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Traídas pela genética: contraceptivos hormonais não funcionam em todas as mulheres

Mulher na gente do espelho (Girl before Mirror) de Pablo Picasso (1932). Retirado de http://www.moma.org. © 2019 Estate of Pablo Picasso / Artists Rights Society (ARS), New York

Quando as pílulas contraceptivas femininas foram lançadas nos anos 60, uma onda de alívio e liberdade se espalhou. Finalmente as mulheres teriam autonomia em decidir se e quando engravidar.  Essa lua de mel não durou muito já que rapidamente as mulheres começaram a sentir os efeitos colaterais dessa revolução. Aqui mesmo nós já falamos dos problemas de saúde que podem ser causados pelos métodos hormonais contraceptivos. Não demorou para levantarem a questão sobre o porquê de só as mulheres terem que ser responsáveis por evitar a gravidez. Vários trabalhos foram feitos para criar métodos hormonais contraceptivos masculinos, mas os efeitos colaterais observados, que não eram diferentes dos observados em mulheres, fez com que o lançamento deste método fosse adiado (leia mais sobre esse assunto aqui no blog). Volta a batata quente para as mulheres, que com a ajuda da ciência grita um sonoro: Contraceptivo hormonal não funciona em todas as mulheres!!! Essa foi a conclusão de um estudo realizado numa parceria do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia com o Departamento de Ciências Farmacêuticas da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos. Para ficar mais fácil entender a conclusão do estudo, vamos relembrar como funcionam os anticoncepcionais hormonais, especificamente os de baixa dosagem como as pílulas e os implantes. Esse método de contracepção se baseia em manter altos os níveis de progesterona e, com isso, impedir a ovulação.

O grupo liderado pela Dra Stephanie Teal analisou 350 mulheres de várias etnias e identificou alterações genéticas nas enzimas CYP3A7 responsáveis pelo metabolismo de medicamentos e hormônios. Essas modificações não causam nenhum problema de saúde, mas elas podem ser responsáveis por metabolizar um medicamento mais rápido do que as pessoas sem essas alterações e isso sim pode ser um problema. Já foi mostrado que indivíduos com essa alteração respondem pior à quimioterapia pois o medicamento é metabolizado antes de poder fazer efeito nas células cancerígenas. Baseados nesses fatos, a equipe da Dra Stephanie se perguntou se, além da quimioterapia, essa alteração genética poderia alterar o efeito anticoncepcional de implantes de baixa dosagem de progesterona, hipótese que acabou sendo comprovada pelo grupo. Eles mostraram que as alterações genéticas levam algumas mulheres a metabolizar os hormônios de forma mais rápida a ponto de eles não estarem mais disponíveis para controlar o ciclo menstrual e, assim, não conseguirem suprimir a ovulação. É importante mencionar que também foram avaliadas questões como índice de massa corporal e tempo do implante, mas que nenhuma destas duas variáveis reduziu tanto a disponibilidade de progesterona quanto a variação genética. Além disso, esse estudo foi todo feito com implantes, mas resta a dúvida: podemos extrapolar os resultados para as pílulas e dispositivos intrauterinos? A resposta é não. Não porque não aconteça, mas simplesmente porque não foi estudando (ainda!!) pela ciência. Mas considerando a forma como esses métodos contraceptivos funcionam, provavelmente as alterações genéticas em CYP3A7 reduzem os níveis de progesterona abaixo do recomendado para evitar a ovulação.

Esse tipo de dado não deve ser visto como um tipo de derrota, mas sim com esperança. Se antes desconfiava-se sobre “se” e “como” a mulher realmente tinha tentado evitar a gravidez, com esse estudo fica claro que essa não é uma área de sim-ou-não, mas de muitos ”talvezes” no meio. Esse estudo deixa mais claro como alterações genéticas silenciosas, como a estudada aqui, devem ser levadas em consideração para cuidar da saúde da mulher e do planejamento familiar.

Referências

https://journals.lww.com/greenjournal/Abstract/2019/04000/Influence_of_Genetic_Variants_on_Steady_State.27.aspx

https://brasilescola.uol.com.br/biologia/anticoncepcionais.htm

https://www.nexojornal.com.br/explicado/2017/09/15/P%C3%ADlula-anticoncepcional-da-revolu%C3%A7%C3%A3o-sexual-%C3%A0-revis%C3%A3o-de-seu-uso

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Contraceptivos hormonais, trombose e depressão. Quais são os riscos comprovados cientificamente?

Muitas pessoas já viram diversos relatos e notícias na web sobre casos de trombose e depressão sendo associados à utilização de contraceptivos hormonais. Porém, às vezes é difícil entender se realmente esses efeitos são pontuais ou de maiores proporções na população. Além disso, entender toda a relação de causa e efeito com a grande quantidade de fatores ligados a essas doenças é complicado. Por isso, hoje nós trazemos os últimos dados relacionados a esses temas para contribuir com algumas informações.

O lançamento da pílula anticoncepcional hormonal, no início dos anos 60, significou um grande passo para a emancipação da mulher com a opção de decidir quando e quantos filhos gerar. Porém, apesar dessas vantagens, há alguns anos ela passou a ser vista de forma desconfiada pelo público por conta dos seus efeitos colaterais e possíveis riscos de desenvolvimento de doenças.

