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Vamos falar sobre fogo?

Se você passou o olho em qualquer site de notícias ou rede social nas últimas semanas, certamente você se deparou com algo sobre a grande queimada que continua acontecendo na floresta amazônica. Apesar das diversas “opiniões” sobre quem colocou fogo, quem deve apagar o fogo, etc, uma coisa é unânime: o fogo na floresta não é bom. O que acontece durante e depois do fogo que pode afetar nossas vidas?

 

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Figura 1: Incêndio que acomete a região amazônica. Fonte: Fernando Frazão/ABr

Durante:

Para quem vive perto da floresta os efeitos imediatos são mais pronunciados. De acordo com um estudo publicado em 2002 por pesquisadores da Universidade de São Paulo, os efeitos diretos na saúde da população incluem infecções do sistema respiratório superior, asma, conjuntivite, bronquite, irritação dos olhos e garganta, tosse, falta de ar, nariz entupido, vermelhidão e alergia na pele, e desordens cardiovasculares.

Durante a queima da floresta há também uma grande liberação de gases responsáveis pelo efeito estufa, já que todo o bioma serve como um reservatório retirando da atmosfera esses gases tóxicos. A liberação desses gases tem efeitos no meio ambiente em longo prazo, mas também afeta indivíduos a curto prazo. Estudos nos EUA indicam que uma das grandes causas de envenenamento por monóxido de carbono é devido aos incêndios florestais que acontecem na região (Varon et al., 1999).

Além dos efeitos diretos na saúde, ainda há efeitos sociais e econômicos que afetam toda a população que mora na região como a drástica redução da visibilidade, fechamento de aeroportos e escolas, aumento de acidentes de tráfego, destruição da biota pelo fogo, diminuição da produtividade e restrição das atividades de lazer e de trabalho.

Devido a proporção dos incêndios que estão acontecendo na Amazônia foi possível constatar de maneira clara que estes efeitos imediatos podem acometer não só quem vive próximo a floresta, mas também quem está a muitos quilômetros de distância. Foi o que vimos acontecer quando o dia escureceu em São Paulo.

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Figura 2: São Paulo no dia 19/08/2019 por volta das 16h. Fonte: Correio Brasiliense.

De acordo com meteorologistas, a escuridão se deu por conta do excesso de poluição urbana que foi agravado pelas fumaças trazidas do norte do Brasil e Bolívia por conta da queima da floresta nessas regiões. Pesquisadores da USP também detectaram substâncias na água da chuva de São Paulo que são originadas somente quando há queima de biomassa, ou seja, um incêndio florestal.

Apesar dos efeitos durante as queimadas afetarem uma quantidade significativa de indivíduos, os efeitos mais pronunciados e graves ainda estão por vir.

Depois:

Aqui é importante ressaltar que não importa onde você vive, se perto ou longe da floresta, você será afetado. Incêndios da proporção dos que estão ocorrendo na Amazônia (e pelos mesmos motivos) não são uma exclusividade do Brasil. Infelizmente acontecem em diversas regiões do globo e todos nós temos que dividir a conta.

Para começar, temos que considerar o atual estado climático e como isso afeta a floresta. Um grupo de cientistas de universidades americanas publicou esse ano um artigo revelando um efeito muito preocupante. Por causa das mudanças atmosféricas e de temperatura já causadas pela mudança climática em curso, está ficando cada vez mais difícil para as florestas se recuperarem após queimadas. Ao contrário de alguns biomas como o cerrado, no qual a vegetação possui adaptações para sobreviver e se recuperar após queimadas, a vegetação das florestas não possui proteção contra fogo simplesmente porque o fogo nessas áreas não é um evento natural. Por causa disso, a disponibilidade de sementes viáveis após a ocorrência de um incêndio é muito baixa, diminuindo a possibilidade de recuperação da vegetação. Além disso, mesmo que algumas sementes consigam resistir, o crescimento da vegetação é afetado por condições atmosféricas e climáticas que estão sendo alteradas por conta da crise climática. O resultado disso, de acordo com esse estudo, é uma probabilidade cada vez maior de áreas de florestas que foram incendiadas não consigam retornar ao seu estágio inicial.

