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O masculino como neutro: a normalização da masculinidade

É provável que nenhuma outra frase proveniente da teoria feminista tenha se tornado tão famosa e motivo de tanta polêmica quanto “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, retirada da obra O Segundo Sexo (1949/2014), de Simone De Beauvoir. As discussões a respeito da socialização feminina e a negação da subjugação das mulheres como característica própria da natureza[1] humana se tornam cada dia mais expressivas em diversos âmbitos da sociedade. Trocando em miúdos, muito tem sido discutido sobre as regras explícitas e implícitas ensinadas às mulheres desde os primeiros anos de vida[2] e qual a relação desses construtos com a condição de subjugação. Parte-se do pressuposto de que, para combater a desigualdade, é necessário desestabilizar (destruir, de preferência) a crença de que mulheres são de determinada maneira e se encontram em condições sociais específicas porque assim nasceram para ser. Porém, em contrapartida às crescentes discussões sobre as que ocupam o lugar de subjugação em um sistema de desigualdade de gênero, pouco se debate sobre os que ocupariam nele o lugar de dominação e privilégio, os homens.

Cabe dizer, antes de tudo, que este texto não pretende relativizar a importância de manter as mulheres como foco de debate no feminismo. Muito ainda precisa ser conquistado para a emancipação das mulheres ao redor de todo o mundo e é de extrema urgência que nos organizemos em torno dessas questões, sendo nós mesmas agentes de transformação. Nesse sentido, o objetivo aqui não consiste em direcionar ao movimento feminista a responsabilidade pelo debate das questões relativas aos homens, mas sim destacar como, apesar da discussão a respeito do feminismo aos poucos vir conquistando lugar no espaço público, o silêncio a respeito das construções da masculinidade é sintoma da noção de masculino como sinônimo de neutro. Afinal de contas, diferente da mulher, que “não nasce”, mas “torna-se”, já nasceria o homem pronto?

Em seu livro Sexo e Temperamento (1935/1999), a antropóloga Margaret Mead trata de sua pesquisa em três das mais antigas sociedades da Nova Guiné: os arapesh, os mundugumor e os tchambuli.  Dentre os arapesh não existia muita diferença entre o temperamento dos gêneros, homens e mulheres eram dóceis, cooperativos, não agressivos e “maternais”. Os mundugumor também não apresentavam grande contraste de temperamento entre os gêneros, sendo ambos violentos e agressivos. Já dentre os tchambuli, havia uma diferença temperamental bastante marcada: a mulher era dominadora e impessoal, responsável pela administração da vida social, e o homem dependente e encarregado das atividades de cuidado. Diante dos achados de sua pesquisa, Mead chega então à conclusão de que os comportamentos tidos como femininos ou masculinos não são determinados por aspectos inatos, mas definidos e organizados na vida social.

Nesse sentido, a masculinidade, assim como a feminilidade, seria uma invenção. Esta invenção, contudo, não pode ser definida como algo criado do nada, absolutamente novo e sem uma história por trás. Ao longo do desenvolvimento das sociedades humanas a masculinidade foi construída de diferentes formas e trazer luz às suas mudanças de configuração é de crucial importância para entender tanto seu papel na organização social, quanto para superar uma visão essencialista que entende a definição do que é “ser homem” como algo estanque, homogêneo e “natural”.

Figura 1: o ex-presidente estadunidense Franklin Roosevelt,
por volta de 1884. Assim como vários outros garotos de sua época,
Franklin usa um vestido.
roosevelt
Fonte: Smithsonian Mag

Em seu artigo “A construção do masculinodominação das mulheres e homofobia”, o antropólogo Daniel Welzer-Lang argumenta que a estruturação do masculino se dá mediante a ideia de que, para ser um “(verdadeiro) homem”, os rapazes devem desde a infância eliminar todos os traços que poderiam associá-los às mulheres. Em suas palavras:

É verdade que na socialização masculina, para ser um homem, é necessário não ser associado a uma mulher. O feminino se torna até o pólo de rejeição central, o inimigo interior que deve ser combatido sob pena de ser também assimilado a uma mulher e ser (mal) tratado como tal (p. 6).

Tal socialização se daria principalmente nos espaços que Welzer-Lang vai chamar de “casa dos homens”. A expressão é advinda de um estudo realizado por Maurice Godelier (1982/1996) dentre os Baruya, povo da Nova Guiné. “Casa dos homens” consiste em um espaço proibido para as mulheres onde os mais jovens e fracos são associados ao feminino e, por isso, violentados de diversas maneiras. Nesse local os homens constroem a si mesmos e ao feminino (ali encarnado pelos mais novos) submetido por meio de violência ao masculino. Esse processo tem função pedagógica e é depois transposto para as relações entre os homens e mulheres, de modo que as mulheres passam a ser submetidas às regras de relação entre homens e mulheres definidas sem sua participação, em que “o masculino e os homens e o feminino e as mulheres aparecem como construídos por relações de violência entre homens” (CLIMACO, 2008).

Welzer-Lang considera que tal conceito é também útil para pensar as sociedades ocidentais, compostas por rituais de iniciação masculina em diversos espaços com dinâmicas similares àquelas descritas por Godelier. Esses espaços iriam desde os grupos de meninos na infância, em que ocorrem as primeiras compreensões sobre sexualidade e poder (como nas brincadeiras de “troca-troca”, em que um menino penetra o outro e aquele que, por ventura, for apenas penetrado é tido como inferior e em situação de desvantagem, pois a penetração já se apresenta como uma forma de exercício de poder), até os prostíbulos, bares, a relação entre os homens da família, a prisão, a política, dentre outros. Nesses espaços de socialização monossexual (em que só homens participam definindo seu funcionamento), os homens considerados desviantes das normas de masculinidade e, portanto, semelhantes em alguma medida ao feminino, são punidos com violência simbólica e física. Entretanto, mesmo os homens que passam por essas punições são ensinados a reproduzir esse sistema em suas relações com as mulheres, evidenciando que “o masculino é, ao mesmo tempo, submissão ao modelo e obtenção de privilégios do modelo” (WELZER-LANG, p. 5).

A socialização masculina, portanto, atua como um sistema de violência e submissão dentre os próprios homens, trazendo, por vezes, intenso sofrimento na construção de suas identidades. Todavia, ela é ainda mais violenta em seu direcionamento às mulheres, definidas de antemão como seres que devem existir em situação de subjugação em relação aos homens.

