0

Formas efetivas de reduzir vieses masculinos na linguagem

foto blog

Na língua portuguesa, aprendemos que se usa o masculino para se referir ao plural de várias palavras (e.g., todos, para um grupo com homens e mulheres), assim como para se referir a humanidade (e.g., o homem). Isso ocorre em outras línguas também, e durante muito tempo não se questionou possíveis problemas com essa forma de utilizar a linguagem. Entretanto, críticas a masculinização do universal começaram a surgir, apontando possíveis alternativas para que a linguagem não tenha um viés androcêntrico. Nesse sentido, se propôs, por exemplo, utilizar palavras com gênero neutro, mas alguns estudos têm mostrado que mesmo essas são associadas com masculinidade/homem. A busca de alternativas efetivas continua sendo, portanto, uma pergunta cujos pesquisadores e pesquisadoras precisam se debruçar para responder.

Levando em consideração o número baixo de estudos que investiguem formas de amenizar o chamado viés masculino da linguagem (suposição de que uma pessoa, descrita por meio de uma palavra que não permite definir seu sexo, é um homem), as pesquisadoras Anna Lindqvist, Emma Renström e Marie Sendén investigaram experimentalmente algumas alternativas propostas na literatura, fruto de discussões entre principalmente, mas não exclusivamente, grupos de feministas e de LGBTs.

De acordo com as autoras do estudo, até o momento, existem duas propostas de reforma da língua com o intuito de gerar uma linguagem justa com relação aos gêneros, ou seja, uma linguagem inclusiva, independentemente da identidade de gênero de cada indivíduo: a feminização e a neutralização. O objetivo da proposta de feminização é dar visibilidade para o feminino. Um exemplo de sua utilização é utilizar eles/elas ou todos/todas para se referir a um grupo de pessoas. A segunda estratégia é de neutralização, cujo objetivo é reduzir dicas que possam levar ao entendimento de que certa palavra se refere a um homem. Um exemplo dessa estratégia é a mudança das palavras, em inglês, “fireman” para “firefighter” (bombeiro). Outro exemplo de neutralização constitui na criação de novas palavras, como se pode ver, no Brasil, na palavra “menine”, usada para se referir à meninos e meninas (e inclusiva também para indivíduos não-binários[1]).

A pesquisa buscou investigar ambas estratégias, utilizando palavras em sueco e em inglês. No Estudo 1, 417 estudantes de uma universidade sueca participaram da pesquisa (303 mulheres, 85 homens e 25 com identidades de gênero não-binárias). Os/as participantes foram informades que a pesquisa era sobre avaliação de candidatos para empregos em situações de recrutamento. A tarefa consistia em ler uma pequena descrição de determinado/a candidato/a e dizer, em seguida, qual de quatro fotos de candidatos/as (dois homens e duas mulheres) os/as participantes achavam que correspondia a descrição. O emprego utilizado foi de corretor de imóveis, uma profissão na qual homens e mulheres trabalham em uma mesma proporção na Suécia. As fotos utilizadas foram pareadas em termos feminilidade, masculinidade, nível de atratividade, expressão emocional e idade.

Os/as participantes liam uma de três versões da descrição, sendo uma de feminização e duas de neutralização. Na estratégia de feminização, utilizou-se o equivalente a ele/ela na descrição do/a candidato/a (han/hon). Na estratégia de neutralização 1, utilizou-se as palavras “the applicant” (candidato/a) e, em seguida, “NN” (Latim para ‘não sei o nome’). Na segunda estratégia de neutralização, utilizou-se uma palavra recente cujo gênero é neutro, “hen”. Apesar de ser uma palavra relativamente nova, as autoras afirmaram que mais de 95% da população conhece a palavra, devido aos debates sobre as justificativas a favor e contra o uso desta.

Os resultados desse estudo mostraram que o uso das palavras supostamente neutras “the applicant” e “NN” geraram vieses masculinos, ou seja, mais da metade dos/das participantes que eram dessa condição disseram que o/a candidato/a era um dos homens das fotos. Em contraste, o uso do par “ele/ela” e da palavra neutra “hen” ambas eliminaram o viés racial. Isso significa que as fotos dos homens e das mulheres receberam, aproximadamente, 50% de votos cada.

