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Cicatrizes e Queimaduras: características e prevenção.

Quem nunca se feriu devido a acidentes ou descuidos que atire a primeira pedra. Marcas de nascença, descuidos na cozinha, aquela espinha que mexemos demais, o gatinho de estimação sem paciência para suas gracinhas. Estamos expostos a machucados o tempo todo, mesmo sozinhos dentro da nossa casa. E alguns machucados podem deixar marcas, as quais chamamos de cicatrizes. Mas afinal, como ocorrem?

O processo de cicatrização é dividido em três etapas:

  1. Etapa inflamatória: assim chamada, pois tem como característica principal a presença dos sinais inflamatórios; dor, rubor, calor e edema. Nessa etapa, que tem duração de dois a três dias, acontece uma série de processos que tem como objetivo reconstituir o tecido que foi lesado, possibilitando ou não o retorno de sua funcionalidade, tópico que abordaremos mais adiante.
  2. Etapa proliferativa: essa etapa é onde ocorre a reconstituição dos vasos sanguíneos e linfáticos, a partir de deposição de colágeno. Além disso, há uma alta taxa de migração celular, especialmente de queratinócitos, para que haja reepitelização, ou seja, o crescimento de epitélio nas bordas da ferida. Em conjunto, esses acontecimentos conferem o aspecto avermelhado da cicatriz. Essa etapa é mais longa, podendo durar cerca de 14 dias.
  3. Etapa de remodelamento: a principal característica dessa fase é a deposição de colágeno de forma organizada. Inicialmente o colágeno é mais fino e tem orientação paralela à pele. Com o tempo, ele é reabsorvido e adquire um aspecto mais espesso, sendo depositado ao longo das linhas de tensão. Como consequência, há um aumento da força tênsil da ferida. Essa etapa dura por tempo indeterminado, variando de acordo com a profundidade e extensão da lesão, por exemplo.Agora que entendemos o processo pelo qual a cicatriz é formada, passamos para a seguinte pergunta: por que diferem do restante da pele? Para respondê-la, primeiramente precisamos estabelecer a diferença entre reparo e regeneração.

    A regeneração é bem demonstrada pelo Wolverine. Sim, o Wolverine, dos X-men. Chamamos de regeneração o processo que ocorre quando há uma lesão tecidual e essa lesão é completamente restaurada, deixando o tecido exatamente igual ao seu estado anterior em termos de aparência e, principalmente, funcionalidade. Porém, diferente do Wolverine, a regeneração demanda mais tempo (às vezes MUITO mais tempo) para acontecer, e pode não ser 100% efetiva dependendo do grau da lesão. A regeneração em humanos não é tão efetiva quanto nas salamandras (imagem 1), por exemplo, que conseguem regenerar seus membros caso esses sejam lesionados ou perdidos de alguma forma. A nossa regeneração não sendo tão potente quanto a de alguns outros animais, é contornada com o processo de reparo, que ocorre quando a regeneração não é possível. Esses casos normalmente ocorrem em lesões maiores e/ou mais profundas ocasionadas por queimaduras de 3º grau ou feridas extensas. Assim, devido a maior área afetada, a qualidade do reparo é diminuída e há uma maior deposição de cicatriz, ou seja, de colágeno, fibroblastos entre outras biomoléculas cicatriciais. A cicatriz é uma forma de fechar a ferida para que não haja exposição aos agentes infecciosos presentes no ambiente externo. Quanto mais extensa e/ou profunda uma ferida, maior e mais espesso o tecido cicatricial.

    A pele é um órgão externo que possui diversas funções, entre elas: proteção contra microrganismos infecciosos, choques mecânicos e perda de água. Mais que isso, a pele ainda possui diversos anexos que auxiliam no bom funcionamento do corpo, como as glândulas sudoríparas, as glândulas sebáceas e os folículos pilosos. Além da aparência diferenciada, as cicatrizes têm suas funções comprometidas, não possuindo nenhum dos anexos citados acima, atuando basicamente como uma barreira de proteção física. Em se tratando de pequenas lesões do dia a dia, uma cicatriz não vai afetar a vida de ninguém, muitas pequenas cicatrizes nem mesmo são notadas por quem as obteve. Entretanto, em casos mais severos, as cicatrizes podem se tornar um grande obstáculo, podendo gerar as chamadas cicatrizes hipertróficas, as quais podem provocar deformações e retrações graves. Isso acontece porque uma cicatriz possui muito menos elastina e colágeno, que são responsáveis por proporcionar elasticidade e capacidade de retornar a pele ao seu estado inicial. Com a diminuição dessas moléculas no tecido, ele se torna muito mais rígido, podendo até dificultar a movimentação caso esteja presente em articulações.

    Cicatriz-Hipertrófica-2

    Cicatriz hipertrófica. Fonte: Moda & Beleza, 2017. https://modaebeleza.org/cicatriz-hipertrofica/

    Acidentes que levam a queimaduras são mais frequentes em crianças e descuidos na cozinha, como cabos de panela para fora do fogão ou o uso desinformado da chapinha, por exemplo. Por isso, no Brasil, o dia 06 de junho é o Dia Nacional de Luta contra Queimaduras, um dia destinado a conscientização e prevenção de queimaduras. Além disso, o país possui a Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ), “uma associação civil, sem fins lucrativos, com os objetivos de promover, encorajar, contribuir e estimular a ciência, o estudo, a pesquisa, a divulgação e a prática do tratamento das queimaduras; promover a conscientização dos aspectos preventivos das queimaduras e divulgar os primeiros-socorros; encorajar a educação em todas as categorias profissionais envolvidas no tratamento e prevenção das queimaduras; facilitar a cooperação e o intercâmbio entre todos os países, fornecendo informações disponíveis, incluindo a afiliação a outras sociedades e organizações internacionais de queimaduras e promover gestões no sentido de transformar o tratamento de queimaduras em especialidade em todas as profissões da área da Saúde”. Em conjunto com algumas instituições, a SBQ promove campanhas sobre queimaduras e seus riscos e prevenções. Alguns dos parceiros de campanha são: o Hospital Infantil Joana de Gusmão e o Laboratório de Células-Tronco e Regeneração Tecidual, da UFSC. As campanhas variam de ano para ano, mas normalmente são utilizadas cartilhas informativas e já aconteceram visitas em escolas a fim de conscientizar crianças sobre os cuidados a se tomar para evitar se queimar.

    Recentemente, um grupo de cientistas do Ceará desenvolveu um tratamento para queimaduras utilizando a pele de tilápia (sim, o peixe!). Em suma, a pele do peixe passa por procedimentos de esterilização e é colocada em cima da queimadura, aderindo à pele do paciente e impedindo a contaminação pelo meio externo e a desidratação, ambos prejudiciais para o processo de cicatrização. O tratamento com pele de tilápia é a nova aposta no tratamento de queimaduras, pois além de apresentar melhores resultados, ele também é mais barato do que os tratamentos tradicionais. Os testes clínicos estão em andamento e se tudo der certo (e tudo indica que dará), o novo tratamento deve ser implementado em alguns anos.

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