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Linha do Tempo Invertida e Informação Quântica

Demonio_Maxwell_1

Créditos: Wang Guoyan e Chen Lei

Em meio a todo o pesadelo da física do ensino médio (incluindo os mnemônicos constrangedores para memorização de fórmulas) a termodinâmica sempre me pareceu a frente mais amistosa. Sem muito sofrimento, absorvi logo a ideia de que as coisas são feitas de partículas, que formam, átomos que formam moléculas… E que tudo isso se mexe, o tempo todo, numa escala de espaço muito pequena para ser observado diretamente pelos nossos olhos. Me pareceu também um conceito razoável dizer que um corpo está “quente” quando suas moléculas estão muito agitadas e, conforme elas “esbarram” em outras menos agitadas, vão perdendo energia até que todo mundo esteja mais ou menos na mesma vibe, com o perdão do trocadilho.

 Descobri depois que uma importantíssima lei da física enuncia que não é possível acontecer o inverso: não dá pras partículas mais quietas, por uma ação delas mesmas, apaziguarem as mais agitadas. Em outras palavras, se existe um esquema fechadinho na natureza e as coisas dentro dele estão em um certo “nível de bagunça”, esse nível de bagunça sempre permanece o mesmo ou piora. Chamamos o “nível de bagunça” de entropia e essa é a Segunda Lei da termodinâmica. [Três físicos teóricos acabam de morrer após essa simplificação]*. Usamos essa lógica por muito tempo, sempre que precisamos transferir calor de um lugar para outro: o calor flui do quente para o frio, sempre nessa direção e, se quisermos fazer o contrário, precisamos de uma forcinha externa. 

 

AÍ ~OS FÍSICO~ RESOLVEM FRITÁ.

Um belo dia, vem o sr. James Maxwell (cuja aparente função na história da ciência era “causar”) numa tarde de chuva (só pode!) propondo o seguinte exercício de imaginação: “e se a gente pudesse, dentro do sistema fechadinho, separar as moléculas agitadas das calmas? Se um pequeno “demônio” ficasse lá dentro e direcionasse as agitadas pra um lado e as calmas para o outro?”

UUUhhhh.. a galera pirou. Fritou. Gaguejou. O experimento mental ficou conhecido como “O demônio de Maxwell”. Todo mundo tentando explicar que OBVIAMENTE não dava pra fazer isso e, mesmo que houvesse um “demônio” (ou qualquer dispositivo que cumprisse o mesmo papel), isso violaria a Segunda Lei. Mas o óbvio, meus amigos, não é nada fácil de se explicar. E na física não dá só pra dizer que “não dá”. Não dá pra torcer o narizinho e dar as costas quando não gostamos de uma pergunta. Na física, tem que explicar PORQUÊ não dá. 

 

E DAÍ QUE DÁ SIM.

Conforme os nossos conhecimentos sobre o mundo “microscópico” foram avançando, conseguimos criar, teoricamente, ferramentas que bloqueassem as partículas menos agitadas no sistema, sem um gasto relevante de energia e dentro da mais pura, bela e rebuscada lógica da ciência – sem escândalo. Lindo, lindo mesmo. Umas contas, uns modelos… vocês precisam ver. Mas o povo quer o que? O povo quer internet instantânea. O povo quer os jogos rodando na mais perfeita brisa do cooler. O povo quer cerveja gelada espontaneamente em 30 segundos. E isso exige menos perda de calor já! Mas aí é que tá a boniteza da física teórica, vanguardista – uma vez aberto o portal:

 

SEGURA ESSE DEMOGORGON, JAIME MACSSUEL, PORQUE O MUNDO INVERTIDO CHEGOU.

Metendo o pé com ciência brazuca, a publicação da Nature Communications relata o experimento que foi capaz de observar o fluxo espontâneo e invertido do calor. O bonde formado por pesquisadores da Universidade Federal do ABC (Associados da Balbúrdia Comunitária**) em conjunto com o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) (“B” de Brasil, né meu povo), o Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF – USP) e colaboradores internacionais observou qubits (qubit is the new bit) levados a diferentes temperaturas utilizando ressonância magnética nuclear e, posteriormente, o fluxo de calor do qubit mais frio para o mais quente. A sacada foi o estado inicial do sistema: as partículas observadas (qubits) possuíam uma conexão entre si, chamada “correlação quântica”, que mantém as informações dessas partículas “conectadas” ainda que elas estejam muito distantes uma da outra. Nada místico no laboratório: muita conta, suor, medida e investigação. Toneladas de ciência. Conforme essa conexão “enfraquece”, a soma das entropias (aquela desordem) individuais diminui e o calor flui no sentido chocante. AUGE. A tal correlação entra como um ente no sistema isolado, mantendo a Segunda Lei a salvo. [Físicos respiram].

