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A biologia da aprendizagem

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Fonte: http://www.corujaloira.com/2015/04/18/10-dicas-para-estudar-no-feriado/

Eu adoro estudar. Procuro sempre estar aprendendo algo novo, mesmo que eu não precise saber necessariamente aquele assunto. Quando você se dispõe a aprender algo, na maioria das vezes, será sobre um assunto que você gosta. Eu adoro biologia, literatura, história e vários outros assuntos, mas eu odeio tenho extrema dificuldade em aprender línguas. O problema é que eu preciso fazer um teste de proficiência esse ano e, querendo ou não, eu tenho que aprender de verdade a falar, escrever, escutar e ler em outra língua. Foi nesse cenário que eu comecei a pensar em quais estratégias eu poderia utilizar para tornar meu aprendizado mais eficiente e menos doloroso, por assim dizer. Nesse momento eu fui estudar. Estudei e achei respostas tão interessantes que resolvi trazer algumas das coisas que a ciência diz sobre o aprendizado e compartilhar com vocês. Vamos lá!

Começando pelo início

Bem simplificadamente, quando aprendemos algo novo, essa informação chega em primeira mão a um determinado grupo de neurônios. Esses neurônios então passam essa informação adiante através de impulsos elétricos e impulsos químicos. Esse ato de “passar a informação adiante” possibilita a formação de novas conexões. Cada informação nova é recebida, processada e analisada.

Cada organismo é um universo particular, então o recebimento de informações, os impulsos gerados, as conexões formadas são dependentes de uma série de fatores como aprendizagem anterior, existência de algum tipo de lesão, desbalanço químico, entre outros. Isso significa que não adianta você seguir todas as dicas que os cientistas dão para querer aprender neurociência em um dia se você não lembra nem das aulas de biologia. Ou ainda se você estiver sob forte estresse ou muito triste ou ansiosa(o). Primeiro você precisa resolver isso porque as emoções vão influenciar como e em que velocidade você aprende.

Primeira dica: Faça exercícios!

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Fonte: http://blogeducacaofisica.com.br/beneficios-do-exercicio-fisico

Diversos estudos sugerem que fazer exercícios aumenta a capacidade de aprendizado. Uma das relações existentes entre exercícios e aumento de aprendizagem é relacionada ao hipocampo. O hipocampo é uma estrutura localizada em ambos os hemisférios cerebrais que possui diversas funções em relação à consolidação da memória e aprendizagem. Praticar exercícios aumenta a formação de novos neurônios no hipocampo (neurogênese), aumenta a “força das sinapses” nessa região (em inglês: Long term potentiation – LTP) e aumenta também a concentração de substâncias neuroprotetoras e antioxidantes que vão proteger o hipocampo de danos.

Além de afetar o hipocampo, praticar exercícios aumenta a autoestima (pelo menos em crianças e adolescentes em idade escolar). Uma melhor imagem de si mesmo faz com que você se sinta mais feliz, menos ansiosa(o) e menos estressada(o). Certamente você estará mais disposta(o) a aprender quando estiver se sentindo bem. Recentemente, um estudo de pesquisadores norte americanos, mostrou que a corrida, especificamente, tem efeitos positivos na memória, mesmo se a pessoa estiver passando por algum tipo de estresse. Segundo esse estudo, a corrida elimina o efeito maléfico do estresse na memória.

Dica número 2: Alimente-se bem!

Muita gente já deve ter ouvido falar sobre o efeito positivo de uma planta chamada Ginkgo biloba na memória. Diversos estudos suportam essa ideia, mas a pergunta que fica é o que o G. biloba tem que pode afetar o nosso cérebro? A resposta é: ele tem flavonoides.

