0

Alvorecer dos mamíferos

          Os mamíferos são os vertebrados mais facilmente reconhecidos – inclusive, porque nós mesmos pertencemos a essa classe. Esse grupo de animais possui representantes com adaptações para todos os tipos de ambientes, seja com as grandes baleias no mar, toupeiras no subsolo ou os macacos e esquilos vivendo em árvores. Animais dominantes hoje, é difícil imaginar que há alguns milhares de anos nossos ancestrais viviam recolhidos às sombras dos grandes dinossauros. Durante a era Mesozóica (entre 250 a 65 milhões de anos atrás), o surgimento de duas grandes linhagens iria definir os mamíferos de hoje: uma chamada Allotheria (que hoje não apresenta nenhuma espécie viva, sendo, portanto, completamente extinta) e Theria, que inclui os mamíferos “verdadeiros” atuais (ou seja, todos os tipos de mamífero exceto os monotremados) e seus parentes próximos. Um grande problema não resolvido na evolução dos mamíferos é que as relações sobre a origem de Allotheria, incluindo Multituberculata e Haramiyida são muito pouco conhecidas (Figura 1).

Arvore mamiferos

Figura 1: Um cladograma representando as relações filogenéticas entre os mamíferos e seus antecessores. A grande seta indica o grupo chamado “Mamíferos Coroa”(que consiste nos representantes vivos desse conjunto, juntamente com todos os seus ancestrais, inclusive com o ancestral comum mais recente). Percebam que Haramiyida (composto pelas espécies Haramiyavia, Aboroharamiya, e os grupos Plagiaulacida e Cimolodonta) estão na árvore, já dentro dos Mamíferos Coroa.  Modificada de Zheng et al (2013).

        Os multituberculados são os mamíferos da era Mesozóica mais diversificados e conhecidos, e possuíam papel ecológico similar ao dos roedores modernos. Já os haramiyidíos foram, durante muito tempo foram conhecidos principalmente por fósseis de dentes isolados, o que sempre dificultava entender o posicionamento deste grupo dentro das pesquisas evolutivas.  Esse cenário mudou com a descoberta de vários indivíduos (inclusive, com idades diferentes) de haramiyidíos da China, datados do período Jurássico. A nova espécie, batizada de Arboroharamiya jenkinsi, era um pequeno animal arborícola, encontrado na Formação Tiaojishan (Figura 2). Sua descrição em 2013 pôde estabelecer que este era, de fato, um membro do clado Allotheria – jogando os Haramiyidios, cujo posicionamento era incerto, para bem próximo dos mamíferos verdadeiros. Graças a essa descoberta, o surgimento dos mamíferos foi situado para 50 milhões de anos antes.

Arboroharamiya

Figura 2: Representação artística de como seria o Arboroharamiya em vida. Arte por Zhao Chuang.

        Outros pesquisadores, no entanto, questionaram se esses pequenos animais seriam mamíferos verdadeiros, pois outros cinodontes possuem características ósseas muito similares aos mamíferos primitivos. Uma das poucas diferenças entre um mamífero (seja primitivo ou atual) e um cinodonte é que estes possuem um número maior de substituições contínuas da dentição.  Já os mamíferos verdadeiros possuem o que chamamos de difiodontia, ou seja, a dentição é composta por apenas duas gerações de dentes ao longo da vida (os dentes decíduos, ou “de leite”, e os dentes permanentes). Porém, no registro fóssil, é raro ter preservados os dois tipos de dentição. Para investigar e corroborar se o Arboroharamiya e os demais haramiyidíos seriam cinodontes avançados ou mamíferos verdadeiros, uma equipe de paleontólogos  tomografou os pequenos indivíduos de Arboroharamiya para explorar como seria a substituição dentária nestes animais.

