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O laboratório e o dia-a-dia: O que é o método científico e por que ele é o maior inimigo das fake news?

Na ciência, busca-se o tempo todo correlacionar fenômenos com suas causas e consequências, a fim de se compreender como o mundo funciona. Contudo, os tipos de correlação e as dificuldades experimentais que cientistas precisam enfrentar variam de área para área, e evoluem conforme o campo de estudo amadurece.

Por exemplo, se queremos estudar um fenômeno físico, como a relação matemática entre a temperatura e a dilatação de uma barra de metal (o quanto ela varia em comprimento quando aquecido ou resfriado), precisamos realizar uma série de medições de temperatura e do comprimento do objeto, além de levar em conta diferentes tipos de materiais (cada material possui um coeficiente de dilatação diferente, ou seja, diferentes materiais vão dilatar mais ou menos quando sujeitos à mesma variação de temperatura).

Neste caso, chamamos a dilatação do objeto de variável dependente (aquela que depende de outras variáveis que estamos estudando), e a variação de temperatura, o comprimento inicial e o coeficiente de dilatação de variáveis independentes (que são aquelas que estamos controlando a fim de estudar a dilatação). Neste caso termodinâmico, é relativamente simples inferir quais as variáveis dependente e independentes, mas às vezes estas relações não são óbvias a uma primeira vista.

Além disso, estas medições sozinhas não nos fornecem as causas materiais da dilatação, ou seja, as estruturas por trás da mudança de tamanho provocada por alteração da temperatura, mas podem nos fornecer padrões o suficiente para estabelecermos relações matemáticas e podermos prever com boa confiabilidade o quanto determinado material vai dilatar em determinadas circunstâncias (o que culmina em diversas aplicações práticas em várias áreas do conhecimento, por exemplo na engenharia civil).

Quais variáveis têm influência sobre meu objeto de estudo? Créditos: Rebeca Bayeh.

No entanto, ao longo da história da ciência, vários modelos de termodinâmica e de estrutura dos materiais já foram desenvolvidos de forma que seja possível, no caso deste fenômeno, não só prever com boa confiabilidade o comportamento dos materiais estudados em diferentes temperaturas, mas fornecer explicações para as causas do fenômeno da dilatação. Quanto mais suporte teórico e experimental uma teoria científica tem, maior sua credibilidade.

Essa credibilidade passa também pelo quanto determinada afirmação pode ser falseável. O conceito de falseabilidade foi introduzido pelo filósofo Karl Popper, e diz respeito ao quanto uma afirmação ou teoria permitem que sejam realizadas investigações que as refutem.

Por exemplo, no caso dos objetos que dilatam com o calor, alguém poderia observar em laboratório que toda barra de ferro dilata X quando é aquecida em dez graus Celcius. Poderíamos “falsear” essa afirmação fazendo experimentos que medissem a dilatação de diferentes barras de ferro com diferentes tamanhos iniciais e diferentes temperaturas iniciais, sempre variando dez graus.

Caso as barras, dentro de condições controladas de laboratório e utilizando-se estatística apropriada, se comportem de forma semelhante à da afirmação que estamos tentando falsear (o que não aconteceria aqui, pois já sabemos que a dilatação dependeria sim do comprimento inicial da barra), estaríamos fornecendo com isso mais embasamento para uma teoria. Caso contrário, e caso se verifique que não houve falhas sistemáticas na realização do experimento, estamos falseando a afirmação inicial. Quando isso acontece na ciência, surge debate e reflexão sobre quais as variáveis que podem não estar sendo levadas em conta, quais as possíveis falhas experimentais do experimento original (e dos experimentos dele derivados) e quais as causas do fenômeno estudado.

Quando o monge e botânico Gregor Mendel desenvolveu, no século XIX, seus princípios de hereditariedade, que seriam base para os estudos em Genética, ele desconhecia a existência de genes ou mesmo a existência do DNA, e portanto não pôde explicar as causas através das quais as cores das ervilhas que ele estudou dependiam das cores das plantas que foram cruzadas. Contudo, os padrões de hereditariedade verificados experimentalmente por ele em plantas são verificáveis e falseáveis, e seu trabalho serviu como base para o que viria a ser posteriormente a Genética moderna.

