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A falta de inclusão nos eventos acadêmicos online: a explosão das lives só com homens

Por Mariana Candido*

Como eu escrevi anteriormente, a pandemia provocou uma expansão das lives acadêmicas, uma iniciativa louvável. Em um momento em que estamos todos trancados em nossas casas e em busca de atividades de nos ajudem a passar bem o tempo, professores universitários ocuparam o espaço virtual. De repente, ex-alunos, pais de universitários, avós, estudantes mais jovens e o público excluído do ensino superior teve a oportunidade de assistir o que acontece na universidade. Os eventos online trouxeram a pesquisa e o ensino universitário para o interior das nossas casas, desde que pudéssemos contar com tempo e internet que desse conta de tanta demanda.

Os eventos online prometiam democratizar o acesso ao conhecimento e aproximar as pessoas que estavam isoladas em suas casas. Depois da explosão de lives de artistas que entretiveram as pessoas, professores universitários, pesquisadores e pós-graduandos começaram a discutir suas pesquisas e experiências profissionais com um público mais amplo, que, muitas vezes, desconhece o que faz um historiador profissional. Foi uma explosão tão grande ao ponto que já não sabemos se estamos vivendo ou só vendo lives! E eu, uma brasileira que saiu do Rio de Janeiro em 1997 para estudar história da África no México e no Canadá, pude escutar, de longe, colegas que, em geral, só encontro em eventos. Associações profissionais e departamentos começaram a divulgar debates e aulas públicas em várias plataformas e sobre assuntos variados, seja a ditadura no Cone Sul, a memória da escravidão no Rio de Janeiro, a história dos movimentos fascistas e o patrimônio cultural em Pernambuco, entre vários outros. Devido à minha área de pesquisa e ensino, assisti a vários eventos sobre escravidão e história da África e aprendi muito, mesmo estando tão longe do Brasil. Conheci o trabalho de novos pesquisadores, pós-graduandos e recém doutores, e pude escutar velhos amigos, a quem admiro e estimo devido a suas trajetórias acadêmicas. Os eventos online me aproximaram da discussão acadêmica no Brasil e assisti, como muito pesar, os ataques racistas a colegas respeitadíssimos.

Eu leio, ensino e cito os estudos sobre escravidão e presença africana feitos e publicados no Brasil porque a pesquisa é referência para os historiadores no exterior. Não é bairrismo meu por ser brasileira. É a pura constatação que a pesquisa feita no Brasil é sólida, metodologicamente criativa e séria. Eu sempre me surpreendo como os estudos publicados em inglês que ignoram a produção intelectual disponível em outra língua, principalmente aquela feita pelos colegas que estão no chamado “Sul Global”. Claro que há exceções, mas é fato que a historiografia anglófona tende a ser insular e ignorar a contribuição intelectual de latino-americanos, africanos e asiáticos. Perdemos todos quando não lemos o que é publicado em outras línguas e em outros contextos acadêmicos.

A convite da Mariana Armond Dias Paes, com quem colaboro em um projeto de pesquisa, fiz a minha estreia nas lives no Instagram das @cientistas feministas. Assisti outras conversas e foi uma oportunidade maravilhosa para me conectar com pesquisadoras que conhecia de eventos ou de leituras. Aprendi muito e vi, com grande satisfação, que amigos e familiares que não são professores universitários também entravam nessas lives. Conversei com a minha mãe e minhas irmãs, que não estão no mundo acadêmico, sobre as lives das professoras Fernanda Thomaz, Fernanda Bretones e Patrícia Melo, o que sugere que há um apetite do público em geral pela história, quando bem contada e acessível. E assisti a várias lives organizadas pelo Núcleo Escravidão e Sociedade na Época Moderna, da UFAL, organizadas pelo professor Gian Carlos.

Os eventos online deixaram evidente que quem tem destaque no mundo acadêmico é o homem branco, com raras exceções, como os eventos que mencionei anteriormente. Isso é verdade para o Brasil, para os Estados Unidos, onde trabalho, ou para o México e o Canadá, dois países onde me formei, ou, ainda, Portugal e Angola, lugares que frequento com certa regularidade devido ao meu ofício. Como eu expliquei num outro texto, os manels, como são chamados os all-male panels, os painéis onde todos os oradores são homens, são alvo de críticas duras nos Estados Unidos. Jornalistas, pesquisadoras, professoras denunciam esses eventos corriqueiramente. E, como a Brigid Schulte, autora de um artigo publicado em 2017, argumentou: não há desculpas para organizar eventos sem mulheres. Historiadoras inclusive organizaram uma base de dados que, ironicamente, ajuda homens a identificar uma especialista mulher em determinado assunto. Women also know history virou um slogan e hashtag nas redes sociais. Outro site oferece ajuda a colegas homens como o juramento de jamais aceitar participar de manels. O movimento #AbajoLosManeles, organizado por estudantes da faculdade de economia da Universidad de Los Andes, tem destaque nas redes sociais e denuncia eventos acadêmicos sem mulheres. Inclusive analisa como as mulheres tendem a ser interrompidas pelos homens quando participam de eventos profissionais.

Apoiar a existência de painéis mais diversos é uma causa fácil. O diretor do National Institute of Health, nos Estados Unidos, o médico geneticista Francis Collins, já declarou publicamente que se recusa a participar desse tipo de painéis. Seria importante que os intelectuais e pesquisadores brasileiros fizessem esforços semelhantes. Infelizmente, esse não é um problema que afeta somente os eventos online durante a pandemia, mas as conferências em geral, assim como os dossiês especiais de revistas e livros organizados que não incluem uma só autora. Mulheres tendem a ser excluídas dos espaços que consagram especialistas, inclusive da lista de autores que sempre citamos ou recomendamos para os nossos estudantes.

Foto Candido

Foto: Woman working on a laptop – Creative Commons http://rawpixel.com/

A ausência de mulheres, particularmente de mulheres negras, nos eventos online, é algo preocupante e que deveria causar constrangimento a todos. E, infelizmente, não é um evento isolado. Não é o caso de um seminário, de um tema específico ou, ainda, de uma palestrante que não pôde participar de última hora. É uma invisibilidade sistemática da produção intelectual feita por mulheres em geral, e por intelectuais negrxs e indígenas, sistematicamente silenciadas. Eventos excludentes e monocromáticos sempre aconteceram nas universidades e foram normalizados, como se o espaço acadêmico fosse naturalmente branco e masculino. Lives sobre O que produz o historiador, por exemplo, parecem não compreender que há mais historiador que o homem branco. Inclusive, as lives que se propõem a discutir o fascismo caem no mesmo problema e reúnem somente homens, sem se interrogar que debate é esse que exclui tanta gente. Como pode, em um país com uma população majoritariamente parda, negra, feminina e com forte presença indígena, justificar a ausência desses grupos em eventos acadêmicos? Até em lançamentos de livros as mulheres estão excluídas. Independentemente da universidade, departamento ou associação que organiza o evento, como justificar que nenhuma professora, branca, negra ou indígena, seja considerada uma interlocutora válida? É importante estarmos atentos à inclusão regional, já que no Brasil também podemos observar uma marginalização recorrente de pesquisadores que estão fora do eixo Sul-Sudeste. Porém, essa questão não pode servir como desculpa para excluir vozes de grupos historicamente silenciados no Brasil e que constituem parcela importante das populações dessas regiões. Por exemplo, a live “Como a escravidão influenciou a organização do trabalho no passado e no presente? foi interessante, contou com um público expressivo, mas foi marcada pela ausência feminina e negra. Muitas mulheres assistiram, comentaram e interagiram com os palestrantes, no entanto, sua participação se restringiu ao live chat. Foi inevitável refletir como a dinâmica de gênero nesses eventos reproduzem o discurso de que mulheres devem ser recatadas e silenciosas.

