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O imaginário mundo binário

Ainda é muito comum que se associe diferenças comportamentais ao sexo, invocando determinismo biológico. Para embasar essas afirmações, muitas pesquisas científicas são tendenciosamente utilizadas de forma antiética para apoiar certas crenças. Mas as interpretações dos dados não são tão simples assim.

Algum desavisado poderia facilmente apoiar diferenças de gênero usando um estudo que mostra que chimpanzés fêmeas e machos têm diferentes comportamentos que emergem já na infância, com machos brincando mais do que fêmeas em atividades mais físicas como “pega-pega”, por exemplo.  

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Contudo, esta pesquisa não comprova que a diferença seria determinada pelo desenvolvimento de traços relacionados ao sexo, ou seja, não está relacionado com ser geneticamente fêmea ou macho. O desenvolvimento comportamental sofre influência do mundo externo ao indivíduo desde quando este encontra-se no útero e durante toda a sua vida.

Nem mesmo variáveis fisiológicas como produção de hormônios possuem uma ligação clara e direta com a determinação de caracteres sexuais. Por exemplo, os hormônios podem variar não somente entre “hormônios femininos” e “masculino”, mas em quantidade assim como em quantidade de receptores a estes hormônios.

Além disso, cada vez mais pesquisas têm mostrado que a diferença de gênero é relacionada a diferenças na socialização. A diferença de gênero começam a ser impostas socialmente antes mesmo do nascimento; quando compramos brinquedos e roupas de acordo com o sexo. O binário entre macho e fêmea começa a ser estabelecido pela sociedade antes mesmo do que pela biologia.

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E esse viés de gênero tem consequências para toda a vida. A identificação com determinadas profissões se dá ainda muito cedo, em torno dos 6 anos, ou seja, antes mesmo que a criança pudesse ser apresentada, por exemplo, à matemática – habilidade comumente associada a homens e não às mulheres.

Esse viés é continuamente reforçado porque acreditamos tanto nestas diferenças que mesmo involuntariamente nós, homens e mulheres, acabamos escolhendo homens em detrimento às mulheres para ocupar cargos. Se apresentado o mesmo currículo, uma hora com o nome de uma candidata mulher e outra de um candidato homem o empregador tende a escolher o homem. 

Ainda assim é muito difícil separar se os comportamentos seriam consequência de diferenças biológicas ou se seriam reflexo do aprendizado.

Para responder esta questão precisaríamos testar duas amostras iguais submetidas a condições ambientais diferentes. Dificilmente, por motivos éticos, poderíamos fazer isso em humanos ou outros primatas, mas e se existissem duas populações que se comportam de maneira parecida, com exceção de talvez uma característica (o comportamento que você quer testar), e fosse possível controlar a variável ambiental que causaria esta diferença?

Por exemplo, sabendo que 1) chimpanzés e bonobos são duas espécies próximas

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filogeneticamente entre si e da espécie humana, portanto são bons modelos para responder questões sobre a evolução do comportamento humano; 2) estas duas espécies no ambiente silvestre possuem muitas semelhanças, como estrutura social, mas os chimpanzés são conhecidos por machos que formam coalizões bastante agressivas enquanto os bonobos são conhecidos por serem pacíficos e 3) a diferença em ser pacífico ou agressivo esta está associada à disponibilidade de frutas de qualidade; como os chimpanzés vivem em um ambiente com restrição de alimentos as fêmeas são forçadas a gastar mais tempo forrageando sozinhas ou em pequenos grupos (para diminuir a concorrência ao achar os frutos), enquanto fêmeas bonobos podem socializar por mais tempo. Em um grupo onde fêmeas socializam mais os machos são menos competitivos e mais pacíficos.

Assim, se pudéssemos fornecer a mesma condição ambiental para estas duas espécies, sem restrição de alimentos; será que os chimpanzés seriam mais pacíficos? Será que a agressividade dos chimpanzés é mesmo reflexo do ambiente ou será que eles são biologicamente violentos? Mas como testar isso sem causar um impacto ambiental? É aqui que entra nesta história duas cientistAs que tiveram uma grande sacada de usar animais de cativeiro (que não sofrem com restrição alimentar) para tentar entender o quanto este comportamento é relacionado ao sexo ou é reposta do ambiente social! Estudar população em cativeiro oferece a perfeita situação para esse teste. E foi o que elas fizeram.

Os resultados mostraram que chimpanzés e bonobos quando em cativeiro, onde não há falta de alimento de qualidade, investem o mesmo tempo em socialização; tanto entre fêmeas quanto em machos. Assim, este trabalho traz mais uma evidência de que os comportamentos sociais de primatas não são determinados pelas suas características sexuais, mas também pelo ambiente; ao mostrar que eles socializam mais se possuem mais tempo para isto, e que sociedades mais pacíficas são resultados do tempo de socialização e não da genética.