Muitas vezes, quando cientistas se depararam com padrões de fenômenos que podiam observar, mas cujas causas eram desconhecidas, foram atribuídos significados místicos e religiosos para estes fenômenos. Quando isso acontece, estamos saindo do campo da ciência. Por exemplo, se eu observo que qualquer barra de ferro dilata sempre proporcionalmente ao seu comprimento inicial e à sua variação de temperatura, eu posso fazer uma afirmação falseável acerca deste fenômeno (se alguém quiser testar minha afirmação, basta aquecer uma barra de ferro em um laboratório com condições controladas e verificar se a minha afirmação se sustenta). Contudo, se eu afirmar que a dilatação se dá por intervenção de um deus do calor que interveio em meu laboratório, esta afirmação não é falseável (não posso provar a existência do deus do calor nem sua presença no meu laboratório, e portanto não posso provar que esta foi a causa da dilatação da barra de ferro).

Além disso, o fato de eu não provar a não-existência do deus do calor não implica na existência do deus do calor. Cabe a quem fez a afirmação de que tal deus existia a comprovação do que está dizendo.

Analogamente, quando são compartilhadas notícias falsas (“fake news”) com afirmações mirabolantes nas redes sociais, cabe a quem fez as afirmações comprovar que o que está dizendo é verdade. O grande problema destes compartilhamentos é que as notícias costumam envolver um grande peso emocional e, muitas vezes, fazem com que os leitores sintam-se ameaçados por um oponente político que está supostamente prejudicando sua vida, sua família e seu senso de sagrado. É natural que fiquemos impressionados com ideias fortes e emotivas, mas cabe a nós verificar se as pessoas que as estão afirmando (e as que estão compartilhando, já que compartilhar é uma forma de re-afirmar) verificaram ou comprovaram tudo que estão alegando, ou se trata-se apenas de ideias fantasiosas que parecem ser verdadeiras apenas por possuir um vínculo com uma parte da realidade que já conhecemos ou porque elas intuitivamente fariam sentidos.

Muitas ideias científicas se iniciam de forma intuitiva, com um vínculo com a realidade já conhecida, como foi o caso das Leis de Mendel e de muitas outras, como a Teoria da Relatividade do Einstein. Mas as intuições isoladamente não constituem por si só o pensamento científico, e não cabe à ciência fornecer explicações para as causas de todos os fenômenos se estas causas não puderem ser estudadas de maneira criteriosa.

Trata-se de um trabalho colaborativo de longo prazo, que tem compromisso com a consistência, e não com a explicação de todas as verdades, e cujos paradigmas evoluem conforme a tecnologia se desenvolve e conforme são encontradas novas relações entre diferentes áreas dentro da ciência.

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Nettie Maria Stevens e a descoberta dos Cromossomos Sexuais

Nettie Maria Stevens nasceu em Cavendish, Vermont, cidadezinha de um dos menores estados dos Estados Unidos, em sete de julho de 1861. Nascida em uma época na qual a maior preocupação de uma jovem mulher deveria ser com um bom casamento, Nettie Maria queria muito mais. Estudou muito e trabalhou como professora, mas queria mesmo era ser pesquisadora. Com muito esforço e dedicação, ela conseguiu um espaço na história da genética.

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Nettie veio de uma família muito simples, vivendo nos Estados Unidos recém-saído de uma guerra civil. Apesar disso, o pai, carpinteiro e faz-tudo, conseguiu mandar os filhos à escola. Nettie logo se destacou entre os alunos, com um histórico brilhante. Em 1896, ela foi para a Universidade de Stanford, na Califórnia. Graduou-se com mestrado em biologia, dedicando-se ao estudo de novas espécies de vidas marinhas. Nettie foi continuar seus estudos na pós-graduação do Bryn Mawr College, uma faculdade liberal para mulheres, localizada na Pensilvânia. Seu desempenho foi tão extraordinário que ela ganhou uma bolsa para estudar no exterior.