Essa discussão sobre a falta de diversidade nos eventos online me remete ao debate sobre as cotas universitárias, quando vários ex-professores e alguns colegas de faculdade que hoje são professores universitários argumentavam que implementar as cotas nas universidades brasileiras seria importar ideias americanas. Mais grave: alguns diziam que a qualidade do ensino nas universidades públicas iria cair, afinal, como “adaptar” o alto nível de ensino das universidades públicas a um corpo discente que não estava preparado? Incluir várias vozes no debate acadêmico e na vida universitária deveria estar na agenda de todos e não ser visto como uma “moda americana”.

Foram vários os manels nos últimos meses. O debate Decadência, Atraso e Modernidade na História de Goiás: uma desconstrução reuniu seis homens que jamais se perguntaram a ironia de discutir atraso em 2020 sem incluir um interlocutor negro, indígena ou mulher. Esse não foi o único debate monocromático.Revistas em Debates: co-autoria na pesquisa de história, por exemplo, reuniu quatro editores de várias revistas especializadas: todos homens e brancos. Isso evidencia que são os homens que decidem quem publica e onde se publica, um problema que não é exclusivo do mundo acadêmico brasileiro. Não podemos fingir que esses eventos são exceções e devemos reconhecer que eles são a realidade nas universidades brasileiras, nas quais o corpo docente é majoritariamente branco e masculino. Para quem não frequenta a universidade e só assiste as lives parece que não há pesquisa feita por mulheres. Aqui, repito o título de um texto de 2018: as mulheres também sabem história!

Nas últimas semanas, eventos mais diversos pipocaram, talvez em reação aos manels. A Rede de Historiadoras Negras e Historiadores Negros organizou uma jornada de história das mulheres negras e o História Indígena Hoje criou um espaço para a participação dos intelectuais indígenas. No dia 29 de julho, o CACH da Unicamp reuniu as professoras Lucilene Reginaldo, Debora Jeffrey, Maria Luiza Nogueira e Letícia Parks em uma conversa fantástica sobre o papel das mulheres negras no combate ao racismo. Ou seja, espaços menos excludentes começam a aparecer como, por exemplo, o curso “Emancipações e pós-abolição: por uma outra história do Brasil” e o Ciclo de Debates, História da África – Desafios e perspectivas para a pesquisa e o ensino.

Como já escrevi anteriormente, a ausência feminina dos eventos online não é um “problema de mulher”. Além disso, a falta de palestrantes negros não afeta somente os intelectuais negros. Afeta a todos nós que naturalizamos a produção acadêmica e os espaços de debate intelectual como essencialmente masculinos e brancos. A composição étnico-racial e de gênero desses eventos influencia como meninas e meninos são socializados e aspiram a carreiras. A representatividade (ou a falta dela) é algo que deveria preocupar qualquer cidadão que tenha um compromisso com a democracia e a inclusão social. Não dá para defender uma sociedade mais justa nas redes sociais ou nas ruas sem se perguntar como eu, Mariana Pinho Candido, beneficiei-me da existência de uma sociedade brasileira racista. Ou, ainda, como continuo a me beneficiar de uma imigração racista e classista, nos Estados Unidos, o que me permitiu ter um emprego de professora universitária hoje.

Perdemos todos com eventos excludentes. A exclusão feminina e/ou negra dos eventos online está alinhada com as políticas do governo atual: é retrograda e revela a falta de um compromisso sério com a inclusão. No Brasil e nos EUA, não devemos aceitar como normal departamentos de história sem historiadores negros. Ou departamentos que tenham somente um ou dois professores negros e nenhum professor indígena. Precisamos de departamentos que representem a real população brasileira e não uma população imaginada pelo grupo que está no poder.

Um dos argumentos para justificar os painéis nos quais somente homens brancos figuram ou departamentos sem a presença de intelectuais negros e indígenas é a ausência desses grupos entre os historiadores profissionais. Esse argumento é velho e foi utilizado para questionar a necessidade de implementar cotas raciais nas universidades. É o mesmo argumento utilizado para justificar a falta de contratação de professores negros nos concursos. Assim como no debate sobre as cotas raciais, o argumento é que a realidade brasileira é diferente da dos Estados Unidos e que qualquer política de ação afirmativa é uma tentativa de copiar os americanos. Qualquer mudança é desconfortável e exige repensar privilégios e nosso papel na perpetuação das desigualdades. E, assim, mobilizando esses discursos, o assunto é empurrado com a barriga e as desigualdades continuam como estão, como se fossem naturais e incapazes de serem modificadas.

Somos todos responsáveis pela falta de diversidade nos departamentos e nas associações profissionais. Somos coniventes quando não citamos mulheres, quando não nos preocupados com a desigualdade de gênero ou étnico-racial nos eventos que organizamos. Somos coniventes quando somente incluímos especialistas do sexo masculino nos programas de nossos cursos de graduação ou pós-graduação, quando o nosso diálogo é somente com homens ou quando somos incapazes de lembrar o nome de especialistas negrxs. Também quando argumentamos, com convicção, que não há mulheres e/ou algum intelectual negro ou indígena que já escreveu sobre o assunto. Se você não conhece uma autora, talvez seja a hora de expandir seus horizontes. Pode começar por aqui, onde poderá encontrar o nome de várias professoras brasileiras.

Os eventos online, seja no Instagram, Facebook ou YouTube são uma oportunidade excelente para incluir mais vozes e democratizar a produção dos historiadores, principalmente em um momento em que a universidade pública está sob ataque. Ao divulgar e participar de eventos só com pesquisadores homens ou brancos nos alinhamos com o atual governo. É preciso agir para aumentar a inclusão de mulheres, negros e indígenas em todas as esferas acadêmicas, como forma de resistência à onda conservadora no Brasil e no mundo. Talvez a exclusão não seja intencional, mas está introjetada de tal modo que quem participa desse sistema de omissão não percebe que, ao fazê-lo, colabora para perpetuar exclusões de gênero e étnico-raciais. Somos todos coniventes com os silenciamentos e omissões.

Todo pesquisador quer que o evento que organizou tenha destaque nas redes sociais. Ao incluir mais nomes e vozes, os comentários serão sobre a qualidade dos palestrantes ou a temática e não sobre a homogeneidade dos oradores.

* Mariana P. Candido é professora (Associate Professor) de história da África na Emory University, em Atlanta (EUA), desde julho de 2020. Anteriormente, deu aulas na University of Notre Dame, University of Kansas, Princeton University e University of Wisconsin-La Crosse. Concluiu o doutorado em história da África na York University, Canadá, e o mestrado em estudos africanos no El Colegio de México, México. Publicou duas monografias:  Fronteras da Escravização (Benguela: Universidade Katyavala Bwila, 2018) e  An African Slaving Port and the Atlantic World: Benguela and its Hinterland (Cambridge University Press, 2013). Organizou, com Adam Jones, African Women in the Atlantic World. Property, Vulnerability and Mobility, 1680-1880 (James Currey, 2019); com Carlos Liberato, Paul Lovejoy e Renée Soulodre-La France, Laços Atlânticos: África e africanos durante a era do comércio transatlântico de escravos (Museu Nacional da Escravatura/ Ministério da Cultura, 2017); e, com  Ana Lucia Araujo e Paul Lovejoy,  Crossing Memories: Slavery and African Diaspora (African World Press, 2011). Em colaboração com Eugénia Rodrigues, organizou o número especial “Cores, classificações e categorias sociais: os Africanos nos impérios ibéricos, séculos XVI a XIX”, na Estudos Ibero-Americanos, vol. 44, n. 3 (2018) e “African Women’s access and rights to property in the Portuguese Empire”, na African Economic History, vol. 43 (2015). Desde 2016, é uma das editoras da African Economic History e faz parte do conselho editoral da History in Africa.

 

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Como crianças brancas e não-brancas associam o estereótipo de “excepcionalidade” com relação a inteligência a pessoas brancas e negras?