Os contraceptivos hormonais orais normalmente contém uma combinação de estrogênio e progesterona, ou apenas progesterona, e regulam a fertilidade de forma segura, eficaz e reversível. Desde a regulamentação da primeira pílula, as fórmulas utilizadas foram constantemente modificadas para reduzir os riscos de efeitos cardiovasculares adversos e de tromboembolismo [1].

O tromboembolismo pode ocorrer nas veias ou artérias do corpo e se dá pela coagulação do sangue nesses vasos, podendo ter causas diversas. Esse coágulo, chamado de trombo, pode se aderir na parede dos vasos causando muitos sintomas, constituindo assim a trombose.

coágulo

Figura 1. Ilustração de um coágulo dentro de um vaso saguíneo (Fonte: Ferrerincode)

Grande parte dos estudos em larga escala presentes na literatura até hoje foram realizados na Europa e nos Estados Unidos, isso restringe um pouco a extrapolação dos dados para outros países e populações, como o Brasil, mas ao mesmo tempo nos auxilia com informações fisiológicas importantes relacionadas ao uso desses fármacos.

Esses estudos mostram que a presença do estrogênio chamado de etinilestradiol nas pílulas hormonais é o fator que mais se relaciona com o aumento do risco de desenvolvimento de trombose nas mulheres, comparado aos outros compostos analisados. Em números, mulheres que utilizam esse composto específico na pílula possuem 4 vezes mais chances de riscos de trombose do que não usuárias de contraceptivos hormonais [1, 2].

Um estudo com seis milhões de mulheres francesas mostrou que existe uma correlação entre a dose de etinilestradiol utilizada e os efeitos de embolia pulmonar, AVC e infarto do miocárdio. Ou seja, mulheres que utilizavam menores doses de etinilestradiol eram menos propensas a desenvolverem os efeitos citados, justificando a recomendação de baixas doses do composto nos medicamentos comercializados. Aparentemente o etinilestradiol causa alterações na produção das proteínas do fígado e pode promover ligeiras alterações nas vias relacionadas a coagulação sanguínea, independentemente da via de administração utilizada [2].

Outro estudo, realizado com nove milhões de dinamarquesas que faziam uso de contraceptivos hormonais não orais, mostrou que a taxa de trombose aumentou 7,5 vezes para mulheres que utilizavam adesivos hormonais, 6,5 vezes para mulheres que usavam anéis vaginais e 1,4 para implantes subcutâneos, comparada a mulheres que não faziam uso de contraceptivos hormonais. Entretanto, a taxa de trombose não aumentou para mulheres que utilizavam o dispositivo intra uterino (DIU) hormonal a base de levonorgestrel, que é um tipo de progesterona sintética [3].

anticoncepcionais hormonais

Figura 2. Métodos contraceptivos. 1. Pílula, 2. Implante subcutâneo, 3. Diafragma*, 4. Injeção, 5. Anel vaginal, 6. Adesivo dérmico, 7. DIU hormonal (Fonte: Bruno Marçal/ Saúde Abril, com adaptações). *Não é um método contraceptivo hormonal.

Sobre as relações dos anticoncepcionais com a depressão, sabe-se que os índices de depressão em mulheres são duas vezes maiores do que em homens [4] e diversos estudos tentam entender esses motivos, sendo que os contraceptivos hormonais são constantemente apontados como uma das possíveis causas.

A revisão mais recente sobre o tema foi publicada em janeiro de 2018, com a síntese dos 26 principais trabalhos publicados sobre anticoncepcionais e depressão. Segundo a revisão, os resultados ainda não são conclusivos para afirmar uma associação de anticoncepcionais com a depressão, devido à grande variação entre as conclusões encontradas nos estudos, o tamanho das populações analisadas, a validação e randomização dos dados [5].

Sabemos que a ciência, que até pouco tempo atrás era majoritariamente realizada por homens, tende a negligenciar alguns assuntos de importância extrema para a saúde da mulher. Hoje, milhões de mulheres utilizam anticoncepcionais hormonais no mundo. Nesse sentido, mais estudos são necessários para entender todas as relações entre os contraceptivos hormonais e a saúde das mulheres. Por fim, é importante lembrar que para decidir sobre o uso de qualquer medicamento é necessário sempre consultar um profissional de saúde que deve basear-se no histórico, idade, condições de saúde de cada mulher para prescrever o melhor contraceptivo.

Para saber mais:

A Organização Mundial da Saúde fez uma cartilha que auxilia os profissionais de saúde a selecionarem apropriadamente o melhor método contraceptivo para cada mulher de acordo com cada estágio da vida reprodutiva e condições de risco. E aqui, no Cientistas Feministas, existem dois ótimos textos sobre contraceptivos hormonais para homens e sobre depressão. Vale a pena conferir.

 

Referências:

  1. Heit, J.A., Spencer, F.A., White, R.H. The epidemiology of venous thromboembolism. J Thromb Thrombolysis, 41, 3–14, 2016.
  2. Sitruk-Ware, R. Hormonal contraception and thrombosis. Fertility and Sterility, 106(6), 1289-1294, 2016.
  3. Lidegaard, O., Nielsen, L.H., Skovlund, C.W., Løkkegaard, E. Venous thrombosis in users of non-oral hormonal contraception: follow-up study, Denmark 2001-10. BJM, 344, e2990, 2012.
  4. Skovlund, C.W., Mørch, L.S., Kessing, L.V., Lidegaard, Ø. Association of Hormonal Contraception With Depression. JAMA Psychiatry. 73(11), 1154-1162, 2016.
  5. Worly, B.L., Gur, T.L., Schaffir, J. The relationship between progestin hormonal contraception and depression: a systematic review. Contraception. S0010-7824(18)30032-5, 2018.
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Microbioma e aleitamento materno: como esses universos se encontram?

