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O dia em que a Terra parou: crises e oportunidades para pensar a vida na atualidade

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Acervo pessoal

Há alguns meses, dificilmente imaginaríamos a situação de confinamento que estamos vivendo hoje. Naquele momento, o COVID-19 era algo que estava no radar, mas ainda bem distante, sendo mais um problema internacional, do que algo que poderia trazer as drásticas mudanças vivenciadas atualmente. No dia 11 de março de 2020, a OMS define que estamos numa pandemia do novo coronavírus, anunciando a extensão e a gravidade do que estaria por vir. A velocidade de disseminação da doença acaba coincidindo com as transformações acarretadas na vida de todas as brasileiras nas últimas semanas. A maior parte dos estados brasileiros decretou o “distanciamento social”, recomendando que as pessoas deixassem de circular livremente e proibindo aglomerações. Todos os serviços considerados não essenciais pararam de funcionar e eventos coletivos foram adiados ou cancelados.

Do ponto de vista prático, cada pessoa teve seu cotidiano diretamente impactado em todas as suas esferas: trabalho, educação e vida social para resumir os principais eixos. As instituições tiveram que se adaptar à necessidade de reclusão populacional imposta para diminuir o contágio e evitar o colapso dos serviços de saúde. Home office e aulas online passaram a ser a rotina de muitas famílias brasileiras, estabelecendo um arranjo familiar nunca visto antes. Nesse sentido, torna-se difícil vislumbrar quais serão as consequências psicossociais dessa nova dinâmica de vida, no entanto, fica fácil perceber que não sairemos os mesmos dessa pandemia.

Pensando nas relações pessoais, fortes desafios estão sendo colocados para as famílias, diante da imposição de uma convivência intensa e prolongada restrita à rotina domiciliar. Um fator que não pode deixar de ser mencionado, se refere à ausência de trabalhadoras domésticas nas casas das classes média e alta, exigindo que as famílias se organizem nessa gestão cotidiana. Trata-se de uma excelente oportunidade para construir uma divisão de tarefas domésticas e cuidado com os filhos mais igualitária e justa, a partir da inclusão dos homens, redefinindo esses papéis sociais e problematizando questões de gênero tão silenciadas no mundo doméstico.

Para dar conta dessas diversas mudanças, uma série de dicas, manuais, recomendações e orientações brotaram no mundo virtual com o objetivo de apaziguar as dificuldades que advém de uma situação de confinamento. Ansiedade, depressão e síndrome do pânico estão entre os principais quadros de saúde mental que têm assolado as sociedades contemporâneas. Para profissionais de saúde, é interessante conhecer o guia de saúde mental da OMS para emergências humanitárias que foi recentemente traduzido para o português pela sua contribuição no manejo de casos, especialmente em contextos difíceis como essa pandemia do coronavírus. Diante desse contexto, especialistas do campo da saúde mental avaliam que essa situação de confinamento é preocupante e deve ser a atenção devida, considerando que aproximadamente 4,5 bilhões de pessoas estão nessa condição. As indefinições não apenas sobre quando se encerrará o confinamento, mas sobretudo a impossibilidade de vislumbrar as consequências pós-pandemia e as inseguranças a que todas estamos submetidas são aspectos importantes que afetam diretamente nossas vidas e também nossa saúde mental.

Sabemos que uma coisa é desejar ficar em casa, outra coisa completamente distinta é ser obrigada a ficar em casa. Dizendo de modo mais enfático: não poder sair de casa. Essa “pequena” diferença pode se tornar um fator extremamente estressor e/ou ansiogênico para muitas pessoas. O que podemos afirmar é que essa conjuntura de confinamento acentua dificuldades e conflitos preexistentes, ou seja, uma pessoa ansiosa tende a ficar mais ansiosa; um indivíduo hipocondríaco tem uma propensão a agravar seus sintomas; uma situação de violência de gênero apresenta uma probabilidade de piora e assim por diante. No Rio de Janeiro, nos primeiros dias de confinamento, verificou-se o aumento de 50% de casos de violência doméstica, representando aproximadamente 70% da demanda de plantão da Justiça nessa localidade. Preocupado com essa situação, o Estado de São Paulo está viabilizando que ocorrências de violência doméstica possam ser relatadas diretamente no site da Polícia Civil, divulgando também um passo a passo de como fazer a denúncia.

