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Você já ouviu falar sobre uma forma de violência conhecida como Psychological Gaslighting?

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Fonte da imagem: https://pixabay.com/photos/handcuffs-trouble-police-arrest-2102488/

Embora seja um termo de difícil tradução, ele se refere a um tipo de manipulação psicológica que faz com que a vítima questione suas percepções, levando até ao questionamento da própria sanidade, em casos mais graves. Esse termo é baseado no filme Gaslight (1994), no qual o personagem Gregory manipula sua esposa Paula, com o objetivo de hospitalizá-la e assim obter riqueza por meio da obtenção das joias da esposa. Sempre que Gregory vai ao sótão procurar as joias, as luzes (gaslight) dos outros cômodos da cama escurecem. Quando a esposa começa a perceber a mudança das luzes e conta para Gregory, ele desmente e diz que são coisas de sua imaginação. Isso vai se repetindo e Gregory leva a esposa a pensar que essa “falsa percepção” é um indicio de que ela está enlouquecendo.

Talvez vocês tenham visto esse termo ser utilizado em casos de violência contra a mulher, como quando o homem diz para a mulher que suas impressões (sempre ou quase sempre) estão incorretas, que ele tem boas intenções em tudo que faz, apesar de os resultados, muitas vezes, serem negativos para a esposa/parceira. E esse ciclo ir se repetindo até que a parceira se sente totalmente invalidada e pode até passar a duvidar de suas próprias percepções, sempre acreditando nas justificativas do parceiro. Entretanto, essa forma de violência pode ser vista em outros contextos. Isso foi o que os pesquisadores Heston Tobias e Ameil Joseph, da província de Ontário, no Canadá, descobriram.

Esses pesquisadores analisaram 27 notícias midiáticas publicadas em 2015 e 2016 sobre uma prática policial controversa, o “carding”. Outra palavra de difícil tradução, carding é o termo utilizado para descrever a prática de abordar pessoas nas ruas sem ter mandato ou denúncia e anotar informações dela em um cartão (card), como a raça, o gênero, idade, altura, e quaisquer outras informações pessoais que o policial achar relevante. Essas informações são depois transferidas para o banco de dados da polícia e ficam permanentemente armazenadas. Apesar de ser uma prática cujo objetivo declarado é proteger a comunidade, dados estatísticos mostram que em Hamilton, uma cidade de Ontário com altos índices de crimes de ódio contra pessoas negras, negros são desproporcionalmente mais abordados pela polícia do que cidadãos brancos (12% das pessoas abordadas são negras), embora sejam apenas 3,2% da população.

Esses pesquisadores estavam interessados em saber qual era o discurso da mídia local sobre a prática de “carding”, além de investigar a relação já estabelecida entre o carding e o chamado perfil racial (racial profiling), uma prática considerada racista, por se basear em comportamentos ou características observadas ou assumidas de um grupo racial/étnico. Os pesquisadores perceberam, ao analisar os dados, que os discursos midiáticos sobre o carding se assemelhavam à prática de psychological gaslighting.

Em primeiro lugar, essas notícias não definiam claramente o que é racismo, omitindo informações importantes que fazem parte dos argumentos de vários grupos que são contra a prática. Os autores afirmam que essa omissão pode ser vista como um apagamento do racismo institucional contra negros, indígenas e outros grupos marginalizados presente na polícia de Hamilton. Uma vez que parte dos argumentos contra a prática é baseado na existência do racismo institucional, histórico e atual, tais argumentos podem ser menos efetivos ou até questionados diante de leitores que estão alheios ao conhecimento sócio histórico das relações raciais no local.

Em segundo lugar, a definição dada pela polícia do que é a prática de carding não é clara e têm constantemente mudado: por exemplo, street checks (abordar pessoas nas ruas, porém sem armazenas dados sobre elas) e carding são vistos como coisas distintas, porém relacionadas. Há denúncias que ambas as práticas são, na verdade, violações da carta de direitos humanos (onde proíbe-se abordar pessoas ou deter pessoas sem razão, e discriminação baseada na raça), mas a falta de uma definição precisa impede que a polícia seja acusada de racismo institucional. Quando se pede por uma definição clara, há relatos de policiais dizendo abertamente que há múltiplas definições e que isso “vai depender de quem fizer a declaração”.

