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Confissões de uma cientista mãe

Fechando a série sobre maternidade e ciência, trazemos sete histórias de cientistas brasileiras que vivem a ciência e a maternidade.

Para muitas mulheres, a maternidade chega acompanhada de um sentimento de culpa. Falamos sobre isso na primeira matéria sobre maternidade e ciência, na qual apresentamos dados do grupo Parent in Science que ajudam a traçar o perfil da pesquisadora brasileira mãe. Na segunda, “Ser mãe e cientista: o que está por trás disso?”, levantamos provocações a partir de estudos que se debruçaram sobre o tema. Hoje, vamos trazer depoimentos de cientistas que se disponibilizaram a contar como é a experiência de ser cientista e mãe.

Um dos dados obtidos pelo Parent in Science que mais chama atenção é o que diz respeito à percepção das mães sobre o impacto dos filhos na produção científica: 81% avaliaram de forma negativa, sendo que 59% responderam com “negativa” e 22% com “bastante negativa”. Apenas 5% avaliaram de forma positiva, 2% responderam com “bastante positivo” e 12% marcaram “nenhum impacto”.

Com a falta de políticas públicas de órgãos governamentais para solucionar o cenário e a falta de compreensão por parte de atores dentro das universidades brasileiras, não é de se espantar a avaliação negativa. Ser mãe não é nenhum mar de rosas, como grande parte da sociedade gosta de pregar, e não é vergonhoso admitir-se cansada, sem tempo e com a sensação de que não será possível conciliar maternidade, trabalho e vida pessoal. Pelo contrário, é humano e precisamos dar suporte para que as mulheres se sintam confortáveis a falar sem medo de represálias. Senão, o que estamos fazendo com a saúde mental das nossas mulheres?

Com a palavra, as cientistas.

*O nome verdadeiro foi alterado a pedido da entrevistada.

 

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Rafaela Silva*, doutoranda em Ciência Política, grávida do primeiro filho

Por enquanto ainda não consigo imaginar como seria, de fato, ter um bebê em meio à rotina que, muitas vezes, é de intensa abdicação de vida social e cuidado pra que os prazos possam ser cumpridos. Minha orientadora e co-orientadora me deram todo o apoio necessário e não me cobraram nada além do que era possível no momento. Houve, por parte de algumas pessoas, questionamentos sobre a minha necessidade de usar a licença-maternidade, além de terem afirmado a importância de que eu não a utilize e cumpra os prazos de defesa a tempo, de forma a não perder a chance de um pós-doutorado e a não passar por um processo de estagnação na carreira.

Muitas vezes não nos perguntam se gostaríamos de tirar um tempo para a maternidade. Seguir a vida acadêmica da mesma forma como antes, ou da forma como esperam que sigamos, acaba sendo rotina para aquelEs que não entendem nossas especificidades. No momento, ainda em gestação, estou tentando adiantar um pouco os trabalhos e submeter artigos que estavam prontos, aguardando maturação de ideias e melhorias. É como se eu tivesse que trabalhar agora por duas: pelo que eu deveria trabalhar normalmente e pelo que eu “deveria estar trabalhando quando o bebê nascer”. Penso que as condições que precisam ser oferecidas dentro da sociedade sejam as mesmas para todas as mulheres que estão no período de gravidez, pós-parto, amamentação e no ser mãe. Por exemplo, políticas de creche, licença-maternidade remunerada e ambientes estruturados que possam receber crianças e recém-nascidos para que a mãe não tenha que se deslocar e se isolar do que está fazendo.