Ela desenvolveu seus estudos na Estação de Zoologia de Nápoles na Itália e no Instituto de Zoologia de Würzburg na Alemanha, em parceria com Theodor Boveri. Theodor Boveri foi um importante biólogo alemão, que estudava o modo como características genéticas eram transmitidas, o que logo chamou a atenção de Nettie. Ela obteve o título de Ph.D. em 1903, aos 39 anos, e em 1905 publicou sua pesquisa intitulada “Studies in Spermatogenesis”. Finalmente, Nettie pode trabalhar como pesquisadora, se dedicando ao entendimento da determinação sexual nos animais.

nettie2 Nettie Maria trabalhando em suas análises microscópicas. Sua experiência em microscopia foi muito importante para suas descobertas.

Nettie Maria descreveu a diferença entre os cromossomos sexuais, através de suas observações em diversos animais. Stevens descreveu que células do besouro da farinha, Tenebrio molitor, eram diferentes entre machos e fêmeas.

As células das fêmeas, em divisão meiótica, continham 20 cromossomos grandes, enquanto as células masculinas continham 19 cromossomos grandes e 1 cromossomo menor. Ela concluiu que essa diferença resultava na presença de material genético diferente, associado à diferenciação sexual.

Ela também observou que as células dos espermatozoides podiam conter conjuntos de cromossomos com o cromossomo feminino ou com o cromossomo menor (masculino). A combinação desses conjuntos determinaria o sexo do indivíduo formado. De forma que ela inferiu que a união de dois cromossomos grandes (XX) determinaria o sexo feminino, enquanto um cromossomo grande e um pequeno (XY) determinaria o sexo masculino.
Ela repetiu estes estudos em diversas espécies de insetos, para poder afirmar que a diferenciação sexual, entre diversos fatores hoje conhecidos, estava relacionada ao par de cromossomos sexuais. Esse foi o início da teoria da determinação sexual cromossômica, que foi reconhecida mais tarde como correta, nos permitindo conhecer os cromossomos X e Y.

Thomas Morgan , importante zoologista e geneticista americano, que estudou e aprimorou o modelo de estudo animal da Drosophila melanogaster, a mosquinha da fruta, foi professor de Stevens. Ele afirmou que durante seus 12 anos de professor na pós-graduação nunca teve alguém tão competente e independente em pesquisa como Nettie.

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Células em divisão no besouro-farinha e observação dos cromossomos sexuais x e Y.

Na época, a teoria de herança sexual cromossômica era pouco aceita entre os cientistas, e o trabalho de Nettie não foi muito reconhecido. Mais ou menos na mesma época, Edmund Beecher Wilson fez observações similares, dando maior credibilidade à pesquisa de Nettie Maria. Nettie Maria Stevens era brilhante, porém teve uma carreira curta. Ela faleceu em 1912 de câncer de mama. No entanto, deixou sua contribuição inestimável para o entendimento do mecanismo genético de determinação sexual.

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Imagem de cariótipo humano masculino (46, XY) mostrando a diferença de tamanho entre os cromossomos sexuais X e Y.
Referências:
• Nettie Stevens: A Discoverer of Sex Chromosomes, disponível em: https://www.nature.com/scitable/topicpage/nettie-stevens-a-discoverer-of-sex-chromosomes-6580266

• Nettie Maria Stevens, disponível em: http://www.dnaftb.org/9/bio.html

• Wessel GM. Y does it work this way? Nettie Maria Stevens (July 7, 1861 – May 4, 1912) , Mol Reprod Dev. 2011 Sep;78(9):Fmi. doi: 10.1002/mrd.21390.

• Nettie Stevens, disponível em https://www.britannica.com/biography/Nettie-Stevens

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Como a urbanização afeta o comportamento de mosquitos vetores (Parte 1)

As modificações feitas pelos seres humanos nos ambientes naturais podem resultar em desfechos dramáticos para o meio ambiente, como aumento da temperatura, aumento de cobertura impermeável do solo, alteração na hidrologia e aumento de poluição. Apesar das alterações no meio ambiente prejudicarem algumas espécies, diversas outras, além dos seres humanos, podem ser beneficiadas e prosperar nos ambientes urbanos, como espécies que veiculam patógenos causadores de doenças.

