1

A atividade do cérebro de pessoas quando suas opiniões são desafiadas

Você provavelmente já deve ter entrado em uma discussão com outras pessoas sobre alguma questão política. Principalmente nos últimos anos esses debates têm ocorrido cada vez com maior frequência. Pelo lado positivo isso demonstra que vivemos em uma sociedade livre onde podemos colocar e defender nossas opiniões, também isso beneficia a formação de uma sociedade mais crítica e independente. Porém, esses debates geram conflitos e tensões entre pessoas, as quais, no final das contas, só estão tentando defender uma ideia que elas acreditam ser melhor, mais razoável ou mais lógica. Foi pensando nesse nosso contexto atual que esse artigo Neural correlates of maintaining one’s political beliefs in the face of counterevidence me chamou a atenção. Confesso que passei por diferentes fases lendo e relendo essa pesquisa. Primeiro achei muito interessante, depois comecei a me incomodar com algumas ideias, métodos utilizados e análise de resultados, por fim, decidi que o estudo tinha que ser divulgado e, assim, mais pessoas poderiam julgar e criticar por si mesmas seus méritos e problemas. Mas gostaria de colocar que esse tipo de estudo é complexo não somente na pergunta inicial e delineamento da metodologia por se tratar de um estudo social relacionado com identificação de correlatos neurais, mas também na interpretação dos resultados. Por isso, espero que leiam com uma atitude crítica, porém, não rígida. Ah, e não esperem encontrar uma descrição de como o cérebro de pessoas intolerantes funciona.

Os autores realizaram esse estudo com o objetivo de investigar regiões neurais que estariam envolvidas com a manutenção de crenças em pessoas com opiniões políticas fortes. Suas predições eram de que circuitos neurais relacionados com a formação de modelos internos da própria pessoa (o “self”)  e aqueles envolvidos com emoções negativas seriam mais ativados quando essas pessoas fossem apresentadas a argumentos contra suas crenças políticas, mas menos ativados quando essas mesmas pessoas fossem apresentadas a argumentos contra crenças não políticas. Para isso, 40 participantes foram selecionados a partir de um questionário com uma escala numérica para saber o quanto eles se consideravam politicamente liberais ou conservadores sendo 1 ‘extremamente liberal’ até 7 ‘extremamente conservador, e o quanto concordavam com algumas afirmações que envolviam questões políticas e outras não-políticas em uma escala de 0 a 7, sendo 0 ‘não concordo’ e 7 ‘concordo muito’. Essas pessoas foram selecionadas por responderem que eram muito liberais (entre 1 e 2 na escala) e por responderem que concordavam muito com pelo menos 8 afirmações políticas e 8 não políticas (entre 6 e 7 na escala).

Esses participantes, então, foram colocados em uma máquina de ressonância magnética enquanto eram apresentado, uma de cada vez em uma tela, a essas mesmas 8 afirmações políticas e 8 não políticas, as quais haviam indicado concordar muito anteriormente. A cada afirmação apresentada eram colocados em seguida 5 argumentos desafiando a sua validade. Os argumentos eram exagerados ou distorciam a verdade na maior parte das vezes. Após a apresentação desses argumentos, a afirmação era apresentada novamente e perguntado o quanto eles concordavam com ela na mesma escala numérica anterior (de 0 a 7). Cada pessoa realizou essas etapas do procedimento para cada 16 afirmações individualmente enquanto sua atividade cerebral era registrada pelo método de ressonância magnética funcional. Esse método permite medir o consumo de oxigênio em regiões do cérebro e, assim, acessar indiretamente a atividade cerebral de uma pessoa enquanto esta realiza uma tarefa. Deste modo é possível analisar a atividade neural da pessoa em diferentes momentos e comparar essa atividade quando a pessoa é confrontada com argumentos contra sua crença política ou não política. Da mesma forma é possível avaliar suas respostas na escala numérica e observar se as pessoas mudaram seu grau de concordância sobre a afirmação após terem sido confrontadas com os argumentos. Assim, a atividade neural de pessoas que demonstram mais flexibilidade com suas crenças pode ser comparada com a  de pessoas não tão flexíveis.