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Marcela Miranda*, 35 anos, física

Sou formada na área de exatas. No último semestre de minha pós-graduação, engravidei. Quando informei sobre a minha gravidez, a notícia foi bem recebida pelos meus coordenadores. Com o passar do tempo, as coisas mudaram um pouco. Após a licença-maternidade, fui cobrada em relação à produtividade por ter ficado um tempo longe de projetos e pesquisas. Cobrada justamente em uma época bastante complicada, na qual a rotina muda e estamos sensíveis a tudo. Além disso, queremos estar presentes em todos os momentos de descoberta de nossos filhos. Começa um sentimento de culpa por estar longe em uma época que eles mais precisam da gente. Um tempo depois, minha saúde ficou debilitada e tive que me afastar do trabalho e dos projetos. Inicialmente, senti um preconceito muito grande. Os sintomas começaram a se manifestar e fui diagnosticada, primeiramente, com depressão pós-parto e estresse no trabalho. Ao ter que abandonar tarefas de trabalho e pós-graduaçăo, fui criticada por alguns colegas. Hoje, continuo realizando pesquisas na área, mas não com a mesma produtividade que tinha antes de ter meu filho. Antigamente, no decorrer de minha graduação e de minhas pós-graduações, a prioridade eram os estudos e projetos. Após ser mãe, as prioridades são filho, saúde, família, estudos e projetos!

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Paula Garcia, 37 anos, linguista

Entrei como professora numa faculdade pública em junho de 2010 e, em novembro, vi que estava grávida. Ouvi de alguns colegas de departamento que “dei o golpe”, isto é, esperei passar no concurso para logo sair de licença-maternidade. Fiquei com essa culpa um bom tempo. Ano passado (2017), participei de uma banca de concurso como membro e presenciei a melhor candidata tentando esconder a barriga durante as provas para que sua gravidez não fosse um impeditivo para uma boa classificação. Ela ficou em primeiro lugar, assumiu e logo saiu de licença. Ela vai ter mais 30 anos para trabalhar na universidade, assim como eu. Não serão os seis meses de licença que farão ela trabalhar menos ou ser menos capaz de fazer as coisas. Ao lembrar desses anos, lembro que eu sempre tinha a sensação de dever algo a alguém. Fiz um doutorado, publiquei artigos, participei dos congressos que pude com o marido morando em uma cidade, e os familiares, em outra. Dei e estou dando o meu melhor, mas parecia que minhas ações na universidade eram para comprovar que eu não tinha mesmo tido a intenção de dar um golpe.

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Andréa Wieck Ricachenevsky, 36 anos, bióloga molecular

Bom, meu nome é Andréa Wieck Ricachenevsky, tenho 36 anos, moro em Santa Maria (RS) há dois anos e tenho uma filha, a Maya, também de dois anos. Sempre trabalhei com pesquisa na área de ciências da saúde, mais especificamente com psiconeuroimunologia. Eu engravidei quando meu marido havia passado no concurso para professor da Universidade Federal de Santa Maria. Até então, eu era pós-doutoranda em Porto Alegre. Vim oficialmente para Santa Maria quando a Maya tinha 15 dias e, após o término dos quatro meses de licença-maternidade que tinha direito como bolsista, entreguei a bolsa e, oficialmente, fiquei desempregada.

O primeiro ano da minha filha não fez nem cócegas no meu currículo, pois, como eu sabia que ficaria “um tempo” parada, trabalhei bastante durante a gestação e deixei várias coisas alinhavadas que foram publicadas ao longo desse tempo. Já se passaram dois anos e sigo desempregada. Depois que a gente vira mãe, relativizamos uma série de itens e passamos a não dar importância para coisas que antes eram questão de vida ou morte. Eu, como mãe, não vou me candidatar ou aceitar oportunidades em que eu não tenha certeza que meu marido e filha possam ir comigo. Assim como não vou aceitar fazer algo como passar x dias longe dela e depois voltar. De forma nenhuma estou dizendo que o trabalho não importa ou que deixamos de amar ser cientistas. Não! Apenas digo que observar e acompanhar uma criança se desenvolvendo é uma das coisas mais maravilhosas no mundo. Passa muito rápido. Perdeu o foco, eles já estão em outra fase! E a gente sente falta. Então, sim, a gente muda o foco, dá mais importância para os nossos filhos do que para um artigo e, sim, a gente fica em casa cuidando deles quando estão doentes.