Você tá achando tudo isso Black Mirror demais? Porque eu não acabei… O que o experimento pôs em xeque foi a irreversibilidade de certos processos físicos. Isso porque ressignificar a variação de entropia relativiza também a famosa “linha do tempo” (Arthur Eddington) e sua direção única possível, uma ideia baseada justamente na concepção de processos irreversíveis. É a física quântica estapeando o senso comum. Além disso a causa da troca estranha de calor parece relacionada à troca de informação, e é incrível que esses conceitos estejam de fato ligados entre si. 

O resultado deste importante experimento se reflete, por exemplo, na nossa atual concepção do Cosmos: as coisas aconteceram mesmo na ordem que pensávamos ser “obrigatória”? A computação quântica e o domínio sobre esse tipo de informação, por sua vez, nos permitem vislumbrar computadores muito mais rápidos e criptografias invioláveis [certos juízes respiram…], resolvendo o “gargalo” mundial de transferência de dados e nos levando a uma dimensão de informação ainda não imaginável – não como carros voadores e roupas prateadas. Computadores quânticos são uma realidade (ainda não acessível financeiramente) e os experimentos de transferência instantânea de informação estão entre nós. Apesar da magnitude espacial do experimento da troca de calor “invertida”, os autores afirmam não haver razão para que isso não funcione em larga escala. Por hora, você pode conseguir ajuda com a coisa da cerveja com essas rainhas da engenharia aqui. Eu sei que quântica parece ficção, mas a ciência nos trouxe pelos séculos através de sua estrutura sólida, sempre ampliando os horizontes visualizados “sobre os ombros de gigantes”. Não vamos fechar os nossos olhos a ela. Leiam textinhos, discutam ciência no bar, combatam a desinformação, se hidratem, troquem calor. Reinventem. 

Já falou com seus demônios hoje?

 

*Houve protesto quanto a essa afirmação (por parte da física teórica).

**Na sigla da Universidade Federal do ABC, “ABC” se refere às cidades do ABC Paulista  e a menção é apenas mais uma brincadeira do texto.

 

Referências

  1.  NATURE COMMUNICATIONS | (2019) 10:2456 | https://doi.org/10.1038/s41467-019-10333-7 | http://www.nature.com/naturecommunications
  2. http://agencia.fapesp.br/experimento-inverte-o-sentido-do-fluxo-de-calor/30700/
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O modelo de Ising e comportamento críticos: dos spins eletrônicos às escolhas nas eleições

OU da aplicação de memes do Choque de Cultura em um texto sobre ciência

Você sabe o que é spin eletrônico? Na mecânica quântica o termo spin eletrônico está ligado às orientações que o elétron podem apresentar. O spin está ligado ao vetor momento angular próprio de uma partícula.

Entendeu?

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Não entendeu?

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Então vem comigo e RODA O VETÊ, SIMONE.

Bom, imagina o elétron. Ele é uma partícula muito pequena, tão pequena que a gente fala que em comparação ao átomo (que já é muito pequeno) o tamanho dele é desprezível. Muito pequeno mesmo, tão pequeno que era menor que o short curtíssimo, extremamente provocante que o Renan usou porém não recebeu nenhum olhar. Mas a gente sabe que o elétron se movimenta em torno do átomo e precisa representar esse movimento de alguma forma, não precisa? A forma mais interessante de representar essa situação toda é através de um vetor (que é representado por uma seta) já que um vetor tem módulo, direção e sentido definidos. O bacana de usar um vetor nessa representação é que eles possuem sentido físico e matemático. Então é possível fazer contas para representar matematicamente o seu comportamento. Legal, não é?

Aí entra o Ising.

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Ernest Ising e sua fantástica esposa Johanna Annette Ehmer Ising durante um acampamento de verão

Ernest Ising (1900-1998) foi um físico alemão que teve uma vida muito tranquila e escreveu o modelo conhecido como Modelo de Ising, recebeu muita pompa e muito confete a vida inteira e morreu com 98 anos, rodeados por seus 4 filhos, 14 netos e 2 cachorros: Ponzo e Lila. Bacana, não é?