Quando a população descobriu que a raça era uma das características armazenadas nos cartões e começou a questionar a prática, o governo anunciou uma reunião para revisar os critérios, e foi estabelecido que a prática seria baseada em uma série de princípios (e.g., minimizar efeitos negativos para as pessoas abordadas, garantir que as abordagens tenham, como objetivo, um policiamento efetivo, garantir conformidade com a carta de direitos humanos, especialmente com relação a proteção contra detenções arbitrárias e a liberdade de discriminação baseada na raça e em outros marcadores sociais, e garantir conformidade com o Ato de Proteção da Privacidade). Entretanto, isso não modificou a prática, ou seja, pessoas marginalizadas continuaram a reclamar pelas abordagens indevidas, e o número de pessoas negras e indígenas abordadas continuou desproporcional, em comparação ao número de pessoas brancas abordadas.

Os argumentos a favor da prática de carding envolvem afirmar que essa prática é essencial para o trabalho da polícia, negando que qualquer pessoa inocente será afetada pela prática (ou seja, ignorou-se reclamações de diversas pessoas inocentes que são abordadas pela polícia diariamente, ao ponto de ficarem traumatizadas, e também se colocou a prática como algo acima da carta de direitos humanos). Além disso, a polícia nega a existência de racismo institucional, apesar dos dados mostrarem que os alvos da prática são desproporcionalmente pessoas negras, indígenas e pobres. Em outros momentos, a evidência de racismo institucional é colocada como um problema individual, de alguns poucos policiais e não uma questão estrutural, ao afirmar que a prática de carding nunca foi oficialmente implementada em um documento da organização.

A polícia também leva a entender que a prática é essencial e alega que, se descontinuada, pode afetar a segurança da comunidade. Ou seja, afirma-se que o desconforto de um grupo de pessoas é um preço justo a se pagar pela segurança da comunidade. Contudo, não há evidências de que a prática de carding é efetiva.

Por fim, a prática ocorre mais na região central da cidade, que é onde o número de pessoas negras, indígenas e LGBTs é superior ao da média da população. A polícia justifica a prática nestes locais dizendo que esta é uma das áreas de foco e reiterando que a prática é benéfica para a comunidade. Portanto, há uma tentativa de naturalizar os locais-alvo para a prática, que são justamente os locais onde grupos marginalizados vivem.

De acordo com Roberts e Andrews (2013, citado por Tobias e Joseph, 2018), o processo de gaslighint possui 5 componentes:

  • Perpetrador da violência;
  • Vítima;
  • Objeto da manipulação;
  • Consequências experienciadas pela vítima, como a invalidação
  • Recompensa para o perpetrador.

Nesse sentido, os perpetradores da violência seriam o serviço policial de Hamilton. As vítimas, pessoas negras e outros grupos marginalizados da cidade. O objeto da manipulação seria a prática de carding. As consequências negativas para as vítimas seriam abordagens injustificadas, possíveis abordagens com abuso de poder por parte dos policiais, possíveis sentimentos de ansiedade e medo diante de policiais, invalidação dos sentimentos negativos e das experiências traumáticas por quem foi abordado, possíveis detenções injustas, entre outros. A recompensa para os perpetradores seria a execução de uma prática nitidamente racista e que não tem evidência que é efetiva, o que possibilita manter tanto o racismo institucional, quando uma imagem positiva da polícia, que justifica a prática dizendo que é para o bem da população.

Por fim, é importante salientar que, apesar do gaslighting ser uma manipulação, os autores afirmam que nem sempre essa manipulação é algo planejado; muitas vezes o perpetrador não está conscientemente tentando fazer com que a vítima se sinta invalidada ou louca. Ou seja, esse ciclo pode começar como algo não-intencional, com o intuito de fugir da responsabilização por algo. Não é possível afirmar se a polícia de Hamilton usa estratégias como o uso de ambiguidade e da negação plausível (afirmar desconhecimento por abuso de poder por parte de policiais ou outra prática considerada criminosa ou indesejada) de maneira intencional ou não, mas independentemente da intencionalidade, as consequências negativas para a população afetada pela prática são sérias e debilitantes, o que seria motivo suficiente para revisar as técnicas utilizadas.

Quer saber mais?

Tobias, H., & Joseph, A. (2018). Sustaining systemic racism through psychological gaslighting: Denials of racial profiling and justifications of carding by police utilizing local news media. Race and Justice, 1-32. Online First Publication. doi: 10.1177/2153368718760969

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Violência obstétrica e o viés racial

As mulheres sofrem violência tanto no parto, quanto na situação de abortamento. Mesmo as que dão “a luz” não estão salvas de serem violentadas institucionalmente. Porque na verdade o grande problema é o SER, mulher negra jovem de periferia, estas categorias sociais/identitárias definem ou ajudam muito na decisão do profissional de como serão tratadas as pessoas que acessam os serviços de saúde.