Os trabalhos mostrados aqui suportam a premissa que os comportamentos de primatas, tanto primatas humanos quanto não humanos, são flexíveis. Isso significa dizer que mesmo que encontremos uma tendência de comportamento associada com o gênero, não temos condições de dizer que é causada pelo sexo. Se nosso comportamento é um produto da interação com o ambiente em que estamos inseridos, inclusive o social, então tendências encontradas podem apenas ser reflexo de estímulos diferentes. Dessa forma, mesmo havendo menos mulheres em carreiras exatas do que homens, não temos condições de dizer que isto é relacionado ao sexo, pois pode ser apenas uma resposta ao ambiente social, ao estímulos apresentados às meninas e aos meninos desde crianças além de reprodução do estereótipo; homens são escolhidos em detrimento das mulheres, por se acreditar que são melhores em certas áreas e porque não engravidam.

Que tal agora ao invés de apresentar às nossas crianças o binário mundo do rosa e azul, carrinhos e bonecas, apresentassemos um mundo mais arco íris? Em que brinquedos fossem apenas brinquedos que estimulam a criatividade, o raciocínio lógico, a empatia e a liberdade de expressão?

Que tal agora lembrarmos dessas evidências científicas antes de generalizar o comportamento de uma mulher ou homem? Ou ainda quando for contratar, ou escrever uma carta de indicação, e até mesmo quando for xingar alguém!

Tente se libertar do binário, as pessoas são mais diversas e isso é muito mais vantajoso e interessante do que um mundo de apenas dois universos completamente contrários.

E se precisar de apoio: a ciência já está lhe dando as ferramentas para isto.

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Para saber mais:

Surbeck M, Girard-Buttoz C, Boesch, C, Crockford C, Fruth B, Hohmann G, … Mundry R. (2017). Sex-specific association patterns in bonobos and chimpanzees reflect species differences in cooperation. Royal Society Open Science, 4(5), 1-20. DOI: 10.1098/rsos.161081

Rodrigues MA & Boeving ER 2018. Comparative social grooming networks in captive chimpanzees and bonobos. Primates.

E livros:

Gould SJ. The Mismeasure of Man

Marlene Zuk Sexual Selection

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Controle de natalidade em animais: o que é natural quando o assunto é concepção?

No último mês, acompanhamos o referendo irlandês que escolheu revogar a emenda constitucional que criminalizava o aborto no país. Esse é mais um dos resultados do movimento de consolidação das conquistas feministas em todo o mundo. No Brasil, a discussão sobre a legalização do aborto é complexa e considera questões religiosas, políticas e de saúde pública (vale a pena ler um dos textos recentes aqui do blog sobre isso).

Argumentos muito frequentes em relação à concepção, ao corpo da mulher e às suas escolhas são pautados na naturalidade deste processo. Em outras palavras, como nosso corpo seria designado a desempenhar o papel materno, não caberia à mulher a escolha de interromper ou, muitas vezes, evitar a concepção.

Felizmente, a tão falada natureza ensina repetidas vezes que o “natural” está bem longe das nossas expectativas. Desde a descoberta de que muitos dos casais de passarinhos não são exclusivamente monogâmicos como pensávamos, até as incontáveis interações de cunho sexual entre indivíduos do mesmo sexo no reino animal – só citando alguns exemplos -, tudo parece dissolver o argumento da naturalidade de certos comportamentos humanos.

Para contribuir com este processo de queda de afirmações “naturalistas”, trago alguns exemplos menos estudados, porém muito interessantes, de animais que usam substâncias da natureza para, possivelmente, controlar a reprodução.

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Microtus montanus. Foto por Roger W. Barbour – Smithsonian Natural History

O primeiro exemplo é das fêmeas de roedores da espécie Microtus montanus observadas por Berger e colaboradores na década de 1970 [1]. Esses animais foram observados consumindo uma grande quantidade de plantas que contêm fitoestrógenos, sempre coincidindo com o fim do seu período reprodutivo. Fitoestrógenos são substâncias capazes de alterar as vias de regulação do estrógeno no corpo de mamíferos. Consumidas em grande quantidade, estas substâncias inibem características relacionadas à reprodução.  

No caso, as fêmeas de roedores exibiam um menor peso uterino e inibição do desenvolvimento folicular, além de encerrar atividades relacionadas ao acasalamento. É importante pontuar que a interrupção do seu período reprodutivo estava em consonância com a diminuição da disponibilidade de recursos de alta qualidade, no fim da época de frutificação dos alimentos consumidos por estes animais.

