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Mudanças climáticas potencializam a resistência a antibióticos

Que a resistência a antibióticos é uma questão preocupante, muita gente sabe. O tema vem sendo cada vez mais debatido em cúpulas de altas negociações e entre governos. No ano passado, a Organização das Nações Unidas (ONU) deu atenção especial à questão em sua 72ª Assembleia na sede da Organização, em Nova York. Afinal, um problema que causa a morte de 700 mil pessoas por ano atualmente – e pode matar 10 milhões de pessoas por ano em 2050, superando todos os tipos de câncer e diabetes – é um problema que não pode ser ignorado.

Especialistas e formuladores de políticas públicas estão alarmados e alertam para o uso indiscriminado de antibióticos em pessoas e animais. Em muitos lugares, antibióticos são vendidos sem receita, as pessoas não seguem o tratamento até o fim ou mesmo fazem uso desse tipo de medicamento para tratar infecções de causa viral, como a gripe. Some-se isso ao ritmo lento no desenvolvimento de novos medicamentos de maior eficácia no tratamento de infecções bacterianas, a resistência de bactérias a antibióticos só piora. Há quem tema que a medicina sofra um “retorno à idade das trevas”, quando infecções simples matavam.

O que muita gente não deve saber, no entanto, é que as mudanças climáticas têm um papel importante na disseminação da resistência bacteriana a antibióticos. Um estudo publicado recentemente na revista Nature Climate Change indica que, quanto maior o aumento da temperatura, maior a incidência de infecções resistentes a tratamentos com antibióticos.

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Klebsiella pneumoniae. Imagem: NIAID

Os líderes do estudo, Derek MacFadden e Sarah McGough, pesquisadores da Harvard Chan School of Public Health, constataram, junto com seus colegas, que uma mudança de 10ºC na temperatura aumentaria a resistência da Escerichia coli, causadora de infecções urinárias, em 4,2%; sob as mesmas condições, a resistência da Klebsiella pneumoniae, causadora de pneumonia, aumentaria em 2,2%; e a Staphylococcus aureus, responsável por doenças como a meningite, aumentaria sua resistência a antibióticos em 2,7%.

A pesquisa teve como amostra os Estados Unidos e levou em conta padrões de resistência bacteriana registrados em uma extensa base de dados com índices de resistência por antibiótico e por bactéria entre 2013 e 2015. Os dados foram recolhidos de hospitais, laboratórios e unidades de observação em todo o país e foram cruzados com taxa de prescrição de antibióticos por região e também com a densidade populacional de diferentes regiões dos EUA. Para analisar a relação com o clima, os pesquisadores usaram uma série histórica de variação de temperatura que ia de 1980 a 2010 em todas as regiões dos EUA.

Os pesquisadores perceberam, também, que nos estados do sul do país – com temperatura mais alta que os do norte em razão da latitude onde estão – a prescrição de antibióticos era, em geral, maior que nos estados mais ao norte. Isso faz sentido quando se pensa que temperaturas mais altas facilitam a transferência de genes de resistência a antibióticos, que é uma das hipóteses que o estudo levanta. A questão é que uma maior prescrição de remédios coincidiu com mais resistência a tratamentos para as três bactérias analisadas.

O que acontece nos Estados Unidos possivelmente se repete com uma frequência muito maior em países em desenvolvimento. Na Índia, por exemplo, há uma preocupação muito grande com a prescrição indiscriminada de antibióticos e o uso incorreto deles, que é algo bastante comum por lá.

Se a relação entre mudanças climáticas e resistência bacteriana for confirmada por mais estudos, podemos estar diante de um desafio imenso – que não vai poupar nenhum continente. Além disso, este é um problema que pode possivelmente bater com mais força nos países em desenvolvimento, que estão em sua maioria próximos à linha do Equador e é onde os efeitos das mudanças climáticas vão ser sentidos com mais intensidade.

