subsistemas.

O Paradigma de Estocolmo propõe que os parasitos utilizam suas características pré-existentes para colonizar um novo hospedeiro; ou seja, não representam a evolução de novas ou de características especiais nesses parasitos. No caso do SARS-CoV-2, os receptores existentes nos morcegos (quer ler mais sobre? Clique aqui), essenciais para a sobrevivência do vírus, estão presentes em um grupo diverso de mamíferos, que por sua vez têm potencial para se tornarem novos hospedeiros. Esse parasito foi então “oportunista” e acabou infectando novos hospedeiros. E quem seriam esses novos hospedeiros? Nós, os humanos.

Os coronavírus são um grupo de vírus que parasitam mais frequentemente os morcegos, no entanto existem algumas variantes que ocorrem em outras espécies. Apesar da grande maioria dos coronavírus não serem transmitidos diretamente para os humanos, existem alguns fatores que podem facilitar a transmissão: um exemplo são os mercados que comercializam uma diversidade de animais silvestres para o consumo por humanos. A emergência dos vírus SARS-CoV em 2003 e agora do SARS-CoV-2 é resultado dessas práticas. A exposição a novos patógenos aumenta devido a globalização, importação e exportação de alimentos, viagens turísticas e de negócios. A cereja do bolo deste quadro já bastante complexo são as mudanças climáticas, potencializadas e influenciadas pelas práticas humanas

mundo

figura 2- imagem de gerd altmann por pixabay.

O Paradigma de Estocolmo nos ensina que a emergência das crises e pandemias de doenças infecciosas está associada a mudanças que facilitam a oportunidade que esses patógenos têm para ocupar novos hospedeiros e reservatórios, devido às alterações em seus espaços. Esses espaços são os habitats que esses organismos ocupam.

São três os elementos que compõem essa alteração no espaço:

1) mudanças climáticas que levam a mudança de habitat e comportamento de diversas espécies e consequentemente seus parasitos;

2) globalização do comércio e viagens, que aumenta a diversidade e frequência dos encontros de parasitos;

3) aumento da urbanização, com mais de 50% da população humana residindo em cidades, o que aumenta a emergência de doenças parasitárias.

Caso haja alguma alteração no habitat de um hospedeiro, por exemplo, o desmatamento de florestas para criação de gado, esses hospedeiros não têm para onde ir e acabam entrando em locais onde os humanos habitam, e carreiam seus parasitos e consequentemente a população que habita o local é exposta a novos microrganismos.

As cidades são os locais mais vulneráveis devido: ao clima, que é mais quente; à dependência de insumos que vêm de outros locais e que acabam trazendo microrganismos; à ocorrência de espécies que são vetores de microrganismos e que afetam os humanos e seus animais de estimação; à alta densidade populacional e aglomeração aumentando a chance de exposição aos patógenos; à divisão laboral e interdependência; à desigualdade social que leva a falta de saneamento básico e à exposição a doenças emergentes.  

O PROTOCOLO DAMA

Esse protocolo é uma extensão do Paradigma de Estocolmo. Os pilares do DAMA são:

Documentar a existência de microrganismos causadores de doenças em cada país, e também seu ciclo de vida, onde circulam, quais são os hospedeiros, vetores e os mecanismos de transmissão;

Avaliar a importância relativa desses parasitos encontrados na documentação, a fim de focar nos mais importantes;

Monitorar os parasitos considerados significativos na avaliação;

Ações efetivas quando for necessário, engajar governos e ONGs.

A aplicação deste protocolo é urgente: há 15 anos pesquisadores da China identificaram um coronavírus com similaridade genética ao SARS-CoV-2 em morcegos que habitavam uma caverna na província de Yunnan. Caso o protocolo DAMA tivesse sido aplicado, provavelmente teríamos hoje mais informações a respeito desse vírus.

Mapa

figura 3. Mapa da Província de Yunnan, China. Fonte: Google Maps.

A crise relacionada ao SARS-CoV-2 não é somente uma crise de saúde, é um problema relacionado à biodiversidade, ecologia e evolução, e está interligado às ações humanas. A pandemia de hoje nos alerta sobre a necessidade de usarmos todas as ferramentas necessárias para tentar diminuir o impacto que a espécie humana causou no nosso planeta. A ciência tem avançado, mas o negacionismo ainda a cerca, limitando a propagação do conhecimento científico para o grande público, e trazendo fake news que diminuem a credibilidade dos cientistas. Apesar de parecer quase impossível combater as alterações climáticas, e também os negacionistas da ciência e suas fake news, ainda há esperança para pelo menos diminuir os impactos e ter um mundo que as próximas gerações possam usufruir. Estamos indo para um caminho que talvez não tenha mais volta, portanto precisamos de toda ajuda necessária de cada um que habita o nosso planeta, e principalmente confiar nos cientistas que trabalham para isso.

Arvores

figura 4- imagem de mystic art design por pixabay.

Vamos fazer a nossa parte?

Referências:

– Brooks et al. (2020). Before The Pandemic Ends: Making Sure This Never Happens Again. World Complexity Science Academy Journal, vol. 1(1).

– Araújo et al. (2013). Paleoparasitology: the origin of human parasites. Arquivos de Neuropsiquiatria, 71(9-B): 722-726.

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A relação entre mulheres, economia e a pandemia de Covid-19.

Mulher com cartaz com um ponto de interrogação na frente do rosto. Crédito: Getty images.

O Brasil começou o ano de 2020 com indícios e fatos reverberantes sobre uma crise econômica crescente, marcada, entre outros fatores, por uma grande quantidade de pessoas desempregadas, mais de 12,9 milhões de pessoas, destas, quase 65% são mulheres (IBGE, 2020). A pandemia de covid-19 apenas expôs de forma mais nítida a carência social presente no país, bem como a importante participação das mulheres no enfrentamento dessa doença.

Não diferente do já observado no decorrer da trajetória social, o ser feminino carrega consigo uma “obrigação” em realizar inúmeras atividades para atender as demandas que este novo cenário requer. Diante de diversas ações a serem analisadas, que perpassam desde a vulnerabilidade econômica, a sobrecarga de trabalho doméstico e a exposição à violência, as mulheres estão no centro das atividades motriz de uma família.

As mulheres estão à frente da maior parte do trabalho doméstico, por vezes não remunerado; quando em home office devem conciliar o trabalho remunerado com as atividades de cuidado com a casa e família. Ademais, representam a maioria em algumas categorias profissionais informais (faxineiras e diaristas) e nos cuidados sanitários (áreas da saúde e assistência social), estando econômico e socialmente mais vulneráveis aos efeitos da pandemia. Devido essas especificidades que circundam o ser feminino, a Organização das Nações Unidas – ONU – Mulheres apontou a necessidade de políticas públicas com atenção às mulheres (ONU, 2020).

Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – nas últimas 07 décadas a participação das mulheres em idade ativa na força de trabalho passou de 13%, em 1950, para cerca 45%, em 2000, sendo crescente a participação feminina nas atividades economicamente remuneráveis nos últimos anos (IBGE, 2020). Ao observar esses dados, a participação masculina ainda é maior que a feminina, o que pode indicar uma dependência econômica das mulheres, principalmente nas populações mais pobres e, sobretudo quando se consideram as mulheres pretas e pardas.

Mãe e filha usam máscaras para se proteger contra o coronavírus em um centro de saúde em Adidjan, Costa do Marfim. Crédito: UNICEF/Frank Dejongh.

Quando se relaciona à covid-19 mais de 60% dos empregos considerados de grande risco são ocupados por mulheres (IBGE, 2020). Conforme a Organização Mundial de Saúde – OMS –, no mundo 70% dos trabalhadores da área da saúde e do terceiro setor (Associações e Entidades sem fins lucrativos) são mulheres (OMS, 2020). No Brasil, 85% dos empregos na enfermagem são ocupados por mulheres. Os profissionais e profissionais da saúde enfrentam além do risco de contaminação, um elevado grau de estresse acometido por esse novo vírus, que pode interferir em todas as suas relações sociais.