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Perdizes-da-califórnia (Callipepla californica). Foto por Nikita (Flickr).

Ainda mais interessante é dos perdizes-da-califórnia (Callipepla californica). Em momentos de grande escassez de recursos, as fêmeas desta espécie de ave consomem plantas com os mesmos fitoestrógenos que inibem características do período reprodutivo [2]. Como não seria possível o desenvolvimento ótimo dos filhotes neste longo período, quase nenhuma prole é produzida na população. Quando a situação volta a ser positiva, relacionada principalmente a um aumento no índice de chuvas e na disponibilidade de alimento, aquele composto deixa de ser consumido e as fêmeas voltam a reproduzir normalmente.

E não parece que estes resultados são isolados, presentes em apenas algumas espécies. Primatas também parecem usar o mesmo tipo de substâncias, com resultados similares. Glander [3] sugeriu que macacos bugios costarriquenhos (Alouatta palliata) estavam consumindo certas espécies de plantas para afetar seu período reprodutivo. Posteriormente, até a sazonalidade reprodutiva de chimpanzés (Pan troglodytes) da Tanzânia, foi relacionada com variações anuais de precipitação e a composição de sua dieta, com possível mediação por fitoestrógenos [4].

Estes exemplos indicam que a concepção, apesar de central para as espécies animais, pode não ser considerada prioritária em determinadas situações ou períodos. A possibilidade das fêmeas reconhecerem estes momentos e regularem seu ciclo reprodutivo, muitas vezes resultando em um controle de natalidade da população, pode ser fundamental para garantir o bem-estar e sobrevivência daqueles indivíduos.

Com absoluta certeza, os casos descritos não se assemelham nem de longe ao casos de milhões de mulheres que hoje precisam aprender a lidar com a complexidade de seus corpos e as escolhas que desejam fazer para si mesmas quanto à concepção. Mesmo assim, nos ajudam a desmistificar o que se convencionou chamar de natural, comum ou normal quando o assunto são estas escolhas. É sempre importante pensar no que elas significam para nós e em que contexto elas são aplicadas, da mesma forma que olhamos para o não tão distante “mundo natural”.

Referências:

[1] Berger, P., E. Sanders, P. Gardner, and N. Negus. 1977. Phenolic plant compounds functioning as reproductive inhibitors in Microtus montanus. Science 195: 575-577.

[2] Leopold, A., M. Erwin, J. Oh, and B. Browning. 1976. Phytoestrogens: Adverse effects on reproduction in California quail. Science 191: 98-100.

[3] Glander, K. 1980. Reproduction and population growth in free-ranging mantled howling monkeys. American Journal of Physical Anthropology 53: 25-36.

[4] Wallis, J. 1997. A survey of reproductive parameters in the free-ranging chimpanzees of Gombe National Park. Journal of Reproduction and Fertility 109: 297-307.

 

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Eu, tu e os neandertais

Os neandertais eram hominídeos e são nossos relativos mais próximos. 

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À esqeurda o esqueleto de um neandertal e a direita de um Homo sapiens. Crédito:  American Museum of Natural History.

Isso significa que eles eram muito parecidos com o que somos hoje em dia. Esses nossos parentes não apenas coexistiram, como mantiveram relações sexuais com nossos antepassados. Apesar de não sabermos com que frequência essa ou outras relações sociais aconteceram – ou ainda se eram conscienciais, identificar que havia uma interação entre os neandertais e nossos antepassados pode elucidar o que do comportamento deles – ou do nosso – pode ter levado a que nossa espécie se espalhasse pelo mundo enquanto os neandertais se extinguissem há aproximadamente 40 milhões de anos.

 

 

Um dos comportamentos que nos dizem muito sobre as condições de vida (e que é relativamente fácil de se encontrar evidência em materiais preservados) é o comportamento alimentar. Os neandertais viveram na Eurásia, na época conhecida como Pleistoceno. Hum… talvez essa palavra já lhe remeta à famosa “dieta paleolítica”, não?

 

Pois é, saber do que nossos antepassados e nossos parentes mais próximos se alimentavam pode nos dar valiosas pistas de como nosso corpo lida com o alimento e assim ressignificar as opções dos alimentos disponíveis no mundo moderno. Na realidade isso tem importância no nível pessoal, ajudando você a escolher uma dieta saudável, mas também para medidas públicas como fornecer evidência para programas de subsídio à produção de determinados alimentos, incentivos à complementação alimentar, direcionamento para formulação de merendas e métodos protecionistas contra a produção em massa de produtos prejudiciais.

