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Será que estamos de fato sozinhos? Parasitos e os efeitos da microbiota intestinal no corpo humano

O termo microbiota descreve um conjunto de microrganismos que habitam um determinado ecossistema, e a microbiota intestinal é composta por todos aqueles microrganismos que ocorrem no sistema gastrointestinal que coevoluíram com a espécie humana, sendo essencial para a sua saúde. A microbiota é adquirida através da mãe, durante o parto, amamentação, e também após este período durante a introdução a alimentos diversos.

A microbiota intestinal possui diversos papéis que determinam a fisiologia do hospedeiro. Por exemplo são responsáveis pela maturação do sistema imunológico, resposta intestinal a lesões no epitélio celular, e também pelo metabolismo energético. Múltiplos fatores afetam a sua diversidade, como o sexo, idade, fatores genéticos, dieta e histórico de infecções (quem diria que esses seres microscópicos teriam um papel tão importante?).

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Imagem retirada de CC0 Public Domain

Os mamíferos possuem um genoma extenso relacionado aos microrganismos que se localizam no intestino. O metabolismo da microbiota intestinal já foi diretamente  relacionado a patogêneses como obesidade, doenças circulatórias e          inflamações no sistema gastrointestinal. E quais são os principais microrganismos que habitam nossa flora intestinal? Existem 4 filos principais de bactérias no intestino dos mamíferos: Firmicutes; Bacteroidetes; Actinobacterias; Proteobacterias.

A microbiota extrai a energia necessária através da comida ingerida, acumulação de lipídios, e síntese de vitaminas, assim como outras atividades metabólicas. A desregulação destes processos pode resultar em doenças de nível metabólico, já que estes microrganismos têm a habilidade de quebrar componentes que não capazes de serem digeridos, aumentando a absorção de energia. Estas doenças, como obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares são um problema de saúde pública, e o entendimento sobre a ligação entre estas doenças e a microbiota é absolutamente necessário. Porém, não são só os componentes de dieta, o sistema imunológico e genético que podem vir a alterar a microbiota intestinal. Diversos estudos têm demonstrado que parasitos podem alterar a microbiota do nicho em que eles habitam, levando a inflamação e alterações metabólicas.

 

Os vermes e a microbiota

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Necator americanus. Fonte: David Scharf / Science Source

 

Mais ou menos um quarto da população humana está infectada por helmintos (sabe a lombriga? Pois é, ela mesma e outras espécies também). Os parasitos de humanos mais comuns são os geohelmintos (que passam parte do ciclo de vida no solo), como a lombriga (Ascaris lumbricoides), Necator americanus, verme que causa a ancilostomíase, e Trichuris trichiura  que causa a tricuríase. Estes endoparasitos comumente residem no aparelho intestinal.

É sabido que os helmintos secretam (cruzes!) uma variedade de produtos que podem alterar o nicho ambiental que eles dividem com os outros microrganismos. A microbiota, em contrapartida, providencia uma barreira robusta contra a colonização destes parasitos. Outros estudos também mostram que a imunidade é induzida e regulada através da microbiota intestinal e células do sistema imune do epitélio intestinal (clique aqui e aqui para ver outros textos sobre o assunto no blog!) . Estes estudos mostram experimentalmente a capacidade de um parasito do camundongo, Trichuris muris, de alterar a colonização bacteriana e eventualmente proteger o intestino de camundongos de uma possível patologia causada por estas bactérias no intestino.

A infecção por helmintos pode afetar a microbiota, porém se estas alterações são benéficas ou não, aí depende dos fatores que estão relacionados a infecção: por exemplo a condição do hospedeiro e sua suscetibilidade, além da coinfecção com outros parasitos. Além disso, uma quantidade grande de vermes no intestino pode também alterar a suscetibilidade do hospedeiro a infecções secundárias.

Porém, estudos experimentais demonstraram que helmintos também podem impactar no metabolismo indiretamente, devido a alteração da microbiota por um longo período de tempo de infecção. Por exemplo, estudos epidemiológicos sugeriram que uma baixa diversidade bacteriana está diretamente relacionada à deposição de gordura e a inflamação à obesidade. A infecção por helmintos pode estar associada a diversidade bacteriana e, portanto, ter um efeito positivo e diminuir a obesidade.

Outras pesquisas conseguiram estabelecer um link entre aterosclerose, microbiota e helmintos. As bactérias comumente encontradas na cavidade oral têm sido encontradas nas placas ateroscleróticas e sua presença é relacionada a aumento da infiltração de leucócitos. Por sua vez, a infecção por helmintos tem uma correlação positiva com a proteção de doenças cardiovasculares, já que a ocorrência de helmintos pode diminuir os níveis de colesterol e a possibilidade de aterosclerose e consequentemente, doenças cardiovasculares. Os estudos mostram que a resposta do sistema imunológico também tem um papel importante assim como os antígenos secretados pelos helmintos.

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Créditos da imagem: http://saude.culturamix.com

Entretanto, ainda assim são necessários mais estudos já que outras pesquisas relacionadas a microbiota e obesidade em camundongos demonstraram que a dieta também tem um papel importante. Nestes estudos camundongos magros colonizados por uma microbiota de indivíduos obesos começaram a apresentar um aumento no tecido adiposo e na gordura total do corpo.  

As doenças metabólicas têm sido um problema de saúde pública, principalmente em países em desenvolvimento. Muitas variáveis afetam as interações e associações entre a microbiota, o hospedeiro e os parasitos. Ainda, nem todos os parasitos atuam da mesma forma, e pouco se sabe sobre as secreções e sua influência na microbiota. Investigações ainda estão em andamento relacionados a doenças metabólicas e suscetibilidade genética, status imunológico e dieta. Porém, não podemos descartar o entendimento sobre mudanças na microbiota causadas por parasitos.                     

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Créditos: facebook.com/ minhalombriga

 

Será que é tão ruim ter uma lombriguinha na barriga?

 

 

 

 

Referências:

  1. Bhattacharjee, S., Kalbfuss, N., & Prazeres da Costa, C. (2017). Parasites, microbiota and metabolic disease. Parasite immunology, 39(5), e12390.
  2. Kinross, J. M., Darzi, A. W., & Nicholson, J. K. (2011). Gut microbiome-host interactions in health and disease. Genome medicine, 3(3), 14.
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Microbioma e aleitamento materno: como esses universos se encontram?

Na primeira semana do mês de agosto comemora-se a Semana Mundial do Aleitamento Materno, considerada como veículo para promoção da amamentação. No Brasil é coordenada pelo Ministério da Saúde, que adapta o tema proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS) à realidade brasileira, elabora e distribui materiais educativos. A ação se estende por todo o mês e envolve serviços de saúde, escolas, empresas e organizações não governamentais, como a Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar, com o objetivo de incentivar o aleitamento materno por meio de campanhas de empoderamento da mulher e divulgação da importância do leite materno (LM) para a proteção da criança. O Brasil é considerado referência mundial com a maior média de tempo aleitamento materno, como você pode ler nessa matéria do blog.

O leite humano (LH) é considerado a fonte ótima de nutrientes para o bebê, fornecendo água, proteínas, gorduras, carboidratos, vitaminas e minerais que proporcionam o seu crescimento ótimo. Além disso, o LH contém outros fatores não nutrientes que trazem muitos benefícios para a saúde, desenvolvimento e bem-estar infantis e maternos. Entre esses fatores, destaca-se o perfil de bactérias, chamado microbioma. Estima-se que o leite produzido por uma mulher saudável possa conter mais de 200 tipos de comunidades bacterianas e que metade dessa população de bactérias parece ser personalizada e pode ser modificada pelo ambiente em que ela está inserida(1). Um estudo publicado em junho de 2017 no JAMA Pediatrics sugeriu que as bactérias transferidas das mães para os filhos podem ser, pelo menos parcialmente, responsáveis pelos benefícios à saúde do bebê trazidos pelo aleitamento materno(2).

Os pesquisadores estudaram 107 pares de mães e bebês e compararam as bactérias presentes na pele dos seios das mulheres e no LM com aquelas presentes nas fezes dos bebês. A partir das fezes, os pesquisadores determinaram que tipos de bactérias compunham o microbioma do intestino infantil. Embora tenham encontrado tipos distintos de bactérias no leite, na pele e nas fezes dos bebês, foi descoberto que o microbioma intestinal dos bebês combinavam muito mais com as bactérias no leite e na pele de suas mães do que com amostras de outras mulheres do estudo. Isso sugere que o leite de cada mãe foi um dos maiores contribuintes para o microbioma do intestino de seu próprio filho.