Profissional da saúde com semblante de esgotamento físico. Crédito: Wachter health care solutions.

A crise econômica do país tem atenuado a transição entre trabalho formal para informal, mais de 82% destes postos de trabalho foram ocupados por mulheres negras, principalmente no emprego doméstico, deste, cerca de 70% são trabalhadoras informais. Outro ponto que merece destaque é que mais de 45% dessas mulheres são responsáveis pelo sustento da família. A perda de rendimentos afetam filhos e dependentes, podendo levar famílias inteiras à miséria.

Há uma preocupação global com a violência doméstica no período de quarentena. A estimativa da OMS é que a cada três mulheres no mundo, uma sofre violência física ou sexual, e na maior parte dos casos, essa violência é cometida por alguém do seio familiar. Na pandemia, as mulheres estão mais sujeitas a violência e a decisão de ficar em casa para não se contaminar significa ficar a mercê do agressor (OMS, 2020).

Violência contra mulher. Crédito: Getty images.

Por outro lado, as mulheres que buscam empreender também sentem os efeitos da crise econômica. Segundo pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE – as empresárias possuem mais dificuldades em obter acesso a crédito que os empresários. A pesquisa apontou que as mulheres empresárias possuem média de escolaridade 16% superior que à dos homens, são mais modernas, ágeis e recorrem em menor proporção a financiamentos para prosseguir com as atividades empreendedoras, entretanto, são as mais afetadas pela pandemia, cerca de 50% dos negócios foram afetados temporariamente ou definitivamente (SEBRAE, 2020).

Mulher com máscara: coronavírus, Covid-19. Crédito: Goffkein.pro/Shutterstock.

Com a recomendação da OMS em manter o isolamento social, se faz necessário políticas públicas federais destinadas a essa população. Contudo, o que se verifica na realidade, são medidas que não conseguem alcançar toda a população que carece de ajuda financeira para conseguir passar por esse delicado período. Momentos como o atual, são mais difíceis para o gênero feminino, uma vez que mesmo quando as mulheres não fazem parte do grupo de risco, elas são do grupo que cuidam de pessoas.

Assim, a pandemia de covid-19 tem impactos diretos na saúde, na renda, nas relações familiares, na educação e nos serviços públicos. Essas áreas são mais ou menos sentidas conforme a renda, localização, sexo, raça e idade dos indivíduos. Sendo assim, se faz interessante que os governos pensem em respostas coerentes e responsáveis com as diversas situações e que ajam com veemência para reduzir o tamanho dos danos que podem ocorrer. Enquanto o novo normal não ocorre, o ser feminino continuará a ser resistência na manutenção de sua família e de sua renda.

Referências:

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/>. Acesso: 28 de maio de 2020.

OMS. Organização Mundial de Saúde. Disponível em: <https://www.who.int/eportuguese/countries/bra/pt/>. Acesso: 28 de maio de 2020.

ONU. Organização das Nações Unidas. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/>. Acesso: 28 de maio de 2020.

SEBRAE. Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas. Disponível em: <https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae>. Acesso: 28 de maio de 2020.

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Aerossóis e detergência: o que o estudo coloides pode contribuir para o combate da covid-19? – Parte II

Uma das discussões em alta em quase 3 meses de pandemia no Brasil é sobre quais são as formas que uma pessoa pode ser infectada pelo novo coronavírus. Como vimos na parte I, uma das maneiras de ser infectado pelo coronavírus é tocar os olhos, nariz e boca após tocar em superfícies contaminadas – por isso a recomendação de lavar bem as mãos com água e sabão e evitar tocar o rosto com as mãos sujas. Outra maneira possível de se infectar é se expor a aerossóis contendo o coronavírus. Mas o que é um aerossol? Como podemos evitar que aerossóis nos contaminem?

Aerossol também é coloide

Assim como a detergência, os aerossóis também são estudados na ciência dos coloides . Mas o que é um aerossol? Aerossol consiste na mistura de micropartículas de sólido em gás, como, por exemplo, um desodorante, ou uma mistura de microgotículas de líquido em gás, como a neblina, por exemplo [1]. Quando respiramos, falamos, cantamos, espirramos e tossimos, liberamos para o meio externo aerossóis compostos por microgotículas de secreções do trato respiratório (muco e saliva, por exemplo) dispersas no ar que expiramos durante a respiração. O processo é similar aquele do frasco de perfume: cada vez que você aperta a válvula, gotículas do perfume líquido são misturadas ao ar contido na cânula, e um aerossol de perfume é formado. Por isso conseguimos aplicar o perfume que está disperso como se fosse uma fina nuvem perfumada.

Agora vamos relembrar por um momento o ato de respirar: primeiro inspiramos o ar atmosférico; o ar, agora dentro dos pulmões infla os alvéolos, pequenos balõezinhos localizados nos pulmões. Esses alvéolos permitem as trocas gasosas necessárias para a nossa sobrevivência: o sangue venoso, sangue que já circulou pelo corpo, é rico em gás carbônico (CO2); ao chegar aos alvéolos, o CO2 ligado à hemoglobina é liberado para o ar dentro do alvéolo. Ao mesmo tempo, o O2 contido no ar se liga à hemoglobina, e esse sangue agora definido como sangue arterial, é enviado para todas as partes do seu corpo, e vai oxigenar as células e permitir que elas realizem as reações químicas necessárias para manter você vivx.

Após essas trocas gasosas que ocorreram nos alvéolos, o ar é expirado, passando pela traqueia, laringe, faringe e boca e nariz até sair para fora do seu corpo. Acontece que na expiração do ar nosso trato respiratório também produz aerossóis, pois temos água e secreções, como muco, em todo o caminho que o ar passa. Ou seja, a cada expiração que damos estamos expelindo aerossóis, que podem atingir diferentes distâncias em função da velocidade com que são expelidas. A figura 1 mostra resumidamente este processo: 

Figura 1 – Distâncias atingidas por aerossóis emitidos por uma pessoa*: as gotículas maiores, por serem pesadas, atingem até 1,5 m (curva em vermelho). Por exemplo, quando uma pessoa fala, o aerossol que ela expele pode atingir distância da ordem de 1,5 m. Se uma pessoa tosse, o aerossol sai com velocidade de 10 m/s (ou 36 km/h), podendo atingir distâncias maiores que 2 m (seta em laranja). Já quando uma pessoa espirra, a velocidade com que um aerossol é expelido pode chegar a 50 m/s (ou 180 km/h) e este pode atingir distâncias maiores que 6,0 m. *Essas distâncias podem variar em função da altura de cada pessoa, da velocidade do vento e densidade do ar no local. Créditos: MIT/FT Research.

E aí é que pode estar o problema: pessoas infectadas com o novo coronavírus secretam muco cheio de vírus – assim, os aerossóis que elas produzem a cada expirada contém milhares de vírus que podem infectar outra pessoa. Um problema adicional relacionado à covid-19 é que pessoas assintomáticas, ou seja, pessoas que estão infectadas com o coronavírus mas que não apresentam nenhum sintoma relacionado à covid-19, podem transmitir o vírus. Lembrando que os sintomas relacionados à covid-19 são: febre, gotejamento nasal, tosse seca, dor no corpo, perda do olfato e/ou do paladar, conjuntivite, diarreia, descoloração dos pés e mãos, e os sintomas mais graves são: falta de ar e dor ou pressão no peito.

