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Pílulas do festival Mulheres do Mundo: feminismo e ciência na veia

Por Renata Fontanetto e Rebeca Bayeh

Durante os dias 16 a 18 de novembro, a praça Mauá foi sacudida pelo festival Mulheres do Mundo (WoW, na sigla em inglês). Nós duas, Renata e Rebeca, fomos selecionadas pelo British Council (BC) para participar do início do programa Mulheres na Ciência e integrar o treinamento em divulgação científica oferecido pelo BC. Foram dois dias intensos de aprendizados e troca de vivências. Depois, tivemos que cobrir o WoW nos três dias de festival. Separamos pequenos momentos que observamos para compartilhar no Cientistas Feministas. Vem junto!

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Cientistas Feministas marcando presença no WoW: na foto, Rebeca Bayeh, Renata Fontanetto, Meghie Rodrigues e Josephine Rua com participantes da sessão “Converse com uma cientista”. (Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

O protagonismo é das mulheres, a luta é da sociedade como um todo

“Aprendi a ser feminista sem ser feminista”. A frase foi de Avanildo Silva, agrônomo e gestor de projetos da ActionAid, na roda de conversa “A conversa aqui é eles com elas pela igualdade de gênero”. Segundo Silva, os homens deveriam conhecer os princípios, filosofia, métodos e abordagens do dia a dia do feminismo, mas sem roubar o protagonismo e a luta, que sempre será das mulheres. Reconhecendo que as mulheres estão em condição de desigualdade, os homens poderiam ser empáticos à causa e lutar por um mundo mais justo e igualitário impedindo, por exemplo, aquele “brother” machista (racista, homofóbico…) de reproduzir piadas e comportamentos que constrangem individualidades e coletividades. Não vamos conseguir sozinhas porque não vamos e não queremos lutar sem nossos pais, filhos, amigos, familiares e amores. Se for preciso, seguiremos sozinhas. Mas queremos os homens ao nosso lado também! A sociedade como um todo precisa estar engajada.

Um mundo sem “mordidinhas de mosquito”

A física Márcia Barbosa, em fala na discussão “Mulheres na ciência e a potência do trabalho realizado em rede”, disse que as frases que as mulheres ouvem todos os dias, que muitas pessoas na sociedade veem como inofensivas (“mordidinhas de mosquito”, em suas palavras), machucam, expõem, constrangem, isolam e podem causar adoecimento. São frases inoportunas que falam sobre a inteligência de uma mulher, o “absurdo” de ser mãe e querer seguir carreira científica, estereótipos femininos e toda sorte de barbaridades que podem calar uma mulher e prejudicar seu desempenho acadêmico. Para impedir que essas mordidas continuem a nos machucar, é preciso que as universidades e instituições estimulem alunas e docentes a denunciar, criando um ambiente acolhedor e seguro.

Tesoura de repicar

Márcia Barbosa também compara os recortes opressivos às tesouras de repicar, explicando que mulheres são sempre sub-representadas nas ciências, mas que conforme analisamos recortes mais profundos como raça, maternidade e região, as proporções de mulheres que pertencem a minorias são ainda menores.  “O problema é geral, mas é agravado pelas circunstâncias e pelo grupo social do qual você faz parte”, concorda Josephine Rua, também física, que participou da sessão de tutoria “Converse com uma Cientista”, do WoW. Josephine conta sobre um workshop do qual participou no International Center of Theoretical Physics, que reuniu mulheres físicas do mundo todo. “Você vê as diferenças dos típicos casos latino-americanos, os típicos casos africanos, os típicos casos de países africanos que são muçulmanos”, adicionando que alguns passaportes sequer dão acesso a países na Europa e aos EUA, onde a maioria dos congressos científicos acontece.

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(Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

As mulheres na divulgação científica precisam se unir!

A jornalista Flávia Oliveira, na mesa “As mulheres precisam conquistar o campo da comunicação”, levantou reflexões sobre a presença feminina no jornalismo e, por tabela, refletimos sobre a presença da mulher na divulgação científica. Entendemos a divulgação científica (DC) como uma área que dialoga fortemente com a comunicação, sendo o jornalismo científico uma das áreas que a integram. Segundo levantamento sobre o perfil do jornalista brasileiro (2012), da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), 64% dos profissionais atuantes no país são mulheres, mas os homens continuam sendo maioria nos cargos de chefia. Se mergulharmos num recorte racial, a realidade é ainda mais grave. “Aqui na sala vocês estão vendo 100% das colunistas negras do jornal O Globo”, disse Oliveira, referindo-se a ela e Ana Paula Lisboa, outra palestrante da sessão. A divulgação científica ainda precisa de dados mais sólidos que explorem a questão da presença feminina no campo, mas durante o festival pudemos perceber que isso também precisa ser discutido pela área. Um exemplo que defende o nosso ponto de vista é a presença de mulheres em canais do ScienceVlogs Brasil: ao todo, há 39 canais, sendo que apenas três são de mulheres. Mulheres da divulgação científica, UNI-VOS!

