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Efeito Matilda: o preconceito de Gênero na Ciência

Historicamente, a Ciência foi construída como uma área de domínio masculino. No entanto, muitas mulheres participaram da construção do que conhecemos hoje como Ciência. Contudo, muitas vezes, essas mulheres foram deliberadamente esquecidas. O Efeito Matilda é um fenômeno social que descreve isso.

Este fenômeno ocorre quando o trabalho de uma mulher é reconhecido (publicado, premiado, referenciado) como de um homem, seja porque sua contribuição (parceria e coautoria) foi desconsiderada ou omitida.Diversos relatos históricos vieram à tona mostrando que muitas mulheres ficaram na sombra de seus colegas, parceiros e cônjuges.

O Efeito Matilda continua ocorrendo atualmente e por isso é importante falarmos sobre ele. Segundo uma pesquisa realizada pela conceituada editora de artigos científicos, a Elsevier, mulheres tendem a deixar chefias e cargos de pesquisador principal para colegas homem. O pesquisador homem teria maior credibilidade e aceitabilidade no meio científico, favorecendo a obtenção de subsídios e outros incentivos. Dados dessa pesquisa foram descritos com mais detalhes nos textos aqui do blog:  Igualdade de gênero na ciência brasileira e Fulano et. al na verdade é mulher.

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Fonte Twitter @minasnahistória. Imagem disponível em: https://twitter.com/minasnahistoria/status/715935067684659201

Esse fenômeno da supressão da participação feminina na Ciência foi descrito em 1968, por Robert Merton, como “Efeito Matthew”, uma referência à passagem bíblica de Mateus 13:12:

“Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado.”

No entanto, o trabalho de Margaret R. Rossiter, publicado em 1993, na revista Social Studies of Science, consagrou o termo como “Efeito Matilda”. A escolha do nome foi uma homenagem a sufragista americana, escritora e crítica feminista Matilda Joslyn Gage (1826 – 1898) de Nova York. A própria Matilda sofreu e vivenciou esse fenômeno social. Ela se dedicou a defender os direitos das mulheres. Participou em convenções públicas em uma época que poucas mulheres eram ouvidas, e chegou a defender o voto feminino, no Congresso Americano.

O efeito Matilda fez com que muitas mulheres fossem condenadas as sombras. Trabalhos importantes, como o de Rosalind Franklin – contribuições na descoberta da estrutura do DNA – foram eternizados com nomes de outros colaboradores homens, como Watson e Crick. Isso ocorre desde a época medieval, onde sabemos que mulheres eram médicas, líderes, curandeiras, parteiras, filósofas. Porém, muitas vezes seus conhecimentos foram julgados, condenados e atribuídos a outros homens. Que outras mulheres deveríamos conhecer melhor?

Se não fosse o Efeito Matilda, que mulheres conheceríamos melhor?

Trótula de Salerno: No século XI, Trótula foi uma importante mulher na história da Medicina. Ela estudou doenças femininas e deixou vários escritos. Tótula foi estudante e professora de um dos primeiros centros médicos de ensino não ligados à Igreja. A Escola de Salerno foi a primeira a permitir o livre acesso da mulher ao ensino. No entanto, no século XII, ao reescrever escritos antigos, um monge, achando que “aquilo deveria ser escrito por um homem”, modificou o nome de Trótula para parecer masculino. No século XX, um historiador alemão reduziu Trótula a uma parteira, negando seus estudos conduzidos.

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Imagem disponível em mujeresconciencia.com

Maria Goeppert-Mayer: Física teórica, recebeu, junto com Eugene Paul Wigner e J. Hans D. Jensen, o Nobel de Física em 1963, por propor um novo modelo do envoltório do núcleo atômico. Foi a segunda mulher a ser laureada nesta categoria do Nobel. A primeira foi Marie Curie. Apesar da importância do seu trabalho na Universidade de Chicago, onde desenvolveu sua pesquisa no período de 1947 a 1949, ela era considerada uma professora “voluntária” não remunerada. Mesmo com seu currículo e reputação, teve dificuldade de conseguir ser contratada como professora na Alemanha e nos Estados Unidos.

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Imagem disponível em https://www.atomicheritage.org/profile/maria-goeppert-mayer

Agnes Pockels: pioneira química alemã desenvolveu em 1890 um conjunto de observações sobre tensão superficial da água. Ela enviou suas anotações para o colega inglês, Lorde Rayleigh, que desenvolveu a teoria sobre este tema. No entanto, o crédito da descoberta é frequentemente dado apenas a Rayleigh. Agnes teve a ideia da teoria enquanto lavava a louça, e observou que as sujidades maiores rompiam a tensão da água. Lorde Rayleigh publicou individualmente o primeiro artigo sobre o tema, apesar de ter lido o trabalho de Agnes antes.

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Imagem disponível em: https://www.chemistryworld.com/opinion/pockels-trough/8574.article

Nettie Maria Stevens: geneticista americana, nascida em 1861. Estudou em Stanford, onde se formou como a melhor aluna da turma. Em conjunto com Edmund Wilson, descreveram a base genética e cromossômica da definição do sexo em humanos. Nettie Stevens observou que o cromossomo feminino era maior que o masculino (X e Y). Apesar de sua coautoria, nos livros didáticos apenas Wilson é mencionado.

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Se entre colegas, o Efeito Matilda é aparente, o que pensar daquela relação entre cônjuges? Muitos dos estudos desenvolvidos por cientistas homens, contaram com a participação ativa de suas esposas, no entanto essas raramente são mencionadas. Hertha e W.E Ayrton eram um casal de físicos britânicos. Hertha publicou seus estudos no nome do marido, mesmo quando o mesmo já estava doente, pois os mesmos seriam mais bem aceitos dessa forma. Ruth Hubbard e George Wald eram bioquímicos que trabalhavam com temas semelhantes, e após se casarem passaram a trabalhar juntos. No entanto, todo o trabalho de Ruth anterior ao casamento, foi atribuído ao marido, que ganhou um Nobel em 1967. Isabela Karle, cristalógrafa, trabalhou mais de 50 anos com seu marido, no entanto, em 1985, Jerome Karle ganhou um Nobel de Química compartilhado com outro colega químico, sem menção à esposa.

Os homens eram uma maioria esmagadora na ciência, hoje, nós mulheres somos cerca de 40% de todos os pesquisadores. No entanto, é importante conhecer esses fenômenos sociais para nos mantermos alertas e lutar pelo nosso devido reconhecimento. E também reconhecer essas cientistas que foram injustiçadas em sua época.

O devido crédito a quem o merece, é só o que pedimos.