Na primeira semana do mês de agosto comemora-se a Semana Mundial do Aleitamento Materno, considerada como veículo para promoção da amamentação. No Brasil é coordenada pelo Ministério da Saúde, que adapta o tema proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS) à realidade brasileira, elabora e distribui materiais educativos. A ação se estende por todo o mês e envolve serviços de saúde, escolas, empresas e organizações não governamentais, como a Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar, com o objetivo de incentivar o aleitamento materno por meio de campanhas de empoderamento da mulher e divulgação da importância do leite materno (LM) para a proteção da criança. O Brasil é considerado referência mundial com a maior média de tempo aleitamento materno, como você pode ler nessa matéria do blog.

O leite humano (LH) é considerado a fonte ótima de nutrientes para o bebê, fornecendo água, proteínas, gorduras, carboidratos, vitaminas e minerais que proporcionam o seu crescimento ótimo. Além disso, o LH contém outros fatores não nutrientes que trazem muitos benefícios para a saúde, desenvolvimento e bem-estar infantis e maternos. Entre esses fatores, destaca-se o perfil de bactérias, chamado microbioma. Estima-se que o leite produzido por uma mulher saudável possa conter mais de 200 tipos de comunidades bacterianas e que metade dessa população de bactérias parece ser personalizada e pode ser modificada pelo ambiente em que ela está inserida(1). Um estudo publicado em junho de 2017 no JAMA Pediatrics sugeriu que as bactérias transferidas das mães para os filhos podem ser, pelo menos parcialmente, responsáveis pelos benefícios à saúde do bebê trazidos pelo aleitamento materno(2).

Os pesquisadores estudaram 107 pares de mães e bebês e compararam as bactérias presentes na pele dos seios das mulheres e no LM com aquelas presentes nas fezes dos bebês. A partir das fezes, os pesquisadores determinaram que tipos de bactérias compunham o microbioma do intestino infantil. Embora tenham encontrado tipos distintos de bactérias no leite, na pele e nas fezes dos bebês, foi descoberto que o microbioma intestinal dos bebês combinavam muito mais com as bactérias no leite e na pele de suas mães do que com amostras de outras mulheres do estudo. Isso sugere que o leite de cada mãe foi um dos maiores contribuintes para o microbioma do intestino de seu próprio filho.

Os resultados mostraram ainda que durante os primeiros 30 dias de vida, os bebês que receberam 75% ou mais de sua nutrição pelo LM apresentaram cerca de 28% de suas bactérias intestinais compatíveis com aquelas presentes no LM. Esses bebês também receberam cerca de 10% de suas bactérias intestinais da pele das mães e 62% de outras fontes. A maior diversidade bacteriana e a mudança na composição do microbioma intestinal dos bebês foram associados com a proporção de LM ingerido por dia mesmo depois da introdução de alimentos sólidos. Nos lactentes que receberam a maior parte da nutrição por meio do aleitamento materno exclusivo, as comunidades microbianas foram ligeiramente mais diversificadas em relação ao número de espécies encontradas em comparação com bebês que foram menos amamentados(2).

Apesar de os autores do trabalho do JAMA Pediatrics não terem avaliado os efeitos do microbioma sobre a saúde das crianças, os autores destacaram que foram capazes de mostrar que existem sim bactérias específicas no LM e que essas bactérias podem ser encontradas também no intestino dos bebês, um assunto controverso até o momento. O estudo fornece evidência de que o microbioma do LH é um mecanismo pelo qual o aleitamento materno fornece benefícios.

ago 2017

Tipo de aleitamento influencia o perfil de bactérias intestinais de bebês.

 

É importante ressaltar que apesar de conhecermos os inúmeros benefícios do leite materno, ainda boa parte das mulheres não conseguem fazê-lo ou o fazem por tempo inferior ao recomendado pela OMS*. Com exceção das mulheres impossibilitadas de amamentar, sabe-se que muitas mulheres fazem o desmame precoce por falta de informação ou incentivo para continuar a amamentação. Estudos realizado no Brasil mostraram que os principais motivos para interromper o aleitamento materno foi a informação de “leite fraco” ou “leite secou”, trabalho fora de casa e interferências externas, como crenças e tabus passados pela família e orientação médica(3,4). Para saber mais sobre o desmame, há um outro texto publicado no blog. O sucesso na amamentação é o resultado de interações sociais complexas e qualquer estratégia de êxito deve ser orientada para o empoderamento da mãe. Portanto, os profissionais de saúde e a comunidade devem aprender e repassar toda informação que incentive a prática do aleitamento, considerando ainda as necessidades e preferências da mulher, bem como seu sistema de valores.

 

* Recomenda-se aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida e como complemento da alimentação até dois anos de idade ou mais.

 

1) Bode L, McGuire M, Rodriguez JM, Geddes DT, Hassiotou F, Hartmann PE, McGuire MK. It’s alive: microbes and cells in human milk and their potential benefits to mother and infant. Adv Nutr. 2014 Sep;5(5):571-3.