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E como sabemos o que os hominídeos estavam comendo?

Um recente estudo abordou o tema de forma inovadora e trouxe mais luz – ou maiores discussões sobre o que os neandertais estavam comendo.

Até o momento sabíamos por análises arqueológicas e de isótopos, que os hominídeos eram carnívoros e se alimentavam de ursos polares, lobos, renas, mamutes e rinocerontes. Contudo, esse estudo analisou ossadas de neandertais de diversas localidades e concluiu que na Bélgica – como o esperado – os neandertais tinham uma dieta rica em proteína animal e suas presas incluíam animais como rinocerontes e um tipo de carneiro selvagem que eram bastante característicos do ambiente. Já os neandertais que viviam na Espanha, na região da caverna El Sidrón, comiam muitos cogumelos, castanhas, e produtos que coletavam na floresta.

Dessa forma, esse estudo, usando de análises de micro fissuras e de bactérias conservadas no tártaro dos dentes, mostrou uma relação entre dieta e o ambiente em que os neandertais viviam; ou seja, eles comiam o que havia disponível, não dependendo necessariamente de proteína animal.

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Esse trabalho é muito importante tanto para o entendimento da evolução humana quanto para responder questões bastante atuais sobre a importância da proteína animal no dia a dia. Já que indica que o que guiaria a composição da dieta não seria necessidade por um determinado nutriente, mas a disponibilidade dos recursos.

Vale ressaltar que este trabalho também é bastante importante não apenas pelos resultados, mas porque usou uma técnica muito interessante de análise; além de estudar as micro fissuras causadas nos dentes pelo atrito com os alimentos, eles identificaram geneticamente as bactérias presentes nos tártaros. Como as bactérias possuem uma dieta específica elas são um indício confiável sobre o que aquele indivíduo estava comendo. As bactérias vivem na sua boca podendo se alimentar apenas do que você escolheu comer. Logo, se você é um carnívoro, sua boca contará com uma fauna carnívora, porque aquelas bactérias que só comem vegetais morreriam de fome. Elas podem formar e ficar conservadas no que conhecemos como tártaro por milhares de anos, e além de nos dar pistas do que se comia também nos fornece informação como possíveis doenças que abalavam nossos parentes neandertais (e outros hominídeos e animais). Esse estudo abriu portas para que esses delegados “problemas” bucais, tártaros e abscesso, recebam mais atenção, porque também evidenciou que estes neandertais estavam se utilizando de plantas medicinais já que foi encontrado ácido salicílico (componente ativo da aspirina) e Penicillium.

Fácil então, identificar que não há uma pílula mágica – ou nutriente mágico. Avançamos – e muito – nas metodologias, nos instrumentos e nas interpretações para decifrar o material preservado e desvendar nossa dieta, e cada vez mais acumumulamos evidência da nossa adaptação à flexibilidade. Temos uma estratégia flexível, ou seja, somos especialistas em respondermos ao ambiente. Comemos o que está disponível. E isso foi e ainda é bastante importante para nossa sobrevivência. Talvez, o grande desafio para a nossa saúde não sobreviva nos resquícios do passado, mas no perigo das novas tecnologias.

PARA SABER MAIS:

Weyrich, Duchene, Cooper (2017) Neanderthal behaviour, diet, and disease inferred from ancient DNA in dental calculus. Nature. 544: 357-361

Henry A G, Ungar P S, Passey B H et al (2012).. The diet of Australopithecus sediba. Nature. 487: 90–93

Lieberman, D. A história do corpo humano: evolução, saúde e doença. Editora Zahar.

Créditos das fotos: pixabay (fotos livres)

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A atividade do cérebro de pessoas quando suas opiniões são desafiadas

Você provavelmente já deve ter entrado em uma discussão com outras pessoas sobre alguma questão política. Principalmente nos últimos anos esses debates têm ocorrido cada vez com maior frequência. Pelo lado positivo isso demonstra que vivemos em uma sociedade livre onde podemos colocar e defender nossas opiniões, também isso beneficia a formação de uma sociedade mais crítica e independente. Porém, esses debates geram conflitos e tensões entre pessoas, as quais, no final das contas, só estão tentando defender uma ideia que elas acreditam ser melhor, mais razoável ou mais lógica. Foi pensando nesse nosso contexto atual que esse artigo Neural correlates of maintaining one’s political beliefs in the face of counterevidence me chamou a atenção. Confesso que passei por diferentes fases lendo e relendo essa pesquisa. Primeiro achei muito interessante, depois comecei a me incomodar com algumas ideias, métodos utilizados e análise de resultados, por fim, decidi que o estudo tinha que ser divulgado e, assim, mais pessoas poderiam julgar e criticar por si mesmas seus méritos e problemas. Mas gostaria de colocar que esse tipo de estudo é complexo não somente na pergunta inicial e delineamento da metodologia por se tratar de um estudo social relacionado com identificação de correlatos neurais, mas também na interpretação dos resultados. Por isso, espero que leiam com uma atitude crítica, porém, não rígida. Ah, e não esperem encontrar uma descrição de como o cérebro de pessoas intolerantes funciona.

