0

O admirável mundo novo é aqui: o desenvolvimento de fetos em ambiente extra-uterino

No livro Admirável Mundo Novo, de 1932, Aldous Huxley descreveu uma sociedade distópica do futuro, na qual fetos humanos se desenvolviam fora do útero até o momento do “nascimento”.  Em 2017, a pesquisadora Emily Patridge e seus colegas do The Children’s Hospital of Philadelphia Research Institute nos mostram que isso pode ser uma realidade. Com o avanço dos estudos na área da saúde, já é possível manter vivo prematuro extremo, ou seja, uma criança nascida entre 23-25 semanas de gestação. No entanto, para garantir a sobrevivência dos prematuros extremos, estes são mantidos em incubadoras dentro de unidades de terapia intensiva, aguardando a maturação final dos órgãos, especialmente os pulmões, através da administração de medicamentos como corticoides que ampliam o volume e aceleram a drenagem do líquido amniótico dos pulmões. Além disso, a exposição dessa criança ainda em formação ao ambiente externo ao útero aumenta o risco a infecções, o que diminui a possibilidade de sobrevivência. Com o intuito de reduzir os casos de infecção e facilitar o amadurecimento dos pulmões de forma mais natural, Emily Partridge e seus colaboradores criaram um sistema fechado que mimetiza o ambiente uterino, chamado Biobag: uma bolsa plástica transparente que pode ser hermeticamente fechada preservando o ambiente interno. Dentro da Biobag, um feto de carneiro foi mantido submerso em uma solução equivalente ao líquido amniótico, com seu cordão umbilical ligado a um sistema que funciona como o organismo da mãe: “limpa” o sangue do feto ao retirar gás carbônico e impurezas, e ao mesmo tempo injeta nutrientes e oxigênio. Nesse sistema, os pesquisadores conseguiram ver o desenvolvimento dos animais. A Biobag é formada por um plástico translúcido o suficiente para permitir a observação externa sem comprometer o desenvolvimento dos olhos do feto já que não há barriga para protegê-los da luz. A equipe observou que o aparato manteve os fetos saudáveis durante seu desenvolvimento natural por quase um mês, tempo suficiente para um feto de carneiro se desenvolver e nascer naturalmente. Ao término dos procedimentos, foi verificado que os pulmões estavam totalmente maduros, não houve nenhum tipo de infecção nem indício de problemas no desenvolvimento cerebral, mesmo sem nenhum tipo de intervenção farmacológica. Comparado a todas as tentativas anteriores de promover o desenvolvimento de fetos de cobaias, esse foi a mais bem-sucedida.

Se por um lado a medicina ajuda a salvar vidas, por outro pode prolongar uma vida que, naturalmente, seria perdida. De fato, nenhum feto nascido com 25 semanas de gestação sobreviveria sem auxílio médico. No entanto, cerca de 50% destes prematuros sobrevivem. Dos sobreviventes, a maioria cresce com problemas neurológicos e comportamentais. Considerando-se que o objetivo da bioética é “buscar benefício e garantia da integridade do ser humano, tendo como fio condutor o princípio básico de proteção à dignidade humana” (Bezerra et al, 2014), no caso de um neonato, quem determina o que é melhor para ele: os pais ou a equipe médica? E, independente de quem escolha, em que basear a escolha? É importante ressaltar que além do acesso a técnicas médicas, fatores culturais e religiosos muitas vezes influenciam as decisões, trazendo mais atores para a decisão mais ética.

No caso do aparato usado por Emily Patridge e seus colegas, alguns especialistas em reprodução humana e os próprios autores do trabalho levantam mais algumas questões éticas. Como testar esse dispositivo em seres humanos? Seria ético testar em fetos que seriam abortados? Seria ético colocar um prematuro que foi abortado espontaneamente em uma Biobag? As mulheres seriam estimuladas a dar à luz antes da hora para voltar ao trabalho mais cedo? O parto prematuro seria uma opção de redução do tempo de gravidez mesmo sem risco para mãe e feto?

À medida que a real ciência avança, temos que analisar os inúmeros dilemas éticos para não virarmos uma distopia de pesadelo parecida com as que consumimos por entretenimento.

Referências

Emily Patridge et al. An extra-uterine system to physiologically support the extreme premature lamb. Nature Communications 8, Article number: 15112 (2017).

Bezerra et al. Ética na decisão terapêutica em condições de prematuridade extrema. Rev. bioét. (Impr.), 22 (3): 569-74 (2014).

Tereza Del Moral, Dilemas éticos no limite da viabilidade. IX Congresso Iberoamericano de Neonatologia-SIBEN

https://www.theverge.com/2017/4/25/15421734/artificial-womb-fetus-biobag-uterus-lamb-sheep-birth-premie-preterm-infantfigura

Anúncios