2) Pannaraj PS, Li F, Cerini C, Bender JM, Yang S, Rollie A, et al. Association Between Breast Milk Bacterial Communities and Establishment and Development of the Infant Gut Microbiome. JAMA Pediatr. JAMA Pediatr. 2017 Jul 1;171(7):647-654. doi: 10.1001/jamapediatrics.2017.0378.

3)Escobar, Ana Maria de Ulhôa et al. Aleitamento materno e condições socioeconômico-culturais: fatores que levam ao desmame precoce. Rev. Bras. Saude Mater. Infant. [online]. 2002, vol.2, n.3 [citado  2017-08-22], pp.253-261. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-38292002000300006&lng=pt&nrm=iso&gt;. ISSN 1806-9304.  http://dx.doi.org/10.1590/S1519-38292002000300006.

4) Araujo, Olívia Dias de et al. Aleitamento materno: fatores que levam ao desmame precoce. Rev. bras. enferm. [online]. 2008, vol.61, n.4 [cited  2017-08-22], pp.488-492. Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672008000400015&lng=en&nrm=iso&gt;. ISSN 0034-7167.  http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672008000400015.

5) Figura: https://www.scienceandsensibility.org/p/bl/et/blogid=2&blogaid=734

 

 

 

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Primavera feminista latino-americana

Buenos Aires, Argentina, junho 2015; São Paulo, Brasil, outubro 2015; Cidade do México, abril 2016; Lima, Peru, agosto 2016—em diversos cantos da América Latina as mulheres estão tomando as ruas para gritar em um coro uníssono: basta!

Você com certeza já leu algo sobre os novos movimentos de mulheres no Brasil que clamam pela igualdade de gênero, pelo fim da violência contra a mulher, pelo direito à escolha. Talvez aqui mesmo no blog, onde publicamos textos sobre a maravilinda hashtag “Meu Amigo Secreto” e, mais recentemente, sobre diversos relatos de abusos machistas que muitas de nós sofremos. Desde que fomos às ruas no ano passado para dizer um categórico “não” ao projeto de lei 5069, de autoria de um ex-deputado deveras questionável cujo nome prefiro nem mencionar, nós, brasileiras, ganhamos novo fôlego para reagir a uma agenda política conservadora que pretende ditar regras sobre nossos corpos e nosso comportamento (homis, cês são tudo bem vindo no rolê, mas vou tomar a liberdade de falar de irmã pra irmã aqui, belê? Não se sintam excluídos não, a gente gosta quando vocês vêm pra somar, mas a gente está construindo sororidade). Inúmeras iniciativas surgiram para dar vazão ao nosso descontentamento com a cultura machista do país, à nossa revolta frente a crimes hediondos de violência contra a mulher e às nossas demandas por políticas públicas que respeitem e protejam nossa vida e nossa saúde.

Mas não é apenas no Brasil que as mulheres têm protagonizado movimentos feministas de rua: nossas hermanas latino-americanas também estão gritando por mais direitos, mais respeito, e menos violência. Essas demandas não são novas—movimentos feministas articulados existem no continente desde, pelo menos, os anos 1960,  e em muitos casos desempenharam inclusive um papel importante na luta contra os regimes autoritários da época.[1] Há também iniciativas transnacionais como o Encuentro Feminista Latinoamericano y del Caribe, que desde 1981 promove eventos bi-anuais para discutir a situação da mulher nos vários países da região.[2] Ainda assim, é possível falar em uma primavera feminista latino-americana. O que distingue o momento atual das décadas anteriores é a sincronicidade entre manifestações feministas de massa ao redor da América Latina e o fato de responderem a casos específicos de violência contra a mulher. Para que isso fique mais claro, vejamos abaixo um resumo das causas que têm nos levado a protestar.

 Por que vamos às ruas?

*Estupro e outras formas de assédio sexual. Os dados são reveladores—e chocantes. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (9ª edição, outubro 2015), a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Casos recentes e horripilantes de estupros coletivos deixaram essa realidade ainda mais escancarada.  No México, em média 40 mulheres sofrem abuso sexual por dia, e no Peru as autoridades chegam a registrar 53 denúncias diárias de crimes de violência sexual contra mulheres. Números como estes é que nos levam a falar de uma cultura do estupro no continente; isso quer dizer que atentados sexuais de gênero estão tão disseminados que fazem parte da realidade diária de milhares de mulheres, de Tijuana à Ushuaia. Toda mulher latina sabe que se sair de casa com um vestido em um dia quente de verão, vai ouvir pelo menos um assobio. Como sabe que, mesmo encapuzada em um dia frio de inverno, pode ouvir isso, ou mais. Relatos de assédios os mais variados abundam na rede, e ficaram ainda mais visíveis depois de campanhas como #meuprimeiroassédio (em Português) / #miprimeracoso (em Espanhol). E, francamente, nós estamos cansadas. Nós queremos liberdade plena para usar a roupa que quisermos sem que isso seja visto como um convite para cada membro do sexo oposto fazer um “elogio”, um comentário, ou dar aquela olhada que te deixa com a sensação de estar sendo observada em um raio-x. Não queremos que o decote da nossa blusa ou o tamanho da nossa saia levem a culpa se somos estupradas. Queremos poder ocupar os espaços públicos (as praças, os parques, os centros comunitários, os museus, O BUSÃO) sem ter medo de que nossa mera presença nestes lugares coloque nossa integridade ou nossa vida em risco. Queremos que o nosso “não” seja ouvido e respeitado.