Os autores realizaram esse estudo com o objetivo de investigar regiões neurais que estariam envolvidas com a manutenção de crenças em pessoas com opiniões políticas fortes. Suas predições eram de que circuitos neurais relacionados com a formação de modelos internos da própria pessoa (o “self”)  e aqueles envolvidos com emoções negativas seriam mais ativados quando essas pessoas fossem apresentadas a argumentos contra suas crenças políticas, mas menos ativados quando essas mesmas pessoas fossem apresentadas a argumentos contra crenças não políticas. Para isso, 40 participantes foram selecionados a partir de um questionário com uma escala numérica para saber o quanto eles se consideravam politicamente liberais ou conservadores sendo 1 ‘extremamente liberal’ até 7 ‘extremamente conservador, e o quanto concordavam com algumas afirmações que envolviam questões políticas e outras não-políticas em uma escala de 0 a 7, sendo 0 ‘não concordo’ e 7 ‘concordo muito’. Essas pessoas foram selecionadas por responderem que eram muito liberais (entre 1 e 2 na escala) e por responderem que concordavam muito com pelo menos 8 afirmações políticas e 8 não políticas (entre 6 e 7 na escala).

Esses participantes, então, foram colocados em uma máquina de ressonância magnética enquanto eram apresentado, uma de cada vez em uma tela, a essas mesmas 8 afirmações políticas e 8 não políticas, as quais haviam indicado concordar muito anteriormente. A cada afirmação apresentada eram colocados em seguida 5 argumentos desafiando a sua validade. Os argumentos eram exagerados ou distorciam a verdade na maior parte das vezes. Após a apresentação desses argumentos, a afirmação era apresentada novamente e perguntado o quanto eles concordavam com ela na mesma escala numérica anterior (de 0 a 7). Cada pessoa realizou essas etapas do procedimento para cada 16 afirmações individualmente enquanto sua atividade cerebral era registrada pelo método de ressonância magnética funcional. Esse método permite medir o consumo de oxigênio em regiões do cérebro e, assim, acessar indiretamente a atividade cerebral de uma pessoa enquanto esta realiza uma tarefa. Deste modo é possível analisar a atividade neural da pessoa em diferentes momentos e comparar essa atividade quando a pessoa é confrontada com argumentos contra sua crença política ou não política. Da mesma forma é possível avaliar suas respostas na escala numérica e observar se as pessoas mudaram seu grau de concordância sobre a afirmação após terem sido confrontadas com os argumentos. Assim, a atividade neural de pessoas que demonstram mais flexibilidade com suas crenças pode ser comparada com a  de pessoas não tão flexíveis.

A partir das respostas sobre o grau de concordância com as afirmações após os 5 contra argumentos, foi observado que os participantes mudaram suas repostas e diminuíram o grau de concordância em relação às afirmações. Porém, essa mudança foi mais proeminente com afirmações não políticas. Eles observaram, em média, uma diminuição da escala de 0.31 para afirmações políticas e diminuição de 1.28 para não políticas. A comparação da atividade neural enquanto participantes liam os contra argumentos políticos em relação quando liam os contra argumentos não políticos, mostrou um aumento de atividade em  regiões (figura 1) como o córtex pré frontal medial, lobo parietal inferior e lobo temporal anterior, regiões relacionadas a Rede de Modo Padrão (Default Mode Network) apontando a existência de uma relação entre a manutenção de crenças muito fortes (neste caso políticas) com a ativação dessa rede neural. Os pesquisadores defendem que essa rede, por estar relacionada com funções auto-referenciais, se ativa enquanto pessoas são confrontadas com argumentos contrários a suas crenças mais fortes, pois elas estariam realizando uma auto-análise, integrando informações internas a fim de obter um significado coerente daquilo ao qual foram expostas.     fig1-blogFigura 1. Regiões mais ativadas quando comparada a atividade cerebral dos participantes quando eram apresentados argumentos contrários a suas crenças políticas comparada com a atividade para os argumentos contrários às crenças não políticas.