Referências:
Margaret W. Rossiter. The Mathew Matilda Effect in Science. Social Studies of Science, Vol. 23, No. 2 (May, 1993), pp. 325-341

Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”, disponível em: https://www.elsevier.com/__data/assets/pdf_file/0008/265661/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf

 

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Fulano, et al. na verdade é mulher: ciência, gênero e produção científica

Pegue um artigo aleatório, qualquer um…

Por exemplo, uma das referências desse texto é Leta, et al., e é assim que somos conhecidos no meio científico, pelos nossos sobrenomes. O uso apenas do sobrenome despersonaliza o autor (ou autora) e nos distancia do público leigo. Isso prejudica as mulheres, especialmente, já que é impossível saber a identidade sexual pelo sobrenome, e dessa forma ficamos escondidas atrás de um nome. Assim como o sonho, o direito e a capacidade de ser uma cientista, a mulher também deseja ser reconhecida e publicar seus artigos. Mas qual a nossa situação nesse ponto?

Como biomédica sempre envolta na área da Saúde – uma das áreas com maior equidade de gêneros, tive a sorte de conhecer muitas mulheres influentes na ciência, a reitora da minha faculdade, minhas professoras prediletas, minha orientadora da iniciação científica, TCC, mestrado, minha nova orientadora de doutorado, chefes e colegas de laboratório. São todas mulheres que vivem nessa batalha que é ser cientista, e sabemos que um dos nossos principais desafios são as publicações. Atualmente, a produção científica é a principal medida de qualidade do pesquisador.

Quantos artigos publicou? Em que revistas? São indexadas? Foi primeiro autor? Quantas citações? Etc, Etc, Etc…

Esse tipo de análise não é de hoje, o primeiro estudo nesse sentido foi em 1917, e essa forma de avaliação foi chamada de bibliometria, ou seja, somos avaliados por aquilo que publicamos. De uma maneira geral, os números dizem que nós mulheres publicamos menos que os homens, e logo seríamos menos produtivas. Mas essa análise não é tão simples assim…

A ciência nasceu como um ramo dos homens. Nos séculos XV, XVI e XVII algumas poucas mulheres bem nascidas, aristocratas, podiam atuar como interlocutoras de pensadores renomados.  Mas, essas mulheres não podiam fazer parte da discussão em si, ignorando que quanto maior a diversidade de um grupo, maior será a riqueza de sua discussão. A mudança dessa realidade começa apenas na segunda metade do século XX, com a grande demanda de recursos humanos na área de ciências e tecnologia e com o fortalecimento da luta pela igualdade entre homens e mulheres. Começa-se a questionar a produção científica feita por mulheres apenas por volta de 1970, e um dos primeiros artigos sobre o tema foi publicado por Alice Rossi, em 1965, que fez um levantamento do número de mulheres que trabalhavam em C&T (Ciências em Tecnologia) nos Estados Unidos, no período de 1950-1960. Muitos tentam, até hoje, justificar a menor participação feminina nas áreas de C&T e nas publicações científicas com estereótipos, dizendo que a mulher tem maior prioridade no casamento e no cuidado dos filhos, o que levaria a menor produtividade. Esse tipo de estereótipo pode desestimular muitas mulheres a investirem em sua formação.

As portas da C&T têm lentamente  sido abertas pelas mulheres, com grande crescimento da nossa representação nas universidades, onde em alguns cursos nos tornamos maioria, como é o caso das áreas biológicas, da saúde e da educação. Avanço que apesar de positivo, demonstra como as mulheres podem ser orientadas a áreas que envolvem o cuidado e que remetem ao estereótipo de esposa que cuida e educa. A área com menor concentração de mulheres continua sendo a Física e Matemática, cerca de 25%, enquanto que na educação chegamos a quase 70%, fenômeno conhecido como gender tracking. E apesar do aumento do número de mulheres que entram na pós-graduação, esse aumento não foi acompanhado com a mesma intensidade na obtenção de títulos, já que a taxa de evasão de mulheres na pós-graduação é maior do que a dos homens, e um dos grandes problemas citados é a relação com o orientador. Alguns professores universitários relatam preferir trabalhar com homens para evitar “distrações”, segundo depoimentos descritos por Léa Velho e Elena León, em seus estudos sobre a produção científica feminina.

 Mesmo com avanços significativos, o quadro ainda se apresenta como um funil, somos muitas nas graduações, algumas entre os professores, um número ainda menor entre pesquisadores líderes, e raras entre os cargos de direção e chefia. Existe uma tendência à estagnação da carreira da mulher, permanecendo em patamares inferiores. Com o avanço da carreira, a mulher encontra cada vez mais dificuldades em progredir e ascender aos níveis mais altos da academia. Por exemplo, após os anos 2000, na Academia Brasileira de Ciências, dentre os acadêmicos titulares apenas 10% eram mulheres, enquanto que entre os associados, 40% eram do sexo feminino. No Reino Unido, para cada professora universitária que atinge o topo da sua carreira científica, dez homens conseguem o mesmo feito.

Um estudo feito na Canadá por Holly O. Witteman e cols. comparou a taxa de sucesso de obtenção de subsídio financeiro para projetos de pesquisa de pesquisadores principais homens e pesquisadoras principais mulheres. O estudo demonstrou que quando se compara a qualidade dos projetos, os homens têm apenas 0,9% de chance a mais de conseguirem a verba para seus projetos do que as mulheres, no entanto, quando os mesmos projetos são avaliados de acordo com o currículo do investigador principal, os homens têm 4% de chance a mais do que as mulheres de ganharem o edital. Se a qualidade dos projetos não é significativamente diferente, porque homens têm mais chances de terem seus projetos aprovados? Isso demonstra que mesmo com menos títulos e menos publicações, as mulheres possuem tanto potencial quanto os homens, no entanto precisamos abrir espaço nos níveis mais altos da carreira para elas.

 Outra explicação para isso é a existência do Fenômeno Matilda, no qual as mulheres optariam por ceder os cargos de chefia para cientistas mais titulados (homens) para atrair mais recursos para as suas pesquisas e garantir um meio de trabalho mais harmonioso.  Na UNESP, as mulheres representam 49% do corpo docente, mas são responsáveis apenas por 46% das produções científicas. As dificuldades da mulher em crescer na carreira científica refletem na sua produção científica, ao mesmo tempo em que com menos produção, surgem menos oportunidades, em um círculo vicioso.

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Estamos todos com a Cristina Yang (personagem da série Grey’s Anatomy)! E leia também nossos artigos, obrigada.

A Elsevier publicou um grande estudo intitulado “Gender in the Global Research Landscape” que analisa como o gênero afeta a vida do pesquisador, com dados de 20 anos, 12 países, e 27 áreas diferentes. Como podemos ver no texto, Igualdade de gênero na ciência brasileira aqui do blog, o Brasil, e também Portugal, ficaram bem na foto! Os dois países aparecem como os com maior igualdade de gênero dentro da C&T, onde nós mulheres somos 49% dos recursos humanos. Mas esse estudo traz muitos outros dados interessantes.

Esse estudo demonstra que a participação feminina aumentou ao longo do tempo em todos os países avaliados, sendo que na maioria dos locais, as mulheres representam 40% dos cientistas e inventores. Esse número cai bastante quando falamos do registro de patentes, onde somos apenas 15%. Comparativamente, mulheres participam menos do que os homens em projetos internacionais e também viajam menos a trabalho, o que pode ser um reflexo das menores posições que ocupam nos grupos de pesquisa e nos cargos acadêmicos.

Cerca de 70% da produção científica produzida até hoje é de autoria de homens, o que reflete séculos de desigualdades. No entanto, veja algo curioso: as mulheres realmente publicam menos do que os homens, mas não há evidências que isso impacte em suas carreiras científicas ou na qualidade do seu trabalho. Quando analisamos o fator Field-Weighted (reflete o número de citações) dos autores, mulheres e homens alcançam números muito semelhantes, o que reflete o alcance da literatura produzida pelas cientistas mulheres, apesar de terem menos títulos, suas publicações têm impactos semelhantes. Uma publicação científica é contada para avaliação do seu autor, mas existem características que lhe dão diferentes pesos, como o alcance e qualidade da revista onde foi publicada, o número de citações e significância dos resultados. É sempre importante lembrar que qualidade deve vir antes de quantidade! Inclusive o estudo demonstrou que mulheres publicam mais sobre interdisciplinaridade, ou seja, apresentam mais aplicações e correlações dos seus dados com o contexto no qual estão inseridos.

Dentre os artigos mais citados em 2014, 13% são de autoria de mulheres, se considerarmos apenas as áreas de engenharia, esse número cai para 3,7%, e se olharmos para a área de ciências sociais, sobe para 31%. Entre 2011-2015, em Portugal, cerca de 20% das publicações, e 26% na Dinamarca, em revistas da área de Medicina, foram feitas por mulheres. Em geral, o primeiro autor de um artigo é aquele que possui a maior responsabilidade e contribuição sobre este, e as mulheres representam 35% dos primeiros autores das publicações, com variações em diferentes áreas.

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Produção científica por autor, período de 1996-2000 e 2011-2015, por país e sexo. Em roxo a produção de mulheres e em verde a produção de homens. Imagem de Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”.

 

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Medida do impacto das publicações de homens e mulheres.  Imagem de Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”.

Mesmo com séculos de desigualdade, sendo minoria entre os pesquisadores e entre as publicações científicas, temos feito grande diferença, através de grande perseverança e luta, mostrando que somos significativas, que somos impactantes, que somos brilhantes! Publicamos menos, mas quando analisamos uma autora individualmente suas publicações são tão relevantes quanto as de qualquer outro homem. Isso deveria ser suficiente para que se pare de falar em improdutividade e inferioridade do trabalho das cientistas mulheres, troque essas palavras por OPORTUNIDADE, e faremos bom uso dela!

Se no século XV a ideia de uma cientista mulher era ridícula, hoje somos 40% desse mundo. Isso mostra, que a luta, mesmo que árdua, vale a pena.

Referências:

JACQUELINE LETA As mulheres na ciência brasileira: crescimento, contrastes e um perfil de sucesso.. ESTUDOS AVANÇADOS 17 (49), 2003

Renan Carvalho Ramos e Samara Pereira Tedeschi A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA DA UNESP, CAMPUS DE RIO CLARO Caderno Espaço Feminino – Uberlândia-MG – v. 28, n. 1 – Jan./Jun. 2015 – ISSN online 1981-3082

LEA VELHO, ELENA LEÓN. A CONSTRUÇÃO SOCIAL DAPRODUÇÃO CIENTÍFICA POR

MULHERES. Cadernos pagu (10) 1998: pp.309-344.

Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”, disponível em: https://www.elsevier.com/__data/assets/pdf_file/0008/265661/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf

Witteman, H. O., Hendricks, M., Straus, S. & Tannenbaum, C. Female grant applicants are equally successful when peer reviewers assess the science, but not when they assess the scientist. Preprint at bioRxiv http://dx.doi.org/10.1101/232868 (2018).

 

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O Carnaval está chegando! Vamos falar sobre mulheres na ciência e no carnaval?

Texto escrito em colaboração com @agaiadm

“Ó abre alas que eu quero passar, ó abre alas que eu quero passar”! Viemos aqui falar sobre carnaval, mulher e ciência. Pedimos licença e abrimos espaço citando a primeira marchinha feita na história, no século XIX, pela musicista carioca e preta Chiquinha Gonzaga, uma mulher que fez a diferença na música popular brasileira e trouxe representatividade e poder a qualquer mulher que quer conquistar seu lugar de fala e respeito numa sociedade machista.

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Chiquinha Gonzaga (1847-1935) – Imagem de Edinha Diniz, 2009.[1]

Como sabemos, o carnaval vem chegando aí e nada como curtir esses dias de liberdade, calor e manifestação cultural compreendendo de onde vem essa festa e refletindo sobre a relação de nós mulheres com a ciência, a cultura e tudo o mais que nós quisermos nos relacionar! Sim, o carnaval é um manifesto a favor da liberdade. E a história está aí para nos contar como as mulheres se relacionam com essa tal liberdade em diversos contextos diferentes. O que nunca mudou no carnaval é que temos uma festa onde podemos sair pelas ruas trazendo à tona nossas fantasias, podendo ser desde deusas a animais selvagens ou seres fantásticos.

Lá no início…

O carnaval teve como inspiração momentos de festividade desde a Grécia antiga e foi adaptado aos moldes da igreja católica como um ritual festivo de preparação à quaresma até a páscoa. Bom, até aí nada de novo. Mas como será que as mulheres eram vistas, levando em consideração as épocas, as classes sociais e a cor, nos primeiros carnavais do Brasil? Por que hoje somos tão objetificadas, principalmente nesse período do ano?

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Representação de jogos do entrudo no Rio de Janeiro, na pintura de Augustus Earle (1822)

A primeira manifestação carnavalesca que existiu em nosso país foi o Entrudo, no século XVI, que era um conjunto de brincadeiras típicas das aldeias da Península Ibérica ligado a práticas socioculturais da Europa pré-cristã. Os Entrudos resumiam-se em três dias de festas que antecediam a quaresma. Era o único momento do ano em que as mulheres sentiam uma liberdade parecida com a dos homens, diferente dos outros 362 dias, onde elas se resguardavam à espera de um casamento. Durante esses três dias, as mulheres podiam sair pelas ruas sem ser reconhecidas, brincavam com quem quisessem e demonstravam interesse por aquele crush que jamais soubera de seus sentimentos. Estamos falando, é claro, das mulheres brancas. Já as mulheres pretas, ainda escravizadas, em épocas de Entrudos tinham muito trabalho a fazer. Eram elas que preparavam os brinquedos e as fantasias, por exemplo. Podiam, sim, participar de brincadeiras durante esses dias, mas tinham a responsabilidade pela produção da festa. A hierarquia social era demonstrada nas festividades e a alegria, marca do carnaval, não era (é!) para todos.[3]