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Paola Sanches, bióloga

Sou bióloga formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, com mestrado em Ecologia pela mesma universidade e estou finalizando o doutorado em ciências com ênfase em Oceanografia Biológica pela USP. Sou mãe da Catharina, de 8 meses, que nasceu durante o terceiro ano do meu doutorado. Nos primeiros meses, com a amamentação em livre demanda e todas as necessidades do bebe, é difícil arrumar tempo para a execução dos projetos. Mesmo assim, analisei dados e escrevi. Eu lembro de pensar que, enquanto eu estava de licença-maternidade, meus colegas estavam publicando e eu me afastava das chances de passar em um concurso para professora. O curioso é que esse período não deveria gerar essa preocupação.

Eu digo que a sociedade é cruel com as mães. Ela exige que sejamos presentes, dedicadas, devotadas, mas que também tenhamos a justa paridade com os homens em relação ao sucesso profissional. Ter uma rede de apoios nesse momento é fundamental. Faço parte de um grupo de mães também no puerpério. O compartilhamento de medos, anseios e experiências me fortalece muito. Além disso, minha sogra fica com minha filha de duas a três vezes por semana e meu marido durante os fins de semana para que eu consiga “só” trabalhar. Tenho a sorte de ter supervisores que me acolheram muito, tanto durante a gestação quanto nesse primeiro ano da minha filha. Todos disseram que seria difícil, mas que eu daria conta e que teria uma motivação a mais. Eu aumentei o meu poder de concentração e aprendi a focar mais rápido e em períodos que não necessariamente eu focaria antes. Além disso, minha filha representa uma motivação ainda maior para meu crescimento e minha consolidação profissional. Passei, sim, por um momento de constrangimento quando uma pessoa com quem trabalho (o mais triste é ser uma mulher que se diz feminista) justificou sua própria improdutividade alegando que a minha prioridade é outra, apesar de eu ter produzido durante a gestação, a licença-maternidade e ainda mais agora. Isso reflete o pensamento latente da sociedade de que a maternidade é um impeditivo para a carreira de mulheres.

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Imagem: acervo pessoal

Aline Pan, física, 37 anos, Rio Grande do Sul

Meu nome é Aline Cristiane Pan, sou mestre em Engenharia e Tecnologia dos Materiais e doutora em Energia Solar. Sou mãe da Sofia de 6 anos, nascida em 2012, e do Benício de 3 anos, nascido em 2014. Mulheres que trabalham com ciência são promovidas pela mídia a todo instante com o intuito de desmistificar o gênero nesta área. No entanto, a realidade crua destas mulheres é pouco mencionada e/ou, inclusive, “apaziguada” para que não seja retratada. Os motivos são inúmeros, tais como: vergonha, tempo, medo, desunião e reconhecimento. Contudo, todas as mulheres que trabalham com ciência já sofreram ou sofrerão algum tipo de discriminação em sua carreira científica. Inicialmente, podemos pensar nas premiações ou promoções de projetos de fomento de gênero que “tentam” valorizar as mulheres que trabalham na ciência. O primeiro critério de avaliação destes prêmios são os números de artigos e projetos nos quais as mulheres estão envolvidas nos últimos anos (em geral, os três últimos anos). No entanto, se esta mesma mulher teve, neste período de tempo, dois filhos, como no meu caso, e licenças-maternidade, isso não é levado em consideração sob hipótese nenhuma.

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Nota-se, claramente, que a opção de ter estes filhos foi dela (minha), mas será que ela (eu) deve ser avaliada pelo mesmo período de tempo das demais consideradas “na ativa” e que não tiveram filhos? Estas regras foram feitas baseadas em perfis masculinos ou para mulheres cientistas que não são mães? Por tudo isso, não acredito que seja fácil conciliar a produção acadêmica e a maternidade, e a sociedade não oferece ajuda nenhuma para estas condições. Quando retornei da minha segunda licença-maternidade, um colega me perguntou: “Como estavam tuas férias?” e, depois,: “Deve estar sendo bom fazer filho. Esta já é a tua segunda vez em pouco tempo”. Um outro, em uma situação em que eu estava reclamando do tempo de licença não ser considerado pela avaliação trienal, disse que “Se ele conseguiu publicar muito enquanto teve três filhos, eu também poderia”. Por eu não ter conseguido manter as minhas métricas antes da maternidade, fui desvinculada de um programa de pós-graduação da minha universidade, onde acabei tendo muitos prejuízos por isso.