        Como resultado, comparando o desenvolvimento dentário dentro de várias idades diferentes do Arboroharamiya, desde indivíduos juvenis até adultos, os pesquisadores não só observaram que os mais jovens desta espécie possuíam dentes decíduos junto com dentes permanentes, como  também apresentavam os dentes incisivos permanentes substituindo os seus correspondentes “de leite” em uma faixa de tempo muito mais lenta do que os outros dentes. Ou seja, os molares e pré-molares tinham os dentes “de leite” substituídos antes dos incisivos (Figura 3). Isso levou os paleontólogos que conduziram esse estudo a propor que o Arboroharamiya tinha uma especialização alimentar muito grande, na qual havia o prevalecimento da função mastigatória ao invés de uma função roedora. Isso trouxe mais um novo panorama: enquanto a maior parte dos mamíferos primitivos era interpretada como animais roedores, ao menos o Arboroharamiya poderia ter um hábito alimentar mais diversificado, o que implica um grande êxito adaptativo já no início da história evolutiva dos mamíferos. Essa descoberta  confirma que o Arboroharamiya faz parte do clado dos mamíferos coroa, e nos ajuda a entender novas características para os mamíferos  primitivos e seu complexo padrão de evolução. A difiodontia é tratada então como muito mais antiga do que se pensava, e reforça a entender o que de fato é um mamífero. Além, essa pesquisa nos traz novos dados que ajudam a compreender a evolução e a diversificação dos mamíferos coroa.

dente1

Figura 3: Um dos dentes analisados graças à tomografia. A figura mostra os dentes  decíduos germinados (marcados pelas siglas lp4 e lm1), enquanto que o dente permanente está terminando de se formar (marcado pela sigla am2). A seta vermelha indica um dente incisivo que estava pronto para germinar.Imagem modificada de Mao et al. 2018.

Fontes Bibliográficas:

Gang Han; Fangyuan Mao; Shundong Bi; Yuanqing Wang; Jin Meng (2017). “A Jurassic gliding euharamiyidan mammal with an ear of five auditory bones”. Nature. 551 (7681): 451–456. doi:10.1038/nature24483.

Zheng, X.; Bi, S.; Wang, X.; Meng, J. (2013). “A new arboreal haramiyid shows the diversity of crown mammals in the Jurassic period”. Nature. 500 (7461): 199. doi:10.1038/nature12353.

Mao Fang-Yuan, Zheng Xiao-Ting, Wang Xiao-Li, Wang Yuan-Qing ,Bi Shun-Dong & MENG Jin (2018). Evidence of diphyodonty and heterochrony for dental development in euharamiyidan mammals from Jurassic Yanliao Biota. Vertebrata PalAsiatica (advance online publication). Doi: 10.19615/j.cnki.1000-3118.180803

Perkins, S. (7 August 2013). “Fossils throw mammalian family tree into disarray”. Nature News. Retrieved 7 August 2013.

Anúncios
1

Carrapatos em âmbar: será que teremos um Jurassic Park?

Um dos grandes fascínios da humanidade são os Dinossauros, ainda mais depois da série de filmes Jurassic Park. Mas quem se lembra bem do filme está atento a um pequeno detalhe: o mosquito preservado em âmbar, cujo sangue continha material genético utilizado para criar os dinossauros.  

jurassic-park-ambar

Mosquito no Âmbar de Jurassic Park. Fonte: Daily Mail

flea

Pulga identificada em peça de âmbar. Fonte: cnet.com

De fato, fósseis de ectoparasitos¹ e artrópodes hematófagos já foram encontrados: ovos de piolhos presos aos pelos em um âmbar, e pulgas preservadas junto aos pelos de mamíferos, ambos datados do período Mioceno [1]. Porém, mais difícil ainda é encontrar algum traço de sangue nestes fósseis. A ciência que estuda estes parasitos é denominada Paleoparasitologia e é considerada uma das subáreas tanto da Paleontologia, como Arqueologia e Parasitologia. Na Paleoparasitologia estuda-se os parasitos em material antigo, que pode ser tanto de origem humana quanto animal.

