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“Guerra justa” e abolicionismo (ou, por quê precisamos estudar mais história africana)

A historiografia dedicada à escravidão negra e ao tráfico transatlântico de escravos continua crescendo e aportando novos conhecimentos sobre essa parte tão importante da história das Américas. Por um lado, historiadores que pesquisam o passado colonial do continente americano têm sucedido em demonstrar que, de norte a sul, a colonização e o desenvolvimento de impérios coloniais dependeu da presença de africanos (escravizados, livres e libertos), forçando-nos a reconhecer as contribuições geralmente silenciadas desses sujeitos históricos. Por outro lado, avançou-se muito no entendimento acerca do funcionamento do tráfico de escravos, desde o financiamento do tráfico transatlântico até as rotas internas do tráfico americano (para além dos portos principais de chegada dos navios negreiros). Uma área que ainda merece mais atenção, no entanto, diz respeito ao funcionamento da escravidão no continente africano. Pouco se sabe sobre as rotas internas do tráfico humano de pessoas escravizadas no interior da África, já que, não raro, ao serem vendidas para comerciantes europeus, essas pessoas eram descritas nos documentos de acordo com os portos atlânticos de embarque (por exemplo, “da Guiné,” termo genérico utilizado pelos europeus para se referir a uma região do oeste africano que, na realidade, correspondia a vários reinos e impérios africanos).

A legalidade do tráfico negreiro (e da escravidão de modo geral, inicialmente) assentou-se no princípio da guerra justa e na ideia de que o(s) vencedor(es) tinha(m) o direito de escravizar o(s) perdedor(es). Herança do Código Justiano, uma compilação de leis romanas segundo a qual a escravização era vista como uma alternativa (positiva) ao assassinato dos perdedores de uma guerra, o princípio da guerra justa foi amplamente utilizado para justificar o contínuo comércio de escravos entre africanos e europeus que se produziu durante mais de três séculos. Mas como era possível garantir que as guerras lançadas no interior do continente africano eram realmente “justas”? Podia-se de fato garantir a legalidade da escravização dos seres humanos apreendidos nessas guerras e transplantados para os litorais para serem vendidos como escravos? Esse era o tipo de pergunta que os abolicionistas levantavam quando formulavam suas críticas à escravidão. E essas críticas constituem o objeto de análise do artigo de Jeffrey Glover publicado recentemente na revista The William and Mary Quarterly.[i]

Glover, professor do Departamento de Inglês da Universidade Loyola, em Chicago, analisou uma série de escritos publicados por abolicionistas ingleses que lançaram dúvidas a respeito da validade ou mesmo existência de guerras justas na África que pudessem sustentar o tráfico de escravos. Autores como Alexader Falconbridge questionaram a legitimidade do status legal dos milhares de homens, mulheres e crianças vendidos como escravos. Falconbridge havia sido um comerciante de escravos, mas se converteu à causa abolicionista após notar que a carga humana que comerciava não parecia exibir nenhum sinal de combate, fato que o levou a cogitar que talvez nunca houvessem estado em uma guerra, já que o mais natural seria terem algum tipo de ferimento ou cicatriz. Se não haviam estado em uma guerra, não poderiam ser legalmente escravizados, e seu comércio seria, portanto, ilegal.[ii] Ao longo do artigo, Glover nos introduz a uma série de outros autores abolicionistas, como Anthony Benezet e Thomas Clarkson, que coletaram relatos de viajantes e testemunhos, e Ottobah Cugoano, que havia sido escravizado e relatou em primeira mão sua experiência. Esses escritos contribuíram significativamente para o ímpeto do movimento abolicionista inglês, e merecem sem dúvida mais atenção.

No entanto, essas publicações estão longe de constituir as primeiras críticas à escravidão africana. Como é comum entre os pesquisadores que manejam exclusivamente as fontes em inglês, Glover ignora a trajetória do pensamento abolicionista para além do mundo anglo-saxão. Existe, porém, uma larga tradição intelectual antiescravista no mundo ibérico. Já no século XVII, o capuchinho aragonês Francisco José de Jaca produziu uma ferrenha defesa da abolição da escravidão com sua Resolución sobre la libertad de los negros y sus originarios, en estado de paganos y después ya cristianos.[iii] Resultado de sua passagem por Caracas, Cartagena de Índias, e Havana (três dos maiores portos importadores de escravos africanos durante o período colonial), o tratado de Jaca argumentava que a escravização dos africanos tal como estava sendo praticada era ilegal, pois não obedecia aos princípios da guerra justa; portanto, o tráfico transatlântico deveria ser abolido, os senhores de escravos punidos, e os escravos introduzidos por essa via ilegal, manumitidos. Suas críticas encontraram eco no também capuchinho Epifanio de Moirans, que Jaca conheceu em Havana, onde ambos estavam detidos justamente por conta da oposição àquela que era a instituição mais rentável do império espanhol.

Em nenhum caso, porém—nem nos tratados antiescravistas de Jaca e Moirans, nem nos escritos abolicionistas ingleses—ilumina-se os pormenores da escravidão no interior do continente africano. E, se tanto no universo ibérico quanto no anglo-saxão existiram vozes dissonantes que apontam para a ilegalidade da escravidão durante o período colonial, é bem possível que tivessem algo de razão. Faz-se portanto necessário examinar mais a fundo a questão. É aí, então, que a chamada historiografia do mundo atlântico deveria fazer o maior investimento, com pesquisas de campo que resultem em publicações de peso e substância.

Referências:

[i]                   GLOVER, Jeffrey. “Witnessing African War. Slavery, the Laws of War, and Anglo-American Abolitionism” IN The William and Mary Quarterly Vol. 74 N. 3, 2017.

[ii]                  FALCONBRIDGE, Alexander. An Account of the Slave Trade on the Coast of Africa. Londres, 1788.

