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Vacina contra o Ebola: perspectivas para populações africanas

 

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Créditos da Imagem: UNMEER (CC BY 2.0)

Há mais de 40 anos o vírus Ebola tem assolado populações africanas, e nos últimos 20 anos pesquisas têm tentado produzir uma vacina capaz de erradicar este vírus. O Ebola é um vírus do gênero Filovirus, descoberto em 1976, em uma região próxima ao rio Ebola.

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Chimpanzé. Crédito da imagem: Wikipedia, Thomas Lersch (Licença: CCBY 2.5). 

Os hospedeiros naturais deste vírus são os morcegos frugívoros, ou seja, aqueles que se alimentam de frutos com a capacidade de dispersar as sementes, portanto podemos classificar esta doença como uma zoonose. No entanto, este vírus já foi isolado de grandes primatas, como gorilas e chimpanzés, e também de animais herbívoros, como os antílopes. 

 

 

A transmissão deste vírus para os humanos pode ocorrer através dos animais infectados, devido ao contato com sangue e fluidos corporais, como a saliva, suor, urina e fezes. Uma vez que a transmissão ocorre nos humanos através de animais, as pessoas podem contrair este vírus entre si pelo contato direto, uso de seringas e até depois da morte do hospedeiro. Estudos também mostram que o vírus persiste no sêmen de homens que tenham sobrevivido, se fazendo ainda mais necessário o uso da camisinha feminina e masculina. As diferentes formas de transmissão e a persistência do vírus no organismo dificultam o seu tratamento. 

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O vírus Ebola. Créditos da Imagem: CDC.gov; Public Health Image Library

Uma vez contraído, o período de incubação tem uma duração de 2 a 21 dias e após este período ocorrem sintomas no paciente como: febre, dor de cabeça, fraqueza muscular, dor de garganta e articulações, calafrios, diarreia com sangue, erupção cutânea, olhos vermelhos. Por fim, no estágio final da doença ocorre hemorragia interna, sangramento nos olhos, ouvidos, nariz e reto, danos cerebrais e perda de consciência. 

Em relação a pesquisas sobre vacinas, estudos mostram que de 12 possíveis vacinas, quatro foram capazes de iniciar a fase II de testes clínicos e, somente uma, completou a fase III (para saber mais sobre ensaios clínicos, clique aqui). No dia 21 de maio de 2018 começaram a aplicar uma campanha de vacinação experimental contra o vírus na República Democrática do Congo, no entanto no dia 1º de agosto daquele ano foi declarada uma epidemia de Ebola no mesmo país que, até então, não foi controlada.

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Epidemiologista realizando um teste rápido para diagnóstico de Ebola. Créditos da Imagem: CDC.gov; Public Health Image Library; John Saindon

De acordo com a associação dos Médicos sem Fronteiras, em 8 meses foram relatados mais de mil casos com um desdobramento de mil novos casos em dois meses (abril e junho de 2019). 

A questão que fica é: será que a vacina é tão eficaz quanto se pensava?

Vacinação

Créditos da imagem: NIAID (CC BY 2.0)

Os estudos e os testes clínicos comprovaram que a vacina contra o Ebola, denominada rVSV-EBOV, é eficaz e segura para os humanos e tem sido utilizada para o controle da epidemia de Ebola tanto na República Democrática do Congo como em Uganda. O tempo de resposta imune desta vacina ainda é uma incógnita pelo motivo de somente existir 90 amostragens com o período de dois anos, marcado como o início da vacinação em humanos. No entanto, é sabido que nestes dois anos as 90 pessoas que receberam a vacina ainda estão imunes ao vírus. Além disso, a vacina rVSV-EBOV tem funcionado bem como estratégia emergencial de controle da doença. 

Então porque será que as epidemias continuam ocorrendo?

Campanhas de vacinação são necessárias para a proteção imunológica das populações. Quanto maior o número de vacinações, maior proteção para aquelas que ainda não se vacinaram, criando ‘regiões de imunidade’ em locais onde há casos de Ebola. No entanto, questões políticas e regionais têm uma influência direta na imunização das pessoas. No caso da República do Congo, existem cerca de 20 grupos insurgentes que geram violência na área, desencorajando pessoas a serem encaminhadas aos Centros de Tratamento de Ebola, interrompendo campanhas de vacinação e promoção da saúde comunitária e enterros seguros. Além disso, há a relutância das comunidades da região de se vacinarem. Até quando as populações africanas continuarão a mercê desta doença mesmo com a possibilidade de sua erradicação? Ações como as da Organização Mundial de Saúde e do Médicos sem Fronteiras são imprescindíveis para o controle da doença.

