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Fadiga crônica e a relação com a microbiota intestinal

Sente-se cansado o tempo todo? Com dificuldade de concentração e de memorização? Mesmo após uma boa noite de sono, essa sensação de cansaço não vai embora?

Se esses sintomas ocorrem há mais de 6 meses, pode ser que você tenha a Síndrome da Fadiga Crônica (SFC), também conhecida como encefalomielite miálgica (ME). O paciente com a SFC apresenta piora da memória, dores musculares e nas articulações, distúrbios digestivos e sonolência ao longo do dia, que pioram com a atividade física ou mental.

A SFC é de difícil diagnóstico porque é preciso que qualquer outro tipo de doença causadora dos mesmos sintomas seja descartada, como o hipotireoidismo ou anemias. Sem um marcador específico que caracterize a síndrome, o diagnóstico pode ser muito demorado. Porém um estudo publicado este ano aponta um caminho promissor para que esses marcadores sejam enfim utilizados.

O estudo aponta que o problema pode começar no seu intestino, com a sua microbiota intestinal!

Sindrome da fadiga ronica

Imagem adaptada de: shutterstock.com

A microbiota é formada pelo conjunto de bactérias e fungos que vivem em nosso organismo. Sem as mesmas, não poderíamos sobreviver. Quando os micro-organismos presentes na microbiota entram em desequilíbrio, podem causar distúrbios ao organismo.

A pesquisa conduzida pela Dr. Dorottya Nagy-Szakal da Universidade de Columbia nos Estados Unidos relata a relação entre o desequilíbrio de espécies de bactérias intestinais com essa síndrome.

Os cientistas compararam pessoas saudáveis com pessoas portadoras da SFC e observaram que a maioria dos portadores da SFC também possuíam a Síndrome do Intestino Irritável (SII). De acordo com os autores de 35-90% dos pacientes com SFC também são portadores da SII.

A Síndrome do intestino irritável é um transtorno gastrointestinal que causa mudanças na movimentação (motilidade) do intestino, podendo levar a constipação ou diarreia, acúmulo de gases e cólicas. 

Ao analisarem o perfil das pessoas que possuem SFC com ou sem a SII, os autores do estudo não encontraram diferenças entre células do sistema imune, já que em artigos anteriores publicados por outros grupos haviam suspeitas de que a SFC fosse causada pelo aumento de células inflamatórias circulantes. O que encontraram de diferente entre os grupos analisados foram os tipos de bactérias intestinais de cada paciente. Ao identificar esses diferentes tipos de bactérias entre os pacientes, os pesquisadores puderam encontrar possíveis biomarcadores para o diagnóstico da SFC.

Chamamos de biomarcador tudo aquilo que pode ser utilizado como um indicador de alguma doença ou distúrbio. No caso deste estudo, os cientistas identificaram que pessoas com a SFC+SII possuem como biomarcadores o aumento de bactérias do gênero Alistipes e diminuição do gênero Faecalibacterium no intestino, em comparação a pessoas saudáveis. Já pacientes somente com SFC apresentaram como biomarcadores o aumento de gênero Bacteroides juntamente com uma diminuição específica na espécie Bacteroides vulgatus. Sabendo desses perfis de bactérias que funcionam como biomarcadores, os pesquisadores conseguiram prever os 3 tipos de pacientes: pacientes saudáveis, pacientes somente com SFC e pacientes com SFC+SII. Além disso, os cientistas encontraram uma forte correlação entre a gravidade dos sintomas (dores, fadiga extrema e motivação reduzida) e a quantidade dessas bactérias nos pacientes portadores da SFC.

O trabalho de Dr. Dorottya Nagy-Szakal conclui ainda que essas bactérias específicas podem quebrar a comunicação que há entre o cérebro e o intestino, atuando por diferentes vias do metabolismo.  Isso pode ocorrer porque as bactérias há redução na produção de ácidos graxos e aminoácidos essenciais para o metabolismo corpóreo.