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Pesquisa mostra que estereótipo de “inteligência excepcional” é mais associado a homens brancos que mulheres brancas, e que homens negros não são associados a este estereótipo

Fonte da imagem: https://pixabay.com/photos/people-group-children-boy-3137670/

 

Você sabia que a aquisição de estereótipos de gênero ocorre bem cedo no desenvolvimento? Existem evidências de que, a partir dos dois anos de idade, crianças já tem alguma noção sobre estereótipos de gênero, como cores consideradas apropriadas para cada sexo (e.g., Liben & Bigler, 2002). Com o tempo, essa habilidade se expande para coisas mais abstratas, de modo que, na segunda série, crianças já tem uma maior probabilidade de associar habilidades matemáticas com meninos do que com meninas (Cvencek et al., 2011).

Dentre estes muitos estereótipos, a noção de talento intelectual inato – de acreditar que certas pessoas são brilhantes ou gênios – é mais relacionada aos homens que às mulheres. Já foi evidenciado, por exemplo, que esse estereótipo de “excepcionalidade” (brilliance, em inglês) com relação a inteligência já é endossado diferencialmente em crianças de apenas seis anos de idade, as quais passam a acreditar que meninos sejam mais brilhantes que meninas, embora aos cinco anos as crianças, independentemente do gênero, tendam a escolher a pessoa do mesmo gênero que ela como mais excepcional (Bian et al., 2017).

A maioria dos estudos, no entanto, se foca na análise de participantes e/ou de alvos brancos, o que impede verificar efeitos conjuntos de raça e gênero, por exemplo. Pensando nisso, Jilana Jaxon, Ryan Lei, Reut Shachnai, Eleanor Chestnut e Andrei Cimpian conduziram um estudo avaliando como crianças americanas de uma maioria racial (brancas) e de minorias raciais (negras, latinas e asiáticas) associavam imagens de homens e mulheres brancos e negros com o estereótipo da inteligência excepcional.

Para o experimento, 203 crianças (105 garotas e 98 garotos), com idades entre 5 e 6 anos foram recrutadas em duas escolas públicas da cidade de Nova Iorque. Dentre as informações demográficas dadas pelos pais e/ou cuidadores de 80% da amostra, 37% delas era branca, 30% latina, 6% asiática, 5% negra, e 22% foram classificadas como multirraciais. A tarefa consistia de duas etapas. A primeira serviu para garantir que as crianças sabiam o que “muito, muito inteligente” significava. Na segunda tarefa, as crianças viam uma foto com dois adultos em ambientes naturais, como em uma casa ou no trabalho. Em cada foto, aparecia sempre um homem e uma mulher da mesma raça. No total, oito fotografias eram mostradas, e a cada foto, os experimentadores diziam que uma das pessoas na foto era “muito, muito inteligente”, e então pediam para a criança dizer qual ela achava que era. Raça e gênero não eram salientados. Além disso, outras tentativas com distratores foram utilizadas para diminuir as chances de as crianças perceberem o objetivo da tarefa (dizer, diante de outras quatro fotografias, qual pessoa era “muito, muito legal”).

O experimento buscou responder duas perguntas. Em primeiro lugar, as associações de excepcionalidade variam de acordo com a raça do alvo? Em segundo lugar, crianças brancas e não-brancas avaliam essas fotos de pessoas da mesma maneira? Os resultados mostraram que crianças brancas tenderam a associar a excepcionalidade com seus próprios gêneros de modo similar, independentemente do gênero, aos cinco anos de idade. Entretanto, aos seis anos de idade, ouve uma redução nesse escore de excepcionalidade atribuída ao próprio gênero para as meninas, mas não para os meninos. Nas crianças não-brancas de cinco e seis anos não houve mudança no número de associações entre a excepcionalidade e alvos de seus próprios gêneros. De acordo com os autores, esse dado sugere que esse estereótipo de gênero possui um caráter de intersecionalidade desde quando é adquirido, ou seja, leva em consideração gênero e raça dentre as primeiras aprendizagens.

Outra análise que foi feita é sobre o número de vezes que homens brancos seriam associados com excepcionalidade nas crianças brancas e não-brancas de seis anos de idade, em comparação com mulheres brancas. Como esperado, os homens brancos foram mais associados com essa característica, independentemente de gênero e raça das crianças. Além disso, os homens negros, apesar de serem homens, não foram associados a excepcionalidade, embora esse seja um estereótipo de gênero considerado masculino.

Esses resultados mostram a importância de se utilizar uma abordagem interseccional quando analisamos fenômenos sociais; nesse caso, estereótipos de gênero. Uma pergunta que o estudo suscita é: é possível chamar essa e outras características de estereótipos de gênero, uma vez que, de acordo com esse e outros estudos, não é só o gênero que determina as associações feitas? Eu, particularmente, não tenho resposta para essa questão, mas sugiro uma leitura que analisa como o homem negro (entre outros de raça não–branca) não é considerado homem em uma sociedade racista como a que vivemos (Franz Fannon – Pele negra, máscaras brancas).

Ficou curioso? Quer saber mais?

O artigo:

Jaxon, J., Lei, R. F., Shachnai, R., Chestnut, E. K., & Cimpian, A. (2019). The acquisition of gender stereotypes about intellectual ability: Intersections with race. Journal of Social Issues, 75,(4), 1192—1215. https://doi.org/10.1111/josi.12352

Referências:

Bian, L., Leslie, S. J., & Cimpian, A. (2017). Gender stereotypes about intellectual ability emerge early and influence children’s interests. Science, 355, 389–391. https://doi.org/10.1126/science.aah6524

Cvencek, D., Meltzoff, A. N., & Greenwald, A. G. (2011). Math–gender stereotypes in elementary school children. Child Development, 82, 766–779. https://doi.org/10.1111/j.1467-8624.2010.01529.x

Liben, L. S., & Bigler, R. S. (2002). The developmental course of gender differentiation: Conceptualizing, measuring, and evaluating constructs and pathways. Monographs of the Society for Research in Child Development, 67, 1–147. https://doi.org/10.1111/1540-5834.t01-1-00187

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O dia em que a Terra parou: crises e oportunidades para pensar a vida na atualidade

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Acervo pessoal

Há alguns meses, dificilmente imaginaríamos a situação de confinamento que estamos vivendo hoje. Naquele momento, o COVID-19 era algo que estava no radar, mas ainda bem distante, sendo mais um problema internacional, do que algo que poderia trazer as drásticas mudanças vivenciadas atualmente. No dia 11 de março de 2020, a OMS define que estamos numa pandemia do novo coronavírus, anunciando a extensão e a gravidade do que estaria por vir. A velocidade de disseminação da doença acaba coincidindo com as transformações acarretadas na vida de todas as brasileiras nas últimas semanas. A maior parte dos estados brasileiros decretou o “distanciamento social”, recomendando que as pessoas deixassem de circular livremente e proibindo aglomerações. Todos os serviços considerados não essenciais pararam de funcionar e eventos coletivos foram adiados ou cancelados.

Do ponto de vista prático, cada pessoa teve seu cotidiano diretamente impactado em todas as suas esferas: trabalho, educação e vida social para resumir os principais eixos. As instituições tiveram que se adaptar à necessidade de reclusão populacional imposta para diminuir o contágio e evitar o colapso dos serviços de saúde. Home office e aulas online passaram a ser a rotina de muitas famílias brasileiras, estabelecendo um arranjo familiar nunca visto antes. Nesse sentido, torna-se difícil vislumbrar quais serão as consequências psicossociais dessa nova dinâmica de vida, no entanto, fica fácil perceber que não sairemos os mesmos dessa pandemia.

Pensando nas relações pessoais, fortes desafios estão sendo colocados para as famílias, diante da imposição de uma convivência intensa e prolongada restrita à rotina domiciliar. Um fator que não pode deixar de ser mencionado, se refere à ausência de trabalhadoras domésticas nas casas das classes média e alta, exigindo que as famílias se organizem nessa gestão cotidiana. Trata-se de uma excelente oportunidade para construir uma divisão de tarefas domésticas e cuidado com os filhos mais igualitária e justa, a partir da inclusão dos homens, redefinindo esses papéis sociais e problematizando questões de gênero tão silenciadas no mundo doméstico.