[iii]             JACA, Francisco José de. Resolución sobre la libertad de los negros y sus originarios, en estado de paganos y después ya cristianos: la primera condena de la esclavitud en el pensamiento hispano. Ed. Miguel Anxo Pena González. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2003.

 

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Vamos conversar sobre a história da Aids?

mortes por aidsNo último dia 1o, celebramos mais um Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Esse dia foi estabelecido pela Assembleia Mundial de Saúde e ONU em 1987, e é adotado pelo Ministério da Saúde desde 1988, devido à grande relevância dessa doença, que é responsável por mais de 1 milhão de mortes anualmente no mundo. E mesmo já passados 30 anos do estabelecimento desse dia de reflexão e conscientização, a Aids ainda acomete grande número de pessoas no Brasil e no mundo, e continua cercada de preconceitos e tabus. E para melhor lutarmos contra essa grave doença, ainda no espírito do dia 1o de dezembro, nada melhor que conhecermos a sua história. Vamos nessa?

A Aids, sigla para síndrome da imunodeficiência adquirida, é uma doença do sistema imunológico causada pelo vírus HIV, sigla para vírus da imunodeficiência humana. O HIV originou-se de um outro vírus, chamado SIV, que é encontrado no sistema imunológico de chimpanzés e do macaco-verde africano. O SIV não causa doença alguma nos animais que infecta; porém, como é um vírus altamente mutante, deu origem ao HIV. Acredita-se que a transmissão para o ser humano aconteceu em tribos da África Central que caçavam ou domesticavam chimpanzés e macacos-verdes. Não há consenso sobre a data das primeiras transmissões, mas é provável que tenham acontecido muitas décadas antes do reconhecimento da doença, em 1982, e que ela tenha inicialmente permanecido restrita a pequenos grupos e tribos da África Central, na região subsaariana. Só então na década de 1970, Estados Unidos, Haiti e África Central apresentaram os primeiros casos da infecção: surgiram diversos casos de doenças que ninguém sabia como explicar na época. Isso se deve ao fato da Aids fragilizar o sistema imune e, portanto, deixa o portador mais susceptível a diversas outras doenças, como à  criptococose (uma doença fúngica oportunista que já comentamos aqui no blog neste link), que podem ser fatais. Ou seja, o paciente não é acometido fatalmente pela Aids, mas sim de outras doenças que não são combatidas pelo organismo em decorrência da Aids.

How to Have Promiscuity in an EpidemicAcreditava-se que a primeira pessoa a levar o vírus para os Estados Unidos foi um comissário de bordo franco canadense chamado Gaetan Dugas, conhecido como o “Paciente Zero”. No entanto, um estudo publicado na Nature no ano passado (2016) revelou que a amostra do sangue de Dugas continha uma variação do vírus que já havia infectado homens antes dele começar a frequentar Nova York, mudando assim a história da epidemia. Imagina-se que o erro tenha ocorrido por uma confusão: Dugas era identificado como “paciente O”, com a letra “O”, que significa “out[side]-of-California” (termo utilizado para pacientes infectados fora do estado), e o símbolo circular ambíguo começou a ser lido como zero, erroneamente. Assim, a troca levou a se pensar que ele teria sido a primeira pessoa infectada fora da África e a o intitularem como “o homem que nos deu a Aids”, conforme manchete do New York Post.

peste gayO primeiro caso de Aids no Brasil foi registrado em 1980 e confirmado dois anos depois. No Brasil, como no restante do mundo, a história da Aids está repleta de preconceitos e foi até intitulada como “Peste-Gay”, conforme reportagem publicada no Jornal Notícias Populares, em 1983. É fato que, embora o HIV seja encontrado em vários fluídos corporais (sangue, leite materno, secreções vaginais e sêmen), a carga viral presente no sêmen é maior, tornando-o a via mais comum de infecção. Assim, homens que fazem sexo com outros homens (HSH) têm probabilidade maior de se infectarem, o que não dizima a possibilidade de outros grupos se infectarem igualmente. O sexo não é a única via de contaminação, como ocorreu no caso reportado no Journal of Medical Case Reports em 2017: infecção pelo vírus HIV foi adquirida através de um ritual de curandeiro tradicional no qual ocorreu o corte da pele do curandeiro seguido pela da paciente usando o mesmo instrumento, na Tanzânia, África Oriental. Fanáticos diziam que a Aids havia sido criada por uma força divina para acabar com os gays e, depois, com os afrodescendentes, grupos nos quais os primeiros casos de Aids foram registrados. Vale lembrar que esses dois grupos já eram discriminados naquela época, o que explica a postura preconceituosa adotada. Infelizmente esse preconceito ainda persiste nos dias atuais, mesmo com todo o esclarecimento acerca da doença, criando uma barreira entre populações-chave para essa epidemia e a testagem e serviços de tratamento.

A história da Aids está repleta de luta! Não só luta contra o preconceito, mas também luta em prol de condições de tratamento. Esse cenário é bem retratado no filme “Clube de Compras Dallas”, que é baseado na vida de Ron Woodroof, um eletricista heterossexual de Dallas que foi diagnosticado com Aids em 1985. Woodroof se recusou a aceitar o prognóstico de apenas 30 dias de vida e criou uma operação de tráfico de remédios alternativos, na época ilegais. Ron passa a adquirir, ilegalmente, AZT, medicamento utilizado até então em pacientes com câncer, que só em 1987 foi autorizado para o tratamento da Aids. O filme, que ganhou Oscar de melhor ator em 2014, é interessantíssimo e retrata a luta dos portadores de HIV, marginalizados na sociedade, por acesso à saúde. Felizmente, pela primeira vez, o relatório UNAIDS de 2017 mostra que mais da metade de todas as pessoas que vivem com HIV no mundo (53%) agora têm acesso ao tratamento do HIV (dado de 2016).