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Depoimento anônimo, 39 anos, Rio Grande do Sul

Quando retornei do doutorado, em 2009, comecei a ensinar numa faculdade particular. No final de 2009, descobri que estava grávida, algo que planejei. Em 2010, com minha primeira bebê, tive direito à licença-maternidade. De 2012 a 2016, fiz um pós-doutorado financiado por duas agências de fomento. Nesse período, tive dois filhos. Com a bolsa, eu não podia tirar licença, apenas pedir extensão da mesma. Então, não parei de trabalhar, continuei escrevendo artigos. Minha orientadora, durante esse processo, foi muito tranquila. Eu optei por não parar por causa da situação financeira, mas também porque era o meu nome que estava em jogo na pesquisa. Se eu parasse, eu sabia que ia me prejudicar. Eu vejo que, por ser mulher, as atribuições são maiores para nós do que para os homens neste momento. Não tem nem como comparar. Participei de congressos enquanto estava grávida. Quando eu chegava em casa, continuava trabalhando, cuidando das crianças e, quando eles dormiam, continuava trabalhando para poder dar conta. Na particular, percebo que há uma luta maior pela sobrevivência porque eu ainda me encontro preocupada com o futuro. Eu não tenho garantia que estarei neste lugar pelo resto da vida. Quem já está na federal tem mais garantias e estabilidade. Acho que as agências de fomento deveriam considerar a trajetória acadêmica levando em conta as licenças-maternidade e afastamentos. O currículo não é só acadêmico, ele também é pessoal.

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Ser mãe e cientista: o que está por trás disso?

Aceitar a maternidade sem julgamentos e estimular a pesquisadora mãe, um combo que requer mais investimentos por parte da sociedade.

A psicóloga Wendy M. Williams é professora no Departamento de Desenvolvimento Humano na Universidade Cornell, nos Estados Unidos, onde fundou e dirige o Instituto Cornell para Mulheres na Ciência. É de autoria dela e do professor Stephen J. Ceci, também do mesmo Departamento, um breve artigo de 2012 publicado na revista American Scientist: “When scientists choose motherhood” (“Quando as cientistas escolhem a maternidade”, na tradução para o português).

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Ciência e maternidade: a engenheira industrial Lillian Gilbreth, que também foi estudiosa da psicologia aplicada ao trabalho, em momento de trabalho e família com os filhos na casa de Rhode Island, em 1916.

No texto, eles enumeram os motivos que geralmente são mencionados nas explicações sobre a escassez de pesquisadoras, a nível internacional, em áreas como a matemática, física e química e em posições de destaque dentro do universo acadêmico. Um complexo sistema de opressões e questões negligenciadas está por trás disso: o chamado “teto de vidro” da Academia, que já rendeu texto para as Cientistas Feministas. O artigo da American Scientist ressalta a importância de se discutir e reconhecer a maternidade como um elemento que contribui para a sub-representação feminina dentro da ciência. A culpa não é da maternidade, claro, mas de fatores históricos e sociais que acompanham esse momento.

Segundo os autores, é quando a cientista “decide ser mãe que os problemas reais começam”, e as crianças parecem não afetar a vida profissional dos pais tanto quanto afetam a das mães. É mais comum encontrar pesquisadores heterossexuais com esposas que ficam em casa ou que têm empregos mais flexíveis que as permitem permanecer em casa com os filhos, enquanto os maridos estão mais livres para focar no trabalho. O cenário contrário (mulheres cujos maridos ficam mais em casa) acontece em menor grau, de acordo com o artigo.