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Fonte: http://www.aiuro.it/benessere/ginkgo-biloba-pianta-proprieta-controindicazioni-e-benefici.html

Flavonoides também podem ser encontrados em grandes quantidades em uva, chá preto, chá verde, cacau e mirtilo. O que eles fazem? Até algum tempo atrás se achava que o potencial benéfico dos flavonoides era devido ao seu poder antioxidante. Atualmente já sabemos que esse potencial vai muito além. Flavonoides podem proteger neurônios vulneráveis, aumentar a função neuronal e estimular a regeneração neuronal. Eles também protegem os neurônios contra danos causados por doenças neurodegenerativas, como Alzheimer. Como os flavonoides podem ajudar em todos esses problemas? Especula-se que eles possam modular cascatas de sinalização intracelular que controlam sobrevivência, morte e diferenciação neuronal. Por exemplo, um estudo de 2007 de um grupo francês mostrou, após 10 anos de acompanhamento, que um maior consumo de flavonoides diminui as chances de sofrer com doenças neurodegenerativas e aumenta a capacidade cognitiva. Alguns estudos também mostram que um tipo especial de flavonoides, as isoflavonas, encontradas na soja, por exemplo, podem melhorar as capacidades cognitivas e memórias de mulheres na menopausa.

Resumindo, a ingestão de flavonoides não vai modificar seu cérebro de um dia para o outro e pode não funcionar se a sua intenção é memorizar todo o conteúdo do semestre para uma prova na semana que vem, mas certamente protege seu cérebro contra possíveis problemas no futuro e pode potencializar aos poucos sua capacidade cognitiva e de memória.

Dica número 3: Relaxe!

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Fonte: http://selmasanttos.blogspot.com.br

Eu sei, essa é uma dica que pode ser muito difícil de ser seguida. Com a vida corrida, milhares de coisas pra fazer, trabalho acumulado, chefe pressionando, artigo para escrever, análises para entregar o mestrado atrasadas, e muitas outras tarefas, relaxar pode parecer impossível. Mas acredite, a ciência diz que todas essas tarefas podem parecer mais fáceis se você tirar um tempo para desestressar. Uma revisão de 2016 compilou  uma série de dados que mostram que estresse crônico está associado com a degeneração estrutural e o mau funcionamento do hipocampo e do córtex pré-frontal. Nós já falamos que o hipocampo está relacionado com a consolidação da memória e a aprendizagem. Já o córtex pré-frontal está envolvido em uma série de funções como tomada de decisões, resoluções de problemas complexos, planejamento, atenção e memória. A boa notícia é que os problemas no cérebro causados pelo estresse não são permanentes. Segundo uma das autoras do estudo, uma professora do departamento de psiquiatria geriátrica da Universidade de Toronto, antidepressivos e exercícios (olha eles aí novamente) podem atuar revertendo a degeneração e o mau funcionamento dessas estruturas cerebrais.

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Fonte: http://www.bcslogic.com/time-to-relax/

Dica número 4: Durma bem!

Dormir é tudo de bom. Uma boa noite de sono pode resolver muitos problemas, pode te dar novas ideias, pode te fazer relaxar, enfim, só coisa boa. E aquela velha lenda de que podemos aprender algo enquanto dormimos é verdade? Bom, sim e não. Calma que eu já te explico.

Primeiro o “não”. Se você está pensando naquela cena de filme em que uma pessoa coloca uma fita pra tocar sobre algo que ela quer aprender, vai dormir e no dia seguinte acorda expert naquele assunto saiba que isso só acontece nos filmes mesmo. Até hoje não há estudos mostrando que isso seja possível.

Agora o “sim”. Se você considerar que enquanto dormimos, nossa mente se reorganiza e trabalha para formar e consolidar memórias, então de certa maneira, nós aprendemos enquanto dormimos. Um estudo de 2017, feito por cientistas da Alemanha e Suíça, mostrou que algumas áreas do cérebro ficam extremamente ativas enquanto dormimos. Uma estrutura em particular interessou bastante os cientistas: os dendritos. Os dendritos são prolongamentos dos neurônios responsáveis pela recepção dos estímulos nervosos tanto do ambiente, quanto de outros neurônios e na transmissão desses estímulos para o corpo da célula. Os cientistas viram que há alta atividade dendrítica em certos momentos do sono que são importantes na formação e consolidação de memórias. Além disso, os cientistas também puderam ter uma ideia de como estimular esses dendritos em pessoas com dificuldades de aprendizado e memória.