A partir das respostas sobre o grau de concordância com as afirmações após os 5 contra argumentos, foi observado que os participantes mudaram suas repostas e diminuíram o grau de concordância em relação às afirmações. Porém, essa mudança foi mais proeminente com afirmações não políticas. Eles observaram, em média, uma diminuição da escala de 0.31 para afirmações políticas e diminuição de 1.28 para não políticas. A comparação da atividade neural enquanto participantes liam os contra argumentos políticos em relação quando liam os contra argumentos não políticos, mostrou um aumento de atividade em  regiões (figura 1) como o córtex pré frontal medial, lobo parietal inferior e lobo temporal anterior, regiões relacionadas a Rede de Modo Padrão (Default Mode Network) apontando a existência de uma relação entre a manutenção de crenças muito fortes (neste caso políticas) com a ativação dessa rede neural. Os pesquisadores defendem que essa rede, por estar relacionada com funções auto-referenciais, se ativa enquanto pessoas são confrontadas com argumentos contrários a suas crenças mais fortes, pois elas estariam realizando uma auto-análise, integrando informações internas a fim de obter um significado coerente daquilo ao qual foram expostas.     fig1-blogFigura 1. Regiões mais ativadas quando comparada a atividade cerebral dos participantes quando eram apresentados argumentos contrários a suas crenças políticas comparada com a atividade para os argumentos contrários às crenças não políticas.

Outro resultado demonstrado por esse estudo foi de que há uma correlação negativa entre ativação do córtex insular dorsal anterior e a amígdala, regiões (figura 2) relacionadas ao processamento de emoções negativas, ameaças e incertezas, e o grau de mudança na concordância de afirmações não políticas após os contra argumentos por sujeito. Isto é, pessoas com maior resistência a mudar sua concordância (menor grau de mudança) às afirmações não políticas tiveram uma maior ativação dessas estruturas quando comparadas com a atividade dessas regiões em pessoas com menor resistência a mudar sua concordância. Note que essa diferença foi observada entre diferentes indivíduos (em contraste com diferente condições mencionado anteriormente) e utilizando as afirmações não políticas. Isso porque houve maior variabilidade de respostas em relação a esse tipo de afirmação e, assim, foi possível realizar essa comparação. A teoria por trás desse resultado é de que pessoas com menos flexibilidade para mudar sua opinião após contra argumentos demonstram maior ativação de regiões envolvidas no processamento de ameaças e emoções negativas e, assim, lidariam com informações contrárias a suas crenças de modo mais rígido e cauteloso.

fig2-blogFigura 2. Áreas mais ativadas nos participantes que mudaram menos sua concordância com afirmações não políticas após os desafios.  

Esses resultados parecem concordar com outros resultados encontrados em outro estudo que também observou diferente atividade em algumas dessas regiões quando comparadas crenças religiosas e não religiosas em pessoas muito religiosas. Porém, os pesquisadores seguem ao final do artigo apontando alguns problemas ou limitações do estudo que colocam seus resultados em cheque (e isso para mim é um mérito e dever de todo estudo). A primeira limitação é a de que há diferenças entre crenças políticas e não políticas além de somente o grau de concordância da pessoa. Seria possível que as pessoas sendo utilizadas no estudo, por terem sido selecionadas por se considerarem muito interessadas por política, tivessem muito conhecimento sobre as afirmações sendo colocadas no teste ou até mesmo fossem expostas muitas vezes a argumentos contrários a suas crenças, o que poderia ter um efeito de hábito ou controle sobre como elas reagiriam a esse teste. Também é apontado o fato de que crenças políticas são mais prescritivas, normativas em comparação com crenças não políticas que podem ser mais diretas e factuais. Outro ponto interessante a ser colocado é a limitação do estudo por se tratar somente de pessoas liberais, mas não de conservadores. Os autores citam outros estudos que apontam haver diferenças de atividade e até de volume de estruturas neurais entre conservadores e liberais (para saber mais, ver Kanai, R., Feilden, T., Firth, C. & Rees, G. Political orientations are correlated with brain structure in young adults. Curr Biol 21, 677–680, doi: 10.1016/j.cub.2011.03.017 (2011)).      

E aí? O que achou do estudo? Espero que eu tenha conseguido passar a ideia geral e principais resultados encontrados de forma coerente. Se ficou alguma dúvida pode me perguntar. E eu gostaria de fazer um pedido também, quase que como uma pesquisa. Se você achou que esse texto ou o próprio artigo te ajudaram a compreender um pouco mais sobre o nosso comportamento e que te adicionou na forma de você se relacionar com essas questões, por favor, comente algo (qualquer coisa, um sinal) lá embaixo na área de comentário! Obrigada!