Recentemente um grupo de pesquisadores de diferentes instituições espanholas, americanas e britânicas encontraram peças de âmbar datado do período Cretáceo. O especial destas peças é o seu interior: a presença de espécimes de carrapatos de 99 milhões de anos (Ma²). A partir de sua análise foi descrita uma nova espécie de carrapato extinta, Deinocroton draculi. E também identificada outra espécie já descrita em 2003: Cornupalpatum burmanicum.

02-tick-amber-feather.adapt.885.1

Peças de âmbar analisadas no estudo. Fonte: National Geographic

 Além da descrição de uma nova espécie, um dos espécimes encontrados estava associado a uma pena de dinossauro. Aí, você leitor, deve se perguntar: como se sabe que era de dinossauro e não de uma ave? Grupos de aves foram excluídos como possíveis hospedeiros devido ao seu surgimento há 73 Ma, antes das penas encontradas neste âmbar. As análises morfológicas relacionadas à pena e sua datação indicam que o seu dono era possivelmente do grupo Pennaraptora, um ancestral das aves modernas. Porém, é difícil saber exatamente qual espécie, com os poucos dados encontrados.

01-tick-amber-feather.adapt.1190.1.jpg

Carrapato associado a pena de dinossauro. Fonte: Nature Communications

41467_2017_1550_Fig3_HTML

Carrapato ingurgitado. Fonte: Nature Communications

Foi também identificado um carrapato ingurgitado (cheio de sangue) no pedaço de âmbar, o primeiro aproximadamente 8.5 vezes maior que o seu volume corporal. O ingurgitamento também ocorre com carrapatos fêmeas atuais, podendo atingir até 100 vezes o seu volume original. Essas evidências indicam que carrapatos se alimentavam do sangue de dinossauros durante o Cretáceo Inferior. Devido à presença de fósseis de grupos relacionados a mosquitos (dípteros) e a pulgas, questiona-se se estes artrópodes seriam vetores de patógenos de dinossauros, e o achado dos carrapatos ingurgitados reforça  esta hipótese. Hoje em dia, carrapatos são vetores de microrganismos de pássaros, mamíferos e répteis e possivelmente, estes carrapatos transmitiam estes organismos aos antepassados destes vertebrados.

04-tick-amber-feather.adapt.1190.1

Carrapatos machos não ingurgitados. Fonte: Nature Communications

Carrapatos são ectoparasitos que possuem poucos exemplares fósseis, o que dificulta muito o entendimento de sua história evolutiva e relação parasito-hospedeiros. Sabe-se que as estratégias para o desenvolvimento da hematofagia e surgimento das adaptações de ectoparasitos surgiram no período Mesozoico. Estas adaptações se estendem para os carrapatos e são condizentes com os achados deste estudo, que mostra que a relação dos carrapatos com seus hospedeiros data de pelo menos 99 milhões de anos.

Infelizmente, os pesquisadores deste estudo ainda não conseguiram a extração de material genético destes parasitos tão antigos, já que até onde se sabe, o limite para se recuperá-lo é de 1 milhão e meio de anos (depois dos dinossauros, diga-se de passagem). Acho que Jurassic Park vai ter que esperar mais um pouco… e ainda bem né?

 

  1. Parasitos que ocorrem no exterior do hospedeiro: carrapatos, piolhos e pulgas.
  2. Ma- Milhões de anos.

Referências:

[1] Peñalver, Enrique, et al. “Ticks parasitised feathered dinosaurs as revealed by Cretaceous amber assemblages.” Nature communications 8.1 (2017): 1924.