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Na sessão “Converse com uma cientista’, o público podia escolher sua cientista e tirar dúvidas durante 15 minutos. (Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

Representatividade importa

“Se você não pode ver, não pode ser”, repetiu a física e jornalista britânica Sue Nelson ao longo do Festival, no qual participou falando sobre mulheres nas ciências espaciais. Sue, que trabalhou como correspondente da BBC e hoje trabalha na Agência Espacial Europeia produzindo vídeos de divulgação científica, conta que havia apenas três mulheres em sua turma e que todas ouviram ao longo da vida comentários como “você não deveria estar fazendo física”. Ela acrescenta que aprendeu a ignorar comentários misóginos ao longo de sua carreira e a focar em suas ambições profissionais. Ela é entusiasta da ficção científica porque acredita que mulheres podem se inspirar em personagens cientistas. “Se você vê uma mulher fazendo o trabalho, você pensa ‘eu também posso fazer isso’”. E também observa que fora da ficção há cada vez mais representantes femininas na ciência para que as meninas se inspirem. “Felizmente hoje há muito mais mulheres que têm modelos femininos na ciência, porque há mais mulheres fazendo comunicação científica, mais mulheres nas ciências e organizações como Go Science Girl”.

Quem deseja estudar fora precisa se unir e resistir

Na mesa “Sem fronteiras: mulheres que se aventuram a pesquisar fora do Brasil”, pesquisadoras de diferentes áreas compartilharam as experiências que tiveram em temporadas de estudo fora do país. Viver longe da família, estudar um idioma novo e conhecer costumes de uma cultura diferente, ao mesmo tempo em que se escreve dissertação ou tese, pode ser um desafio e tanto. Separamos três conselhos que ouvimos por lá. Para a psicóloga Enoe Isabela de Moraes, que estudou na Inglaterra e é colaboradora no Núcleo de Estudos Afrodescendentes e Indígenas da Universidade Federal de Goiás, é fundamental conhecer os próprios limites para saber o que você está disposto a fazer, bem como entrar em contato com histórias de outras pessoas para observar o que elas passaram e como enfrentaram questões diversas em outro país. A professora de biologia e pesquisadora paraibana Ana Cláudia Gonçalves conta que sentiu a Síndrome do Impostor em todas as suas vivências enquanto fez intercâmbio na Austrália e mestrado no Reino Unido. “Procurem por redes de apoio dentro da universidade para que vocês se fortaleçam”, sugeriu. A física mineira Zélia Ludwig, que passou por temporadas na Alemanha e Estados Unidos, defendeu que é preciso divulgar para outras mulheres a própria experiência. “Quando um já foi e conta para o outro, este outro já vai muito mais destemido. É uma forma de incentivar outras mulheres”.

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(Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

Estratégias de luta

É unanimidade que mulheres cientistas lidam com problemas que seus pares homens não enfrentam. Mas as perspectivas sobre causas, consequências e estratégias – legítimas em suas respectivas realidades – são diversas. Sue Nelson advoga pelo foco: “Na vida sempre haverá pessoas dizendo que você não deveria estar lá, que você não deveria estar fazendo o que faz, que aquilo não é para você. Você tem que se acostumar com isso, ignorá-los e fazer o que você quer fazer”. Timandra Harkness, escritora, comediante e jornalista científica britânica, conta que já usou o fato de entrevistados subestimarem seu conhecimento científico a seu favor. “Como jornalista, é muito útil que não esperem que você saiba algo, porque isso significa que você pode perguntar ‘o que é um gene?’[…] meu trabalho é conseguir respostas, a audiência quer respostas […]. Você também pode começar com questões pequenas e básicas e então os pegar de surpresa. Eles não estão esperando isso”, compartilha Timandra com humor. Duília de Mello, astrofísica brasileira que também participou do WoW, propõe uma estratégia diante da situação política: “seja uma pessoa positiva em um ambiente negativo […] encontre sua felicidade, porque isso pode mudar a realidade a sua volta”. Duília propõe que se realizar um sonho não é possível agora, o caminho da adaptação e resiliência podem possibilitar sua realização futura ou sua transformação em algo novo. A química brasileira Joana D’Arc Félix de Souza, vencedora de dezenas de prêmios nacionais e internacionais, é uma das mulheres cientistas que conta ter passado por isso, ao narrar sua transição entre sonhar pesquisar nos EUA, mas se ver forçada a voltar para o Brasil e lecionar em uma escola técnica. Ao contar sobre sua trajetória, destaca alguns conselhos-chave. “Você não pode ter vergonha de pedir quando você precisa”, aconselha. Joana advoga pela persistência e compartilha que o preconceito que sofreu serviu como combustível para suas conquistas. “O preconceito pode ser utilizado como ferramenta para formação de cérebros pensantes”.

 

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