*Feminicídio. Pra falar curto e grosso: nós vamos às ruas por que estão nos matando. No ano passado, na Argentina, após uma adolescente ter sido espancada até à morte pelo namorado e enterrada no quintal com a ajuda da família dele, milhares de pessoas saíram em marcha pelas ruas de Buenos Aires para denunciar o feminicídio no país. Segundo dados de uma ONG local, o país tinha registrado 277 casos de feminicídio no ano anterior ao protesto (2014). O movimento realizou nova passeata este ano, e a hashtag “Ni Uma Menos” teve repercussão no Chile, no Uruguai, e no Peru. No México, onde os dados sobre feminicídio são dos piores no mundo, multidões se uniram via redes sociais, com a hastag “Vivas Nos Queremos”, e tomaram as ruas no último 24 de abril para protestar contra o crime de gênero.

*Impunidade. Outro motivo pelo qual temos ocupado as ruas é que nossas denúncias não dão resultado. Superada a dificuldade tremenda que é reportar um crime de gênero (por vergonha, por falta de apoio, ou por falta de meios apropriados para tal), os resultados não são encorajadores: dos casos de violência sexual denunciados no Peru em 2011, 90% tiveram como resultado a absolvição do réu. Vou repetir: NOVENTA POR CENTO DOS CASOS DE VIOLÊNCIA SEXUAL DENUNCIADOS NÃO RESULTARAM EM PUNIÇÃO. As mexicanas que sofrem abusos sexuais também têm bastante dificuldade em ver suas denúncias como efetivas, já que, pelo menos até 2014, 26 entidades do país não puniam com a seriedade devida os crimes dessa natureza.

*Aborto. É inacreditável, mas em pleno 2016 o aborto ainda não é permitido na quase totalidade dos países latino-americanos. Com exceção do Uruguai, onde as mulheres podem decidir interromper a gravidez até a 12ª semana da gestação, e Cuba, primeiro a descriminalizar a prática (1979), via de regra as leis variam de limitadas (caso do Brasil e Argentina, por exemplo, onde até o momento o aborto é legalizado em casos de estupro ou de riscos à vida da gestante[3]) à bastante limitadas (como no Paraguai, onde o aborto apenas é permitido em caso de grave risco à saúde da gestante) ou até mesmo inexistentes (como no Chile, onde a prática ainda está totalmente proibida). Para além dos riscos que essas restrições impõem à saúde da mulher, já que a opção passa a ser  aborto ilegal e inseguro, o aborto legal é uma das bandeiras mais fortes do feminismo porque traz no seu cerne um dos pilares do movimento: o direito de escolher o próprio destino.

 Como estamos nos mobilizando?

Eu sei, o cenário é assustador. A realidade bruta é de deixar qualquer uma sem esperança, descrente na humanidade, revoltada, frustrada, com a dupla sensação de impotência e medo. Mas não precisa ser assim! Como eu disse antes, há um número cada vez maior de mulheres levantando a voz, expressando esses sentimentos, e se mobilizando. As mídias digitais têm sido um diferencial importante com relação aos movimentos anteriores. Hashtags, blogs, e outros fóruns na rede permitem que várias gerações de mulheres se articulem independente de uma estrutura fixa. Assim, feministas de carteirinha e jovens que nunca antes participaram de uma associação formal podem facilmente organizar passeatas, marchas, intervenções e abaixo-assinados.

Além das ruas, temos também ocupado outros espaços, como a imprensa, para que nossas vozes sejam ouvidas. Há poucos meses atrás, as peruanas se mobilizaram para deixar claro que as esterilizações forçadas de mais de 300 mil mulheres pelo governo do Fujimori não serão página virada da história, e a voz delas alcançou o mundo depois que o texto lindo da edição em Espanhol do NY Times foi traduzido. Revistas digitais como a mexicana La Que Arde, e blogs como o #AgoraÉQueSãoElas e esse nosso Cientistas Feministas também são uma ótima estratégia para ressaltar nossas demandas e oferecer uma perspectiva feminina e feminista sobre temas variados. Campanhas de consicentização que visam educar sobre questões de gênero e extirpar o machismo também vieram à tona nos últimos tempos, como o Chega de Fiu Fiu e o Guia Didático para o carnaval.

Em suma, se a realidade ainda é dura, uma coisa é certa: nós não vamos mais tolerar. As mulheres da América Latina dizem: Basta! E com isso semeamos essa primavera feminista, cujo resultado não serão apenas flores, mas mais direitos, igualdade, e respeito.

Notas

[1] Para o caso brasileiro, veja-se: SARTI, Cynthia A. “Feminismo e contexto: lições do caso brasileiro.” Cad. Pagu, Campinas, n. 16, p. 31-48, 2001. Disponível em http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332001000100003 Último acesso em 15 de set. 2016.