SP

Imagem sem direitos autorais.

Metade da população mundial vive em grandes centros urbanos e, como consequência, mais e mais habitats naturais são fragmentados e ameaçados pela presença humana. Por exemplo, a Mata Atlântica brasileira é um bioma caracterizado pela alta diversidade de espécies e alto grau de endemismo*. Esse bioma é considerado um hotspot* de biodiversidade, devido ao seu ecossistema mais devastado e ameaçado do planeta.

*endemismo – fenômeno no qual uma espécie ocorre exclusivamente em determinada região geográfica.

*hotspot – regiões que, por sua importância ecológica, devem ser investigadas.

Pesquisadores que trabalham com ecologia e evolução de espécies em áreas urbanas afirmam que as alterações antrópicas no ambiente podem contribuir para o aumento da abundância de espécies adaptadas a esse meio e diminuir a riqueza de espécies em geral. Isso significa que espécies adaptadas aos ambientes urbanos aumentam suas populações, enquanto espécies mais sensíveis podem diminuir suas populações, ou até mesmo serem extintas. Esse fenômeno ocorre em diversas espécies de plantas e animais, porém neste texto nos focaremos em quais são as implicações da urbanização em populações de mosquitos.

Países como o Brasil frequentemente passam por uma rápida e não planejada urbanização, caracterizada por falta de saneamento básico, casas insalubres, rios poluídos e esgoto não tratado. Esses fatores juntos podem favorecer a abundância de algumas espécies de mosquitos adaptadas ao meio urbano, além de ser um obstáculo para estratégias de controle de vetores.

Durante o meu mestrado, eu pesquisei a genética de populações da espécie de mosquito Aedes fluviatilis em São Paulo. Nos baseando nos resultados encontrados neste estudo, meus colaboradores e eu sugerimos que as populações desse mosquito sofreram processos de expansão populacional associados aos processos de urbanização de São Paulo. Os resultados desse trabalho foram publicados em um artigo científico na revista PLoS ONE.

Nós propomos duas hipóteses para explicar a expansão das populações de Aedes fluviatilis em São Paulo. A primeira delas é: a expansão das populações desta espécie ocorreu porque a mesma é muito adaptada ao meio urbano e se benefica deste ambiente e consegue completar todo o seu ciclo de vida na cidade. Já a segunda hipótese é baseada na história da construção da cidade de São Paulo, propomos que devido a urbanização mais intensa da cidade começar após 1960, as populações de Aedes fluviatilis que eram na verdade uma grande população sem barreiras para troca de genes, foi fragmentada devido ao crescimento da cidade. Como essa urbanização ocorreu recentemente e foi intensa as populações dessa espécie em São Paulo são pouco diversas, porém abundantes e bem adaptadas ao meio urbano.

Existem mais de 70 espécies de mosquito somente na cidade de São Paulo. Entre estas, as mais abundantes são: Aedes albopictus, Aedes fluviatilis, Aedes aegypti, Culex nigripalpus, Culex quinquefasciatus e Aedes scapularis. Todas essas espécies possuem importância para a área da saúde. Nem todas são capazes de efetivamente transmitir patógenos aos seres humanos em condições naturais, mas todas são consideradas “fator de incômodo”.

Enquanto eu fazia meu mestrado, outras pessoas do meu grupo de pesquisa trabalhavam em pesquisas com objetivos que consistiam em caracterizar  geneticamente populações urbanas de outras espécies de mosquito. Populações de Aedes aegypti em São Paulo provavelmente também sofreram processos de expansão populacional devido à sua alta capacidade de adaptação às mudanças antropogênicas. Pelo contrário, populações da espécie Culex nigripalpus provavelmente não se beneficiam da urbanização e sofrem severas pressões seletivas desse meio, resultando em populações com pouca diversidade genética.

