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As re-descobertas da ciência

Na academia acredita-se que a diversidade acelera o desenvolvimento científico. Isso porque, por mais que um dos pilares da ciência seja objetividade, cientistas são humanos e, portanto, é de se esperar que as experiências de vida e pontos de vista (subjetivo) tenham poder de influenciar quais serão as questões que despertarão curiosidade. Além disso, as experiências de vida e pontos de vista também direcionam como as questões científicas serão respondidas.

Ainda não estamos no mundo perfeito e uma longa estrada a caminho da igualdade ainda deve ser percorrida, mas, nós mulheres estamos conquistando nosso espaço e aumentando nossa representatividade no ambiente acadêmico (e em tantos outros espaços).

Portanto, não é de se espantar que a comunidade científica venha manifestando interesse por objetos de estudo que sempre estiveram ao redor, mas não eram o enfoque de estudos, como por exemplo o corpo feminino. Contudo, para além de novas perguntas, a inserção da mulher na sociedade também permite releituras de hipóteses até então bem aceitas.

Aqui vamos falar de apenas três exemplos de releituras de hipóteses: Sheela-na-gigs, Pinturas rupestres e Vikings.

Sheela-na-gigs

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Imagem e autorização: Commons-wikimídia

 

Sheela-na-gigs são esculturas femininas encontradas na Espanha, Inglaterra e Irlanda, datando do século 11 no primeiro país e 12 nos dois últimos que possuem uma vulva larga que está sendo aberta pelas mãos da própria dona da vulva. Os primeiros relatos sobre elas datam do século 19, e as descreviam como grotescas, feias e aterrorizantes.

A visão moderna do falogocêntrico apresenta diversas explicações possíveis, mas que recaem sobre duas grandes vertentes: ou são representações de fertilidade e maternidade, ou de perigo e aviso. Entre as hipóteses encontram se: 1) estas esculturas poderiam ser feitas e dispostas para lembrar a população do “olho que tudo vê” sendo uma forma de ameaça e controle comportamental da população; 2) relacionam a exposição do útero como um retorno a casa; 3) representações do cotidiano tendo relação com o parto; 4) uma entidade sobre o engano, sobre o poder de atração para algo perigoso e sombrio: “a vagina dentata”, sendo um aviso contra a luxúria sexual.

Contudo, Margaret Murray, uma antropóloga, anglo-indiana, arqueóloga, historiadora, folclorista, egiptologista e mulher (1863-1963) tinha outra interpretação. Ela dizia que as sheela-na-gigs celebravam o amor lesbiano e o autoconhecimento através da masturbação e assim, representam de forma positiva a sexualidade feminina.

Veja, uma mulher traz para o mundo da ciência uma forma alternativa de ver a imagem da mulher e da sua sexualidade, desvinculando a mulher de ambos os papéis usualmente empregados para elas: de reprodução unicamente (sem poder, escolha, independência e prazer) ou de internúncio do mal.

Recentemente Rachel Shanahan, também rebate as comuns interpretações, na sua tese de doutorado. Rachel defende que se as sheela-na-gigs fossem representações pagãs sobre fertilidade, esperaria-se que, como encontrada em outras representações de fertilidade e maternidade, tivesse grandes bustos, e formato mais arredondado do corpo. Contudo, as sheela-na-gigs são magras e sem peitos. Ela também questiona a interpretação de que estas esculturas seriam mensageiras de conduta comportamental, ao discutir que são encontradas em castelos, e que espera-se que imagens de aprendizado e conduta fossem dispostas em igrejas.

Ela também argumenta que as sheela-na-gigs nos trazem uma pequena noção de como a sexualidade da mulher era tratada (e eu incluo “como ainda é”) por algumas culturas: ora interpretada como sorte – por uma sociedade que lhe concedia poder e controle sobre os seres; ora interpretada como praga – por uma sociedade que condena os desejos femininos e amaldiçoava quem ousasse saciá-los. Seja como for, a sexualidade feminina jamais foi interpretada como natural, sendo necessário, sempre, justificar sua existência e suas implicações, boas ou ruins.