Outro estudo realizado por cientistas australianos também traz más notícias: O tempo de regeneração do solo após queimadas é muito maior do que se esperava. Inicialmente se imaginava que o solo poderia se recuperar após um evento de queimada em aproximadamente 10 ou 15 anos. Os cientistas ficaram surpresos ao constatar que esse tempo pode ser de até 80 anos. Por conta da temperatura a que o solo é submetido, a perda de nutrientes é muito severa e a recuperação se torna lenta.

Ambas as consequências de incêndios acabam gerando um ciclo vicioso perverso: uma área é incendiada, libera gases do efeito estufa durante a queima, aumenta os efeitos de mudanças climáticas, não se reconstitui e deixa de absorver gases que aumentam os efeitos de mudanças climáticas, tornando o clima ainda mais severo.

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Figura 3: Efeitos do desmatamento na região amazônica na continuidade da floresta. Fonte: O Globo.

Não se esqueça de somar a esse cálculo as consequências que estamos acostumadas a ouvir: derretimento das geleiras, aumento de poluição e gases do efeito estufa, aumento da temperatura global, aumento do nível dos oceanos, acidificação dos oceanos e por ai vai…Tudo isso é consequência do desflorestamento, entre outros tantos motivos. Esse artigo aqui do blog explica diversos motivos pelos quais devemos manter as florestas intactas e quais as consequências se não preservarmos.

E qual é a solução?

Não existe uma solução, existem várias. Existe o que os governantes podem fazer, existe o que podemos fazer como indivíduos e comunidades. O que não pode existir é pensar que não podemos fazer nada. Uma pequena mudança de atitude já é uma mudança. Ler esse texto e se informar já são atitudes que geram mudança. Eu pensei em uma porção de conselhos que eu poderia dar, mas esses conselhos valem para mim, para a minha realidade. O que eu acho que seria mais interessante é cada um procurar o que pode ser feito de uma maneira prática de acordo com a sua realidade. As sugestões existem e, como eu disse, o que não vale é não fazer nada.

 

Referências:

Ribeiro H & Assunção, JV. (2002). Efeitos das queimadas na saúde humana. Estudos Avançados, 16(44), 125-148.

Bowd EL, Banks SC, Strong CL, Lindenmayer DB. (2019). Long-term impacts of wildfire and logging on forest soils. Nature Geoscience, 12: 113–118.

Australian National University. (2019). Forest soils need many decades to recover from fires and logging. ScienceDaily. Retrieved September 2, 2019.

Kimberley T. Davis, Solomon Z. Dobrowski, Philip E. Higuera, Zachary A. Holden, Thomas T. Veblen, Monica T. Rother, Sean A. Parks, Anna Sala, Marco P. Maneta. Wildfires and climate change push low-elevation forests across a critical climate threshold for tree regeneration. Proceedings of the National Academy of Sciences, 116 (13) 6193-6198.

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Nenhum pedacinho a menos! A importância de manter as florestas “intactas”

Apesar das crescentes taxas de desmatamento na Terra, as florestas ainda estão amplamente distribuídas, cobrindo um total de 40 milhões de km2, aproximadamente 25%, da superfície terrestre. Entretanto, destas florestas restantes, 82% estão atualmente degradadas de alguma forma, como resultado de ações humanas diretas, como exploração industrial, urbanização, agricultura e infraestrutura.

Um estudo publicado com 28 cientistas, em abril de 2018 na revista Nature [1], mostra a necessidade de identificar e preservar os ecossistemas naturais “intactos”, que são aqueles, conforme definição dos autores, livres de degradações significativas feitas pelo homem. Os cientistas mostraram que as florestas “intactas” são indispensáveis não só para conseguirmos frear as mudanças climáticas provocadas pela nossa espécie, mas também para barrar a crise da perda de biodiversidade do planeta, além de fornecerem serviços ecossistêmicos essenciais e permitirem a manutenção da saúde humana.

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Figura 1. Mapas da extensão das regiões de floresta intacta no mundo e graus de pegada humana (intervenção) nos ecossistemas florestais. (FONTE: Watson et al., 2018, traduzido para português).