Anúncios
0

Exploração Espacial: Perdidos no sonho de ir para Marte

O que você precisa para viver?  O que é essencial na sua vida? Ar? Água? Uma terra que dê alimentos? A luz do sol que contribui para esse alimento ser produzido? E outras pessoas, casas, ruas, cidades, movimentos, produções, consumo, arte, músicas, amor, sexo, prazeres, culturas, histórias, memórias, tecnologias, internet…E se tivéssemos mais uma chance de nos adaptarmos a um planeta e pudéssemos construir tudo de novo? Quais seriam as suas escolhas?

Em meio ao caos terrestre algumas pessoas olham para o céu e imaginam uma nova civilização num planeta que traz o nome do Deus grego da guerra, o planeta Marte.

marte e terra

créditos: NASA

Entender que existe um espírito explorador e curioso em nós, seres humanos, não é muito difícil, não é mesmo? Mas o difícil é compreender o porquê dessa busca por um planeta, que, por mais que traga algumas semelhanças químicas e físicas em relação à Terra e por mais próximo que seja,  ainda é um lugar inóspito. Os gastos necessários para essa exploração espacial seriam altíssimos, e isso deve ser questionado. A distância média entre a Terra e Marte é de 78 milhões e 300 mil km. Pode-se observar que sua maior proximidade em relação ao nosso planeta foi cerca de 55 milhões de km de distância em 2003, o que não acontecia a 60.000 anos. E teremos um novo período de proximidade que será em 2018, o que facilitaria, no presente, nosso deslocamento para lá [1].

Importante para essa reflexão é pensar que estamos falando sobre exploração, que por mais que seja espacial (e para Marte) não deixa de ser  uma exploração, que tem como base uma lógica de mercado estabelecida pelo modelo econômico atual, cuja existência move a economia, as políticas e questões sociais. É essencial para o entendimento de pesquisas saber sobre o financiamento dessas e, no caso da exploração espacial, não são apenas as empresas privadas e os impostos dos governos que financiam as pesquisas para esse tipo de exploração (e todas as outras) mas também as pessoas, a sociedade que consome produtos dessas “empresas financiadoras” e paga esses impostos. O que não faz muito sentido é que essas pessoas costumam não saber no que estão investindo, existe uma falsa liberdade enraizada ao modelo econômico que criamos, pois por mais que achemos que temos o poder de decisão sobre as nossas escolhas, elas estão fadadas aos investimentos impostos pelo capitalismo e todas as suas consequências [2].  As dificuldades de se divulgar e popularizar as ciências também colaboram para essa realidade, pois se a comunicação científica fosse mais acessível a todas às pessoas, essas poderiam se tornar mais engajadas e, como consequência, lutariam pelo seu poder nas tomadas de decisões políticas, determinando as pesquisas que seriam financiadas, por exemplo. De certo que estudos científicos são financiados para ajudar a alcançar objetivos políticos, econômicos e sociais diversos, mas ainda sim trazem consigo um distanciamento de uma grande camada da sociedade. A consequência disso é que a ciência é incapaz de estabelecer suas próprias prioridades e a exploração espacial vem de escolhas estabelecidas historicamente e é um exemplo dessa relação entre os cidadãos comuns e a comunidade científica [3].

Mas quando essa curiosidade por Marte começou? Ok, podemos ir bem distante com essa pergunta! Coloca aí na máquina do tempo: Voltar 4.000 anos!

máquina do tempo

Créditos: Scibreak

No ano 2.000 a.c. o planeta Marte demonstrava ser um lugar especial para alguns sonhadores. Os egípcios desenhavam a imagem de Marte em tumbas, como por exemplo, na tumba do Faraó Setil I. Também os babilônios, os chineses e até os gregos faziam registros do planeta vermelho nesse período. É interessante perceber que esse planeta com cor de sangue já teve até outros nomes, mas todos representavam Deuses de guerras, por conta de sua cor [4].

deus guerra

Representação do Deus Egípcio da Guerra.
Créditos: Kalyzatf

Com o passar do tempo, Marte não era somente contemplado e observado no céu. A vontade de conhecer outros planetas e saber sobre a possibilidade de vida extraterrestre fez com que imaginássemos e criássemos histórias vividas nesse planeta. a partir do século XIX o mercado cinematográfico começou a produzir diversos filmes sobre o planeta vermelho que tanto nos instiga [5].
filme 1 Flashgordontriptomarsfilme 2

