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Marcha pela Ciência: por que ainda estamos marchando por fatos?

Em maio do ano passado, milhares de cientistas em diversas cidades brasileiras reuniram-se para realizar a chamada Marcha pela Ciência. O movimento, iniciado há alguns anos nos Estados Unidos (e originalmente chamado de March for Science), fez coro com mais de um milhão de cientistas de mais de 600 cidades do globo, que saíram das universidades às ruas para promover conscientização sobre a importância da ciência na vida das pessoas.


Início da concentração para a Marcha pela Ciência no vão do MASP, em São Paulo. Foto por Rebeca Bayeh.


Concentração para a Marcha pela Ciência em São Paulo. Foto por Marta Brietzke


Marcha pela Ciência na altura do metrô consolação, em São Paulo. Foto por Marta Brietzke

O dia da Marcha brasileira em 2019 coincidiu com o anúncio do primeiro corte de bolsas “ociosas” de mestrado e doutorado pelo governo Bolsonaro. Desde então, os cortes nas verbas destinadas a ciência e educação sofreram diversos novos cortes.

Ainda no ano passado, em julho, cientistas brasileiros se reuniram novamente na Avenida Paulista para expor para o público geral um pouco do seu trabalho dentro das universidades e explicar conceitos científicos de forma lúdica. As exposições científicas abordaram desde paleontologia até robótica, contando com a participação da equipe ThundeRatz da Escola Politécnica da USP, que já vinha participando das Marchas pela Ciência. Mariana Oliveira, membra da equipe, contou que ao falar sobre ciência para o público “as pessoas realmente se interessam, páram e perguntam”.

A professora Katia Oliveira, docente na UNIFESP, que junto à professora Erica Suzuki coordena o projeto Patógenos em Jogo, contou à epoca que “muitas pessoas do público leigo têm parado, têm se impressionado com tudo que a Universidade tem proporcionado”, e adiciona: “ninguém defende o que não conhece, então este é um passo muito importante […] e é uma vocação social da universidade, fazer divulgação científica”.

O projeto de Katia e Erika busca ensinar para o público sobre agentes infecciosos e as doenças causadas por eles através de jogos educativos. Katia conta que cada vez mais seus colegas têm se engajado em comunicar seu trabalho para o público, e aponta que ainda hoje em dia poucas pessoas têm real compreensão do que acontece dentro da universidade pública: “A população em geral tem uma visão muito simplista de que a universidade é o lugar em que o aluno senta, estuda e se forma profissional”, e completa que “a universidade pública tem uma dimensão muito maior, de pesquisa e extensão”. Katia se referia aos três pilares da universidade pública: o ensino, a pesquisa e a extensão, sendo a extensão qualquer atividade de compartilhamento de conhecimento da universidade junto à comunidade.


Verme de pelúcia da equipe do Patógenos em Jogo. Foto por Rebeca Bayeh

A Marcha pela Ciência é uma das muitas iniciativas em que cientistas e entusiastas da ciência têm se engajado para fazer divulgação científica. O movimento é apartidário, e tem como princípios a propagação de ideias baseadas em fatos e a ciência enquanto bem necessário para o progresso da sociedade e o bem-estar de toda a população. No Brasil, o movimento é apoiado pela Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência e pelos Cientistas Engajados.

Normalmente, nos cartazes das Marchas pela Ciência ao redor do mundo, algumas das frases escolhidas pelos cientistas são “no começo de todo filme de desastre há um cientista sendo ignorado”, “fale agora ou aprenda a nadar” (em referência ao aquecimento global, outro problema sobre o qual cientistas vêm alertando a população há décadas) ou ainda “você teve rubéola? Eu também não, graças à ciência”, em referência às vacinas, que protegem milhões de vidas todos os anos.

Os dizeres, que fazem alusão aos riscos de se ignorar fatos científicos com implicações para toda a sociedade, parecem escancarar mais do que nunca uma realidade que tem sido ignorada pelo governo brasileiro: Todos precisam de ciência. É uma espécie de grito coletivo daquilo que não deveria ser gritado para ser escutado: os fatos.

Em 2020, o mundo está se deparando com uma pandemia sem precedentes, cujos riscos também têm sido previstos e alertados há anos por cientistas, evidenciando mais ainda a função da ciência para a sociedade. Quaisquer que sejam as potenciais soluções para a pandemia, sejam elas vacinas, tratamentos, prevenção de pioras por uso inadequado de medicamentos, formas de detectar o vírus SARS-CoV-2 e todas as medidas que atualmente estão salvando milhões de vidas ao redor do mundo, como o distanciamento físico, são construídas a partir do conhecimento científico.

