As mulheres livres, ontem e hoje

Entre 1936 e 1939 ocorreu um evento na Europa que é constantemente esquecido por conta do impacto da Segunda Guerra Mundial: a Guerra Civil Espanhola. De um lado, os militares liderados pelo General Francisco Franco, que depois iria assumir o governo do país de forma ditatorial até 1975. Do outro, republicanos, socialistas, comunistas e anarquistas lutando contra o fascismo pela liberdade. Estes últimos, especialmente na região da Catalunha industrializada, transformaram a luta contra Franco também na construção de uma nova sociedade. Em pouquíssimo tempo, os trabalhadores coletivizaram e assumiram a administração de fábricas, terras, serviços públicos, etc. Era o início da Revolução Espanhola, da qual poucos ouviram falar até hoje.

Foi nesse contexto, na cidade de Barcelona, que nasceu o grupo anarquista Mujeres Libres. Fundado pela advogada Mercedes Comaposada, pela jornalista e poetisa Lucía Sanchez Saornil e pela médica Amparo Poch y Gascón, seu objetivo era lutar por questões relativas ao universo das mulheres, como aborto e prostituição, que não recebiam espaço para debate e ação nos sindicatos. No seu auge, o Mujeres Libres contou com mais de 20 mil afiliadas, e oferecia palestras, cursos, creches e até casas de apoio para receber, educar, capacitar e promover a libertação das mulheres da cultura patriarcal que também existia de maneira muito forte entre os trabalhadores e operários. Suas atividades e o posterior envolvimento com a guerra contra o franquismo eram divulgados através da revista de mesmo nome, até hoje um documento muito importante para registrar não só a experiência da Revolução Espanhola, mas a participação ativa das mulheres nesse período, que acabam sendo deixadas de lado pelo viés mais tradicionalista da História.

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                 Reunião da Federação Mujeres Libres  na cidade de Valência           (in RAGO e BIAJOLI, 2017, p.89)

 

Em 2017, porém, Margareth Rago (Unicamp) e Maria Clara Biajoli, duas historiadoras brasileiras, reeditaram o livro Mujeres Libres da Espanha, uma coletânea de artigos traduzidos da Revista Mujeres Libres, deixando essa documentação e a história dessas mulheres mais acessíveis para outros pesquisadores e o público em geral do Brasil. O livro é resultado de uma pesquisa conjunta desenvolvida entre os anos de 2002 e 2007 com financiamento CNPq e FAPESP, divulgada em diversos artigos e na dissertação de mestrado de Biajoli, e traz documentos coletados em arquivos na Espanha e em acervos pessoais de mulheres que participaram do ML tanto durante a Guerra Civil quanto depois, no exílio na França (a grande maioria das Mujeres Libres, assim como milhares de outras pessoas, fugiram da Espanha após a vitória de Franco). Os assuntos abordados incluem política e guerra, anarquismo, reflexões sobre o próprio grupo, feminismo, moral sexual e amor livre, etc., e indicam a qualidade progressista e libertária dessas mulheres em meio à opressão de classe, gênero e, também, religião – não podemos esquecer o peso da Igreja Católica na Espanha naquela época.

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Capa da coletânea organizada por Rago e Biajoli (2017)

 

Além desses documentos do período, a coletânea também traz algo inédito, relatos de memória de algumas dessas mulheres coletados em entrevistas e cartas. Essa seção em especial é muito interessante porque há uma tendência em estudos sobre guerras de ignorar ou diminuir autobiografias e memórias de mulheres sobre esses conflitos, já que são vistos sempre como algo eminentemente masculino. Contudo, abrir espaço para a experiência da mulher pode mudar toda a nossa percepção sobre esses eventos. A historiadora Patricia Greene, por exemplo, argumenta que “autobiografias de mulheres ativistas da esquerda espanhola frequentemente apresentam uma narrativa com uma voz dupla que integra, textualmente, a complexa relação entre a pessoa pública e a mulher privada, entre a história oficial e a história pessoal, enquanto, simultaneamente, constrói uma contra-narrativa que desafia a versão franquista fraturada da história” (334).

A experiência das Mujeres Libres, no final da década de 1930, foi de resistência, luta e solidariedade e mostrou como as mulheres, unidas, conseguem atingir objetivos antes considerados impossíveis. A divulgação da sua história e de suas memórias também é um ato de resistência à História masculina tradicional dos vencedores, que apagou a Revolução Espanhola e o Mujeres Libres. Mas é também um incentivo para nós, mulheres, para procurarmos as nossas próprias formas de união e de resistência hoje aos novos fascismos que se aproximam.

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                    Alguns exemplares da Revista Mujeres Libres                (in BIAJOLI, 2007, p.157)

Referências:

RAGO, Margareth e BIAJOLI, Maria Clara P. Mujeres Libres da Espanha. Documentos da Revolução Espanhola. São Paulo: Biblioteca Terra Livre, 2017.

BIAJOLI, Maria Clara Pivato. Narrar Utopias Vividas: Memória e Construção de Si nas Mujeres Libres da Espanha. Dissertação de Mestrado. UNICAMP, 2007.

GREENE, Patricia V. “Federica Montseny: Chronicler of an anarcho-feminist genealogy” in Letras Peninsulares, Outono de 1997.

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