A Aids mata e, assim como o preconceito, segue, infelizmente, presente com força na nossa sociedade. Precisamos combater tanto a doença quanto a discriminação, por meio do conhecimento e da prevenção. A luta contra a Aids é necessária e responsabilidade de todos nós: o dia 1o de dezembro deve ser todo dia.

 

REFERÊNCIAS:

WOROBEY et al. 1970s and ‘Patient 0’ HIV-1 genomes illuminate early HIV/AIDS history in North America. Nature, 539(7627). 2016. Disponível neste link.

PALLANGYO et al. Human immunodeficiency virus infection acquired through a traditional healer’s ritual: a case report. Journal of Medical Case Reports, 11. 2017. Disponível neste link.

http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2016/10/homem-culpado-pela-epidemia-de-aids-e-inocentado-pela-ciencia.html

http://www.ioc.fiocruz.br/aids20anos/linhadotempo.html

https://mundoestranho.abril.com.br/saude/como-surgiu-a-aids/

https://jovemsoropositivo.com/2014/08/09/carga-viral-no-semen/

https://unaids.org.br/estatisticas/

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Contra o mito da quantidade: produção intelectual feminina no dicionário ilustrado “Imprensa feminina e feminista no Brasil: século XIX”.

            Apesar de não ser alguém lá muito fluente em números, decidi, há pouco tempo, aventurar-me por um exercício quantitativo. Reuni todos os livros, fotocópias e arquivos digitais que utilizei ao longo do curso de graduação em Direito na Universidade Estadual de Maringá ainda guardados nas prateleiras das minhas estantes físicas e digitais. No total, contei algo como 40 livros, 1.300 páginas fotocopiadas e 45 arquivos .pdf. Separei, dentre esse material, tudo aquilo que de alguma forma foi produzido por mulheres: autorias, co-autorias, edições, organizações e traduções entraram na conta. Ainda que eu certamente não tenha chegado perto de consultar todos os textos que deram suporte à minha formação ou a de qualquer outro estudante que passou pela Faculdade de Direito ao longo daqueles cinco anos, os resultados desse pequeno experimento — limitados, é claro, à simplicidade do método que os produziu — foram bastante sugestivos. Isso porque a esmagadora maioria dos livros e textos que consegui agrupar foram escritos, editados ou traduzidos exclusivamente por…homens. Apenas 17% deles traziam nomes de mulheres em seus cabeçalhos, o que sugere que boa parte da bibliografia preferida por meus professores e professoras, ou tida como referência para o estudo de uma determinada área do direito de uma forma mais geral, é masculina.

          Imagino que esses números devem variar muito conforme o período, o país, o curso, a universidade, as bibliotecas à disposição e o perfil dos professores e professoras que formulam e implementam os planos de ensino. A questão é que a conclusão de fundo desse exercício pessoal — a sub-representação do conhecimento produzido por mulheres — vem sendo repetidamente sugerida por diversos estudos[1]. Seja nas “ciências duras”, “biológicas”, nas “humanidades”, ou, sob uma ótica menos acadêmica, na literatura, no jornalismo ou na política, não é necessário muito esforço para perceber que a produção intelectual feminina, apesar de crescentes iniciativas em contrário, foi, e continua sendo, marginalizada. E isso não se deve à ausência ou ao baixo volume de escritos, que costuma ser o principal argumento por trás do mito de que “não há mulheres” em uma determinada área do conhecimento. O problema, como bem sabemos, é outro.

           O dicionário ilustrado “Imprensa feminina e feminista no Brasil: século XIX”, lançado ano passado pela editora Autêntica, é mais um recurso que ajuda a reforçar a tese de que quantidade não é o problema quando se trata de produção intelectual feminina no Brasil. Organizado por Constância Lima Duarte, ele reúne mais de 140 jornais redigidos por mulheres e/ou direcionados ao “público feminino” no Brasil entre os anos de 1827 e 1885. No livro, cada uma dessas publicações é objeto de um verbete, em que podemos encontrar o título, o período de circulação, a identidade visual e algumas informações sobre o contexto de surgimento e o escopo do periódico.

 

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Fonte: site Editora Autêntica

 

           Embora formatado para consultas rápidas e pontuais, o dicionário segue uma tradição de revisionismo histórico da produção intelectual feminina, inaugurada, no Brasil, por autoras como Dulcília Buitoni (Imprensa Feminina e A mulher de Papel – este, aliás já indicado aqui no Cientistas Feministas) e June E. Hahner (A mulher no Brasil e A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850-1937) no início da década de 80. Sob disciplinas e orientações teóricas distintas, essas e outras pesquisadoras[2] buscaram — e encontraram — fontes primárias que atestaram a participação feminina na história do periodismo brasileiro, tema que até então vinha sendo preterido pela historiografia nacional. Em suas pesquisas, elas apresentaram tanto documentos que fixaram representações e ditames conservadores sobre os papéis que a mulher deveria ocupar na “sociedade moderna”, quanto registros da resistência feminina à imposição desses padrões. Verbete a verbete, é a essa história — a da formação, aglutinação, divulgação e das resistências que marcaram o surgimento de uma produção intelectual feminina no Brasil — que somos apresentados ao longo do dicionário.

           Sobretudo na primeira metade do século XIX, uma boa parte dos periódicos reunidos no livro aparece nitidamente alinhada à simbologia patriarcal dominante no período: eram folhas ou folhetins editados por homens, que desejavam oferecer “instrução e entretenimento para as mulheres de nossa côrte (sic)”. Falavam de moda, família, lar e, em alguns casos menos recorrentes, de educação feminina (inspirada pela chamada “querelle des femmes” francesa, também já tratada aqui no blog). A própria escolha do título já dava indícios de como as mulheres vinham por eles representadas: nomes de flores (A Violeta, O Jasmin, A Camelia), pequenas aves e insetos (O Beija-flor, A Borboleta) e objetos associados à feminilidade (O Brinco das Damas, A Grinalda, O Leque) predominavam. Como diz Constância Duarte, eram publicações que se posicionavam “acima das mulheres e como guias responsáveis pela mudança de seu status quo” (p.21).

