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Por que menstruamos? A história evolutiva da menstruação

Menstruação. Esse acontecimento fisiológico que ocorre com metade da população mundial em idade fértil ainda é um tabu social e científico em muitos aspectos. Por exemplo, quem nunca viu uma propaganda de absorvente que representa o sangue menstrual em cor azul ou rosa? Os fatores sociais e culturais relacionados  a este tema afetam a vida das mulheres[1] em todo o mundo e possuem influências em diversas questões políticas relacionadas à liberdade e saúde da mulher, mas o entendimento profundo sobre o assunto ainda é escasso para grande parte da população.

Recentemente a famosa revista científica “The Lancet” lançou uma nota editorial com o tema “Tempo de falar sobre menstruação” [1] na qual apresenta dados sobre como a menstruação é um assunto negligenciado socialmente, mesmo podendo afetar desde a autoestima de meninas e mulheres até o desempenho escolar destas, que precisam passar por este período todo mês. Então, no texto de hoje vamos abordar esse tema e mostrar algumas curiosidades sobre o assunto.

Os médicos e cientistas se perguntavam sobre o motivo e a função da menstruação desde os anos 400 a 300 a.C.. Nesse tempo eles acreditavam que a menstruação era a substância necessária para a formação do embrião. A crença era de que o sêmen atuaria no sangue menstrual levando este à coagulação. Sendo o sangue a matéria prima do embrião, perder este antes da entrada do sêmen era considerado na época equivalente a assassinato infantil. Esse simples desconhecimento de ciência levou na prática ao casamento de crianças em alguns países, sendo considerado um crime para uma menina menstruar antes de se casar [2].

Essa visão antiga sobre a menstruação permaneceu popular por quase dois mil anos, e somente por volta de 1700 os cientistas perceberam a diferença entre sangue menstrual e o sangue que circula em nosso corpo [3]. Com o passar dos anos, no final do século XIX e início do século XX, a partir de avanços na ciência com a descrição do ciclo hormonal de alguns mamíferos, acreditava-se, erroneamente, que a menstruação na mulher era equivalente ao sangramento relacionado ao momento de cio em alguns animais, sangramento proestrus [4]. Foram necessários mais alguns anos, até que em 1923 George W. Corner publicou um trabalho descrevendo a menstruação como um processo secundário, relacionado a um método altamente desenvolvido de implantação do embrião [5]. Sabe-se atualmente que esse processo ocorre em apenas 1,5% das espécies de mamíferos, sendo quase que restrito à primatas (78 ordens), mas que também está presente em 4 espécies de morcegos, um pequeno mamífero africano Elephantulus myurus, e recentemente descoberto na espécie de rato Acomys cahirinus [6, 7].

espécies que menstruam
Figura 1. Outras espécies que menstruam (Elephantulus myurus e Acomys cahirinus).

Com o surgimento e popularização da teoria da evolução, diversas hipóteses surgiram para explicar a função da menstruação, sempre tendo como perspectiva o fato de que, se este processo sobreviveu à seleção natural, provavelmente ele deve ser de alguma forma vantajoso ou pelo menos não prejudicial aos primatas e à continuação da espécie. Na época, os cientistas ignoraram os fatos de que a menstruação só ocorre em fêmeas com desenvolvimento corporal completo e apenas quando não estão grávidas ou amamentando. Assim, encontrar uma função para a menstruação consistia em uma tarefa árdua, pois era possível que as fêmeas passassem os seus genes para as próximas gerações mesmo sem menstruar e anteriormente à seleção natural exercer efeitos positivos ou negativos sobre a espécie [1]. Seguindo esse ponto de vista, aparentemente, a menstruação não está envolvida com alguma função específica na evolução dos primatas, mas possui uma ligação direta com o nossa forma de reprodução e à função do útero das mulheres.

Nesse sentido, olhando para o trato feminino atual, tudo começou com uma estrutura primitiva especializada em transportar gametas que apareceu primeiramente no peixes com mandíbulas. Esta estrutura evoluiu por milhões de anos, sendo conhecida atualmente como ductos de Müller ou Mulleriano, o precursor do útero, oviduto, cérvix e vagina superior nas mulheres. A grande vantagem da estrutura primitiva era permitir que o macho depositasse seus gametas diretamente dentro da fêmea, facilitando assim a união dos gametas e a fecundação.