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A vida de Ising foi muito instável e um pouco triste também, gente.

Aviso: esse texto agora vai tomar um ar bastante sério.

Ele foi um rapaz muito inteligente e bastante precoce, nasceu em 10 de maio de 1900 na cidade de Colônia, na Alemanha. Sua mãe era Thekla Ising Lowe Nee e seu pai era Gustav Ising, a família trabalhava no comércio. Aos 2 anos Ising se mudou para a cidade de Bochum onde Ising passou a infância e iniciou os estudos. Em 1919, quando completou 19 anos, nosso protagonista iniciou os estudos na Universidade de Göttingen onde estudou física e matemática. Os anos de 1922 a 1930 foram dedicados aos estudos de pós-graduação de Ising e também à sua vida pessoal, já que em 1930 ele se casou com Johanna e se tornou “studienassessor” (o que seria equivalente ao título de professor de ensino superior nos anos iniciais da profissão, antes da aprovação em estágio probatório) em uma respeitada instituição Alemã.

Queria ressaltar uma coisa, Johanna também era acadêmica. Ela estudou economia na Universidade Frederick William em Berlim. Em 1926, Ising escreveu uma tese sobre “O problema do desemprego na Inglaterra depois de 1920 e recebeu seu diploma de doutorado”

Mas o ano de 1933 chega e traz a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha. E um detalhe que não deveria fazer diferença alguma e que eu não contei ainda sobre Ising: ele era judeu.

Ising (assim como quase todo trabalhador judeu) foi demitido e ficou por um tempo em trabalhos informais até se fixar, posteriormente, em uma pequena sala de aula. No entanto, no fim de 1938 a escola onde Ising trabalhava foi totalmente devastada pois era parte do “programa de governo” que planejava expulsar e extinguir o povo judeu da Alemanha.

No dia 27 de janeiro de 1939, Ising foi interrogado por muitas horas depois que ele foi levado pela Gestapo (Existe divergência entre os biógrafos se Ising sofreu ou não tortura física neste interrogatório e  na “minha opinião pessoal” eu acredito que sofreu sim). Ising e sua esposa se veem, então, obrigados a deixar o país e se mudam para Luxemburgo, onde realizam trabalhos pesados para garantir sua subsistência. No ano de 1947, finalmente, Ising e Johanna se mudam para os EUA onde conseguem retomar suas carreiras acadêmicas como professores universitários.

Em meio a esses anos de estudo voltados à sua pós-graduação, Ising escreveu seu modelo que tratava dos comportamentos críticos dos spins eletrônicos, chamado contemporaneamente de modelo de Ising. Ising estava no doutorado e seu orientador, Wilhelm Lenz, estava estudando fenômenos ligados ao magnetismo em alguns materiais. Ising propôs um modelo onde os spins são definidos como variáveis discretas que podem assumir o valor de +1 ou -1. A interação entre os spins sempre acontece em pares e a energia possui um valor quando os dois spins são iguais e outro valor quando os spins da interação são diferentes. Algo que pode ser mostrado como:

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Se nós considerarmos um conjunto grande de spins que estão interagindo sob a ação de acontecimentos comuns a toda a população de spins, existe uma alteração importante no efeito da coletividade quando o local onde os spins estão sofre um aumento de temperatura. O nome disso é perda do fenômeno de histerese, que é justamente essa capacidade de agir como um agrupamento coletivo que tem suas propriedades dependentes dos fenômenos aplicados anteriormente ao sistema.

Um estudo de 2017 de Juan Carrasquilla e Roger G. Melko mostrou que arquiteturas modernas de aprendizado de máquina, como redes neurais totalmente conectadas, podem identificar fases e transições de fase que seguem o modelo de Ising.

Mas quando lemos a frase “existe uma alteração importante no efeito da coletividade quando o local onde os spins estão sofre um aumento de temperatura” a gente logo pega a referência, não é? Dando um salto (enorme) do micro pro macro, vemos que as populações também se comportam dessa forma.

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Inclusive, outro estudo importante, também de 2017, da equipe do pesquisador Pinkoviezky mostrou algo ainda mais surpreendente: que a tomada de decisão coletiva também pode ser explicada pelo modelo de Ising.

