0

Tal pai, tal filho: como a ciência pode auxiliar na formação de hábitos alimentares

Ter e manter hábitos alimentares saudáveis constituem um dos principais desafios atuais em meio às facilidades do mundo moderno. Os comportamentos e as preferências alimentares individuais são determinadas na infância e têm implicações para o ganho de peso e a saúde ao longo da vida. O que as crianças comem é de grande importância; no entanto, o modo como os pais alimentam seus filhos influencia muito os tipos de alimentos que eles consomem e a quantidade de alimentos que comem na hora das refeições. A literatura científica sobre o assunto apoia a influência dos pais sobre a socialização e o desenvolvimento de comportamentos alimentares infantis, mas a ligação entre a comportamento/alimentação dos pais e das crianças com o ganho de peso na infância, bem como a melhor abordagem a ser utilizada não é clara.

Crianças brincam em escola na cidade de Nookat, no Quirguistão. Foto: OCHA/Eurasia Foundation of Central Asia, T. Jeanneret
A obesidade infantil é considerada uma epidemia mundial pela Organização das Nações Unidas (2).

Uma revisão publicada na revista Current Nutrition Reports em 2018 pelos pesquisadores Hughes & Papaioannou objetivou responder a essas questões e traçar recomendações para os profissionais de saúde e cuidadores, e assim promover um ambiente protetor contra a obesidade infantil (1), considerada uma epidemia global pela Organização Mundial da Saúde (2). Os autores reuniram vários estudos publicados a respeito dos hábitos alimentares das famílias e sua relação com o peso e identificaram diferentes tipos de relação pais/alimentação na literatura científica: 1) práticas de alimentação destinadas a fazer com que as crianças façam algo específico, como comer seus vegetais, 2) estilos de alimentação caracterizados por uma atitude mais geral dos pais sobre seus filhos quando socializam os comportamentos alimentares da família, e 3) estilos parentais gerais que englobam comportamentos parentais que influenciam o desenvolvimento geral das crianças. A partir daí, os autores estratificaram os tipos de abordagem e sintetizaram os resultados em três grupos:

1) Práticas de alimentação parental: referem-se às estratégias específicas adotadas para controlar o que as crianças consomem. Incluem restrições, pressão para comer certos tipos de alimentos e a monitorização (os pais estão cientes de quantos lanches e alimentos ricos em gordura são comidos pelas crianças). Os estudos analisados pelos autores mostraram que a restrição foi relacionada ao aumento da preferência da criança pelos alimentos “proibidos”, maior peso corporal, maior consumo na ausência de fome e maior desinibição emocional (comer em resposta a sugestões externas). Por outro lado, a prática de pressionar a criança a comer foi associada a menor peso em diversos estudos transversais. Desta forma, o impacto de como as práticas restritivas afetam o estado nutricional da criança ao longo do tempo permanece a ser esclarecida. Para iluminar essa questão, os autores concluem que a resposta à restrição parece ser diferente de acordo com o contexto, sendo importante considerar os fatores específicos da criança. Por exemplo, os pais que têm filhos com menores índices de massa corporal ou que são mais exigentes na hora de comer podem ter maior probabilidade de usar comportamentos de pressão na tentativa de garantir que a criança consuma alimentos suficientes. Sobre a monitorização, os resultados são inconsistentes, não ficando claro seu benefício. Os autores concluem que práticas parentais restritivas, tipicamente usadas mais cedo na vida de uma criança, podem evoluir para o uso de mais autonomia à medida que as crianças crescem e exercem mais controle sobre suas próprias escolhas alimentares.

2) Estilos de alimentação: referem-se à atitude geral e emocional que pais criam com o filho durante a refeição. Incluem a quantidade de controle que os pais exercem durante as refeições, e a sensibilidade, calor humano, e aceitação que os pais mostram em resposta às necessidades individuais da criança no contexto alimentar. Os estudos mostraram que o estilo de alimentação autoritário (caracterizado pelo controle dos pais mas centrado na criança por meio de demandas nutricionais razoáveis, bem como sensibilidade em relação às necessidades da criança) tem sido associado aos melhores resultados na saúde infantil. Os caminhos pelos quais essa associação surge podem ser a melhor qualidade dos alimentos servidos e consumidos, menor consumo de lanches energéticos e disponibilidade domiciliar de frutas e legumes. Por outro lado, as crianças de pais indulgentes (com falta de regras e limites – criança determina a ingestão alimentar) consomem alimentos com pior qualidade alimentar e exibem comportamentos alimentares problemáticos, além de apresentarem maior peso. Assim, tanto o alto quanto o baixo controle na alimentação é um fator de risco para a obesidade infantil.