Nesse sentido, pensando nos homens que honestamente costumam interpelar suas amigas feministas sobre como poderiam contribuir no combate ao machismo, esboço aqui um apelo: para além da resposta óbvia de que não sejam abusivos com suas companheiras, não sejam violentos, não objetifiquem as mulheres, considerem-nas seres tão capazes de raciocínio quanto quaisquer outros, sugiro que os homens que se pretendem pró-feministas saiam de sua posição de conforto e passem a questionar a masculinidade, a historicizem, relativizem e a tornem não mais blindada.  Uma vez compreendendo-se como parte do sistema de dominação, é de essencial importância que os homens se assumam como atores de transformação de sua categoria e desafiem de dentro as estruturações da socialização em profundidade – não fundando um novo tipo de “clube dos homens”, e sim se abrindo ao verdadeiro diálogo com as mulheres, que foram historicamente excluídas desse processo, mas que, ao contrário dos homens, vêm há um amontoado de décadas repensando a si mesmas, então certamente terão algo a contribuir.

Referências e indicações

CLIMACO, Danilo. Das transformações da dominação masculina. Cad. Pagu,  Campinas,  n. 30, p. 437-443,  June  2008 .   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332008000100024&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em: 24 jul. 2017.

DE BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. Nova Fronteira, 2014. (1949).

MEAD, Margaret. Sexo e temperamento em três sociedades primitivas. Editora Perspectiva: São Paulo, 1999. (1935).

SESC TV. Filosofia pop: masculinidade. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=M8WgYfzxYaI&gt;. Acesso em: 25 jul. 2017.

SMITHSONIAN. When Did Girls Start Wearing Pink? Every generation brings a new definition of masculinity and femininity that manifests itself in children’s dress. Disponível em: <http://www.smithsonianmag.com/arts-culture/when-did-girls-start-wearing-pink-1370097/>. Acesso em: 24 jul. 2017.

WELZER-LANG, DANIEL. A construção do masculinodominação das mulheres e homofobia. Rev. Estud. Fem. [online]. 2001, vol.9, n.2, pp.460-482.

GODELIER, Maurice. La production des Grands Hommes. Paris: Fayard, 1982. (1996).

[1]                      É importante dizer que não tenho qualquer intenção de definir “natureza” e “sociedade” como duas instâncias totalmente separadas, mas sim me refiro ao discurso hegemônico (presente em diversos setores e com muitas nuances) que “explica” a condição de subjugação feminina por meio do argumento do “instinto”.

[2]                      Parto do pressuposto de que não existe uma socialização, mas socializações que ocorrem em diferentes momentos da vida de cada mulher, interseccionadas com seu contexto amplo (classe, raça/etnia, dentre outras características). Ainda nesse sentido, mulheres trans também passariam por socializações femininas.

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Marcha das Mulheres: ativismo além do movimento feminista

Conhecem aquela história de que se cada um fizer a sua parte as coisas vão pra frente? Pois foi assim que a aposentada Theresa Shook, do Havaí (EUA), pensou quando criou um evento para mobilizar mulheres um dia após a eleição de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Sua ideia era a de que mulheres marchassem em Washington D.C. no dia seguinte à posse do presidente, para mostrar o descontentamento frente à eleição de um candidato sabidamente machista, misógino e sobre quem pesam alegações de abuso sexual.

Sua vontade era a de mobilizar mulheres a mostrar que seus direitos não seriam esquecidos. Só não imaginava que o evento se tornaria viral e que com tanta repercussão, a coordenação teria de passar às mãos de ativistas veteranas de Nova Iorque (Tamika D. Mallory, Carmen Perez, Linda Sarsour e Bob Bland) . Com um time de mulheres entendidas do assunto à frente, os primeiros passos para a consolidação da marcha foram tomados, também foi criado um site onde todas as informações pertinentes à marcha podiam ser acessadas, incluindo a inscrição para a participação no evento. Essa inscrição serviu apenas como modo de saber quantas pessoas participariam para a organização da logística.

Embora o site fosse voltado para a marcha em Washington, mulheres de outros países também se inscreveram. Excursões de outras partes dos EUA começaram a ser organizadas ao mesmo tempo em que marchas em outras cidades foram marcadas. Aos poucos, cidades em todo o mundo entraram no mapa das marchas e foram chamadas de “sister marches” (marchas irmãs). O que começou como um protesto contra Trump acabou mobilizando mulheres no mundo todo, lutando pelos mesmos direitos.

Com o nome de “Women’s March on Washington” (Marcha das mulheres em Washington) ela teve uma abrangência muito maior do que apenas a pauta feminista. Um dos motes do protesto é “Direitos das mulheres são Direitos humanos e Direitos humanos são Direitos das mulheres”. Ele veio com uma nova visão sobre o feminismo a partir do momento em que englobou pautas de grupos que também sofrem preconceitos e desafios no dia-a-dia como afro-americanos, a comunidade LGBTQIA, imigrantes, e refugiados. A demanda da intersecção de causas cresce e torna a inclusão de outras pautas uma necessidade, como forma de fortalecer o movimento e aumentar seu alcance.

Apesar de liderada por ativistas de diferentes causas, o movimento chama a atenção pela ausência de agenda partidária e por abraçar outros movimentos. Um dos pontos chave de sua missão é reconhecer que a defesa de grupos mais marginalizados é defender a todos e que a marcha é o primeiro passo para a unificação das diferentes comunidades, com o objetivo de gerar mudanças. Esse é um dos motivos que tornou a marcha tão bem sucedida: a participação é aberta a todos que lutam por direitos humanos, independente de sua visão político-partidária. A defesa por uma sociedade mais justa é o que foi capaz de unir milhares de pessoas numa única manifestação.

Pussyhat

Outra maneira que as participantes encontraram para se manifestar foi usar uma touca cor de rosa com orelhas de gato. O nome é trocadilho com “pussycat”, que significa “gatinho”. Em inglês a palavra “pussy” também é usada pejorativamente para designar a genitália feminina e foi proferida por Trump em 2005 numa frase em que ele dizia que atualmente é possível pegar as mulheres por sua genitália e fazer o que quiser. O “Pussyhat Project”, além de criar uma identidade visual única para a marcha, permitiu que pessoas em qualquer lugar do mundo demonstrassem seu apoio aos direitos das mulheres. Valorizando as artes manuais, as fundadoras do projeto (Krista Suh e Jayna Zweiman) disponibilizaram em seu site o modelo para a confecção das toucas (tricô, crochê e costura). Estimulando que cada mulher confeccionasse seu próprio “pussyhat”, a iniciativa empodera mulheres artesãs ao mesmo tempo em que fortalece a individualidade criativa de cada uma.