 

Agora no doutorado, eu pesquiso a espécie Anopheles cruzii, vetor primário de malária na Mata Atlântica. Meu projeto consiste em analisar geneticamente e fenotipicamente* populações desta espécie em três diferentes ambientes: silvestre, peri-urbano e urbano. Farei comparações das populações entre três anos e entre os três ambientes. Alguns resultados já estão prontos e serão publicados em breve. Ainda no doutorado, eu também faço um projeto à parte no qual pesquiso a genética de populações do mosquito Aedes albopictus, neste projeto resultados interessantes foram encontrados e também serão publicados em breve. Falarei mais sobre este assunto na parte 2 deste texto.

*fenotipicamente – características visíveis do genótipo.

Este primeiro texto foi um dos mais importantes que já escrevi, pois nele tentei resumir um pouco da minha pesquisa, algo que nunca tinha feito antes, e falar sobre a sua real contribuição para a área da saúde. Entender como as mudanças no ambiente afetam a genética de populações de espécies de mosquitos pode nos ajudar a compreender como a urbanização pode facilitar a expansão de populações de mosquitos adaptadas a esse ambiente. Além disso, as áreas urbanizadas também oferecem habitats aos mosquitos e podem facilitar a emergência de patógenos que causam doenças em seres humanos.

Referências utilizadas na concepção do texto

  1. Johnson MTJ, Munshi-South J. Evolution of life in urban environments. Science (80- ). 2017;358: eaam8327. doi:10.1126/science.aam8327
  2. Multini LC, Wilke ABB, Suesdek L, Marrelli MT. Population Genetic Structure of Aedes fluviatilis (Diptera: Culicidae). Franz AWE, editor. PLoS One. 2016;11: e0162328. doi:10.1371/journal.pone.0162328
  3. Wilke ABB, Wilk-da-Silva R, Marrelli MT. Microgeographic population structuring of Aedes aegypti (Diptera: Culicidae). Sekaran SD, editor. PLoS One. 2017;12: e0185150. doi:10.1371/journal.pone.0185150
  4. Wilke ABB, de Carvalho GC, Marrelli MT. Retention of ancestral polymorphism in Culex nigripalpus (Diptera: Culicidae) from São Paulo, Brazil. Infect Genet Evol. Elsevier; 2018;65: 333–339. doi:10.1016/j.meegid.2018.08.017
  5. Medeiros-Sousa AR, Fernandes A, Ceretti-Junior W, Wilke ABB, Marrelli MT. Mosquitoes in urban green spaces: using an island biogeographic approach to identify drivers of species richness and composition. Sci Rep. 2017;7: 17826. doi:10.1038/s41598-017-18208-x

Leituras interessantes (Inglês)

This Mosquito Likes Us Too Much For Our Own Good. https://www.npr.org/sections/goatsandsoda/2016/02/10/466268138/this-mosquito-likes-us-too-much-for-our-own-good

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Micropartículas: A pequena arma no tratamento de doenças

Hoje em dia, combatemos diversas doenças utilizando vacinas e administração de fármaco via intravenosa. No entanto o problema desse método é a liberação do fármaco no corpo humano. Geralmente a liberação é realizada sem controle, sendo muitas vezes necessária mais de uma dose para que surja algum efeito no paciente.

Uma alternativa são micropartículas construídas de polímeros biocompatíveis (que possuem afinidade com organismos vivos e não são tóxicos) para auxiliar na entrega de fármacos. Essas micropartículas auxiliam na liberação do fármaco de forma sustentada. Por serem geralmente construídas de géis porosos e não tóxico como: colágeno, alginato ou agarose. Esses materiais são mais facilmente assimiladas pelo organismo humano.

Figura: Ilustração de biomoléculas. Créditos: Phys.org

Mas afinal, como ocorre essa liberação sustentada? Como se trata geralmente de uma matriz porosa, a transferência de massa ocorre nos poros, o que dificulta que a entrega dos fármacos seja liberada toda de uma vez. A liberação ocorre de forma gradual e contínua. Outro fator interessante é que as micropartículas podem ser modificadas para atingir uma célula alvo, por exemplo, células tumorais. É possível modificar a superfície da micropartícula com alguma proteína sinalizadora para aquele tipo específico de célula, tornando a entrega do fármaco mais efetiva.