3) Estilos parentais gerais: referem-se à atitude e abordagem que os pais empregam para criar seus filhos dentro da família e da sociedade. Os estilos parentais são medidos ao longo de duas dimensões: exigência e responsividade. Exigência na literatura parental geral é definida como a expectativa dos pais, a supervisão e os esforços disciplinares para promover o comportamento adequado ao desenvolvimento em crianças. A receptividade é definida como o grau em que os pais estimulam a individualidade, a autorregulação e a auto-afirmação por serem familiares, apoiadores e aceitarem as necessidades e demandas das crianças. Os pais são categorizados em um dos quatro estilos parentais gerais: 1) aqueles com estilo parental geral autoritário (alta exigência / alta responsividade) se envolvem com seus filhos, fazem demandas maduras, promovem autonomia apropriada e respeitam as diferenças individuais; 2) aqueles com estilo de parentalidade geral autoritário (alta exigência / baixa responsividade) usam comportamentos de poder assertivo com seus filhos e se envolvem em controles e demandas estritos; 3) aqueles com estilo parental geral indulgente (baixa exigência / alta capacidade de resposta) demonstram cordialidade e aceitação, no entanto, carecem de comportamentos adequados de monitoramento necessários para o desenvolvimento infantil; 4) aqueles com estilo parental geral não envolvido (baixa exigência / baixa responsividade) fazem poucas exigências aos seus filhos e mostram pouco envolvimento. A revisão apontou que a parentalidade autoritária está associada a resultados mais positivos para as crianças nos campos acadêmicos, socioemocional e de saúde. Pais com estilo mais autoritário têm crianças que consomem mais frutas e vegetais, menos gorduras e açúcares.

Com isso, os autores concluíram que os pais devem ser sensíveis às necessidades individuais de seu filho ao estabelecer limites no ambiente de alimentação, evitar restringir abertamente os alimentos ou pressionar as crianças a comer. Práticas que são proativas (que antecipem o comportamento da criança), e não reativas (em resposta ao comportamento da criança), maximizam os resultados positivos. Essas práticas benéficas podem ser adotadas por todas as pessoas em contato com as crianças, gerando assim um ambiente propício à alimentação saudável, ao peso saudável e aos comportamentos a serem estimulados durante toda a vida da criança.

Referências do texto e imagem:

  1. Hughes SO & Papaioannou MA. Maternal Predictors of Child Dietary Behaviors and Weight Status. Current Nutrition Reports, 2018.
  2. https://nacoesunidas.org/oms-lanca-novas-diretrizes-de-combate-a-obesidade-infantil-no-mundo/, acesso em 3 de abril de 2019.


Anúncios
0

Microbioma e aleitamento materno: como esses universos se encontram?

Na primeira semana do mês de agosto comemora-se a Semana Mundial do Aleitamento Materno, considerada como veículo para promoção da amamentação. No Brasil é coordenada pelo Ministério da Saúde, que adapta o tema proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS) à realidade brasileira, elabora e distribui materiais educativos. A ação se estende por todo o mês e envolve serviços de saúde, escolas, empresas e organizações não governamentais, como a Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar, com o objetivo de incentivar o aleitamento materno por meio de campanhas de empoderamento da mulher e divulgação da importância do leite materno (LM) para a proteção da criança. O Brasil é considerado referência mundial com a maior média de tempo aleitamento materno, como você pode ler nessa matéria do blog.

O leite humano (LH) é considerado a fonte ótima de nutrientes para o bebê, fornecendo água, proteínas, gorduras, carboidratos, vitaminas e minerais que proporcionam o seu crescimento ótimo. Além disso, o LH contém outros fatores não nutrientes que trazem muitos benefícios para a saúde, desenvolvimento e bem-estar infantis e maternos. Entre esses fatores, destaca-se o perfil de bactérias, chamado microbioma. Estima-se que o leite produzido por uma mulher saudável possa conter mais de 200 tipos de comunidades bacterianas e que metade dessa população de bactérias parece ser personalizada e pode ser modificada pelo ambiente em que ela está inserida(1). Um estudo publicado em junho de 2017 no JAMA Pediatrics sugeriu que as bactérias transferidas das mães para os filhos podem ser, pelo menos parcialmente, responsáveis pelos benefícios à saúde do bebê trazidos pelo aleitamento materno(2).