O carnaval foi sofrendo influências políticas, sociais e econômicas até ter a estrutura atual, que começou a ser lapidada no início do século XX, com a expansão urbana e a criação de novos bairros nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. As novas ruas largas foram os palcos escolhidos pela burguesia para apresentar seus desfiles carnavalescos, onde suas filhas desfilavam em ricas fantasias em cima de carros alegóricos, a fim de esbanjarem suas riquezas e quiçá servirem como catálogos para moços ricos escolherem com quem casar. Nesse momento, o Rio de Janeiro tinha uma grande população preta escravizada, em desigualdade social bem evidente, e que trazia outro carnaval às ruas. Da pequena África, região onde morava grande parte dos pretos baianos, surgiram as tias, mulheres emblemáticas conhecidas por acolher os que precisassem de lar e pelos seus saberes e agrupamentos em corporações de trabalho, como fabricação de doces, salgados e costura e aluguel de roupas carnavalescas. As tias foram espécies de mediadoras culturais e ficavam entre as distintas classes sociais, pois eram muito procuradas pelos burgueses da zona sul que encomendavam roupas de carnaval e acabavam ficando em suas casas para os sambas. Aliás, foi na Pedra do Sal, localizada na pequena África, na presença das tias, que o samba nasceu, levando identidade e pertencimento a muitos cantos do país. [4]

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Tia Ciata (1854 – 1924), exemplo das tias baianas na cidade do Rio de Janeiro. (fonte pinterest).[2]

Hoje em dia, o que vemos do carnaval é um grande comércio carnavalesco de desfiles, onde as mulheres são apresentadas não mais a burgueses, mas ao mundo pela mídia, a fim de potencializar o turismo na cidade. Essa exposição, dentro de uma cultura que respira patriarcado e que não vê o corpo da mulher com respeito, acabou contribuindo bastante para a objetificação da mulher brasileira. O carnaval de rua, representado pelos blocos de bairro, também nos traz histórias que mostram que o machismo está enraizado em diversas atitudes. Não é a toa que governos, empresas e sites jornalísticos têm divulgado o Ligue 180 para que mulheres tenham em mente esse canal em casos de assédio durante a folia. Atualmente, muitas mulheres têm reivindicado o direito por seus corpos, sexualidade e vontades. Quem dita as regras somos nós! O que dá gana de lutar pela equidade de gênero e nossos direitos é ver diversos blocos nascendo do feminismo, idealizado por minas engajadas e com fome de conquistas.

A discussão sobre gênero incomoda, mas temos que fazê-la

Essa pequena história do carnaval brasileiro traz as mulheres em diversas posições sociais, porém é perceptível o quanto o machismo está atrelado em nossos caminhos e escolhas. Lugar de mulher é onde ela quiser, seja no carnaval, na arte ou na ciência. Ainda assim, as notícias não enganam: é difícil ser mulher no mundo, em qualquer contexto social. A gente lê manchetes, dados e estatísticas e se assusta, não entende, busca um porquê para ser desse jeito. Os sustos vêm de todos os lados. Pode vir no título de uma matéria de jornal de 2016: “Homens ganharam 97% dos Nobel de ciência desde 1901” (El país). Em 2017, nada mudou: os homens – todos brancos, vale destacar – levaram todos os prêmios do Nobel. Pode vir num número que representa a realidade nua e crua de muitas brasileiras: a taxa de feminicídio (o assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher) no Brasil, segundo levantamento da organização Artigo 19, é a quinta maior do mundo. Ou, então, pode vir de um lado que a gente não viu, em forma de agressão física, simplesmente porque dissemos não a alguma pessoa que claramente não soube respeitar o nosso direito de se divertir no carnaval.

Mulher na ciência, mulher vítima de assassinato no Brasil, mulher no carnaval… são mundos distintos, nós reconhecemos. Todos eles poderiam ser contextualizados de forma individualizada, mas há, no pano de fundo que os sustenta, um novelinho de lã que costura essas narrativas. No Brasil, ou em outras partes do mundo, não há como falar de mulher na ciência sem ao menos contextualizar, um pouco que seja, o que isso representa naquela cultura e naquele local. Isso porque uma coisa pode puxar a outra e somos seres inseridos em diferentes mundos ao longo da vida: família, profissão e vida social, por exemplo. Há opressões direcionadas às mulheres em cada um desses mundos. E, sim, todas elas conversam dentro da nossa cultura porque falam de opressão ao gênero e sexo feminino.

Todos nós conhecemos a história de uma mulher que precisa se desdobrar em três para dar conta de trabalhar e/ou estudar, tomar conta da casa e/ou da família e cuidar de si mesma (se restar tempo, claro). Vamos dar um nome a essa mulher: Rosa. Rosa está quase terminando seu mestrado em matemática, cresceu ouvindo que mulher precisa saber cozinhar e ser excelente mãe para arranjar e segurar marido e, além disso, morre de vergonha e desconforto de sair com roupas mais decotadas e menores porque tem medo de ser assediada na rua ou no trabalho. No carnaval de rua, por exemplo, só se sente confortável para sair de casa com alguma fantasia que deixa o corpo mais à mostra caso esteja com um grupo de amigos confiáveis. Isso porque, infelizmente, ela percebeu que é um fator cultural o fato de muita gente achar que pode fazer o que bem entender com o corpo de uma mulher e “se saiu desse jeito, é porque estava pedindo”. “Aqueles amigos do mestrado”, ela pensa, “certamente me julgariam se me vissem desse jeito”.

Desconstruir para construir novos valores na cultura

É difícil ser mulher no mundo. Ponto. É tanta coisa para pensar. As respostas que temos que dar, os sinais que temos que ler, a rua escura que precisamos enfrentar, ou evitar, a inteligência que precisamos provar, a fragilidade que já nos é atribuída de forma natural desde a infância, a boneca que teimam em nos dar para cuidar… A sociedade põe a todos numa caixa, é verdade. Porém, verdade seja dita: a caixa das mulheres, no caso de muitas mulheres, é bem pequena para comportar tanto julgamento e opressão. Já rasgamos e quebramos muitas caixas mundo afora, mas todo dia precisamos rasgar um pouco mais as que ainda existem por aí.

Um convite mais que especial

 

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(Fonte: Museu da Vida/Fiocruz)

Pensando nesse contexto, estamos realizando, no dia 3 de fevereiro, um Grito de Carnaval, cujo tema – ou samba-enredo – será “Mulheres na ciência”. O evento será realizado no Museu da Vida, centro de ciência da Fiocruz, no Rio de Janeiro, e é uma tentativa de rasgar um pouquinho mais essas caixas que nos rodeiam dentro da sociedade. Há atividades para várias idades. Além de ser uma excelente oportunidade para debater a igualdade de gênero na ciência brasileira, essa farra carnavalesca nos propõe pensar novos formatos para fazer divulgação científica.