Vale ressaltar que uma tendência não significa uma profecia, ou melhor dizendo, poder agravar não quer dizer necessariamente que irá agravar. Diversas outras variáveis estão em jogo nessa dinâmica, podendo resultar em diferentes cenários. A capacidade das pessoas em lidar com adversidades, o livre arbítrio e as redes de apoio são fundamentais nessa complexa matemática da vida cotidiana.

O psicanalista Christian Dunker, em recente entrevista, falando sobre as reações das pessoas diante da pandemia, compreendeu existir três grandes grupos de pessoas: os “tolos” que negam a situação e seguem sua vida como se nada houvesse; os “desesperados” que ficam reféns do contexto e se sentem completamente impotentes e os “confusos”, que oscilam entre os dois primeiros. Talvez seja o momento de construirmos o quarto grupo como sendo aquele que consegue reconhecer a gravidade da conjuntura sem se deixar paralisar e, ao mesmo tempo, é capaz de extrair possibilidades diante de tamanha adversidade.

Fazendo uma alusão ao clássico de Raul Seixas, podemos aproveitar esse momento em que a Terra parou para perceber a vida que levamos e o que, de fato, desejamos dessa vida que levamos. Além das fortes e abruptas restrições impostas, fica evidente como literalmente tivemos que parar, algo impensável em contextos neoliberais comandados pelos imperativos de lucro e produtividade. Os modelos usuais de trabalho, educação, consumo, lazer e meio ambiente já estão sendo repensados nessas poucas semanas de confinamento mundial, começando a incomodar o sistema socioeconômico vigente. Os elementos para pensarmos uma organização social distinta da atual já estão se colocando no cenário, possibilitando a adoção de uma nova forma de vida.

Nesse sentido, podemos olhar essa situação como um convite para perceber essa crise, na perspectiva oriental, ou seja, crise não apenas como uma situação difícil, mas também como oportunidade. Assim, fica a reflexão: já que fomos obrigadas a parar, o que realmente importa?

Referências:

OMS afirma que COVID-19 é agora caracterizada como pandemia. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6120:oms-afirma-que-covid-19-e-agora-caracterizada-como-pandemia&Itemid=812. Acesso em 15 mar 2020.

Manejo Clínico de Condições Mentais, Neurológicas e por Uso de Substâncias em Emergências Humanitárias. Guia de Intervenção Humanitária mhGAP (GIH-mhGAP). Disponível em: https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/51948/9789275722121-por.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em 2 abr 2020.

Especialistas pedem mais atenção à saúde mental por confinamento. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/afp/2020/04/19/especialistas-pedem-mais-atencao-a-saude-mental-por-confinamento.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 19 abr 2020.

Violência doméstica cresce 50% na quarentena do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/03/24/violencia-domestica-rj-quarentena.htm. Acesso em 19 abr 2020.

Passo a passo para você registrar ocorrência de violência doméstica e familiar contra a mulher. Disponível em https://api.tjsp.jus.br/Handlers/Handler/FileFetch.ashx?codigo=119216. Acesso em 19 abr 2020.

Christian Dunker: a pandemia no divã. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-52160230. Acesso em: 7 abr 2020.

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“É claro que a vida é boa…Mas acontece que eu sou triste* ”: Como nosso corpo funciona durante a depressão.

Todo mundo já teve ou conhece alguém que teve uma experiência com ela: a depressão. Esse mal que pode atingir qualquer um, sem aviso nem piedade, já acomete mais de 300 milhões de pessoas e mata 800 mil pessoas por ano no mundo todo segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Estima-se que em Portugal, por exemplo, na ocasião da maior crise político-econômica do país, em 2011, o número de casos de depressão disparou (1). Alguns especialistas acreditam que a atual crise brasileira possa, num futuro próximo, causar um aumento expressivo dos números dos casos desta doença aqui no Brasil (2).

O diagnóstico da depressão está sempre envolto pela nevoa da doença mental e esse é um dos principais motivos da falha do tratamento: o paciente quer um remédio, mas não quer fazer a psicoterapia. Mas o quão eficazes são os antidepressivos? Como uma doença que não se mede por exames de sangue ou de imagem pode ser tratada farmacologicamente? Antes de falarmos como a doença é controlada, vamos voltar um pouco e comparar como funciona o corpo de uma pessoa saudável com uma com depressão.

