0

Você consegue ler este texto de uma vez só, sem se distrair com outra tarefa?

multitasking

Já passaram por esse tipo de experiência? Enquanto escreve um email para seu chefe (ou orientador), a música que está ouvindo faz você lembrar que precisa comprar o ingresso de um show, então, entra no site de venda para ver o preço e o horário, simultaneamente, manda uma mensagem pelo Whatsapp para sua amiga, para saber se ela quer ir junto e aproveita para ver a foto que te mandaram no grupo dos seus amigos de infância. O tempo todo estamos realizando diversas tarefas ao mesmo tempo, ação comumente conhecida como multitasking. Para que isso seja possível, é necessário que mecanismos atencionais, aqueles que selecionam as informações que serão processadas pelo sistema nervoso, funcionem de forma efetiva para que cada tarefa possa ser devidamente realizada. A ideia de que conseguimos começar uma tarefa e, antes de terminá-la, começar uma nova tarefa não é nova e nem surpreendente. Algumas tarefas requerem mais atenção e recursos do sistema nervoso, como estudar e dirigir, por isso dificilmente são realizadas juntas a outras. Outras tarefas podem ser mais facilmente realizadas em conjunto, como cozinhar, falar ao telefone, lavar a louça, etc. Atualmente, lidamos com diversas mídias requisitando nossa atenção continuamente, assim, podemos questionar se nossa capacidade de realizar mais tarefas simultaneamente aumentou se comparada à 15 anos atrás. Será que a contínua troca do foco de atenção do Facebook, para o Whatsapp, para o jornal na TV, para o rádio pode ter um efeito de melhorar nosso desempenho em multitasking?

A ideia de que podemos treinar habilidades também não é nova. Estudos demonstram que jogadores de vídeo game de ação apresentam desempenho melhor em algumas tarefas, como de orientação da atenção, discriminação visual e troca entre tarefas. O raciocínio por trás dessas evidências parece lógico. O treino repetitivo de tarefas específicas altera redes neurais que estão relacionadas com os processos cognitivos necessários nessas tarefas tornando sua realização mais facilitada e melhor. Assim, dentro dessa lógica podemos pensar que, no mundo atual, jovens e adultos podem se beneficiar da loucura de lidar com diversas mídias e informações ao mesmo tempo treinando suas redes neurais. Porém, evidências sugerem o contrário. Alguns estudos observaram que pessoas que realizam mídia multitasking de forma muito intensa em comparação com pessoas que realizam pouco, na realidade, apresentaram desempenho pior em tarefas que requerem atenção seletiva, troca entre duas ou mais tarefas e pontuaram menos em testes para memória operacional. Esse tipo de memória seria aquela utilizada para manter e organizar as informações enquanto realiza uma tarefa, por exemplo, a memória que utilizamos para gravar os números do crush no celular pela primeira vez. Esses resultados parecem paradoxais se compararmos com o que ocorre com jogadores de vídeo games. Os autores de um artigo de revisão que debatem esse assunto (Rothbart e Posner, 2015) argumentam que, apesar de mais estudos deste tipo serem necessários, a atividade de multitasking mais intensa pode ser decorrente de um baixo controle atencional dessas pessoas. Dessa forma, o multitasking seria uma estratégia adotada uma vez que essas pessoas teriam dificuldade em se concentrar em uma única tarefa de cada vez. Corroborando essa ideia, um estudo (Sanbomnatsu et al., 2013) observou que pessoas que se autodeclaravam boas multitaskers apresentaram alta pontuação em testes de impulsividade e de busca de sensações (sensation seeking, definido como busca por novas informações e experiências). De forma oposta, essas pessoas pontuaram baixo em tarefas que envolviam a realização de diferentes tarefas simultaneamente. Além disso, nem toda atividade relacionada às multimídias pode ser comparada às habilidades utilizadas durante um jogo de vídeo game de ação. Nessa última atividade estão presentes diversos desafios como movimento rápido de alvos, apresentação transitória de diversos objetos e possuir incertezas espaciais e temporais que proporcionam pesadas cargas cognitivas, perceptuais e motoras.

É necessário abordar com cautela o que pode ser considerado um treinamento que interfere no sistema nervoso de forma a fortalecer circuitos neurais e melhorar o desempenho de certas habilidades. Nesse sentido, mais pesquisas são relevantes para demonstrar que treinamentos em tarefas específicas, como as relacionadas com antecipação de eventos, discriminação visual, resolução de conflitos e controle de inibição de ação, resultam não só em uma melhora no desempenho comportamental, mas também em aumento da atividade neural em regiões relacionadas com atenção e memória operacional. Aparentemente, atividade em regiões corticais frontais como o córtex cingulado anterior (Figura 1a.) está relacionada com os processos atencionais de supervisão durante a execução de uma tarefa, também denominado de atenção executiva, evitando erros e permitindo respostas apropriadas. Assim, o treinamento em tarefas específicas altera a atividade neural e a conectividade de regiões relacionadas com o sistema de atenção executiva e memória operacional, levando a uma melhora no desempenho ao realizar diferentes tarefas de forma simultânea. Mas não é somente dessa forma que podemos influenciar a atividade e conectividade de nossas redes neurais. Outro modo seria através da modificação de estados cerebrais, o que ocorre durante a meditação. Estudos recentes mostraram que a meditação pela técnica de treinamento integrativo de mente e corpo (IBMT – integrative body mind training) promoveu, em poucas semanas, aumento de atividade e eficiência de conexão de regiões neurais do córtex cingulado anterior, corpo estriado e ínsula anterior (Figura 1), quando comparado com o grupo controle, que realizou sessões de relaxamento convencional. Juntamente a essas alterações, foi observado uma melhora na utilização da atenção executiva, no humor e na regulação do estresse (Tang e Posner, 2014).

regioesneurais

Figura 1. Esquema da vista lateral direita de um cérebro humano representando regiões e estruturas neurais relacionadas aos sistemas de alerta, orientação da atenção e atenção executiva. O córtex cingulado está destacado (a). Corpo estriado (b). Ínsula (ou córtex insular) destacada em uma representação de um cérebro visto do lado esquerdo (c). Modificado de Posner e Rothbart, 2007; Wikipedia (Brasil); Frank Netter (Netter images).

Nossa exposição a mais informação, mais tecnologia e mais mudanças no mundo só tende a aumentar e ignorá-las não parece ser uma opção. Estudos sobre a influência disso em nossos comportamentos e sistema nervoso são essenciais para entendermos como lidar com essa realidade. Neste momento, tenho 15 abas abertas no meu navegador e tentar concluir este texto sem começar uma nova tarefa (por exemplo, ver meu Whatsapp) parece ser impossível. Assim, é relevante saber sobre estudos demonstrando que algumas atividades como meditação podem melhorar nosso desempenho ou diminuir o estresse quando encarar nossas tarefas do dia a dia. Agora é só começar a colocá-las em prática (ai, mais uma tarefa para realizar)!

Referências

Rothbart M.K. e Posner M.I. (2015) The developing brain in a multitasking world. Dev Rev.; 35: 42–63.

Tang Y.T. e Posner MI. (2014) Training brain networks and states. Trends in Cognitive Sciences. 2014; 18:345–350.

Sanbomnatsu D.M., Strayer D.L., Medieros-Ward N., Watson J.M. (2013) Who multi-tasks and why? Multi-tasking ability, perceived multi-tasking ability, impulsivity, and sensation seeking. PLoS One. 2013; 8(1):e54402.10.1371/journal.pone.0054402