[2] National Geographic:   

<https://news.nationalgeographic.com/2017/12/tick-dinosaur-feather-found-in-amber-blood-parastites-science/>

[3] Poinar, G. O. & Brown, A. E. A new genus of hard ticks in Cretaceous Burmese amber (Acari: Ixodida: Ixodidae). Syst. Parasitol. 54, 199–205 (2003)

 

1

Caudas perigosas

Que a defesa é o melhor ataque, como diz o provérbio, todos já sabemos. E na natureza, essa regra é levada a sério, especialmente quando falamos em uma corrida armamentista natural. Tanto nos dias de hoje, como no passado, diversos animais desenvolveram formas muito peculiares para se defender de seus possíveis inimigos. Um dos locais mais vulneráveis dos corpos dos animais – a cauda – ao contrário do que é esperado, não é onde encontramos a maioria das adaptações para a defesa. Quem não se lembra dos espinhos mortais no Stegosaurus – astro de alguns filmes e desenhos animados sobre dinossauros – ou a clava no não-tão-famoso, o Ankylosaurus (Figura 1)? Até mesmo alguns saurópodes desenvolveram algo parecido com a clava dos Ankylosaurus, porém aparentemente isso só surgiu apenas em duas espécies desse grupo.

figura 1

Figura 1. Diferentes tipos de dinossauros e suas caudas modificadas em armas para defesa. A) Ankylosaurus e sua cauda em clava; B) Shunosaurus com um “porrete” na cauda e C) Miragaia, um parente do Stegosaurus, mostrando a cauda repleta de espinhos. Imagem por Mohamad Haghani.

Mas o grande mistério permanece: por que não vemos estruturas parecidas como essas nos animais viventes? Em um estudo que abrange 300 milhões de anos de história evolutiva, duas pesquisadoras, Victoria Arbor da Universidade Estadual da Carolina do Norte e Lindsay Zanno, do Museu de Ciências Naturais da Carolina do Norte sugerem uma resposta interessante. Segundo as autoras, são necessários quatro componentes: maior tamanho corporal, presença de uma armadura (ainda que sutil), e… rigidez torácica!

Para desenvolver o trabalho, as autoras analisaram um conjunto de dados com 286 espécies, entre elas dinossauros, mamíferos e outros vertebrados. Dentre as amostras, foram levantadas espécies vivas e extintas, para avaliar se havia algum tipo de direcionamento na evolução de três tipos específicos de armas na cauda (espigões ou espinhos ósseos, um rabo rígido ou um espessamento ósseo na ponta da cauda, veja Figura 2).

As autoras descrevem no artigo que clavas, porretes e espinhos nas caudas só são encontrados em poucos animais extintos – como os dinossauros já ditos anteriormente, mas também em algumas tartarugas fósseis e em gliptodontes (parentes distantes dos tatus). Apesar de todos esses exemplos serem de espécies já extintas, as autoras também levantam um ponto: se o aparecimento de defesas nas caudas está relacionado ao tamanho corporal, por que outras espécies de dinossauros também não desenvolveram algo semelhante em suas caudas? E mais ainda: quando as autoras observaram o registro fóssil, perceberam que na verdade a maior parte dos armamentos estão localizadas na cabeça. Isso leva a outro questionamento: se a cabeça é alvo preferencial de predadores, por que a evolução não favoreceu mais animais com caudas armadas, ao invés de criar algo que chama mais atenção para a cabeça?

figura 2

Figura 2. Existem três tipos principais de artigos de defesa na cauda: clavas, espinhos e enrijecimento caudal. Todos eles são ligados a quatro parâmetros descritos pelas autoras. Imagem adaptada de Arbour & Zanno, 2018.

Como possíveis respostas às essas perguntas, as autoras perceberam que todos os animais amostrados tinham quatro características em comum. Primeiro, eles eram geralmente grandes, pesando mais de 200 quilos – ou seja, animais pequenos não estão propensos a desenvolver esse tipo de defesa. Em segundo lugar, seria o aparecimento de algum tipo de armadura. Antigas espécies de tartarugas, gliptodontes e dinossauros blindados estavam cobertos com algum tipo de carapaça dura. E essa resposta já nos leva a um terceiro ponto: a rigidez torácica. Essa rigidez se deve a presença da própria armadura, já que se seu corpo possui uma cobertura óssea, ele não irá se dobrar lado a lado facilmente. A rigidez, em particular, levou as paleontólogas a pensar que essa falta de mobilidade lateral ajudou a neutralizar as forças necessárias para balançar uma cauda mais pesada.