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Figura 2. Ducto Mulleriano e a formação das estruturas do sistema reprodutivo feminino (Fonte: Wilhelm, D. e colaboradores/Physiological Reviews). Traduzido para português e adaptado.

Essa fertilização interna constituiu em um primeiro passo para a conquista do ambiente terrestre, mas apresentava algumas desvantagens evolutivas. Primeira, o embrião agora dentro da mãe possuía um tecido diferente geneticamente da mãe e um processo inflamatório de não reconhecimento deste tecido estranho teria que ser evitado. Segundo, a presença do embrião no interior de um ducto significava que a evolução do trato feminino passaria a ser realizada em conjunto com a evolução do embrião, sendo desta forma mais difícil de ter sucesso evolutivo.

Mudanças importantes no ducto Mulleriano ocorreram ao longo dos anos nas espécies que conquistaram o ambiente terrestre. Em répteis essa estrutura atuou na adição de camadas de proteção ao embrião (ovo), e em mamíferos, que evoluíram a partir de ovos de répteis primitivos, vestígios dessas camadas protetoras do embrião ainda existem. Um exemplo atual dessa evolução são os mamíferos primitivos que vivem nos dias atuais, como os ornitorrincos (Figura 3), que ainda possuem ovos.

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Figura 3. Ornitorrinco e seus ovos (Fonte: Agostini Picture Library/De Agostini/Getty Images).

O surgimento do útero em mamíferos ocorre com a especialização deste na provisão de nutrientes para o embrião. E com o passar do tempo, a evolução útero ocorreu no sentido de um contato cada vez cada vez mais íntimo entre o embrião e o endométrio materno (Figura 4). Tudo isso permitiu uma transferência de nutrientes cada vez mais eficiente entre as membranas que separam o sangue fetal e o materno.

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Figura 4. Esquema do trato feminino (Fonte: Editora Sanar). Com adaptações.

Para evitar a expulsão do embrião e o processo de inflamação no corpo da mãe em relação aos tecidos não reconhecidos deste, a evolução do embrião ocorreu no sentido de paralisar o processo inflamatório no útero e juntamente formar um tecido de granulação de proteção. Esse processo ocorre com o controle do embrião em estágios bem iniciais de um hormônio da mãe chamado de progesterona. Esse hormônio é majoritariamente produzido pelo ovário, porém com a fecundação passa a ser controlado, e posteriormente, produzido pelo próprio embrião. Esses efeitos combinados se converteram na resposta de implantação do embrião, que é considerada bem invasiva em primatas em relação ao mesmo processo em outros animais [8].

Contra isso, a mãe reagiu ao longo da evolução para proteger as camadas epiteliais do seu útero por meio de mudanças na espessura da parede do útero (endométrio) ao longo do ciclo de fertilidade e em resposta à antecipação de uma gravidez e a invasão do possível embrião. Assim, quando a gravidez não ocorre, há apenas o descolamento dessa parede do endométrio com um sangramento: a menstruação.

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Figura 5. Embrião se implantando na parede do útero (Fonte: Science Picture Co/SPL).

Ao perceber a estreita relação entre a menstruação e o seu papel na implantação do embrião, é difícil imaginar que estas poderiam ter evoluído separadamente. Assim, outra hipótese muito aceita é que a função evolutiva mais útil da menstruação é de se livrar de embriões não implantados corretamente [1, 7]. Ainda, não podemos deixar de citar, que uma pesquisadora chamada Margie Profet defende a ideia de que a menstruação serviria também para proteger a fêmea dos patógenos transportados pelo esperma do macho [9], mas vários autores discordam dessa hipótese e testes clínicos ainda são necessários para comprovar essa afirmação [10].

Para finalizar, um fato curioso da abordagem do tema é um pequeno vídeo produzido pela Walt Disney em 1946. Desculpas antecipadas pelas imagens e comentários sexistas da época, mas acredito que seja interessante conferir.