A propagação de fake news, soluções mágicas para a pandemia sem embasamento científico e o negacionismo praticado pelo atual governo já matou centenas de pessoas no Brasil. O engajamento da população não apenas nas medidas de prevenção do contágio mas também na propagação de fatos baseados em evidência se faz mais do que nunca necessário. Apenas soluções coletivas resolverão problemas coletivos. Já passamos há muito tempo da fase em que ignorar os fatos era uma opção.

Hoje, dia 7 de maio de 2020, respeitando as medidas de distanciamento físico, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência está organizando a primeira
Marcha Virtual pela Ciência. A programação completa pode ser acompanhada aqui.

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Marchar pela Ciência: sem perceber, vivemos dela todos os dias!

Se hoje você acordou quando seu despertador tocou, acendeu a luz do quarto, foi ao banheiro e deu descarga, a água saiu limpa da torneira (‘bendito’ tratamento de água!), tomou um paracetamol (ou aspirina ou outro remédio), pegou seu smartphone e deu uma olhada nas redes sociais, gostaria de te dizer que: todas essas ações só foram possíveis após pesquisas científicas. Se você olhar para cada eletrodoméstico da sua casa, se contar cada remédio ou vacina que já tomou – e por isso está viva(o) – vai entender porque lutar pela ciência é tão importante.

Para quem não é cientista, parece que a ciência é uma coisa inatingível, que aparece somente em filmes, mas a verdade é que ela está no nosso dia a dia e nós nem sempre nos damos conta. A ciência é o que move o desenvolvimento de tecnologias, o que nos faz viver mais e com mais qualidade de vida, porém estamos ameaçados pelas posturas que alguns governos estão tomando em relação a este assunto.[1]

Infelizmente, temos vivenciado cortes financeiros em ciência e tecnologia que atingem os Estados Unidos[2] e, principalmente, o Brasil. Somente neste ano, a ciência do Brasil sofreu uma redução de 44% do seu orçamento – uma perda de 2,2 bilhões de reais – o que configura o menor orçamento recebido nos últimos 12 anos (Figura 1). A notícia é tão assombrosa que foi parar na Nature, uma das mais antigas e respeitadas revistas científicas do mundo.[3,4]

Alguns dos nossos dedicados cientistas deram o seu recado em relação a esta situação. A Pesquisadora Dra. Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), escreveu cartas ao presidente em exercício, Michel Temer, e ao Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, advertindo sobre o impacto negativo que esses cortes ocasionarão na ciência e tecnologia brasileiras. O físico Dr. Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências, e o pesquisador Dr. Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, também destacaram o grande prejuízo que esses cortes causarão no desenvolvimento do Brasil.[3,4]

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Figura 1. Cortes drásticos no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC). (Crédito da imagem: Nature) [3]

Por razão do desmantelamento da ciência brasileira e mundial, esta semana (22 a 29 de abril) é especial para todos nós. No dia 22 de abril, tivemos a Marcha pela Ciência, motivada principalmente pelos cortes de orçamento propostos à ciência dos Estados Unidos e anunciados em março pelo governo Trump. A comunidade científica mundial saiu às ruas para protestar contra os cortes de orçamento e demonstrar a importância da ciência no desenvolvimento, bem estar e saúde do planeta.

De acordo com o site Vox[7], dezenas de milhares de pessoas marcharam pela ciência em mais de 6 continentes e 600 cidades. No Brasil, a comunidade também mandou o seu recado e marchou em 23 cidades. Nossas colaboradoras do Cientistas Feministas participaram da Marcha pela Ciência e contam o que viram.

 San Diego, California, EUA (por @carmensandiego )

O descaso do presidente Trump em relação à existência do efeito estufa foi um dos grandes motivadores para muitos participantes da Marcha pela Ciência que ocorreu no dia da Terra (22 de abril). San Diego abriga diversas pequenas empresas de biotecnologia, grandes indústrias farmacêuticas, universidades e institutos de pesquisas e dessa forma, há inúmeros cientistas. Muitos destes aderiram à marcha juntamente com familiares e pessoas que dão suporte à ciência e tecnologia. Estima-se que 15.000 pessoas participaram da Marcha pela Ciência em San Diego [9]. Os temas mais comuns abordados pelas faixas e pôsteres foram as inovações e descobertas realizadas por cientistas. Dois temas apresentados foram o advento das vacinas e questão preocupante do efeito estufa, fato que pode causar grandes impactos no clima da Terra.