O contexto histórico é muito importante aqui, já já iremos falar dele. Escrito por autores norte-americanos, o artigo menciona bastante um sistema de cargos que existe nos Estados Unidos e no Canadá que é similar a um período probatório para cientistas, o famoso “tenure-track”. Ao longo desse estágio probatório, ela ou ele precisa acumular experiências (bolsas, prêmios, artigos e aulas ministradas, por exemplo) para apresentá-las num portfólio impecável ao final de mais ou menos seis anos. No outro lado do arco-íris, geralmente, está o emprego estável, bem remunerado e de prestígio, como o cargo de professor dentro da universidade. No Brasil, podemos dizer que temos um equivalente, que é o cargo de professor titular.

Pois bem, mas qual é o problema? O sistema “tenure”, de acordo com Williams e Ceci, abrange a idade dos 27 aos 35+, momento em que muitas mulheres expressam desejo por ser mãe e acabam tendo o primeiro filho. Como disse acima, a história é importantíssima. Vejam o que os autores escrevem: “O sistema ‘tenure’ foi criado numa época em que poucas mulheres trabalhavam fora de casa e quando a criação dos filhos era assumida como sendo responsabilidade da mulher. Então, ele foi desenhado para pessoas sem muitas responsabilidades significativas com o trabalho doméstico ou o cuidado com os filhos. De fato, muitos professores jovens não eram homens casados e esperava-se que eles vivessem em residências dentro da universidade. Muito mudou desde então, mas o sistema ‘tenure’ continuou mais do mesmo”.

Se as relações e papéis sociais felizmente mudam com o tempo, a sociedade deveria acompanhar essas mudanças em vez de ficar presa em valores do passado. Ou, pior: apoiar medidas contra a desigualdade de gênero, mas não fazer efetivamente nada ou fazer muito pouco para mudar as estruturas dominantes. Na luta contra as desigualdades de gênero, há que se prestar atenção na sociedade que fundamentou uma determinada estrutura e é urgente reescrever linhas e entrelinhas para que tudo fique explícito e claro, sem nada a esconder em letras miúdas.

Voltando ao artigo, os autores, ao final, traçam o percurso dos caminhos possíveis que poderiam ser adotados pelas universidades para lidar com essa questão que desestimula as cientistas a persistirem na carreira científica ou, até mesmo, a desistirem de ser mães. A resposta parece passar pela compreensão a respeito do tempo da mulher, já que uma das medidas cabíveis é aumentar o período de tenure-track para elas, reconhecendo o espaço que a maternidade ocupa na vida de muitas.

Como vimos no primeiro texto sobre maternidade e ciência publicado aqui no CsFs, a trajetória de uma pesquisadora brasileira após a graduação envolve, geralmente, mestrado, doutorado e pós-doutorado. É apenas após o pós-doc que a maioria das cientistas consegue uma posição mais estável dentro das universidades brasileiras. Para muitas, numa idade que tende a ser a primeira metade dos 30 anos, como mostrou a pesquisa do grupo Parent in Science, isso significa o início da consolidação da carreira acadêmica. E também, para muitas, a época de tornar-se mãe. Em dezembro de 2017, o governo brasileiro sancionou a Lei 13.536, que “permite a prorrogação dos prazos de vigência das bolsas de estudo concedidas por agências de fomento à pesquisa nos casos de maternidade e de adoção” por até 120 dias. No entanto, no Brasil, ainda faltam oportunidades de bolsa que compreendam a maternidade como um todo e o período da licença-maternidade.

Para escrever este artigo, li também a pesquisa de mestrado de Ana Maria Urpia, mestre em psicologia pela UFBA: “Tornar-se mãe no contexto acadêmico: narrativas de um self participante”. E, aqui, abro um parênteses de desabafo. Em todo o momento da leitura, uma pergunta incômoda atravessava a minha cabeça: por mais que muitos avanços tenham sido feitos e que a generalização não caiba dentro deste comentário, até quando veremos homens omissos e pouco pró-ativos nos quesitos compartilhar igualmente tarefas domésticas, cuidar dos filhos e arcar com a carga mental que provém do gerenciamento dessas tarefas?