E aí, vamos colocar a menstruação na roda de conversa?

Referências

  1. The Lancet. Time to talk about menstruation: #PeriodEmoji. Lancet, 389: 2264, 2017.
  2. Finn, A.C. Why do women menstruate? Historical and evolutionary review. European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology 70, 3-8, 1996.
  3. Grant E, ed. A source book in Medieval Science. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1964.
  4. Heape W. The ‘sexual season’ of mammals and the relation to menstruation. Q J Microsc Sci 44,1-70, 1900.
  5. Corner, G. W. Oestrus, ovulation and menstruation. Physiological Reviews 3, 4, 457-482, 1923.
  6. Bellofiore, N., Ellery, S., Mamrot, J., Walker, D., Temple-Smith, P. e Dickinson, H. First evidence of a menstruating rodent: the spiny mouse (Acomys cahirinus). American Journal of Obstetrics and Gynecology, 2016.
  7. Emera, D., Romero, R., Wagner, G. The evolution of menstruation: A new model for genetic assimilation. Bioessays, 34, 26–35, 2011.
  8. Kirby DRS. Development of mouse eggs beneath the kidney capsule. Nature 187, 707,1960.
  9. Profet, M. Menstruation as a defense against pathogens transported by sperm. The Quarterly Review of Biology, 68(3), 335–386, 1993.
  10. Dasgupta, S. Why do woman have periods when the most animals don’t? BBC earth, 2015.

[1] É importante tomar nota que ao se referir à mulheres nos artigos utilizados para compor este texto, os autores se referem a pessoas que possuem biologicamente o sistema genital feminino. Homens trans ou pessoas que não se identificam com nenhum dos dois gêneros também podem menstruar, mas este tema específico não será o foco deste texto.

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As múltiplas vozes na luta pelos direitos trabalhistas das mulheres no Brasil

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A historiadora Gláucia Fraccaro apresenta um exemplar do jornal operário A Plebe. Fonte: Antoninho Perri

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Exemplar do santinho da campanha de Bertha Lutz. Fonte: Arquivo Nacional / Antoninho Perri

Quando lemos sobre a história do feminismo e da conquista dos direitos das mulheres aqui no Brasil, inevitavelmente são destacados os nomes de “líderes” famosas como Bertha Lutz (1894-1976, fundadora da Fundação Brasileira pelo Progresso Feminino em 1919) e Carlota Pereira de Queiroz (1892-1982, primeira deputada federal do Brasil). Ainda que o desempenho dessas mulheres junto ao governo brasileiro tenha sido, de fato, de uma importância inegável, o foco em suas atuações acaba perpetuando duas ideias muito limitadoras a respeito desse tema: a primeira, de que a história do feminismo no Brasil foi um só movimento, com uma pauta única e igual para todas as envolvidas; e, segundo, a de que foi apenas com a luta de mulheres da classe média e alta que houve avanços nas conquistas dos direitos femininos.

A tese de doutorado de Gláucia Fraccaro, Os Direitos das Mulheres – Organização Social e Legislação Trabalhista no Entreguerras Brasileiro (1917-1937), defendida em 2016 na Universidade Estadual de Campinas, mostra claramente que é possível contestar essas duas ideias. A sua pesquisa foi baseada tanto na análise de textos legislativos e jurídicos desse período quanto da imprensa operária, sem perder de vista também um interessante viés internacional a partir da forma como a ideia de se defender direitos trabalhistas específicos para as mulheres, como a licença-maternidade, estava sendo pensada em outros países, em especial através da Organização Internacional do Trabalho. Assim, Fraccaro conseguiu mostrar que havia outras vozes em jogo nessas décadas tão importantes para a consolidação das leis do trabalho brasileiras.