[2] Uma boa síntese dos primeiros anos do Encuentro pode ser vista em: STERNBACH, Nancy Saporta, Navarro-Aranguren Marysa, Chuchryk Patricia, and Alvarez Sonia E. “Feminisms in Latin America: From Bogotá to San Bernardo.” Signs vol. 17, n. 2, p. 393-434, 1992. http://www.jstor.org.proxy.library.vanderbilt.edu/stable/3174469. A 14 ª edição do evento deve ocorrer em novembro de 2017, no Uruguai. Mais detalhes na página do grupo no Facebook: https://www.facebook.com/14EFLACUruguay/

[3] No Brasil, além dessas duas exceções, a prática também é permitida no caso de má formação cerebral do feto, o que não ocorre na Argentina.

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Aleitamento materno: uma questão de saúde pública

agosto-dourado

O mês de agosto é conhecido como “Agosto Dourado”, dedicado à promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno. A data reforça a “Semana Mundial do Aleitamento”, uma campanha da Organização Mundial da Saúde existente há mais de vinte anos. No tema escolhido para a campanha, a cor dourada se refere ao padrão ouro de qualidade do leite materno. No mês passado, os serviços de saúde intensificaram suas ações educativas por meio de eventos e informativos (propaganda, cartazes, posts em rede sociais) com o objetivo de promover o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade e como complemento até o segundo ano de vida. Em 2016, o Ministério da Saúde (MS) foi além dos benefícios para a mãe e o bebê e destacou os aspectos econômicos e ecológicos do aleitamento materno: a fabricação de leites em pó ou longa vida utilizam energia, materiais para embalagem, combustível para a distribuição e água, além de produtos de limpeza tóxicos para o preparo diário [1].

No início deste ano a revista The Lancet publicou uma completa revisão sobre os padrões de amamentação no mundo, as consequências a curto e longo prazo pra mãe e criança e as estimativas de quantas vidas poderiam ser salvas se os índices de amamentação fossem ideais [2]. O artigo descreve que países de baixa renda apresentam as melhores taxas de amamentação em todas as idades quando comparados aos países de alta renda. Quando se dobra o PIB per capita, a prevalência de aleitamento aos doze meses decresce 10%.O estudo aponta também que em países mais ricos, mulheres com maior grau de escolaridade e maior renda amamentam por mais tempo. Nos países mais pobres, por outro lado, conforme há aumento da renda, são menores as taxas de amamentação e maior o uso de substitutos lácteos.

O Brasil foi citado como referência mundial, à frente dos Estados Unidos, Reino Unido e China: em 30 anos a média de aleitamento passou de dois meses e meio para 14 meses em nosso país. Apesar dos avanços, dados do MS descrevem que somente 41% das crianças recebem aleitamento materno exclusivo (somente leite materno) até os seis meses. O estudo do The Lancet aponta que a iniciação do aleitamento (recomendada na primeira hora de vida) e a exclusividade ainda tem índices insatisfatórios. Os avanços brasileiros são atribuídos à regulamentação da lei da amamentação, que limita a comercialização de substitutos do leite materno e incentiva a licença maternidade de 6 meses, além da atuação dos hospitais “Amigos da Criança” e dos Bancos de Leite Humano.

Além dos bem conhecidos benefícios do ponto de vista nutricional, os autores relatam menores taxas de infecções, menos má-oclusões dentais e maior inteligência em comparação tanto com as crianças amamentadas por períodos curtos como com as não amamentadas no peito, com índices que se refletem ainda na vida adulta. As evidências também sugerem que o aleitamento materno protege contra obesidade e diabetes nas demais fases da vida. Para as mães, amamentar previne câncer de mama, melhora o intervalo entre as gestações e pode reduzir o risco de diabetes e câncer de ovário. Os achados de estudos imunológicos, epigenéticos e de microbioma esclarecem que o aleitamento materno é um remédio personalizado para mãe e filho. O leite materno transmite elementos da microbiota e sistema imunológico da mãe e promove o crescimento de bactérias benéficas, independente do tipo de parto. O leite materno possui 8% de seu valor calórico total composto por oligossacarídeos específicos (do inglês, human milk oligosaccharides – HMOs) que não são digeridos e promovem uma resposta imunológica intestinal adequada. O estudo estima ainda que o aleitamento materno pode prevenir 823 mil mortes infantis e 20 mil mortes por câncer de mama por ano, e pode contribuir para alcançar a meta de reduzir a pobreza e melhorar a educação e a economia dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas [3].

A revisão compila informações valiosas sobre o aleitamento materno, e destaco aqui os avanços do aleitamento materno no nosso país. Entretanto, é inevitável refletir sobre os motivos do sucesso do aleitamento, muito além dos aspectos econômicos e de saúde. É necessário que a mulher se sinta segura e amparada nesta fase tão importante da vida. Claro que existem mulheres que não podem amamentar e cada caso deve ser avaliado. Mas muitas delas deixam de fazê-lo por crenças e tabus, como leite fraco, quantidade de leite produzido pela mãe e “peitos caídos”. Os profissionais de saúde devem instruir as mães nas dificuldades e a família deve dar o apoio emocional e incentivo para que a mulher não desista de seus objetivos. A sociedade também deve participar e não constranger ou condenar a mulher que amamenta em público. Avanços existem, mas ainda há muito a ser feito. Essa discussão renderia muitas postagens… Por enquanto, me arrisco a afirmar que a informação e o empoderamento das mulheres são as palavras-chave. Que tal passar essas informações pra frente e fazer sua parte?