Infecção pelo novo coronavírus: carga viral do aerossol x tempo de exposição

Agora que já sabemos que todos expelem aerossóis durante a respiração, fica a pergunta: quais são as condições para que um contato com aerossol contendo coronavírus se torne uma infecção bem-sucedida? De acordo com estudos [3-5], dois fatores podem estar fortemente relacionados às infecções – a carga viral contida no aerossol e o tempo de exposição a esse aerossol contaminado.

A carga viral contida no aerossol nada mais é que a quantidade de vírus contidos no aerossol. Um estudo em amostras de secreções coletadas em pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 contém em média da ordem de 1 milhão de coronavírus por mL (!), e essa quantidade não difere significativamente por faixa etária, ou seja, essa carga viral é encontrada em crianças, adultos e idosos infectados. Cada vírus tem uma dose mínima necessária para que uma infecção ocorra: essa dose é definida como sendo o número mínimo de vírus (carga viral) que pode causar infecção em 50% da população, e quanto maior a carga viral que uma pessoa entra em contato, maior a chance de ser infectada.

Outro fator importante é o tempo de exposição ao aerossol contendo o novo coronavírus. Neste sentido, os estudos sobre como o aerossol se comporta em ambientes fechados podem dar boas pistas sobre como as pessoas ficam doentes por covid-19 [6]. Uma pessoa emite aerossóis cujas gotículas podem ter dimensões da ordem de 5 µm [3]. As gotículas maiores, cujo tamanho é de 5 µm ou mais, pousam rapidamente em superfícies a até 1,5 m do emissor devido a seu peso [6]. Entretanto, as gotículas cujo tamanho é inferior a 5 µm são muito leves e podem flutuar em um ambiente por horas [7]. Abaixo temos 3 vídeos que mostram os resultados de estudos de aerossóis: o vídeo 1 mostra a pesquisa de cientistas japoneses em conjunto com a emissora NHK, que mostram que emitimos aerossóis quando falamos, conversamos, espirramos e tossimos. O vídeo 2 mostra os resultados da cientista Lydia Bourouiba, que relacionam a distância atingida pelos aerossóis quando falamos, espirramos e tossimos. Por fim, o vídeo 3 mostra uma simulação feita por pesquisadores finlandeses, que mostram como o aerossol emitido por uma pessoa que espirre em um local fechado como um supermercado por chegar até outra pessoa localizada em outro corredor.

Vídeo 1: pesquisa de cientistas japoneses em conjunto com a emissora NHK mostra  emissão de aerossóis quando falamos, conversamos, espirramos e tossimos. Créditos do vídeo: NHK. Créditos da legenda: Dr. Alexandre Cercal.

Vídeo 2: resultados da cientista Lydia Bourouiba relaciona a distância atingida pelos aerossóis ao falarmos, espirrarmos e tossirmos . Créditos: Lydia Bourouiba/MIT.

Vídeo 3: Simulação realizada por pesquisadores finlandeses mostra como o comportamento do aerossol emitido por uma pessoa que espirra em um ambiente fechado. Créditos: Finnish Meteorological Institute/Aalto University/ VTT/University of Helsinki/IT Center for Science CSC. Animation: Mikko Auvinen and Antti Hellsten.

Os resultados obtidos nas diversas pesquisas sobre aerossóis e covid-19 mostram que:

▪ As gotículas maiores caem no solo por conta do seu peso, e atingem no máximo 2 metros a partir da pessoa que o emitiu. Assim, como essas gotículas podem conter o coronavírus, é fundamental lavar as mãos sempre que tocar uma superfície que esteja em lugar com trânsito de pessoas, como corrimãos, botões de elevador, produtos comprados em supermercados e lojas, por exemplo. Idealmente o melhor é praticar o isolamento social. Porém, para aqueles que necessitam sair de casa, praticar o distanciamento social, ou seja, manter distância mínima de 2 metros de outras pessoas, faz todo sentido.

▪ As gotículas menores podem ficar suspensas no ar, formando uma espécie de “pluma” ou nuvem, que pode ser inalada. Assim, o uso de máscaras é recomendado por dois motivos: o primeiro para evitar que uma pessoa inale aerossóis contendo o vírus e se infecte; o segundo  para evitar que uma pessoa assintomática que não sabe que está infectada libere aerossóis carregados de vírus. Ainda no quesito plumas, outro ponto importante é baixar a tampa do vaso sanitário quando for acionar a descarga. Como há evidências de traços do vírus em fezes, é importante evitar a pluma que pode ser originada a partir da descarga no vaso sanitário com a tampa aberta – que pode disseminar pelo seu banheiro também coliformes fecais, por exemplo.   

O que podemos fazer para diminuir a chance de contágio pelo coronavírus?

Em primeiro lugar: se puder, fique em casa!

Em segundo lugar: se precisar sair, use máscaras!

Cada vez que saímos de casa, não sabemos quais superfícies podem ter sido contaminadas pelo coronavírus. Ainda, não temos a informação de que as pessoas que passaram por corredores, elevadores, salas e ambientes fechados em geral estão infectadas pelo coronavírus e, portanto, expeliram aerossóis que contaminaram o ambiente. Como um exemplo drástico, no Distrito Federal houve o caso recente de uma denúncia sobre uma senhora que cuspiu na própria mão e passou em produtos de uma loja em um dos shoppings centers do DF. O caso se encontra sob investigação, mas caso ela esteja infectada, ela pode ter contaminado os objetos que ela tocou com saliva contendo carga viral. Se um cliente toca um desses produtos desavisado, corre o risco de ser infectado também. Vale enfatizar que o fato de você, leitorx, mesmo se não apresentar sintomas, também pode estar infectado com o coronavírus e infectar outras pessoas.

Os estudos sobre a aerodinâmica dos aerossóis mostram como as gotículas que expelimos na respiração se comportam em ambientes abertos e fechados. Em ambientes fechados, como academias, lojas, supermercados, shoppings centers, corredores, e salas em geral o risco de infecção pode ser alto. Em ambientes abertos, ainda que os ventos possam dispersar aerossóis, ainda assim representam risco,  inferior ao em ambientes fechados. Finalmente, não sabemos ainda qual a carga viral mínima para que a infecção ocorra, mas os estudos que traçam por onde pessoas infectadas estiveram e quem foi contaminado nestes mesmos lugares e datas indicam que talvez apenas algumas centenas ou milhares de coronavírus sejam suficientes para infectar uma pessoa. Assim, o mais prudente no momento para evitar a disseminação descontrolada da covid-19 é que todos previnam-se e ajam como se estivessem contaminados, praticando o isolamento/distanciamento social e utilizando máscaras se precisar sair de casa.

Como todas as pessoas, sem exceção, expelem aerossóis quando respiram, falam, cantam, gritam, tossem ou espirram, e como não temos como saber se uma pessoa aparentemente saudável está infectada e quais são as condições ideais para infectar outra pessoa, a melhor dica-tendência do momento é: fique em casa se puder! E se precisar sair, usem máscaras! Prevenir a disseminação da covid-19 é um ato de amor ao próximo!

Para saber mais:

[1] R. J. Hunter, Introduction to modern colloid science. Oxford Science Publications, Oxford, 1998.

[3] S. Asadi, N. Bouvier, A. Wexler, W. D. Ristenpart, Aerosol Sci Tech 54, 635 – 638, 2020.

[4] X. He, E. H. Y. Lau et al, Nature Medicine 26, 676-675, 2020.

[5] L. Bourouiba, JAMA 323, 1837-1838, 2020.

[6] D. Contini e F. Constabile, Atmosfere 11, 377, 2020.

[7] Van Doremalen, N.; Bushmaker, T.; Morris, D.H.; Holbrook, M.G.; Gamble, A.; Williamson, B.N.; Tamin, A.; Harcourt, J.L.; Thornburg, N.J.; Gerber, S.I.; et al.. N Engl J Med, 1–3, 2020.