Figura 2. Imagens da Marcha pela Ciência em San Diego, EUA. Na foto da esquerda, um casal nos alerta que “nós temos apenas uma casa” (o planeta Terra) e, na foto da direita, um cachorro saudável agradece a ciência e nos avisa que foi vacinado. (Fotos: @carmensandiego)

Curitiba, Paraná, Brasil (por Bárbara Camargo)

Em Curitiba, a convocação para a marcha pela ciência foi um pouco tardia, mas reuniu cerca de 120 pessoas na praça Santos Andrade, sendo em sua maioria professores e pós-graduandos das Universidades Federal do Paraná (UFPR) e Tecnológica (UTFPR). Por causa dos cortes de verbas, cientistas temem que projetos de pesquisas e institutos sejam fechados e diversos bolsistas de pesquisa possam ter suas bolsas cortadas. Em vista disso, vários pesquisadores discursaram sobre as dificuldades em fazer ciência no Brasil, muitos relataram situações onde tiveram que tirar do próprio bolso a verba para dar continuidade às pesquisas científicas. Notou-se a baixa participação da comunidade e dos alunos da graduação, inferindo que muitos desses não compreendem como a população será afetada diretamente com o baixo investimento em ciência e tecnologia. Traçou-se assim uma meta: divulgar e debater sobre a importância da pesquisa científica em nosso país com toda a população!

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Figura 3. Marcha pela Ciência em Curitiba, Paraná, Brasil. Foto: Rudá Pereira.

São Paulo, SP, Brasil (por Bruna)

Em São Paulo, algumas centenas de pessoas, em sua maioria pós-graduandas(os) e professores universitários, se reuniram debaixo de chuva no Largo da Batata, na zona Oeste de São Paulo. Além do enfoque político e de discursos de importantes cientistas brasileiros, a “marcha” (que se manteve no largo) contou também com uma feira de Ciências. Stands de diversos laboratórios e centros de pesquisa do estado buscaram aproximar o público da Ciência desenvolvida no Brasil, através da exposição de materiais produzidos, como bioplásticos, e de objetos de estudo (ex. animais fixados e réplicas de crânios de hominídeos). Os discursos de pesquisadores importantes como Helena Nader, Carlos Menck, Hernan Chaimovich, Walter Neves e Eleonora Trajano foram inspiradores e destacaram a gravidade da situação de descaso que a Ciência vem sofrendo no Brasil e no mundo, com diversos cortes de investimentos e até questionamentos sobre sua relevância. A ideia de que “Ciência não é gasto, é investimento” foi ponto comum em quase todas as falas, assim como a discussão sobre importância do papel do cientista como multiplicador e divulgador de ciência. Quando a população não reconhece a importância da ciência (e de nós, cientistas), lutamos sozinhos, e a sociedade caminha para o obscurantismo e para a fragilidade da democracia.

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Figura 4. A Marcha pela Ciência em Amsterdã, Holanda, contou também com a presença de crianças segurando cartazes dizendo que “a ciência é o nosso futuro”. (Foto: Simon E. Fisher)

 

Especialmente durante esta semana, convido vocês a passar pelo site da “March for Science” onde outras ações colaborativas estão descritas para ajudar na divulgação e na conscientização da importância da ciência para a população mundial.

Referências:

[1] https://www.washingtonpost.com/opinions/the-war-on-science-doesnt-just-hurt-scientists-it-hurts-everyone/2017/04/21/dd243fe0-26ba-11e7-bb9d-8cd6118e1409_story.html?utm_term=.a3e9f85a0e59

[2] http://www.nature.com/news/us-science-agencies-face-deep-cuts-in-trump-budget-1.21652

[3] http://www.nature.com/news/brazilian-scientists-reeling-as-federal-funds-slashed-by-nearly-half-1.21766#/Drastic

[4] http://ciencianautas.com/cortes-na-ciencia-no-brasil-viram-assunto-na-revista-nature/

[5] https://www.marchforscience.com/blog

[6] http://www.sciencemag.org/news/2017/04/march-science-live-coverage?utm_source=newsfromscience&utm_medium=facebook-text&utm_campaign=marchliveblog-12588

[7] http://www.vox.com/2017/4/23/15395786/march-for-science-world

[8] http://veja.abril.com.br/ciencia/marcha-pela-ciencia-23-cidades-do-brasil-protestam-neste-sabado/

[9] http://www.sandiegouniontribune.com/news/environment/sd-me-science-march-20170422-story.html