O último ponto já se referia a algo interessante: somente animais herbívoros desenvolveram esse mecanismo. Esse último ponto, entretanto, não era uma novidade, visto que tanto Darwin (1871) quanto outros autores (exemplo, Emile, 2008) já haviam percebido que a maior parte dos animais que desenvolvem alguma estrutura de defesa são animais herbívoros, de modo a terem uma proteção mais ofensiva contra os seus predadores. A novidade das autoras, então, foi associar a herbivoria aos demais componentes (tamanho corporal, presença de algum tipo de armadura e rigidez torácica) para favorecer o surgimento de estruturas de defesa nas caudas, bem como de observar que todas essas estruturas, apesar de terem uma mesma função defensiva, possuíam duma diversidade de comportamentos associados a elas (Figura 3). Outros resultados mostraram que a maioria das defesas nas caudas consiste na modificação e fusão de osteodermos, enquanto raras são as vezes que estruturas completamente novas (como as clavas dos anquilossauros ou do Shunosaurus) são criadas, todas elas gerando uma diversidade de blindagens.

figura 3

Figura 3. Os tipos de defesas encontradas nas caudas dos animais estudados e seus possíveis comportamentos associados. Imagem adaptada de Arbour & Zanno, 2018.

As autoras percebem que o armamento nas caudas é raro nos animais existentes pela combinação de fatores também não ser algo muito frequente na fauna de hoje – já as explicações do que porquê isso não acontece ainda não são conhecidas e aguardam por novos estudos. Mas claro que, por essa combinação de quatro componentes já foi um tanto raro no passado, é de certa forma esperado que também não fosse muito comum nos dias de hoje. Por fim, as autoras concluem que essas correlações ecológicas e morfológicas sugerem que os quatro parâmetros identificados por elas influenciam a evolução de distintos comportamentos, bem como suas possíveis consequências em desenvolvimentos de estruturas morfológicas para evitar predadores.

Referências:

ARBOUR, V.M.; ZANNO, L.E. 2018. The evolution of tail weaponization in amniotes. Proceedings of The Royal Society B 285: 20172299.

DARWIN, C. 1871 The descent of man, and selection in relation to sex, vol. 2. London, UK: John Murray.

EMLE, N.D.J. 2008. The evolution of animal weapons. Annu. Rev. Ecol. Evol. S. 39, 387–413. (doi:10.1146/annurev.ecolsys.39.110707.173502)

 

 

0

A (re)descoberta de um titã no outback australiano: novos olhares sobre um “velho conhecido”!

Descoberto há cerca de 80 anos, o dinossauro Austrosaurus mckillopi Longman, 1933 era um animal com 15 metros de comprimento que viveu no estado de Queensland, localizado no nordeste da Austrália (Figura 1). Com 100 milhões de anos, essa espécie foi descrita baseada em alguns fragmentos, principalmente vértebras do meio da coluna e algumas costelas (o que é comum para os fósseis de animais de grande porte). Esses ossos ajudaram a identificar o Austrosaurus como um saurópode – um tipo de dinossauro com um pescoço longo que caminhava em quatro pernas. Detalhes de uma nova pesquisa sobre essa espécie foram publicados na revista Alcheringa, e trazem novos dados muito interessantes para a Paleontologia de Vertebrados.

 1

Figura 1: Mapa da Austrália. A estrela evidencia na região de Queensland o local onde o fóssil foi encontrado.