Recentemente falamos aqui no blog sobre como a microbiota intestinal interfere no comportamento das pessoas. Um dos fatores que controla essa relação é a serotonina. Esta pequena notável é um neurotransmissor, ou seja, uma substância que atua no cérebro regulando funções como ciclo sono-vigília, humor, memória, entre outras atividades. Apesar de ser essencial no cérebro, 95% de sua produção acontece no intestino, daí a relação microbiota e comportamento. Depois de sua produção no intestino, a serotonina entra na corrente sanguínea e circula até alcançar receptores na membrana do neurônio onde ela, juntamente com a noradrenalina, pode desempenhar suas funções. Caso exista serotonina não utilizada pelos neurônios, ela é recaptada por moléculas transportadoras e degradadas para posterior eliminação. Quando esse sistema funciona, temos uma pessoa saudável.

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No entanto, fatores genéticos, biológicos e/ou psicossociais podem desregular esse sistema e levar a quadros de alteração comportamental, incluindo a depressão (4). Ora, se a falha pode acontecer em vários lugares (ao mesmo tempo ou não) e os médicos não sabem onde é o defeito, como os antidepressivos funcionam?

Pois é, antidepressivo não é um assunto trivial. Imagine todas as questões éticas envolvidas em testar um medicamento para uma doença que pode levar a morte. A primeira geração de antidepressivos foi identificada por acaso na década de 1950 quando médicos observaram que alguns anti-histamínicos causavam alterações de humor. Com o aumento do conhecimento do sistema serotoninérgico, a segunda geração foi especialmente sintetizada para “encaixar” nas moléculas recaptadoras e inibi-las, deixando a serotonina disponível para atuar nos neurônios (inibidores de recaptação de serotonina, ou SSRI, do inglês “selective serotonin reuptake inhibitors”)(3). Entretanto, apesar de amplamente utilizados, não existe um consenso na comunidade médica sobre a eficácia dos antidepressivos. Entre as várias razões para o descrédito dessa classe de medicamento está a condução de estudos com poucos pacientes, somente um ou dois medicamentos são comparados por vez, e existe um alto índice de abandono do tratamento já que antidepressivos demoram a fazer efeito.

Para tentar esclarecer se os antidepressivos são, afinal de contas, eficazes, vários grupos de pesquisadores de diversas universidades da Europa, Estados Unidos e Japão, lançaram mão de uma ferramenta simples, mas muito eficaz. Os autores, ao invés de submeter pacientes a testes, revisitaram toda a literatura médico-científica que fala sobre o tratamento com os 21 antidepressivos mais utilizados. Os autores identificaram quase 30 mil publicações sobre o assunto e puderam comparar os dados de pouco mais de 87 mil pacientes. Caso esses mesmos pesquisadores tivessem feito os estudos de eficácia, nunca teriam tantos pacientes! A partir das análises desses dados, os autores verificaram que todos os antidepressivos eram mais eficazes quando comparados com o grupo placebo. No entanto, 5 antidepressivos se destacaram pois eram os que tinham menor taxa de abandono de tratamento e maior eficácia quando comparado aos outros 16 estudados. Entre os 5 que se destacaram, havia 4 de segunda geração e 1 de terceira geração (que inibe a recaptação da serotonina e de noradrenalina). Além disso, eles observaram que fatores como a idade influenciam na eficácia do medicamento: medicamentos eficazes em adultos não reproduziam o mesmo efeito em crianças e adolescentes.

Esse estudo traz segurança à comunidade médica na hora do atendimento ao paciente, mas a depressão deve ser encarada de forma mais ampla. A própria OMS preparou um plano de ação até 2020 onde recomenda acolhimento dos doentes, mas, principalmente, preza pela prevenção. Realização de atividades físicas regularmente, investimento em autoconhecimento e inserção de práticas diárias que tragam bem estar são exercícios que não só previnem o aparecimento da depressão como devem ser usados junto do tratamento com antidepressivo. E como fala um dos vídeos educativos da OMS, “não tenha vergonha de pedir ajuda, tenha vergonha de não aproveitar a vida”.

http://www.who.int/mental_health/management/depression/en/

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Setembro Amarelo: é preciso falar sobre

O mês de Setembro destaca-se para salientar a luta pela prevenção do suicídio. No Brasil, essa organização acontece desde 2014 e envolveu três Instituições precursoras nesse trabalho: o Centro de Valorização da Vida, o Conselho Federal de Medicina e a Associação Brasileira de Psiquiatria.