 

 

 

Imagens dos primeiros filmes sobre Marte.
Crédtios: Flash Gordon Wiki 

 

Essa vontade (insana, até então) de conhecer e explorar Marte foi se materializando durante a primeira corrida espacial no período da guerra Fria (1947 – 1991), logo depois do astronauta norte-americano Neil Armstrong pisar na lua, em 1969. Ir para o espaço e pisar no nosso satélite natural não era mais suficiente. Precisávamos de mais: ir para outro planeta, e um dos nossos vizinhos mais próximos foi o indicado: Marte! [6]

As primeiras pesquisas desenvolvidas para conhecer esse planeta tinham como questão inspiradora a possibilidade de vida extraterrestre, ainda mais depois de ter encontrado metano na composição de sua atmosfera (isso porque a concentração de metano na atmosfera do nosso planeta vem das vidas aqui presentes), além de oxigênio e gás carbônico. Mas percebemos que essa taxa de metano na atmosfera de Marte pode ser produzida por um processo geoquímico, vulcânico ou até por atividade hidrotérmica. Depois veio a tona o entendimento de que Marte poderia ser o futuro da Terra, que seria a sua imagem depois de um colapso e a possibilidade de vida neste lugar se tornou inviável. Por conta disso a ideia de explorar Marte passou a ser justificada pela necessidade de  entender melhor os processos que levaram Marte a tornar-se um grande deserto, e assim, talvez prevenir que eventos similares acontecessem na Terra. O desejo de fazer uma viagem espacial mais distante e colonizar Marte foi surgindo e tornou-se um dos objetivos nessa exploração espacial (como se fosse super simples, né?).

No início da exploração de Marte, mais da metade das missões foram mal-sucedidas. Neste século, isso tem mudado, atualmente há 5 satélites orbitando Marte e transmitindo dados para a Terra: Mars Odyssey (EUA), Mars Reconnaissance Orbiter (EUA), Maven (EUA), Mars Express (ESA\Europa) e Mars Orbiter Mission (Índia). Além disso, há 3 anos existem robôs circulando pela paisagem marciana: O Spirit e o Opportunity, lançados em 2003 e o Curiosity, que pousou no planeta vermelho em 2012. Seus estudos têm ajudado a conhecer melhor a composição do solo marciano e a história evolutiva do planeta.

As missões tripuladas para o espaço deixaram de ser uma prioridade nas últimas décadas e foram substituídas pelo envio de sondas e robôs. Enviamos nossas máquinas exploradoras para estudar a Lua, Marte e praticamente todos os nossos planetas vizinhos, além de cometas e asteroides.

Hoje a maioria das agências espaciais trabalham em parceria, contribuindo para o caráter internacional do campo. As maiores potências da Terra, no entanto, demonstram interesse e sonham com a primeira viagem tripulada para Marte. Porém é sabido que os custos para essa viagem seriam altíssimos e precisaríamos evoluir nas pesquisas para construir tecnologias essenciais para habitar o planeta vermelho.

Mas vamos lá, que chegue um dia que tenhamos capital e tecnologia suficientes para ir à Marte. O que já sabemos desse planeta? Como poderíamos nos estabelecer?

 

Características físicas de Marte

Com as informações captadas pelas sondas em órbita e os robôs de Marte sabemos que sua atmosfera é relativamente fina e composta principalmente por gás carbônico, sendo 95,32% de sua porcentagem, mais 3% de nitrogênio, 1,6% de argônio, contendo traços de oxigênio, água e metano. Diferente da Terra com sua atmosfera com cerca de 0,03% do gás carbônico, com 78,08% de nitrogênio, 20,95% de oxigênio e 0,93% de argônio, além de moléculas de água. A atmosfera marciana é um tanto quanto empoeirada, dando aos céus de Marte um colorido marrom claro ou laranja quando visto de sua superfície; os dados dos veículos exploradores de Marte indicam que as partículas de poeira suspensas na atmosfera são de cerca de 1,5 micrômetros. A pressão atmosférica sobre a superfície de Marte varia entre 30 pascals, no pico de Monte Olimpus (você já vai saber o que é esse monte!), e acima de 1.155 pascals nas profundidades de Hellas Planitia. Com isso, sua pressão média superficial é de 600 pascals, que podemos comparar ao nível médio do mar terrestre de 101,3 quilopascals e uma massa total de 25 teratoneladas, comparada à da Terra, de 5.148 teratoneladas.