Em especial, a historiadora investiga a participação das trabalhadoras paulistas nas organizações sindicais, nas greves e na imprensa operária para indicar que as suas reivindicações, pautadas pelo lema “trabalho igual, salário igual”, precederam em muito tempo as ideias de Lutz e Queiroz. Na verdade, ao iluminar as experiências das operárias nas fábricas de São Paulo, Fraccaro nos mostra que os estudos sobre os conflitos entre as classes dentro do capitalismo abrangem questões muito complexas a partir da permanência de uma mentalidade patriarcal que, no caso das trabalhadoras, obrigava-as, além de lidar com a mesma exploração econômica enfrentada pelos operários, como jornadas de trabalho excessivas, a se organizarem para lutar contra outros problemas sofridos exatamente por serem mulheres, como salários muito menores, nenhuma segurança durante a gravidez ou pós-parto, e abusos sexuais por parte dos capatazes das fábricas. A sua atuação, ao contrário da imagem tradicional de que os movimentos sindicais e operários contavam apenas com homens, foi tão relevante que Fraccaro conseguiu localizar documentos que circulavam entre os donos das fábricas em que se percebe como várias mulheres eram consideradas “agitadoras” e, por isso, deveriam ser demitidas de seus empregos e vigiadas.

A sua luta se fazia ainda mais complicada porque não se dava apenas na relação patrão-empregado: os próprios operários, ainda que concordassem com a defesa de salários iguais, por exemplo, consideravam que o lugar primeiro de atuação das mulheres deveria ser o lar e, por isso, em tempos de desemprego, defendiam que elas deveriam ceder seus postos de trabalho para seus parentes homens. Fraccaro cita, por exemplo, um documento elaborado pela União dos Operários em Fábricas de Tecido que acusava os industriais de preferirem contratar mulheres pois, segundo sua opinião, elas se submetiam com mais resignação a todas as injustiças, e propunha que “os lugares ocupados hoje por mulheres nas indústrias fossem, numa porcentagem crescente, de mês a mês, ocupados por homens, até a extinção do total do elemento feminino nas indústrias”, e que “toda mulher que trabalha na indústria e no comércio possa ser substituída pelo marido, irmão, tio ou pai desempregados da mesma profissão” (apud Fraccaro, 2016, p.55). Tudo isso porque, segundo o mesmo documento, homens desempregados oferecem “assim um espetáculo ao mesmo tempo ridículo, vergonhoso e revoltante: o de ver a mulher na fábrica e o marido em casa cuidando dos serviços domésticos e levar as crianças ao portão das fábricas para serem amamentadas” (idem, p.54).

Mesmo em relação ao movimento feminista sufragista havia fortes divergências, em especial a partir das mulheres anarquistas, como Maria Lacerda de Moura que, em 1928, escreveu: “Não sou do progresso feminino pró-voto da senhorita Bertha Lutz e nem do bando militarizado e catequista da Professora Daltro. Voto? – Nem secreto, nem masculino, nem feminino” (Moura, apud Fraccaro, p.67). Mas ainda assim é preciso reconhecer que a atuação de mulheres como Lutz foi importante para defender no congresso a necessidade de leis específicas para o trabalho feminino, principalmente a partir do reconhecimento da jornada dupla. Em seu “santinho” da campanha para a Assembleia Constituinte, Lutz defendia, por exemplo, que a “mulher proletária cumpre pena dobrada, acrescentando ao horário da fábrica o trabalho sem horário medido que desempenha no lar” (apud Fraccaro, p.126). O resultado, curiosamente, parece ter sido ao mesmo tempo composto de conquistas e entraves. Por exemplo, a lei que proibia que mulheres trabalhassem no período noturno, salvo algumas exceções – profissionais da saúde, por exemplo – parece indicar que também houve uma legislação “superprotetora” baseada na ideia de que o local primordial da mulher deveria ser o lar, mas que, em nome de salvaguardar uma pretensa fragilidade feminina e seu papel como mãe, acabava por prejudicar sua atuação no mercado de trabalho ao impedir seu acesso a algumas atividades bem remuneradas para a época.