A questão é que precisamos falar mais sobre a resistência bacteriana a antibióticos. Num mundo em que as mudanças climáticas são uma questão incontornável agora – e mais ainda em um futuro próximo – precisamos ter em mente que tudo vai ser alterado pelo clima. Bactérias de hospitais e nos alimentos que consumimos, inclusive. Para não sermos pegos de surpresa, precisamos começar a conversar mais seriamente sobre este problema – problemão – nas nossas casas e com nossos conhecidos. A comunidade médica precisa ser mais criteriosa em prescrever medicamentos – é preciso parar de receitar antibióticos para qualquer diagnóstico de “virose”. Muita gente toma antibiótico porque o médico diz que é para tomar.

Precisamos exigir menos uso de antibióticos na agricultura e parar de usar esse tipo de medicamento para tratar gripe. Quem sabe uma ação coletiva coordenada pegaria as bactérias de surpresa, mesmo ajudadas pelas mudanças climáticas?

Saiba mais

MacFadden et al. Antibiotic resistance increases with local temperature. Nature Climate Change, 21 de maio de 2018

Antibiotic Resistance. World Health Organization, 5 de fevereiro de 2018

A “epidemia” que matará mais gente do que o câncer (se não for evitada). El País Brasil, 22 de setembro de 2017

Por que o mau uso dos antibióticos é uma ameaça para a saúde de toda a população. Gaúcha ZH, 29 de julho de 2016

Superbactérias avançam no Brasil e levam autoridades de saúde a correr contra o tempo. BBC Brasil, 11 de julho de 2017

Plano de combate à resistência a antibióticos deve ser concluído em 2018. O Globo, 11 de novembro de 2017

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Precisamos de mais antibióticos: a busca por novos fármacos

Na verdade, é uma questão simples, nada pessoal. Trata-se de sobrevivência, pura evolução, é disso que estamos falando quando o tema é RESISTÊNCIA BACTERIANA.  Podemos simplificar o mecanismo assim: as bactérias causam doenças nos humanos e nós humanos usamos os antibióticos para eliminá-las. Com o avanço da Medicina aumentamos a expectativa de vida da espécie humana. Tratamos doenças antes intratáveis, pacientes com HIV sobrevivem longos anos, transplantados são imunossuprimidos através do uso de fármacos para evitar rejeição, infecções simples são logo tratadas com antibióticos. Pensando como bactéria, isso é muita pressão. Pressão seletiva!

O uso indiscriminado de antibióticos e o aumento da sobrevida de pacientes imunossuprimidos levaram ao crescimento acelerado da resistência bacteriana. As bactérias mais vulneráveis são eliminadas pelo tratamento, no entanto uma bactéria se replica rapidamente e por isso a taxa de mutação nas bactérias também é alta. Bactérias mais resistentes são selecionadas e começam a se multiplicar. Quanto mais antibiótico é utilizado, maior a seleção, e em consequência, maior a chance do desenvolvimento de resistência.

É um verdadeiro cabo de guerra entre antibióticos e bactérias. Além disso, as bactérias são capazes de trocar materiais genéticos entre si (e entre diferentes espécies) e por isso podem espalhar os genes de resistência, através da troca de plasmídeos que contenham essas características. Se você se interessa por esse assunto pode ler muito mais, aqui mesmo no blog, no texto Crise dos antibióticos e superbactérias: como nos proteger? – Parte 1 e Parte 2, e também temos um sobre Heteroresistência aos antibióticos.

A tão falada Superbactéria, nada mais é do que uma bactéria multirresistente, sendo uma das mais conhecidas a KPC. Mas o que vem a ser isso? KPC é uma sigla para Klebsiella pneumoniae carbapenemase resistente. Os carbapenêmicos são antibióticos muito fortes, de uso restrito a graves infecções hospitalares, como Meropenem, Imipenem e Ertapenem, no entanto, a Klebsiella desenvolveu uma enzima capaz de quebrá-los e inativá-los, uma carbapenemase, causando surtos infecciosos nos hospitais.  Esse mecanismo enzimático de resistência recebeu o nome de KPC, por ter sido descrito pela primeira vez, na Klebisiella pneumoniae.

Infelizmente, nos últimos anos têm sido descritos mais mecanismos de resistência bacterianos do que novos antibióticos. Essa enzima não ficou restrita ao gênero da Klebsiella, sendo descrita em diversas outras bactérias, e segundo a Anvisa, isolados clínicos que apresentem resistência aos carbapenêmicos em testes iniciais, devem ser triados para a presença de carbapenemases e feita confirmação em laboratório de referência, conforme a Nota 01/2013. Apesar de ser a mais conhecida, a KPC não é o único mecanismo de resistência existente para esses fármacos, já sendo relatados no Brasil a presença de isolados NDM (metalo-betalactamase) e de resistência concedida por AmpC plasmidial.

Será que as bactérias estão evoluindo mais do que nós?

Em 15 de junho de 2017, um grupo italiano de pesquisa, da Universidade de Milão em parceria com departamentos de bioquímica e farmacologia dos Estados Unidos e Alemanha, formado por Sonia I. Maffioli e colaboradores publicou na revista americana Cell, o seguinte artigo: “Antibacterial Nucleoside-Analog Inhibitor of Bacterial RNA Polymerase”. O grupo descobriu uma nova molécula com potencial antimicrobiano. Isso mesmo, temos um possível novo antibiótico em teste!

E pode chamá-lo de PUM, ou melhor, Pseudouridimycin. A molécula foi isolada de um microrganismo encontrado no solo, até então desconhecido, que ganhou o mesmo nome (Pseudoridimycin). Os autores ressaltam a importância do estudo da biodiversidade, principalmente para os microrganismos do solo, de forma que fica a recomendação: “olhos atentos ao chão! ”. A grande maioria dos fármacos e substâncias de interesse clínico e econômico são descobertas na natureza, como foi o caso do primeiro antibiótico desenvolvido, a penicilina.

A ação do Pseudouridimycin se dá pela ligação à RNA polimerase de bactérias, impedindo a transcrição do genoma, a produção de proteínas e sua replicação, uma ação semelhante à da rifampicina (antibiótico já em uso). No entanto os cientistas afirmam que o mecanismo do PUM é dez vezes menos suscetível ao desenvolvimento de mecanismos de resistência. A substância foi isolada e está em estudo, tendo sido testada em laboratório in vitro e in vivo com ratos.

​​Os autores afirmam que o Pseudouridimycin possui ação contra bactérias Gram Positivas e Gram Negativas (largo espectro), apresentando baixa indução de resistência in vitro  e in vivo. A RNA polimerase bacteriana é responsável por traduzir o genoma da bactéria em proteínas, e vai incorporando a sequência de bases do RNA.

Quando a RNA polimerase vai colocar uma Uracila na fita, o PUM se liga a ela e bloqueia todo o processo. De modo que para a produção de proteínas da bactéria, sem poder produzir suas proteínas essenciais, a bactéria morre. É como uma greve geral na maquinaria de síntese bacteriana que leva ao tratamento da infecção.

pum

Estrutura do Pseudouridimycin (PUM) e sua interação com a RNA polimerase.

Apesar de ser uma descoberta muito promissora, a molécula de Pseudouridimycin ainda vai passar por muitos testes. Nos testes laboratoriais o PUM demonstrou atividade bactericida sobre vinte diferentes espécies de bactérias, inclusive algumas com altos níveis de resistência aos antibióticos atualmente em uso; em ratos foi capaz de curar as infecções por Streptococcus pyogenes, com baixíssimo índice de indução de resistência e boa tolerabilidade, ou seja, com baixa toxicidade.

            Todo fármaco para chegar ao uso em humanos passa por uma série de ensaios, não só de sua ação, mas também de sua segurança, percorrendo um longo caminho dos laboratórios até as farmácias.