Reconhecendo que, em nossa cultura, “as responsabilidades dos cuidados parentais” ainda recaem majoritariamente sobre as mulheres, Urpia buscou entender o que acontece quando estudantes universitárias jovens, de 19 a 25 anos, acabam virando mães e têm que conciliar a transição para a fase adulta com a maternidade e a vida acadêmica. Com a descoberta da gravidez, geralmente ocorre a interrupção de estudos, sonhos, projetos e até relacionamentos. A pesquisadora afirma que “a narrativa de vida construída pelas mães-estudantes revela-se como uma espécie de balanço prospectivo, ‘apresentando o estado de relação com o possível e buscando, no reconhecimento do passado, pontos de referência para o futuro’”. Nos relatos do estudo, aparece muito o discurso das estudantes que se veem “lançadas para frente graças à necessidade de responsabilizar-se por uma outra vida e ao desejo de verem-se qualificadas para o mercado de trabalho”. Elas estão, conforme a pesquisa explica, orientadas por um futuro em que existe um “projeto de si mesmo”, onde poderão retomar o que foi deixado lá atrás. Além de ser um referencial teórico riquíssimo que pode orientar políticas dentro das universidades a favor das estudantes mães, a pesquisa também dialoga com as dificuldades enfrentadas pelas jovens pesquisadoras mães adultas. Até quando a maternidade será vista como interrupção e não como uma fase da vida que precisa ser integrada? Até quando a vida dessas mães precisará ser escrita APESAR da maternidade e não COM a maternidade? Gostaríamos de ter mais respostas para essas dúvidas.

Fontes:

Dissertação de Ana Maria Urpia | “Tornar-se mãe no contexto acadêmico: narrativas de um self participante”

Gênero e número – Edição Mulheres na ciência, com foco especial em maternidade

Vamos falar de raça e classe na ciência: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2018/04/06/vamos-falar-de-raca-e-classe-na-ciencia/

Is Motherhood the Biggest Reason For Academia’s Gender Imbalance?: http://science.sciencemag.org/content/335/6072/1030

When scientists choose motherhood: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3939045/

Career gaps: maternity muddle – https://www.nature.com/nature/journal/v509/n7500/full/nj7500-389a.html

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A luta de quem é cientista e mãe no Brasil

Dados apresentados em maio pelo grupo Parent in Science, com base na resposta de 1182 pesquisadoras brasileiras, começam a preencher o vazio de conhecimento sobre o impacto da maternidade na produção acadêmica. Um dos motivos? Falta de políticas públicas.

*Este artigo é o primeiro de uma série de três matérias sobre maternidade e ciência.

Ter filhos, criá-los e fazer ciência, ao mesmo tempo, é uma equação que pode não fechar de forma positiva. Eventualmente, a mãe ou o pai precisam elencar prioridades e podem passar a dedicar menos tempo a alguma tarefa ou a alguém. Muito disso se dá pela falta de apoio no trabalho, em casa ou na sociedade de uma forma mais ampla. E, por uma questão de gênero, essa bomba estoura mais no colo das mulheres, já que, historicamente e socialmente, a mulher sempre foi mais vista como a pessoa do cuidado, do ambiente doméstico e da responsabilidade perante as crianças.

O que fazer para compreender melhor esse cenário e propor soluções para uma questão tão delicada e invisibilizada? Uma das respostas, segundo o grupo Parent in Science, está na busca por dados que falem sobre o impacto dos filhos na vida acadêmica de mulheres e homens. Entendendo a questão com números, é possível apontar a enorme necessidade de políticas públicas e iniciativas que levem em consideração a conciliação da maternidade e paternidade com a vida acadêmica.