Segundo a mestranda Bruna Gregatti de Carvalho, que trabalha como a produção de micropartículas de alginato na Universidade Estadual de Campinas, o uso das micropartículas são interessante no aspecto biotecnológico, visto que o paciente não necessita tomar diversas doses do medicamento. Além disso, a cientista explica que as mesmas micropartículas, também podem ser utilizadas na terapia gênica, visto que protege o material genético: “Mesmo o material genéticas estando dentro de uma nanopartícula, as micropartículas podem ser interessante, visto que ela age como mais uma barreira para a entrega do material, dificultando que o material genético seja degradado pelo o organismo humano”.

Em época em que vacinas e tratamentos convencionais estão sendo questionado, tecnologias como essas podem se tornar poderosas ferramentas ao combate de diversas doenças.

 

Referências
TELLECHEA, A. et al. Alginate and DNA gels are suitable delivery systems for diabetic wound healing. Int. J. Low. Extrem. Wounds (2015).
LI, J & MOONEY, D. Designing hydrogels for controlled drug deliver. Nature reviews materials (2016).

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A seleção do mais amigável, ou como a genética influencia o comportamento dos cães

Quando se pensa em genética, imediatamente pensamos em como os genes influenciam a cor dos nossos olhos, do cabelo, ou seja, essencialmente características físicas. Dificilmente pensamos em como os nossos genes podem influenciar a maneira como nos relacionamos, nossa personalidade, e até como quanto sociáveis podemos ser. Um estudo publicado recentemente na Science pela Dra. vonHoldt e colaboradores mostra como alguns genes foram determinantes para conferir aos cães suas características mais amigáveis, e, portanto tornando mais fácil a relação entre a nossa espécie e a deles.

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Neste estudo foi demonstrado que além dos cães possuírem o comportamento de olhar fixamente os olhos dos humanos– o que teria favorecido o estreitamento de laços entre as espécies – a sua capacidade de reagir amigavelmente teria favorecido a relação entre eles. Para esse estudo, foram comparados o comportamento de lobos (criados em cativeiro, possuindo contato com humanos) e cachorros). Foi observado que tanto os lobos quanto os cachorros cumprimentavam visitantes humanos, entretanto, o contato feito pelos cães tinha uma maior duração (comparando proporcionalmente aos lobos), assim como a habilidade de completar tarefas ligadas a resolução de problemas; ambos os parâmetros estão ligados ao estímulo social

À partir dessa observação, estudos genéticos comprovaram que diferenças nos cromossomos de cães e lobos podem ser responsáveis por essa característica – cachorros possuem genes específicos mais “interrompidos”, diferentemente dos lobos, que possuem um comportamento mais distante ou menos sociável. Essas descobertas corroboram estudos feitos em humanos com a síndrome de Williams-Beuren, uma desordem do desenvolvimento físico e cognitivo, que leva os portadores a se tornarem pessoas altamente confiáveis e amigáveis.

Esses resultados são importantes para corroborar a hipótese da “seleção do mais amigável”: em outras palavras, animais com características mais sociáveis foram selecionados e puderam se reproduzir, passando suas características para outras gerações. Essa hipótese é muito utilizada para explicar a domesticação dos cachorros, pois características sociáveis permitiram a formação de laços entre as espécies, favorecendo a convivência e permitindo aos cães obterem alimentos e cuidado com maior facilidade.

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Predisposição genética: destino ou fator modificável?

Fatores genéticos e de estilo de vida são fatores chave no processo saúde-doença. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine, um dos mais prestigiados da área médica, concluiu que a aderência a um estilo de vida saudável pode reduzir parcialmente os riscos de doença arterial coronariana (DAC), a principal causa de mortalidade no Brasil e no mundo, mesmo quando há maior predisposição genética1.