Dando alguns exemplos: no “Espaço da fantasia”, o público poderá vestir uma fantasia que dialoga com diversas áreas da ciência. A proposta conversa com dois questionamentos: “Será mesmo que cientista tem uma única cara, a do jaleco?” e “Será que podemos dar ao nosso público a oportunidade de considerar ser uma cientista?”. No carnaval, as fantasias conversam bastante com o imaginário, sonhos e possibilidade. Por isso, a mensagem que queremos passar é que ser mulher cientista é, além de muito necessário, extremamente possível. Já em “Estandarte das mulheres incríveis”, os visitantes poderão escrever em pedaços de papel sobre mulheres inspiradoras, como integrantes da família, professoras, amigas, namoradas ou outras pessoas queridas. Em eventos públicos de divulgação científica, conversar com o público e ouvi-lo é fundamental!

Poderíamos ficar um bom tempo discorrendo sobre as atividades, mas, para quem é do Rio ou estiver pelo Rio no dia 3, queremos deixar o convite de ir construir o Grito de Carnaval com a gente. Fica a dica! Há mais informações sobre o evento no link bit.ly/gritodecarnavalmv.

Referências:
[1] DINIZ, E. Chiquinha Gonzaga: uma história de vida. Editora Zahar. 2009
[2] https://br.pinterest.com/
[3] SIMSON, Olga R. de Moraes von. Mulher e carnaval: mito e realidade (análise da atuação feminina nos folguedos de Momo desde o entrudo até as escolas de samba). Revista de História, São Paulo, n. 125-126, p. 7-32, july 1992.
[4] VELLOSO, Monica P. As tias baianas tomam conta do pedaço: espaço e identidade cultural no Rio de janeiro. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 3, n. 6, p.207-228, 1990.
[5] http://www.museudavida.fiocruz.br/index.php/noticias/11-visitacao/884-anote-na-agenda-o-grito-de-carnaval-do-museu-da-vida-vem-ai

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50 anos de endossimbiose: a mulher por trás da teoria

Há 50 anos, um artigo que se tornaria um marco na história da Biologia era publicado por uma mulher. Lynn Margulis (na época Lynn Sagan), em seu artigo “On the Origin of Mitosing Cells”, publicado em 1967, defendia a teoria da endossimbiose: uma teoria unificadora sobre a origem das células eucarióticas. Resumidamente, a teoria da endossimbiose propõe que algumas organelas, como mitocôndrias e cloroplastos, eram, no início da vida na Terra, procariontes (bactérias) de vida livre, que foram englobados por outros seres unicelulares. A partir dessa união, chamada simbiose, se originaram as células eucarióticas. Apesar de essa hipótese já ter sido levantada anteriormente, Margulis considerou e organizou evidências celulares, bioquímicas e paleontológicas para suportá-la, bem como sugeriu meios pelos quais ela poderia ser testada experimentalmente.

Atualmente, a teoria da endossimbiose é amplamente aceita e reconhecida, mas o primeiro trabalho de Lynn Margulis a defendendo foi rejeitado por mais de uma dúzia de revistas. Ainda após a publicação, Margulis precisou de muita argumentação e persistência para defender suas ideias. Tais qualidades, no entanto, faziam parte de sua personalidade desde cedo. Quando criança, era considerada uma má aluna, pois não aceitava argumentos de autoridade e acreditava apenas no que via com seus próprios olhos. Margulis achava o ambiente escolar tradicional entediante. Aos 14 anos foi aprovada na University of Chicago Laboratory Schools, onde pôde desenvolver sua paixão pela ciência, num ambiente que considerava academicamente estimulante e onde tinha acesso a trabalhos científicos de diferentes áreas. Margulis foi uma “naturalista à moda antiga”. Não se contentava em fazer o que diziam que ela deveria fazer e não se restringia a uma área de conhecimento ou a uma época. Buscava informação sobre tudo que despertava seu interesse e que a ajudasse a entender o mundo, sempre com uma visão abrangente. Lynn Margulis dizia que seu amor pela ciência surgiu porque percebia que a ciência não era uma questão sobre sua opinião política ou orientação, mas uma forma de descobrir o mundo diretamente a partir de evidências: “E eu nunca havia visto isso na minha vida. Eu via apenas pessoas dizendo ‘você deve fazer isso porque ele disse, e ele sabe mais do que você’.” (tradução livre).

Lynn Margulis (Ilustra por Juliana Adlyn)

Além da teoria da endossimbiose, Lynn Margulis colaborou com James Lovelock no desenvolvimento da hipótese Gaia, que defende a ideia da biosfera como um sistema ativo de controle, capaz de manter a Terra em homeostase. Perceba que essa ideia é diferente do que muitos pensam sobre a hipótese de Gaia, considerando o planeta como “um organismo”. Tal má interpretação do conceito originalmente proposto por Lovelock e Margulis colaborou para que ele se tornasse popular entre movimentos anti-ciência. Ainda, essa hipótese gerou mais discussão entre cientistas de diferentes áreas, pois muitos consideram uma hipótese bonita, poética, mas difícil de ser testada. Mais uma vez, a visão de Margulis ia contra o que a maioria dos cientistas de sua época pensavam. Para ela, entretanto, Gaia nada mais é do que a “simbiose vista do espaço”. Ainda hoje, Gaia trata-se, no mínimo, de uma hipótese inspiradora e intrigante, e muita discussão ainda deve rolar a respeito dela.

Lynn Margulis recebeu diversos prêmios ainda em vida, principalmente por causa da teoria da endossimbiose. Dentre eles, destacam-se a “National Medal of Science”, dada pelo presidente dos EUA a cientistas por suas contribuições de destaque, e a medalha “Darwin-Wallace” – dada pela Linnean Society of London a cada 50 anos em reconhecimento a “grandes avanços na biologia evolutiva”  Como se não bastasse a carreira brilhante como cientista, Lynn Margulis também escreveu diversos livros (muitos em parceria com seu filho Dorian Sagan) para divulgação de suas teorias e de ciência em geral para público leigo. Margulis faleceu em novembro de 2011 – sua história e seu amor pela ciência, entretanto, continuam a nos inspirar.