Pinturas Rupestres

Screen Shot 2017-10-09 at 07.38.14.pngPinturas rupestres são desenhos feitos por nossos ancestrais que ainda hoje se encontram preservados. Tradicionalmente acredita-se que os homens foram os responsáveis por estes desenhos. Mas qual evidência sugeriria que estas pinturas fossem realmente feitas por machos?

Uma pesquisa recente mostra que ao contrário do imaginado até o momento, mulheres também são responsáveis por pinturas rupestres. Na realidade, são responsáveis pela maioria de uma categoria específica que são impressões das próprias mãos. Este relato abre portas para o debate da importância das mulheres nas demais formas de pinturas rupestres feitas por nossos ancestrais.

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Santa Cruz – Cueva de las Manos – Perito Moreno, Argentina, fonte e permissão: Creative Commons

 

Dean Snow, da universidade da Pensilvânia, analisou as impressões de mãos existentes em 8 cavernas da França e da Espanha e ao comparar o comprimento dos dedos, determinou que 75% das amostras pertencem a mulheres. Mulheres tendem a ter o comprimento dos dedos indicador e anelar parecido entre si enquanto homens possuem o anelar maior que o indicador.

Porque essas mulheres estariam deixando as marcas das mãos delas nas cavernas? Seriam as responsáveis por outros desenhos também? Seriam elas as xamãs do grupo? Seriam representações da subjetividade? Estariam as artes relacionadas ao sexo? Ou talvez a hierarquia ou papel social dentro do grupo? Muito ainda falta ser respondido, mas é essencial entender a importância da inserção das mulheres no mercado, na sociedade como parte ativa desta, porque até hoje a única hipótese alternativa à supremacia masculina foi proposta por Dale Guthrie. Dale argumentava que os desenhos eram feitos por meninos, isso meninOs. A mulher estar presente, não apenas permite que ela traga o seu ponto de vista à ciência, mas que traga visibilidade para o papel social de todas, catalisando inclusive que os próprios homens cientistas possam também começam a enxergar hipóteses alternativas que envolvam mulheres.

Vikings e vikingxs

Em 1880, foi descoberto um túmulo viking. Junto dos restos mortais humanos também foram encontrados:  machado, lança, espada, arco, flechas pesadas e jogos de estratégia. Além disso, também foi encontrada ossadas de animais como cavalos, égua, garanhão. Estas peças indicavam que a pessoa enterrada ali era um guerreiro, de alto escalão e um estrategista, o que significa alguém responsável por decisões de guerra. Em 1880 parecia muito óbvio que apenas um homem poderia ter tido esse papel social. Ou seja, para determinação do papel social do indivíduo foram usadas evidências, já para a determinação do sexo, experiência de vida, ponto de vista. Em 1970, quando já havia tecnologia suficiente para reconhecer se estes restos mortais pertenciam a um homem ou a uma mulher, contudo, ainda parecia muito óbvio que estes restos mortais só poderiam pertencem a um homem. Então, mesmo com a tecnologia em mão, nenhum pesquisador foi atrás de evidências e aqueles restos mortais continuaram sendo ligados ao sexo masculino.

Em 2017, Charlotte Hedenstierna-Jonson e sua equipe questionaram, depois de mais de cem anos, que o sexo daquela ossada não era tão óbvio assim e analisaram o DNA dos restos mortais. Para grande surpresa na comunidade, os restos mortais pertencem ao sexo feminino. Uma mulher, viking, guerreira, estrategista. Uma mulher.

E então?

Estes trabalhos tem uma grande importância, porque ressaltam o quanto conclusões científicas podem ter grande influência da cultura na qual o cientista encontra-se inserido. Por muito tempo, a academia foi composta por homens brancos ocidentais de classe média-alta. Cultura é o que define os papéis de gênero, e a cultura da qual fazemos parte, o faz de forma bastante restrita.

Podemos dizer que as interpretações científicas, como as mostradas aqui tem uma grande influência das construções sociais. Portanto, diversidade sim, é importante na ciência porque ao assumir e justificar o comportamento a ciência pode perigosamente reforçar estereótipos.   

A ciência está inserida na sociedade e é, portanto, contextualizado em um cenário político-histórico. Aceitar este fato não desclassifica a ciência, mas empodera a sociedade.