Os testes seguintes incluem a determinação da efetividade in vivo, dose terapêutica, toxicidade, carcinogenicidade, efeitos adversos, teratogenicidade (indução de malformação em fetos) e contraindicações. Os cientistas acreditam que testes em humanos, com o novo antibiótico, devem começar em 2020, e se confirmada sua ação, chegar ao mercado dentro de uma década, segundo os pesquisadores da Universidade Rutgers-New Brunswick e da empresa italiana de biotecnologia Naicons. Para entender um pouco mais como essas etapas acontecem, você pode ler, aqui no blog os textos Conceitos Básicos da Pesquisa em Saúde, Parte 1, Parte 2 e Parte 3.

Esperamos em breve ter mais notícias do grupo de pesquisa de Sonia I. Maffiolo, com os avanços dos testes da molécula PUM. Se tudo correr conforme o esperado podemos ter um novo antibiótico em uso no ano de 2027.

Dentre todos os fármacos pesquisados, a maior dificuldade é em inovar nos antibióticos, tão necessários à nossa medicina, por isso esse estudo traz uma descoberta de grande relevância, e também aponta um norte para novas pesquisas, pois ainda existem muitos microrganismos produzindo substâncias totalmente desconhecidas por nós, que podem nos ajudar na luta contra a resistência bacteriana.

Referências:

Maffioli SI, Zhang Y, Degen D, Carzaniga T, Del Gatto G, Serina S e cols. Antibacterial Nucleoside-Analog Inhibitor of Bacterial RNA Polymerase. Cell. 2017 Jun 15;169(7):1240-1248.e23. doi: 10.1016/j.cell.2017.05.042.

Nota técnica Anvisa 01/2013. MEDIDAS DE PREVENÇÃO E CONTROLE DE. INFECÇÕES. POR. ENTEROBACTÉRIAS. MULTIRESISTENTES. Brasília, 17 de abril de 2013.

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Vírus, bactérias e Chuck Norris: O que eles tem em comum?

     Resistir ao tempo e a condições adversas são habilidades de diversos vírus e bactérias (e Chuck Norris, claro. No caso é o tempo que resiste a ele). Alguns desses micro-organismos são resistentes ao congelamento, calor, seca, falta de nutrientes, etc. O que acontece quando esses micro-organismos são reativados? No caso da península siberiana de Yamal, uma bactéria reativada causou uma epidemia de Anthrax. Em 2016, um garoto de 12 anos morreu e mais de 20 pessoas foram hospitalizadas infectadas pela bactéria. A doença era considerada erradicada e há 75 anos não haviam casos de Anthrax registrados na região.

O que pode ter acontecido?

     A bactéria responsável pelo Anthrax, Bacillus anthracis, é capaz de formar endósporos (estrutura de algumas bactérias que proporcionam resistência e sobrevivência em meio a algum stress ambiental como frio ou calor excessivos, falta de nutrientes ou água, por exemplo), podendo ficar inerte por anos. Como os endósporos geralmente ficam no solo é comum que animais herbívoros ingiram esses esporos e, dessa maneira, forneçam um ambiente propício para a bactéria continuar seu ciclo de desenvolvimento. Depois que o endósporo é ingerido, o B. anthracis sai do período de latência, se multiplica e acaba causando a morte do animal. Nesse momento, a bactéria pode formar mais endósporos ou, caso as condições estejam favoráveis, infectar outros animais, inclusive o homem. Então, uma possível explicação para o que aconteceu em Yamal é que, em 2016, com a forte onda de calor que assolou a região, com temperaturas chegando a 35ºC, parte do solo, permanentemente congelado, descongelou, expondo animais mortos, principalmente renas (animais herbívoros que são a principal fonte de renda da região).  Possivelmente, há mais de 75 anos, uma dessas renas morreu infectada por Anthrax e ficou congelada no solo até o verão de 2016. A bactéria formou endósporos para resistir ao congelamento e, quando as condições se tornaram favoráveis novamente, ela pode se multiplicar e acabou por infectar uma parcela da população de Yamal.