           Mas o que chama atenção são exatamente as exceções a essa regra — ou seja, os periódicos integralmente redigidos por mulheres, ou cujos redatores e colunistas de maior destaque eram mulheres –, que começaram a se multiplicar a partir de 1870. Esse é o caso do Echo das damas (1879-88), do Republica das Moças (1879) e d’O Corymbo (1884-1944). Chefiados por mulheres, os três periódicos, além de “entreter e informar”, funcionavam como veículo de advocacia pela inserção política e social feminina. Ladeando anúncios de espetáculos teatrais e dicas de moda e beleza, artigos de opinião sobre direito e política ganhavam espaço e projeção cada vez maiores. Se para apoiar ou criticar a república, combater ou justificar a escravidão, endossar ou rechaçar o direito ao voto feminino, a organizadora sugere que as iniciativas encabeçadas por essas mulheres contribuíram para aproximar possibilidades até então muito remotas: “o protagonismo feminino adentra as redações e toma para si a direção política e ideológica de muitas das folhas destinadas às mulheres. De leitoras a redatoras, abrem espaço às vozes femininas antes reclusas às alcovas, e empreendem a transformação hoje perceptível no perfil dessa imprensa: de ‘revistas de moda’ a órgãos de reflexão” (p. 26).

           Além desses exemplos, pelo menos outras 50 publicações citadas no dicionário poderiam ser classificadas sob o mesmo perfil. Folhas e folhetins imaginados por médicas, jornalistas, poetisas e professoras, que expressavam as concepções de um grupo que, embora longe de representar “As Mulheres” daquele período, deu voz e agência a pessoas que costumavam ser excluídas das arenas sociais. Uns mais politizados que outros, mais ou menos alinhados ao que se começava a reconhecer como “feminismo”, esses jornais convergem, portanto, para o desmantelamento do mito da quantidade no Brasil do século XIX; havia, sim, um volume considerável de produção intelectual feminina naquela época.

           Com essa afirmação, é possível retornar à incursão pela bibliografia indicada durante minha passagem pela Faculdade de Direito. Talvez o método que utilizei para constatar o quão masculinas, ou o quão não-femininas, costumam ser as referências bibliográficas nessas circunstâncias, não tenha sido o mais adequado. Ao invés de ressaltar a disparidade entre a presença de homens e mulheres, melhor teria sido proceder como Constância Lima Duarte e tantas outras pesquisadoras engajadas na organização, análise e divulgação do pensamento feminino: levantar o volume de escritos femininos por área e sub-área[3], para então confrontá-lo com a quantidade de indicações e referências. Quem sabe, assim nesses termos, o argumento de que “não há mulheres na área” soasse ainda mais paradoxal do que já parece ser.

[1] Para alguns exemplos, ver: http://www.jstor.org/stable/3096963?seq=1#page_scan_tab_contents; https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2303311;

[2] Maria Thereza Caiuby Crescenti Bernardes (Mulheres de ontem? Rio de Janeiro — Século XIX) e Elizabete Siqueira (Um discurso feminino possível: pioneiras da imprensa em Pernambuco) também são importantes nomes desse movimento.

[3] A plataforma “Mulheres também sabem” tem desenvolvido projeto nesse sentido para a área de humanidades: https://www.mulherestambemsabem.com/

Referências

BERNARDES, Maria Thereza C. C. Mulheres de ontem? Rio de Janeiro — século XIX. São Paulo: T.A. Queiroz, 1989.

BUITONI, Dulcilia H. S. Mulher de papel: a representação da mulher pela imprensa feminina brasileira. São Paulo: Summus, 2009.

__________. Imprensa feminina. São Paulo: Ática, 1986.

DUARTE, Constância Lima. Imprensa feminina e feminista no Brasil — século XIX. São Paulo: Autêntica, 2016.

HAHNER, June E. A mulher no Brasil. São Paulo: Civilização Brasileira, 1978.

__________. A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850 – 1937. São Paulo: Brasiliense, 1981.

SIQUEIRA, Elizabete. Um discurso feminino possível: pioneiras da imprensa em Pernambuco. Recife: Editoria Universitária UFPE, 1995.

 

 

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As múltiplas vozes na luta pelos direitos trabalhistas das mulheres no Brasil

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A historiadora Gláucia Fraccaro apresenta um exemplar do jornal operário A Plebe. Fonte: Antoninho Perri

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Exemplar do santinho da campanha de Bertha Lutz. Fonte: Arquivo Nacional / Antoninho Perri

Quando lemos sobre a história do feminismo e da conquista dos direitos das mulheres aqui no Brasil, inevitavelmente são destacados os nomes de “líderes” famosas como Bertha Lutz (1894-1976, fundadora da Fundação Brasileira pelo Progresso Feminino em 1919) e Carlota Pereira de Queiroz (1892-1982, primeira deputada federal do Brasil). Ainda que o desempenho dessas mulheres junto ao governo brasileiro tenha sido, de fato, de uma importância inegável, o foco em suas atuações acaba perpetuando duas ideias muito limitadoras a respeito desse tema: a primeira, de que a história do feminismo no Brasil foi um só movimento, com uma pauta única e igual para todas as envolvidas; e, segundo, a de que foi apenas com a luta de mulheres da classe média e alta que houve avanços nas conquistas dos direitos femininos.