PARA SABER MAIS

Link para mapas de mapas de localidade das Shellas-na-gigs: http://www.sheelanagig.org/wordpress/map/

Shanahan R.L. Grotesque Sheela-na-gigs? A feminist reclaiming of borders in “The spirit of woman”  Dissertação de mestrado na Universidade de Colorado en Denver. 2015.

https://www.researchgate.net/publication/273042625_Sexual_Dimorphism_in_European_Upper_Paleolithic_Cave_Art

 

 

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Origem da vida e os desentendimentos entre Ciência e Religião

Você provavelmente já se perguntou várias vezes como a vida começou. Esse é um questionamento que muitas pessoas possuem e causa um grande debate entre ciência e religião.

Ciência e religião utilizam abordagens distintas para explicar a realidade. Para nós, cientistas, a forma como tentamos entender o mundo natural é aplicando o método científico. Isso quer dizer que, a partir de experimentação e observação dos eventos naturais ao longo dos anos, nós formulamos hipóteses que podem ser confirmadas ou refutadas.

Sabemos que o Homo sapiens é uma espécie bem curiosa e essa curiosidade nos ajudou a sobreviver ao longo dos anos, pois modificamos o nosso entorno como nenhuma outra espécie, utilizando a nossa capacidade de observação do ambiente e da experimentação. Com o passar do tempo, melhoramos o nosso entendimento sobre o mundo natural e aperfeiçoamos as formas de transmitir esse conhecimento entre as gerações. Assim, nós sobrevivemos e nos multiplicamos. E como multiplicamos! Somos 7,5 bilhões e continuamos contando. Por conseguinte, com a formação das diversas sociedades em diferentes locais do planeta Terra, utilizamos a nossa observação e imaginação para responder as nossas curiosidades e dúvidas mais basais, como: qual é a nossa origem? Qual é a origem da vida?

Penso que a ideia por trás dessas perguntas talvez esteja associada ao fato de que, sabendo a origem, talvez encontremos um motivo para a nossa existência. Assim, centenas de religiões e crenças oferecem as respostas para esses anseios da nossa espécie. Seguindo essa lógica, nós sempre praticamos ciência. Nós sobrevivemos por conta da ciência e, ao mesmo tempo, utilizamos a nossa abstração do mundo natural para criar religiões e, em muitas delas, obter o conforto para as nossas perguntas. Porém, a ciência aplicada à sobrevivência – como práticas agrícolas, contar o tempo, cozinhar os alimentos e explorar o mundo natural – sempre foi permitida. Mas à medida que a nossa curiosidade foi aumentando e o caminho da ciência começou a cruzar com o da religião historicamente estabelecida, as coisas mudaram de configuração.

Com o passar dos anos, religião e moral se tornaram um bloco único e passaram a atuar como organizadores sociais. Assim, a expansão do conhecimento científico se tornou algo considerado perigoso, pois as respostas que a experimentação científica nos trouxe começaram a ameaçar interesses religiosos e, com isso, abalaram também os fundamentos de uma ordem social, majoritariamente religiosa. Por outro lado, como o progresso científico sempre trouxe mais conforto para o ser humano, a ciência também era vista como algo bom, desde que estivesse aprisionada em uma caixinha de só prover produtos. As outras áreas do conhecimento como o campo social, político e moral sempre foram reservadas, e continuam sendo nos dias atuais, obrigatoriamente à religião.

Por outro lado nós, cientistas, enfrentamos os bloqueios ao longo dos séculos para expandir o nosso conhecimento sobre o mundo. Com isso, mais cedo ou mais tarde, chegamos nas fronteiras da nossa caixinha científica, sendo que, agora, temos respostas para muitas dúvidas que antes eram atribuídas a uma criação divina. Para começar a citar essas descobertas, é impossível não lembrar de Darwin que presenteou a humanidade com o livro “A origem das espécies”. Nos dias de hoje, até o representante de uma das maiores religiões mundiais (o papa) de alguma forma aceita a ideia da evolução. A outra novidade é que agora estamos muito próximos de outra descoberta: a explicação sobre a origem da vida. Os cientistas estão a cada ano mais empenhados em solucionar essa questão e possuem alguns experimentos que comprovam esses dados. Vamos lá!