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Mulheres usando seus “pussyhats”. (Foto retirada do twitter de @rmayersinger)

Impacto

Contabilizando a participação de cerca de dois milhões de pessoas nos EUA e o total de cinco milhões de pessoas em todo o mundo em 914 marchas (653 só nos EUA), ela é considerada a maior de toda a história norte-americana a ocorrer num mesmo dia. Além disso, fotos mostram que mais pessoas participaram na marcha do que na inauguração de Trump. Inclusive informes oficiais do metrô na cidade de Washington avisavam sobre a superlotação dos trens, que ocasionaram atrasos nas viagens.

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“Estejam preparados, possíveis atrasos no sistema devido a multidão. Cartões SmartTrip devem ser utilizados para entrada e saída do sistema.”

Uma marcha-irmã ocorreu inclusive em Paradise Bay, na Antártica, onde cerca de 30 mulheres e homens se reuniram num navio com sinais de protesto.

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Manifestantes em navio de pesquisa em Pirate Bay, Antártica. (Foto de Linda Zunas)

A maior marcha registrada ocorreu em Los Angeles na Califórnia com 750 mil participantes, seguida por Washington, D.C. com 500 mil, Nova Iorque (Nova Iorque) com 450 mil, Chicago (Illinois) com 250 mil e Seattle (Washington), Boston (Massachusetts), Oakland e San Francisco (Califórnia) contabilizando entre 100 e 200 mil participantes.

Ciência > Opinião

A veterinária Isabelle Tancioni, moradora de San Diego (Califórnia), participou da marcha que começou no Civic Center. Com a estimativa de 30 a 40 mil participantes, Isabelle conta que estudantes preocupados com as políticas do novo governo com relação à ciência também compareceram.

Um dos primeiros atos de Trump foi apagar todos os dados referentes ao aquecimento global da página da Casa Branca, além de proibir que cientistas da EPA (Agência de Proteção Ambiental) falem publicamente sobre suas pesquisas sem que antes os resultados passem por uma avaliação interna. A preocupação é tanta que já foi criada uma página com o intuito de organizar uma marcha de cientistas, que busca mostrar a importância da ciência baseada em fatos.

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Cartazes durante a Marcha das Mulheres em San Diego: à esquerda “Ciência é real”; à direita “Ciência > Opinião”. (Fotos de Isabelle Tancioni)

É possível que nenhuma das organizadoras da marcha tenha imaginado tamanha repercussão do movimento. O que inicialmente eram páginas de evento agora se tornam grupos públicos e páginas com a finalidade de manter o movimento vivo e forte por todo os EUA. A força que o movimento mostrou ao mobilizar diferentes causas num mesmo protesto pode inspirar uma nova fase do ativismo não só nos EUA, mas em todo o mundo. Entramos numa nova fase de mobilização coletiva. Teremos ainda muitos frutos a colher.

Para saber mais:

Dados sobre o número de participantes nas marchas: https://docs.google.com/spreadsheets/d/1xa0iLqYKz8x9Yc_rfhtmSOJQ2EGgeUVjvV4A8LsIaxY/htmlview?sle=true#

Marcha para a ciência: https://www.marchforscience.com/

Pussyhat Project: https://www.pussyhatproject.com/

Marcha das Mulheres: https://www.womensmarch.com/ e https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcha_das_Mulheres_em_Washington

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Para lembrar quando faltar coragem

[Aviso: O sexismo enfrentado por mulheres tem aspectos distintos e agravantes dependendo da sua classe social, meio cultural, raça, religião, orientação sexual, restrições físicas e/ou psicológicas. Nesse texto, entretanto, por simplicidade, tratamos da questão de gênero na ciência, em particular, na área de física, de maneira binária: mulheres e homens. E, além de poucas citações superficiais, também não estão representadas questões raciais e religiosas.]

Ao contrário do que se imagina, numa sociedade com o mesmo recorte cultural, o machismo não diminui quanto maior o nível educacional dos indivíduos, e, sim, transfigura-se em formas mais elaboradas de discriminação. A vivência dentro da academia não é imune às suas construções sociais e reflete a estrutura patriarcal na qual as ciências foram concebidas. Nós, mulheres, enquanto cientistas, devemos nos enquadrar em sistema feito por homens e para homens. Isso cria desafios particulares para mulheres que desejam seguir carreiras científicas, que já começam em desvantagem com relação as dos seus colegas do sexo masculino.

A mentoria, por exemplo, é extremamente importante para todo jovem cientista, seja como forma de obter treinamento na sua área de especialização, como para ter acesso a rede de colaborações. Ela é, principalmente, o mecanismo pelo qual se aprender toda a parte não escrita sobre o funcionamento do mundo acadêmico: negociar com outros cientistas, apresentar trabalhos, pleitear verbas, oportunidades em projetos, etc, fundamentais para o avanço da carreira. Poucas mulheres usufruem dessa rede de oportunidades através de mentoria, enquanto o engajamento, histórico e estrutural, entre os homens leva-os a carreiras mais bem sucedidas.

Foi pensando em um ambiente que proporcionasse troca de experiências entre jovens mulheres cientistas que a Dra. Elizabeth Simmons da Universidade Estadual de Michigam (E.U.A.) e Dra. Shobhana Narasimhan do Centro de Pesquisa Cientifica Avançada Jawaharial Nehru (Índia) idealizaram um workshop focado no desenvolvimento das carreiras das jovens pesquisadoras na área de física. As duas foram colegas de pós-graduação durante o doutorado na Universidade de Harvard (E.U.A.), entre o final da década de oitenta e o início dos anos noventa. Das conversas entre as duas amigas, elas perceberam que mulheres cientistas, sendo poucas, enfrentam um certo isolamento e possuem poucos espaços para networking, troca de experiências e meios de adquirir certas habilidade não-acadêmicas, as quais seus colegas homens têm acesso tão facilmente através do “clube dos meninos”.

E, assim, foi criado o “Workshop para Desenvolvimento das Carreiras de Mulheres em Física”, com duas edições realizadas num dos institutos de física teórica mais respeitado do mundo, o Centro Internacional de Física Teórica. A última edição, em 2015, contou com 16 palestrantes, a maioria absoluta de mulheres e físicas, e 45 participantes vindas de 26 países e, sim, vou listar porque só a lista de países por si só já é linda: Alemanha, Armênia, Argentina, Benim, Bielorrúsia, Botswana, Brasil, Camarão, Canadá, Cuba, Egito, Gabão, Gana, Índia, Itália, Irã, México, Nigéria, Palestina, Paquistão, Quênia, Senegal, Sri Lanka, Sudão, Turquia e Ucrânia. Imagina só: você entra num auditório. Tem mais de 40 cientistas em física. TodAs mulheres! E a maioria absoluta não é branca! Com muçulmanas, cristãs, atéias trabalhando juntas! Você nem consegue imaginar, não é? Eu vi! Eu vi, gente! Eu estava lá! *_*

Nessa atmosfera multicultural, multirracial, multirreligiosa, nós tivemos a oportunidade de discutir sobre as melhores formas de apresentar currículos, negociar financiamento de pesquisa, escrever propostas, entre outros tópicos. E, também, pudemos tratar sobre aspectos diretamente ligados com as dificuldades de sermos mulheres enquanto cientistas (e vice versa!). As organizadoras convidaram ainda cientistas reconhecidas internacionalmente como Dama Dra. Jocelyn Bell Burnell, que descobriu as primeiras estrelas de nêutrons e Dra. Sossina Haile, uma das pioneiras em células de energia limpa, cujas palestras inspiradoras mesclaram depoimentos pessoais e percurso acadêmico.