mars

Foto de Marte.
Créditos: NASA


Já ouviram falar sobre o Monte Olimpus da Mitologia Grega? Esse lugar da morada de doze deuses tem endereço e está em solo marciano. O Monte Olimpus é a maior montanha vulcânica do Sistema Solar e está presente no planeta Marte. Com uma altura de mais de 25 km, ele é quase três vezes maior que o Monte Everest. O Monte Olimpus é o mais novo dentre os grandes vulcões de Marte e tornou-se conhecido pelos astrônomos no fim do século XIX.

monte olimpus

Imagem geográfica do Monte Olimpus.
Crédito: NASA


Em Marte há um sistema de cânions chamado Valles Marineris, que é o maior cânion conhecido, ultrapassando todos os cânions da Terra, com exceção do vale profundo submarino nos 16.000 km de extensão da Dorsal meso-atlântica.

Valles Marineris situa-se no equador de Marte, a leste de um planalto chamado Tharsis, e se estende por quase um quarto da circunferência do planeta. A maior parte dos pesquisadores concorda que Valles Marineris é uma grande rachadura tectônica na crosta marciana que se formou quando a crosta se elevou a oeste na região de Tharsis, tendo sido subsequentemente alargada por forças eólicas erosivas. Parece haver alguns canais que podem ter sido formados por água ou dióxido de carbono.

valleus mars

Foto de Valles Marineris.
Créditos: NASA

Há a presença de redemoinhos constantes na superfície de Marte e cientistas encontraram pistas de que eles poderiam ter campos elétricos de alta tensão. Esta e outras pesquisas incentivadas por diversas agências espaciais obtiveram dados da superfície de Marte que contribuem para o nosso conhecimento, ajudando na compreensão dos desafios apresentados pelo ambiente Marciano aos exploradores, tanto robóticos quanto possíveis humanos.

 

Desafios de civilizar Marte

A partir  dessas informações sobre o ambiente de Marte, podemos listar nossas futuras e principais dificuldades de civilizar esse planeta:

Radiação – a atmosfera de marte é mais fina que a da terra e não protege contra a radiação do espaço, portanto, será preciso desenvolver um isolamento capaz de proteger a vida humana no interior da base avançada por longos períodos. Cobrir a colônia humana na superfície com camadas do próprio solo marciano pode ajudar. Isso quer dizer que precisaríamos viver enclausurados durante muito tempo. Isso seria possível pra você?

Gravidade – Além de proteger os astronautas contra a radiação para trabalhos em áreas abertas, os trajes espaciais dos colonos marcianos provavelmente serão desenhados para compensar o longo período de viagem sem gravidade no espaço e também a gravidade reduzida do planeta. Seus efeitos podem causar graves problemas de saúde ao organismo humano.  Você se arriscaria?

Comida – No início da exploração a comida precisará ser produzida em marte e será basicamente vegetariana. Os astronautas ou os colonos cultivarão seus alimentos de forma hidropônica, ou seja, sem o uso do solo marciano. A água utilizada para hidroponia precisará ser retirada do solo e será dividida entre outros processos que necessitam dela.  Será que a água será suficiente para uma grande produção hidropônica além de suas outras funções (como consumo, produções tecnológicas, cozinhar, tomar banho, entre outras)?

Oxigênio – O oxigênio necessário à vida humana é escasso na atmosfera de Marte. Este poderá ser obtido a partir do próprio gás carbônico abundante na atmosfera do planeta ou das moléculas de água do solo. O desafio em relação a quantidade de oxigênio é saber se a produção deste será suficiente para manter a vida.

Água – a água encontrada no planeta está congelada. Esta poderá ser obtida a partir do solo marciano, com equipamentos especiais que terão que ser levados ao planeta nas primeiras expedições. O desafio é saber se há água suficiente para manter a base espacial em solo marciano.

Viagem de volta – a logística para escapar da gravidade do planeta e permitir uma viagem de volta é, por enquanto, impossível. Sem falar da velocidade da viagem de volta que irá tornar a passagem superaquecida pela atmosfera da Terra. A tecnologia para a volta à Terra terá que ser produzida em base marciana. Será possível a produção de novos equipamentos que poderão permitir a passagem por diferentes gravidades e uma viagem de retorno?