Não são casos isolados

     Talvez você ache incrível que um organismo consiga resistir por quase 100 anos latente e após todo esse tempo continuar o seu ciclo. É realmente incrível, mas acreditem: 100 anos é relativamente pouco tempo para vírus e bactérias permanecerem em estado letárgico. Em 2014, Matthieu Legendre, pesquisador da Universidade Aix-Marseille na França, e colaboradores conseguiram reativar um vírus congelado há mais de 30 mil anos e, em 2007, um grupo de pesquisadores da Universidade de Nova Jersey e da Universidade de Boston obtiveram resultados positivos em testes de atividade metabólica de micro-organismos congelados em camadas de gelo datadas de 100 mil até oito milhões de anos atrás.

     Existem ainda outros exemplos de viabilidade de micro-organismos “adormecidos” não só no gelo, mas em diversos outros ambientes. Em 2017, Penelope Boston, astrobióloga da NASA, conseguiu reativar micro-organismos enclausurados dentro de cristais formados em uma caverna no México entre 50 mil e 10 mil anos atrás. O mais interessante é que o material genético dos organismos que ela analisou não era relacionado a nenhum outro organismo encontrado em bases de dados científicas. No final de 2016, pesquisadores do Canadá e Estados Unidos publicaram um artigo mostrando o resistoma (coleção de genes de resistência a antibióticos) de uma bactéria encontrada numa caverna no Novo México. Essa caverna e, consequentemente, os micro-organismos encontrados nela, estavam isolados da superfície há quatro milhões de anos. A bactéria em questão, Paenibacillus sp. LC231, mostrou resistência a 26 dos 40 antibióticos testados, incluindo um dos mais novos antibióticos utilizados para infecções resistentes, a daptomicina (nome comercial Cubicin®).

     Diante dos fatos expostos, surgem algumas perguntas: o que aconteceria se organismos desconhecidos entrassem em contato com nosso sistema imunológico? E se antigas bactérias super-resistentes conseguissem transferir os genes de resistência a outras bactérias? E se, simplesmente, esses organismos depois de um longo período ficassem viáveis e aptos a causar infecções e doenças novamente, trazendo epidemias consideradas erradicadas? Certamente essas são algumas questões que podem causar preocupação, mas há muito mais por trás desses estudos. Por exemplo, como uma bactéria que não tem contato com a superfície há quatro milhões de anos poderia apresentar tamanha resistência a antibióticos utilizados hoje em dia? Segundo os pesquisadores, os genes de resistência estavam inseridos no cromossomo da bactéria analisada e não havia sinais de inserções novas de elementos móveis, o que indica que esses genes estão ali há muito tempo. Através de análise filogenética, eles chegaram à conclusão que o fenótipo de resistência a diversas drogas é nativo do gênero Paenibacillus, que incluem uma gama de bactérias que vão desde as patogênicas até as fixadoras de nitrogênio. Possivelmente os mecanismos de resistência desse gênero se desenvolveram por acaso ou para combater inimigos naturais (e não os modernos antibióticos) há mais de quatro milhões de anos.

     A busca e descoberta de organismos extremófilos e altamente resistentes nos traz uma série de informações que podem ser utilizadas em diversas áreas, como meio ambiente (como o caso da onda de calor causada pelo aquecimento global em Yamal) e até astrobiologia, por exemplo. Para Penelope Boston, astrobióloga da NASA, o descobrimento de seres capazes de sobreviver em ambientes, no mínimo, inóspitos reforça a hipótese de que a vida pode não ter começado na Terra, já que alguns desses organismos sobrevivem a ambientes semelhantes aos encontrados em outros planetas e luas.

 

Referências:

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Crise dos antibióticos e superbactérias: como nos proteger? – Parte 2

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Na primeira parte deste artigo[1], esclareci o porquê devemos aposentar os sabonetes com antibacterianos/antimicrobianos e aderir ao uso de sabonetes comuns. Neste artigo, falarei de atitudes ainda mais importantes para prevenir o surgimento de bactérias resistentes ou superbactérias.