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Fonte: http://tudosobrecachorros.com.br

Concluindo…

Existem várias estratégias para você aprender mais e melhor. Aqui é importante lembrar que cada indivíduo é único e que algumas táticas funcionam melhor para uma pessoa que para outra. O importante é não se desesperar (olha o estresse aí). Quando você estiver estudando aquele assunto difícil que não entra na sua cabeça de jeito nenhum, pare. Reveja o que você está fazendo, como você está (estressada(o)? Com sono? Com fome?), tente bolar uma estratégia diferente, siga algumas das dicas do texto e não desista. Você certamente é capaz.

 

Referências:

Trudeau F and Shephard R J. Physical education, school physical activity, school sports and academic performance. International Journal of Behavioral, Nutrition and Physical Activity, 2008; 5: 10.

Roxanne M. Miller, David Marriott, Jacob Trotter, Tyler Hammond, Dane Lyman, Timothy Call, Bethany Walker, Nathanael Christensen, Deson Haynie, Zoie Badura, Morgan Homan, Jeffrey G. Edwards. Running exercise mitigates the negative consequences of chronic stress on dorsal hippocampal long-term potentiation in male mice. Neurobiology of Learning and Memory, 2018; 149: 28

Spencer J P E. Food for thought: the role of dietary flavonoids in enhancing human memory, learning and neuro-cognitive performance. Proceedings of the Nutrition Society, 2008; 67: 238.

Letenneur L, Proust-Lima C, Le Gouge A, Dartigues J F, and Barberger-Gateau P. Flavonoid Intake and Cognitive Decline over a 10-Year Period. American Journal of Epidemiology, 2007; 165 (12): 1364.

Linda Mah, Claudia Szabuniewicz, Alexandra J. Fiocco. Can anxiety damage the brain? Current Opinion in Psychiatry, 2016; 29 (1): 56

Julie Seibt, Clément J. Richard, Johanna Sigl-Glöckner, Naoya Takahashi, David I. Kaplan, Guy Doron, Denis de Limoges, Christina Bocklisch, Matthew E. Larkum. Cortical dendritic activity correlates with spindle-rich oscillations during sleep in rodents. Nature Communications, 2017; 8 (1).

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Oscilações e sintaxe: entendendo a relação entre a atividade cerebral e a estrutura linguística das frases

A nossa capacidade de armazenar informação por um curto intervalo de tempo está relacionada com o que chamamos “memória de trabalho”. Se alguém te diz um número de telefone e você precisa memorizá-lo temporariamente até poder anotá-lo, você está utilizando esse tipo de memória. No entanto, a quantidade de informação que somos capazes de armazenar parece estar relacionada com o tipo:números, rostos, palavras, etc. Em particular, quando a mensagem é transmitida através da leitura, os cientistas costumam comparar duas situações distintas:  palavras memorizadas formando  uma relação lógica entre si  versus  palavras em uma lista de itens descorrelacionados. Imagine que, por uma razão qualquer, você precisa memorizar uma sequência de 10 palavras. Qual das duas sequências abaixo você acha que seria mais fácil de lembrar?

Dez estudantes felizes viajaram para uma bela praia nas férias

Arroz vestido correm cidade duas carro cor pular ontem feio

Provavelmente a série que forma uma frase da qual você consegue extrair um contexto é a mais fácil de ser memorizada. De fato existe um número típico de palavras que uma pessoa consegue facilmente armazenar (aproximadamente 6) mas este número pode ser bem maior se as palavras formarem uma frase.

Essa distinção entre o processamento mental durante a leitura de uma frase e a leitura de lista de palavras é bastante útil para estudar propriedades sintáticas da estrutura linguística, ou seja, as relações formais entre as palavras numa frase. De acordo com diversos linguistas, a estrutura sintática das frases envolve a criação de estruturas hierárquicas (conhecidas como estruturas “tipo árvore” como a que é mostrada na figura 1). Graças a essas estruturas, subconjuntos de palavras podem ser agrupados para formar, por exemplo, o sujeito da frase. Assim temos que [[dez estudantes] felizes] poderiam ser agrupados como “eles”; ou [uma bela praia] poderia ser agrupada como “lá” ou “um lugar”. Assim, apesar das palavras aparecerem de maneira linear e sequencial, nossa compreensão se dá através de agrupamentos (chamados em inglês de nested phrases).

