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Você é o que você come ou diga-me com quem andas e lhe direi quem você é? A evolução humana e a importância da dieta e da sociedade

O tamanho do nosso cérebro está associado a nossa complexidade cognitiva. E por isso, tem sido alvo de curiosidade por parte do público em geral e de pesquisadores.

 

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Adaptado da Nature Ecology & Evolution. Crânios da esquerda para direita: lemur, vervet, orogotango, babuíno, chimpanzé e humano

 

 

Katherine Milton que estuda macacos bugios no Panamá há mais de 36 anos e atualmente é pesquisadora na Universidade de Berkeley, já em 1987 escreveu um capítulo no livro “Food and evolution” (sem tradução para o português) em que olhando para os trabalhos disponíveis na época, associou dieta em diversos primatas não humanos com tamanho de intestino e de cérebro; ela queria entender como a dieta estava relacionada com a evolução do cérebro humano. Seu trabalho, contudo contava com muito poucos dados de dieta, simplesmente porque havia na época poucas pesquisas de campo. *E ainda há, mas isso é história para outro texto.

Anos depois, em 1988, Dunbar da Universidade de Oxford, no Reino Unido, argumentou que cérebros evoluíram para ajudar os primatas a gerenciar grandes redes sociais. Seria o desafio de reconhecer e memorizar todos os indivíduos do seu grupo, identificar comportamentos que lhe sejam favoráveis – como receber carinho, de comportamentos que lhe prejudique – como não compartilhar alimento, que teria selecionado os indivíduos com maiores capacidades cognitivas – que é associado a um grande volume de massa cerebral. Essa seria a “hipótese do cérebro social”. E desde então, Dunbar vem conquistando mais e mais adeptos.

 

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Macaco-prego comendo raíz. Foto por Mari Fogaça

 

Até que um estudo liderado por uma pesquisadora, doutoranda – aquela que está desenvolvendo uma tese que passará por avaliação de pares e sendo aprovada confere o título de doutor – pela Universidade de Nova York: Alex DeCasien trouxe a discussão sobre o que foi mais importante como pressão evolutiva para o desenvolvimento de um grande cérebro: dieta versus socialidade de volta para o centro das atenções. Alex tinha como objetivo descobrir se os primatas monogâmicos – que estabelecem relações sexuais apenas com um indivíduo, tinham cérebros maiores ou menores do que as espécies mais promíscuas. Ela coletou dados de mais de 140 espécies de primatas não humanos que vivem em todo o mundo, e calculou quais dessas características tinham maior probabilidade de estar associadas a cérebros maiores. Para sua surpresa, nem a monogamia nem a promiscuidade previram algo sobre o tamanho do cérebro de um primata. O único fator que parecia predizer quais espécies tinham cérebros maiores era se suas dietas eram compostas principalmente por folhas ou frutas! 

O estudo publicado na Nature Ecology & Evolution, compilou dados existentes sobre o 1) tamanho do cérebro 2) tamanho corpo, 3) grau de socialidade e 4) a classificação da dieta (onívoros – comem de tudo um pouco, herbívoros – se alimentam de folhas, frugívoros – se alimentam de frutas e aqueles que comem folhas e frutas. 

Esses dados foram então cruzados para tentar achar relação entre tamanho relativo do cérebro (tamanho do cérebro em relação ao tamanho corporal) com tipo de dieta e com grau de socialização; testando assim as hipóteses que o que teria levado ao aumento do cérebro em primatas (e, portanto, dos nossos cérebros também) seria a dieta ou os desafios da convivência em sociedade.

Ela e seus colaboradores concluem que os cérebros grandes dos primatas podem ser devido à dieta dos animais, e não ao seu comportamento social, desafiando uma teoria de Duban que vinha sendo a mais aceita.

Diferentemente do trabalho da Katherine, esse contém um grande tamanho da amostra e métodos estatísticos robustos. E vem conquistando apoiadores de peso como o Richard Wrangham, da Universidade de Harvard que disse à revista Science que “O artigo é extremamente valioso”. 

Mas nem tudo são flores, na ciência pesquisadores estão sempre a procurar algum ponto fraco nos trabalhos. Estes resultados não convenceram Dunbar, que argumenta que os resultados apenas relacionam que uma dieta rica em nutrientes, permite a evolução de cérebros maiores, mas não oferece dados para provar que por si só foi uma pressão evolutiva seletiva (também para a Science). 

Em adição, Katherine Milton (sim! ela novamente), sugere que as frutas fornecem

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Macaco-prego comento fruto. Foto por Mari Fogaça

energia para a formação de um cérebro, mas que a pressão seletiva por trás dessa relação são adaptações cognitivas para que os primatas procurem e achem frutas. Isso porque localizar frutas em florestas é mais desafiador do que folhas. Além disso, algumas frutas encontram-se encapsuladas como côco e os animais precisam, portanto lidar com o quebra cabeça para acessar.

 

E você, depois de ler opiniões tão divergentes, em qual resposta apostaria? Deixe seu comentário.

 

PARA SABER MAIS:

Livros:

Daniel Lieberman. A história do corpo humano.

Suzana Herculano-Houzel. A vantagem humana.

Artigos científicos:

Alex R. DeCasien, Scott A. Williams, e James P. Higham. Primate brain size is predicted by diet but not sociality. Nature Ecology & Evolution

Katherine Milton. Distribution Patterns of Tropical Plant Foods as an Evolutionary Stimulus to Primate Mental Development. American Anthropologist 

Katherine Milton. Primates Diets and gut Morphology: Implications for Human Evolution. In: Marvin Harris e Eric Ross. Food and Evolution Toward a Theory of Human Foods Habits

Leslie C. Aiello, e Peter Wheeler. The Expensive-Tissue Hypothesis: The Brain and the Digestive System in Human and Primate Evolution. Current Anthropology

Robin Dunbar. The social brain. The evolution anthropology