Tudo começou em 1932 quando Henry Burgoyne Wade descobriu algumas rochas incomuns perto de uma estação de trem em Queensland.  Curioso com sua descoberta, Henry os mostrou a Harley John McKillop, gerente da estação local, que então contatou seu irmão médico da cidade de Brisbane, o Dr. Martin Joseph McKillop. O Dr. Martin viajou mais de 1.700 quilômetros para ajudar a coletar mais fósseis, enviando um esboço dos ossos encontrados juntamente com o mapa para Heber Longman, diretor do Museu Queensland em Brisbane. Longman imediatamente reconheceu o achado como partes de um saurópode e pediu que os fósseis fossem enviados para ele (Figura 2). Porém, após o ano de 1933, pouca atenção foi dada ao Austrosaurus, e o sítio onde os fósseis foram escavados foi considerado perdido. Em 2014, uma equipe de paleontólogos da Austrália e Inglaterra conseguiu recuperar o sítio perdido, além de escavar outros elementos fósseis desse dinossauro! Os novos fósseis, juntamente com os materiais que haviam sido descritos inicialmente para Austrosaurus, foram redescritos, além de terem sua morfologia interna analisada com auxílio da tomografia computadorizada.

2

Figura 2: Fósseis do Austrosaurus mckillopi, ainda articulados, e que representam parte da coluna vertebral do dinossauro. Fonte: Poropat et al., 2017.

Uma das características mais marcantes do Austrosaurus é o corpo das vértebras serem internamente compostas por centenas de pequenas câmaras, que possivelmente estavam cheias de ar quando o animal estava vivo – tais quais as aves de hoje, que possuem sacos aéreos (Romer e Parsons, 1977). Os sacos áereos são estruturas de paredes finas, formadas por um epitélio simples e que estão conectados ao pulmão, além de serem conectados a alguns ossos pneumáticos através de divertículos que invadem esses ossos. No caso do Austrosaurus, a análise tomográfica revelou que esse dinossauro possuía três camadas concêntricas de tecido ósseo pneumático (chamado de camella) na região posterior das vértebras. Poucos saurópodes que foram tomografados, no entanto, apresentam esse mesmo tipo de tecido pneumático alinhado em camadas concêntricas – entre eles, podemos destacar o dinossauro argentino Saltasaurus loricatus Bonaparte & Powell, 1980 e o brasileiro Austroposeidon magnificus Bandeira et al., 2016. No caso do Saltasaurus, apenas uma camada de tecido pneumático foi observado, condição que os autores concluíram ser uma consequência do tamanho significativamente menor desse animal (Poropat et al., 2017). Assim, os autores defendem que animais maiores que o Austrosaurus – como o Austroposeidon, estimado em 25 metros! – possivelmente mostrariam mais anéis desse tecido ósseo pneumático (Figura 3). Porém, cabe lembrar que Bandeira e colaboradores (2016) interpretaram essas lâminas como “estruturas de crescimento intercaladas”, o que significaria que animais grandes, na verdade, crescem em intervalos de tempo (ou seja, se as condições ambientais estão favoráveis, esses dinossauros possivelmente cresceriam em ritmo mais acelerado, e caso as condições não fossem, eles cresceriam de forma mais lenta). Se essa intercalação de tecido ósseo distinto seria algo biomecânico ou não, somente a avaliação de mais dinossauros sob a ótica da tomografia computadorizada – bem como com o auxílio da histologia – poderá responder essas questões no futuro.

3

Figura 3: Imagem da análise de tomografia computadorizada: A) nos ossos da coluna vertebral do Austrosaurus, revelando os ossos pouco densos e com alguns anéis de tecido pneumático, B) nas vértebras do Austroposeidon, onde os anéis de tecido ósseos intercalados, sendo possível observar a olho nu (C). Imagens modificadas de Poropat et al., 2017; Bandeira et al., 2016.