A tese de doutorado de Gláucia Fraccaro, Os Direitos das Mulheres – Organização Social e Legislação Trabalhista no Entreguerras Brasileiro (1917-1937), defendida em 2016 na Universidade Estadual de Campinas, mostra claramente que é possível contestar essas duas ideias. A sua pesquisa foi baseada tanto na análise de textos legislativos e jurídicos desse período quanto da imprensa operária, sem perder de vista também um interessante viés internacional a partir da forma como a ideia de se defender direitos trabalhistas específicos para as mulheres, como a licença-maternidade, estava sendo pensada em outros países, em especial através da Organização Internacional do Trabalho. Assim, Fraccaro conseguiu mostrar que havia outras vozes em jogo nessas décadas tão importantes para a consolidação das leis do trabalho brasileiras.

Em especial, a historiadora investiga a participação das trabalhadoras paulistas nas organizações sindicais, nas greves e na imprensa operária para indicar que as suas reivindicações, pautadas pelo lema “trabalho igual, salário igual”, precederam em muito tempo as ideias de Lutz e Queiroz. Na verdade, ao iluminar as experiências das operárias nas fábricas de São Paulo, Fraccaro nos mostra que os estudos sobre os conflitos entre as classes dentro do capitalismo abrangem questões muito complexas a partir da permanência de uma mentalidade patriarcal que, no caso das trabalhadoras, obrigava-as, além de lidar com a mesma exploração econômica enfrentada pelos operários, como jornadas de trabalho excessivas, a se organizarem para lutar contra outros problemas sofridos exatamente por serem mulheres, como salários muito menores, nenhuma segurança durante a gravidez ou pós-parto, e abusos sexuais por parte dos capatazes das fábricas. A sua atuação, ao contrário da imagem tradicional de que os movimentos sindicais e operários contavam apenas com homens, foi tão relevante que Fraccaro conseguiu localizar documentos que circulavam entre os donos das fábricas em que se percebe como várias mulheres eram consideradas “agitadoras” e, por isso, deveriam ser demitidas de seus empregos e vigiadas.

A sua luta se fazia ainda mais complicada porque não se dava apenas na relação patrão-empregado: os próprios operários, ainda que concordassem com a defesa de salários iguais, por exemplo, consideravam que o lugar primeiro de atuação das mulheres deveria ser o lar e, por isso, em tempos de desemprego, defendiam que elas deveriam ceder seus postos de trabalho para seus parentes homens. Fraccaro cita, por exemplo, um documento elaborado pela União dos Operários em Fábricas de Tecido que acusava os industriais de preferirem contratar mulheres pois, segundo sua opinião, elas se submetiam com mais resignação a todas as injustiças, e propunha que “os lugares ocupados hoje por mulheres nas indústrias fossem, numa porcentagem crescente, de mês a mês, ocupados por homens, até a extinção do total do elemento feminino nas indústrias”, e que “toda mulher que trabalha na indústria e no comércio possa ser substituída pelo marido, irmão, tio ou pai desempregados da mesma profissão” (apud Fraccaro, 2016, p.55). Tudo isso porque, segundo o mesmo documento, homens desempregados oferecem “assim um espetáculo ao mesmo tempo ridículo, vergonhoso e revoltante: o de ver a mulher na fábrica e o marido em casa cuidando dos serviços domésticos e levar as crianças ao portão das fábricas para serem amamentadas” (idem, p.54).

Mesmo em relação ao movimento feminista sufragista havia fortes divergências, em especial a partir das mulheres anarquistas, como Maria Lacerda de Moura que, em 1928, escreveu: “Não sou do progresso feminino pró-voto da senhorita Bertha Lutz e nem do bando militarizado e catequista da Professora Daltro. Voto? – Nem secreto, nem masculino, nem feminino” (Moura, apud Fraccaro, p.67). Mas ainda assim é preciso reconhecer que a atuação de mulheres como Lutz foi importante para defender no congresso a necessidade de leis específicas para o trabalho feminino, principalmente a partir do reconhecimento da jornada dupla. Em seu “santinho” da campanha para a Assembleia Constituinte, Lutz defendia, por exemplo, que a “mulher proletária cumpre pena dobrada, acrescentando ao horário da fábrica o trabalho sem horário medido que desempenha no lar” (apud Fraccaro, p.126). O resultado, curiosamente, parece ter sido ao mesmo tempo composto de conquistas e entraves. Por exemplo, a lei que proibia que mulheres trabalhassem no período noturno, salvo algumas exceções – profissionais da saúde, por exemplo – parece indicar que também houve uma legislação “superprotetora” baseada na ideia de que o local primordial da mulher deveria ser o lar, mas que, em nome de salvaguardar uma pretensa fragilidade feminina e seu papel como mãe, acabava por prejudicar sua atuação no mercado de trabalho ao impedir seu acesso a algumas atividades bem remuneradas para a época.

É a partir de interessantes questões como as apresentadas aqui que Gláucia Fraccaro nos mostra como a história do feminismo no Brasil e dos direitos trabalhistas das mulheres não deve ser vista de forma homogênea, silenciando importantes debates a partir de uma versão heroicizada focada em apenas algumas líderes. Seguindo exemplos como a da famosa historiadora francesa Michelle Perrot, Fraccaro indica, portanto, que a categoria de gênero, em especial a partir de um olhar para os vários grupos de mulheres atuantes, tem muito a contribuir para as pesquisas e entendimento da história das relações de trabalho no mundo.

Referências:

FRACCARO, Gláucia Cristina Candian. Os Direitos das Mulheres – Organização Social e Legislação Trabalhista no Entreguerras Brasileiro (1917-1937). Unicamp, 2016. Tese de Doutorado. http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/321562 

PERROT, Michelle. As Mulheres ou os Silêncios da História. Bauru: EDUSC, 2005.

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Vamos ocupar as redes!