 

  1. http://www.brasil.gov.br/saude/2016/08/governo-lanca-campanha-sobre-amamentacao-para-2016
  2. Cesar G Victora, Rajiv Bahl, Aluísio J D Barros, Giovanny V A França, Susan Horton, Julia Krasevec, Simon Murch, Mari Jeeva Sankar, Neff Walker, Nigel C Rollins. Breastfeeding in the 21st century: epidemiology, mechanisms, and lifelong effect. The Lancet, Volume 387, Issue 10017, 30 January–5 February 2016, Pages 475-490.
  3. http://www.un.org/sustainabledevelopment/sustainable-development-goals/

Figura: https://www1.mar.mil.br/saudenaval/aleitamento-materno-agosto-dourado

 

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Violência obstétrica e o viés racial

As mulheres sofrem violência tanto no parto, quanto na situação de abortamento. Mesmo as que dão “a luz” não estão salvas de serem violentadas institucionalmente. Porque na verdade o grande problema é o SER, mulher negra jovem de periferia, estas categorias sociais/identitárias definem ou ajudam muito na decisão do profissional de como serão tratadas as pessoas que acessam os serviços de saúde.

A violência obstétrica caracteriza-se pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso de medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda de autonomia e a capacidade de decidir sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vida das mulheres. Essa e a definição dada pelos Estados da Venezuela e da Argentina, onde a Violência Obstétrica é tipificada.  (Defensoria do Estado SP).828a7d0edf4e916f1971d08221068324

Segundo o Dossiê elaborado pela Rede Parto do Princípio para a CPMI da Violência Contra as Mulheres os atos caracterizadores da violência obstétrica são todos aqueles praticados contra a mulher no exercício de sua saúde sexual e reprodutiva, podendo ser cometidos por profissionais de saúde, servidores públicos, profissionais técnico-administrativos de instituições públicas e privadas, bem como civis.

A Pesquisa Nascer no Brasil, realizada em 2014, apresenta dados interessantes sobre as intervenções durante o parto em mulheres de risco obstétrico habitual e boas práticas e o que o estudo mostra é que a infusão de ocitocina e ruptura artificial da membrana amniótica foi uma técnica muito utilizada para provocar a aceleração do trabalho de parto. Ambas ocorreram em cerca de 40% das mulheres de risco habitual, sendo mais frequente nas mulheres do setor público, de mais baixa escolaridade.

São as mulheres negras que mais sofrem violência obstétrica, pois são as que mais peregrinam na hora do parto, ficaram mais tempo em espera para serem atendidas, tem menos tempo de consulta, estão submetidas a procedimentos dolorosos sem analgesia, estão em maior risco de morte materna. Cerca de 60% das mulheres que morrem de morte materna são negras. É importante ressaltar que a morte materna é considerada uma morte prevenível e que em 90% dos casos poderia ser evitada se as mulheres tivessem atendimento adequando.

Sobre a morte materna, enquanto não enfrentamos o racismo institucional nos serviços de saúde e garantir a equidade entre mulheres negras e brancas o Brasil continuará a ter a alta taxa de mortalidade (63,9/100 mil nascidos vivos – 2013), neste sentido é importante destacar que o Brasil não a alcançou a meta do Objetivo do Desenvolvimento do Milênio sobre saúde materna, que deveria chegar no máximo de 35 óbitos por 100 mil nascidos vivos até 2015, mas, se por acaso o Brasil fosse de mulheres brancas (35,6/100 mil nascidos vivos – 2013); (mulheres negras foram de 62,8/100 mil nascidos vivos) a meta teria sido alcançada.

Violência obstétrica, racismo institucional e morte: Caso Rafaela Santos

Rafaela Cristina Souza dos Santos tinha 15 anos, morreu de morte materna após dar à luz em uma maternidade no Rio de Janeiro, em 2015. Houve negligência no atendimento à adolescente, que ficou por mais de cinco horas no hospital, sem atendimento de médico, queixou-se de dor de cabeça, houve insistência no parto normal, quando apresentou quadro de eclampsia, fizeram a cesárea tardiamente e Rafaela foi a óbito.

O Dossiê revela que a eclâmpsia, pré-eclâmpsia e os distúrbios hipertensivos afetam muito mais a população negra, sendo as maiores causas da mortalidade materna da população negra. Apesar disso, o médico não poupou seu diagnóstico com base em preconceito racial e socioeconômico. O racismo dos profissionais de saúde atrasa a decisão da mulher de buscar assistência, dificulta o acesso da mulher ao serviço de saúde, dificulta o acesso da mulher ao tratamento adequado.

“Tinha que ser! Olha aí, pobre, preta, tatuada e drogada! Isso não é eclampsia, é droga!” fala atribuída ao anestesista que foi chamado durante a madrugada (plantão de sobreaviso) para atender a uma cesárea de emergência de uma gestante adolescente com eclampsia cujo parceiro estava preso por tráfico de drogas. Maternidade Pró-Matre, Vitória-ES (Fragmentos do Dossiê).

A violação dos Direitos Sexuais e Reprodutivos corresponde à limitação de oportunidades na vida das mulheres, tanto na esfera pública como na esfera privada – e também podem culminar, muitas vezes, na morte e na aquisição de agravos que poderiam ser evitadas.

A violência institucional, e neste caso tipificada pela violência obstétrica, prejudica o acesso das mulheres aos serviços de saúde, o que pode levar a morbimortalidade materna.