Atualmente, os fósseis mais antigos conhecidos têm cerca de 3,5 bilhões de anos, 14 vezes a idade dos primeiros dinossauros [1]. Porém, em agosto de 2016, pesquisadores descobriram registros fósseis na Austrália de uma comunidade de microorganismos, chamados de estromatólitos [2], que datam 3,7 bilhões de anos. Outro estudo ainda mais recente, em março de 2017, mostra evidências de vida na Terra há aproximadamente 4,28 bilhões de anos. Lembrando que a Terra em si não é muito mais antiga: os cálculos mais aceitos revelam que o nosso planeta foi formado há 4,5 bilhões de anos, isso quer dizer que a vida na Terra teve origem muito cedo.

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Estromatólitos (Fonte: Nutman e colaboradores, Nature).

As descobertas não param por aí. A curiosidade científica nos fez olhar para o mundo através de lentes de aumento, e com a criação do primeiro microscópio no século XVII nós descobrimos algo fantástico: as células! Não demorou muito para a gente entender que todos os seres vivos eram formados por células (nota 1). Além disso, diversos organismos que vivem nos mais diferentes lugares do planeta possuem apenas uma única célula, como por exemplo as bactérias. Ao observar a atual árvore da vida, podemos notar que quase todos os ramos principais são compostos por esses seres unicelulares.

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Árvore da vida (Fonte: Hug, Banfield e colaboradores, Nature Microbiology).

Enxergar essas unidades celulares nos fez pensar sobre como as células podem ter se formado e o que existe dentro de uma única célula. O desenvolvimento de tecnologia nos permitiu identificar que as células possuem internamente diferentes organelas, que são majoritariamente estruturas formadas por proteínas, e estas, utilizando uma explicação bem básica, são resultado de ligações entre diferentes elementos químicos.

Assim, após esta descoberta, a saga para entender como os elementos químicos presentes na Terra inicialmente se transformaram em compostos orgânicos começou! A primeira hipótese, que é muito conhecida, fala sobre uma sopa primordial de elementos químicos. Essa proposta é proveniente da junção de ideias de dois cientistas, o soviético Alexander Oparin e o biólogo inglês John B.S. Haldane. A ideia de Oparin-Haldane basicamente é que os oceanos primitivos eram como uma sopa quente, que possibilitaria a combinação de diferentes compostos químicos e assim, espontaneamente, o aparecimento dos primeiros organismos vivos [3]. A vida então não precisaria de nada divino para ser explicada.

Essa hipótese era instigante e foi até mesmo encontrada em uma correspondência de Darwin anos antes de ser pensada por Oparin e Haldane, na qual ele dizia:

“Mas, se (Oh, mas que grande “se”) pudéssemos conceber em algum lago pequeno e quente com todos os tipos de amônia e sais fosfóricos com a presença de luz, calor, eletricidade assim um composto protéico foi quimicamente formado, pronto para passar por mudanças mais complexas…”

Porém, o problema para todos esses questionamentos era conseguir realizar um experimento para testar essa hipótese. Nesse momento, surgem outros dois cientistas nesta história, Harold Urey e Stanley Miller. Urey, ganhador de um prêmio Nobel, explicou em uma palestra que a atmosfera inicial era praticamente desprovida de oxigênio, e que isso seria o suporte para a teoria da sopa primordial. Miller, que estava na plateia, propôs para o professor testar essa ideia, e assim o fez em 1952. Ele conectou por meio de frascos de vidro quatro produtos químicos (água fervente, gás hidrogênio, amônia e metano) e submeteu esses gases à choques elétricos, para simular relâmpagos.

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Experimento de Miller e Urey (Fonte: Francis Leroy, Biocosmos/Science Photo Library).

Miller descreveu que após o primeiro dia a água estava um pouco rosa e no final da semana turva e avermelhada. Ao analisar seu conteúdo, ele encontrou dois aminoácidos formados: glicina e alanina. E olha que incrível, as proteínas, que são basicamente a constituição dos seres vivos, são formadas por uma cadeia de nada mais, nada menos do que aminoácidos! Os resultados foram publicados na revista Science em 1953 [4].

Com o passar dos anos, outros cientistas começaram a encontrar maneiras de criar moléculas biológicas simples a partir de soluções químicas, e uma explicação para o mistério sobre a origem da vida parecia próxima. Porém, ao mesmo tempo ficou claro que a vida era mais complicada do que se pensava. Células vivas possuem um modo de funcionamento próprio, não são apenas uma bolha com produtos químicos dentro, e uma das características que as tornam especiais é a capacidade de se dividirem.

Contribuições para o entendimento dessa incrível maquinaria celular foram impulsionadas com o descobrimento do DNA em 1953 [5]. Na verdade, proteínas são estruturas quimicamente complexas, e entender o processo de conversão de uma simples molécula de DNA em RNA, e esse RNA posteriormente em proteínas, trouxe várias outras ideias para explicar a origem da vida. Aqui no blog existem dois textos muito bons sobre esse assunto, o primeiro trata da descoberta do DNA e o outro sobre este processo de conversão.

O processo DNA-RNA-proteína ocorre em todas as células existentes. Assim, explicações sobre a origem da vida devem basicamente mostrar como essa “trindade biológica” começou a funcionar. Sobre esse tema, você deve estar pensando agora. “- Isso é muito complicado!” E, na verdade, é sim. Mas os cientistas olharam para o processo e pensaram que, talvez, se fosse possível encontrar um composto químico orgânico que conseguisse reproduzir-se por si mesmo, esse poderia ser a chave para o questionamento de como a vida surgiu. E assim surgiu a hipótese do “mundo de RNA”.

Esta hipótese foi proposta por Walter Gilbert em 1986 [6]. Ele sugeriu que moléculas de RNA poderiam realizar atividades catalíticas necessárias para se auto montar a partir de uma sopa de nucleotídeos. Ao cortar e colar diferentes pedaços, as moléculas de RNA poderiam criar sequências cada vez mais úteis, e isso tudo passaria por aperfeiçoamento até chegar a versão de vida que temos hoje. A ideia ganhou um suporte muito grande em 2000, quando outro cientista, Thomas Steitz, ao detalhar a imagem dos ribossomos, descobriu que o RNA era o centro do funcionamento desta organela [7]. Ribossomos são tão antigos e fundamentais para a formação da vida, que fez com que a hipótese do mundo de RNA parecesse possível. Porém, os problemas dessa hipótese são que, primeiro, até os dias atuais ainda não foi encontrado um RNA que pudesse se auto-replicar inteiramente. Segundo, será que a estrutura química do RNA poderia ser formada nas condições da Terra antigamente?

Assim, outro time de cientistas propôs uma nova teoria de que a vida tenha surgido como um mecanismo para aproveitar energia, ou melhor, ter um metabolismo. Afinal, ao observar o mundo natural a ordem dos acontecimentos é nascer, crescer e se reproduzir, assim, para alguns pesquisadores, a energia para crescer seria primordial e ainda mais importante do que a reprodução. Seguindo essa lógica, os cientistas buscaram por locais capazes de prover energia para a existência de uma célula e com composição química similar à que observamos nos organismos atualmente e, no fundo do Oceano Pacífico, pesquisadores liderados por Jack Corliss descobriram as fontes hidrotermais. A ideia é que essas fontes hidrotermais pudessem criar complexas misturas de produtos químicos e que cada abertura funcionasse como uma espécie de bomba de sopa primordial [8].

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Fontes hidrotermais e a formação de células (Fonte: Richard Bizley/Science Photo Library).

O fluxo de água, aliado ao calor e a pressão, faria com que compostos orgânicos simples, como os elementos presentes no ambiente, se tornassem mais complexos, como aminoácidos, nucleotídeos e açúcares, que posteriormente se ligariam em cadeias – formando carboidratos, proteínas e o próprio DNA. Então, a medida que a água perdesse calor, esses compostos teriam se juntado e formado as primeiras células simples. Aliando essa hipótese à outras descobertas de fontes hidrotermais alcalinas no oceano e, unindo com toda a tecnologia que temos atualmente, pesquisadores publicaram em 2016 [9] a ideia de um ancestral comum universal entre todos os organismos da Terra, denominado LUCA (Last Universal Common Ancestor), em português, último ancestral comum universal.

Para investigar essa possibilidade, os pesquisadores analisaram 1.930 microorganismos modernos e identificaram 355 genes comuns. A ideia é que provavelmente esses 355 genes foram transmitidos, de geração em geração, remetendo a um único antepassado comum. Porém, o problema para esta hipótese é reproduzir em laboratório essa possibilidade. E o mais legal, um grupo está atualmente trabalhando na construção de um reator para reproduzir as condições de um ambiente prebiótico onde a vida poderia ter surgido [10] e, com isso, talvez teremos novidades nos próximos anos.

Além desses trabalhos, um terceiro grupo de pesquisadores apostou na hipótese de um “mundo de lipídeos” [11]. A ideia é que para existir uma célula, precisa existir proteção, precisa existir uma membrana. Assim, unindo essa ideia com o “Mundo de RNA”, os pesquisadores criaram em laboratório as protocélulas [12]. Essas protocélulas podem manter seus genes internamente enquanto absorvem moléculas úteis de fora, e ainda crescer, se dividir, e até mesmo competirem entre si. O RNA pode se replicar dentro dessas estruturas e elas conseguem “sobreviver” a temperaturas de até 100 °C.

Por fim, os cientistas pararam de pensar em teorias separadas e juntaram todas as ideias em uma única. Ao constatar a constituição química das células atuais, como a presença de potássio e fosfato, e além disso metais, que são necessários para o funcionamento de várias enzimas, os pesquisadores encontraram um cenário ideal para o surgimento da vida. A ideia com todas essas pistas é que a vida surgiu em lagoas de superfície em uma área geotérmica-ativa, com abundância de radiação ultravioleta do Sol. As protocélulas nesse ambiente poderiam ficar em zonas mais frias na maior parte do tempo, mas seguindo o fluxo da água teriam também ciclos de aquecimento que poderia auxiliar no processo de replicação do RNA. Além disso, haveriam correntes, conduzidas por essa diferença de temperatura no lago que poderiam ajudar a dividir as protocélulas [13].

Agora, será muito trabalho em laboratório para tentar provar esta nova hipótese. Mas finalmente estamos mais perto do que nunca de descobrir a verdade sobre a nossa origem. Em 1859 Darwin revolucionou o mundo com a verdade sobre a origem das espécies, apresentando dados tão claros que podem ser comprovados diariamente. Você consegue imaginar como o mundo irá reagir quando a verdadeira história da origem da vida for contada?

Agora que entendemos todo esse cenário de descobertas, fica difícil acreditar que toda essa complexidade de relações possa ser explicada por um evento que durou apenas sete dias, como é apresentado por muitas perspectivas teológicas. Por isso, apesar da importância cultural que as religiões têm para o desenvolvimento da sociedade e da própria humanidade, precisamos ser bem cautelosos quando se trata de utilizar suas perspectivas, principalmente para a criação de políticas públicas envolvendo ciência, educação e saúde.

Podemos avançar muito mais em nosso conhecimento e chegar a conclusões inimagináveis atualmente, mas as descobertas científicas necessitam de uma sociedade que apoie a ciência e entenda as contradições existentes no que hoje é tido como senso comum da própria sociedade.

Notas:

  1. Deixarei fora dessa discussão todas as conceituações teóricas sobre os vírus serem ou não organismos vivos.

Bibliografia utilizada:

  1. Allwood, A.C., Walter, M.R., Burch, I.W., Kamber, B.S. 3.43 billion-year-old stromatolite reef from the Pilbara Craton of Western Australia: Ecosystem-scale insights to early life on Earth. Precambrian Research. 158, 3-4, p. 198-227, 2007.
  2. Nutman, A.P., Bennet, V.C., Friend, C.R., Van Kranendonk, M.J., Chivas, A.R. Rapid emergence of life shown by discovery of 3,700-million-year-old microbial structures. Nature. 537, p. 535-539, 2016.
  3. Oparin A.I. The origin of life. 29 p.
  4. Miller S.L. A Production of Amino Acids Under Possible Primitive Earth Conditions.  Science. 1953. 
  5. Watson J.D., Crick, F.H.C. Molecular Structure of Nucleic Acids: A Structure for Deoxyribose Nucleic Acid. Nature. 171, p. 737-738, 1953.  
  6. GIlbert. W. Origin of life: The RNA world. Nature. 319, 618, 1986.  
  7. Cech, T.R. The Ribosome is a Ribozyme. Science. 289, 5481, p. 878-879, 2000.
  8. Corliss, J.B., Dymond, J., Gordon, L.I., Edmond, J.M., Herzen, R.P., Ballard, R.D., Green, K., Williams, D., Bainbridge, A., Crane, K., Andel, T.H. Submarine Thermal Sprirngs on the Galápagos Rift. Science. 203, 4385, p. 1073-1083, 1979.
  9. Weiss, M.C., Sousa, F.L., Mrnjavac, N., Neukirchn, S., Roettger, M., Nelson-Sathi, S., Martin, W. The physiology and habitat of the last universal common ancestor. Nature Microbiology. 16116, 2016.
  10. Herschy, B., Whicher, A.,  Camprubi, E., Watson, C., Dartnell, L., Ward, J., Evans, J.R.G., Lane, N. An Origin-of-Life Reactor to Simulate Alkaline Hydrothermal Vents. Journal of Molecular Evolution. 79, 5-6, p. 213–227, 2014.
  11. Segré, D., Ben-Eli, D., Deamer, D.W., Lancet, D. The lipid World. Origins of life and evolution of the biosphere. 31, 1–2, p. 119–145, 2001.
  12. Hanczyc, M.M., Fujikawa, S.M., Szostak., J.W. Experimental Models of Primitive Cellular Compartments: Encapsulation, Growth, and Division. Science. 302, 5645, p. 618-622, 2003.
  13. BBC earth (Michael Marshall). The secret of how life on earth began. 2016.

 

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Sobre as mulheres na ciência e o “Caso Marie Curie”

Esta semana me deparei com um livro numa banquinha de obras usadas, durante o almoço. O título me chamou atenção e, sem pensar duas vezes, comprei o livro, que se chama “Sobre o ‘Caso Marie Curie’: a radioatividade e a subversão de gênero”. Apesar de não pretender fazer uma resenha do livro, vim compartilhar algumas reflexões que ele semeou em mim.

image O autor se propõe a analisar a história da ciência de um ponto de vista diferente daquele sempre dado ao casal Curie. Marie Curie foi uma cientista polonesa naturalizada na França e casada com o físico Pierre Curie. Estamos falando da Europa do final do século XIX, em que, como descreve Pugliese, a sociedade via as mulheres como diferentes e incomparáveis aos homens devido às tarefas que lhes cabiam – procriar, cuidar dos filhos e cuidar do lar. Essa visão chamada de “complementaridade sexual” não colocava as mulheres como inferiores aos homens, porém complementares, indispensáveis, mas também inadequadas para tudo que fosse racional, político, público – como a ciência. Vinda da Polônia num período em que era impensável uma mulher seguir carreira científica, Marie Sklodowska chegou à França e conseguiu ingressar na Sorbonne, uma das melhores universidades do mundo. Marie descreveu a possibilidade de estudar como sua liberdade, e apesar de conseguir ingressar no mundo acadêmico, este não era um ambiente feminino. Havia na época 23 alunas no curso de ciências, do total de 2 mil estudantes e era claro que as alunas eram apenas toleradas naquele ambiente.

11667505_1122727264408202_1528979320597938269_nIlustração de Marie Curie por Helô D’Ângelo