A conclusão parece óbvia, mas para muitas pessoas a predisposição genética para DAC é determinística e dificilmente o risco pode ser modificado – algo como: minha família toda tem, então não importa como eu viva, ficarei doente. Entretanto, não é novidade que as pessoas que aderem ao estilo de vida saudável, como não fumar, evitar a obesidade e ter a alimentação saudável, apresentam taxas reduzidas de eventos cardiovasculares. Assim, o artigo publicado objetivou avaliar a interação entre estilo de vida e o risco genético.

Com base na hipótese de que tanto os fatores genéticos quanto a aderência ao estilo de vida saudável contribuem independentemente para o risco de eventos coronarianos, os autores avaliaram dados de 60 mil participantes de três estudos populacionais . Os pesquisadores desenvolveram uma escala de alto, intermediário e baixo risco genético com base no sequenciamento genético de mais de 50 polimorfismos de um único nucleotídeo (SNPs – Figura 1)* associados a maior risco coronariano nas pessoas estudadas. Foi elaborada também uma pontuação relacionada ao estilo de vida, classificando-o em favorável, intermediário ou desfavorável. Os fatores de estilo de vida considerados foram adaptados das metas estratégicas propostas pela Associação Americana do Coração (AHA) e incluíram não fumar, ausência de obesidade e ingestão de sódio. A alimentação foi considerada saudável se a pessoa fazia pelo menos metade das seguintes recomendações: várias porções de frutas, vegetais, castanhas, grãos integrais, peixes e porções reduzidas de grãos refinados, carnes processadas, carne vermelha, bebidas açucaradas e gorduras trans. Os novos eventos coronarianos considerados foram infarto do miocárdio, revascularização coronária (conhecida popularmente como ponte de safena) e morte de causa cardiovascular.

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Figura 1. Exemplo de SNPs – uma única base diferente da base usual na mesma posição3.

Os resultados do estudo revelaram que o risco de novos eventos foi 91% maior entre os participantes com maior risco genético em comparação com os de menor risco. Os participantes com estilo de vida desfavorável, por sua vez, apresentaram maiores taxas de pressão alta, diabetes, maior índice de massa corporal (IMC – razão entre o peso e a altura elevada ) e lipídeos circulantes desfavoráveis. A presença dos fatores de estilo de vida saudável se relacionaram com a diminuição dos riscos de problemas no coração. O estilo de vida favorável diminuiu quase pela metade a chance de novos problemas, independente do risco genético ser alto, intermediário ou baixo.

A pesquisa traz três conclusões importantes: 1) a variação do DNA herdado e o estilo de vida contribuem independentemente para a presença da doença; 2) o estilo de vida saudável reduziu o risco de maneira similar em todas as classes de predisposição genética. Os resultados apoiam a adoção de ações de saúde pública para promover o estilo de vida saudável. Ou ainda pode-se considerar uma abordagem mais intensiva nas pessoas com risco genético aumentado, esperando que a divulgação do risco genético motive a mudança comportamental; 3) os fatores de estilo de vida podem sim modificar poderosamente o risco cardiovascular, independentemente do perfil de risco genético do paciente, ao contrário da visão determinística e de falta de controle sobre a capacidade de melhorar os fatores de risco adotada por muitas pessoas.

Para resumir, independente do risco genético, ter um estilo de vida saudável diminui o risco de doença coronariana. Ou seja, somos donos do nosso próprio destino!

 

* Mutação em que, uma única base no DNA difere da base usual na mesma posição. Os SNPs são o marcador de escolha na análise genética e também são úteis na localização de genes associados a doenças2.

 

Referências

1) Khera et al. Genetic Risk, Adherence to a Healthy Lifestyle, and Coronary Disease. N Engl J Med 2016;375:2349-58. doi: 10.1056/NEJMoa1605086

2) Seal et al. Tools, resources and databases for SNPs and indels in sequences: a review. Int J Bioinform Res Appl. 2014;10(3):264-96. doi: 10.1504/IJBRA.2014.060762.

3) The International HapMap Consortium. Nature 426, 789-796 (18 December 2003)