Por que essa é uma temática relevante?

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De acordo com dados da OMS de 2015, mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio, ocorrendo uma morte por esse meio a cada 40 segundos. Em nosso país, são 32 mortes por suicídio por dia.

Ultrapassando os limites dos dados quantitativos, vale ressaltar a importância de refletir sobre os fatores que levam ao suicídio. O modo de organização da sociedade voltado para produção tende a influenciar e contribuir para o aumento da incidência de casos. Esse tema é uma questão de saúde pública, de educação, de organização do trabalho, em uma construção intersetorial  e de diálogo em políticas públicas para o bem estar social.

Nas redes sociais, é possível acompanhar campanhas que carregam o teor do Setembro Amarelo e que motivam pessoas a se disponibilizarem individualmente para participarem do processo de cuidado das pessoas em sofrimento psíquico.  De fato, quanto mais pudermos fortalecer nossas redes de afeto, mais estaremos lutando contra a lógica individualista que impera. Todavia, mais do que estarmos disponíveis pessoalmente, podemos compartilhar e ampliar conhecimentos acerca  da Rede de Saúde Mental, que está apta a prestar cuidado em um olhar amplo  e interdisciplinar.

Como buscar ajuda pelo SUS?

Como já foi detalhado em outra postagem, o SUS é organizado em Redes e territorialmente. Isso quer dizer que toda pessoa residente no Brasil possui uma equipe de referência para um cuidado específico. O local que é a porta de entrada para o sistema, é a Unidade Básica de Saúde (o postinho de saúde) mais próxima da casa do munícipe. A pessoa pode passar em acolhimento na unidade e, caso demande um cuidado considerado de atenção especializada, será encaminhada para o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

Os CAPS são porta aberta. Dessa forma, qualquer pessoa pode ser acolhida em um CAPS, sem agendar horário de atendimento e sem necessariamente precisar passar pela UBS. Em casos de sofrimento intenso, pode-se recorrer a um CAPS, que sempre deve ter uma equipe interdisciplinar disponível para acolhimento.

Além disso, o Centro de Valorização da Vida (CVV), que é uma organização sem fins lucrativos, oferece atendimento gratuito online via chat, skype, e-mail e também pelo telefone: 141.

Sigamos unidas e unidos nessa luta  por Saúde Mental a todas e todos.

Saiba mais:

Site de atendimento do Centro de Valorização da Vida (CVV), onde você pode se informar melhor sobre as especificidades de atendimento da sua cidade:

http://www.cvv.org.br/

Caso você seja munícipe de São Paulo, pode pesquisar qual a UBS ou CAPS mais proximos de sua casa por esse site, colocando seu endereço:

http://buscasaude.prefeitura.sp.gov.br/

Para os municípios que não possuem esse recurso, basta procurar a UBS (postinho) mais próximo da sua casa e os profisisonais podem dar maiores informações quanto ao cuidado em Saúde Mental.

Universidades em São Paulo que prestam atendimento psicológico:

Pontifica Universidade Católica- PUC

tel: 38626070. e-mail: www.pucsp.br/clinica

Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU):

tel: 3040 3400 ramal 2316.  e-mail: triagem.psico@fmu.br

Universidade Mackenzie

tel: 32566827 e-mail: ccbs.clinicapsicologica@mackenzie.br

Universidade de Santo Amaro (UNISA)

tel: 21418870  e-mail: clinicadapsicologia@unisa.br

Centro de Psicologia Aplicada (CENPA) da Universidade São Judas Tadeu

tel: 27991831 27991943 e-mail: cenpa@usjt.br

Universidade Bandeirantes de São Paulo (UNIBAN):

Campus: São Bernardo do Campo, Campo Limpo, Morumbi, Osasco e Vila Guilherme.

Universidade Paulista (UNIP):

Campus: Alphaville, Cantareira, Chácara Santo Antonio, Poméia, Tatuapé e Vergueiro.

Universidade Brás Cubas Mogi das Cruzes

tel: 47902241/ 47918240

Universidade de Guarulhos

tel: 24641676

Fontes:

Ilustração: Mariana Reis

Setembro Amarelo:

http://www.setembroamarelo.org.br/

Relatório OMS: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/131056/1/9789241564779_eng.pdf?ua=1&ua=1