O espaço do cuidado e da assistência à saúde, assim como os seus profissionais, deveriam garantir minimamente que as mulheres tivessem os seus riscos de adoecer e morrer reduzidos, no entanto por conta de uma estrutura de sociedade opressora, desigual e preconceituosa coloca a vida das mulheres em risco a cada momento que elas entram nos serviços de saúde.

Fonte:

LEAL, Maria do Carmo et al. Intervenções obstétricas durante o trabalho de parto e parto em mulheres brasileiras de risco habitual. Cad. Saúde Pública [online]. 2014, vol.30, suppl.1

Parto do Princípio Mulheres em Rede pela Maternidade Ativa. Dossiê da Violência Obstétrica “Parirás com dor”. Dossiê elaborado para a CPMI da Violência Contra as Mulheres, Brasília, 2012.

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Impacto do zika vírus na vida das mulheres

Provavelmente trazido ao Brasil durante a Copa do Mundo de 2014 o zika vírus só teve os seus primeiros casos reportados pelos médicos brasileiros em fevereiro de 2015. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) cerca de 7.000 pacientes com sintomas característicos de zika vírus foram notificados entre fevereiro e abril de 2015, principalmente, na região Nordeste do país. Mas somente em outubro foi percebido o aumento significativo no número de crianças nascidas com microcefalia, bem como sua possível associação com a infecção por zika vírus. Em 1º de fevereiro de 2016 a OMS reconheceu a associação entre zika vírus e microcefalia como Emergência em Saúde Pública de Interesse Internacional.

As dificuldades presentes no Brasil que permitem que doenças transmitidas por mosquitos vetores continuem se espalhando se deve a falta de ações de controle adequadas e à vigilância epidemiológica deficiente. Além disso, a construção das cidades brasileiras aconteceu de forma acelerada e sem planejamento, levando a uma alta concentração de pessoas em grandes metrópoles, falta de saneamento básico e água tratada, culminando em rios poluídos que, na verdade, são esgotos a céu aberto. Além disso, no Brasil, ainda contamos com falta de informação à população. Todos esses fatores em conjunto são empecilhos para o controle dos mosquitos e inevitavelmente resultam no aumento da transmissão de doenças.

28_November_2015_AFonte: World Health Organization (WHO)

Segundo relatório da OMS publicado em 9 de maio de 2016 com atualizações sobre  zika vírus e sua associação com microcefalia, disponível aqui, são 1.551 casos confirmados de microcefalia associadas ao zika vírus no Brasil, sendo destes, 1.373 ocorridos na região Nordeste do País e os outros 178 distribuídos pelas regiões Sudeste, Norte, Centro-Oeste e Sul.  E é no Nordeste, uma das regiões mais pobres do Brasil, que a microcefalia foi percebida e ganhou destaque como importante epidemia. Doenças infecciosas transmitidas por mosquitos são mais comuns em locais pobres e negligenciados. Então, é provável que a maioria das mães que tiveram filhos com microcefalia sejam pobres ou carentes e não tenham condições de prover os cuidados e tratamentos necessários a essas crianças. O que nos leva a questionar quais serão as consequências dessa doença e qual seu impacto na vida das mulheres pobres.

É importante ressaltar que no Brasil sofremos com uma enorme desigualdade de classes sociais e, portanto, a população mais rica tem mais acesso a recursos de saúde do que a população mais pobre. Mulheres com maior poder aquisitivo realizam procedimentos obstétricos, como exames de pré-natal e fazem o acompanhamento de toda sua gravidez de forma mais prática e efetiva pelo simples fato de poderem pagar por isso. Já as mulheres pobres não conseguem realizar exames com tanta facilidade, pois além da falta de informação, ainda contam com um serviço de saúde pública precário e sucateado.

Desse modo, mulheres com maior poder aquisitivo descobrem precocemente se seus bebês possuem algum problema de saúde ainda nos primeiros meses da gravidez e podem decidir se querem abortar ou não, pois apesar de ser proibido no Brasil, o aborto é rotineiramente realizado em clínicas particulares de forma segura, o que não acontece com as mulheres pobres que acabam realizando o aborto clandestinamente, podendo acarretar sua morte. Segundo esse estudo, 1 em cada 5 mulheres brasileiras com mais de 40 anos já realizaram 1 ou mais abortos e destas 55% ficaram internadas por causa do procedimento.

A grande questão é: as mulheres devem ser obrigadas a terem filhos com microcefalia sem ter o mínimo de condições para dar o suporte que essa criança precisa?

Não obstante a todo sofrimento causado pela microcefalia toda a responsabilidade, inclusive a que cabe ao poder público, foi transferida às mulheres. Em nota oficial o governo divulgou o seguinte comunicado: “A melhor forma de evitar microcefalia é evitar engravidar”.

Se as políticas de saúde pública no Brasil não se tornarem mais efetivas e começarem a visar a real saúde da população mais carente, principalmente das mulheres, veremos um aumento na mortalidade de mulheres que realizam abortos clandestinos devido à epidemia de microcefalia. Pois a zika possui o potencial de se tornar uma doença endêmica no país, assim como a dengue, doença que causou 1,5 milhão de casos no ano de 2015.

Mais textos sobre o assunto:

http://blogs.plos.org/globalhealth/2016/02/zika-reproductive-rights-health/