Para dar conta dessas diversas mudanças, uma série de dicas, manuais, recomendações e orientações brotaram no mundo virtual com o objetivo de apaziguar as dificuldades que advém de uma situação de confinamento. Ansiedade, depressão e síndrome do pânico estão entre os principais quadros de saúde mental que têm assolado as sociedades contemporâneas. Para profissionais de saúde, é interessante conhecer o guia de saúde mental da OMS para emergências humanitárias que foi recentemente traduzido para o português pela sua contribuição no manejo de casos, especialmente em contextos difíceis como essa pandemia do coronavírus. Diante desse contexto, especialistas do campo da saúde mental avaliam que essa situação de confinamento é preocupante e deve ser a atenção devida, considerando que aproximadamente 4,5 bilhões de pessoas estão nessa condição. As indefinições não apenas sobre quando se encerrará o confinamento, mas sobretudo a impossibilidade de vislumbrar as consequências pós-pandemia e as inseguranças a que todas estamos submetidas são aspectos importantes que afetam diretamente nossas vidas e também nossa saúde mental.

Sabemos que uma coisa é desejar ficar em casa, outra coisa completamente distinta é ser obrigada a ficar em casa. Dizendo de modo mais enfático: não poder sair de casa. Essa “pequena” diferença pode se tornar um fator extremamente estressor e/ou ansiogênico para muitas pessoas. O que podemos afirmar é que essa conjuntura de confinamento acentua dificuldades e conflitos preexistentes, ou seja, uma pessoa ansiosa tende a ficar mais ansiosa; um indivíduo hipocondríaco tem uma propensão a agravar seus sintomas; uma situação de violência de gênero apresenta uma probabilidade de piora e assim por diante. No Rio de Janeiro, nos primeiros dias de confinamento, verificou-se o aumento de 50% de casos de violência doméstica, representando aproximadamente 70% da demanda de plantão da Justiça nessa localidade. Preocupado com essa situação, o Estado de São Paulo está viabilizando que ocorrências de violência doméstica possam ser relatadas diretamente no site da Polícia Civil, divulgando também um passo a passo de como fazer a denúncia.

Vale ressaltar que uma tendência não significa uma profecia, ou melhor dizendo, poder agravar não quer dizer necessariamente que irá agravar. Diversas outras variáveis estão em jogo nessa dinâmica, podendo resultar em diferentes cenários. A capacidade das pessoas em lidar com adversidades, o livre arbítrio e as redes de apoio são fundamentais nessa complexa matemática da vida cotidiana.

O psicanalista Christian Dunker, em recente entrevista, falando sobre as reações das pessoas diante da pandemia, compreendeu existir três grandes grupos de pessoas: os “tolos” que negam a situação e seguem sua vida como se nada houvesse; os “desesperados” que ficam reféns do contexto e se sentem completamente impotentes e os “confusos”, que oscilam entre os dois primeiros. Talvez seja o momento de construirmos o quarto grupo como sendo aquele que consegue reconhecer a gravidade da conjuntura sem se deixar paralisar e, ao mesmo tempo, é capaz de extrair possibilidades diante de tamanha adversidade.

Fazendo uma alusão ao clássico de Raul Seixas, podemos aproveitar esse momento em que a Terra parou para perceber a vida que levamos e o que, de fato, desejamos dessa vida que levamos. Além das fortes e abruptas restrições impostas, fica evidente como literalmente tivemos que parar, algo impensável em contextos neoliberais comandados pelos imperativos de lucro e produtividade. Os modelos usuais de trabalho, educação, consumo, lazer e meio ambiente já estão sendo repensados nessas poucas semanas de confinamento mundial, começando a incomodar o sistema socioeconômico vigente. Os elementos para pensarmos uma organização social distinta da atual já estão se colocando no cenário, possibilitando a adoção de uma nova forma de vida.

Nesse sentido, podemos olhar essa situação como um convite para perceber essa crise, na perspectiva oriental, ou seja, crise não apenas como uma situação difícil, mas também como oportunidade. Assim, fica a reflexão: já que fomos obrigadas a parar, o que realmente importa?

Referências:

OMS afirma que COVID-19 é agora caracterizada como pandemia. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6120:oms-afirma-que-covid-19-e-agora-caracterizada-como-pandemia&Itemid=812. Acesso em 15 mar 2020.

Manejo Clínico de Condições Mentais, Neurológicas e por Uso de Substâncias em Emergências Humanitárias. Guia de Intervenção Humanitária mhGAP (GIH-mhGAP). Disponível em: https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/51948/9789275722121-por.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em 2 abr 2020.

Especialistas pedem mais atenção à saúde mental por confinamento. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/afp/2020/04/19/especialistas-pedem-mais-atencao-a-saude-mental-por-confinamento.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 19 abr 2020.

Violência doméstica cresce 50% na quarentena do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/03/24/violencia-domestica-rj-quarentena.htm. Acesso em 19 abr 2020.

Passo a passo para você registrar ocorrência de violência doméstica e familiar contra a mulher. Disponível em https://api.tjsp.jus.br/Handlers/Handler/FileFetch.ashx?codigo=119216. Acesso em 19 abr 2020.

Christian Dunker: a pandemia no divã. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-52160230. Acesso em: 7 abr 2020.

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Alerta: o ódio aos Estudos de Gênero (e à educação como um todo)

No fim de 2017, vários posts circularam na internet com a hashtag #Iranprotests mostrando fotos de mulheres iranianas antes e depois da revolução islâmica de 1979. Invariavelmente, as fotos “antes” mostravam mulheres usando roupas ocidentalizadas, coloridas, calças ou saias curtas, e as fotos “depois” eram de mulheres usando burcas ou o véu obrigatório hijab. Essas imagens voltaram a circular também no Brasil durante as eleições de 2018 como um alerta, já que governos conservadores, especialmente aqueles associados a algum tipo de fundamentalismo religioso, têm por norma um ataque aos direitos e liberdades femininas em nome de uma “remoralização” da sociedade. Afinal de contas, pernas (femininas) de fora são claros indícios de que a humanidade vai mal.

Como o exemplo do Irã pode alimentar a ideia errônea de que apenas a religião islâmica fomenta esse tipo de radicalismo contra as mulheres, vale a pena olharmos o atual caso da Hungria. Após dois períodos governados pelo partido socialista, desde 2010 o primeiro-ministro desse país é o líder da extrema-direita Viktor Orbán. Seu governo, marcado por medidas autoritárias e antidemocráticas, vem chamando cada vez mais a atenção da imprensa internacional, inclusive pela invenção do termo “democracia iliberal” para definir a sua proposta (e prática) para a Hungria. Contudo, um decreto do mês de outubro de 2018 trouxe Orbán de volta aos principais jornais da Europa e dos EUA por banir os Estudos de Gênero (Gender Studies) das universidades húngaras e cancelar seus credenciamentos e verbas. O argumento apontado pelo porta-voz do primeiro-ministro, segundo o jornal britânico The Independent, é que “as pessoas nascem ou homens ou mulheres, e nós não consideramos aceitável falar em gêneros socialmente construídos ao invés de sexos biológicos”.

A Central European University (CEU), uma das melhores universidades do leste Europeu e localizada em Budapeste, é uma das instituições que oferece cursos na área de Estudos de Gênero que foi diretamente afetada pelo decreto. Além da questão de gênero, a CEU também vem sofrendo um ataque à sua liberdade de cátedra a respeito de estudos sobre imigração, já que o partido de Orbán, antissemita e xenófobo, explorou à exaustão o medo dos imigrantes e a xenofobia na sua campanha de eleição. Somados ao pacote estão a perseguição pessoal de Orbán a um dos fundadores da CEU, George Soros (judeu sobrevivente da perseguição nazista) e as medidas de seu governo para dificultar o registro internacional da CEU (base de sua missão). O resultado: em 25 de outubro de 2018 a CEU anunciou que vai deixar o país e, a partir do ano letivo de 2019-2020, os alunos que se matricularem em seus cursos internacionais vão estudar em Viena, na Áustria. Para aqueles que têm interesse em demonstrar solidariedade à CEU, o site da universidade explica o contexto de perseguição e os motivos da decisão e pede apoio com a hashtag #istandwithCEU. Ironicamente, a CEU foi criada com o fim da União Soviética exatamente para ajudar na transição da Hungria, e do leste europeu como um todo, para que esses países construíssem nações democráticas e comprometidas com as liberdades individuais, o diálogo e os direitos humanos. Não durou trinta anos.