1) Antibióticos matam bactérias, não vírus[2,3]

Esta é a primeira coisa que devemos ter em mente. Os antibióticos matam bactérias por estas serem microrganismos vivos, mas não matam os vírus. Fora do nosso corpo, os vírus são seres sem vida. Eles são agentes infecciosos formados de material genético (DNA ou RNA) dentro de uma cápsula protetora e só entram em ação quando invadem a célula de um hospedeiro (ser humano ou outro ser vivo que abriga um organismo vivo dentro de si).

Portanto, se você estiver infectado por um vírus e tomar antibiótico, sua infecção não vai melhorar. A razão disso é que o medicamento ingerido não tem como alvo as células do seu corpo, ele terá atuação apenas nas células bacterianas que até então estavam em equilíbrio. O problema é que, por exemplo, bactérias importantes da sua flora intestinal morrerão e bactérias resistentes sobreviverão. Assim, criamos um problema dentro do nosso próprio intestino e ficamos mais suscetíveis a infecções por superbactérias.

Na tabela abaixo[4] são listados exemplos de infecções causadas por bactérias, bactérias e vírus, ou apenas por vírus. Os antibióticos podem ser usados apenas nos casos de infecção bacteriana.

resistência bacteriana

2) Use antibiótico apenas quando não há outra solução[5]

Quando a infecção começa e nós rapidamente identificamos o que está acontecendo, podemos recorrer a tratamentos que desacelerem a infecção e deem condições para o nosso próprio organismo reverter o problema. Existem remédios que não precisam de prescrição, e podem ser utilizados com segurança, e fórmulas caseiras que aliviam os sintomas. Portanto, procure ajuda da(o) sua(seu) médica(o) e não insista em um tratamento com antibióticos quando não for realmente necessário.

3) Siga o tratamento à risca[5]

Em geral, o tratamento com antibióticos dura vários dias, mesmo quando os sintomas da infecção desaparecem após poucos dias de uso. Muitas pessoas pensam que já tomaram remédio o suficiente e param o tratamento no meio ou deixam de tomar alguma dose, o que é um grande erro. Por quê? Primeiro, porque você pode desenvolver a infecção de novo e o antibiótico já não terá o mesmo efeito, já que as bactérias resistentes que não foram mortas pelo medicamento acabaram se multiplicando. Segundo, porque pode acontecer das bactérias resistentes transferirem genes de resistência para bactérias que seriam sensíveis ao tratamento mas não foram mortas, desta forma a população de superbactérias aumenta e o tratamento será um fracasso.

Além disto, tome exatamente o antibiótico que lhe foi prescrito. Cada medicamento tem um expectro de ação e age melhor contra um grupo específico de bactérias.

4) Descarte antibióticos vencidos em farmácias ou pontos de recolhimento de medicamentos[5]

Nunca jogue seu medicamento, principalmente antibióticos, no lixo comum, na pia ou descarga abaixo. Estes remédios são compostos químicos que poluem o meio ambiente e que podem gerar resistência bacteriana por onde passarem.

5) Tome vacina[5]

Algumas infecções bacterianas podem ser prevenidas através da vacinação. A vacina é um método seguro e eficiente que nos torna imune de uma doença. Vacine-se e vacine as crianças.

Agora que você já sabe!

Proteja sua família e amigos das superbactérias, informe-os sobre como combater a resistência bacteriana. Nossa saúde e nosso planeta agradecem!

 

Escrito por Dra. Aline Ramos da Silva.

Referências:

[1] https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/03/27/crise-dos-antibioticos-e-superbacterias-como-nos-proteger-parte-1/

[2] https://www.fda.gov/ForConsumers/ConsumerUpdates/ucm092810.htm

[3] https://www.cdc.gov/getsmart/community/about/should-know.html

[4] https://www.cdc.gov/getsmart/community/materials-references/print-materials/everyone/viruses-bacteria-chart.pdf

[5] https://www.cdc.gov/getsmart/community/about/can-do.html

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Crise dos antibióticos e superbactérias: como nos proteger? – Parte 1.