Os pesquisadores estudaram 107 pares de mães e bebês e compararam as bactérias presentes na pele dos seios das mulheres e no LM com aquelas presentes nas fezes dos bebês. A partir das fezes, os pesquisadores determinaram que tipos de bactérias compunham o microbioma do intestino infantil. Embora tenham encontrado tipos distintos de bactérias no leite, na pele e nas fezes dos bebês, foi descoberto que o microbioma intestinal dos bebês combinavam muito mais com as bactérias no leite e na pele de suas mães do que com amostras de outras mulheres do estudo. Isso sugere que o leite de cada mãe foi um dos maiores contribuintes para o microbioma do intestino de seu próprio filho.

Os resultados mostraram ainda que durante os primeiros 30 dias de vida, os bebês que receberam 75% ou mais de sua nutrição pelo LM apresentaram cerca de 28% de suas bactérias intestinais compatíveis com aquelas presentes no LM. Esses bebês também receberam cerca de 10% de suas bactérias intestinais da pele das mães e 62% de outras fontes. A maior diversidade bacteriana e a mudança na composição do microbioma intestinal dos bebês foram associados com a proporção de LM ingerido por dia mesmo depois da introdução de alimentos sólidos. Nos lactentes que receberam a maior parte da nutrição por meio do aleitamento materno exclusivo, as comunidades microbianas foram ligeiramente mais diversificadas em relação ao número de espécies encontradas em comparação com bebês que foram menos amamentados(2).

Apesar de os autores do trabalho do JAMA Pediatrics não terem avaliado os efeitos do microbioma sobre a saúde das crianças, os autores destacaram que foram capazes de mostrar que existem sim bactérias específicas no LM e que essas bactérias podem ser encontradas também no intestino dos bebês, um assunto controverso até o momento. O estudo fornece evidência de que o microbioma do LH é um mecanismo pelo qual o aleitamento materno fornece benefícios.

ago 2017

Tipo de aleitamento influencia o perfil de bactérias intestinais de bebês.

 

É importante ressaltar que apesar de conhecermos os inúmeros benefícios do leite materno, ainda boa parte das mulheres não conseguem fazê-lo ou o fazem por tempo inferior ao recomendado pela OMS*. Com exceção das mulheres impossibilitadas de amamentar, sabe-se que muitas mulheres fazem o desmame precoce por falta de informação ou incentivo para continuar a amamentação. Estudos realizado no Brasil mostraram que os principais motivos para interromper o aleitamento materno foi a informação de “leite fraco” ou “leite secou”, trabalho fora de casa e interferências externas, como crenças e tabus passados pela família e orientação médica(3,4). Para saber mais sobre o desmame, há um outro texto publicado no blog. O sucesso na amamentação é o resultado de interações sociais complexas e qualquer estratégia de êxito deve ser orientada para o empoderamento da mãe. Portanto, os profissionais de saúde e a comunidade devem aprender e repassar toda informação que incentive a prática do aleitamento, considerando ainda as necessidades e preferências da mulher, bem como seu sistema de valores.

 

* Recomenda-se aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida e como complemento da alimentação até dois anos de idade ou mais.

 

1) Bode L, McGuire M, Rodriguez JM, Geddes DT, Hassiotou F, Hartmann PE, McGuire MK. It’s alive: microbes and cells in human milk and their potential benefits to mother and infant. Adv Nutr. 2014 Sep;5(5):571-3.

2) Pannaraj PS, Li F, Cerini C, Bender JM, Yang S, Rollie A, et al. Association Between Breast Milk Bacterial Communities and Establishment and Development of the Infant Gut Microbiome. JAMA Pediatr. JAMA Pediatr. 2017 Jul 1;171(7):647-654. doi: 10.1001/jamapediatrics.2017.0378.

3)Escobar, Ana Maria de Ulhôa et al. Aleitamento materno e condições socioeconômico-culturais: fatores que levam ao desmame precoce. Rev. Bras. Saude Mater. Infant. [online]. 2002, vol.2, n.3 [citado  2017-08-22], pp.253-261. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-38292002000300006&lng=pt&nrm=iso&gt;. ISSN 1806-9304.  http://dx.doi.org/10.1590/S1519-38292002000300006.

4) Araujo, Olívia Dias de et al. Aleitamento materno: fatores que levam ao desmame precoce. Rev. bras. enferm. [online]. 2008, vol.61, n.4 [cited  2017-08-22], pp.488-492. Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672008000400015&lng=en&nrm=iso&gt;. ISSN 0034-7167.  http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672008000400015.

5) Figura: https://www.scienceandsensibility.org/p/bl/et/blogid=2&blogaid=734