0

A liberdade sexual também na prática científica

A liberdade sexual é um tema bem controverso por diversos motivos…. vai de encontro com preceitos religiosos, pode esbarrar em comportamentos éticos na convivência em sociedade e acalora debates quando colocado sob uma perspectiva evolutiva. Ou seja, um tema que pode ser discutido em diversas esferas e de diferentes modos. Aqui, decidi abordar sob um ponto de vista feminino e feminista e apontar a importância da ciência. Assim, gostaria de falar sobre: sabe aquela atração que a gente sente quando uma pessoa te chama atenção, aquela vontade de fazer sexo, aquele desejo de se tocar, de ter prazer? Não só os homens tem, as mulheres também! Apesar deles também buscarem a liberdade sexual, como o direito de discutir abertamente sobre seus desejos, nós, mulheres, ainda temos que passar por várias outras barreiras a mais que eles.  

Importantes conquistas rumo à essa almejada liberdade sexual ocorreram. A conquista dos anticoncepcionais como o DIU e a pílula é um exemplo, pois tornou possível desvincular o prazer sexual da procriação. Outra conquista que acredito já estar acontecendo, mas ainda lentamente, é as pessoas aceitarem a frequência e diversidade de parceiros que uma mulher pode ter ao longo de sua vida. Em tempos em que o objetivo de vida de uma mulher não é só ter filhos, a liberdade sexual é um importante aspecto em sua vida. Pois, sim, existe toda uma complexa neurobiologia responsável por recompensar o ato do sexo. Assim, o sexo por sexo é tão bom quanto (ou muito melhor se feito corretamente) comer uma deliciosa barra de chocolate ou correr 5 km no parque. Todas essas atividades ativam sistemas neurais como o sistema dopaminérgico e serotonérgico relacionados com sensações positivas.

blog                                                            Google imagens: Artemis Iota vel de Coitu Scholia Triviæ

Nesse processo de entender e aceitar a sexualidade da mulher muitos paradigmas podem ser quebrados, especialmente a partir de pesquisas científicas. Porém, nessa tentativa de explorar o mundo sexual alguns pesquisadores já se deram muito mal. Já ouviram falar do biólogo Alfred Kinsey? Ele conduziu uns dos primeiros grandes estudos sobre comportamento sexual de homens e mulheres entre a década de 40 e 50.  Mas foi muito criticado na academia e não reconhecido pelos seus estudos por muito tempo.

Felizmente, hoje em dia, temos muitas pesquisas sendo realizadas e a partir de diferentes perspectivas. Um interessante estudo procurou estabelecer se haveria uma explicação não adaptativa da ocorrência de cópula extra-par (que chamarei de infidelidade para facilitar) em mulheres. Um dos experimentos foi verificar se haveria relação da ocorrência de infidelidade e variabilidade genética de receptores de hormônios como a vasopresina e a oxitocina envolvidos em comportamentos de vínculos sociais (p. ex: empatia e confiança). Observaram, somente em mulheres, uma forte correlação entre variações no gene do receptor para vasopressina e uma maior frequência de infidelidade. Quais as conclusões disso? Claro, não é defender a infidelidade como algo natural, mas questionar as razões para que isso ocorra. Isto é, pensar a “pulada de cerca” como um comportamento influenciado por diversos fatores, não somente sociais e psicológicos, mas também biológicos. Outra importante observação é que a infidelidade não é um traço biológico somente masculino, contrário do que muitos pensam.

Outra pesquisa que põe em cheque algumas ideias foi uma realizada para verificar se as diferenças de comportamento sexual entre homens e mulheres não poderiam ser efeito de expectativas sociais sobre esse tipo de comportamento. Foi observado uma diferença, para mulheres, nas respostas em questionários de comportamento sexual dependendo do grau de anonimato. Isto é, parece que mulheres não se sentem muito à vontade para responder livremente quando podem ser julgadas. Além, é possível que o comportamento sexual de homens e mulheres não seja tão diferente, como alguns estereótipos ainda pregam.  

Assim, as pesquisas são importantes em diversos níveis. Pois, é conhecendo um pouco melhor de nós mesmas que vamos quebrando tabus e aceitando nossa natureza.        

Ainda estamos em uma época em que o sexo do casal é voltado para o homem e para sua satisfação. A menina ainda pensa se deve fazer sexo no primeiro encontro ou depois de outros para não se sentir promíscua. A mulher ainda se esforça, põe uma lingerie sexy, mesmo cansada, para não ser chamada de frígida ou para manter seu namorado interessado. Mulheres lindas e sexys ainda não se conhecem anatomica e sexualmente a ponto de saber seus pontos de maior excitação.Todas essas questões podem desaparecer no momento em que a sociedade se conscientizar e sermos criadas e tratadas normalmente como seres com libido. Por exemplo, quando a  auto-exploração do nosso corpo, como a masturbação, seja permitida e vista com normalidade. Nós temos e devemos fazer sexo porque gostamos, porque é delicioso ser tocada, beijada e explorada de forma consentida. E pronto! Sem peso na consciência!

 

Referências:

Zietsch et al. 2014. Genetic analysis of human extrapair mating: heritability, between-sex correlation, and receptor genes for vasopressin and oxytocin. Evolution and Human Behavior.

Alexander and Fisher. 2003. Truth and Consequences: Using the Bogus Pipeline to Examine Sex Differences in Self-Reported Sexuality. The Journal of Sex Research.

http://www.kinseyinstitute.org/research/ak-data.html

Anúncios