Para saber mais:

Lynn Margulis sobre sua vida, carreira e visão sobre ciência:

Teoria da endossimbiose:

Sagan, L. 1967. On the origin of mitosing cells. Journal of Theoretical Biology. 14 (3): 225–274. doi:10.1016/0022-5193(67)90079-3

Gray M. W. 2017. Lynn Margulis and the endosymbiont hypothesis: 50 years later. Mol. Biol. Cel. doi:10.1091/mbc.E16-07-0509

Hipótese Gaia:

Lovelock, J.E.; Margulis, L. 1974. Atmospheric homeostasis by and for the biosphere: the Gaia hypothesis. Tellus. Series A. Stockholm: International Meteorological Institute. 26 (1–2): 2–10. doi:10.1111/j.2153-3490.1974.tb01946.x

Doolittle, W.F. 2017. Darwinizing Gaia. Journal of Theoretical Biology. doi: https://doi.org/10.1016/j.jtbi.2017.02.015

Margulis, L. 1998. The symbiotic planet: a new look at evolution. (Recomendo fortemente a leitura deste livro!!)

Livros de Lynn Margulis e Dorion Sagan traduzidos para português:

O que é vida?

O que é sexo?

Microcosmos

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Lina Stern, neurofisiologista e bioquímica, que nos apresentou melhor o nosso próprio cérebro

Lina Stern nasceu na Rússia, em 26 de agosto de 1878, uma dos sete filhos de um mercante da província de Kurland. Ainda jovem decidiu ser médica, e declarou que sua atração era pela filantropia e não pela ciência, em um primeiro momento. Tentou por dois anos ingressar na Universidade de Moscou, no entanto, isso não era algo alcançável para uma mulher de sua classe social, por isso deixou a Rússia e foi estudar na Suíça, sendo aceita na Universidade de Genebra. Nesse período, a Universidade de Genebra era conhecida por seu liberalismo, e grande parte dos estudantes eram estrangeiros. Em 1900, quase 50% dos alunos eram russos, e na comunidade científica suíça as mulheres eram muito mais bem aceitas do que em outros países nessa mesma época. Ainda na graduação começou a trabalhar no departamento de neurofisiologia, que seria a área pela qual se tornaria reconhecida internacionalmente. Lina Stern é conhecida por descobrir e descrever a estrutura da Barreira-hematoencefálica, estrutura diferenciada dos capilares do Sistema Nervoso que protegem o nosso cérebro, dificultando o acesso de substâncias estranhas a ele.

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Lina Stern no Laboratório de Fisiologia da Universidade de Genebra.

Lina desenvolveu em conjunto com outros pesquisadores de sua época muitos estudos inovadores em fisiologia, incluindo a descrição de descargas elétricas das células cardíacas, mecanismos do sistema nervoso central e autônomo e a fisiologia do sangue. Durante o período de 1904 à 1922, Lina trabalhou com Frédéric Batelli, publicando 54 artigos sobre enzimas respiratórias. Seus estudos foram determinantes para que, 20 anos depois, Adolf Krebs pudesse elucidar toda a rota da respiração celular, consagrando o conhecido (e temido pelos estudantes!) Ciclo de Krebs. O próprio Krebs reconheceu isso, ao receber o prêmio Nobel em 1953. A partir de 1906 se dedicou intensamente a atividade docente, se tornando a primeira professora mulher da Universidade de Genebra.

Lina começou a centrar seus estudos no conhecimento do Sistema Nervoso, e seu primeiro avanço nessa área foi a descrição de funções do nosso cerebelo, região reconhecida do encéfalo como centro do equilíbrio e dos movimentos voluntários, e também dedicou muito tempo ao estudo do líquido cefalorraquidiano (LCR ou líquor) que envolve a medula e o cérebro e age como protetor e lubrificante de todo o sistema. As observações de Lina e de outros cientistas sobre as diferenças de concentrações de substâncias no LCR e no sangue, fizeram a cientista pensar em como esses compartimentos eram mantidos tão bem isolados, enquanto o sangue é denso, vermelho e com alta concentração de proteínas e células, o líquor é límpido, incolor, com baixa densidade celular e baixa concentração de proteínas. Em 1921, Lina inseriu o termo “blood-brain barrier” (BBB), ou no português, barreira-hematoencefálica (BHE), sugerindo que essa barreira era a responsável por estabelecer as diferenças entre o sangue e o líquor, e também contribuía para a homeostase do tecido cerebral. Ela desenvolveu estudos pioneiros com animais recém-nascidos demonstrando a imaturidade da barreira-hematoencefálica e sua contribuição na segurança de fármacos, sendo convidada a se tornar consultora científica de uma grande indústria farmacêutica.

Apesar da prosperidade e da carreira conquistada na Suíça, Lina acreditava que era mais necessária em seu próprio país. Lina retornou a sua terra natal, então chamada de União Soviética, em 1924 foi convidada a assumir uma cadeira de fisiologia na Segunda Universidade Estadual de Moscou. Lina se dedicou inteiramente ao desenvolvimento da ciência, ministrando os cursos de fisiologia e bioquímica, e trabalhando em dois laboratórios de pesquisa, sendo que publicou nesse período 49 artigos em revistas russas, francesas e alemãs. Em 1929, se tornou diretora do Instituto de Fisiologia da Rússia, apresentando ao mundo, de forma completa, seus estudos sobre a barreira-hematoencefálica.

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Representação esquemática da BHE e foto de Lina Stern em 1929, dos arquivos do Instituto Smithsonian.

Lina nunca quis desacelerar sua carreira. Ela estudou como o estresse, a privação de sono, atividade física e o uso de fármacos interferia na barreira-hematoencefálica e como isso afetava a função cerebral, fazendo grande avanços em neuroendocrinologia, respostas imunes e inflamatórias no sistema nervoso, metabolismo de drogas e neurotoxicidade. Em 1934 recebeu título de “Distinta Cientista da União Soviética” e como prêmio, um carro! Em 1939, foi eleita membro da Academia de Ciências, tornou-se editora-chefe de uma revista científica e recebeu o título de “Eminent Woman of Europe”.

Em 1950, Lina, com então 71 anos, e outros cidadãos russos, foram presos, acusados de espionagem para os Estados Unidos, e ela passou 3 anos e 8 meses, em condições desumanas e sofrendo tortura, na prisão. Muitos dos companheiros de Lina foram executados, e ela foi condenada ao exílio no Cazaquistão, onde passou apenas dez meses, em razão da morte de Stalin, o que atenuou sua pena.

Durante sua prisão, Lina pedia aos guardas papel e canetas e continuou escrevendo suas ideias e hipóteses sobre a barreira-hematoencefálica e o desenvolvimento do cérebro, e com 76 anos, após o exílio, continuou suas pesquisas. Ela faleceu em 1968, após uma vida de muito trabalho, contribuindo de forma incalculável para o avanço da neurofisiologia.

Referências:

Levent Sarikcioglu. Lina Stern (1878–1968): an outstanding scientist of her time. Childs Nerv Syst (2017) 33:1027–1029;

Alla A. Vein. Science and Fate: Lina Stern (1878–1968), A Neurophysiologist and Biochemist. Journal of the History of theNeurosciences: Basic and Clinical Perspectives. 2008.