CEU

Alunos da CEU protestando contra a perseguição de Órban. No cartaz, uma pergunta essencial: “Sou uma estudante. Eu assusto você também?” . Fonte: https://zmk.blogactiv.eu/2017/04/14/lets-stop-budapest-for-hungary-but-by-hungarians/ 

No Brasil, além do famigerado “kit gay”, que dispensa explicações, já tivemos em 2016 o caso da historiadora e professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Marlene de Fáveri, que foi processada por uma ex-orientanda de mestrado que dizia sofrer perseguição ideológica por ser cristã e antifeminista. Essa ex-aluna acaba de ser eleita Deputada Estadual para Santa Catarina e já publicou um chamado para crianças e adolescentes filmarem seus professores para denunciar casos de “manifestação político-partidárias”. Está claro que os defensores da lei da Escola sem Partido, que ganha força e respaldo com o novo governo de Bolsonaro e com as diretrizes do Ministro da Educação (tanto o atual, Weintraub, quanto o derrubado, Vélez), vão atacar não só disciplinas e professores tachados de “comunistas” ou de “esquerda”, mas obviamente qualquer iniciativa relacionada à questão de gênero, à luta contra a homofobia, etc. A princípio imagina-se que as escolas de Ensino Fundamental e Médio serão as mais afetadas por essa mordaça que se aproxima (e, por consequência, o desenvolvimento de uma sociedade mais tolerante e igualitária), mas os casos da Hungria e da professora Fáveri, além do recente corte de verbas das universidades e institutos federais, indicam que o ensino superior, em especial as universidades públicas, certamente sofrerão com esse tipo de cerceamento, assim como as pesquisas (e pesquisador@s) relacionadas ao Gender Studies e Queer Studies.  As nossas universidades, porém, não têm a possibilidade de fazer como a CEU e realocar seus campi, o que torna a nossa resistência (e espaços como esse blog) essencial.

Ninguém solta a mão de ninguém.

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Efeito Matilda: o preconceito de Gênero na Ciência

Historicamente, a Ciência foi construída como uma área de domínio masculino. No entanto, muitas mulheres participaram da construção do que conhecemos hoje como Ciência. Contudo, muitas vezes, essas mulheres foram deliberadamente esquecidas. O Efeito Matilda é um fenômeno social que descreve isso.

Este fenômeno ocorre quando o trabalho de uma mulher é reconhecido (publicado, premiado, referenciado) como de um homem, seja porque sua contribuição (parceria e coautoria) foi desconsiderada ou omitida.Diversos relatos históricos vieram à tona mostrando que muitas mulheres ficaram na sombra de seus colegas, parceiros e cônjuges.

O Efeito Matilda continua ocorrendo atualmente e por isso é importante falarmos sobre ele. Segundo uma pesquisa realizada pela conceituada editora de artigos científicos, a Elsevier, mulheres tendem a deixar chefias e cargos de pesquisador principal para colegas homem. O pesquisador homem teria maior credibilidade e aceitabilidade no meio científico, favorecendo a obtenção de subsídios e outros incentivos. Dados dessa pesquisa foram descritos com mais detalhes nos textos aqui do blog:  Igualdade de gênero na ciência brasileira e Fulano et. al na verdade é mulher.

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Fonte Twitter @minasnahistória. Imagem disponível em: https://twitter.com/minasnahistoria/status/715935067684659201

Esse fenômeno da supressão da participação feminina na Ciência foi descrito em 1968, por Robert Merton, como “Efeito Matthew”, uma referência à passagem bíblica de Mateus 13:12:

“Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado.”

No entanto, o trabalho de Margaret R. Rossiter, publicado em 1993, na revista Social Studies of Science, consagrou o termo como “Efeito Matilda”. A escolha do nome foi uma homenagem a sufragista americana, escritora e crítica feminista Matilda Joslyn Gage (1826 – 1898) de Nova York. A própria Matilda sofreu e vivenciou esse fenômeno social. Ela se dedicou a defender os direitos das mulheres. Participou em convenções públicas em uma época que poucas mulheres eram ouvidas, e chegou a defender o voto feminino, no Congresso Americano.

O efeito Matilda fez com que muitas mulheres fossem condenadas as sombras. Trabalhos importantes, como o de Rosalind Franklin – contribuições na descoberta da estrutura do DNA – foram eternizados com nomes de outros colaboradores homens, como Watson e Crick. Isso ocorre desde a época medieval, onde sabemos que mulheres eram médicas, líderes, curandeiras, parteiras, filósofas. Porém, muitas vezes seus conhecimentos foram julgados, condenados e atribuídos a outros homens. Que outras mulheres deveríamos conhecer melhor?

Se não fosse o Efeito Matilda, que mulheres conheceríamos melhor?

Trótula de Salerno: No século XI, Trótula foi uma importante mulher na história da Medicina. Ela estudou doenças femininas e deixou vários escritos. Tótula foi estudante e professora de um dos primeiros centros médicos de ensino não ligados à Igreja. A Escola de Salerno foi a primeira a permitir o livre acesso da mulher ao ensino. No entanto, no século XII, ao reescrever escritos antigos, um monge, achando que “aquilo deveria ser escrito por um homem”, modificou o nome de Trótula para parecer masculino. No século XX, um historiador alemão reduziu Trótula a uma parteira, negando seus estudos conduzidos.

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Imagem disponível em mujeresconciencia.com

Maria Goeppert-Mayer: Física teórica, recebeu, junto com Eugene Paul Wigner e J. Hans D. Jensen, o Nobel de Física em 1963, por propor um novo modelo do envoltório do núcleo atômico. Foi a segunda mulher a ser laureada nesta categoria do Nobel. A primeira foi Marie Curie. Apesar da importância do seu trabalho na Universidade de Chicago, onde desenvolveu sua pesquisa no período de 1947 a 1949, ela era considerada uma professora “voluntária” não remunerada. Mesmo com seu currículo e reputação, teve dificuldade de conseguir ser contratada como professora na Alemanha e nos Estados Unidos.

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Imagem disponível em https://www.atomicheritage.org/profile/maria-goeppert-mayer

Agnes Pockels: pioneira química alemã desenvolveu em 1890 um conjunto de observações sobre tensão superficial da água. Ela enviou suas anotações para o colega inglês, Lorde Rayleigh, que desenvolveu a teoria sobre este tema. No entanto, o crédito da descoberta é frequentemente dado apenas a Rayleigh. Agnes teve a ideia da teoria enquanto lavava a louça, e observou que as sujidades maiores rompiam a tensão da água. Lorde Rayleigh publicou individualmente o primeiro artigo sobre o tema, apesar de ter lido o trabalho de Agnes antes.

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Imagem disponível em: https://www.chemistryworld.com/opinion/pockels-trough/8574.article

Nettie Maria Stevens: geneticista americana, nascida em 1861. Estudou em Stanford, onde se formou como a melhor aluna da turma. Em conjunto com Edmund Wilson, descreveram a base genética e cromossômica da definição do sexo em humanos. Nettie Stevens observou que o cromossomo feminino era maior que o masculino (X e Y). Apesar de sua coautoria, nos livros didáticos apenas Wilson é mencionado.