Criado em 2017, o grupo, composto por seis cientistas mães e um cientista pai, queria traçar o perfil de pesquisadoras que viraram mães recentemente, a nível nacional. Para isso, disponibilizaram formulários on-line, que ainda estão recebendo respostas, com foco nos seguintes grupos: cientistas mães, cientistas sem filhos, cientistas pais, pós-doutorandas e pós-graduandas. Os resultados dos dois primeiros grupos, com um total de 1182 respostas até abril deste ano, foram apresentados no I Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência, realizado nos dias 10 e 11 de maio em Porto Alegre.

Dessas 1182 respondentes, 78% são mães e 22% não. “Os números sobre essa realidade das mães não existiam. Há análises mais subjetivas, como nas ciências sociais, por exemplo, onde já existe uma discussão grande sobre como a maternidade é percebida dentro do ambiente acadêmico. Mas não sabemos quantas docentes brasileiras são mães”, esclarece ao Cientistas Feministas Fernanda Stanisçuaski, idealizadora do projeto Parent in Science e bióloga do Departamento de Biotecnologia da UFRGS.

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Mãe de dois filhos pequenos e à espera do terceiro, a pesquisadora Fernanda luta por mais políticas brasileiras de apoio à cientista mãe. A criação do Parent in Science surgiu após uma postagem em seu Facebook pessoal em que comentava a experiência vivida depois da segunda licença-maternidade, de 2015. Os pedidos de bolsa submetidos a agências de fomento foram indeferidos porque as entidades alegavam falta de produção acadêmica. “Como a maternidade vem carregada de culpa, eu achei que o problema fosse eu”, diz. Como resposta à postagem, Fernanda recebeu inúmeros comentários de outras pesquisadoras que passaram – e passam – pela mesma situação.

De acordo com alguns dados obtidos, a média de idade da mulher no nascimento do primeiro filho é de 32 anos, a maioria das respondentes tem de uma a duas crianças e três anos é o tempo médio que decorre desde a contratação até a gravidez para a maioria das cientistas. Ou seja, no período inicial do estabelecimento dessas pesquisadoras dentro da universidade.

“O impacto da gravidez nessa idade é maior do que se essa mulher estivesse na universidade há um número maior de anos. Isso é uma consequência da nossa formação. A gente sai da graduação, entra na pós-graduação, depois no pós-doutorado e só então numa instituição”, pontuou Stanisçuaski durante o Simpósio, fazendo referência aos cerca de nove anos de formação para um pesquisador após a graduação.

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Para as respondentes com filhos, a taxa de publicação de artigos só volta a subir depois de cerca de três do nascimento da criança. Imagem: Parent in Science

A fase é crítica para muitas cientistas. A bióloga defende que, no período de licença-maternidade, as mulheres não deveriam estar preocupadas com suas carreiras, e, sim, focando no recém-nascido. A volta à carreira depois desse tempo também pode ser outro ponto de conflito. O motivo: uma criança pequena em casa não para de dar trabalho aos seis meses de idade; e o trabalho não para de exigir atenção.

“Naquele momento em que precisamos de um pouco de aceitação, a gente recebe nãos. Há uma questão de desestimular a permanência da cientista por essa questão de falta de apoio e empatia. O quanto estamos mandando cientistas embora por causa disso?”, questiona.

 

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O Simpósio realizado em Porto Alegre foi inclusivo: o espaço de recreação para os pequenos e pequenas estava garantido.

Onde estão os pais dessa história?

Único homem presente no grupo, Felipe Ricachenevsky, biólogo da Universidade Federal de Santa Maria, teve cinco dias corridos de licença-paternidade quando a filha, Maya, nasceu em 2016. “É um erro. Em primeiro lugar, tem que ficar claro que pai presente deve ser a regra, e não um luxo, e isso começa com a participação igual dos cuidadores. Ainda há muitos homens que não percebem isso, infelizmente. Por outro lado, a legislação deve permitir que essa participação efetiva e igualitária aconteça; como o pai vai poder ser pai se ele não ficar em casa?”, observa o pesquisador.