No Estudo 2, 411 participantes estadunidenses (145 mulheres, 252 homens, 5 mulheres trans, 4 homens trans, 3 com identidades de gênero não-binárias, e 2 que não indicaram o gênero) participaram da pesquisa. Houveram duas diferenças do primeiro para o segundo experimento: as palavras utilizadas para denotar o/a candidato/a e um questionário para ver o quão familiar era a palavra “ze”. Na estratégia de feminização, foi utilizado o par ele/ela (he/she). Na estratégia de neutralização 1, foram utilizadas as palavras “the applicant” (candidato/a) e o “they” no singular[2]. Na segunda estratégia de neutralização, “hen” foi substituído pela palavra “ze”, uma palavra criada recentemente para denotar gênero-neutro no contexto dos Estados Unidos.

Novamente, os resultados mostraram que o uso das palavras “the applicant” e “they” no singular geraram um viés masculino. Ou seja, foi necessário usar o par ele/ela (he/she) ou a palavra “ze” para eliminar esse viés. Não houve diferença nos resultados dos/das participantes que não eram familiares com ze, em comparação com os/as que eram. Esse resultado faz sentido, uma vez que o entendimento de novas palavras se dá pelo contexto.

Esses resultados são importantes, principalmente para quem advoga a favor da criação de novas palavras que denotem gênero neutro, uma vez que mostram que palavras já existentes na literatura, embora supostamente consideradas neutras, podem ser entendidas como masculinas. Esse é, inclusive, um dos argumentos de quem é contra a criação de novas palavras de gênero neutro: afirmar que já existem palavras que expressam neutralidade de gênero. O uso do par ele/ela, embora não tenha gerado um viés masculino, ainda dicotomiza os gêneros em dois, sendo, portanto, não inclusivo aos indivíduos não-binários.

Apesar de parecer apenas um detalhe na linguagem, sem implicações práticas na vida das pessoas, as experimentadoras apontam pesquisas indicando que o uso da linguagem pode aumentar a probabilidade de mulheres se candidatarem a certos empregos, sem contar os efeitos psicológicos da negação da identidade de gênero no caso de indivíduos trans. Nesse sentido, essa é uma linha de pesquisa importante do ponto de vista científico e social, especialmente quando se leva em consideração a luta contra a desigualdade de gênero e a inclusão de indivíduos não-binários.

Quer saber mais?

Lindqvist, A., Renström, E. A., & Sendén, M. G. (2018). Reducing a male bias in language? Establishing the efficiency of three different gender-fair language strategies. Sex Roles. Online First Publication. doi: 10.1007/s11199-018-0974-9)

[1] Não-binário é um termo utilizado para descrever indivíduos cuja identidade de gênero não se conforma na dicotomia masculino-feminino.

[2] Uma das estratégias utilizadas pelo movimento LGBT é utilizar a palavra “they”, já existente no vocabulário, embora tradicionalmente para se referir a eles e elas, para identificar indivíduos não-binários ou trans. Nesse caso, é utilizado o “they” no singular (he/she/it/they is).

Anúncios
0

Vamos falar de todos os campos?

Recentemente, a situação da população LGBT na Chechênia chamou a atenção mundial. A mídia noticiou que estavam sendo mantidos em “campos de concentração”, com casos de tortura e morte denunciados (1), e muita comoção pública, como não poderia deixar de ser.

Agora, com certo distanciamento temporal e geográfico, gostaria apenas de questionar: por que não falamos de campos ocidentais onde essa população está submetida a maus tratos?

Os campos de conversão dos EUA

Há anos, filmes e séries nos Estados Unidos denunciam as severas condições impostas a LGBTs nos “campos de conversão” que se espalham naquele país.

Pesquisas recentes, no entanto, tem desafiado a pretensa “eficácia” desses lugares em mudar a orientação sexual de seres humanos, com destaque para o texto de Andrew Vierra (Georgia State University) e Brian Earp (Oxford University) de 2015 (na íntegra, em Inglês).

O texto em referência aborda as “tecnologias de conversão” para a heteronorma de aspectos da sexualidade, nas quais estão incluídos os chamados “campos de conversão” dos EUA e pesquisas hormonais para redução da libido.

Embora admitindo a falibilidade geral das modernas tecnologias de conversão nesse sentido, o texto lança mão da hipótese futurista de seu eventual sucesso e traz à baila três questões importantes para o debate.

A primeira é a corajosa noção da mutabilidade dos aspectos biológicos por meio da intervenção tecnológica. Afirmar isso significa clareza do dano potencial para os direitos das pessoas LGBT, cuja defesa atualmente se baseia na crença de que essas características são imutáveis:

Todavia, se as biotecnologias do futuro permitirem que as pessoas mudem suas orientações sexuais, o movimento dos direitos LGBT perderia um de seus argumentos centrais. Portanto, pensamos que são necessários argumentos melhores – e que não dependam do estado atual da tecnologia.” (2)

A segunda consiste na observação da mutabilidade da fé religiosa: “Você pode mudar a sua fé.” (3) Algo interessante, dado que a liberdade de crença é garantida em muitos países, e sobretudo nos EUA, a despeito das constantes “conversões” entre seus adeptos.

Enfim, a terceira advém da analogia entre o direito à liberdade religiosa e os direitos sexuais dessas pessoas, e consiste na conclusão de que todos os comportamentos humanos que não façam mal a outrem devam ser protegidos, uma noção basilar dos direitos humanos. Nas palavras dos autores citados:

No entanto, a crença religiosa está coberta por leis de direitos civis e estatutos anti-discriminação… A única vez que você ouve que um traço tem de ser imutável para se qualificar para as proteções de direitos civis é quando [os conservadores] falam sobre [ser] gay.” (4)

Considerações Finais

Para concluir, assim como os autores chegaram à conclusão da necessidade de uma proteção a todos os direitos por analogia entre dois grupos (religiosos e minorias sexuais), esse artigo propõe a necessidade de se refletir por analogia sobre as violações que ocorrem em todos os “campos” ou espaços para a “mudança” de pessoas LGBT, visem ou não seu aniquilamento direto ou indireto.

Assim, enquanto há estardalhaço na mídia dita ocidental em torno dos casos no Leste europeu, pouco se tem cogitado traçar um paralelo com os campos estadunidenses. Decerto, há diferenças. Na Chechênia, essa política parece ser eminentemente estatal. Nos EUA, uma breve análise de discurso demonstra que esta seria, atualmente, uma política de governo ligada ao seu vice-presidente (5) e diametralmente oposta à postura da gestão anterior (6). Seriam essas diferenças, porém, bastantes para aplicar a uns a nomenclatura da Segunda Guerra Mundial, e a outros apenas um eufemismo de fundo religioso?

Em vez de respostas, portanto, restam perguntas. Na presente ausência de dados sobre as reais condições dos campos onde são segregados os “indesejados” da modernidade, como os não-cisheteros e os drogaditos (estes últimos, temas para outro artigo), cautela é central.

Notas:

(1) www.huffpostbrasil.com/entry/chechnya-gay-concentration-camps_us_58ece3d2e4b0ca64d9194e28

(2) No original: “Yet if biotechnologies of the future do allow people to change their sexual orientations, then the gay rights movement would lose one of its central arguments. So we think that better arguments are needed – and ones that are not dependent on the current state of technology.” Trad. livre.

(3) No original: “You can change your faith.” Trad. livre.

(4) “And yet religious belief is covered by civil rights laws and anti-discrimination statutes…. The only time you hear that a trait has to be immutable in order to qualify for civil rights protections is when [conservatives] talk about [being] gay.” Trad. livre.

(5) “(…) [Donald Trump’s] vice president has actually worked to jail homosexuals for applying for a marriage license. Actually worked to redirect HIV treatment funding to Pray-The-Gay-Away™ conversion therapy.” In: https://medium.com/@tuckerfitzgerald/intolerant-liberals-4ecd712ac939

(6) “President Barack Obama called for a nationwide ban on psychotherapy aimed at changing sexual orientation or gender identity.” (VIERRA & EARP, 2015).

Referência:

VIERRA, Andrew; EARP, Brian D. Born this way? How high-tech conversion therapy could undermine gay rights. IN: https://www.researchgate.net/publication/275275148_Born_this_way_How_high-tech_conversion_therapy_could_undermine_gay_rights [May 23, 2017].