Se essas teorias estiverem corretas poderíamos, em princípio, ser capazes de observar como o nosso cérebro constrói essas estruturas e o que acontece com a informação armazenada temporariamente nas diferentes regiões corticais após o agrupamento de palavras. Onde e quando estamos aglomerando toda essa informação? Em outros termos, qual a diferença na nossa atividade cerebral quando compreendemos (lendo ou ouvindo) uma lista de palavras e uma frase?

Esse é o tipo de perguntas que une linguistas, neurocientistas e físicos. E uma das maneiras mais atuais de abordar essa questão é através de análise de dados cerebrais (ou usando o termo da moda: neuroimagem). Três artigos super recentes (dois já publicados [1,2] e um que ainda está no bioarxiv [3]) trataram essa questão analisando a atividade cerebral de pessoas durante a seguinte tarefa: ler palavras apresentadas sequencialmente em uma tela com intervalos de centenas de milissegundos. Veja detalhes do experimento realizado [1] na Figura 1.

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Modificado da referência [1]. Exemplo de uma frase utilizada na tarefa (e sua estrutura tipo árvore) e de uma lista de palavras (que não possui uma estrutura hierárquica). Exemplo da potência da atividade cerebral em cada série relativa ao momento em que a última palavra apareceu. Note que as cores vermelhas indicam um crescimento da atividade no final da frase (t=0) que não ocorre no final da lista de palavras. Uma comparação entre as regiões do cérebro em que a atividade aumenta no fim da frase, da lista e a comparação entre os dois casos.

Em uma primeira etapa, cada uma das 80 séries da tarefa as palavras apresentadas formam apenas uma lista descorrelacionada com 3 a 10 palavras. Dois segundos após a última, uma nova palavra aparece na tela e a pessoa deve responder se aquela palavra pertence à primeira lista. Na segunda parte do experimento as palavras formam uma frase de tamanho variável. Dois segundos após a última palavra uma nova frase menor é apresentada e a pessoa deve dizer se esta frase menor tem o mesmo sentido da primeira. Usando o exemplo anterior teríamos algo como:

Dez estudantes felizes viajaram para uma bela praia nas férias ……(2 seg) ….. Elas foram

Arroz vestido correm cidade duas carro cor pular ontem feio ……(2 seg) ….. cidade

O segundo experimento reportado [2,3] é um pouco diferente, mas, em termos gerais, visa comparar lista de palavras e frases. Os três artigos analisaram as oscilações da atividade cerebral no fim da última palavra de cada série e perceberam que certos padrões estavam relacionados à faixa de frequências analisada. Esses resultados parecem convergir para a ideia de que as oscilações em diferentes frequências desempenham papéis diferentes ao longo da leitura.

Um dos grupos [1] descobriu que em diversas áreas do cérebro relacionadas à linguagem a componente da atividade cerebral filtrada em frequências de 70 a 150 Hz (chamada banda de frequência gama entre neurocientistas) cresce sucessivamente com o aparecimento de novas palavras da frase. A mesma, entretanto, decresce subitamente quando uma palavra finaliza uma expressão, podendo ser usada para o agrupamento de uma ideia (por exemplo após a palavra “praia“ na expressão “uma bela praia”). Em particular essa faixa de frequência está relacionada com a atividade elétrica dos neurônios. Em outras regiões corticais, como a mostrada na figura 1 podemos ver que após a última palavra numa frase (que ocorre no tempo t=0) a potência do sinal aumenta bastante (em vermelho), mas o mesmo não ocorre para o fim da lista de palavras. Além disso, o aumento da atividade é proporcional ao número de palavras na frase, e não ao número de palavras na lista.