Bom, sabemos que a tomada de decisão coletiva crucial para grupos de diversos animais, inclusive dos humanos. Uma forma de pensar, simplificando esse fenômeno, é um cenário de dois subgrupos que possuem direções de movimento preferidas conflitantes. Direita e esquerda, por exemplo, rs. Quanto mais coeso o grupo, de forma mais unitária ele conduz o movimento para um compromisso ou para um dos alvos preferidos. O estudo mostrou também que o movimento do grupo muda de forma dependente do tamanho em altas temperaturas (que seriam situações de grande perturbação, comparados no trabalho com a desinfomação). Dessa forma os cientistas perceberam a existência de uma dinâmica geral muito semelhante com o papel da temperatura sendo medida e comparada pelo inverso do número de indivíduos desinformados.

A equipe de Pinkoviezky publicou um estudo em 2018 aplicando o modelo de Ising a tomada de decisão do indivíduo, baseada em seu comportamento cerebral. Citando os autores, em livre tradução:

“A velocidade instantânea do grupo desempenha o papel da taxa de disparo dos neurônios enquanto a posição do grupo é a taxa de disparo integrada.

Podemos, portanto, propor que os tamanhos dos grupos neuronais e seus níveis de ruído intrínseco possam ser otimizados em redes que controlam os processos de tomada de decisão. Essa analogia pode ser mais explorada no futuro.”

O grupo pretende expandir o modelo futuramente incluindo situações como transformar em variáveis a força das situações sociais dependente da história do indivíduo e, também, dar a cada indivíduo mais de duas opções.

Dessa forma observamos que modelos usados para descrever comportamentos de partículas também podem ser aplicados ao estudo de populações. Observamos também que é possível sim usar memes do Renan, nosso guerreiro, para tornar mais leve um texto sobre aplicações de estudos físico-químicos.

De forma geral:

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Referências:

ISING, Ernst. Beitrag zur theorie des ferromagnetismus. Zeitschrift für Physik, v. 31, n. 1, p. 253-258, 1925.

SANTOS, Murilo Lacerda. Simulação de monte carlo no modelo de Ising na rede quadrada. 2014. Tese de Doutorado. Dissertação (mestrado em física)–Universidade Federal de Minas Gerais. UFMG.

PINKOVIEZKY, Itai; GOV, Nir; COUZIN, Iain. Ising model for collective decision making during group motion. In: APS March Meeting Abstracts 2017.

CARRASQUILLA, Juan; MELKO, Roger G. Machine learning phases of matter. Nature Physics, v. 13, n. 5, p. 431, 2017.

PINKOVIEZKY, Itai; COUZIN, Iain D.; GOV, Nir S. Collective conflict resolution in groups on the move. Physical Review E, v. 97, n. 3, p. 032304, 2018.

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Gases quânticos ultrafrios presos em cristais de luz

Na física da matéria condensada existem diversos estudos em cristais para entender suas estruturas e propriedades. Uma das mais conhecidas aplicações desse tipo de estudo é em componentes semicondutores que estão amplamente presentes em equipamentos de tecnologia. Além disso, uma recente descoberta (aproximadamente 13 anos), o grafeno possui uma excelente estrutura cristalina com inúmeras aplicações. Essa área de estudo tem muitos problemas fundamentais em aberto e é aí que entra uma as aplicações de gases quânticos ultrafrios em redes ópticas: usar esses sistemas como ferramentas de simulação para cristais como o grafeno. Uma outra área da física que pode tirar muito proveito do conceito de gases quânticos ultrafrios em redes ópticas é a computação quântica. Esses sistemas podem ser usados para fazer operações quânticas e processamento de informações. Tal sistema usando redes ópticas ganhou destaque por meio do físico Immanuel Bloch com o seu artigo publicado na Nature[1].

Uma técnica muito utilizada para o estudo de átomos ultrafrios armadilhados é o sistema em que as armadilhas são magnéticas, em que o átomos são presos nas armadilhas pelo seu spin atômico. Mas ele possui uma limitação: por se tratar de spins, apenas um pequeno subconjunto dos estados atômicos disponíveis podem ser armadilhados pela rede. Já no caso de redes óticas, não existe essa limitação. O sistema é formado por átomos aprisionados em poços de potencial periódicos formados pelas redes óticas e não pelo momento angular de spin. Essas redes, então, são capazes de “armazenar” esses átomos frios em sua estrutura por meio de armadilhas de dipolos, criando um poderoso modelo de sistema de muitos corpos.