É a partir de interessantes questões como as apresentadas aqui que Gláucia Fraccaro nos mostra como a história do feminismo no Brasil e dos direitos trabalhistas das mulheres não deve ser vista de forma homogênea, silenciando importantes debates a partir de uma versão heroicizada focada em apenas algumas líderes. Seguindo exemplos como a da famosa historiadora francesa Michelle Perrot, Fraccaro indica, portanto, que a categoria de gênero, em especial a partir de um olhar para os vários grupos de mulheres atuantes, tem muito a contribuir para as pesquisas e entendimento da história das relações de trabalho no mundo.

Referências:

FRACCARO, Gláucia Cristina Candian. Os Direitos das Mulheres – Organização Social e Legislação Trabalhista no Entreguerras Brasileiro (1917-1937). Unicamp, 2016. Tese de Doutorado. http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/321562 

PERROT, Michelle. As Mulheres ou os Silêncios da História. Bauru: EDUSC, 2005.

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Mulheres, cerveja e a contribuição do trabalho de Gabriela Montandon para a cervejaria nacional. Trilogia da cerveja – Parte 3

Em uma rápida pesquisa no meu navegador com as palavras “mulheres” e “cerveja”, limitada entre os anos de 1990 a 2010 a resposta obtida foi:

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Olhando essa resposta é possível recolher três evidências:

  1. Cinco em cada sete mulheres no Brasil bebiam cerveja usando biquíni até o ano de 2010.
  2. Bom, nesse aí o moço que escreveu a notícia não pegou o famoso espírito da coisa. A ideia era fazer uma cerveja que questionasse o marketing cervejeiro feito até então.
  3. Finalmente foi respondida a pergunta “Cerveja x Mulher: o que é melhor?” ninguém mais conseguia dormir com essa dúvida na cabeça, não é mesmo?

Ironias a parte, a mentalidade brasileira seguia até esse ponto (e praticamente sem questionamento) o estereótipo tenebroso e machista que se aplica a muita coisa nesse país: que existem coisas de homem e coisas de mulher. Infelizmente não só nesse país. Em 2014 houve  A Q U E L A promoção pavorosa na final da Champions League de 2014, pra “ajudar” os machos a “tirar” as “suas” mulheres de casa pra que eles pudessem assistir a final “em paz”.

De uns anos pra cá, essa ideia tem sido questionada em diversos campos: na inserção da mulher no mercado de trabalho, na moda, no comportamento, etc. E apesar de termos ainda muito chão pela frente até a igualdade realmente existir as coisas parecem estar melhorando.

E sabe o que mais? Cerveja é um alimento. Não seria um completo absurdo falar de “comida de homem” e “comida de mulher”?

Mulheres que bebem cerveja

Segundo uma pesquisa divulgada pelo Instituto Innovare em fevereiro desse ano o brasileiro consome em média 82 litros de cerveja por pessoa ao ano. Isso nos coloca em 17° lugar no ranking mundial. Pra termos uma noção, em primeiro lugar vem à República Checa onde o consumo é de 143 litros por pessoa ao ano.

Cruzando esses dados com outra pesquisa feita pela empresa Sophia Mind – voltava para pesquisa e inteligência de marketing –, sabemos que 47% das mulheres brasileiras consomem bebidas alcoólicas e dessas 47,88% bebem cerveja.

A projeção do IBGE para 2016 mostra um total de 104.335.330 mulheres no país. Ou seja, mais de 23 milhões de mulheres no país consomem cerveja. Fechando as contas, temos 1.925.294.810 litros de cerveja consumidos anualmente por mulheres.

Passou ou não passou da hora da indústria cervejeira desse “Brasilzão” olhar as mulheres como financiadoras?

Mulheres que falam sobre cerveja

Acho que se você está lendo um texto em um site chamado Cientistas Feministas é porque se interessa pelo que as mulheres tem a dizer e pela forma como elas dizem. E têm muitas minas maravilhosas por aí falando sobre cerveja.

Eu podia ficar até amanhã citando os sites, blogs e podcasts feitos por mulheres na área mas vou citar só alguns e deixo o resto por conta da sua curiosidade de pesquisa, ok?