Há cerca de 10 anos, estudos científicos que exaltam a importância do papel da microbiota intestinal para o corpo humano crescem a cada ano. Uma gama de estudos vêm relacionando o papel das bactérias e fungos que temos em nossos corpos, principalmente nos intestinos, com o desenvolvimento de doenças.

Mas será mesmo que a microbiota está na intersecção de todas essas doenças?

No mundo da ciência este é um assunto muito novo e que ainda precisa ser muito explorado. Ainda estamos no princípio para o entendimento do papel que a microbiota pode exercer em nosso organismo.

Fatores genéticos, ambientais, se nascemos de parto normal ou cesariana, metabolismo e nutrição são fatores que influenciam diretamente em qual tipo de micro-organismos iremos ‘cultivar’ em nosso corpo. Desta lista, o fator nutricional parece ser o que mais podemos controlar de alguma forma. Por isso a prevenção ainda é o melhor remédio.

O tratamento para a síndrome da fadiga crônica depende de cada caso, mas inclui antidepressivos para ajudar no sono e nas dores musculares, psicoterapia para atenuar o stress, exercícios físicos e principalmente uma alimentação balanceada.

Em um futuro próximo, quem sabe, esses biomarcadores sirvam como base para probióticos que possam ajudar pessoas que sofrem com essas síndromes. Enquanto isso, a dica é tentar manter uma vida equilibrada. Evitar o stress e o álcool em excesso e manter uma rotina de exercícios físicos e de boa alimentação.

*Probióticos: organismos vivos que quando ingeridos exercem efeito benéfico ao organismo por balancear a microbiota intestinal.

Saiba mais sobre os micro-organismos que habitam nossos corpos nesse outro post do blog: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2016/08/29/o-ecossistema-que-nos-habita/

Saiba mais sobre microbioma: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2016/12/21/microbioma-uma-questao-de-peso/

 

REFERÊNCIAS

Giloteaux L, Goodrich JK, Walters WA, et al. Reduced diversity and altered composition of the gut microbiome in individuals with myalgic encephalomyelitis/chronic fatigue syndrome. Microbiome. 2016; 4:30.

Nagy-Szakal D, Williams BL, Mishra N, et al. Fecal metagenomic profiles in subgroups of patients with myalgic encephalomyelitis/chronic fatigue syndrome. Microbiome. 2017; 5:44.

 

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Vírus, bactérias e Chuck Norris: O que eles tem em comum?

     Resistir ao tempo e a condições adversas são habilidades de diversos vírus e bactérias (e Chuck Norris, claro. No caso é o tempo que resiste a ele). Alguns desses micro-organismos são resistentes ao congelamento, calor, seca, falta de nutrientes, etc. O que acontece quando esses micro-organismos são reativados? No caso da península siberiana de Yamal, uma bactéria reativada causou uma epidemia de Anthrax. Em 2016, um garoto de 12 anos morreu e mais de 20 pessoas foram hospitalizadas infectadas pela bactéria. A doença era considerada erradicada e há 75 anos não haviam casos de Anthrax registrados na região.

O que pode ter acontecido?

     A bactéria responsável pelo Anthrax, Bacillus anthracis, é capaz de formar endósporos (estrutura de algumas bactérias que proporcionam resistência e sobrevivência em meio a algum stress ambiental como frio ou calor excessivos, falta de nutrientes ou água, por exemplo), podendo ficar inerte por anos. Como os endósporos geralmente ficam no solo é comum que animais herbívoros ingiram esses esporos e, dessa maneira, forneçam um ambiente propício para a bactéria continuar seu ciclo de desenvolvimento. Depois que o endósporo é ingerido, o B. anthracis sai do período de latência, se multiplica e acaba causando a morte do animal. Nesse momento, a bactéria pode formar mais endósporos ou, caso as condições estejam favoráveis, infectar outros animais, inclusive o homem. Então, uma possível explicação para o que aconteceu em Yamal é que, em 2016, com a forte onda de calor que assolou a região, com temperaturas chegando a 35ºC, parte do solo, permanentemente congelado, descongelou, expondo animais mortos, principalmente renas (animais herbívoros que são a principal fonte de renda da região).  Possivelmente, há mais de 75 anos, uma dessas renas morreu infectada por Anthrax e ficou congelada no solo até o verão de 2016. A bactéria formou endósporos para resistir ao congelamento e, quando as condições se tornaram favoráveis novamente, ela pode se multiplicar e acabou por infectar uma parcela da população de Yamal.