Para formar tais potenciais periódicos são usados feixes de laser propagando em direções opostas. Ao interferir apenas dois feixes, uma rede de uma dimensão (1D) é criada, formando um único padrão de interferência de uma única onda estacionária com um período de λL/2. Ao interferir duas ondas estacionárias ortogonalmente é possível criar um conjunto de tubos de potencial 1D, no qual o átomo só pode se mover no eixo dos tubos, conforme mostrado na figura 1a. Para criarmos uma rede em três dimensões o procedimento é análogo, basta interferir uma terceira onda estacionária perpendicularmente às outras duas. Agora, conforme ilustrado na figura 1b, podemos ver que o átomo fica completamente preso em pontos determinados pela rede, não podendo se mover de forma alguma.

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Uma outra vantagem de usar redes óticas para aprisionar átomos é o fato de a profundidade do poço de potencial (energia potencial cuja curva no eixo do espaço tem o formato de um poço) e a sua geometria estarem totalmente sob controle. É possível mudar a profundidade do poço mudando a intensidade dos feixes do laser e é possível mudar a geometria apenas mudando o ângulos dos feixes do laser.

 

Um potencial periódico formado por uma única onda estacionária terá a seguinte forma descrita pela figura 2.
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Uma aplicação desse sistema é mapear estados de Bloch na n-ésima banda de energia em uma partícula livre na n-ésima banda de Brillouin. Diminuindo adiabaticamente a profundidade do potencial da rede, ou seja, não há troca de energia entre a rede e a partícula, o momentum de cristal da excitação é preservado podendo então ser mapeado no momento da partícula livre na zona de Brillouin correspondente, conforme ilustrado na figura 3.

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Esse tipo de sistema pode ser estudado de diversas maneiras e tem sido uma grande fonte de descobertas tanto para a física da matéria condensada quanto para a mecânica quântica.

 

Referência do texto e das figuras:

[1] Bloch, Immanuel. “Ultracold quantum gases in optical lattices.” Nature Physics 1.1 (2005): 23-30.

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Luz superfluida: conheça e entenda porque ela pode mudar os meios de comunicação

Super Duper Luz! É que nem a música: a luz sai transbordando (de amor) por aí!

 

Se você já leu algum dos meus textos deve ter notado que eu gosto muito de assuntos super maneiros! E hoje, para variar um pouco, vou te contar sobre outra coisa… também super!

Superfluidez é show! Mas vamos revisar umas paradas antes…

Primeiramente, fora temer! vamos lembrar que existem quatro estados da matéria: sólido, líquido, gasoso e plasma. Na definição básica, fluido é toda a substância que se deforma continuamente quando a gente aplica tensão. Por exemplo, fluidos tomam a forma do recipiente que os contêm. A água toma a forma do copo ou da jarra; o ar preenche todo o espaço disponível para ele, seja uma caixinha ou uma sala. Sendo assim, 3 dos 4 estados da matéria podem ser fluidos e são eles os estados líquido, gasoso e plasma. Beleza? Beleza, então!

E viscosidade? A gente mede a viscosidade de um fluido para saber o quanto ele se deforma quando uma tensão é aplicada sobre ele. Vou te fazer outra pergunta. Quem é mais espesso: água ou mel? Aí você me responde: Mel é bem mais espesso que água, mais grosso. É isso! Um que fluido é mais viscoso, mais espesso que outro, precisa que a gente aplique mais tensão (força!) para ele escorrer. Você faz menos força para tirar o ketchup do pote quando põe um cadinho de água lá dentro pra diminuir a viscosidade. Ahá! Sim, você mistura água para alterar a viscosidade do ketchup! Segundo parágrafo e a sua experiência colocando ketchup no hambúrguer nunca mais será a mesma!

Bom, recapitulando. Fluidos podem ser líquidos, gasosos ou plasmas. Viscosidade é o quanto de tensão (força!) um fluido precisa para se mover sobre uma superfície.

Agora, sim! Superfluidez, minha gente!

Em condições extremamente especiais um fluido pode se comportar como se tivesse perdido TODA a viscosidade! Sem paradas, sem barreiras! Transbordando muro afora! E isso é legal porque se um fluido perde a viscosidade, ele não perde energia por conta do movimento (energia cinética). Então, imagina água escorrendo rio adentro sem perder velocidade, tão rápida quanto quando caiu da cachoeira, não importando se tem pedras no caminho ou nada. Ela fluiria perfeita, sem fazer uma ondinha sequer, nem nas bordas! Imaginou? Assustador, né? Ainda bem que água não é o tipo de fluido que pode fazer isso.