O segundo grupo [2,3], por sua vez, mostrou que de maneira geral a resposta cerebral à lista de palavras é diferentes da resposta à frase em várias faixas de frequências: teta (~4-7 Hz), alfa (~8-12 Hz), beta (~13-29 Hz) e gama (>30 Hz). Os autores sugerem que cada banda seria responsável por uma tarefa cognitiva diferente: theta facilitaria relembrar o contexto léxico, alfa e beta reflletiriam a unificação semântica. Para eles a informação sintática também seria codificada por alfa e beta, enquanto que para o primeiro grupo a informação sintática (o agrupamento em estruturas hierárquicas) estaria relacionada com gama. Finalmente, o segundo grupo sugere que gamma está relacionada com a capacidade de predição da palavra seguinte numa frase de acordo com o contexto. Além disso, os autores mostraram [3] que o fluxo de informação no final da frase entre as regiões envolvidas em tarefas relacionadas a linguagem é dado esquematicamente pela Fig 2. Este é, possivelmente, o primeiro estudo mostrando a direcionalidade da informação na rede formada pelas regiões corticais relacionadas à linguagem! E muitos acreditam que foram mudanças evolutivas nessa rede que deram aos humanos a capacidade de desenvolver uma linguagem mais rebuscada que a de outros animais. Portanto, muitos outros trabalhos nessa linha devem aparecer por aí.

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Modificado da referência [3]. A figura mostra esquematicamente a direção do fluxo da informação medido através da causalidade de Granger. Um fluxo unidirecional de informação do córtex parietal (em verde) para o córtex temporal posterior (em vermelho) e deste para o córtex temporal anterior e para o córtex frontal (azul). Além de uma interação bidirecional entre os dois últimos.

Referências

[1] Nelson, Matthew J., et al. “Neurophysiological dynamics of phrase-structure building during sentence processing.” Proceedings of the National Academy of Sciences (2017): 201701590.

[2] Lam, Nietzsche HL, et al. “Neural activity during sentence processing as reflected in theta, alpha, beta, and gamma oscillations.” NeuroImage 142 (2016): 43-54.

[3] Schoffelen, Jan Mathijs, et al. “Frequency-specific directed interactions in the human brain network for language.” bioRxiv (2017): 108753.

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Livro “A guerra não tem rosto de mulher” conta a trajetória de mulheres soviéticas que lutaram na Segunda Guerra Mundial através da História Oral

Embora muitas vezes se diga que a História é contada pelos vencedores, pesquisadoras e pesquisadores tem tentado, já há algum tempo, mudar esse cenário. Histórias de pessoas comuns, de trabalhadores, de mulheres, de minorias étnicas, vem ganhando espaço nas pesquisas acadêmicas. (Às vezes os resultados demoram para chegar ao público geral, e iniciativas como o blog Cientistas Feministas tem justamente a intenção de aproximar universidade e sociedade.)

Um dos campos historiográficos que tem possibilitado contar essas outras histórias é a História Oral. Segundo o CPDOC, a História Oral começou a ser utilizada na década de 1950 nos Estados Unidos, México e Europa e difundiu-se desde então. No Brasil, foi a partir dos anos setenta que começaram os trabalhos com entrevistas como fontes de pesquisa. Nessa mesma década, a bielorrussa Svetlana Aleksiévitch começou a colher depoimentos de mulheres que lutaram na Segunda Guerra Mundial. O resultado foi “A guerra não tem rosto de mulher”, o primeiro livro da jornalista.

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Imagem: três guerrilheiras soviéticas em ação durante a II Guerra. Fonte: The Atlantic

Publicado primeiro em uma edição curta em uma revista soviética em 1984 e no ano seguinte no formato de livro, o texto foi traduzido para o português e lançado no Brasil somente no ano passado. “A guerra não tem rosto de mulher” intercala trechos de depoimentos com comentários da autora. Nesses espaços, Svetlana reflete sobre o próprio fazer de sua obra e da dificuldade de trabalhar com esse tipo de material.

Uma das preocupações acerca da História Oral é como ela se aproxima do que “de fato aconteceu”. Mesmo com outros tipos de documento como suporte, no entanto, tal tarefa é impossível: não existe a verdade absoluta sobre o passado. Nas palavras do historiador David Lowenthal:

Não há verdade histórica absoluta à espera de ser descoberta; por mais diligente e imparcial que o historiador seja, ele, assim como nossas lembranças, não estará apto a relatar o passado “como ele realmente foi”. Nem por isso a história fica invalidada; persiste a crença de que o conhecimento histórico venha a lançar alguma luz sobre o passado, e que componentes da verdade ainda nele permaneçam (LOWENTHAL, 1998, p.143-4).