Não são casos isolados

     Talvez você ache incrível que um organismo consiga resistir por quase 100 anos latente e após todo esse tempo continuar o seu ciclo. É realmente incrível, mas acreditem: 100 anos é relativamente pouco tempo para vírus e bactérias permanecerem em estado letárgico. Em 2014, Matthieu Legendre, pesquisador da Universidade Aix-Marseille na França, e colaboradores conseguiram reativar um vírus congelado há mais de 30 mil anos e, em 2007, um grupo de pesquisadores da Universidade de Nova Jersey e da Universidade de Boston obtiveram resultados positivos em testes de atividade metabólica de micro-organismos congelados em camadas de gelo datadas de 100 mil até oito milhões de anos atrás.

     Existem ainda outros exemplos de viabilidade de micro-organismos “adormecidos” não só no gelo, mas em diversos outros ambientes. Em 2017, Penelope Boston, astrobióloga da NASA, conseguiu reativar micro-organismos enclausurados dentro de cristais formados em uma caverna no México entre 50 mil e 10 mil anos atrás. O mais interessante é que o material genético dos organismos que ela analisou não era relacionado a nenhum outro organismo encontrado em bases de dados científicas. No final de 2016, pesquisadores do Canadá e Estados Unidos publicaram um artigo mostrando o resistoma (coleção de genes de resistência a antibióticos) de uma bactéria encontrada numa caverna no Novo México. Essa caverna e, consequentemente, os micro-organismos encontrados nela, estavam isolados da superfície há quatro milhões de anos. A bactéria em questão, Paenibacillus sp. LC231, mostrou resistência a 26 dos 40 antibióticos testados, incluindo um dos mais novos antibióticos utilizados para infecções resistentes, a daptomicina (nome comercial Cubicin®).

     Diante dos fatos expostos, surgem algumas perguntas: o que aconteceria se organismos desconhecidos entrassem em contato com nosso sistema imunológico? E se antigas bactérias super-resistentes conseguissem transferir os genes de resistência a outras bactérias? E se, simplesmente, esses organismos depois de um longo período ficassem viáveis e aptos a causar infecções e doenças novamente, trazendo epidemias consideradas erradicadas? Certamente essas são algumas questões que podem causar preocupação, mas há muito mais por trás desses estudos. Por exemplo, como uma bactéria que não tem contato com a superfície há quatro milhões de anos poderia apresentar tamanha resistência a antibióticos utilizados hoje em dia? Segundo os pesquisadores, os genes de resistência estavam inseridos no cromossomo da bactéria analisada e não havia sinais de inserções novas de elementos móveis, o que indica que esses genes estão ali há muito tempo. Através de análise filogenética, eles chegaram à conclusão que o fenótipo de resistência a diversas drogas é nativo do gênero Paenibacillus, que incluem uma gama de bactérias que vão desde as patogênicas até as fixadoras de nitrogênio. Possivelmente os mecanismos de resistência desse gênero se desenvolveram por acaso ou para combater inimigos naturais (e não os modernos antibióticos) há mais de quatro milhões de anos.

     A busca e descoberta de organismos extremófilos e altamente resistentes nos traz uma série de informações que podem ser utilizadas em diversas áreas, como meio ambiente (como o caso da onda de calor causada pelo aquecimento global em Yamal) e até astrobiologia, por exemplo. Para Penelope Boston, astrobióloga da NASA, o descobrimento de seres capazes de sobreviver em ambientes, no mínimo, inóspitos reforça a hipótese de que a vida pode não ter começado na Terra, já que alguns desses organismos sobrevivem a ambientes semelhantes aos encontrados em outros planetas e luas.

 

Referências: