0

Contra o mito da quantidade: produção intelectual feminina no dicionário ilustrado “Imprensa feminina e feminista no Brasil: século XIX”.

            Apesar de não ser alguém lá muito fluente em números, decidi, há pouco tempo, aventurar-me por um exercício quantitativo. Reuni todos os livros, fotocópias e arquivos digitais que utilizei ao longo do curso de graduação em Direito na Universidade Estadual de Maringá ainda guardados nas prateleiras das minhas estantes físicas e digitais. No total, contei algo como 40 livros, 1.300 páginas fotocopiadas e 45 arquivos .pdf. Separei, dentre esse material, tudo aquilo que de alguma forma foi produzido por mulheres: autorias, co-autorias, edições, organizações e traduções entraram na conta. Ainda que eu certamente não tenha chegado perto de consultar todos os textos que deram suporte à minha formação ou a de qualquer outro estudante que passou pela Faculdade de Direito ao longo daqueles cinco anos, os resultados desse pequeno experimento — limitados, é claro, à simplicidade do método que os produziu — foram bastante sugestivos. Isso porque a esmagadora maioria dos livros e textos que consegui agrupar foram escritos, editados ou traduzidos exclusivamente por…homens. Apenas 17% deles traziam nomes de mulheres em seus cabeçalhos, o que sugere que boa parte da bibliografia preferida por meus professores e professoras, ou tida como referência para o estudo de uma determinada área do direito de uma forma mais geral, é masculina.

          Imagino que esses números devem variar muito conforme o período, o país, o curso, a universidade, as bibliotecas à disposição e o perfil dos professores e professoras que formulam e implementam os planos de ensino. A questão é que a conclusão de fundo desse exercício pessoal — a sub-representação do conhecimento produzido por mulheres — vem sendo repetidamente sugerida por diversos estudos[1]. Seja nas “ciências duras”, “biológicas”, nas “humanidades”, ou, sob uma ótica menos acadêmica, na literatura, no jornalismo ou na política, não é necessário muito esforço para perceber que a produção intelectual feminina, apesar de crescentes iniciativas em contrário, foi, e continua sendo, marginalizada. E isso não se deve à ausência ou ao baixo volume de escritos, que costuma ser o principal argumento por trás do mito de que “não há mulheres” em uma determinada área do conhecimento. O problema, como bem sabemos, é outro.

           O dicionário ilustrado “Imprensa feminina e feminista no Brasil: século XIX”, lançado ano passado pela editora Autêntica, é mais um recurso que ajuda a reforçar a tese de que quantidade não é o problema quando se trata de produção intelectual feminina no Brasil. Organizado por Constância Lima Duarte, ele reúne mais de 140 jornais redigidos por mulheres e/ou direcionados ao “público feminino” no Brasil entre os anos de 1827 e 1885. No livro, cada uma dessas publicações é objeto de um verbete, em que podemos encontrar o título, o período de circulação, a identidade visual e algumas informações sobre o contexto de surgimento e o escopo do periódico.

 

1330-20160229135146

Fonte: site Editora Autêntica

 

           Embora formatado para consultas rápidas e pontuais, o dicionário segue uma tradição de revisionismo histórico da produção intelectual feminina, inaugurada, no Brasil, por autoras como Dulcília Buitoni (Imprensa Feminina e A mulher de Papel – este, aliás já indicado aqui no Cientistas Feministas) e June E. Hahner (A mulher no Brasil e A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850-1937) no início da década de 80. Sob disciplinas e orientações teóricas distintas, essas e outras pesquisadoras[2] buscaram — e encontraram — fontes primárias que atestaram a participação feminina na história do periodismo brasileiro, tema que até então vinha sendo preterido pela historiografia nacional. Em suas pesquisas, elas apresentaram tanto documentos que fixaram representações e ditames conservadores sobre os papéis que a mulher deveria ocupar na “sociedade moderna”, quanto registros da resistência feminina à imposição desses padrões. Verbete a verbete, é a essa história — a da formação, aglutinação, divulgação e das resistências que marcaram o surgimento de uma produção intelectual feminina no Brasil — que somos apresentados ao longo do dicionário.