Os resultados mostraram ainda que durante os primeiros 30 dias de vida, os bebês que receberam 75% ou mais de sua nutrição pelo LM apresentaram cerca de 28% de suas bactérias intestinais compatíveis com aquelas presentes no LM. Esses bebês também receberam cerca de 10% de suas bactérias intestinais da pele das mães e 62% de outras fontes. A maior diversidade bacteriana e a mudança na composição do microbioma intestinal dos bebês foram associados com a proporção de LM ingerido por dia mesmo depois da introdução de alimentos sólidos. Nos lactentes que receberam a maior parte da nutrição por meio do aleitamento materno exclusivo, as comunidades microbianas foram ligeiramente mais diversificadas em relação ao número de espécies encontradas em comparação com bebês que foram menos amamentados(2).

Apesar de os autores do trabalho do JAMA Pediatrics não terem avaliado os efeitos do microbioma sobre a saúde das crianças, os autores destacaram que foram capazes de mostrar que existem sim bactérias específicas no LM e que essas bactérias podem ser encontradas também no intestino dos bebês, um assunto controverso até o momento. O estudo fornece evidência de que o microbioma do LH é um mecanismo pelo qual o aleitamento materno fornece benefícios.

ago 2017

Tipo de aleitamento influencia o perfil de bactérias intestinais de bebês.

 

É importante ressaltar que apesar de conhecermos os inúmeros benefícios do leite materno, ainda boa parte das mulheres não conseguem fazê-lo ou o fazem por tempo inferior ao recomendado pela OMS*. Com exceção das mulheres impossibilitadas de amamentar, sabe-se que muitas mulheres fazem o desmame precoce por falta de informação ou incentivo para continuar a amamentação. Estudos realizado no Brasil mostraram que os principais motivos para interromper o aleitamento materno foi a informação de “leite fraco” ou “leite secou”, trabalho fora de casa e interferências externas, como crenças e tabus passados pela família e orientação médica(3,4). Para saber mais sobre o desmame, há um outro texto publicado no blog. O sucesso na amamentação é o resultado de interações sociais complexas e qualquer estratégia de êxito deve ser orientada para o empoderamento da mãe. Portanto, os profissionais de saúde e a comunidade devem aprender e repassar toda informação que incentive a prática do aleitamento, considerando ainda as necessidades e preferências da mulher, bem como seu sistema de valores.

 

* Recomenda-se aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida e como complemento da alimentação até dois anos de idade ou mais.

 

1) Bode L, McGuire M, Rodriguez JM, Geddes DT, Hassiotou F, Hartmann PE, McGuire MK. It’s alive: microbes and cells in human milk and their potential benefits to mother and infant. Adv Nutr. 2014 Sep;5(5):571-3.

2) Pannaraj PS, Li F, Cerini C, Bender JM, Yang S, Rollie A, et al. Association Between Breast Milk Bacterial Communities and Establishment and Development of the Infant Gut Microbiome. JAMA Pediatr. JAMA Pediatr. 2017 Jul 1;171(7):647-654. doi: 10.1001/jamapediatrics.2017.0378.

3)Escobar, Ana Maria de Ulhôa et al. Aleitamento materno e condições socioeconômico-culturais: fatores que levam ao desmame precoce. Rev. Bras. Saude Mater. Infant. [online]. 2002, vol.2, n.3 [citado  2017-08-22], pp.253-261. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-38292002000300006&lng=pt&nrm=iso&gt;. ISSN 1806-9304.  http://dx.doi.org/10.1590/S1519-38292002000300006.

4) Araujo, Olívia Dias de et al. Aleitamento materno: fatores que levam ao desmame precoce. Rev. bras. enferm. [online]. 2008, vol.61, n.4 [cited  2017-08-22], pp.488-492. Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672008000400015&lng=en&nrm=iso&gt;. ISSN 0034-7167.  http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672008000400015.

5) Figura: https://www.scienceandsensibility.org/p/bl/et/blogid=2&blogaid=734