Outro resultado demonstrado por esse estudo foi de que há uma correlação negativa entre ativação do córtex insular dorsal anterior e a amígdala, regiões (figura 2) relacionadas ao processamento de emoções negativas, ameaças e incertezas, e o grau de mudança na concordância de afirmações não políticas após os contra argumentos por sujeito. Isto é, pessoas com maior resistência a mudar sua concordância (menor grau de mudança) às afirmações não políticas tiveram uma maior ativação dessas estruturas quando comparadas com a atividade dessas regiões em pessoas com menor resistência a mudar sua concordância. Note que essa diferença foi observada entre diferentes indivíduos (em contraste com diferente condições mencionado anteriormente) e utilizando as afirmações não políticas. Isso porque houve maior variabilidade de respostas em relação a esse tipo de afirmação e, assim, foi possível realizar essa comparação. A teoria por trás desse resultado é de que pessoas com menos flexibilidade para mudar sua opinião após contra argumentos demonstram maior ativação de regiões envolvidas no processamento de ameaças e emoções negativas e, assim, lidariam com informações contrárias a suas crenças de modo mais rígido e cauteloso.

fig2-blogFigura 2. Áreas mais ativadas nos participantes que mudaram menos sua concordância com afirmações não políticas após os desafios.  

Esses resultados parecem concordar com outros resultados encontrados em outro estudo que também observou diferente atividade em algumas dessas regiões quando comparadas crenças religiosas e não religiosas em pessoas muito religiosas. Porém, os pesquisadores seguem ao final do artigo apontando alguns problemas ou limitações do estudo que colocam seus resultados em cheque (e isso para mim é um mérito e dever de todo estudo). A primeira limitação é a de que há diferenças entre crenças políticas e não políticas além de somente o grau de concordância da pessoa. Seria possível que as pessoas sendo utilizadas no estudo, por terem sido selecionadas por se considerarem muito interessadas por política, tivessem muito conhecimento sobre as afirmações sendo colocadas no teste ou até mesmo fossem expostas muitas vezes a argumentos contrários a suas crenças, o que poderia ter um efeito de hábito ou controle sobre como elas reagiriam a esse teste. Também é apontado o fato de que crenças políticas são mais prescritivas, normativas em comparação com crenças não políticas que podem ser mais diretas e factuais. Outro ponto interessante a ser colocado é a limitação do estudo por se tratar somente de pessoas liberais, mas não de conservadores. Os autores citam outros estudos que apontam haver diferenças de atividade e até de volume de estruturas neurais entre conservadores e liberais (para saber mais, ver Kanai, R., Feilden, T., Firth, C. & Rees, G. Political orientations are correlated with brain structure in young adults. Curr Biol 21, 677–680, doi: 10.1016/j.cub.2011.03.017 (2011)).      

E aí? O que achou do estudo? Espero que eu tenha conseguido passar a ideia geral e principais resultados encontrados de forma coerente. Se ficou alguma dúvida pode me perguntar. E eu gostaria de fazer um pedido também, quase que como uma pesquisa. Se você achou que esse texto ou o próprio artigo te ajudaram a compreender um pouco mais sobre o nosso comportamento e que te adicionou na forma de você se relacionar com essas questões, por favor, comente algo (qualquer coisa, um sinal) lá embaixo na área de comentário! Obrigada!

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Farmacêuticos da natureza: Os animais também se automedicam

Automedicação é algo muito presente na nossa vida. Quem nunca tomou um chazinho super bom para dor de barriga ou aquele outro para garganta? E quem nunca usou aquela folha boa pra cicatrizar uma feridinha? Todo mundo já usou alguma planta ou alguma substância sem qualquer recomendação médica, não é?

Para além do uso indevido de medicamentos sem acompanhamento de um profissional (no assunto, dá uma olhada nesse texto da aqui no blog), a automedicação tem a ver principalmente com o conhecimento sobre o efeito medicinal de substâncias e materiais presentes no nosso dia a dia. Esse conhecimento é adquirido de uma forma geral com a nossa família, e é mantido culturalmente através das comunidades tradicionais, que têm uma relação diária com a natureza. Parte desse conhecimento vem da observação de animais (Huffman 2003). Assim como nós, muitos animais utilizam-se de substâncias e materiais da natureza para evitar ou tratar parasitas ou patógenos no seu organismo.

Sim, animais se automedicam! E pode até ser mais fácil relacionar a automedicação como resultado de observações e aprendizagem, restrito a animais como nossos parentes próximos, os primatas.  No entanto, há estudos que mostram que insetos, aves, répteis, elefantes e outros animais também se automedicam. Dessa forma, esse comportamento pode ser uma resposta evolutiva que não necessita de aprendizagem, e assim é muitas vezes considerado inato (de Roode et al. 2013).

