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A relação entre mulheres, economia e a pandemia de Covid-19.

Mulher com cartaz com um ponto de interrogação na frente do rosto. Crédito: Getty images.

O Brasil começou o ano de 2020 com indícios e fatos reverberantes sobre uma crise econômica crescente, marcada, entre outros fatores, por uma grande quantidade de pessoas desempregadas, mais de 12,9 milhões de pessoas, destas, quase 65% são mulheres (IBGE, 2020). A pandemia de covid-19 apenas expôs de forma mais nítida a carência social presente no país, bem como a importante participação das mulheres no enfrentamento dessa doença.

Não diferente do já observado no decorrer da trajetória social, o ser feminino carrega consigo uma “obrigação” em realizar inúmeras atividades para atender as demandas que este novo cenário requer. Diante de diversas ações a serem analisadas, que perpassam desde a vulnerabilidade econômica, a sobrecarga de trabalho doméstico e a exposição à violência, as mulheres estão no centro das atividades motriz de uma família.

As mulheres estão à frente da maior parte do trabalho doméstico, por vezes não remunerado; quando em home office devem conciliar o trabalho remunerado com as atividades de cuidado com a casa e família. Ademais, representam a maioria em algumas categorias profissionais informais (faxineiras e diaristas) e nos cuidados sanitários (áreas da saúde e assistência social), estando econômico e socialmente mais vulneráveis aos efeitos da pandemia. Devido essas especificidades que circundam o ser feminino, a Organização das Nações Unidas – ONU – Mulheres apontou a necessidade de políticas públicas com atenção às mulheres (ONU, 2020).

Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – nas últimas 07 décadas a participação das mulheres em idade ativa na força de trabalho passou de 13%, em 1950, para cerca 45%, em 2000, sendo crescente a participação feminina nas atividades economicamente remuneráveis nos últimos anos (IBGE, 2020). Ao observar esses dados, a participação masculina ainda é maior que a feminina, o que pode indicar uma dependência econômica das mulheres, principalmente nas populações mais pobres e, sobretudo quando se consideram as mulheres pretas e pardas.

Mãe e filha usam máscaras para se proteger contra o coronavírus em um centro de saúde em Adidjan, Costa do Marfim. Crédito: UNICEF/Frank Dejongh.

Quando se relaciona à covid-19 mais de 60% dos empregos considerados de grande risco são ocupados por mulheres (IBGE, 2020). Conforme a Organização Mundial de Saúde – OMS –, no mundo 70% dos trabalhadores da área da saúde e do terceiro setor (Associações e Entidades sem fins lucrativos) são mulheres (OMS, 2020). No Brasil, 85% dos empregos na enfermagem são ocupados por mulheres. Os profissionais e profissionais da saúde enfrentam além do risco de contaminação, um elevado grau de estresse acometido por esse novo vírus, que pode interferir em todas as suas relações sociais.

Profissional da saúde com semblante de esgotamento físico. Crédito: Wachter health care solutions.

A crise econômica do país tem atenuado a transição entre trabalho formal para informal, mais de 82% destes postos de trabalho foram ocupados por mulheres negras, principalmente no emprego doméstico, deste, cerca de 70% são trabalhadoras informais. Outro ponto que merece destaque é que mais de 45% dessas mulheres são responsáveis pelo sustento da família. A perda de rendimentos afetam filhos e dependentes, podendo levar famílias inteiras à miséria.

Há uma preocupação global com a violência doméstica no período de quarentena. A estimativa da OMS é que a cada três mulheres no mundo, uma sofre violência física ou sexual, e na maior parte dos casos, essa violência é cometida por alguém do seio familiar. Na pandemia, as mulheres estão mais sujeitas a violência e a decisão de ficar em casa para não se contaminar significa ficar a mercê do agressor (OMS, 2020).

Violência contra mulher. Crédito: Getty images.

Por outro lado, as mulheres que buscam empreender também sentem os efeitos da crise econômica. Segundo pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE – as empresárias possuem mais dificuldades em obter acesso a crédito que os empresários. A pesquisa apontou que as mulheres empresárias possuem média de escolaridade 16% superior que à dos homens, são mais modernas, ágeis e recorrem em menor proporção a financiamentos para prosseguir com as atividades empreendedoras, entretanto, são as mais afetadas pela pandemia, cerca de 50% dos negócios foram afetados temporariamente ou definitivamente (SEBRAE, 2020).

Mulher com máscara: coronavírus, Covid-19. Crédito: Goffkein.pro/Shutterstock.

Com a recomendação da OMS em manter o isolamento social, se faz necessário políticas públicas federais destinadas a essa população. Contudo, o que se verifica na realidade, são medidas que não conseguem alcançar toda a população que carece de ajuda financeira para conseguir passar por esse delicado período. Momentos como o atual, são mais difíceis para o gênero feminino, uma vez que mesmo quando as mulheres não fazem parte do grupo de risco, elas são do grupo que cuidam de pessoas.