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As re-descobertas da ciência

Na academia acredita-se que a diversidade acelera o desenvolvimento científico. Isso porque, por mais que um dos pilares da ciência seja objetividade, cientistas são humanos e, portanto, é de se esperar que as experiências de vida e pontos de vista (subjetivo) tenham poder de influenciar quais serão as questões que despertarão curiosidade. Além disso, as experiências de vida e pontos de vista também direcionam como as questões científicas serão respondidas.

Ainda não estamos no mundo perfeito e uma longa estrada a caminho da igualdade ainda deve ser percorrida, mas, nós mulheres estamos conquistando nosso espaço e aumentando nossa representatividade no ambiente acadêmico (e em tantos outros espaços).

Portanto, não é de se espantar que a comunidade científica venha manifestando interesse por objetos de estudo que sempre estiveram ao redor, mas não eram o enfoque de estudos, como por exemplo o corpo feminino. Contudo, para além de novas perguntas, a inserção da mulher na sociedade também permite releituras de hipóteses até então bem aceitas.

Aqui vamos falar de apenas três exemplos de releituras de hipóteses: Sheela-na-gigs, Pinturas rupestres e Vikings.

Sheela-na-gigs

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Imagem e autorização: Commons-wikimídia

 

Sheela-na-gigs são esculturas femininas encontradas na Espanha, Inglaterra e Irlanda, datando do século 11 no primeiro país e 12 nos dois últimos que possuem uma vulva larga que está sendo aberta pelas mãos da própria dona da vulva. Os primeiros relatos sobre elas datam do século 19, e as descreviam como grotescas, feias e aterrorizantes.

A visão moderna do falogocêntrico apresenta diversas explicações possíveis, mas que recaem sobre duas grandes vertentes: ou são representações de fertilidade e maternidade, ou de perigo e aviso. Entre as hipóteses encontram se: 1) estas esculturas poderiam ser feitas e dispostas para lembrar a população do “olho que tudo vê” sendo uma forma de ameaça e controle comportamental da população; 2) relacionam a exposição do útero como um retorno a casa; 3) representações do cotidiano tendo relação com o parto; 4) uma entidade sobre o engano, sobre o poder de atração para algo perigoso e sombrio: “a vagina dentata”, sendo um aviso contra a luxúria sexual.

Contudo, Margaret Murray, uma antropóloga, anglo-indiana, arqueóloga, historiadora, folclorista, egiptologista e mulher (1863-1963) tinha outra interpretação. Ela dizia que as sheela-na-gigs celebravam o amor lesbiano e o autoconhecimento através da masturbação e assim, representam de forma positiva a sexualidade feminina.

Veja, uma mulher traz para o mundo da ciência uma forma alternativa de ver a imagem da mulher e da sua sexualidade, desvinculando a mulher de ambos os papéis usualmente empregados para elas: de reprodução unicamente (sem poder, escolha, independência e prazer) ou de internúncio do mal.

Recentemente Rachel Shanahan, também rebate as comuns interpretações, na sua tese de doutorado. Rachel defende que se as sheela-na-gigs fossem representações pagãs sobre fertilidade, esperaria-se que, como encontrada em outras representações de fertilidade e maternidade, tivesse grandes bustos, e formato mais arredondado do corpo. Contudo, as sheela-na-gigs são magras e sem peitos. Ela também questiona a interpretação de que estas esculturas seriam mensageiras de conduta comportamental, ao discutir que são encontradas em castelos, e que espera-se que imagens de aprendizado e conduta fossem dispostas em igrejas.

Ela também argumenta que as sheela-na-gigs nos trazem uma pequena noção de como a sexualidade da mulher era tratada (e eu incluo “como ainda é”) por algumas culturas: ora interpretada como sorte – por uma sociedade que lhe concedia poder e controle sobre os seres; ora interpretada como praga – por uma sociedade que condena os desejos femininos e amaldiçoava quem ousasse saciá-los. Seja como for, a sexualidade feminina jamais foi interpretada como natural, sendo necessário, sempre, justificar sua existência e suas implicações, boas ou ruins.

Pinturas Rupestres

Screen Shot 2017-10-09 at 07.38.14.pngPinturas rupestres são desenhos feitos por nossos ancestrais que ainda hoje se encontram preservados. Tradicionalmente acredita-se que os homens foram os responsáveis por estes desenhos. Mas qual evidência sugeriria que estas pinturas fossem realmente feitas por machos?

Uma pesquisa recente mostra que ao contrário do imaginado até o momento, mulheres também são responsáveis por pinturas rupestres. Na realidade, são responsáveis pela maioria de uma categoria específica que são impressões das próprias mãos. Este relato abre portas para o debate da importância das mulheres nas demais formas de pinturas rupestres feitas por nossos ancestrais.

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Santa Cruz – Cueva de las Manos – Perito Moreno, Argentina, fonte e permissão: Creative Commons

 

Dean Snow, da universidade da Pensilvânia, analisou as impressões de mãos existentes em 8 cavernas da França e da Espanha e ao comparar o comprimento dos dedos, determinou que 75% das amostras pertencem a mulheres. Mulheres tendem a ter o comprimento dos dedos indicador e anelar parecido entre si enquanto homens possuem o anelar maior que o indicador.

Porque essas mulheres estariam deixando as marcas das mãos delas nas cavernas? Seriam as responsáveis por outros desenhos também? Seriam elas as xamãs do grupo? Seriam representações da subjetividade? Estariam as artes relacionadas ao sexo? Ou talvez a hierarquia ou papel social dentro do grupo? Muito ainda falta ser respondido, mas é essencial entender a importância da inserção das mulheres no mercado, na sociedade como parte ativa desta, porque até hoje a única hipótese alternativa à supremacia masculina foi proposta por Dale Guthrie. Dale argumentava que os desenhos eram feitos por meninos, isso meninOs. A mulher estar presente, não apenas permite que ela traga o seu ponto de vista à ciência, mas que traga visibilidade para o papel social de todas, catalisando inclusive que os próprios homens cientistas possam também começam a enxergar hipóteses alternativas que envolvam mulheres.

Vikings e vikingxs

Em 1880, foi descoberto um túmulo viking. Junto dos restos mortais humanos também foram encontrados:  machado, lança, espada, arco, flechas pesadas e jogos de estratégia. Além disso, também foi encontrada ossadas de animais como cavalos, égua, garanhão. Estas peças indicavam que a pessoa enterrada ali era um guerreiro, de alto escalão e um estrategista, o que significa alguém responsável por decisões de guerra. Em 1880 parecia muito óbvio que apenas um homem poderia ter tido esse papel social. Ou seja, para determinação do papel social do indivíduo foram usadas evidências, já para a determinação do sexo, experiência de vida, ponto de vista. Em 1970, quando já havia tecnologia suficiente para reconhecer se estes restos mortais pertenciam a um homem ou a uma mulher, contudo, ainda parecia muito óbvio que estes restos mortais só poderiam pertencem a um homem. Então, mesmo com a tecnologia em mão, nenhum pesquisador foi atrás de evidências e aqueles restos mortais continuaram sendo ligados ao sexo masculino.