No mês passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma lista monster-426994.jpgde bactérias resistentes para as quais necessitamos urgentemente de novos antibióticos. Essas bactérias resistentes, também conhecidas como superbactérias, tornaram-se resistentes à maioria (ou a todos) os antibióticos disponíveis no momento. No caso de uma infecção por alguma superbactéria, não temos atualmente tratamento suficiente para controlar a infecção, o que pode causar a morte do doente. [1]

Quando pensamos nessas superbactérias entramos em pânico e começamos a procurar meios de nos proteger dessa ameaça. Em geral, nossa primeira atitude é entrar no supermercado e comprar sabonetes, produtos de higiene pessoal e de limpeza doméstica com antibacterianos (por vezes chamados de antimicrobianos ou antissépticos). Estes produtos possuem compostos químicos que prometem reduzir ou prevenir infecções e matar 99,9% das bactérias. Porém, mal sabemos que esse é um dos erros graves que cometemos e, com esta atitude,  promovemos o aumento da quantidade das temidas superbactérias. [2]

E como isso acontece? É simples. Quando lavamos as mãos com um sabonete antibacteriano, exterminamos as bactérias que são sensíveis a este composto químico, mas deixamos para trás as bactérias que são resistentes a ele. Estas bactérias sobreviventes – que antes eram uma minoria – multiplicam-se, e assim se forma uma população maior de bactérias resistentes.

De acordo com a FDA (agência reguladora dos alimentos e dos medicamentos nos EUA), cientistas comprovaram que os sabonetes com antibacterianos (ex. triclosan ou triclocarban) não possuem maior eficiência na prevenção de doenças quando comparados aos sabonetes comuns. Além disto, estes dois compostos químicos podem trazer riscos à saúde quando usados diariamente. [2]

A FDA alerta que estudos com animais demonstraram que o triclosan altera os níveis de hormônios tireoidianos e pesquias em andamento investigam o potencial carcinogênico dessa substância. [3] Outros trabalhos científicos demonstraram que o triclosan é tóxico especialmente para espécies aquáticas, as quais apresentaram alterações hormonais, neurais e inflamações após longa exposição ao produto. Estudos epidemiológicos mostraram a presença do triclosan em tecidos do corpo humano, no leite materno, na urina e no plasma sanguíneo, porém não se sabe ao certo quais são os efeitos desta substância a longo prazo. [4]

Por conta dos ricos à saúde, a FDA proibiu em setembro de 2016 o uso do triclosan e de mais 18 compostos químicos usados como antibacterianos em fórmulas de sabonetes, produtos de higiene pessoal e limpeza. [5] Para quem se perguntou sobre os desinfetantes para as mãos a base de álcool (mínimo de 60%), respirem aliviados, apenas observem se antimicrobianos não foram adicionados à fórmula. [6]

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Para finalizar, a FDA aconselha a higienização das mãos e do corpo com sabonete comum (e água) e enfatiza que este é o melhor método para evitar doenças e prevenir a propagação de bactérias. [2]

(No próximo texto – parte 2 – falarei de outras atitudes que podemos tomar para evitar a resistência microbiana e nos proteger das superbactérias).

Por Aline R.S.

 

Referências:

[1] http://www.who.int/mediacentre/news/releases/2017/bacteria-antibiotics-needed/en/

[2] https://www.fda.gov/ForConsumers/ConsumerUpdates/ucm378393.htm

[3] https://www.fda.gov/ForConsumers/ConsumerUpdates/ucm205999.htm

[4] http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/10937404.2017.1281181

[5] http://www.npr.org/sections/health-shots/2016/09/02/492394717/fda-bans-19-chemicals-used-in-antibacterial-soaps

[6] http://www.businessinsider.com/do-hand-sanitizers-cause-antibiotic-resistance-2014-4?international=true&r=US&IR=T