Assim, a pandemia de covid-19 tem impactos diretos na saúde, na renda, nas relações familiares, na educação e nos serviços públicos. Essas áreas são mais ou menos sentidas conforme a renda, localização, sexo, raça e idade dos indivíduos. Sendo assim, se faz interessante que os governos pensem em respostas coerentes e responsáveis com as diversas situações e que ajam com veemência para reduzir o tamanho dos danos que podem ocorrer. Enquanto o novo normal não ocorre, o ser feminino continuará a ser resistência na manutenção de sua família e de sua renda.

Referências:

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/>. Acesso: 28 de maio de 2020.

OMS. Organização Mundial de Saúde. Disponível em: <https://www.who.int/eportuguese/countries/bra/pt/>. Acesso: 28 de maio de 2020.

ONU. Organização das Nações Unidas. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/>. Acesso: 28 de maio de 2020.

SEBRAE. Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas. Disponível em: <https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae>. Acesso: 28 de maio de 2020.

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Violência doméstica: Impactos na vida profissional de mulheres nordestinas

A data da entrega desse texto se aproximava, e eu estava fazendo o que sei fazer de melhor: procrastinando e pensando qual poderia ser o tema do texto. Eis que na televisão era transmitido o Jornal Hoje e uma das matérias me chamou a atenção. Um estudo recém-publicado pela Universidade Federal do Ceará em conjunto com o Instituto Maria da Penha, apontava o impacto da violência doméstica na vida profissional das mulheres nordestinas. O assunto chamou atenção não apenas por seu ineditismo, mas também por ser publicado no mês em que a Lei Maria da Penha completa 11 anos. Ano passado, publicamos aqui no blog um texto sobre o impacto e a importância da lei para a defesa dos direitos das mulheres. E nunca é demais falar sobre uma lei que impactou fortemente a vida das mulheres no Brasil e tem transformado a maneira como lidamos com esse tipo de violência, seja por meio de conversas e debates mais amplos pela sociedade, ou das denúncias.

Chamada de “Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica Familiar contra a Mulher” (PCSVDFmulher), ela teve como objetivo principal obter dados nacionais sobre a violência doméstica e as inter-relações entre contexto econômico e social que possam refletir sobre a violência de gênero. Em um primeiro momento, entende-se que o empoderamento da mulher ajude a diminuir a violência, uma vez que ela se torna independente financeiramente, o que permite que ela possa sair de casa se descontente com a relação. O que tem sido observado, é que quando esse empoderamento subverte normas culturais e estereótipos de gênero, a incidência de violência aumenta. Portanto, é natural pensar então que a violência possa ter um impacto negativo no mercado de trabalho, interferindo na capacidade laboral das mulheres e na manutenção do emprego. Como apresentado na Figura 1, essa relação entre violência doméstica e mercado de trabalho é bastante complexa, incluindo diferentes variáveis, e pode também levar em conta as consequências a curto e longo prazo.

Mercado de trabalho e violência doméstica

Tendo como base a Lei Maria da Penha, o estudo levou em conta as violências física, emocional e sexual. Das mulheres entrevistadas, 3 em cada 10 relatam ter sofrido pelo menos um episódio de violência em sua vida e 1 em cada 10 relata ter sido vítima nos últimos 12 meses, sendo que os parceiros atuais ou mais recentes são os perpetradores. Devido às sequelas físicas e/ou emocionais ocasionadas, são perdidos em média 18 dias de trabalho por ano. A massa salarial perdida, somente para a região nordeste é de R$ 64,4 milhões, extrapolando a mesma média para todo o país, temos um prejuízo de R$ 975 milhões, sem contar os gastos previdenciários e dos serviços de saúde. Outro ponto alarmante revelado pelo estudo, é que mulheres que sofreram violência nos últimos 12 meses, permanecem menos tempo no emprego quando comparadas àquelas que não foram violentadas.

Então aqui temos dois impactos importantes na vida profissional da mulher: a redução de sua produtividade imediata devido às faltas, e histórico de trabalho inconsistente, alternando curtos períodos de emprego com longos períodos de desemprego. Nesse ponto entramos em um círculo vicioso, em que a violência dificulta a manutenção do emprego, ao mesmo tempo em que estar empregada pode gerar maior violência por parte de seu parceiro.

É assustador pensar que o número de mulheres que sofrem de violência doméstica pode ser ainda maior que o observado nesse estudo, devido à recusa da vítima em denunciar o perpetrador. Essa recusa perpassa pela culpabilização da vítima e também por crenças morais e religiosas por parte dos envolvidos. Quantas vezes não ouvimos justificativas para a violência “ela deve ter provocado”, “mas eles são casados, ninguém tem nada com isso”, “certeza que ela mereceu”.

Onze anos após a promulgação da lei, esse estudo nos mostra que os impactos da violência doméstica são ainda mais amplos e complexos, influenciando de maneira direta as diferenças de gênero, perpetuação da pobreza e a desigualdade no país. Muito foi conquistado, mas é importante e necessário que continuemos na luta para não perdermos nossos direitos, de maneira a garantir que nenhuma mulher seja violentada.

 

Para saber mais sobre o Instituto Maria da Penha e sobre o estudo:

http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/

http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/documentos/relatorio.pdf

http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/documentos/relatorio_v06.pdf

Dúvidas frequentes sobre a LMP: http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/index.php/duvidas-frequentes-sobre-a-lei-11-340-06