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Se entre colegas, o Efeito Matilda é aparente, o que pensar daquela relação entre cônjuges? Muitos dos estudos desenvolvidos por cientistas homens, contaram com a participação ativa de suas esposas, no entanto essas raramente são mencionadas. Hertha e W.E Ayrton eram um casal de físicos britânicos. Hertha publicou seus estudos no nome do marido, mesmo quando o mesmo já estava doente, pois os mesmos seriam mais bem aceitos dessa forma. Ruth Hubbard e George Wald eram bioquímicos que trabalhavam com temas semelhantes, e após se casarem passaram a trabalhar juntos. No entanto, todo o trabalho de Ruth anterior ao casamento, foi atribuído ao marido, que ganhou um Nobel em 1967. Isabela Karle, cristalógrafa, trabalhou mais de 50 anos com seu marido, no entanto, em 1985, Jerome Karle ganhou um Nobel de Química compartilhado com outro colega químico, sem menção à esposa.

Os homens eram uma maioria esmagadora na ciência, hoje, nós mulheres somos cerca de 40% de todos os pesquisadores. No entanto, é importante conhecer esses fenômenos sociais para nos mantermos alertas e lutar pelo nosso devido reconhecimento. E também reconhecer essas cientistas que foram injustiçadas em sua época.

O devido crédito a quem o merece, é só o que pedimos.

Referências:
Margaret W. Rossiter. The Mathew Matilda Effect in Science. Social Studies of Science, Vol. 23, No. 2 (May, 1993), pp. 325-341

Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”, disponível em: https://www.elsevier.com/__data/assets/pdf_file/0008/265661/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf

 

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Fulano, et al. na verdade é mulher: ciência, gênero e produção científica

Pegue um artigo aleatório, qualquer um…

Por exemplo, uma das referências desse texto é Leta, et al., e é assim que somos conhecidos no meio científico, pelos nossos sobrenomes. O uso apenas do sobrenome despersonaliza o autor (ou autora) e nos distancia do público leigo. Isso prejudica as mulheres, especialmente, já que é impossível saber a identidade sexual pelo sobrenome, e dessa forma ficamos escondidas atrás de um nome. Assim como o sonho, o direito e a capacidade de ser uma cientista, a mulher também deseja ser reconhecida e publicar seus artigos. Mas qual a nossa situação nesse ponto?

Como biomédica sempre envolta na área da Saúde – uma das áreas com maior equidade de gêneros, tive a sorte de conhecer muitas mulheres influentes na ciência, a reitora da minha faculdade, minhas professoras prediletas, minha orientadora da iniciação científica, TCC, mestrado, minha nova orientadora de doutorado, chefes e colegas de laboratório. São todas mulheres que vivem nessa batalha que é ser cientista, e sabemos que um dos nossos principais desafios são as publicações. Atualmente, a produção científica é a principal medida de qualidade do pesquisador.

Quantos artigos publicou? Em que revistas? São indexadas? Foi primeiro autor? Quantas citações? Etc, Etc, Etc…

Esse tipo de análise não é de hoje, o primeiro estudo nesse sentido foi em 1917, e essa forma de avaliação foi chamada de bibliometria, ou seja, somos avaliados por aquilo que publicamos. De uma maneira geral, os números dizem que nós mulheres publicamos menos que os homens, e logo seríamos menos produtivas. Mas essa análise não é tão simples assim…

A ciência nasceu como um ramo dos homens. Nos séculos XV, XVI e XVII algumas poucas mulheres bem nascidas, aristocratas, podiam atuar como interlocutoras de pensadores renomados.  Mas, essas mulheres não podiam fazer parte da discussão em si, ignorando que quanto maior a diversidade de um grupo, maior será a riqueza de sua discussão. A mudança dessa realidade começa apenas na segunda metade do século XX, com a grande demanda de recursos humanos na área de ciências e tecnologia e com o fortalecimento da luta pela igualdade entre homens e mulheres. Começa-se a questionar a produção científica feita por mulheres apenas por volta de 1970, e um dos primeiros artigos sobre o tema foi publicado por Alice Rossi, em 1965, que fez um levantamento do número de mulheres que trabalhavam em C&T (Ciências em Tecnologia) nos Estados Unidos, no período de 1950-1960. Muitos tentam, até hoje, justificar a menor participação feminina nas áreas de C&T e nas publicações científicas com estereótipos, dizendo que a mulher tem maior prioridade no casamento e no cuidado dos filhos, o que levaria a menor produtividade. Esse tipo de estereótipo pode desestimular muitas mulheres a investirem em sua formação.

As portas da C&T têm lentamente  sido abertas pelas mulheres, com grande crescimento da nossa representação nas universidades, onde em alguns cursos nos tornamos maioria, como é o caso das áreas biológicas, da saúde e da educação. Avanço que apesar de positivo, demonstra como as mulheres podem ser orientadas a áreas que envolvem o cuidado e que remetem ao estereótipo de esposa que cuida e educa. A área com menor concentração de mulheres continua sendo a Física e Matemática, cerca de 25%, enquanto que na educação chegamos a quase 70%, fenômeno conhecido como gender tracking. E apesar do aumento do número de mulheres que entram na pós-graduação, esse aumento não foi acompanhado com a mesma intensidade na obtenção de títulos, já que a taxa de evasão de mulheres na pós-graduação é maior do que a dos homens, e um dos grandes problemas citados é a relação com o orientador. Alguns professores universitários relatam preferir trabalhar com homens para evitar “distrações”, segundo depoimentos descritos por Léa Velho e Elena León, em seus estudos sobre a produção científica feminina.

 Mesmo com avanços significativos, o quadro ainda se apresenta como um funil, somos muitas nas graduações, algumas entre os professores, um número ainda menor entre pesquisadores líderes, e raras entre os cargos de direção e chefia. Existe uma tendência à estagnação da carreira da mulher, permanecendo em patamares inferiores. Com o avanço da carreira, a mulher encontra cada vez mais dificuldades em progredir e ascender aos níveis mais altos da academia. Por exemplo, após os anos 2000, na Academia Brasileira de Ciências, dentre os acadêmicos titulares apenas 10% eram mulheres, enquanto que entre os associados, 40% eram do sexo feminino. No Reino Unido, para cada professora universitária que atinge o topo da sua carreira científica, dez homens conseguem o mesmo feito.

Um estudo feito na Canadá por Holly O. Witteman e cols. comparou a taxa de sucesso de obtenção de subsídio financeiro para projetos de pesquisa de pesquisadores principais homens e pesquisadoras principais mulheres. O estudo demonstrou que quando se compara a qualidade dos projetos, os homens têm apenas 0,9% de chance a mais de conseguirem a verba para seus projetos do que as mulheres, no entanto, quando os mesmos projetos são avaliados de acordo com o currículo do investigador principal, os homens têm 4% de chance a mais do que as mulheres de ganharem o edital. Se a qualidade dos projetos não é significativamente diferente, porque homens têm mais chances de terem seus projetos aprovados? Isso demonstra que mesmo com menos títulos e menos publicações, as mulheres possuem tanto potencial quanto os homens, no entanto precisamos abrir espaço nos níveis mais altos da carreira para elas.

 Outra explicação para isso é a existência do Fenômeno Matilda, no qual as mulheres optariam por ceder os cargos de chefia para cientistas mais titulados (homens) para atrair mais recursos para as suas pesquisas e garantir um meio de trabalho mais harmonioso.  Na UNESP, as mulheres representam 49% do corpo docente, mas são responsáveis apenas por 46% das produções científicas. As dificuldades da mulher em crescer na carreira científica refletem na sua produção científica, ao mesmo tempo em que com menos produção, surgem menos oportunidades, em um círculo vicioso.

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Estamos todos com a Cristina Yang (personagem da série Grey’s Anatomy)! E leia também nossos artigos, obrigada.

A Elsevier publicou um grande estudo intitulado “Gender in the Global Research Landscape” que analisa como o gênero afeta a vida do pesquisador, com dados de 20 anos, 12 países, e 27 áreas diferentes. Como podemos ver no texto, Igualdade de gênero na ciência brasileira aqui do blog, o Brasil, e também Portugal, ficaram bem na foto! Os dois países aparecem como os com maior igualdade de gênero dentro da C&T, onde nós mulheres somos 49% dos recursos humanos. Mas esse estudo traz muitos outros dados interessantes.