Em 2017, Charlotte Hedenstierna-Jonson e sua equipe questionaram, depois de mais de cem anos, que o sexo daquela ossada não era tão óbvio assim e analisaram o DNA dos restos mortais. Para grande surpresa na comunidade, os restos mortais pertencem ao sexo feminino. Uma mulher, viking, guerreira, estrategista. Uma mulher.

E então?

Estes trabalhos tem uma grande importância, porque ressaltam o quanto conclusões científicas podem ter grande influência da cultura na qual o cientista encontra-se inserido. Por muito tempo, a academia foi composta por homens brancos ocidentais de classe média-alta. Cultura é o que define os papéis de gênero, e a cultura da qual fazemos parte, o faz de forma bastante restrita.

Podemos dizer que as interpretações científicas, como as mostradas aqui tem uma grande influência das construções sociais. Portanto, diversidade sim, é importante na ciência porque ao assumir e justificar o comportamento a ciência pode perigosamente reforçar estereótipos.   

A ciência está inserida na sociedade e é, portanto, contextualizado em um cenário político-histórico. Aceitar este fato não desclassifica a ciência, mas empodera a sociedade.

PARA SABER MAIS

Link para mapas de mapas de localidade das Shellas-na-gigs: http://www.sheelanagig.org/wordpress/map/

Shanahan R.L. Grotesque Sheela-na-gigs? A feminist reclaiming of borders in “The spirit of woman”  Dissertação de mestrado na Universidade de Colorado en Denver. 2015.

https://www.researchgate.net/publication/273042625_Sexual_Dimorphism_in_European_Upper_Paleolithic_Cave_Art

 

 

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Projeto em universidade visa trazer mais meninas para as áreas de exatas e tecnologias

É notável que as áreas de exatas e tecnologias sejam praticamente dominadas por homens. Dado a este cenário, um projeto desenvolvido na Universidade de Caxias do Sul (UCS-RS) tem por intuito mudar esse panorama. Intitulado “Engenheiros do Futuro”, o projeto atua no ensino médio de escolas da região, buscando trazer mais jovens para as áreas de exatas, em especial as engenharias. Atuando desde 2007, o projeto possui apoio da Universidade de Caxias do Sul e das agências de fomento MCTIC/FINEP/FNDCT. Dentro desse projeto, uma das vertentes é o subprojeto intitulado Encorajando meninas na ciência e tecnologia. Ele incentiva meninas no ensino médio a escolherem carreiras nas áreas de engenharia, mostrando de forma divertida que a área das exatas não é um bicho de sete cabeças.

Segundo a Professora Valquíria Villa Boas, coordenadora do projeto, “A Engenharia é uma profissão dominada pelos homens. Apesar das diferenças dos números relativos à presença das mulheres em Engenharia nos diferentes países, de modo geral, a caracterização e concepção da Engenharia como uma profissão masculina ainda é senso comum. Nas últimas décadas, o pequeno número de estudantes de Engenharia do sexo feminino, bem como de engenheiras atuantes no mercado de trabalho no mundo, tem sido motivo de debate para os estudiosos que se preocupam com as questões de gênero e com a importância da participação feminina em Ciência e Tecnologia (C&T)”.

No Brasil, o processo de inserção das mulheres nas carreiras científicas e tecnológicas ocorreu nas mesmas proporções que em outros países do mundo, entretanto, durante boa parte do século XX ainda havia um grande preconceito questionando aptas ou até mesmo capacidade intelectual das mulheres para atuarem nas carreiras científicas. Apesar do enorme avanço ocorrido na C&T nas últimas décadas do século XX, neste início de século XXI, e das profundas transformações do status jurídico da mulher e de sua condição social, as carreiras científicas e tecnológicas não passaram a constituir uma prioridade para as estudantes que concluem o ensino médio.

De acordo com o relatório anual da UNESCO, A porcentagem de  mulheres trabalhando em pesquisa e desenvolvimento para o ano de 2014  :

  • 28,8% para o mundo;
  • 39,9% para os Estados Árabes;
  • 39,6% para a Europa Central e Oriental;
  • 47,2% para a Ásia Central;
  • 22,9% para a Ásia Oriental e o Pacífico;
  • 44,7% para a América Latina e o Caribe;
  • 32,2% para a América do Norte e Europa Ocidental;
  • 19,0% para Ásia do Sul e Oeste;
  • 30,4% para África subsaariana.

Apesar de estarmos em 2017, os dados ainda são impactantes, o que mostra a necessidade de incentivar a participação das mulheres nas áreas de exatas e tecnologias.

Segundo a Professora Valquíria Villas Boas há expectativas para a ampliação do projeto a nível nacional para os próximos anos: “Estamos na 8ª edição do Encorajando Meninas em Ciência e Tecnologia, e com certeza temos interesse em continuar a oferecer esta atividade do Programa ENGFUT. E quanto a ampliar o projeto a nível nacional, é uma ambição que pode se concretizar, pois desde dezembro de 2016, eu faço parte da diretoria da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (ABENGE) e umas das minhas tarefas junto à ABENGE é promover ações junto a escolas de Educação Básica. Assim sendo, o Encorajando Meninas em Ciência e Tecnologia pode vir a ser uma das atividades a ser disseminada entre as universidades brasileiras. Vale mencionar que em 2013, o CNPq lançou uma chamada pública (MCTI/CNPq/SPM-PR/Petrobras nº 18/2013) intitulada Meninas e Jovens Fazendo Ciências Exatas, Engenharias e Computação. Esta chamada pública permitiu que várias universidades brasileiras propusessem atividades para incentivar meninas a ingressarem em carreiras científicas e tecnológicas.” Contudo, foi observado que ao término do projeto a maioria das universidades brasileiras não deram continuidade atividades. Enquanto isso, o projeto desenvolvido em Caxias do Sul está na sua 8ª. edição anual, e se depender da Professora Valquíria irá perdurar por muitos anos.

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Projeto” Encorajando Meninas na Ciência e Tecnologia”, liderado pela professora Valquíria Villas Boas na Universidade de Caxias do Sul-RS. Fonte: Universidade de Caxias do Sul-Acervo

Dados do projeto

  • 4 Docentes atuantes: Valquíria Villas Boas-coordenadora, Odilon Giovannini, José Arthur Martins e Rejane Rech;
  • Número de escolas atendidas = 29;
  • Números de alunos que passaram pelo projeto (durante os 7 anos) = 320.

Referências:

http://www.ucsminhaescolha.com.br/noticias/122/programa-encorajando-meninas-inicia-oficinas-em-agosto

http://uis.unesco.org/sites/default/files/documents/fs43-women-in-science-2017-en.pdf

http://www.abenge.org.br