O blog Cientistas Feministas – e as iniciativas de divulgação científica em geral – tem como proposta a democratização da ciência através da disseminação de informação. O conhecimento científico é, na esmagadora maioria dos casos, difundido por meio de periódicos especializados e em eventos acadêmicos inacessíveis à população em geral e que costumam se valer de uma linguagem bastante hermética. A ciência e o conhecimento por ela produzido, no entanto, devem ser socializados, democratizados. As ferramentas de divulgação científica são, assim, uma estratégia possível na democratização da produção científica.

Nessa estratégia, a internet cumpre um papel fundamental. De acordo com dados divulgados pelo Portal Brasil, em 2015, 58% da população brasileira tinha acesso à internet.

 

No caso do conhecimento especificamente produzido na área de ciências humanas e sociais, as iniciativas de Digital Humanities já estão com debates bastante avançados (um exemplo da história do direito). Há também diversos projetos de digitalização de documentos (veja um exemplo aqui no blog) que democratizam consideravelmente o acesso a fontes, facilitando a produção de dados e tornando a produção de conhecimento mais democrática.

Neste post, porém, não tratarei desse tipo de iniciativa que tem uma incidência maior na produção do conhecimento, mas em projetos que visam ampliar a difusão do resultado de pesquisas. O foco será a área de história do direito, mas os exemplos aqui apresentados podem ser facilmente replicados em outras áreas. Se você conhece iniciativas parecidas em outras áreas, por favor, coloque o link nos comentários! 😉

Na blogosfera, há diversas iniciativas dedicadas à história do direito. Uma das mais conhecidas é o Legal History Blog. Aí estão presentes posts sobre eventos na área, resenhas de livros recentemente publicados, chamadas para bolsas, etc. Na página inicial, há também uma lista com outros blogs que tratam da história do direito e links para páginas de instituições da área. O blog pretende abranger todas as áreas do mundo, mas a maioria dos posts ainda está focada na produção científica em língua inglesa.

O Twitter também é uma rede que pode ser utilizada para disseminação de resultados de pesquisas. Um exemplo é o projeto Women Negotiating the Boundaries of Justice. O projeto se foca no acesso das mulheres ao judiciário, na Grã-Bretanha e na Irlanda, entre os séculos XII e XVIII. O Twitter é usado pelo grupo para divulgar resultados de suas pesquisas, informações relacionadas ao tema do acesso das mulheres à justiça e chamadas para eventos.

O YouTube também é uma plataforma muito interessante para a história do direito. Um exemplo é o canal Coloquios de Historia del Derecho. O canal reproduz vídeos de palestras e debates que acontecem, mensalmente, desde 2010, no âmbito dos Coloquios de Historia del Derecho, na Universidad Autónoma de Madrid. Um importante detalhe sobre essa iniciativa: as organizadoras dos Coloquios têm adotado a política de sempre incluir, a cada ciclo do evento, ao menos uma palestra dedicada à história das mulheres. A próxima sessão, por exemplo, que acontecerá no dia 28 de abril, tratará do tema “Profissionalização das primeiras mulheres advogadas na Estónia” e estará a cargo da professora Merike Ristikivi.

Uma outra iniciativa – essa no âmbito do já tradicional e-mail – é a lista H-Law. Cadastrando-se na plataforma, qualquer pessoa pode receber informações periódicas sobre conferências e publicações  na área. Recentemente, também começaram a gravar podcasts sobre história do direito.

O Snapchat é uma rede social ainda não ocupada pelos historiadores do direito. O site Snap4Science reúne iniciativas de difusão científica via Snapchat. No entanto, até hoje, não há nenhum canal das ciências humanas e sociais cadastrado.

Esses exemplos não pretendem esgotar todas as iniciativas que existem na web. Apesar de ser uma área relativamente pequena, a história do direito tem aos poucos ganhado espaço na internet. No entanto, cabe a nós, que temos interesse em produzir uma ciência mais democrática e acessível, ocupar cada vez mais esses espaços, aprimorando a comunicação entre os pesquisadores e com a população de uma maneira mais ampla.

Além do fato de que quanto mais difundirmos o conhecimento científico, mais democratizaremos e beneficiaremos a sociedade, é importante lembrar que esse tipo de ocupação do espaço virtual beneficia grupos tradicionalmente marginalizados. Em primeiro lugar, amplia as possibilidades de fala de grupos que encontram diversos obstáculos para apresentar suas pesquisas no próprio meio acadêmico. Ocupar espaços de fala e debate nas redes pode ser um caminho possível para, posteriormente, forçar uma entrada mais efetiva nos espaços de diálogo acadêmico mais “tradicionais”. Em segundo lugar, considerando o amplo número de pessoas que podem ser alcançadas pela internet, aumentam as chances de estimular que mulheres, negros, etc., interessem-se por carreiras científicas. A restrição do debate acadêmico beneficia os grupos que tradicionalmente já ocupam os espaços de fala e de discussões. Ampliar os locais possíveis de debate significa, portanto, tornar a ciência um pouco mais democrática, representativa e acessível.

Fica o chamado: vamos ocupar as redes!

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Livro “A guerra não tem rosto de mulher” conta a trajetória de mulheres soviéticas que lutaram na Segunda Guerra Mundial através da História Oral

Embora muitas vezes se diga que a História é contada pelos vencedores, pesquisadoras e pesquisadores tem tentado, já há algum tempo, mudar esse cenário. Histórias de pessoas comuns, de trabalhadores, de mulheres, de minorias étnicas, vem ganhando espaço nas pesquisas acadêmicas. (Às vezes os resultados demoram para chegar ao público geral, e iniciativas como o blog Cientistas Feministas tem justamente a intenção de aproximar universidade e sociedade.)

Um dos campos historiográficos que tem possibilitado contar essas outras histórias é a História Oral. Segundo o CPDOC, a História Oral começou a ser utilizada na década de 1950 nos Estados Unidos, México e Europa e difundiu-se desde então. No Brasil, foi a partir dos anos setenta que começaram os trabalhos com entrevistas como fontes de pesquisa. Nessa mesma década, a bielorrussa Svetlana Aleksiévitch começou a colher depoimentos de mulheres que lutaram na Segunda Guerra Mundial. O resultado foi “A guerra não tem rosto de mulher”, o primeiro livro da jornalista.