Svetlana Aleksiévitch coletou depoimentos de mais de quinhentas mulheres. Ouviu histórias de tanquistas, franco-atiradoras, enfermeiras, médicas, pilotas, cozinheiras, lavadeiras, comandantes, partisans… Ela explica porque quis ouvir mulheres que exerceram atividades tão diferentes:

Depois de classificar os endereços que tinha, formulei assim: tentar entrevistar mulheres de diferentes profissões militares. Cada um de nós vê a vida segundo sua atividade, segundo seu lugar na vida ou nos acontecimentos de que participa. Podemos pressupor que a enfermeira viu uma guerra, a padeira viu outra, a paraquedista uma terceira, a piloto viu uma quarta, a comandante de um pelotão de atiradores de fuzil uma quinta… Cada uma delas esteve na guerra que existia em seu raio de visão: a de uma era a mesa de cirurgia: “Vi tantos braços e pernas amputados… Já nem acreditava que em algum lugar havia um homem inteiro. Parecia que todos estavam feridos ou mortos…” (A. Diémtchenko, primeiro-sargento, enfermeira); de outra, os caldeirões da cozinha de campanha: “Depois de um combate às vezes não sobrava ninguém… Você cozinhava caldeirões de mingau, caldeirões de sopa, e não havia para quem dar…” (I. Zínina, soldado, cozinheira); a da terceira era a cabine de piloto: “Nosso acampamento ficava na floresta. Cheguei do voo e decidi entrar na floresta; já estávamos no meio do verão, os morangos estavam no ponto. Passava por uma trilha quando vi um alemão no chão… Ele já estava escuro… Me deu medo. Até aquele momento ainda não tinha visto mortos, e já combatia na guerra havia um ano. Lá no alto era diferente… Quando você está voando, só pensa em uma coisa: encontrar o alvo, bombardear e voltar. Não chegávamos a ver os mortos. Não tínhamos esse medo…” (A. Bóndarieva, tenente da guarda, piloto).

Nos trechos selecionados pela autora para o livro, percebe-se uma preocupação que ela mesma afirma ter:

Estou escrevendo uma história dos sentimentos… Uma história da alma… Não é a história da guerra ou do Estado, e não é a hagiografia dos heróis, mas a história do pequeno ser humano arrancado da vida comum e jogado na profundeza épica de um acontecimento enorme. Na grande História.

Os depoimentos trazem o dia a dia na guerra, os cheiros e cores do conflito. Trazem também a dureza de ser mulher em um ambiente masculino:

Não havia algodão e ataduras suficientes para os feridos… Para outros usos, então… Roupa de baixo feminina só apareceu uns dois anos depois, talvez.
Maria Semiónovna Kaliberdá, sargento, comunicações

Ainda sobre menstruação, uma outra mulher contou:

E, por causa da sobrecarga, deixamos de ser mulheres… Se transformou, a nossa… Perdemos nosso ciclo biológico… Dá para entender? Foi terrível. Era terrível pensar que você nunca mais vai ser mulher…
Maria Nésterovna Kuzmenko, primeiro-sargento, armeira

Quando a guerra finalmente acabou, as mulheres que lutaram achavam que finalmente iam ter paz, mas “depois da guerra ainda tivemos mais uma guerra. Terrível também”. Elas contam que foram hostilizadas pelas mulheres que não foram à guerra e pelos homens, que as abandonaram.

Depois de trinta anos começaram a nos homenagear… Convidavam para encontros… No começo nos escondíamos, não usávamos nem as medalhas. Os homens usavam, as mulheres não. Os homens eram vencedores, heróis, noivos, a guerra era deles; já para nós, olhavam com outros olhos. Era completamente diferente… Vou lhe dizer, tomaram a vitória de nós.
Valentina Pávlovna Maksimtchuk, operadora de artilharia antiaérea

Lendo os relatos, tem-se a certeza de que essa história precisa ser contada, ainda que seja difícil. Nas palavras de uma delas: “É terrível lembrar, mas é mais terrível ainda não lembrar”. Rememorar a violência, as mortes, o cotidiano duro e transformar isso em palavras é o mais próximo que conseguimos chegar do que essas mulheres passaram:

Será que alguém que não esteve lá consegue entender? E como contar? Com que rosto? Bom, me responda você: com que rosto isso deve ser recordado?
Tamara Stiepánovna Umniáguina, terceiro-sargento da guarda, enfermeira-instrutora

Referências:

ALESKIÉVITCH, Svetlana. A guerra não tem rosto de mulher. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

LOWENTHAL, David, “Como conhecemos o passado”, Projeto História, [v.]17, 1998. Disponível em:
< http://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/11110/8154 >. Acesso em: 16 mai. 2016.