Esse estudo demonstra que a participação feminina aumentou ao longo do tempo em todos os países avaliados, sendo que na maioria dos locais, as mulheres representam 40% dos cientistas e inventores. Esse número cai bastante quando falamos do registro de patentes, onde somos apenas 15%. Comparativamente, mulheres participam menos do que os homens em projetos internacionais e também viajam menos a trabalho, o que pode ser um reflexo das menores posições que ocupam nos grupos de pesquisa e nos cargos acadêmicos.

Cerca de 70% da produção científica produzida até hoje é de autoria de homens, o que reflete séculos de desigualdades. No entanto, veja algo curioso: as mulheres realmente publicam menos do que os homens, mas não há evidências que isso impacte em suas carreiras científicas ou na qualidade do seu trabalho. Quando analisamos o fator Field-Weighted (reflete o número de citações) dos autores, mulheres e homens alcançam números muito semelhantes, o que reflete o alcance da literatura produzida pelas cientistas mulheres, apesar de terem menos títulos, suas publicações têm impactos semelhantes. Uma publicação científica é contada para avaliação do seu autor, mas existem características que lhe dão diferentes pesos, como o alcance e qualidade da revista onde foi publicada, o número de citações e significância dos resultados. É sempre importante lembrar que qualidade deve vir antes de quantidade! Inclusive o estudo demonstrou que mulheres publicam mais sobre interdisciplinaridade, ou seja, apresentam mais aplicações e correlações dos seus dados com o contexto no qual estão inseridos.

Dentre os artigos mais citados em 2014, 13% são de autoria de mulheres, se considerarmos apenas as áreas de engenharia, esse número cai para 3,7%, e se olharmos para a área de ciências sociais, sobe para 31%. Entre 2011-2015, em Portugal, cerca de 20% das publicações, e 26% na Dinamarca, em revistas da área de Medicina, foram feitas por mulheres. Em geral, o primeiro autor de um artigo é aquele que possui a maior responsabilidade e contribuição sobre este, e as mulheres representam 35% dos primeiros autores das publicações, com variações em diferentes áreas.

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Produção científica por autor, período de 1996-2000 e 2011-2015, por país e sexo. Em roxo a produção de mulheres e em verde a produção de homens. Imagem de Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”.

 

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Medida do impacto das publicações de homens e mulheres.  Imagem de Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”.

Mesmo com séculos de desigualdade, sendo minoria entre os pesquisadores e entre as publicações científicas, temos feito grande diferença, através de grande perseverança e luta, mostrando que somos significativas, que somos impactantes, que somos brilhantes! Publicamos menos, mas quando analisamos uma autora individualmente suas publicações são tão relevantes quanto as de qualquer outro homem. Isso deveria ser suficiente para que se pare de falar em improdutividade e inferioridade do trabalho das cientistas mulheres, troque essas palavras por OPORTUNIDADE, e faremos bom uso dela!

Se no século XV a ideia de uma cientista mulher era ridícula, hoje somos 40% desse mundo. Isso mostra, que a luta, mesmo que árdua, vale a pena.

Referências:

JACQUELINE LETA As mulheres na ciência brasileira: crescimento, contrastes e um perfil de sucesso.. ESTUDOS AVANÇADOS 17 (49), 2003

Renan Carvalho Ramos e Samara Pereira Tedeschi A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA DA UNESP, CAMPUS DE RIO CLARO Caderno Espaço Feminino – Uberlândia-MG – v. 28, n. 1 – Jan./Jun. 2015 – ISSN online 1981-3082

LEA VELHO, ELENA LEÓN. A CONSTRUÇÃO SOCIAL DAPRODUÇÃO CIENTÍFICA POR

MULHERES. Cadernos pagu (10) 1998: pp.309-344.

Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”, disponível em: https://www.elsevier.com/__data/assets/pdf_file/0008/265661/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf

Witteman, H. O., Hendricks, M., Straus, S. & Tannenbaum, C. Female grant applicants are equally successful when peer reviewers assess the science, but not when they assess the scientist. Preprint at bioRxiv http://dx.doi.org/10.1101/232868 (2018).

 

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Brasileirxs e brasileires: um ponto de vista da linguística sobre gênero neutro

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Fonte: elaborado pela autora.

Ao longo do primeiro semestre do ano de 2015 tornou-se notícia na mídia de diversos países a inclusão do pronome de gênero neutro “hen” ao Dicionário da Academia Sueca. Tal pronome é uma alternativa neutra às opções de pronome feminino (hon) e masculino (han) existentes na língua sueca e teria sido proposto pela primeira vez em meados dos anos 1960 por ativistas pelos direitos das mulheres, embora só tenha passado a ter maior visibilidade na última década. Apesar das opiniões a respeito do uso do pronome ainda variarem bastante, atualmente é possível encontrá-lo em diversos textos acadêmicos e jornalísticos, além de ser usado em situações cotidianas de comunicação entre alguns falantes, desvencilhando-se assim da conotação que carregava anteriormente por ser utilizado apenas por grupos ativistas.

O sueco, assim como o dinamarquês, tinha historicamente três gêneros (como o então alemão moderno), contando com masculino, feminino e neutro, entretanto, ao longo de seu processo de dialetação durante a Idade Média, perdeu o gênero neutro. Na língua sueca há dois pronomes similares ao pronome em inglês “it”: “den” e “det” que são de gêneros neutros no sentido de não se referirem às categorias de masculino ou feminino, no entanto, raramente são utilizados para se referir a seres humanos (PETTERSSON, 1996).

A Universidade de Tenessee, nos Estados Unidos, produziu uma nota oficial sugerindo que seus alunos passassem a fazer uso das palavras “ze”, “hir”,“hirs”, “ xe”, “xem” e “xyr” no lugar do uso dos pronomes “it” (pronome neutro comumente utilizado para se referir a animais ou objetos) “he” (ele), “she” (ela), “they” (eles/elas) e suas consequentes conjugações. Segundo representantes da universidade, o objetivo dessa ação é fazer com que pessoas que não se identificam com o binarismo de gênero feminino x masculino tenham suas identidades respeitadas por meio de uma linguagem mais inclusiva.

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Fonte: WKRN Portal

Todavia, além de propor uma alteração mais custosa do que a inclusão do gênero neutro no sueco, tendo em vista a alteração de todos os pronomes existentes na língua inglesa, até o momento, o uso dessas nomenclaturas parece permanecer restrito a comunidades muito específicas, interessadas diretamente na temática das identidades de gênero. Existe, no entanto, um pronome utilizado regularmente por diversos falantes da língua inglesa em situações em que não se sabe o gênero da pessoa a quem se refere ou se escolhe omitir essa informação, o pronome “they” conjugado no singular. Utilizado nos mais diversos gêneros de produção textual, como os midiáticos e acadêmicos, e nas mais diversas situações de comunicação cotidiana, seu uso na maior parte das vezes está desvencilhado de um projeto ideológico mais específico (como o feminismo, por exemplo) e se encontra relativamente consolidado no repertório de parte considerável da comunidade de falantes. Isto é, os falantes fazem uso dessa opção sem necessariamente pensar a respeito dela, pois é um pronome de uso comum.

Diferentemente das línguas de origem germânica, como o sueco e o inglês, as línguas latinas tem a flexão de gênero como traço semântico inerente aos substantivos, sendo o gênero demarcado pela vogal temática (a/o) e/ou artigo (a/o). Devido ao fato de que todo sintagma nominal sempre será conjugado em conformidade com o gênero, a incorporação de um gênero neutro na língua portuguesa pode ser um processo mais custoso do que nas línguas em que a flexão de gênero não altera necessariamente os substantivos e adjetivos (como é o caso de algumas línguas germânicas, que mesmo entre si apresentam diferenças relevantes nesse sentido, como no caso do inglês, que sofreu forte influência do latim).