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Imagem: três guerrilheiras soviéticas em ação durante a II Guerra. Fonte: The Atlantic

Publicado primeiro em uma edição curta em uma revista soviética em 1984 e no ano seguinte no formato de livro, o texto foi traduzido para o português e lançado no Brasil somente no ano passado. “A guerra não tem rosto de mulher” intercala trechos de depoimentos com comentários da autora. Nesses espaços, Svetlana reflete sobre o próprio fazer de sua obra e da dificuldade de trabalhar com esse tipo de material.

Uma das preocupações acerca da História Oral é como ela se aproxima do que “de fato aconteceu”. Mesmo com outros tipos de documento como suporte, no entanto, tal tarefa é impossível: não existe a verdade absoluta sobre o passado. Nas palavras do historiador David Lowenthal:

Não há verdade histórica absoluta à espera de ser descoberta; por mais diligente e imparcial que o historiador seja, ele, assim como nossas lembranças, não estará apto a relatar o passado “como ele realmente foi”. Nem por isso a história fica invalidada; persiste a crença de que o conhecimento histórico venha a lançar alguma luz sobre o passado, e que componentes da verdade ainda nele permaneçam (LOWENTHAL, 1998, p.143-4).

Svetlana Aleksiévitch coletou depoimentos de mais de quinhentas mulheres. Ouviu histórias de tanquistas, franco-atiradoras, enfermeiras, médicas, pilotas, cozinheiras, lavadeiras, comandantes, partisans… Ela explica porque quis ouvir mulheres que exerceram atividades tão diferentes:

Depois de classificar os endereços que tinha, formulei assim: tentar entrevistar mulheres de diferentes profissões militares. Cada um de nós vê a vida segundo sua atividade, segundo seu lugar na vida ou nos acontecimentos de que participa. Podemos pressupor que a enfermeira viu uma guerra, a padeira viu outra, a paraquedista uma terceira, a piloto viu uma quarta, a comandante de um pelotão de atiradores de fuzil uma quinta… Cada uma delas esteve na guerra que existia em seu raio de visão: a de uma era a mesa de cirurgia: “Vi tantos braços e pernas amputados… Já nem acreditava que em algum lugar havia um homem inteiro. Parecia que todos estavam feridos ou mortos…” (A. Diémtchenko, primeiro-sargento, enfermeira); de outra, os caldeirões da cozinha de campanha: “Depois de um combate às vezes não sobrava ninguém… Você cozinhava caldeirões de mingau, caldeirões de sopa, e não havia para quem dar…” (I. Zínina, soldado, cozinheira); a da terceira era a cabine de piloto: “Nosso acampamento ficava na floresta. Cheguei do voo e decidi entrar na floresta; já estávamos no meio do verão, os morangos estavam no ponto. Passava por uma trilha quando vi um alemão no chão… Ele já estava escuro… Me deu medo. Até aquele momento ainda não tinha visto mortos, e já combatia na guerra havia um ano. Lá no alto era diferente… Quando você está voando, só pensa em uma coisa: encontrar o alvo, bombardear e voltar. Não chegávamos a ver os mortos. Não tínhamos esse medo…” (A. Bóndarieva, tenente da guarda, piloto).

Nos trechos selecionados pela autora para o livro, percebe-se uma preocupação que ela mesma afirma ter:

Estou escrevendo uma história dos sentimentos… Uma história da alma… Não é a história da guerra ou do Estado, e não é a hagiografia dos heróis, mas a história do pequeno ser humano arrancado da vida comum e jogado na profundeza épica de um acontecimento enorme. Na grande História.

Os depoimentos trazem o dia a dia na guerra, os cheiros e cores do conflito. Trazem também a dureza de ser mulher em um ambiente masculino:

Não havia algodão e ataduras suficientes para os feridos… Para outros usos, então… Roupa de baixo feminina só apareceu uns dois anos depois, talvez.
Maria Semiónovna Kaliberdá, sargento, comunicações

Ainda sobre menstruação, uma outra mulher contou:

E, por causa da sobrecarga, deixamos de ser mulheres… Se transformou, a nossa… Perdemos nosso ciclo biológico… Dá para entender? Foi terrível. Era terrível pensar que você nunca mais vai ser mulher…
Maria Nésterovna Kuzmenko, primeiro-sargento, armeira

Quando a guerra finalmente acabou, as mulheres que lutaram achavam que finalmente iam ter paz, mas “depois da guerra ainda tivemos mais uma guerra. Terrível também”. Elas contam que foram hostilizadas pelas mulheres que não foram à guerra e pelos homens, que as abandonaram.

Depois de trinta anos começaram a nos homenagear… Convidavam para encontros… No começo nos escondíamos, não usávamos nem as medalhas. Os homens usavam, as mulheres não. Os homens eram vencedores, heróis, noivos, a guerra era deles; já para nós, olhavam com outros olhos. Era completamente diferente… Vou lhe dizer, tomaram a vitória de nós.
Valentina Pávlovna Maksimtchuk, operadora de artilharia antiaérea

Lendo os relatos, tem-se a certeza de que essa história precisa ser contada, ainda que seja difícil. Nas palavras de uma delas: “É terrível lembrar, mas é mais terrível ainda não lembrar”. Rememorar a violência, as mortes, o cotidiano duro e transformar isso em palavras é o mais próximo que conseguimos chegar do que essas mulheres passaram:

Será que alguém que não esteve lá consegue entender? E como contar? Com que rosto? Bom, me responda você: com que rosto isso deve ser recordado?
Tamara Stiepánovna Umniáguina, terceiro-sargento da guarda, enfermeira-instrutora

Referências:

ALESKIÉVITCH, Svetlana. A guerra não tem rosto de mulher. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

LOWENTHAL, David, “Como conhecemos o passado”, Projeto História, [v.]17, 1998. Disponível em:
< http://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/11110/8154 >. Acesso em: 16 mai. 2016.