Referências:

– Drauzio Varella: https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/ebola/

– Cohen J. Ebola outbreak continues despite powerful vaccine: WHO declines again to call it a global health emergency. Science. 2019, 364: 223. http://science.sciencemag.org/content/364/6437/223.

– Marzi A, Mire CE. Current Ebola Virus Vaccine Progress. Biodrugs. 2019. https://doi.org/10.1007/s40259-018-0329-7

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Cientistas preveem spillover de vírus de mamíferos selvagens para seres humanos

A maioria das doenças virais que acarretam os seres humanos envolvem patógenos inicialmente transmitidos por outros animais – doenças chamadas de zoonoses.

Zoonoses virais, como o HIV e o Ebola, são doenças de grande importância, pois podem causar consequências devastadoras em populações humanas. Porém, até o momento, entender os fatores que conduzem a diversidade viral em mamíferos, possibilidades de hospedeiros e transmissão de vírus entre outras espécies de mamíferos, consiste em uma verdadeira dificuldade para os pesquisadores.

Por esse motivo, o pesquisador Kevin J. Olival e  seus colaboradores da ONG EcoHealth Alliance, sediada nos Estados Unidos, criaram e analisaram um banco de dados de vírus associados a mamíferos, incluindo 754 espécies de mamíferos (14% da diversidade global de mamíferos) e 586 espécies virais. Os autores usaram esses dados para testar hipóteses nos determinantes de todas as espécies de vírus albergadas (riqueza viral) pelas espécies de mamíferos e compartilhamento de vírus entre mamíferos selvagens e humanos.

Primeiramente, os autores identificaram fatores que influenciam a riqueza viral total – o número de espécies virais em um dado hospedeiro, incluindo aqueles que possuem o potencial de infectar humanos. A seguir, os autores identificaram os caracteres ecológicos, filogenéticos e da história de vida que fazem de algumas espécies de mamíferos mais prováveis de serem hospedeiras de zoonoses que outras. E por último, reconheceram que nem todos os vírus de mamíferos teriam a capacidade biológica de infectar humanos, por isso, identificaram caracteres virais que aumentam a probabilidade do vírus ser zoonótico.

Os resultados encontrados pelos autores mostraram que morcegos, primatas e roedores tiveram maior proporção de vírus zoonóticos observados. Isso indica que os animais desses grupos são alvos importantes para descoberta de vírus na vida selvagem.

O risco de transmissão viral zoonótica, ou spillover¹, provavelmente varia entre espécies hospedeiras, devido a diferenças na população viral, oportunidade de contato com seres humanos e à propensão em exibir sintomas clínicos.

Segundo os autores do estudo, morcegos são hospedeiros de uma proporção significante de zoonoses, mais do que qualquer outro mamífero e apresentam um grande risco de spillover de vírus para os seres humanos. De acordo com a publicação, diversos estudos prévios propuseram que os morcegos são hospedeiros reservatórios de várias zoonoses emergentes, como por exemplo, SARS e Ebola.

Os autores também defendem que a proporção de vírus zoonótico por espécies é maior em hospedeiros selvagens que são filogeneticamente próximos aos humanos, como por exemplo, os primatas e que essa relação é significante.

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Morcego da espécie Platyrrhinus lineatus. Foto: Marco Mello.

Os pesquisadores extrapolaram seus modelos para tentar prever o número de vírus que seriam encontrados por hospedeiro em dadas regiões. Primeiramente, consideraram que todos os hospedeiros foram submetidos a grandes esforços de pesquisa e, a seguir, subtraíram esse número pelo número de vírus já conhecido para cada hospedeiro. Essa abordagem permitiu a predição de espécies e regiões que são mais prováveis de albergar zoonoses, como por exemplo, morcegos na América do Sul (Figura 1).

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Figura 1. Distribuição Global do número previsto de “zoonoses perdidas” transmitidas por morcegos. doi:10.1038/nature22975

Muito mais estudos laboratoriais e de campo precisam ser realizados para confirmação desses resultados, porém este artigo levanta uma importante discussão sobre previsão de zoonoses e regiões onde possuem a maior capacidade de ocorrência (destacando que atenção deve ser dada a América do Sul). Nem todas as zoonoses causam pandemias², mas a grande maioria de pandemias que ocorrem são zoonoses e devem ser frequentemente estudadas.

  1. Spillover: quando uma população hospedeira reservatória com alta prevalência de patógenos entra em contato com uma nova população hospedeira.
  2. Pandemias: doença altamente disseminada.

Referências

Lloyd-Smith JO. Infectious diseases: Predictions of virus spillover across species. Nature. 2017 Jun 21;546(7660):603–4.

Olival KJ, Hosseini PR, Zambrana-Torrelio C, Ross N, Bogich TL, Daszak P. Host and viral traits predict zoonotic spillover from mammals. Nature. 2017 Jun 21;546(7660):646–50.