No latim havia três gêneros flexionais, o feminino, o masculino e o neutro. Entretanto, no processo de dialetação do latim para as línguas românicas ocorreu uma simplificação da declinação nominal que ocasionou no desaparecimento de muitas das suas formas, e a supressão do gênero neutro, reduzindo o gênero a dois, foi uma delas. Parte das hipóteses a respeito desse fenômeno explica que isso ocorreu devido à confusão com o gênero masculino dos casos nominativo, vocativo e acusativo que possuíam terminações idênticas para ambos os gêneros. Além da confusão morfológica, também teria acontecido uma confusão fonética pela queda, no latim vulgar, dos –s e –m finais nas palavras. Devido a essa razão, não era mais possível distinguir as formas masculinas cantu(s) e hortu(s), das neutras templu(m) e cornu(m) e, por analogia, essas palavras foram absorvidas para o grupo das masculinas. Da mesma maneira, as palavras terminadas em –a, no nominativo, vocativo e acusativo foram absorvidas pelo gênero feminino (MONARETTO; PIRES, 2012).

Dentre os tipos de palavras flexionadas por gênero gramatical, existe um subgrupo denominado por “tipo 2”, que consiste na categoria gramatical de gênero especificamente motivada pela correspondência entre gênero gramatical e sexo biológico. E embora possamos observar em cantigas medievais a frequente presença de palavras no português arcaico como “senhor” e “pastor” se referindo tanto ao gênero masculino como feminino, a identificação do gênero correspondente se dava pela concordância com um determinante, com um quantificador, com um qualificador, ou, ainda, com elementos não exclusivos dos nomes (idem). Ou seja, nesses casos, algum outro elemento gramatical do enunciado demarcava o gênero feminino ou masculino.

Diante dessas características do português e de uma crescente demanda pela construção de alternativas linguísticas possivelmente mais inclusivas no quesito de gênero, começa a surgir nos textos de movimentos sociais e de alguns grupos de jovens nas redes sociais, o uso de determinadas grafias em busca de uma linguagem com gênero mais neutro. As três grafias mais utilizadas são aquelas em que se substituiria a vogal temática por “@”, por “x” ou por “e”. Respectivamente:

(1) Entidade representativa d@s graduand@s de RI-UFPB, perante o movimento estudantil. Sua função primordial é dialogar com @s estudantes (…)
– trecho retirado da página do Centro Acadêmico de Relações Internacionais da UFPB
 (2) Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs
– trecho retirado do site Contra Infro, blog de mídia independente
(3) Uso da vogal “e” ao invés de “o” ou “a” no final de palavras como adjetivos.
Exemplos de uso: Lindo(a) = linde; querido(a) = queride; todos(as) = todes; menino(a) = menine; cansado(a) = cansade.
Substituição dos pronomes possessivos “meu(s)” ou “minha(s)” pelos pronomes não-binários “mi(s)” ou “minhe(s)”
Exemplos de uso: minha namorada não tem nada contra isso. —> mi namorade não tem nada contra isso. / minhe namorade não tem nada contra isso.
– trecho retirado do texto “Guia para uma Linguagem Oral Não Binária ou Neutra (PT-BR) disponível no tumblr Espectromia Não Binária.

As construções do tipo (1), marcadas por “@”, parecem ter sido as primeiras a surgir e se assimilam a uma tentativa de marcação simultânea de masculino e feminino (como é possível observar por sua grafia, em que temos um “a” dentro de uma circunferência similar ao “o”). Já as construções do tipo (2), marcadas por “x”, omitem as vogais temáticas e parecem tentar neutralizar a conjugação de gênero. Ambas as grafias se assemelham no sentido de que só podem ocorrer na modalidade escrita, sendo não pronunciáveis no português falado. Além disso, elas dificultam a utilização de ledores (leitores automáticos para deficientes visuais). Justamente por essas razões parece surgir a grafia presente em construções como (3), em que as vogais temáticas são substituídas por “e”, tendo assim como “x” a função de omitir a demarcação de gênero masculino/feminino, mas sendo passível de pronúncia em língua oralizada.

Entretanto, como mencionado anteriormente, devido às características morfossintáticas da língua portuguesa, a construção de frases conjugadas a partir das propostas de gênero neutro aqui exemplificadas, implica em um processo espinhoso, pois depende da alteração de não apenas um item gramatical, mas sim da total adaptação dos sintagmas nominais. Mesmo partindo da proposta (3), pronunciável em língua falada, uma oração como “Minha professora é uma ótima pesquisadora” se tornaria algo como “Mi professore é ume ótime pesquisadore”.

A história de mudança e variação das línguas tem nos demonstrado que, embora alteremos e produzamos a língua a cada momento em que nos colocamos em uma situação de comunicação, as alterações mais profundas de suas características estruturais se dão de acordo com as transformações histórico-sociais, por meio de um processo longo e contínuo.

Dessa forma, a tentativa de institucionalização de uma mudança linguística só pode funcionar se as condições de vida e a produção de necessidades e valores sociais dos falantes forem compatíveis com essa mudança, de modo com que essas práticas já sejam existentes na vida cotidiana de forma expressiva. Vale dizer, contudo, que, como discutido por Severo e Mader (2015), essas alternativas, assim como o aumento do uso de “presidenta” (marcando o gênero feminino, no lugar de “presidente” como forma genérica) instauram variabilidade em um contexto tradicionalmente considerado na linguística como menos propenso à variação e faz emergir novas formas linguísticas com fins de delimitação identitária, marcando a existência de sujeitos não-masculinos (que é um outro jeito de dizer: todas aquelas pessoas que não sejam homens).

Como uma alternativa mais acessível do que aquelas mencionadas aqui, sugiro a leitura do Capítulo 5 do Manual para o uso não sexista da linguagem, publicado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul e disponível para consulta online.

Abordando outros aspectos também relevantes dessa questão, sugiro o vídeo a seguir:

Referências

FREITAS, M. A. O “x” da questão: gênero neutro como ato ético e estético? In: Palavras e Contrapalavras: cortejando a vida no cotidiano.  Pedro & João Editores: São Carlos-SP, 2015.

MADER, G. R. C., SEVERO, C. G. Sexismo e políticas linguísticas de gênero. In: Raquel Meister Ko. Freitag; Cristine Gorski Severo; Edair Maria Görski. (Org.). Sociolinguística e Política Linguística: Olhares Contemporâneos. 1ed.São Paulo: Blucher Open Acess, 2016, v. 1, p. 245-260

MONARETTO, V. N. O. ; PIRES, C. C. . O que aconteceu com o gênero neutro latino? Revista Mundo Antigo , v. I, p. 155-172, 2012.

PETTERSSON, G. Svenska språket under sjuhundra år: En historia om svenskan och dess utforskande. Studentlitteratur, 2005.

Centro acadêmico de relações internacionais celso amorim (CARICA). Disponível em: <http://www.ccsa.ufpb.br/dri/ensino-graduacao-em-ri/entidades-estudantis/&gt;. Acesso em 03 out 2015.

Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs. Disponível em: <http://pt.contrainfo.espiv.net/2015/09/02/desde-brasil-porto-alegre-pixacoes-em-solidariedade-com-xs-anarquistas-presxs/&gt;.

Guia para a linguagem oral não-binária ou neutra (PT-BR). Disponível em: <http://espectrometria-nao-binaria.tumblr.com/post/95838656403/guia-para-a-linguagem-oral-n%C3%A3o-bin%C3%A1ria-ou-neutra&gt;.

Manual para uso não sexista da linguagem. Disponível em <http://www.spm.rs.gov.br/upload/1407514791_Manual%20para%20uso%20n%C3%A3o%20sexista%20da%20linguagem.pdf&gt;.

Sweden adds gender-neutral pronoun to dictionary. Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2015/mar/24/sweden-adds-gender-neutral-pronoun-to-dictionary&gt;.

UT Knoxville encourages students to use gender-neutral pronouns. Disponível em: <http://wkrn.com/2015/08/27/ut-knoxville-encourages-students-to-use-gender-neutral-pronouns/&gt;.