Mas, na década de 1930, cientistas descobriram que o hélio líquido apresenta esse comportamento sinistro quando sua temperatura está próxima de -273 graus Celsius, o famoso zero absoluto! Nesse caso, o hélio líquido transborda todo o recipiente, não existe barreira para ele, não tem frasco que o detenha! A essa fase especial da matéria deram o nome de superfluidez. E haja condição especial para isso acontecer, não é mesmo?

Isso acontece porque, quando a temperatura do hélio líquido fica próxima do zero absoluto, as características quânticas de cada um dos seus átomos começam a sobrepor umas às outras, como se elas fossem se somando. E o conjunto de átomos, agora todos com a mesma energia, passam a agir como se fossem um único átomo, como se fosse formassem um fluido de uma partícula só. Cientistas chamam esse efeito de condensado de Bose-Einstein: todas as partículas de um fluido ficam presas no mesmo estado fundamental, que é o estado de energia mais baixa daquele sistema.

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O Bose. O Einstein. BAM! Condensado! #sqn

Luz pode se comportar como onda, partícula E fluido!

Nessa época de 1930 a galera imaginava que a luz também pudesse ter estado superfluido, sem viscosidade nenhuma. Mas não conseguiram provar muita coisa.

Só em 2010, Patricio Leboeuf e Simon Moulieras conseguiram mostrar (nesse artigo) que, se a temperatura for muito próxima do zero absoluto, a luz pode apresentar estado de superfluidez quando propagada num meio não linear. (Vamos simplificar a vida e dizer que meio não linear é um meio cheio de imperfeições. O tamanho das imperfeições é da mesma ordem do objeto que atravessa o tal meio. No nosso caso o objeto é a luz e o tamanho é o comprimento de onda dela. Lembra que a luz tem diferentes frequências? Rádio, luz visível, raio-x, etc são frequências e cada uma tem seu comprimento de onda.)

Semana passada, um pessoal da França e do Canadá publicaram um artigo na Nature mostrando que *música de suspense* a luz pode apresentar estado de superfluidez a temperatura ambiente!!! Uau, né não?

Pensa que toda a informação transmitida (toda, toda mesmo) é transmitida na forma de luz (na maioria das vezes em frequências que não podemos ver, mas ainda sim é luz). Agora, pensa o quão maravilhoso seria a informação ser transmitida sem perder energia por conta de impurezas, ignorando o nozinho na fibra ótica ou os grãos de poeira do caminho. Foi isso que esse pessoal descobriu que é possível: luz passando pelos fios e cabos como se nada pudesse pará-la ou mudar a informação contida nela. Tudo isso acontecendo em temperatura ambiente, sem necessidade de -273 (loucos) graus Celsius!

Ok! Na verdade, na verdade o que eles mostraram é que isso é possível. No experimento, o pessoal do Canadá colocou um filme orgânico ultra fino entre dois espelhos super refletores. E quando a luz passava pelo filme, refletindo de um lado para outro por causa dos espelhos, eles obtiveram um fluido híbrido composto de matéria (do filme) e luz. Essas partículas híbridas têm o nome (engraçado) de excítons.

Essa imagem é do trabalho do pessoal do Canadá. Você está vendo uma representação do que acontece quando excítons encontram um obstáculo no regime supersônico (acima) e no regime superfluido (abaixo). Crédito: Polytechnique Montréal.

E dá-lhe de trabalho para fazer daqui por diante! Porque o mais importante era conseguir provar que era possível. Nos próximos anos vai ter gente investigando superfluidez à temperatura ambiente para outros tipos de partículas híbridas (sim, existem outras!). Outros grupos vão procurar à temperatura ambiente mas com a luz passando por meio não lineares, completando o trabalho do Simon e do Patricio. Muito mais coisa que eu nem sei vai vir por aí. Mas uma coisa é certa: luz superfluida estará um dia modificando nossos meios de comunicação. E, com sorte, a gente vai ver acontecendo.

 

Referências:

Physicists show that superfluid light is possible”. Phys Org. 2010.

A stream of superfluid light”.Science Daily. 2017.