Comportamentos de automedicação podem ser identificados quando há uma correlação entre a ocorrência de doenças em animais e o uso de uma substância natural como forma de tratamento. Mais do que isso, a automedicação também pode ser profilática (ou seja, com intenção de prevenir e não tratar), e assim, podemos observar o uso de substâncias e materiais em períodos relacionados ao aumento de ocorrência dessas doenças. Isso pode acontecer, por exemplo, durante uma estação chuvosa onde a infestação de alguns parasitas é maior (de Roode et al. 2013).

Alguns primatas têm a prática de ingerir terra para tratar de problemas intestinais (Oates 1978; Mahaney et al. 1995). Borboletas monarcas escolhem de forma cuidadosa o local para depositar seus ovos e assim tem preferência por frutos cheios de álcool para evitar parasitismo por protozoários (Abbott 2014). Também há casos de aves que esfregam lesmas, plantas ou formigas nas penas possivelmente a fim de evitar parasitas (Clayton, Wolf 1993; VanderWerf 2005) e algumas vespas que usam resina de carvalho para prevenir infecções por fungos (Taper & Case 1987).

As pesquisas sobre automedicação em animais ainda têm que avançar bastante em quantidade e diversidade. Elas têm um potencial imenso na descoberta de novas substâncias e no melhor entendimento do ambiente favorável para a conservação de certos animais. Mas mesmo com poucos exemplos, fica claro o quão incrível é esse comportamento, e o quanto nós podemos aprender com ele.

Para saber mais:

News Feature: Animals that self-medicate

Drauzio Varela – Automedicação em animais

Canal Comporta – Automedicação em animais

Referências:

Abbott, J. (2014). Self‐medication in insects: current evidence and future perspectives. Ecological Entomology, 39(3), 273-280.

Clayton, D. H., & Wolfe, N. D. (1993). The adaptive significance of self-medication. Trends in Ecology & Evolution8(2), 60-63.

de Roode, J. C., Lefèvre, T., & Hunter, M. D. (2013). Self-medication in animals. Science, 340(6129), 150-151.

Huffman, M. A. (2003). Animal self-medication and ethno-medicine: exploration and exploitation of the medicinal properties of plants. Proceedings of the Nutrition Society, 62(02), 371-381.

Mahaney, W. C., Aufreiter, S., & Hancock, R. G. V. (1995). Mountain gorilla geophagy: a possible seasonal behavior for dealing with the effects of dietary changes. International Journal of Primatology, 16(3), 475-488.

Oates, J. F. (1978). Water-plant and soil consumption by guereza monkeys (Colobus guereza): a relationship with minerals and toxins in the diet?. Biotropica, 241-253.

Taper, M. L., & Case, T. J. (1987). Interactions between oak tannins and parasite community structure: unexpected benefits of tannins to cynipid gall-wasps. Oecologia, 71(2), 254-261.

VanderWerf, E. A. (2005). ‘Elepaio “anting” with a garlic snail and a Schinus fruit. Journal of field ornithology, 76(2), 134-137.

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A seleção do mais amigável, ou como a genética influencia o comportamento dos cães

Quando se pensa em genética, imediatamente pensamos em como os genes influenciam a cor dos nossos olhos, do cabelo, ou seja, essencialmente características físicas. Dificilmente pensamos em como os nossos genes podem influenciar a maneira como nos relacionamos, nossa personalidade, e até como quanto sociáveis podemos ser. Um estudo publicado recentemente na Science pela Dra. vonHoldt e colaboradores mostra como alguns genes foram determinantes para conferir aos cães suas características mais amigáveis, e, portanto tornando mais fácil a relação entre a nossa espécie e a deles.

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Neste estudo foi demonstrado que além dos cães possuírem o comportamento de olhar fixamente os olhos dos humanos– o que teria favorecido o estreitamento de laços entre as espécies – a sua capacidade de reagir amigavelmente teria favorecido a relação entre eles. Para esse estudo, foram comparados o comportamento de lobos (criados em cativeiro, possuindo contato com humanos) e cachorros). Foi observado que tanto os lobos quanto os cachorros cumprimentavam visitantes humanos, entretanto, o contato feito pelos cães tinha uma maior duração (comparando proporcionalmente aos lobos), assim como a habilidade de completar tarefas ligadas a resolução de problemas; ambos os parâmetros estão ligados ao estímulo social

À partir dessa observação, estudos genéticos comprovaram que diferenças nos cromossomos de cães e lobos podem ser responsáveis por essa característica – cachorros possuem genes específicos mais “interrompidos”, diferentemente dos lobos, que possuem um comportamento mais distante ou menos sociável. Essas descobertas corroboram estudos feitos em humanos com a síndrome de Williams-Beuren, uma desordem do desenvolvimento físico e cognitivo, que leva os portadores a se tornarem pessoas altamente confiáveis e amigáveis.