Um dos dados levantados pelo grupo mostra essa desigualdade: mais da metade das respondentes disse que é a única cuidadora do(s) filho(s), enquanto 34% responderam que ambos os pais cuidam. Segundo Stanisçuaski, o resultado foi uma surpresa porque essa não era a realidade do grupo que criou o Parent in Science: ali, os responsáveis dividem as responsabilidades de forma igualitária.

E o que dizer sobre a produção acadêmica dos pais? Será que cai da mesma forma? Por enquanto, o grupo não tem como afirmar com base em dados: desde que o formulário para cientistas pais foi lançado on-line, em fevereiro deste ano, 64 pessoas responderam. “Não temos como analisar a produção científica com esse número restrito. A partir de histórias pessoais de pais que conhecemos e que dividem igualmente a criação da criança, podemos dizer que, sim, a produção deles pode ser afetada também. No entanto, eles ainda são minoria”, observa a bióloga.

Ricachenevsky aponta que, apesar de muito ainda precisar avançar, há muitos pais que dividem de igual para igual o cuidado e que, mesmo assim, percebem que o ônus profissional, mesmo em uma situação mais próxima do ideal, ainda recai sobre as mães. “É pouco provável que críticas ao fato de ter filhos sejam feitas aos pais no ambiente de trabalho. Os homens, tanto os pais como os não pais, precisam atuar para que isso se torne inaceitável. Um dos primeiros passos, a meu ver, é começar a dividir as críticas: se forem criticar uma mãe por ter filhos, que me critiquem também, pois eu vou dedicar o mesmo tempo à criança”, defende.

O vazio deixado pelas políticas públicas

Se a licença-paternidade é praticamente inexistente, o cenário não é diferente quando o foco recai sobre as medidas das agências brasileiras de incentivo à ciência. De acordo com Stanisçuaski, o mínimo que deveria ser oferecido por editais de agências públicas é a consideração ao tempo de licença-maternidade. “Hoje em dia, não existe praticamente nada de política de apoio para cientistas mães. A primeira vez que a gente viu menção à maternidade num edital foi a chamada pública do Instituto Serrapilheira”, disse a bióloga, referindo-se à instituição privada criada em 2017 pelo documentarista João Moreira Salles e a linguista Branca Moreira Salles. O Serrapilheira busca apoiar financeiramente projetos de pesquisa e de divulgação científica. Na primeira convocação para projetos de pesquisa, explicitou que os pesquisadores candidatos deveriam ter recebido o grau de doutor depois de 1o de janeiro de 2007, sendo que essa condição poderia ser ajustada em um ano (janeiro de 2006) para mulheres com um filho e em dois (2005) para aquelas com dois ou mais filhos.

No Simpósio de Porto Alegre, representantes das agências de fomento Capes e Fapergs e do Serrapilheira estavam presentes. A bióloga comenta que o sentimento, ao final do evento, é que algo pode ser feito a favor da questão da maternidade na ciência se o Parent in Science for atrás de um diálogo. Como resultado do encontro, um documento está sendo gerado pelo grupo e por participantes com sugestões de propostas, o qual será encaminhado em breve às agências.

A pressão por mudanças continua. Em maio, o grupo começou a estimular a campanha #maternidadenoLattes, convidando pesquisadoras de todo o Brasil a informar o período de suas licenças na bio da plataforma Lattes. Para Ricachenevsky, a maternidade e a paternidade não são indicativos de que os pesquisadores são pouco produtivos, mas apenas que estão passando por um período em que a produtividade pode cair. Um período da vida, que requer mais compreensão por parte de diferentes atores. “O potencial criativo e de resolver problemas científicos está lá. Precisamos trabalhar juntos; isso começa com dividir igualmente o ônus e a dificuldade de reconciliar a carreira e a nova vida familiar”, acrescenta.

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Na próxima matéria, vamos trazer depoimentos de pesquisadoras que sofreram algum tipo de assédio durante e depois da gravidez.

 

 

 

 

 

Saiba mais:

  • Leis que abordam as licenças-maternidade e paternidade:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8112cons.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11770.htm