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As computadoras

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A história da computação possui muitos personagens que contribuíram para o seu desenvolvimento.Na sua grande maioria, os personagens conhecidos dessa história são homens, dentre os quais podemos citar Babbage, Boole, Turing, Von Neumann dentre outros. E aonde ficam as mulheres nessa história toda? Será que não houve nenhuma contribuição feita por uma mulher? Não digo daquelas mulheres que são tidas como “a primeira mulher engenheira de computação do mundo”, ou seja, a primeira mulher a fazer uma atividade que antes era dominada apenas por homens. Digo uma mulher que tenha sido o primeiro indivíduo, seja homem ou mulher, que contribuiu originalmente com alguma coisa para a computação.

Já nos primórdios da computação moderna houve a primeira contribuição de uma mulher. Seu nome é Ada Byron, filha do conhecido poeta inglês Lord Byron. Também é conhecida como Ada Lovelace, por ter se casado aos 20 anos com o conde de Lovelace. Sua grande contribuição para a história da computação é ter sido a primeira pessoa a descrever completamente o processo que hoje é conhecido como programação de computador [1] [2].

Na época de Ada, também viveu um outro grande contribuinte no desenvolvimento da computação, o cientista Charles Babbage, que é tido como o pai dos computadores modernos. Ada conheceu o trabalho de Babbage e, traduzindo uma de suas teorias, acrescentou notas nas quais descrevia como alimentar a máquina analítica de Babbage com cartões perfurados, sendo tidos como os primeiros programas de computadores. Ada também previu a possibilidade da música computadorizada, afirmando que a música é matemática e, portanto, poderia ser adaptada para ser composta por uma máquina [1].

A máquina descrita por Babbage foi reconhecida como um primeiro modelo de computador e as notas de Ada como a descrição de um software, ainda que não tenha sido possível construir a máquina naquela época por restrições da tecnologia [2].

Mas as contribuições das mulheres na computação não pararam por ai. Na década 40, foi desenvolvido pelo exército um projeto ultrassecreto, o ENIAC. Depois da segunda guerra, foi divulgada a existência dessa máquina que é tida como o primeiro computador digital eletrônico de grande escala. O ENIAC foi criado pelos cientistas norte-americanos John Eckert e John Mauchly. Porém, uma parte dessa história foi obscura durante muitos anos: quem haveria programado esse máquina para computar trajetórias balísticas? Na década de 80, a pesquisadora Kathy Kleiman decide ir atrás de algumas pistas nesse sentido e descobre que o ENIAC havia sido programado por seis matemáticas mulheres. Seus nomes eram: Betty Jean Jennings, Ruth Lichterman, Kathleen McNulty, Betty Snyder, Marlyn Wescoff e Fran Bilas [3].

Elas foram escolhidas entre um grupo de 100 mulheres que trabalhavam na Universidade da Pensilvânia calculando manualmente as equações diferenciais necessárias para as trajetórias balísticas durante a guerra [3]. O exército chamava a função destas mulheres de “computers” ou computadoras (em uma tradução livre, já que esse termo não existe com a flexão feminina na língua portuguesa).

O ENIAC era programado através da conexão de fios, relês e sequências de chaves para que se determinasse a tarefa a ser executada. Havia milhares de chaves, podendo cada uma delas assumir o valor 1 ou 0 conforme estivessem ligadas ou desligadas. [4] A cada tarefa diferente o processo deveria ser refeito. A resposta dos cálculos era dada por uma sequência de lâmpadas.

Essas mulheres não tinham permissão de ver o ENIAC por ele ser um projeto secreto, mas mesmo assim elas o programaram. E para fazer isso, tiverem que estudar os diagramas esquemáticos da máquina e entender como ela poderia ser programada, isso em uma época que não existiam livros que se ensinasse a programar. Ao fazer isso elas fundaram as bases para os programadores e engenheiros de software do futuro [3].

Mas elas não pararam por ai. Após esse projeto, Jean liderou a equipe que transformou o ENIAC em um dos primeiros computadores eletrônicos com memória de armazenamento do mundo. Já Betty continuou trabalhando na computação ao longo de toda a sua vida profissional, sendo uma pioneira na área ao desenvolver o primeiro conjunto de instruções de máquina, a primeira rotina de ordenação e a primeira aplicação de software [3].

Apesar do papel pioneiro dessas mulheres como primeiras programadoras da computação moderna, elas foram reconhecidas tardiamente pelo que fizeram, sendo que a maioria tinha cerca de 70 anos. Elas receberam prêmios da IEEE Computer Society, do Museu da História da Computação, da associação Women in Technology International e outras organizações [3].

As programadoras do ENIAC foram seguidas por várias mulheres pioneiras na área da ciência da computação, mas essa é uma das áreas em que a representatividade das mulheres ainda é muito baixa. Segundo Moreiras et al (2014), apenas 20,1% dos alunos do curso de Ciência da Computação no Brasil são mulheres. Que essas mulheres da história possam servir de inspiração para as novas gerações, mostrando que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive programando!

Bibliografia

[1] Rolka, G. M. 100 Mulheres que Mudaram a História do Mundo. Editora Nova Fronteira, 2004.

[3] http://eniacprogrammers.org/

[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/ENIAC

[5] Moreiras, J. A. et al. Um Panorama da Presença Feminina na Ciência da Computação. 18º REDOR, 2014. Disponível em: < http://www.ufpb.br/evento/lti/ocs/index.php/18redor/18redor/paper/viewFile/1935/853 >.