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Era mais fácil me darem parabéns pelo meu noivado do que pela minha descoberta científica.” — Jocelyn Bell Burnell sobre a época de seu doutorado na Universidade de Cambridge (Inglaterra).

Jocelyn montou o rádio telescópio que detectou as primeiras estrelas de nêutrons, sendo dela a descoberta das quatro primeiras. As características não usuais desses objetos causaram tanta comoção que até o seu supervisor, Antony Hewish, desacreditou os dados. Bell Burnell defendeu a tese (1968) mesmo sem o apoio do seu orientador.

Em 1974, Hewish divide o prêmio Nobel Prize de física com Martin Ryle, ignorando as contribuições de Bell. O prêmio desse ano ficou conhecido como “No Bell” (Sem Bell, em tradução livre)…

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“Eu era a única mulher na minha turma. E toda a vez que eu entrava na sala de aula, meus colegas batiam os pés no chão até eu sentar.” — Jocelyn Bell Burnell sobre sua graduação em Glasgow (Escócia) na década de 1960.

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“Perdi as contas de quantas vezes eu entrei numa sala de reunião e me pediram para trazer o café.” — Sossina Haile, pioneira na pesquisa com células combustíveis.

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“Uma vez um estudante entrou no meu escritório procurando pelo Prof. Haile. Nós começamos a conversar e ficou claro que ele achava que eu era a secretária do Prof. Haile. Em algum momento ele perguntou se o Prof. Haile estaria interessado na supervisão de novos alunos, como ele. Eu disse: “Hum… Eu acho que não…”. (risadas!) “E essa é uma das formas que encontrei de enfrentar situações de sexismo ou racismo.” — Sossina Haile

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O clima do evento foi de confissões, desabafos e histórias de superação. Tivemos mesas redondas, dinâmicas de grupo, grupos de trabalho, além de palestras e apresentação dos trabalhos científicos das participantes. Foi um evento para levar para vida toda. Com todas essas mulheres fortes contando como lutam todo o dia para fazer ciência, não tinha como não se emocionar e aprender muito: como fazer ciência quando não acreditam em você e no seu trabalho porque você é mulher, porque você é negra, porque você é muçulmana, porque o seu país está em guerra. Como fazer ciência quando ao seu redor as pessoas esperam que você, antes de tudo, seja mãe e esposa. Como fazer ciência quando você é a responsável pelos familiares doentes. Como fazer ciência quando se é pobre… Como fazer ciência depois do abuso verbal, depois do abuso sexual… Como fazer ciência quando se está só… Uma mulher faz ciência simplesmente porque ela quer, mas ela precisa de coragem para continuar.

Algumas de nós engajadas em projetos voltados para atrair meninas para carreiras em física e matemática. Outras, trabalhando em políticas de inclusão e de incentivo à permanência de mulheres na carreira científica. Outras de nós, abertamente feministas. Outras, nem tanto. Todas, porém, reconhecendo duas razões principais para estar ali, naquele workshop. Primeiramente, para aprender mais sobre como o sistema acadêmico funciona e, assim, ter recursos não apenas para permanecer dentro dele, como também crescer e, eventualmente, ocupar posições de prestígio, na academia ou até mesmo fora dela. E, em segundo lugar, uma vez como cientistas, pesquisadoras e professoras, melhorar o sistema para as garotas que escolham carreiras científicas tenham vidas melhores do que as nossas.

Todas nós, apesar de diferentes culturas, raças e religiões (ou não religiosas), nos vimos unidas enquanto mulheres e cientistas. E, não importa em que lugar do mundo a gente viva, agora nenhuma de nós luta sozinha, no isolamento dos nossos departamentos. Nós lutamos juntas!

“Quando era jovem, eu não me considerava feminista. O meu feminismo surgiu ao longo dos anos. Agora, quanto mais velha eu fico, mais feminista também. Hoje eu sou GRRRR!!! feminista!” — Dame Dra. Jocelyn Bell Burnell

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Links interessantes (foi mal, mas é tudo em inglês :/ ):

Se você está no doutorado ou tem doutorado em física, super recomendo que você acompanhe os programas do Centro Internacional de Física Teórica para mulheres.

Gostou da Liz e da Shobhana? Então, dá uma olhada aqui na entrevista que elas deram ano passado.

Mais sobre energia limpa e Sossina Haile na website do The Haile Group.

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As computadoras

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A história da computação possui muitos personagens que contribuíram para o seu desenvolvimento.Na sua grande maioria, os personagens conhecidos dessa história são homens, dentre os quais podemos citar Babbage, Boole, Turing, Von Neumann dentre outros. E aonde ficam as mulheres nessa história toda? Será que não houve nenhuma contribuição feita por uma mulher? Não digo daquelas mulheres que são tidas como “a primeira mulher engenheira de computação do mundo”, ou seja, a primeira mulher a fazer uma atividade que antes era dominada apenas por homens. Digo uma mulher que tenha sido o primeiro indivíduo, seja homem ou mulher, que contribuiu originalmente com alguma coisa para a computação.

Já nos primórdios da computação moderna houve a primeira contribuição de uma mulher. Seu nome é Ada Byron, filha do conhecido poeta inglês Lord Byron. Também é conhecida como Ada Lovelace, por ter se casado aos 20 anos com o conde de Lovelace. Sua grande contribuição para a história da computação é ter sido a primeira pessoa a descrever completamente o processo que hoje é conhecido como programação de computador [1] [2].

Na época de Ada, também viveu um outro grande contribuinte no desenvolvimento da computação, o cientista Charles Babbage, que é tido como o pai dos computadores modernos. Ada conheceu o trabalho de Babbage e, traduzindo uma de suas teorias, acrescentou notas nas quais descrevia como alimentar a máquina analítica de Babbage com cartões perfurados, sendo tidos como os primeiros programas de computadores. Ada também previu a possibilidade da música computadorizada, afirmando que a música é matemática e, portanto, poderia ser adaptada para ser composta por uma máquina [1].

A máquina descrita por Babbage foi reconhecida como um primeiro modelo de computador e as notas de Ada como a descrição de um software, ainda que não tenha sido possível construir a máquina naquela época por restrições da tecnologia [2].

Mas as contribuições das mulheres na computação não pararam por ai. Na década 40, foi desenvolvido pelo exército um projeto ultrassecreto, o ENIAC. Depois da segunda guerra, foi divulgada a existência dessa máquina que é tida como o primeiro computador digital eletrônico de grande escala. O ENIAC foi criado pelos cientistas norte-americanos John Eckert e John Mauchly. Porém, uma parte dessa história foi obscura durante muitos anos: quem haveria programado esse máquina para computar trajetórias balísticas? Na década de 80, a pesquisadora Kathy Kleiman decide ir atrás de algumas pistas nesse sentido e descobre que o ENIAC havia sido programado por seis matemáticas mulheres. Seus nomes eram: Betty Jean Jennings, Ruth Lichterman, Kathleen McNulty, Betty Snyder, Marlyn Wescoff e Fran Bilas [3].

Elas foram escolhidas entre um grupo de 100 mulheres que trabalhavam na Universidade da Pensilvânia calculando manualmente as equações diferenciais necessárias para as trajetórias balísticas durante a guerra [3]. O exército chamava a função destas mulheres de “computers” ou computadoras (em uma tradução livre, já que esse termo não existe com a flexão feminina na língua portuguesa).

O ENIAC era programado através da conexão de fios, relês e sequências de chaves para que se determinasse a tarefa a ser executada. Havia milhares de chaves, podendo cada uma delas assumir o valor 1 ou 0 conforme estivessem ligadas ou desligadas. [4] A cada tarefa diferente o processo deveria ser refeito. A resposta dos cálculos era dada por uma sequência de lâmpadas.

Essas mulheres não tinham permissão de ver o ENIAC por ele ser um projeto secreto, mas mesmo assim elas o programaram. E para fazer isso, tiverem que estudar os diagramas esquemáticos da máquina e entender como ela poderia ser programada, isso em uma época que não existiam livros que se ensinasse a programar. Ao fazer isso elas fundaram as bases para os programadores e engenheiros de software do futuro [3].

Mas elas não pararam por ai. Após esse projeto, Jean liderou a equipe que transformou o ENIAC em um dos primeiros computadores eletrônicos com memória de armazenamento do mundo. Já Betty continuou trabalhando na computação ao longo de toda a sua vida profissional, sendo uma pioneira na área ao desenvolver o primeiro conjunto de instruções de máquina, a primeira rotina de ordenação e a primeira aplicação de software [3].

Apesar do papel pioneiro dessas mulheres como primeiras programadoras da computação moderna, elas foram reconhecidas tardiamente pelo que fizeram, sendo que a maioria tinha cerca de 70 anos. Elas receberam prêmios da IEEE Computer Society, do Museu da História da Computação, da associação Women in Technology International e outras organizações [3].

As programadoras do ENIAC foram seguidas por várias mulheres pioneiras na área da ciência da computação, mas essa é uma das áreas em que a representatividade das mulheres ainda é muito baixa. Segundo Moreiras et al (2014), apenas 20,1% dos alunos do curso de Ciência da Computação no Brasil são mulheres. Que essas mulheres da história possam servir de inspiração para as novas gerações, mostrando que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive programando!

Bibliografia

[1] Rolka, G. M. 100 Mulheres que Mudaram a História do Mundo. Editora Nova Fronteira, 2004.

[3] http://eniacprogrammers.org/

[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/ENIAC

[5] Moreiras, J. A. et al. Um Panorama da Presença Feminina na Ciência da Computação. 18º REDOR, 2014. Disponível em: < http://www.ufpb.br/evento/lti/ocs/index.php/18redor/18redor/paper/viewFile/1935/853 >.

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Primavera feminista latino-americana

Buenos Aires, Argentina, junho 2015; São Paulo, Brasil, outubro 2015; Cidade do México, abril 2016; Lima, Peru, agosto 2016—em diversos cantos da América Latina as mulheres estão tomando as ruas para gritar em um coro uníssono: basta!

Você com certeza já leu algo sobre os novos movimentos de mulheres no Brasil que clamam pela igualdade de gênero, pelo fim da violência contra a mulher, pelo direito à escolha. Talvez aqui mesmo no blog, onde publicamos textos sobre a maravilinda hashtag “Meu Amigo Secreto” e, mais recentemente, sobre diversos relatos de abusos machistas que muitas de nós sofremos. Desde que fomos às ruas no ano passado para dizer um categórico “não” ao projeto de lei 5069, de autoria de um ex-deputado deveras questionável cujo nome prefiro nem mencionar, nós, brasileiras, ganhamos novo fôlego para reagir a uma agenda política conservadora que pretende ditar regras sobre nossos corpos e nosso comportamento (homis, cês são tudo bem vindo no rolê, mas vou tomar a liberdade de falar de irmã pra irmã aqui, belê? Não se sintam excluídos não, a gente gosta quando vocês vêm pra somar, mas a gente está construindo sororidade). Inúmeras iniciativas surgiram para dar vazão ao nosso descontentamento com a cultura machista do país, à nossa revolta frente a crimes hediondos de violência contra a mulher e às nossas demandas por políticas públicas que respeitem e protejam nossa vida e nossa saúde.

Mas não é apenas no Brasil que as mulheres têm protagonizado movimentos feministas de rua: nossas hermanas latino-americanas também estão gritando por mais direitos, mais respeito, e menos violência. Essas demandas não são novas—movimentos feministas articulados existem no continente desde, pelo menos, os anos 1960,  e em muitos casos desempenharam inclusive um papel importante na luta contra os regimes autoritários da época.[1] Há também iniciativas transnacionais como o Encuentro Feminista Latinoamericano y del Caribe, que desde 1981 promove eventos bi-anuais para discutir a situação da mulher nos vários países da região.[2] Ainda assim, é possível falar em uma primavera feminista latino-americana. O que distingue o momento atual das décadas anteriores é a sincronicidade entre manifestações feministas de massa ao redor da América Latina e o fato de responderem a casos específicos de violência contra a mulher. Para que isso fique mais claro, vejamos abaixo um resumo das causas que têm nos levado a protestar.

 Por que vamos às ruas?

*Estupro e outras formas de assédio sexual. Os dados são reveladores—e chocantes. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (9ª edição, outubro 2015), a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Casos recentes e horripilantes de estupros coletivos deixaram essa realidade ainda mais escancarada.  No México, em média 40 mulheres sofrem abuso sexual por dia, e no Peru as autoridades chegam a registrar 53 denúncias diárias de crimes de violência sexual contra mulheres. Números como estes é que nos levam a falar de uma cultura do estupro no continente; isso quer dizer que atentados sexuais de gênero estão tão disseminados que fazem parte da realidade diária de milhares de mulheres, de Tijuana à Ushuaia. Toda mulher latina sabe que se sair de casa com um vestido em um dia quente de verão, vai ouvir pelo menos um assobio. Como sabe que, mesmo encapuzada em um dia frio de inverno, pode ouvir isso, ou mais. Relatos de assédios os mais variados abundam na rede, e ficaram ainda mais visíveis depois de campanhas como #meuprimeiroassédio (em Português) / #miprimeracoso (em Espanhol). E, francamente, nós estamos cansadas. Nós queremos liberdade plena para usar a roupa que quisermos sem que isso seja visto como um convite para cada membro do sexo oposto fazer um “elogio”, um comentário, ou dar aquela olhada que te deixa com a sensação de estar sendo observada em um raio-x. Não queremos que o decote da nossa blusa ou o tamanho da nossa saia levem a culpa se somos estupradas. Queremos poder ocupar os espaços públicos (as praças, os parques, os centros comunitários, os museus, O BUSÃO) sem ter medo de que nossa mera presença nestes lugares coloque nossa integridade ou nossa vida em risco. Queremos que o nosso “não” seja ouvido e respeitado.

*Feminicídio. Pra falar curto e grosso: nós vamos às ruas por que estão nos matando. No ano passado, na Argentina, após uma adolescente ter sido espancada até à morte pelo namorado e enterrada no quintal com a ajuda da família dele, milhares de pessoas saíram em marcha pelas ruas de Buenos Aires para denunciar o feminicídio no país. Segundo dados de uma ONG local, o país tinha registrado 277 casos de feminicídio no ano anterior ao protesto (2014). O movimento realizou nova passeata este ano, e a hashtag “Ni Uma Menos” teve repercussão no Chile, no Uruguai, e no Peru. No México, onde os dados sobre feminicídio são dos piores no mundo, multidões se uniram via redes sociais, com a hastag “Vivas Nos Queremos”, e tomaram as ruas no último 24 de abril para protestar contra o crime de gênero.

*Impunidade. Outro motivo pelo qual temos ocupado as ruas é que nossas denúncias não dão resultado. Superada a dificuldade tremenda que é reportar um crime de gênero (por vergonha, por falta de apoio, ou por falta de meios apropriados para tal), os resultados não são encorajadores: dos casos de violência sexual denunciados no Peru em 2011, 90% tiveram como resultado a absolvição do réu. Vou repetir: NOVENTA POR CENTO DOS CASOS DE VIOLÊNCIA SEXUAL DENUNCIADOS NÃO RESULTARAM EM PUNIÇÃO. As mexicanas que sofrem abusos sexuais também têm bastante dificuldade em ver suas denúncias como efetivas, já que, pelo menos até 2014, 26 entidades do país não puniam com a seriedade devida os crimes dessa natureza.

*Aborto. É inacreditável, mas em pleno 2016 o aborto ainda não é permitido na quase totalidade dos países latino-americanos. Com exceção do Uruguai, onde as mulheres podem decidir interromper a gravidez até a 12ª semana da gestação, e Cuba, primeiro a descriminalizar a prática (1979), via de regra as leis variam de limitadas (caso do Brasil e Argentina, por exemplo, onde até o momento o aborto é legalizado em casos de estupro ou de riscos à vida da gestante[3]) à bastante limitadas (como no Paraguai, onde o aborto apenas é permitido em caso de grave risco à saúde da gestante) ou até mesmo inexistentes (como no Chile, onde a prática ainda está totalmente proibida). Para além dos riscos que essas restrições impõem à saúde da mulher, já que a opção passa a ser  aborto ilegal e inseguro, o aborto legal é uma das bandeiras mais fortes do feminismo porque traz no seu cerne um dos pilares do movimento: o direito de escolher o próprio destino.

 Como estamos nos mobilizando?

Eu sei, o cenário é assustador. A realidade bruta é de deixar qualquer uma sem esperança, descrente na humanidade, revoltada, frustrada, com a dupla sensação de impotência e medo. Mas não precisa ser assim! Como eu disse antes, há um número cada vez maior de mulheres levantando a voz, expressando esses sentimentos, e se mobilizando. As mídias digitais têm sido um diferencial importante com relação aos movimentos anteriores. Hashtags, blogs, e outros fóruns na rede permitem que várias gerações de mulheres se articulem independente de uma estrutura fixa. Assim, feministas de carteirinha e jovens que nunca antes participaram de uma associação formal podem facilmente organizar passeatas, marchas, intervenções e abaixo-assinados.

Além das ruas, temos também ocupado outros espaços, como a imprensa, para que nossas vozes sejam ouvidas. Há poucos meses atrás, as peruanas se mobilizaram para deixar claro que as esterilizações forçadas de mais de 300 mil mulheres pelo governo do Fujimori não serão página virada da história, e a voz delas alcançou o mundo depois que o texto lindo da edição em Espanhol do NY Times foi traduzido. Revistas digitais como a mexicana La Que Arde, e blogs como o #AgoraÉQueSãoElas e esse nosso Cientistas Feministas também são uma ótima estratégia para ressaltar nossas demandas e oferecer uma perspectiva feminina e feminista sobre temas variados. Campanhas de consicentização que visam educar sobre questões de gênero e extirpar o machismo também vieram à tona nos últimos tempos, como o Chega de Fiu Fiu e o Guia Didático para o carnaval.

Em suma, se a realidade ainda é dura, uma coisa é certa: nós não vamos mais tolerar. As mulheres da América Latina dizem: Basta! E com isso semeamos essa primavera feminista, cujo resultado não serão apenas flores, mas mais direitos, igualdade, e respeito.

Notas

[1] Para o caso brasileiro, veja-se: SARTI, Cynthia A. “Feminismo e contexto: lições do caso brasileiro.” Cad. Pagu, Campinas, n. 16, p. 31-48, 2001. Disponível em http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332001000100003 Último acesso em 15 de set. 2016.

[2] Uma boa síntese dos primeiros anos do Encuentro pode ser vista em: STERNBACH, Nancy Saporta, Navarro-Aranguren Marysa, Chuchryk Patricia, and Alvarez Sonia E. “Feminisms in Latin America: From Bogotá to San Bernardo.” Signs vol. 17, n. 2, p. 393-434, 1992. http://www.jstor.org.proxy.library.vanderbilt.edu/stable/3174469. A 14 ª edição do evento deve ocorrer em novembro de 2017, no Uruguai. Mais detalhes na página do grupo no Facebook: https://www.facebook.com/14EFLACUruguay/

[3] No Brasil, além dessas duas exceções, a prática também é permitida no caso de má formação cerebral do feto, o que não ocorre na Argentina.

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Desafios da institucionalização da agenda feminista e de Gênero: Entrevista com as professoras Marlise Matos e Solange Simões

O Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais completou 50 anos e, ao longo do ano de 2016, estão ocorrendo seminários e eventos comemorativos. No dia 11 de agosto, realizou-se a mesa “Desafios da institucionalização da agenda feminista e de Gênero no DCP/UFMG”, com as presenças das Professoras Magda Neves (PUC Minas), Solange Simões (Univsersity of Eastern Michigan) e Marlise Matos (PPGCP/UFMG). Além da participação do Professor Cristiano Rodrigues (DCP/UFMG).

Apesar de todas as dificuldades ainda presentes – que não diferem dos demais departamentos nas universidades[1], o DCP está na vanguarda no debate de Gênero e a institucionalização destes estudos na Pós-Graduação. Atualmente “Gênero, Reconhecimento e Feminismo” é uma das linhas de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e engloba diferentes pesquisas que têm Gênero como lente teórica, empírica, política, militante. Movimentos trans*, mulheres e meio rural, a representação midiática dos movimentos feministas, violência contra as mulheres, feminicídio, movimentos autônomos de mulheres, a questão racial, são alguns dos temas que vêm sendo pesquisados no âmbito do programa.

Conversamos um pouquinho com as Professoras Marlise Matos e Solange Simões para conhecer um pouco mais sobre essa história. Abaixo a entrevista para vocês.

Como foi, Marlise, a sua chegada à Ciência Política, a sua trajetória com os estudos de Gênero?

Marlise Matos: Eu tenho uma trajetória de caráter muito interdisciplinar. Na graduação eu fiz Psicologia aqui na UFMG, no mestrado eu fiz Teoria Psicanalítica na UFRJ, depois o doutorado em Sociologia no IUPERJ. Nesse percurso todo, desde a graduação, a questão central e o debate que acompanha essas mudanças, Gênero foi ponto de convergência, foi o fio condutor da minha trajetória. Então, me descubro feminista já na graduação. Não havia como a gente tem hoje, movimentos organizados dentro da universidade, era uma pessoa ali e outra aqui. E na época, por coincidência, Sandra Azeredo, que é da Psicologia, e que foi uma das precursoras importantes, coordenadora do NEPEM, no período que eu estava fazendo a graduação, ela estava fazendo o doutorado fora, então eu não a conheci. Então não me envolvi diretamente na universidade, na graduação, com questão acadêmica feminista. Mas eu era feminista por conta da minha trajetória pessoal, de ter lido Simone de Beauvoir com 18 anos, então, assim, entrei por ai. E toda a discussão da minha formação tem muito a ver com a questão das mulheres. Então, o meu trabalho com a agenda dos estudos de Gênero é algo que é o meu fio condutor. Eu me sinto à vontade nesse campo de estudos e nessa área de produção do conhecimento. Mais do que ser uma Socióloga, mais do que ser uma Cientista Política, mais do que ser Psicóloga, eu me sinto uma Feminista Acadêmica. E eu trabalho a minha produção muito mais orientada pelo campo dos estudos feministas e dos estudos de Gênero. Então eu acho que esse é o lugar que eu me encontro, que eu me reconheço como acadêmica, como alguém que faz pesquisas, como alguém que faz extensão, como alguém que leciona. Então, de fato, é a área da minha produção e é aonde realmente eu me encontro e que eu me reconheço como acadêmica.

E você, Solange, como foi essa inserção nos estudos de Gênero aqui no DCP na década de 80, quando você ainda era estudante de mestrado?

Solange Simões: Uma questão importante de ser mencionada é o reconhecimento de que havia desigualdade de gênero não só na sociedade em geral, mas dentro dos movimentos de esquerda, isso é fator constitutivo importante para a organização das mulheres tanto em termos de militância feminista quanto para as mulheres acadêmicas, que combinavam as duas coisas. Uma produção do conhecimento feminista e a organização feminista para a transformação da sociedade. E este é um elemento internacional. Acontece na Europa, nos Estados Unidos, que acontece em vários contextos, de um momento onde a centralidade era dada à classe social, às questões socioeconômicas, e as questões de Gênero não tinham visibilidade e eram até negadas, em muitas medidas. Então, isso eu acho que é um fator comum à emergência do feminismo tanto acadêmico quanto de militância, não só no Brasil como no mundo. E aqui no DCP, nessa época, era exatamente isso. Eu estava muito envolvida com o movimento sindical, com o sindicato dos professores, com a formação do PT. Mas, naquele momento, há o assassinato da Ângela Diniz. E se começam manifestações contra esse tipo de discriminação absurda contra as mulheres na sociedade brasileira, como o “crime de honra”, contra o assassino dela, o Doca Street, por ele ter sido absolvido. E depois também o movimento feminino pela anistia. A minha primeira entrada no feminismo foi através do feminismo socialista. E o primeiro curso que eu tive no DCP, que foi claramente um curso sobre relações de gênero e feminismo, foi ofertado pela Professora Celina Albano, da Sociologia, e o Professor Marcos Coimbra, da Ciência Política. Então, naquele momento, eu acho que era uma descoberta de uma dimensão a mais nas várias desigualdades, que não estava sendo abordada.

Marlise, e ao longo desses dez anos que você está na Ciência Política, como você avalia a institucionalização dos estudos de Gênero?