O livro descreve de forma belíssima todos os acontecimentos científicos que criaram a conjuntura que levou Marie a se dedicar ao estudo da radioatividade: a descoberta do raio X por Röntgen, os raios Becquerel que o urânio emitia e todas as discussões acaloradas da Academia de Ciências em torno do tema. Fica claro para o leitor que a Academia era um ambiente elitizado e masculino. Marie iniciou seus estudos com urânio quando o assunto já estava amornado, quando ele lhe pareceu um assunto promissor e menos competitivo que a buscar pela origem dos raios X. Contando com o apoio de seu marido, Pierre Curie, Marie conseguiu um local para realizar seus estudos e material para trabalhar. Com a conclusão de que poderia ter descoberto um novo elemento químico, coube a um amigo do casal ler as declarações de Marie na Academia de Ciências – já que não era possível uma mulher tomar a palavra para comunicar tal coisa. E por se tratar de uma conclusão proposta por uma mulher – que teve muita ousadia ao propor um novo elemento química ainda no início de sua carreira – os pares receberam a notícia com desdém. E infelizmente o trabalho de Marie Curie transformou-se no trabalho “dos Curie” quando seu marido decidiu ajudá-la a decifrar de onde provinha a energia de alguns compostos de urânio. Esse trabalho culminou na descoberta do rádio e do polônio pelo casal, que ganhou o Prêmio Nobel de Física em 1903 pela descoberta desses elementos radioativos. Marie defendeu sua tese “Pesquisa de substâncias radioativas” no mesmo ano, tornando-se a primeira mulher com doutoramento em ciências físicas. Mas o fato que poucos conhecem é que Marie não havia sido inicialmente indicada para receber o Prêmio Nobel: Pierre Curie e Henri Becquerel era os indicados como descobridores da radioatividade. É curioso notar que muito da repercussão acerca desse Prêmio Nobel foi a respeito de Marie ser mulher, e não a respeito da descoberta em si. Um jornal feminista da época Le Radical destacou que Marie, ao contrário do que se afirmava, não era auxiliar de seu marido, mas sim a descobridora da radioatividade, e que ela iria compartilhar a soma do Prêmio com seu marido por conta das normas do matrimônio. Agora vamos seguir para os acontecimentos de 1911, quando Marie novamente é indicada ao Prêmio Nobel de Química. Durante os anos entre a descoberta do rádio e o segundo Nobel, a vida dos Curie mudou radicalmente, pois se tornaram celebridades da ciência. O que Pugliese chama de “a radiopolítica” abriu portas para as mulheres entrarem na ciência, fazendo parecer “aceitável” ter Marie Curie como uma colega. Durante esse período é importante destacar que Pierre faleceu (1906) e Marie teve que seguir sua carreira sem o amparo do marido. E é neste ponto que vira-se a mesa: Marie passa a sofrer críticas constantes. Após uma viagem para comparecer à Conferência de Solvay em 1911, Marie recebe duas notícias: ela fora indicada novamente ao Nobel, desta vez de Química, “por produzir amostras suficientemente puras de polônio e rádio para estabelecer seus pesos atômicos, fato confirmado por outros cientistas, e pela proeza de produzir o rádio como um metal puro”. A outra notícia é bem menos feliz que essa: manchetes de jornal na França diziam “uma história de amor: Madame Curie e o professor Langevin”. Afinal, por que uma mulher viúva iria a uma Conferência sozinha? Marie foi tratada como uma destruidora de lares, a esposa de Langevin abriu um processo de abandono contra o marido, e muitos outros percalços acompanharam Marie a partir deste ponto. É impressionante a postura que Marie manteve após o escândalo, declarando “Considero abominável toda a intrusão da imprensa em minha vida privada. (…) Não há nada em minhas ações que me obrigue a me sentir diminuída.(…)”. A comissão do Prêmio Nobel, que ainda seria entregue a ela naquele ano de 1911, mostrou preocupação a respeito da repercussão do romance, e a Academia Sueca redigiu uma carta para inibir a ida de Marie a Estocolmo para receber seu prêmio, à qual Marie respondeu “De fato, o prêmio foi concedido pela descoberta do rádio e do polônio. Acredito que não existe ligação alguma entre meu trabalho científico e minha vida particular.” Marie foi à Suécia e recebeu seu segundo Nobel pessoalmente em dezembro de 1911.

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Acredito que essa história de Marie Curie seja o final feliz que muitas mulheres na ciência não tiveram ao longo do último século. Muitas mulheres não têm ainda seus trabalhos reconhecidos e são associadas a colegas do sexo masculino em suas pesquisas. Os tempos mudaram, mas a ciência ainda pode se mostrar um ambiente masculino e hostil às mulheres. A pergunta que fica, após essa linda história de uma cientista mulher vitoriosa, é: a Academia de Ciências Sueca teria cogitado retirar a indicação a um Nobel se o indicado envolvido num escândalo fosse um homem?