Mais um ponto interessante refere-se a investigação de outro mistério relacionando a esse animal: afinal, o Austrosaurus (como todos os dinossauros saurópodes) era um animal completamente terrestre, mas seus ossos foram achados em rochas de origem marinha! Claro que o Austrosaurus não foi o primeiro saurópode a ser achado em rochas de um antigo mar, porém isso é bem incomum (Mannion e Upchurch, 2010). E com esse mistério em mãos, a estudante de doutorado da Universidade de Queensland e co-autora do trabalho, Caitlin Syme, tentou descobrir como a carcaça veio a descansar no fundo de um antigo mar na região. Ela concluiu que o corpo do Austrosaurus foi parar no mar possivelmente devido ao processo chamado de “incha e afunda” (bloat and float, termo original proposto por Allison e Briggs, 1991), onde os gases produzidos durante a decomposição da carcaça levam ao inchaço do corpo e o torna um objeto flutuante, e que por isso poderia ser transportado para longe do local original de vida. No caso dos saurópodes, como foi discutido mais acima, a presença de um tecido pneumático que invadia as vértebras provavelmente teria afetado a dinâmica desses dinossauros e pode ter prolongado o estágio de flutuatação (Henderson, 2004). A co-autora Syme então concluiu que à medida que a decomposição da carcaça progrediu, os gases teriam escapado da carcaça (além da possibilidade de terem atraído diversos predadores marinhos oportunistas, que devem ter saboreado a carne de um animal com 15 metros!). Por fim, uma parte dela permaneceu intacta com alguns dos tecidos moles (como tendões e músculos), não sido totalmente decompostos mesmo quando os restos finais do Austrosaurus afundaram (Figura 4).

4

Figura 4: O possível trajeto da carcaça do Austrosaurus, desde a morte do animal até o soterramento final. Fonte: Poropat et al., 2017.

Por fim, o Austrosaurus mckillopi têm sua importância histórica por ser o primeiro dinossauro do Cretáceo reconhecido em Queensland, e o primeiro saurópode cretáceo já relatado para a Austrália. A redescrição dessa espécie com maior nível de detalhes ajudou e muito a aprimorar o conhecimento que tínhamos sobre os saurópodes, os maiores animais que já existiram na superfície terrestre do planeta. Ainda que muitas perguntas estejam em aberto, uma das melhores maneiras de promover a compreensão paleontológica é investir em mais trabalhos de campo em busca do encontro de novos fósseis, além de claro, reavaliar espécimes antigos com novas técnicas. Enquanto isso, aguardemos que a contínua busca de novos fósseis nos revele mais dados interessantes sobre esses fascinantes animais.

PARA SABER MAIS:

Allison PA & Briggs DEG., 1991. Taphonomy of nonmineralized tissues. In Taphonomy: Releasing the Data Locked in the Fossil Record. In Allison PA & Briggs, eds, Plenum Press, New York, NY, 25–70.

Bandeira KLN, Simbras FM, Machado BE, Campos DdA., Oliveira GR & Kellner, AWA. 2016. A new giant Titanosauria (Dinosauria: Sauropoda) from the Late Cretaceous Bauru Group, Brazil. PLoS ONE 11, e0163373. Acesse aqui: goo.gl/NaeqUA

Henderson DM. 2004. Tipsy punters: sauropod dinosaur pneumaticity, buoyancy and aquatic habits. Proceedings of the Royal Society B 271, S180–S183.

Mannion PD & Upchurch P. 2010. A quantitative analysis of environmental associations in sauropod dinosaurs. Paleobiology 36, 253–282.

Poropat ST, Nair JP, Syme CE, Mannion PD, Upchurch P, Hocknull SA, Cook AG, Tischler TR & Holland T. 2017. Reappraisal of Austrosaurus mckillopi Longman, 1933 from the Allaru Mudstone of Queensland, Australia’s first named Cretaceous sauropod dinosaur, Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology, doi:10.1080/03115518.2017.1334826. Acesse aqui: goo.gl/zs6Cpu

Romer AS & Parsons TS. 1977. The Vertebrate Body. Holt-Saunders International. pp. 330–334. ISBN 0-03-910284-X.