Esses resultados são importantes para corroborar a hipótese da “seleção do mais amigável”: em outras palavras, animais com características mais sociáveis foram selecionados e puderam se reproduzir, passando suas características para outras gerações. Essa hipótese é muito utilizada para explicar a domesticação dos cachorros, pois características sociáveis permitiram a formação de laços entre as espécies, favorecendo a convivência e permitindo aos cães obterem alimentos e cuidado com maior facilidade.

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Reação em cadeia: como o comportamento humano pode influenciar a evolução em outras espécies.

Quando falamos de evolução humana frequentemente pensamos nas mudanças sociais pelas quais os hominídeos passaram até os dias atuais. Essas mudanças foram balizadas por novidades e descobertas, das quais lembramos principalmente do uso de ferramentas, do cultivo e da domesticação de animais. Mas será que foi só até aí que a evolução humana teve reflexo? É razoável se pensar que o raio de ação do comportamento humano pode ser muito mais amplo do que formas de vida diretamente ligadas a elas, com consequências nem sempre triviais.

            Está difícil imaginar? Vamos a um exemplo muito rápido: com a seleção sexual, machos de algumas espécies desenvolveram um tipo de exibição: Partes com crescimento alométrico (em que partes corporais tem um crescimento mais acentuado do que o restante do corpo), como é o caso de chifres em alces e outros cervídeos (Corças, Renas e Veados). Veja, para esses animais, quanto maior o chifre exibido, maior a chance de conseguir uma fêmea, se reproduzir e deixar descendentes portando seus genes. No entanto, com a difusão da caça pela espécie humana, a pressão seletiva foi direcionada para que esses chifres ficassem cada vez menores, uma vez que os maiores eram facilmente visualizados numa campina, além de serem troféus melhores para caçadores. Assim, machos com chifres maiores eram mais caçados, sobrando os genes dos menores chifres para os descendentes da população.

            Pensando nessa e em outras características afetadas por impactos causados por hominídeos, Alexis Sullivan, pesquisadora da Universidade da Pennsylvania, com a ajuda de outros dois colaboradores, compilou o que chamaram de “características evolutivas influenciadas por humanos” direta ou indiretamente, através da revisão de diversos artigos que apontavam atividades humanas como fortes influenciadoras de mudanças em características morfológicas de espécies silvestres. Para esse agrupamento de artigos, foram consideradas nove categorias relativas ao tipo de influência humana: coleta de troféus (chifres, cristas e sabres para decoração, por exemplo), animais capturados com rede ou armadilhas, animais impactados por modificação de habitat, animais passíveis de pesca, animais caçados, organismos atingidos por translocação (do habitat natural para outro habitat), colheita de plantas, colheita de invertebrados e animais e plantas atingidos por defaunação.

            Os exemplos selecionados para demonstrar a influência humana incluem invertebrados marinhos comestíveis (Lagostas, mexilhões), o elefante africano pelo marfim de suas presas, entre outros animais de consumo ou impactados por atividade indireta. O que mais chama atenção, na realidade, é o curto espaço de tempo necessário para a ocorrência de modificações extremamente importantes: a massa corporal média dos peixes salmão e bodião-da-califórnia, por exemplo, sofreu um decréscimo de 26% e 41%, respectivamente, em menos de trinta anos.

            Além de apresentar características fenotípicas e comportamentais interessantes, o estudo levanta um ponto muito importante sobre a relação entre ciência e medidas ambientais. A relação do homem com o meio em que vive ultrapassa níveis rasos de influência e deve ser abordada como uma rede complexa, e não como uma relação bilateral de simples causa e consequência. Daí a importância de conhecimento e corpo técnico para evitar resultados catastróficos da ação desenfreada dos homens sobre a natureza.

            O artigo, em formato de revisão, foi publicado por uma divisão da revista Nature e é 100% open access* (olha que legal!), traz inúmeras referências de casos como esses e ótimas reflexões.

* Artigos liberados para leitura sem pagamento para assinatura da revista.

Referência:

Sullivan, Alexis P., Douglas W. Bird, and George H. Perry. “Human behaviour as a long-term ecological driver of non-human evolution.” Nature Ecology & Evolution 1 (2017): 0065.

Pode ser acessado aqui: http://www.nature.com/articles/s41559-016-0065