  • Fabiana Arreguy, dona do Pão e Cerveja: Fabiana é jornalista e sommelier de cervejas formada pela Doemens Academy de Munique através do SENAC SP. É criadora e apresentadora da coluna Pão e Cerveja na Rádio CDL FM. Também é colunista do jornal Estado de Minas e da Revista PQN Notícias e sócia-fundadora e professora da Academia Sommelier de Cerveja. Acho que deu pra entender que ela é fantástica, né?
  • Confraria Feminina de Cerveja – Confece: A CONFECE é a primeira Confraria Feminina de Cerveja do Brasil. As minas formaram o grupo em 2007 e se reúnem mensalmente para degustar e estudar cerveja. Além de tudo, o objetivo delas é “estimular o consumo responsável, dirigindo os encontros para a qualidade da bebida”.
  • Confraria Maria Bonita Beer: no dicionário a palavra confraria é apresentada como ‘associação ou conjunto de pessoas do mesmo ofício, da mesma categoria ou que levam um mesmo modo de vida’ e é exatamente isso que essas bonitas fazem. Segundo a descrição das moças “a ideia é difundir a cultura cervejeira e inspirar outras pessoas (homens e mulheres) a fazer a sua própria cerveja em casa!”

Mulheres que fazem cerveja

Talvez você não saiba, mas os sumérios eram bem espertos, já faziam cerveja e tinham uma deusa da cerveja: a deusa Ninkasi. Existe uma lenda que diz que Ninkasi nasceu da água fresca cintilante e a sua presença na Terra era manifestada através da cerveja, considerada pelos sumérios uma bebida capaz de saciar o coração.

O mais interessante dessa história é quem recebeu o crédito pelas primeiras receitas de cerveja desenvolvidas pelos sumérios foi a própria Ninkasi, a primeira (e única, creio eu) mestra cervejeira espiritual.

Existe, inclusive, um Hino à Ninkasi, com trechos bem arrebatadores como “você é a única que segura com ambas as mãos o magnífico e doce mosto fermentando-o com mel e vinho”.

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Uma deusa, uma louca, uma cervejeira

As Ninkasis contemporâneas são outras e são muitas! As moças da E.L.A. (Empoderar. Libertar. Agir.) se uniram em torno do propósito de fazer, não só uma cerveja, mas um coletivo de mulheres que questiona o uso e a objetificação do corpo feminino em propagandas fetichistas de cervejas, empodera o lugar social ocupado por nós e vem pra dizer que ELA vem chegando e lugar de mulher é onde ELA quiser! Elas produziram a cerveja ELA, uma American Barley Wine com 10% de álcool e fizeram uma campanha linda a #35diassemmachismonacerveja.

Gabriela Montandon e a primeira levedura nacional

Falando sobre mulheres e cerveja é impossível não falar de Gabriela Montandon (Gabriela, se algum dia você chegar aqui e ler esse texto, saiba que eu sou muito sua fã ♥).

Montandon começou a fabricar cerveja em casa, numa experiência que a levaria a fundar a sua própria cervejaria: a Grimor. Foi justamente nesses ensaios com fabricação caseira de cerveja que Gabriela percebeu que não havia uma levedura nacional. Como microbiologista, ela sabia que teria acesso a um banco de leveduras na universidade e entre essas leveduras estaria a Saccharomyces cerevisiae, uma levedura usada na fermentação de cervejas.

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Gabriela Montandon, nossa Ninkansi

Hoje, Gabriela tem 31 anos e é doutora em microbiologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Na sua tese de doutorado intitulada “Seleção de linhagens indígenas de Saccharomyces cerevisiae para produção de cervejas de alta fermentação” – feita com período sanduíche no Laboratory of Enzyme, Fermentation and Brewing Technology da Katholieke Universiteit Leuven, em Gent na Bélgica – ela trata justamente da busca por linhagens de leveduras nacionais que poderiam ser usadas na cervejaria.

O foco da pesquisa foi tornar possível a produção de cervejas especiais brasileiras com leveduras nacionais. Em uma entrevista ao G1 Gabriela comenta: “Fiz uma seleção de vários micro-organismos que vieram de ambientes naturais do Brasil como: a Floresta Amazônica, Serrado, [também de] de outras bebidas, de madeiras brasileiras”. Desses estudos nasceu a Grimor 18, uma cerveja do tipo Blond Ale que Gabriela chama de “uma agulha num palheiro”.

No meu primeiro texto aqui no blog, eu falei sobre a fermentação e o trabalho que as leveduras realizam nesse processo. Mas pra relembrar, a fermentação alcoólica é a transformação dos açúcares presentes no malte em substâncias mais simples, como álcoois. Quem realiza essa transformação são as leveduras, que utilizam esses açúcares para geração de energia. Como resultado dessa geração de energia, também são produzidos álcool e gás carbônico.

O trabalho da Gabriela é revolucionário, pois é o primeiro passo para o desenvolvimento de uma escola brasileira de cerveja. Essa escola é o conjunto de todas as peculiaridades de um país com relação à fabricação e consumo de cerveja. Essas escolas influenciam também a forma com que outros países fabricam a própria cerveja, é um negócio muito bonito.

As mulheres estão fazendo uma mudança muito positiva na cara da cultura cervejeira nacional, seja no consumo, na sua divulgação ou (principalmente) no meio científico. É a ciência ajudando a nos inserir em mais um espaço que antes era majoritariamente dos homens. Falta agora o mercado criar juízo e nos representar vestidas nas propagandas. Vestidas, inclusive, de jalecos.

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As mulheres na ditadura civil-militar brasileira

Como já foi teorizado por várias historiadoras – e mesmo aqui no blog -, a história das mulheres costuma ser ignorada pelos livros de história e ciências humanas. A história que é vista como “geral”, frequentemente, conta, apenas, a história dos homens, colocando a história das mulheres como “específica”.

Ora, as mulheres são metade da população mundial. As questões de homens são vistas como se fossem questões “gerais” por causa do poder instituído masculino. Na nossa sociedade capitalista (e em outros modos de produção também, mas esse não é o objeto desse texto), os lugares de poder são ocupados por homens que o exercem para satisfazer as vontades e necessidades de homens.

Isso porque, historicamente, foi reservado às mulheres o espaço doméstico/privado. Às mulheres é imposto o papel social de mães, esposas e donas de casa, que devem cuidar do marido, dos filhos e dos idosos. Mesmo hoje – que se diz que as mulheres “conquistaram o mundo do trabalho” (o que é falacioso, já que as mulheres pobres precisam trabalhar há séculos para complementar a renda familiar) -, as responsabilidades domésticas continuam nas mãos das delas. Já aos homens é destinado o espaço público, a política, a voz, o poder.

Nesse sentido, é importante recuperar a história das mulheres para mostrar que elas sempre estiveram presentes como atrizes sociais e não apenas como “apêndices” dos homens. Michelle Perrot, uma historiadora francesa, por exemplo, dedicou-se a contar a história dos excluídos e das excluídas da história. Ela é uma grande teórica que merece ser visitada (no final do texto serão indicadas obras dessa historiadora para leitura).

 

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Imagem retirada do site: https://goo.gl/vmiJkA

 

Após essa breve introdução, falaremos, então, sobre a importância do papel das mulheres durante o período da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). Muitas brasileiras estiveram na linha de frente na luta contra a ditadura, como Amelinha Telles, Iara Iavelberg, Conceição Imaculada de Oliveira, etc.

Inclusive, o movimento feminista organizado no Brasil foi desenvolvido de maneira particular, se comparado ao desenvolvimento em outros países. Ele nasceu junto aos movimentos de esquerda na luta contra a ditadura. As mulheres, além de lutar contra o regime de exceção, começaram a apontar o machismo dentro dos movimentos de esquerda ortodoxos, lutando para que os homens do movimento passassem a “desnaturalizar” práticas sexistas que prejudicavam a luta revolucionária.

Nesse sentido, importante destacar que todos e todas militantes de esquerda, identificados como “comunistas” de maneira pejorativa pelo governo militar, sofreram intensas perseguições e punições. Mas também é importante destacar que as mulheres sofreram um tipo de tortura específico.

São numerosos os relatos de mulheres que sofreram torturas através da violência sexual. Elas foram obrigadas a ficar nuas diante de vários homens, que ficavam lhes dirigindo ofensas machistas (já que as mulheres de esquerda militantes políticas eram vistas como desviantes do padrão moral burguês). Além disso, inúmeras foram estupradas, algumas abortaram em sessões de tortura (levavam chutes na barriga e choques na vagina), muitas foram torturadas na frente de seus filhos para traumatizar as crianças, etc.

 

“Maria Amélia estava amarrada na cadeira do dragão, quando o torturador Lourival Gaeta, o “Mangabeira” começou a masturbar-se na sua frente. Ao gozar, jogou o sêmem em cima de seu corpo. “Não gosto de falar sobre isso, mas sei da importância de tratar desse assunto, da desigualdade entre homens e mulheres na hora da tortura. Eles usaram da desigualdade para nos torturar mais”, disse, sob forte emoção, Maria Amélia de Almeida Teles. Ela relatou o abuso sexual que sofreu na abertura da audiência pública “Verdade e gênero- a violência da ditadura contra as mulheres”, ocorrida na segunda-feira, 25, organizada pela Comissão Nacional da Verdade e Comissão Estadual da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva”.”
(fonte: http://www.adrianodiogo.com.br/noticias/internas/id/1885/comissoes-da-verdade-debatem-violencia-da-ditadura-contra-as-mulheres/)

 

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Imagem da militante feminista Amelinha Teles, retirada do site: http://goo.gl/38D2ES

 

Por outro lado, também houve uma explosão no número de organização de mulheres nos bairros periféricos. Essas mulheres organizadas começavam a se reunir incentivadas pela igreja católica para discutir o evangelho e fazer tricô. Com o tempo passaram a debater os problemas da comunidade e cobrar soluções como a construção de creches, asfaltamento de vias públicas etc.

Foi um importante passo para a organização dessas mulheres da periferia, em sua maioria negras, que tinham suas demandas ignoradas tanto pelo governo quanto pelos movimentos de esquerda, já que muitas não trabalhavam como assalariadas (mas trabalhavam em suas casas).

A experiência das mulheres da periferia e das mulheres operárias organizadas no período da ditadura é narrada por Elizabeth Souza-Lobo, que fez várias pesquisas na época das greves do ABC nos anos 70 e 80. Ela mostra como as trabalhadoras não se sentiam contempladas pela luta dita como “geral” liderada pelos homens. Os sindicatos não ouviam suas demandas e não se importavam com as denúncias de violências sexistas e menores salários pagos às mulheres.

 

“(…) a própria utilização do termo específico, cada vez que se quer referir a questões que concernem às mulheres, supõe uma universalidade neutra que se opõe à especificidade feminina.”
(SOUZA-LOBO, 2011, p. 256)

 

Portanto, é sempre necessário trazer luz a essas experiências das mulheres, que, raramente, são contadas e, mais raramente ainda, são ouvidas. Mulheres revolucionárias estão lutando para ter seu espaço há muito tempo, precisamos relembrá-las sempre que possível para que cada vez mais mulheres possam se inspirar nelas e ingressar na luta anticapitalista e antipatriarcal.

 

Bibliografia e livros sugeridos:

CORDEIRO, Janaina Martins. Direitas em movimento: A campanha da mulher pela democracia e a ditadura no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009.

LOBO, Elizabeth Souza. A classe operária tem dois sexos. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2011.

PERROT, Michelle. Os Excluídos da História: Operários, Mulheres e Prisioneiros. 2010, São Paulo: Paz e Terra.

_______. Minha história das mulheres. 2007, São Paulo: Editora Contexto.

_______. As mulheres ou os silêncios da história. 2005, Bauru: EDUSC.

RAGO, Margareth. Trabalho feminino e sexualidade. in História das mulheres no Brasil. Mary Del Priore (org). São Paulo: Editora Contexto, 2013.

TELES, Amelinha; LEITE, Rosalina Santa Cruz. Da guerrilha à imprensa feminista: a construção do feminismo pós luta armada no Brasil (1975-1980). São Paulo: Martins Fontes, 2013.