Desde o ano de 1870, os processos de degradação das florestas foram responsáveis por 26% das emissões de CO2 atmosférico. As florestas intactas armazenam mais carbono que florestas derrubadas, degradadas ou plantadas em locais ecologicamente comparáveis. A explicação para isso é que a extração de madeira e a conversão de florestas em terras agrícolas causam grande erosão e contribuem para a perda de carbono subterrâneo, liberando o gás na atmosfera. Além disso, as florestas intactas contribuem com a complexidade da fauna nos ecossistemas e sequestram carbono ativamente em solos e biomassa viva.

Florestas intactas atuam na regulação do clima local e regional, além de atuarem na geração de chuvas e na prevenção de secas. Os autores demonstram que a degradação e perda de floresta intacta pode aumentar o número de dias secos e quentes, diminuir a intensidade das chuvas diárias e aumentar a duração da seca durante os anos do El Niño. Adicionalmente, a degradação das florestas podem afetar a disponibilidade de escoamento de água e a manutenção dos serviços hidrológicos.

A conservação da biodiversidade é outro fator importante para a preservação das florestas. Estes ambientes possuem maior número de espécies sensíveis, são importantes refúgios de animais e possuem maior diversidade genética e funcional do que os ambientes degradados [1]. Além disso, são ecossistemas com maior quantidade de funções para a sociedade, como a dispersão de sementes e serviços de polinização.

Pelo menos 250 milhões de pessoas no planeta vivem em florestas e, para muitas delas, suas identidades culturais estão profundamente enraizadas nas espécies de plantas e animais encontradas nestes ambientes. A fragmentação e degradação das florestas impede a manutenção dos hábitos e tradições dos povos da floresta, levando essas pessoas a estarem conectadas com os produtos provenientes da cidade para sobreviverem. Além disso, causam diversos impactos na saúde dessas pessoas, que são expostas à doenças e vetores das regiões externas à floresta. Nos dias atuais, existem evidências crescentes que o fortalecimento da posse da terra para os povos da floresta é uma maneira eficaz para proteger esses ambientes.

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Figura 2.  Comunidade indígena que vive isolada na Amazônia que foi fotografada pela primeira vez em setembro de 2016 (Foto: Guilherme Gnipper/Hutukara/Divulgação/G1).

Em relação aos benefícios a saúde humana, os ecossistemas florestais são importantes fontes de muitos compostos medicinais que fornecem medicamentos a milhões de pessoas em todo o mundo. Adicionalmente, florestas intactas reduzem os riscos de doenças infecciosas, como Ebola, dengue, zika vírus, vários hantavírus, febre amarela e malária. Assim, o maior índice de incidência dessas doenças endêmicas está relacionado à invasão e degradação das florestas decorrentes do aumento da presença humana nesses habitats.

Em relação ao Brasil, um grande problema atual é a permissão por parte do governo de classificar e autorizar o uso de áreas de florestas nativas impactadas como áreas que podem ser “exploradas”. Na Amazônia brasileira, 16% das áreas com permissão para utilização são desmatadas para agricultura no primeiro ano após a exploração, com perdas adicionais nessas áreas de mais de 5% ao ano nos próximos quatro anos. A taxa de queimadas nessas regiões é muito maior do que em outras áreas, e, além disso, o risco de invasão de espécies exóticas também é maior do que em florestas não-degradadas. Assim, a definição de uma área como “menos importante”, “degradada” ou “passível de modificação e/ou exploração” torna essas regiões mais propensas a serem desmatadas.

Apesar de todos esses benefícios indiscutíveis, é possível vislumbrar, ainda no atual século, um mundo com poucas ou nenhuma área de floresta intacta remanescente significativa. Em alguns anos, a humanidade provavelmente irá presenciar apenas florestas degradadas e danificadas, que irão precisar de restaurações caras e algumas vezes inviáveis, abertas a uma série de novas ameaças e sem a capacidade de suportarem as tensões das mudanças climáticas cada vez mais reais. Assim, existe uma necessidade urgente de maiores esforços de conservação das florestas em todo o mundo, e para isso a sociedade precisa entender a importância da conservação da integridade das florestas, bem como os valores sociais e ambientais provenientes destes ecossistemas.

 

Referências:

[1] Watson et al., The exceptional value of intact forest ecosystems. Nature: Ecology & Evolution, v. 2, p. 599–610, 2018.