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Aerossóis e detergência: o que o estudo de coloides pode contribuir para o combate da covid-19? – Parte I

Créditos: Orpheus FX/Shutterstock

Em plena pandemia de covid-19 diversos perguntas surgem: quando teremos uma vacina? Quando a cura será encontrada? É possível atingir a imunidade de rebanho? A vida voltará ao normal? Como podemos prevenir o contágio? Até que os cientistas tenham descoberto uma vacina e/ou medicamento de eficácia comprovada, o melhor que todos nós podemos fazer é: diminuir a velocidade de infecção para não causar o colapso do sistema de saúde – e para isso, prevenir a infecção ainda é o melhor remédio!

Desde que a covid-19 foi identificada na virada do ano, cientistas do mundo inteiro se debruçam para tentar solucionar diversas questões importantíssimas relacionadas à doença, e uma delas é exatamente como prevenir ou retardar o contágio em diversos ambientes. A infecção pelo coronavírus pode ocorrer por via direta ou indireta: na via direta, o vírus pode entrar no organismo devido ao contato de uma pessoa com outra infectada, e o indireto devido ao contato de uma pessoa com superfícies contaminadas pelo vírus, ou ainda por aerossóis contendo vírus dispersos no ar e que podem ser inalados, permitindo a entrada do coronavírus [1]. Assim, recomendações como lavar as mãos, evitar tocar o rosto, não apertar mãos e utilizar máscaras ao sair de casa são fundamentais para prevenir a infecção pelo novo coronavírus. Um fato muito interessante é que a pesquisa sobre Ciência dos coloides pode dar contribuições importantes para que cientistas e profissionais da saúde compreendam melhor os mecanismos de transmissão e propagação da covid-19, e assim aumentar a eficácia das medidas de proteção. 

Mas o que são coloides?

Embora pareça um conceito muito distante do cotidiano, temos diversos exemplos de coloides no nosso dia a dia: nuvens, nevoeiros, maionese, espumas, leite, cremes, sorvete, fumaça… Dentre outros. Um coloide então nada mais é que a dispersão de pequenas partículas de uma fase ou sólida, ou líquida ou gasosa em um ou sólido, ou líquido ou gás, e estas duas fases não se dissolvem uma na outra. Estas partículas tem tamanho da ordem de 1 µm de diâmetro (1 milímetro dividido por 1000 vezes) ou menor. Um exemplo é o leite, uma dispersão heterogênea que consiste em partículas de caseína e gordura em água. Também podemos dispersar bolhas de ar em líquidos e sólidos, assim como gotas de líquidos em sólidos e gases, dentre outras misturas. A figura 1 mostra alguns exemplos de diferentes coloides em função das diferentes misturas que encontramos no nosso dia a dia.

Figura 1: Exemplos de coloides que encontramos no nosso dia a dia. Nas ligas e rochas temos pequenas partículas sólidas de metais ou minerais dispersas em outro metal ou mineral. As tintas são compostas por partículas de pigmentos sólidos dispersas em líquidos como água ou óleos, por exemplo. A fumaça que vemos em queimadas são compostas por partículas de fuligem sólidas dispersas no ar (gás). Já a neblina são microgotículas de água dispersas no ar. E os coloides também entram na cozinha: a famosa gelatina da sobremesa é composta por gotículas de água dispersas no sólido que compõe o pó da gelatina. A maionese utilizada em sanduíches é uma dispersão de gotas de óleo nos ovos e vinagre, que contém água, utilizados para prepará-la. O chantilly, assim como as claras em neve, são microbolhas de ar dispersas no creme de leite ou nas claras de ovos, sendo espumas líquidas. Encontramos coloides até na papelaria: o isopor, que é uma espuma sólida, contem bolhas de ar injetadas no sólido branco do qual é feito o isopor, o polímero poliestireno. Créditos: Imagem fornecida pela autora.

Os coloides são bem diferentes de uma solução verdadeira: por exemplo, a mistura água e sal (cloreto de sódio) é um exemplo de uma solução verdadeira, ou o que chamamos de solução homogênea. Os íons sódio (Na+) e cloreto (Cl) são envolvidos por moléculas de água na dissolução do sal, e os íons possuem tamanho da ordem de centenas de picômetros (10-12 metro ou 1 milímetro dividido por 1 bilhão), ou seja, os íons dispersos na água tem dimensões da ordem de 1.000 vezes a 1.000.000 de vezes menor que as partículas encontradas em coloides. Ou seja, o que difere uma solução verdadeira de um coloide são dois fatores: se há dissolução ou se são fases que não se misturam, e as dimensões de quem está disperso em outro meio. 

Existem dois pontos estudados em Ciência dos Coloides que são importantes na pesquisa e combate a covid-19: a detergência e o estudo de aerossóis. No texto de hoje vamos dar uma olhada mais de perto no porque lavar as mãos é tão importante em plena pandemia de covid-19 e qual o fenômeno que explica isso: a detergência.

“Lave direito as mãos, meninx!”

Quem nunca ouviu essa frase quando criança, né mesmo? Essa antiga recomendação hoje é uma ferramenta importantíssima para combater a covid-19. O coronavírus pode entrar pelo organismo por meio do seu contato com mucosas oral e nasal e a conjuntiva dos olhos – por este motivo segue a recomendação de evitar tocar o rosto, especialmente olhos, nariz e boca. Um dado interessante é que uma pessoa toca o rosto em média 20 vezes por hora! [3]. Assim, uma ação de prevenção importante é: lavar as mãos com frequência! Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), de acordo com o seu guia suplementar para a prevenção e controle de infecção [4], recomenda a higiene regular das mãos com água e sabão e álcool (em gel) tanto em ambiente hospitalar quanto doméstico. Mas por que lavar as mãos ajuda a prevenir a infecção contra o coronavírus?

Para entender, vamos olhar para a estrutura do SARS-CoV-2, conhecido também por coronavírus, mostrado na figura 2: este vírus é composto uma cápsula que envolve o seu material genético, no caso, RNA [5]. Esta cápsula é composta por uma bicamada de lipídeos, também conhecidos como gorduras. Por uma questão de afinidade química, as moléculas contidas no sabão/sabonete se agrupam junto às gorduras e assim podem “quebrar” a membrana que encapsula o vírus, tornando-o assim inviável para a infecção.

Figura 2: Representação da estrutura do SRAS-CoV-2, o vírus causador da covid-19. A membrana lípidica de bicamada (lipid bilayer membrane) encapsula o material genético do vírus (RNA e proteína nucleocapsídeo). Outros componentes do vírus, localizados na superfície externa, são: glicoproteína coroa (spike protein), proteína envelope (envelope protein); proteína de membrana (membrane protein), e hemaglutinina esterase (hemagglutinin esterase). Créditos: Orpheus FX/Shutterstock.

A detergência é o fenômeno por trás da lavagem efetiva de mãos, louças e roupas com sabões. A detergência está relacionada à mistura de fases imiscíveis, como por exemplo, água e óleo (lipídeos). Você já deve ter verificado que água e óleo não se misturam: pode agitar, mexer com uma colher, chacoalhar dentro de um pote fechado que, mesmo que aparentemente misturadas, é só esperar alguns segundos para ver água e óleo separados, ou seja, o óleo não se dissolve na água, daí o nome imiscível, que não se mistura. Porém, se você adicionar algumas gotas de sabão ou sabonete e agitar, verá uma mudança notável: a mistura ficará turva e você não verá a separação da água do óleo. Sabão, sabonetes, shampoos têm como parte de sua composição moléculas que chamamos de surfactantes: estas moléculas possuem ao mesmo tempo uma parte apolar, composta por uma cadeia de ligações entre átomos de carbono e hidrogênio, e outra polar, como íons sulfato, fosfato, sais de amônio, dentre outros. Um dos surfactantes mais utilizados em sabonetes é o lauril sulfato de sódio, mostrado na figura 3. O lauril sulfato de sódio pode ser representado esquematicamente pelo desenho ao lado: a barra representa a cadeia carbônica (apolar) e o bolinha representa a “cabeça” (polar) do ânion sulfato. Quando estas moléculas de surfactantes estão em um líquido polar como a água – como por exemplo, colocar o sabão para lavar as mãos, louças, etc – a parte polar fica próxima às moléculas de água, ao passo que as cadeias carbônicas, que são apolares, interagem entre si e com gorduras presentes em superfícies por meio da interação hidrofóbica, formando estruturas que chamamos de micelas. Estas micelas funcionam como gaiolas para as gorduras: como são apolares, as gorduras interagem com as cadeias carbônicas, ficando “encapsuladas” dentro de cada uma das micelas, de maneira que as gorduras podem ser removidas no processo de lavagem. A figura 3 sumariza como a detergência ocorre.