           Sobretudo na primeira metade do século XIX, uma boa parte dos periódicos reunidos no livro aparece nitidamente alinhada à simbologia patriarcal dominante no período: eram folhas ou folhetins editados por homens, que desejavam oferecer “instrução e entretenimento para as mulheres de nossa côrte (sic)”. Falavam de moda, família, lar e, em alguns casos menos recorrentes, de educação feminina (inspirada pela chamada “querelle des femmes” francesa, também já tratada aqui no blog). A própria escolha do título já dava indícios de como as mulheres vinham por eles representadas: nomes de flores (A Violeta, O Jasmin, A Camelia), pequenas aves e insetos (O Beija-flor, A Borboleta) e objetos associados à feminilidade (O Brinco das Damas, A Grinalda, O Leque) predominavam. Como diz Constância Duarte, eram publicações que se posicionavam “acima das mulheres e como guias responsáveis pela mudança de seu status quo” (p.21).

           Mas o que chama atenção são exatamente as exceções a essa regra — ou seja, os periódicos integralmente redigidos por mulheres, ou cujos redatores e colunistas de maior destaque eram mulheres –, que começaram a se multiplicar a partir de 1870. Esse é o caso do Echo das damas (1879-88), do Republica das Moças (1879) e d’O Corymbo (1884-1944). Chefiados por mulheres, os três periódicos, além de “entreter e informar”, funcionavam como veículo de advocacia pela inserção política e social feminina. Ladeando anúncios de espetáculos teatrais e dicas de moda e beleza, artigos de opinião sobre direito e política ganhavam espaço e projeção cada vez maiores. Se para apoiar ou criticar a república, combater ou justificar a escravidão, endossar ou rechaçar o direito ao voto feminino, a organizadora sugere que as iniciativas encabeçadas por essas mulheres contribuíram para aproximar possibilidades até então muito remotas: “o protagonismo feminino adentra as redações e toma para si a direção política e ideológica de muitas das folhas destinadas às mulheres. De leitoras a redatoras, abrem espaço às vozes femininas antes reclusas às alcovas, e empreendem a transformação hoje perceptível no perfil dessa imprensa: de ‘revistas de moda’ a órgãos de reflexão” (p. 26).

           Além desses exemplos, pelo menos outras 50 publicações citadas no dicionário poderiam ser classificadas sob o mesmo perfil. Folhas e folhetins imaginados por médicas, jornalistas, poetisas e professoras, que expressavam as concepções de um grupo que, embora longe de representar “As Mulheres” daquele período, deu voz e agência a pessoas que costumavam ser excluídas das arenas sociais. Uns mais politizados que outros, mais ou menos alinhados ao que se começava a reconhecer como “feminismo”, esses jornais convergem, portanto, para o desmantelamento do mito da quantidade no Brasil do século XIX; havia, sim, um volume considerável de produção intelectual feminina naquela época.

           Com essa afirmação, é possível retornar à incursão pela bibliografia indicada durante minha passagem pela Faculdade de Direito. Talvez o método que utilizei para constatar o quão masculinas, ou o quão não-femininas, costumam ser as referências bibliográficas nessas circunstâncias, não tenha sido o mais adequado. Ao invés de ressaltar a disparidade entre a presença de homens e mulheres, melhor teria sido proceder como Constância Lima Duarte e tantas outras pesquisadoras engajadas na organização, análise e divulgação do pensamento feminino: levantar o volume de escritos femininos por área e sub-área[3], para então confrontá-lo com a quantidade de indicações e referências. Quem sabe, assim nesses termos, o argumento de que “não há mulheres na área” soasse ainda mais paradoxal do que já parece ser.

[1] Para alguns exemplos, ver: http://www.jstor.org/stable/3096963?seq=1#page_scan_tab_contents; https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2303311;

[2] Maria Thereza Caiuby Crescenti Bernardes (Mulheres de ontem? Rio de Janeiro — Século XIX) e Elizabete Siqueira (Um discurso feminino possível: pioneiras da imprensa em Pernambuco) também são importantes nomes desse movimento.

[3] A plataforma “Mulheres também sabem” tem desenvolvido projeto nesse sentido para a área de humanidades: https://www.mulherestambemsabem.com/

Referências

BERNARDES, Maria Thereza C. C. Mulheres de ontem? Rio de Janeiro — século XIX. São Paulo: T.A. Queiroz, 1989.

BUITONI, Dulcilia H. S. Mulher de papel: a representação da mulher pela imprensa feminina brasileira. São Paulo: Summus, 2009.

__________. Imprensa feminina. São Paulo: Ática, 1986.

DUARTE, Constância Lima. Imprensa feminina e feminista no Brasil — século XIX. São Paulo: Autêntica, 2016.

HAHNER, June E. A mulher no Brasil. São Paulo: Civilização Brasileira, 1978.

__________. A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850 – 1937. São Paulo: Brasiliense, 1981.

SIQUEIRA, Elizabete. Um discurso feminino possível: pioneiras da imprensa em Pernambuco. Recife: Editoria Universitária UFPE, 1995.