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Sobre memória e preservação documental

“A memória do mundo é a memória coletiva e documentada dos povos do mundo, ou seja, seu patrimônio documental, que representa boa parte do patrimônio cultural mundial. Ela traça a evolução do pensamento, dos descobrimentos e das realizações da sociedade humana. É o legado do passado para a comunidade mundial presente e futura.”[i]

 

Recentemente estive em Cuba para uma viagem de pesquisa cujo objetivo era coletar informação para minha tese de doutorado. Após quase dois meses na ilha, me deparei com uma verdade difícil de engolir para quem está na metade de uma pós-graduação: meu projeto era simplesmente inviável. Não porque eu não tivesse capacidade, tempo, ou recursos suficientes para tocar a pesquisa, mas por que a documentação que eu buscava simplesmente desvaneceu. Volumes inteiros de atas municipais e protocolos notariais, por exemplo, se converteram em pó. Ameaçados constantemente pela umidade caribenha, insetos, fortes chuvas e furacões, grande parte dos documentos dos séculos passados se desintegrou. Com eles, foi-se uma uma parte da história colonial cubana que jamais será recuperada. Uma quantidade inestimável de informação está permanentemente perdida, criando um silêncio sobre esse passado.

Não é apenas em Cuba que o patrimônio documental está ameaçado. São milhares de arquivos, bibliotecas, e coleções ao redor do mundo em perigo iminente. Guerras, deslocamentos forçados, desastres naturais ou simples descaso—os riscos são muitos e variados. Uma das primeiras coisas que pensei quando ouvi as notícias sobre o último furacão a passar pelo Caribe foi: putz, será que destruiu muito documento? (Claro, a preocupação com a vida humana sempre vem antes, mas o passo seguinte foi pensar na informação que também se perde em desastres como esse). No Brasil mesmo, há relatos de arquivos abandonados, depósitos com infiltrações, instituições sucateadas por falta de verba (quem lembra quando o Museu Nacional, mais antiga instituição científica do país, fechou temporariamente as portas no ano passado por falta de pagamento de funcionários?).

E por que é importante pensar na preservação do patrimônio documental?  Ora, através dele é possível acessar o passado, desvendar a história daquilo que veio antes de nós e, assim, construir conhecimento—sobre quem somos, como chegamos até aqui, etc. Quando parte dessa memória é permanentemente perdida, cria-se uma lacuna na narrativa do passado. Isso é um problema grave, já que significa apagar completamente do registro histórico eventos talvez de grande significância. Diversos órgãos, nacionais e internacionais, entendem o direito à memória como um elemento fundamental da cidadania; portanto, preservar os registros onde a memória se inscreve é essencial. Não se trata apenas de interesse acadêmico. Imagine, por exemplo, se um furacão como o Matthew passa pela sua cidade e destrói os prédios públicos onde estão armazenados os registros civis (nascimento, casamento, óbito, etc). Imagine que o mesmo furacão provocou enchentes no seu bairro, e a água levou seu documento de identidade e qualquer outro pedaço de papel que prove que você é você. E agora? Já pensou que dor de cabeça ter que recriar a sua identidade? Ah, mas no Brasil não tem furacão. Não. Mas tem enchente, incêndio, traça, desabamento… Ah, mas hoje em dia os registros estão todos digitalizados, estão no sistema. Não, nem todos. Principalmente os mais antigos. Então se você precisar comprovar sua árvore genealógica (pelos motivos mais diversos, como garantir indenização, pensão, divisão de bens, herança, descolar aquele passaporte italiano tão cobiçado, sei lá), talvez tenha que consultar os livros históricos do cartório, ou da igreja, ou do cemitério. E se esses livros estiverem todos carcomidos por traças, completamente ilegíveis? Pois é…. Agora imagine que milhões de pedacinhos de informação como esse estão, nesse instante, em risco de desaparecer completamente, apagando a memória de indivíduos como você, comprometendo o conhecimento futuro a respeito do tempo presente e do tempo presente a respeito do passado.