Figura 3: (a) A molécula lauril sulfato de sódio contida em sabonetes contém uma cadeia com 12 átomos de carbono ligados a um ânion sulfato (SO4) que pode ser representada por uma estrutura de “cauda e cabeça”: a “cauda” corresponde à cadeia carbônica e a “cabeça” ao ânion sulfato. No desenho, a “cauda” é representada como um retângulo e a “cabeça” como uma bolinha. (b) Representação esquemática do processo de detergência: uma superfície inicialmente suja (sujeira pode conter resíduos de poeira, vírus, gorduras, dentre outros), ao se colocar surfactante na água, as cadeias carbônicas (caudas) do surfactante são atraídas para a sujeira e os ânions do surfactante são atraídos pela água. Como resultado, a sujeira é destacada da superfície por meio da formação de micelas, que são aglomerados de sujeira e moléculas de surfactante, conforme destacado no quadrado laranja. As micelas são suspensas na água na forma de uma dispersão coloidal, podendo ser enxaguada por água corrente aplicada na sequência. Créditos: Imagem fornecida pela autora.

Assim, ao lavar as mãos e superfícies com sabão, os lipídeos ali presentes, tanto os produzidos pela pele como os do vírus, podem ser removidos. A membrana do vírus é rompida pelos surfactantes contidos no sabão, tornando-o inviável para a infecção. Assim, a melhor alternativa para higienizar as mãos neste período de pandemia de covid-19 ainda é a velha combinação de água e sabão. Com relação a sabonetes bactericidas, lembrem-se que todo sabonete é bactericida, não sendo mais eficaz aquele que anuncia ser bactericida. E vale lembrar que lavar bem as mãos, esfregando as palmas, dorso, dedos, unhas e pontas dos dedos é fundamental! No infográfico abaixo vai um lembrete de como lavar as mãos.

Álcool em gel também é válido para fazer essa higiene por ser prático, porém sempre que possível, lave as mãos com água e sabão. O processo pelo qual o álcool em gel atua sobre o coronavírus é diferente do sabão: o álcool provoca a desnaturação proteica das proteínas localizadas na membrana do vírus, o que provoca modificações na estrutura destas proteínas, como se fosse uma espécie de ataque químico, causando danos ao vírus. Embora pareça mais promissor, a lavagem das mãos com água e sabão é mais eficaz que utilizar álcool gel – lembre-se que a membrana que envolve o vírus é composta por gorduras. Mas isso não significa que você deva abandonar o álcool gel; na verdade, é mais uma alternativa complementar à higienização das mãos, e você pode seguir os critérios a seguir para higienizar suas mãos e se prevenir:

1. Sempre que possível, lave bem as mãos com água e sabão. Se possível, especialmente em banheiros compartilhados, dê preferência aos sabonetes líquidos, pois os em barra pode acumular água e resíduos indesejáveis.

2. Caso você não esteja perto de uma pia no momento, o álcool em gel deve ser utilizado. Passe uma quantidade suficiente para atingir todos os pontos das mãos, e esfregue bem até a completa evaporação do álcool. Ao utilizar álcool em gel, dê atenção aos possíveis acidentes: mãos úmidas de álcool levadas aos olhos e boca podem causar irritações. Além disso, o álcool em gel é inflamável, logo, passe longe do fogo enquanto estiver úmido! 

No próximo texto vamos falar sobre os aerossóis, outra categoria de dispersões coloidais que permite compreender os processos de propagação da covid-19. Até lá! 

Para saber mais:

[1] World Health Organization (WHO), Modes of transmission of virus causing covid-19: implications for IPC precaution recommendations. Scientific brief, 27 de março de 2020. Disponível no sítio: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/331601/WHO-2019-nCoV-Sci_Brief-Transmission_modes-2020.1-eng.pdf

[2] R. J. Hunter, Introduction to Modern Colloid Science. Oxford Science Publications, Oxford, 1998.

[3] Y. L. A. Kwok, J. Gralton, M.-L. McLaws, Face touching: a habit that has implications for hand hygiene. Am. J. Infect. Control. 43(2), 112 – 114, 2015. DOI: 10.1016/j.ajic.2014.10.015

[4] World Health Organization (WHO), Water, sanitation, hygiene and waste management for the COVID-19 virus – Interim guidance. Liberado em 23 de abril de 2020. Pode ser encontrado no sítio: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/331846/WHO-2019-nCoV-IPC_WASH-2020.3-eng.pdf

[5] J. M. Parks e J. C. Smith, “How to discover antiviral drugs quickly?”, em The New England Journal of Medicine. DOI 10.1056/NEJMcibr2007042.

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Por que precisamos defender o SUS para enfrentar a pandemia COVID-19?

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Figura 1 – “Viva o SUS” Ilustração Ana Cattini. No Instagram @_cattini

 

            “Saúde é direito de todos e dever do Estado” ou “A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício.”. As frases incorporadas na constituição brasileira de 1988 é repetida por muitos, e é bastante lembrada quando se pretende defender o Sistema Único de Saúde brasileiro. Garantir a saúde como um direito constitucional foi um grande avanço que culminou com a criação do sistema público de saúde, o Sistema Único de Saúde – SUS – pensado durante um período de turbulência política, entre os anos 67 e 77, dentro da luta contra a ditadura militar e democratização do país. Mas o movimento que originou o SUS, chamado de Reforma Sanitária Brasileira, não acabou aí. Ele continua e precisamos mais do que nunca nos engajar nele.

            Tenho alguma experiência como pesquisadora e defensora da Saúde Coletiva e, ao longo da minha trajetória, precisei desenvolver um certo otimismo crítico, mas não irresponsável, diante do caos. Esse precisava ser um caminho necessário para ensinar e pesquisar saúde, pois além de aprofundar nos problemas e críticas à condução desse grande projeto de oferecer serviços de saúde gratuitos para a população, é nossa tarefa pensar respostas e propostas criativas para enfrentar os problemas, seja os de saúde, ou de gestão. Lembrar que cidadãos, intelectuais, pesquisadores e trabalhadores da saúde pensaram, produziram e praticaram o projeto de sistema universal e gratuito para um país de extensão continental e marcado por profundas desigualdades sociais, em um momento tão duro da história do Brasil, me ajudou nessa empreitada.

            A discussão sobre a relação entre saúde, política e desigualdades não é nova, está na base do campo que se chama Saúde Coletiva. Esse é o campo que produz o referencial teórico e prático para o SUS. Entre seus pressupostos, estão a ideia de que um paciente vive em um tempo e um lugar, e que as doenças e a saúde são produzidas e afetadas por esse contexto, que também é determinante para o desfecho das doenças. Assim foi a história da professora  Rafaela de Jesus, uma das vítimas do coronavírus, que estava gávida e morava no interior da Bahia, em uma cidade que não possui leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). No Brasil, as grandes estruturas hospitalares estão concentradas principalmente nas capitais. Rafaela de Jesus, contaminada depois de ter contato indireto com turistas que estavam na região, precisou esperar uma ambulância de uma cidade maior que estava a caminho para atendê-la, mas infelizmente não chegou a tempo de tratá-la.

            Desde o início da pandemia da COVID-19 tenho escutado muito mais o nome no SUS. Circularam na internet imagens em defesa do SUS, e até um dos recém ex-ministros da saúde – que iniciou seu mandato sem muitos projetos concretos para o sistema de saúde pública e com interesses alinhados aos do sistema privado de saúde – participou de coletivas de imprensa usando uniforme do SUS. Mas afinal, por que precisamos defender o SUS como principal aliado para o enfrentamento de uma pandemia

            Para responder melhor essa pergunta, precisamos voltar um pouco na origem do sistema. O projeto da Reforma Sanitária Brasileira era ambicioso e utópico, no sentido de vislumbrar um futuro para o país que estava muito além do que se entendia como algo possível no Brasil das décadas de 60 e 70. O que propunha era uma transformação profunda na sociedade como um todo, para além de uma reforma exclusiva do setor da saúde. O movimento oferecia um projeto de sociedade, de melhoria das condições de saúde e da qualidade de vida da população brasileira, com um conjunto de práticas culturais, políticas, científicas, teóricas e técnicas, e mudanças na relação entre saber e prática. A Reforma Sanitária Brasileira não é definida por seus teóricos como algo do passado, que acabou. Essas pesquisadoras e pesquisadores que se dedicaram a estudar esse movimento, destacam que a reforma sanitária brasileira é um processo, está ai, e como diz Lilia Schraiber (p. 17) “o campo que se prepare, pois ainda há muito por fazer em matéria de Reforma Sanitária.”[i]

Precisamos defender um Sistema Público e Universal para o Brasil como o principal aliado no enfrentamento da pandemia da COVID19 porque o ele não se resume a serviços de saúde, apesar de serem extremamente importantes nesse momento. O SUS é uma rede complexa de serviços, pesquisa, controle de doenças, presente em todo país, consolidado há mais de 30 anos. Em sua origem e base teórica e política, estão as ideias de que garantir qualidade de vida para a população só é possível em uma sociedade justa e igualitária. Nesse quadro, são primordiais os esforços conjuntos de pesquisadores, políticos, profissionais de saúde de diferentes especialidades, bem como a colaboração da população como um todo. Também deve-se levar em conta que as doenças e a saúde atingem de forma diferente mulheres, homens, as populações negra e indígena, ricos e pobres, e as tão distintas regiões do país. Por isso, a saúde pública no Brasil precisa ser pensada de forma a diminuir essas várias desigualdades. Para alcançar esse objetivo, é preciso financiamento adequado do Estado, equipamentos e incentivo à pesquisa e às universidades para não só formar profissionais da saúde pública, mas também desenvolver tecnologia própria para tornar o SUS mais efetivo.

Enfim, é preciso considerar a saúde como algo complexo, que afeta e é afetada por outros setores, como trabalho, renda, lazer e educação. A pandemia da COVID-19 tem deixado isso muito claro, de forma extremamente dolorosa. Assistimos o número de óbitos acelerar de forma desigual no país, e chagar a situações dramáticas, como em Manaus. Nesse curto período, a produção cientifica de diversas áreas do conhecimento é acelerada para responder questões concretas, que acontecem, na prática, de forma muito mais rápida que o tempo da produção intelectual. Pesquisadoras já publicaram, por exemplo, um artigo[ii] que resgata permanências históricas da nossa sociedade, para discutir os impactos da pandemia na população negra e em espaços geográficos segregados a partir de exemplos de outras doenças. As autoras apresentam o dado de dificuldade de testagem em locais como o Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, e outros problemas relacionados a estratificação racial e de classe, não só no Brasil, como em outros países como os Estados Unidos, além de propostas para enfrentar esses problemas.

            Para saber mais sobre esse assunto, acesse os sites da Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, o CEBES, do Observatório de Análise Politica em Saúde e da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, Abrasco – que tem promovido a Ágora Abrasco, uma serie de debates sobre a pandemia da COVID-19 no Brasil. Respondo nesse texto parcialmente a questão que foi feita no título, e convido vocês, leitoras e leitores, a contribuir com a resposta, enviando comentários e dúvidas.

Referências Bibliográficas

[i] PAIM, JS. Reforma Sanitária Brasileira: Contribuição para a compreensão e crítica. Salvador: Edufba/Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2008. 356 pp.

[ii] GOES, Emanuelle F.; RAMOS, Dandara O.; FERREIRA, Andrea J. F. Desigualdades raciais em saúde e a pandemia da Covid-19. Trabalho, Educação e Saúde, Rio de Janeiro, v. 18, n. 3,2020, e00278110. DOI: 10.1590/1981-7746-sol00278

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O sangue de pessoas curadas do COVID-19 pode ser a chave para o tratamento da doença?

O COVID-19 é uma virose causada por um novo tipo de β-coronavírus, nomeado de SARS-CoV-2, que causa sintomas de síndrome gripal, como tosse, dor de cabeça e febre, mas que pode ter complicações respiratórias graves e ser fatal. O COVID-19 apresenta alta transmissibilidade, sendo a principal via o contato próximo pessoa-a-pessoa. A transmissão no Brasil já é comunitária, e passamos dos 200 mil casos confirmados e 15 mil mortes. Porém nem tudo são notícias ruins, já temos também mais de 100 mil pessoas recuperadas do COVID-19 só no nosso país.

Essas pessoas recuperadas desenvolvem anticorpos contra o vírus que auxiliam no combate da infecção. A presença de anticorpos em quantidade suficiente para neutralizar o vírus é chave no processo de controle da infecção. Na ausência de uma resposta forte e específica, o vírus continua se replicando e se espalha pelos tecidos, causando lesão e a sintomatologia, em consequência. Além disso, o sistema imune entra em um estado pró-inflamatório generalizado, conhecido como “tempestade de citocinas”, que causa danos ao próprio organismo.

Em teoria, pacientes recuperados do COVID-19 foram capazes de montar uma resposta imunológica eficiente e possuem anticorpos que podem ter aplicação na prevenção e tratamento de outras pessoas. As vacinas estimulam a resposta imune, fazendo com que o nosso corpo produza anticorpos contra os patógenos. No entanto, essa resposta não é imediata, e no caso do COVID-19 não existe ainda uma vacina contra o vírus, por isso uma alternativa é a transfusão de plasma (fração do sangue que contém as proteínas séricas) de pacientes convalescentes, assim transferindo os anticorpos dos doadores para outros pacientes e conferindo a eles uma melhor resposta imune. Essa terapia é chamada de imunização passiva, pois a imunidade já é “dada pronta” para o paciente e não produzida pelo mesmo, e já foi utilizada em outros surtos na história da imunidade, principalmente antes da descoberta dos antibióticos. Com a imunização passiva é possível acelerar, aprimorar e direcionar a resposta imune, tornando-a mais eficaz.

O uso desta forma de terapia tem precedentes históricos, como em:

–  1918 na pandemia de H1N1, a Gripe Espanhola;

– 2003 no surto de SARS-CoV-1, um tipo diferente de Coronavírus;

– 2009-2010, na nova pandemia de H1N1,

– 2012 contra MERS (síndrome respiratória do Oriente médio), causada por diferente tipo de Coronavírus;

– 2013 no surto de Ebola na África.

Os dados variam bastante, mas no caso do H1N1 os estudos mostram a redução da taxa de mortalidade entre 20 e 80% nos pacientes tratados com plasma convalescente. No surto de SARS1, vírus da mesma família que o SARS-Cov-2, o uso da terapia de imunização passiva, reduziu a mortalidade em cerca de 20%.

A terapia de imunização passiva é mais efetiva quando usada profilaticamente do que como tratamento da doença, e quando usada como terapia é mais efetiva quando administrada em seguida ao surgimento dos primeiros sintomas. Essa variação temporal de eficácia pode ser explicada porque no início da doença existem poucas cópias do vírus, e por isso é mais fácil neutralizá-lo, além disso é mais fácil de alterar a resposta inflamatória inicial do que quando a mesma já está exacerbada. A eficácia da terapia depende também da quantidade de anticorpos presente no plasma do doador, por isso os mesmos devem ser mensurados por testes específicos. No combate às infecções virais, reações imunológicas específicas e reações inespecíficas, como a imunidade mediada por células e fatores do sistema complemento, atuam mutuamente e cooperam entre si para induzir a proteção imunológica. Na transfusão de plasma convalescente, além dos anticorpos, outros fatores envolvidos nesse processo seriam transferidos, inclusive proteínas as quais o paciente crítico apresenta deficiência, como fatores de coagulação, o que pode também justificar os benefícios deste tratamento. Pensando em seu uso profilático, o uso do soro de pacientes convalescentes traria benefícios para quem tem um grande risco de adquirir a doença, como os grupos de risco, profissionais da saúde e indivíduos com contato com casos confirmados de COVID-19.

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Imagem 1. Bolsa de plasma de doador coleta em banco de sangue. Fonte: https://www.donateblood.org/convalescent-plasma/

Os riscos do uso da terapia de imunização passiva são semelhantes ao de uma transfusão sanguínea qualquer, como a transmissão de outras doenças infecciosas, reações imunológicas e alérgicas. Contudo, os protocolos de triagem utilizados nos bancos de sangue modernos, garantem o mínimo risco desses acontecimentos, com triagem extensiva para doenças infectocontagiosas e vários testes de compatibilidade. Contudo, evidências do uso de soro convalescente em pacientes com SARS1 e MERS, e o uso em pacientes com COVID-19, sugere que a imunização passiva é segura, e que seus benefícios justificariam os riscos.

Os primeiros estudos conduzidos com o uso de plasma convalescente de doadores recuperados no tratamento de pacientes graves com COVID-19, foram realizados na China, com grupos pequenos de pacientes (4 – 5 pacientes). Apesar dos resultados positivos demonstrados (pacientes com melhora clínica e alta médica), como nos estudos de Shen e colaboradores, 2020 e Zhang e colaboradores, 2020,  são necessários estudos controlados, na forma de ensaios clínicos, com um número maior de pacientes para que haja uma evidência científica robusta e confiável. Mesmo iniciais, os bons resultados desses estudos incentivaram e permitiram que outros estudos maiores fossem conduzidos em diversos países. A China divulgou no dia 28 de março, em nota no Xinhua Net, Beijing, que 245 pacientes com COVID-19 foram tratados com plasma de doadores convalescentes, e que 91 mostraram melhora clínica significativa, e a Comissão Nacional de Saúde afirmou que mais 544 doses de plasma convalescente estavam sendo coletadas. No dia 26 de março, a entidade reguladora americana FDA (Food and Drug Administration) aprovou o uso de plasma de pacientes convalescentes para pacientes críticos do COVID-19, sendo que ensaios clínicos já estão em andamento nos Estados Unidos.

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Imagem 2. Campanha do Banco de Sangue de Stanford, Califórnia, EUA. Fonte:  https://stanfordbloodcenter.org/convalescent-plasma-from-recovered-covid-19-patients/

 

O Banco de Sangue Central da Califórnia foi o primeiro hemocentro nos Estados Unidos a produzir plasma com redução de patógenos a partir de pacientes recuperados do Coronavírus, contando com voluntários doadores de plasma, bem como voluntários profissionais da saúde interessados em receber o plasma desses doadores de forma profilática. Iniciativa semelhante foi desenvolvida pelo Banco de Sangue de Stanford, onde voluntários recuperados do COVID-19 podem doar seu plasma para uso em pacientes críticos da doença. No Brasil, protocolos para avaliação desse tratamento estão sendo desenvolvidos no Hospital Albert Einstein, na Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, e noInstituto Estadual de Hematologia (Hemorio), entre outros centros de pesquisa que estão estruturando ou iniciando protocolos de pesquisa semelhantes.

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Imagem 3. Separação do plasma convalescente sendo realizada no HEMORIO. Fonte: ttps://www.ofluminense.com.br/saude/1610-ses-inicia-estudos-no-hemorio-para-uso-de-plasma-de-pacientes-curados-no-tratamento-de-infectados-por-coronavirus

Conforme avaliação crítica de Arturo Casadevall e Liise-anne Pirofski, publicada no The Journal of Clinical Investigation, para a implementação do uso dessa forma de terapia, são necessárias seis condições mínimas:

(1)    Doadores, que devem ser aptos à doação sanguínea, com COVID-19 confirmado e já recuperado;

(2)    Bancos de sangue, para realização das coletas dos doadores e transfusões, bem como toda a triagem do sangue;

(3)    Testes confirmatórios para o diagnóstico do COVID-19, pelo padrão ouro que é o RT-PCR;

(4)    Laboratório de virologia para realizar os testes, e avaliação da quantidade de anticorpos neutralizantes in vitro 

(5)    Protocolos de terapia e profilaxia;

(6)    Regulamentação e padronização dos protocolos, na forma de ensaios clínicos randomizados.

 

Tendo em vista o grande impacto da pandemia do COVID-19 sobre toda a humanidade, sua alta taxa de transmissão e o número de mortos que o vírus já causou, somada a ausência de tratamentos específicos torna-se de máxima relevância a investigação, com método científico rígido, de novas alternativas de tratamento. Assim,  o estudo do plasma convalescente é uma potencial esperança de tratamento, bem como permite o maior estudo desses anticorpos, de forma que podemos pensar em preparações mais purificadas e concentradas desses imunobiológicos mais para a frente. Para isso são necessários estudos científicos multicêntricos que permitam demonstrar a efetividade ou a falta da mesma para essa terapia.

A descoberta de um novo tratamento específico para o COVID-19 tem a capacidade de alterar o rumo dessa pandemia, no entanto, é preciso muito rigor científico para conduzir estes estudos. Enquanto não temos em mão os resultados e benefícios dessas terapias alternativas é importante manter as medidas de distanciamento social, o uso de máscaras caseiras na rua, e as medidas de higienização das mãos e etiqueta respiratória.

Referências:

Casadevall A., Pirofski L. The convalescent sera option for cointaining COVID-19. J Clin Invest. 2020. doi.org/10.1172/JCI138003

Central California Blood Center: https://www.donateblood.org/convalescent-plasma/

China puts 245 COVID-19 patients on convalescent plasma therapy. News release. Xinhua. February 28, 2020. Acesso em 02/04/2020. http://www.xinhuanet.com/english/2020-02/28/c_138828177.htm.

Coronavírus – Ministério da Saúde. https://covid.saude.gov.br

Hospital Albert Einstein: https://www.einstein.br/estrutura/banco-sangue/doacao-plasma-para-covid19

Roback J.D., Guarner J. convalescent plasma to treat COVID-19 Possibilities and Challenges. JAMA, 27 MArch, 2020.

Shen C., Wang Z., Zhao F., Yang Y., Li J. et al. Treatment of 5 critically ill patients with COVID-19 with convalescent plasma. JAMA, 27 March, 2020. doi:10.1001/jama.2020.4783

Stanford blood center: https://stanfordbloodcenter.org/convalescent-plasma-from-recovered-covid-19-patients/

Tanne JH. Covid-19: FDA approves use of convalescent plasma to treat critically ill patients. BMJ 2020;368:m1256 doi: 10.1136/bmj.m1256 (Published 26 March 2020)

Zhang B, Liu S, Tan T, Huang W, Dong Y, Chen L, Chen Q, Zhang L, ZhongQ, Zhang X, Zou Y, Zhang S, Treatment with convalescent plasma for critically ill patients with SARS-CoV-2 infection, CHEST (2020), doi: https://doi.org/10.1016/j.chest.2020.03.039.

 

 

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Morcegos e Coronavírus Evoluindo Juntos OU Como Prevenir Novas Epidemias?

Após várias teorias de conspiração para o surgimento do SARS-Cov-2, vírus causador da atual pandemia, em março deste ano um grupo de cientistas publicou um estudo com fortíssimas indicações de que o SARS-Cov-2 não teria sido criado em laboratório e sua origem seria uma mutação do coronavírus presente em algumas espécies de morcegos e/ou pangolins. As duas espécies animais são portadoras de tipos de vírus similares ao que está causando a pandemia atualmente. Uma das possíveis origens da teoria de que SARS-Cov-2 teria sido criado em um laboratório em Wuhan (China) pode ter sido pelo longo histórico de laboratórios de pesquisa dessa cidade que estudam a relação entre coronavírus e morcegos. Esse não é um assunto novo, até porque outras espécies de coronavírus já são conhecidas por causar doenças em seres humanos como o coronavírus causador da MERS ou síndrome respiratória do Oriente Médio, mas nenhum deles tinha tido um impacto tão grande como o SARS-Cov-2. Você pode conferir mais sobre isso nesse texto aqui do blog.

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Figura 1: Modo de transmissão do coronavírus para seres humanos pode ser através de uma contaminação direta do hospedeiro ou pode envolver um hospedeiro intermediário como o pangolin no caso do SARS-Cov-2. Modificado de Freepik.

Entender a relação entre duas espécies que evoluem juntas pode nos dar indícios de como prevenir ou combater possíveis novas infecções causadas por qualquer agente que tenha origem animal, como ebola (causado pelo vírus Ebola) ou esquistossomose (causada pelo verme Schistosoma mansoni) por exemplo. É essa relação de evolução conjunta, chamada coevolução, que um grupo de cientistas da França, Estados Unidos, Madagascar, Moçambique, África do Sul, Ilhas Maurício e Seychelles estudaram entre 36 espécies de morcegos e diferentes tipos de coronavírus em uma área do sudeste da África continental (Moçambique) e diversas ilhas a oeste do Oceano Índico. O objetivo dos pesquisadores e pesquisadoras foi, entre outras coisas, avaliar possíveis formas de outros tipos de coronavírus se tornarem transmissíveis a seres humanos.

mapa de coleta

Figura 2: Mapa da região onde foram coletados os morcegos analisados em Joffrin et al. (2020). Crédito: Joffrin et al. (2020).

Em primeiro lugar foi avaliada a taxa de morcegos infectados com coronavírus. No total, 8,7% dos 1.036 indivíduos estavam infectados e a maior taxa de infecção foi encontrada em Moçambique, ou seja, no continente. Outras análises indicaram que a grande maioria dos vírus coletados era específica de uma determinada família de morcegos, ou seja, cada “espécie” de vírus é capaz de infectar somente uma família de morcegos (importante ressaltar aqui que família tem sentido taxonômico). Isso já era esperado, tanto que de acordo com o Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV em inglês) coronavírus são estruturados filogeneticamente em subgêneros e, em geral, cada subgênero infecta uma família de morcegos. É por isso que a denominação dos subgêneros virais é feita de acordo com a denominação da família de morcegos infectada por estes (Ex.: vírus do subgênero Rhinacovirus infectam morcegos da família Rhinolophidae por exemplo).

Um dos resultados inesperados encontrados pelos pesquisadores foi o modo de evolução viral. A hipótese era de que os vírus que infectam morcegos na área analisada (Ilhas e continente a oeste do Oceano Índico) evoluíram pela transferência de hospedeiro seguida de adaptação, como acontece com coronavírus que infectam morcegos africanos de acordo com um estudo feito por Anthony e colaboradores (2017). Isso significa que uma espécie de vírus que infecta a espécie X de morcego sofre uma mutação e passa a ser capaz de infectar a espécie Y e, após isso, se adapta ao novo hospedeiro até que seja diferente o suficiente para ser identificado como um tipo diferente de vírus. Os vírus encontrados nos morcegos da região oeste do Oceano Índico, por outro lado, evoluem, em sua maioria, por um processo chamado coevolução. Isso significa que mudanças evolutivas em morcegos geram mudanças evolutivas no vírus que infecta aquela espécie de morcego. Essa forma de evolução é comum em relações de parasita-hospedeiro ou em plantas e polinizadores. Houve um caso, entretanto, em que um grupo de cientistas encontrou o mesmo vírus infectando duas famílias de morcegos em uma área de Moçambique.

Morcego evolução

Figura 3: Filogenia fictícia que ilustra a ideia de que o coronavírus evolui junto com o seu hospedeiro natural, o morcego. Crédito: Richard Borge para Scientific American.

O artigo termina com uma análise de três outros tipos de coronavírus conhecidos por infectar humanos e morcegos (NL63 Human CoVs, 229E Human CoVs e MERS-like Cov). Ainda não se sabe exatamente como esses vírus começaram a ter capacidade de infectar humanos, mas estima-se que tenha sido através de um hospedeiro intermediário (vírus do morcego infecta outro animal e esse animal transmite a seres humanos). Para encerrar, o grupo de cientistas concluiu que, como em outras zoonoses, o surgimento, mutação e infecção de humanos por novos vírus são associadas a mudanças no ecossistema como fragmentação de habitat, práticas intensivas de agropecuária e consumo de carne de origem selvagem. Essa conclusão vem de acordo com os resultados de outro artigo publicado semana passada (4 de Maio) por um grupo de cientistas do Reino Unido que chama a atenção para como as práticas de manejo animal (pecuária intensiva, com o uso indiscriminado de antibióticos, o grande número de animais e baixa diversidade genética destes animais) são um risco enorme para o surgimento de epidemias. Uma reavaliação da nossa relação e o  impacto que causamos no meio ambiente se faz necessária o mais rápido possível ou pandemias, distanciamento social e todo o sofrimento causado por essas doenças vai se tornar o novo normal.

 Referências: 

Joffrin L, Goodman SM, Wilkinson DA, Ramasindrazana B, Lagadec E, Gomard Y, Le Minter G, Santos A, Schoeman MC, Sookhareea R, Tortosa P, Julienne S, Gudo ES, Mavingui P, Lebarbenchon C. (2020). Bat coronavirus phylogeography in the Western Indian Ocean. Scientific Reports, 10 (1) DOI: 10.1038/s41598-020-63799-7

Coronaviruses and bats have been evolving together for millions of years: Different groups of bats have their own unique strains of coronavirus.” ScienceDaily. ScienceDaily, 23 April 2020. <www.sciencedaily.com/releases/2020/04/200423082231.htm>

Mourkas E, Taylor AJ, Méric G, Bayliss SC, Pascoe B, Mageiros L, Calland JK, Hitchings MD, Ridley A, Vidal A, Forbes KJ, Strachan NJC, Parker CT, Parkhill J, Jolley KA, Cody AJ, Maiden MCJ, Kelly DJ, Sheppard SK. (2020) Agricultural intensification and the evolution of host specialism in the enteric pathogen Campylobacter jejuni. Proceedings of the National Academy of Sciences, 201917168 DOI: 10.1073/pnas.1917168117

Anthony SJ, Johnson CK, Greig DJ, Kramer S, Che X, Wells H, Hicks AL, Joly DO, Wolfe ND, Daszak P, Karesh W, Lipkin WI, Morse SS, PREDICT Consortium, Mazet J, Goldstein T (2017). Global patterns in coronavirus diversity. Virus evolution, 3(1), vex012. https://doi.org/10.1093/ve/vex012