A violência obstétrica caracteriza-se pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso de medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda de autonomia e a capacidade de decidir sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vida das mulheres. Essa e a definição dada pelos Estados da Venezuela e da Argentina, onde a Violência Obstétrica é tipificada.  (Defensoria do Estado SP).828a7d0edf4e916f1971d08221068324

Segundo o Dossiê elaborado pela Rede Parto do Princípio para a CPMI da Violência Contra as Mulheres os atos caracterizadores da violência obstétrica são todos aqueles praticados contra a mulher no exercício de sua saúde sexual e reprodutiva, podendo ser cometidos por profissionais de saúde, servidores públicos, profissionais técnico-administrativos de instituições públicas e privadas, bem como civis.

A Pesquisa Nascer no Brasil, realizada em 2014, apresenta dados interessantes sobre as intervenções durante o parto em mulheres de risco obstétrico habitual e boas práticas e o que o estudo mostra é que a infusão de ocitocina e ruptura artificial da membrana amniótica foi uma técnica muito utilizada para provocar a aceleração do trabalho de parto. Ambas ocorreram em cerca de 40% das mulheres de risco habitual, sendo mais frequente nas mulheres do setor público, de mais baixa escolaridade.

São as mulheres negras que mais sofrem violência obstétrica, pois são as que mais peregrinam na hora do parto, ficaram mais tempo em espera para serem atendidas, tem menos tempo de consulta, estão submetidas a procedimentos dolorosos sem analgesia, estão em maior risco de morte materna. Cerca de 60% das mulheres que morrem de morte materna são negras. É importante ressaltar que a morte materna é considerada uma morte prevenível e que em 90% dos casos poderia ser evitada se as mulheres tivessem atendimento adequando.

Sobre a morte materna, enquanto não enfrentamos o racismo institucional nos serviços de saúde e garantir a equidade entre mulheres negras e brancas o Brasil continuará a ter a alta taxa de mortalidade (63,9/100 mil nascidos vivos – 2013), neste sentido é importante destacar que o Brasil não a alcançou a meta do Objetivo do Desenvolvimento do Milênio sobre saúde materna, que deveria chegar no máximo de 35 óbitos por 100 mil nascidos vivos até 2015, mas, se por acaso o Brasil fosse de mulheres brancas (35,6/100 mil nascidos vivos – 2013); (mulheres negras foram de 62,8/100 mil nascidos vivos) a meta teria sido alcançada.

Violência obstétrica, racismo institucional e morte: Caso Rafaela Santos

Rafaela Cristina Souza dos Santos tinha 15 anos, morreu de morte materna após dar à luz em uma maternidade no Rio de Janeiro, em 2015. Houve negligência no atendimento à adolescente, que ficou por mais de cinco horas no hospital, sem atendimento de médico, queixou-se de dor de cabeça, houve insistência no parto normal, quando apresentou quadro de eclampsia, fizeram a cesárea tardiamente e Rafaela foi a óbito.

O Dossiê revela que a eclâmpsia, pré-eclâmpsia e os distúrbios hipertensivos afetam muito mais a população negra, sendo as maiores causas da mortalidade materna da população negra. Apesar disso, o médico não poupou seu diagnóstico com base em preconceito racial e socioeconômico. O racismo dos profissionais de saúde atrasa a decisão da mulher de buscar assistência, dificulta o acesso da mulher ao serviço de saúde, dificulta o acesso da mulher ao tratamento adequado.

“Tinha que ser! Olha aí, pobre, preta, tatuada e drogada! Isso não é eclampsia, é droga!” fala atribuída ao anestesista que foi chamado durante a madrugada (plantão de sobreaviso) para atender a uma cesárea de emergência de uma gestante adolescente com eclampsia cujo parceiro estava preso por tráfico de drogas. Maternidade Pró-Matre, Vitória-ES (Fragmentos do Dossiê).

A violação dos Direitos Sexuais e Reprodutivos corresponde à limitação de oportunidades na vida das mulheres, tanto na esfera pública como na esfera privada – e também podem culminar, muitas vezes, na morte e na aquisição de agravos que poderiam ser evitadas.

A violência institucional, e neste caso tipificada pela violência obstétrica, prejudica o acesso das mulheres aos serviços de saúde, o que pode levar a morbimortalidade materna.

O espaço do cuidado e da assistência à saúde, assim como os seus profissionais, deveriam garantir minimamente que as mulheres tivessem os seus riscos de adoecer e morrer reduzidos, no entanto por conta de uma estrutura de sociedade opressora, desigual e preconceituosa coloca a vida das mulheres em risco a cada momento que elas entram nos serviços de saúde.

Fonte:

LEAL, Maria do Carmo et al. Intervenções obstétricas durante o trabalho de parto e parto em mulheres brasileiras de risco habitual. Cad. Saúde Pública [online]. 2014, vol.30, suppl.1

Parto do Princípio Mulheres em Rede pela Maternidade Ativa. Dossiê da Violência Obstétrica “Parirás com dor”. Dossiê elaborado para a CPMI da Violência Contra as Mulheres, Brasília, 2012.

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Dissertação explora a trajetória de Palmares e Zumbi através de quadrinhos

A História pode ser apreendida através de meios bastante diversos, compreendendo novelas, filmes, músicas, livros e revistas. Cada vez mais professoras e professores de História tem se atentado a isso e procuram trazer esse conhecimento prévio dos estudantes para a sala de aula.

Uma crítica frequente à produção histórica acadêmica é a pouca circulação dos seus resultados, ficando muitas vezes restrita entre os pares. Uma das causas apontadas é a linguagem e estrutura acadêmicas, que dificultariam a leitura para quem não é do meio.

Novos pesquisadores tem pensado nisso, e o blog Cientistas Feministas é uma iniciativa que procura divulgar tanto a História quanto os demais campos do conhecimento de forma mais acessível.

Um trabalho defendido em 2014 no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) procurou inovar em seu formato: trata-se de uma dissertação totalmente feita em HQ (História em Quadrinhos).

Produzida por Vinícius Finger, o trabalho intitulado “Zombi, zambi, zumbi : narrativas sobre Palmares” busca discutir as diversas narrativas históricas acerca do Quilombo de Palmaras e de Zumbi, seu líder. Dividida em cinco partes, a dissertação trabalha com a visão dos acontecimentos durante o período colonial, imperial e republicano, este último dividido nas partes Zumbi pós-abolição, Zumbi revolucionário e Zumbi eterno. Faz isso de uma forma bastante interessante: através das aulas que abordam tais assuntos durante esses períodos. Assim, discute também o sistema educacional brasileiro através do tempo.

No período colonial, percebe-se a presença de um discurso religioso bastante forte. Já no período imperial, a HQ mostra que a história de Zumbi era estudada como mais um obstáculo no processo de unificação nacional (FINGER, 2014, p. 53) e o bandeirante Domingos Jorge Velho, apresentado como um herói.

Em “Zumbi pós-abolição”, o autor representa uma sala de aula no Estado Novo de Getúlio Vargas, onde fica latente a incongruência entre um discurso que dizia que a escravidão no Brasil foi mais branda com a realidade da senzala.

No quarto período, chamado pelo autor de “Zumbi revolucionário”, o Brasil está na ditadura, e um professor universitário, vigiado pelos militares, encontra-se com uma aluna fora da sala de aula para explicar-lhe a versão ensinada nas escolas não condiz com o que foi a luta em Palmares:

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Imagem 01: professor explicando à aluna sobre Palmares. Fonte: FINGER, 2014, p. 91

No quinto período, “Zumbi eterno”, adolescentes assistem um filme sobre Zumbi, que desconstrói a primeira versão mostrada na dissertação – a colonial – em que Zumbi teria se matado para não se entregar. Depois do quinto período, o autor reproduziu cenas cotidianas do Brasil de hoje em que mostra como o país ainda continua racista:

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Imagem 02: cena racista atual representada na HQ. Fonte: FINGER, 2014, p. 134

“Zombi, zambi, zumbi : narrativas sobre Palmares” é um trabalho acadêmico que inovou em seu formato. Pode ser usado em sala de aula para discutir com os alunos a forma como a História enquanto área do conhecimento é construída ao longo do tempo. A linguagem dos quadrinhos também pode atrair mais leitores e, assim, diminuir a distância entre o conhecimento produzido nas universidades e o público em geral.

Se você se interessou, a dissertação está disponível on-line aqui.

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Racismo científico, definindo humanidade de negras e negros

Esse artigo foi pensado para iniciar um diálogo sobre o quanto a ciência contribuiu para a estruturação do racismo na sociedade, hierarquizando humanos e não humanos sendo definido a partir da raça/etnia atribuindo estereótipos negativos aos não brancos.

Os povos indígenas das Américas e os/as africanos/as escravizados/as eram classificados/as como espécies não humanas – como animais, incontrolavelmente sexuais e selvagens. O homem europeu, burguês, colonial moderno tornou-se um sujeito/ agente, apto a decidir, para a vida pública e o governo, um ser de civilização, heterossexual, cristão, um ser de mente e razão. A mulher europeia burguesa não era entendida como seu complemento, mas como alguém que reproduzia raça e capital por meio de sua pureza sexual, sua passividade, e por estar atada ao lar a serviço do homem branco europeu burguês (Maria Lugones, 2014).

Nos séculos XVIII e XIX, não havia dúvida quanto a hierarquização social que devia traçar uma linha de escala intelectual que começava com os brancos europeus, os indígenas abaixo dos brancos e os negros abaixo de todos os outros (O Racismo Científico – A Falsa Medida do Homem, Patrick Wesolowski, 2014).

Os/as negros/as e a medida do racismo

As práticas eugênicas e higienistas utilizaram recursos validados pela ciência para definir as raças humanas, em raças superiores e raças inferiores, raças puras e as outras, sendo a supremacia racial branca a referência do belo ou puro. Na saúde o racismo cientifico estruturou a medicina legal, com afigura do perito que, ao lado da polícia, explica a criminalidade e determina a loucura e posteriormente, entra em cena a prática eugenista, que passa a separar a população enferma da sã (Lilian Schwarcz, 1993).

Dessa forma, foram utilizadas algumas teorias que dariam sustentação à continuidade desse projeto médico-eugênico no campo da saúde, como a tese lombrosiana, que atuava a partir da craniometria, ou seja, a medida do crânio, para definir o perfil do criminoso com base nas características físicas e nos seus hábitos, e a teoria do darwinismo social, que apontaria o cruzamento racial como o maior mal para a população, condenando a hibridação das raças e sua consequente degeneração e apostava na seleção natural para a eliminação da população negra.

No Brasil, o projeto médico-eugênico se fortaleceu em dois locais diferentes – na Bahia, com a medicina legal liderada por Nina Rodrigues e no Rio de Janeiro, com a atuação dos médicos higienistas. O tema racial é de suma importância para esse período, pois integra o arsenal teórico na saúde. Na Bahia é a raça, mais especificamente o cruzamento racial, que iria tentar explicar a criminalidade, a loucura, a degeneração.

Imagem a falsa medida do homem

Page from Nott and Gliddon’s ‘Types of mankind’

O determinismo biológico foi (para muitos ainda é) uma afirmação que a forma de ser do humano como suas características intelectuais eram transmitidas de maneira hereditária. A craniometria contribuiu para fortalecer o determinismo biológico por meio de dados precisos referentes aos crânios de diferentes “raças” de pessoas, onde se tinha a inteligência tida como uma entidade única, mantida no cérebro e determinada pelo seu tamanho e pelos detalhes na formação do crânio (A Falsa Medida do Homem, Gould, 1991), na Escala Unilinear das Raças Humanas e Seus Parentes Inferiores, de Nott e Gliddon (1868), demonstra que comparações feitas em imagens com crânios de negros falsamente alargados para se parecerem  com os de chimpanzés, enquanto os crânios dos brancos são considerados “normais”.

Ainda na atualidade as sociedades têm como base o critério do racismo cientifico para definir o perfil de um criminoso, por exemplo, um estudo dos EUA identificou a existência de um viés desumanizador que associa os negros a macacos e que essa desumanização tem consequências reais (Goff et al., 2008 apud Williams; Priest, 2015). Nesse estudo, os pesquisadores examinaram matérias de jornal sobre todos os réus condenados por crimes capitais ao longo de um período de 20 anos, descobriu que essas matérias tendiam a descrever os sentenciados negros, mais do que os brancos, com palavras desumanizadoras como besta, bruto, monstro, sorrateiro.

No Brasil os jovens negros são assassinados a cada 23 minutos, segundo o relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, todo ano, 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são assassinados, mais de 70% dos jovens assassinados no Brasil são Negros e  os jovens são assassinados por conta do legado racista estruturante do País

Em outro estudo sobre estereótipos de negros na cultura americana, sendo mais comuns os estereótipos negativos, o estudo analisou dados do projeto BEAGLE (Bound Encoding of the Aggregate Language Environment). BEAGLE é um banco de dados que contém cerca de 10 milhões de palavras, construído por meio de uma amostra de livros, jornais e outros materiais, com o objetivo de representar a cultura americana e ser comparável ao que uma pessoa americana média, com educação universitária leria ao longo de sua vida (Verhaeghen et al., 2011 apud Williams; Priest, 2015).

A análise estatística sobre a força associativa entre pares de palavras revelou que a palavra ‘negro/a’ estava mais frequentemente associada com, em ordem de frequência, pobre, violento/a, religioso/a, preguiçoso/a, alegre, perigoso/a. Em comparação, a palavra ‘branco/a’ estava com mais frequência associada a rico/a, progressista, convencional, teimoso/a, bem-sucedido/a e educado/a.

Mulheres Negras, cobaias da ginecologia

As mulheres negras passaram por situações de experimentos no campo da ginecologia como cobaias.  O medico James Marion Sims (1813-1883) chamado por muitos “pai da ginecologia moderna” realizava experiências em negras escravizadas nos EUA, ele relatou que “os africanos tinham uma tolerância fisiológica incomum para a dor, que era desconhecida pelos brancos”, desta forma ele não usava anestesia em seus pacientes negros/as.

O médico Sims contribuiu para saúde reprodutiva com inovação de técnicas e procedimentos, no entanto nunca se discutiu como, pois ele na época, inaugurou uma série de longas e chocantes cirurgias ginecológicas experimentais, em mulheres escravas, e tudo feito sem o benefício de anestesia ou qualquer tipo de anti-séptico, o que levava a morte de muitas dessas mulheres.

b0cf0d47902422d69ca823e206be0d73Em um dos seus experimentos foi com uma mulher jovem, escravizada chamada Anarcha, no momento do nascimento do seu filho, dr. Sims  fez uso de uma pinça na cabeça do feto na hora do parto, ele relatava ter pouca experiência de usar o instrumento. O bebê nasceu – nenhum registro se vivo ou morto – e a mãe sofreu várias fístulas, resultando em incontinência.

No inicio do século XX as mulheres negras eram vistas como ameaça para na reprodução das raças dos “grosseiramente degenerados”, então os médicos eugenistas lançam mão de técnicas como a esterilização para o controle de natalidade, a proposta de controle de natalidade da população negra era de “mais filhos dos capazes e menos dos incapazes” (Roland, 1995).

Raça, racismo e gênero foram igualmente importantes para a eugenia, pois era pelas uniões sexuais que as fronteiras entre as raças eram mantidas ou transgredidas. Por isso, a eugenia, gênero e raça ficaram ligados à política de identidade nacional.

Na atualidade as mulheres negras estão mais expostas a sofrer violências institucionais nos serviços de saúde, sendo as que mais morrem de morte materna (60% dos casos), que menos se beneficiam de analgésicos (medicação para dor), menos anestesia na hora do parto, assim como são menos tocadas pelos profissionais de saúde para realização de procedimentos preconizados na consulta de pré-natal, são as mulheres negras também que levam mais tempo esperando para ser atendida e fica menos tempo em atendimento com o profissional.

As práticas racistas realizadas no passado ainda se refletem na atualidade, pois o racismo institucional e a discriminação racial são determinantes no cuidado, no atendimento nos serviços de saúde e na abordagem policial, estes são os legados que a ciência racista deixa na construção de uma sociedade hierarquizada racialmente, determinando lugares, oportunidades e privilégios, definindo humanos e não-humanos.

Referencias:

LUGONES, María. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 22, n. 3, jan. 2015.

ROLAND, Edna. Direitos Reprodutivos e Racismo no Brasil. Estudos Feministas, n. 506, ano. 3. Rio de Janeiro, 1995.

SCHWARCZ, Lilia. As faculdades de medicina ou como sanar um país doente. In: _____. O Espetáculo das Raças. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

WESOLOWSKI, Patrick. O Racismo Científico – A Falsa Medida do Homem, Geledes, 2014

Williams, D. R., & Priest, N. Racismo e Saúde: um corpus crescente de evidência internacional (Racism and Health: A Growing Body of International Evidence). Sociologias , 17 (40), 124-174., 2015.