A boa notícia é que há esforços sendo feitos para preservar a memória do mundo. Em 1993, a UNESCO criou um programa com esse nome que visa garantir a preservação de coleções de grande importância através da reprodução dos documentos originais em diferentes formatos (microfilme, digital, etc). O órgão trabalha com governos ao redor do mundo para salvaguardar a informação. Uma década mais tarde, em 2004, a British Library—biblioteca nacional Britânica—criou um programa parecido, porém mais descentralizado, que tem o mesmo objetivo de preservar a memória e garantir o acesso à informação, o Endangered Archives Program, ou EAP. O diferencial do programa da BL é que ele é menos burocrático, no sentido de que não depende de governos e políticas públicas. Pesquisadores que identifiquem acervos em risco podem submeter um projeto de preservação a ser financiado pela biblioteca. Já são mais de 240 projetos diferentes financiados pela biblioteca ao redor do mundo, e os resultados estão totalmente disponíveis online na página da instituição. São manuscritos de monastérios Etíopes, resgistros de minorias no Vietnã, leis antigas escritas à mão na Índia, livros de batismo da população de origem africana em Cuba, e processos do tribunal da Paraíba, entre muitos outros. O fato dos materiais preservados serem acessíveis a qualquer pessoa que tenha acesso a um computador com rede me parece um dos maiores méritos do projeto. Em termos de democratização do conhecimento, é um passo enorme. Afinal, viajar para fazer pesquisa de campo não é fácil, principalmente em tempos de crise como o atual em que o financiamento para isso é podado. Mas na galeria do EAP é possível acessar os documentos sem sair de casa! Quantos trabalhos podem ser escritos através dessas coleções! Recursos como esse podem inclusive ser utilizados nas escolas, possibilitando que alunos de colegial trabalhem com fontes primárias antes inacessíveis.

Se deparou com algum acervo em risco durante sua pesquisa? Pense na possibilidade de coordenar um projeto de preservação. As informações sobre como enviar propostas podem ser encontradas no site do EAP. E sabe aquelas fotos que seu avô tirava quando era jovem que estão abarrotadas em um caixa de sapato no fundo da gaveta juntando pó? Ou os selos que sua tia colecionava e que estão esquecidos em um canto qualquer? Já pensou em doá-los a alguma instituição arquivística e contribuir para a preservação do patrimônio documental? Fica a dica.

Para saber mais:

-Maja Kominko, ed. From Dust to Digital: Ten Years of the Endangered Archives Programme. Disponível em format Open Source em: http://www.openbookpublishers.com/product/283

-Coleções digitais do Endangered Archives Program http://eap.bl.uk/database/collections.a4d

-Heloisa de Faria Cruz. “Direito à memória e patrimônio documental.” Em: História e Perspectivas, Uberlândia (54): 23-59, jan./jun. 2016.

-Franciele Merlo e Glaucia Vieira Ramos Konrad. “Documento, história e memória: a importância da preservação do patrimônio documental para o acesso à informação.” Em: Inf. Inf., Londrina, v. 20, n. 1, p. 26 – 42, jan./abr. 2015 (disponível em http:www.uel.br/revistas/informacao/)

-“Historiadores digitalizam documentos históricos da Justiça paraibana” http://www.cnj.jus.br/noticias/judiciario/81862-historiadores-digitalizam-documentos-historicos-da-justica-paraibana – mais detalhes sobre o Projeto n.627 da BL em: http://eap.bl.uk/database/overview_project.a4d?projID=EAP627;r=41

-Registros eclesiásticos coloniais da população africana nas Américas, em particular no Brasil, Cuba, e Colômbia: Ecclesiastical & Secular Sources for Slave Societies

[i]                   UNESCO, Programa Memória do Mundo. Disponível em: http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/communication-and-information/access-to-knowledge/documentary-heritage/