 

E Marte pode ficar verde? Poderíamos fazer uma “terraformação” de marte transformando a superfície congelada em algo mais parecido com a Terra? É provável que sim. Sondas espaciais que exploram marte encontraram evidências que o planeta já foi quente eras atrás, com rios que drenavam para mares vastos. E aqui na Terra, nós aprendemos como aquecer um planeta: basta adicionar gases de efeito estufa em sua atmosfera. Grande parte do dióxido de carbono que uma vez aqueceu marte provavelmente ainda está lá, nas terras congeladas e calotas polares, assim como a água. Mas tudo isso precisaria de um grande orçamento e de muito tempo, cerca de 1000 anos de adaptação.

A partir dessas e de outras informações sobre as características de Marte e as tendências de desafios que teremos que passar, iniciou um estudo sobre como seria a base marciana para tripulantes humanos que chegassem ao solo do planeta vermelho.

Primeiro será enviado um módulo de habitação com proteção contra a radiação à base marciana. Haverá aumento da temperatura com a implantação de grandes fábricas liberando gases de efeito estufa, o que trará como consequência o descongelamento das calotas, proporcionando temperaturas mais altas e uma fluidez ao ciclo de água. As chuvas cairiam anos depois e os primeiros micróbios poderiam surgir, preparando os solos para as flores e plantas se adaptarem. A produção de energia nas bases seria a partir da energia eólica e nuclear. Com tudo isso, a taxa de oxigênio irá aumentar mas continuará baixa comparada ao planeta Terra mesmo depois de 1000 anos. Ao longo do tempo geológico, antes que a própria Terra se torne inabitável, Marte perderia sua nova atmosfera e congelaria de novo [7].

 

A humanidade, Gaia e Marte

Diante dessa breve história sobre o desejo de explorar e ocupar Marte, podemos imaginar as possíveis futuras histórias dessa temática. A partir do contexto em que vivemos e a consciência sobre o sistema capitalista é necessário nos questionarmos até que ponto a humanidade é capaz de ir. A teoria de Gaia, desenvolvida pelo cientista James Lovelock na década de 1970 afirma que o planeta Terra é um ser vivo. O cientista chegou a essa conclusão diante da observação de sua atmosfera, de seus movimentos naturais e dos ciclos de compostos (ciclo de O2 e ciclo de H20, por exemplo), que mais parecem um metabolismo vivo. Segundo essa teoria o planeta Terra é Gaia, em homenagem a deusa da Mitologia grega que dá a vida. Analogamente, se a Terra fosse um ser vivo, nós, seres humanos, seríamos os vírus exploradores que infectam esse corpo, trazendo como uma das consequências o aquecimento global ou a febre do corpo doente. Imaginando o que o cientista James Lovelock diria sobre a temática da exploração espacial para Marte, acredito que ele diria que nós, os vírus, queremos infectar mais um corpo (planeta Marte) e por onde passamos afetamos. No entanto parece ser inviável ir para Marte…mas para nós, viver sem sonhar? Não dá! [8]

o-que-aprendi-com-perdido-em-marte.html

Filme “Perdido em Marte”.
Créditos: Portal do Holanda

 

Referências

[1] Revista Veja – Abril. Marte atinge ponto mais perto da Terra em 11 anos nesta segunda, 2016.

[2] Flusser, Vilém [1920-1991] O mundo codificado: por uma filosofia de design e da comunicação: Vilém, Flusser, organizado por Rafael cardoso. Tradução: Raquel Abi-Sâmara. 224p. São Paulo: Ubu Editora, 2017.

[3] Harari, Yuval Noah, 1976 – Sapiens – Uma breve história da humanidade | Yuval Noah Harari; tradução Janaína Marcoantonio. 464p.- 12. Ed. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2016.

[4] http://historiadomundo.uol.com.br/egipcia/arte-e-arquitetura-do-egito.htm

[5] http://wwwkalyzatf2009.blogspot.com.br/

[6] http://flashgordon.wikia.com/wiki/Flash_Gordon%27s_Trip_to_Mars

[7] Menezes, Leonardo. Amanhãs – Exploração Espacial, Museu do Amanhã, 2015.

[8] Lovelock, James. Gaia, uma teoria do conhecimento. Editora Saraiva, 2014.