Marlise Matos: A Associação Brasileira de Ciência Política vai fazer um livro de memórias da institucionalização do campo, e eu fui convidada pelo Presidente da ABCP para escrever um capítulo sobre a institucionalização dos estudos de Gênero. Para isso, eu avaliei 20 anos de produção de artigos científicos em nove revistas acadêmicas da área das ciências humanas e sociais e avaliei 16 anos de produção de teses e dissertações da área de Gênero na Ciência Política. Feito isso, é muito evidente ver que a partir de 2004, 2005, há, de fato, uma institucionalização destes estudos. Primeiro, o que a gente pode obsevar que a presença feminina no campo ainda é infinitamente maior na produção de artigos e com ainda mais força na produção de teses e dissertações, que tem pouquíssimos homens, o que não deveria ser em minha opinião. Eu acho que não é patrimônio e exclusividade das mulheres o debate feminista e de gênero. E você consegue traçar essa institucionalização a partir da trajetória individual de algumas pessoas. Há uma concentração muito forte na minha pessoa e na Professora Flávia Biroli, da UNB. Então nós duas, sem dúvida nenhuma, somos as duas pessoas que estão tomando essa frente aí de trazer, de fato, a questão de Gênero e feminista para dentro da Ciência Política. Agora, nada disso acontece em céu de brigadeiro. Porque aqui na Ciência Política acontece como sempre aconteceu nas outras áreas, hoje isso não acontece com tanta frequência na Sociologia e na Antropologia, acredito eu, mas, durante muito tempo, no começo dessa institucionalização se discutia se isso era ciência ou não era ciência. Se esse conhecimento feminista era uma militância e não era uma ciência propriamente dita, né. Então, a gente ainda tem que ouvir, na própria Ciência Política, questionamentos nessa direção, de que isso não é um campo científico, é um campo de ativismo, é um campo de militância. O que em minha opinião, é uma leitura absolutamente rasteira, equivocada e enviesada. Mas há o reconhecimento de algumas figuras muito importantes de que “o que há de novidade, de originalidade no campo da teoria democrática, são as feministas que estão fazendo”. Portanto, há o reconhecimento da produção acadêmica feminista como uma produção de ponta no conhecimento político hoje no mundo. E aqui no Brasil eu não acho que é diferente, eu acho que a gente está indo na mesma toada.

E você Solange, como avalia essa institucionalização dos estudos de Gênero nos Estados Unidos, que é o seu campo de atuação?

Solange Simões: Eu já estou nos Estados Unidos há vinte anos. Sou professora de um Departamento de Sociologia e de um Departamento de Estudos da Mulher e de Gênero. Realmente eu acompanhei essa trajetória mais lá do que aqui, apesar de continuar trabalhando com Neuma Aguiar e com a Marlise[2]. Então, essa discussão pra mim, no contexto americano, ela é muito mais presente. E é uma discussão bastante diferente do que acontece aqui no Brasil. Nos Estados Unidos você tem a constituição de programas primeiro, e departamentos. O que está acontecendo hoje nos Estados Unidos é a grande preocupação com os novos rumos, com o que vai acontecer com esses programas e esses departamentos de estudos de gênero e mulher. E em que medida eles ainda continuam, de certa maneira, marginais dentro das universidades. Em que medida que esses departamentos estão sendo reconhecidos, ou seja, que estudos de gênero estão sendo reconhecidos como uma nova disciplina e não apenas como uma empreitada multidisciplinar. Há uma tentativa, agora, de fazer com que os professores que lecionam nesses departamentos de estudos de Gênero e Mulher sejam aqueles com doutorado em Estudos de Gênero e da Mulher. Mas com isso, é um tiro pela culatra, porque você acaba com esse caráter multidisciplinar que constituiu esses programas e esses departamentos. Porque atualmente, nesses departamentos, você tem professores de todos os departamentos/programas da Universidade e você tem alguns professores que também são do departamento, como é o meu caso. A grande maioria são professores de todos os departamentos das várias áreas. Que seja da área de Saúde, Psicologia, Ciências Sociais, Economia, etc, que dão cursos sobre Gênero e Feminismo e que compõem o corpo do departamento. Agora, com essa progressão do Gênero, dos estudos de Gênero nas universidades americanas, você tendo pessoas com doutorado sendo contratadas, isso significa, hoje, que só pode dar aula sobre Estudos de Gênero e da Mulher, quem fez o doutorado. Ou seja, com isso, você acaba com o caráter multidisciplinar. Na minha opinião, eu acho que isso é um problema seríssimo. Porque eu acho que o caráter multidisciplinar é constitutivo do conhecimento feminista. E se você hoje acha que o conhecimento de gênero vai ser gerado, principalmente e alguns acham que até exclusivamente, por aqueles com formação, com diploma, doutorados em Estudos da Mulher e de Gênero, nós temos ai um impasse muito grande. Ai temos impasses não só em termos do tipo de conhecimento que vai ser gerado, mas também institucionalmente, porque pra mim é o enfraquecimento desses programas e departamentos. Eu acho que este é um caminho que tem que ser avaliado de maneira muito crítica. Para algumas feministas que defendem a criação desses departamentos desta forma, é que estes tipos de cursos é que possibilitariam a produção do conhecimento de uma forma multidisciplinar. Não apenas multi, mas interdisciplinar. Eu acho extremamente questionável e problemático. Eu não estou questionando você ter um diploma em Estudos da Mulher e de Gênero, o que eu estou questionando aqui, é a concepção de que agora o quadro de professores desse departamento deve ser composto apenas por professores com doutorado em Programas de Estudos da Mulher e de Gênero. Isso pode afetar o caráter multidisciplinar da disciplina e em termos organizacionais, você ficar muito isolado, com um departamento muito pequeno e com pouca visibilidade. Esses cursos cresceram muito nos Estados Unidos justamente porque contam com a força de todos os professores, de todos os departamentos, que pesquisam e querem dar aula sobre Gênero e Feminismo.

E como foi pra você, Solange, uma mulher brasileira, que estuda teorias de Gênero, ir dar aula nos Estados Unidos? Como é essa experiência?

Solange Simões: Eu fui para os Estados Unidos pela Fulbright, como professora visitante, para a Universidade de Michigan, Center for Political Studies. Inicialmente eu não trabalhei com a questão de Gênero. Eu fiz o meu doutorado na Inglaterra, e quando voltei para o Brasil havia aqui a necessidade de uma maior formação em metodologia de Survey e eu fui para os Estados Unidos com esse objetivo, com essa bolsa da Fulbright, e acabei me envolvendo num Survey comparativo internacional sobre questões ambientais globais. Então a minha inserção foi mais pelo método e depois evidentemente me interessei também pelo tema. Mas, quando eu tive a oportunidade de fazer esse concurso, para ter essa posição dupla, de Departamento de Sociologia e de Departamento de Estudos de Gênero e da Mulher, foi uma oportunidade pra mim de voltar mais à temática de Gênero, porque eu trabalho com outras temáticas também na Sociologia como a temática da classificação racial, questão das estruturas de classes. Então foi uma oportunidade de voltar a dar mais ênfase nos meus trabalhos às questões de Gênero e desigualdade. E pra mim foi uma grande oportunidade porque eu passei a trabalhar muito na questão internacional comparativa sobre a perspectiva de estudos de gênero e feministas, e foi um espaço bastante importante tanto do ponto de vista da academia quanto também para minha militância. Eu represento a Sociologists for Women in Society, no UN Economic and Social Council da ONU, e tem uma reunião anual em Nova Iorque do Economic and Social Council, onde há participação de feministas de todo o mundo, você tem ali como parte do Economic and Social Council o CEDAW, o Committee on the Elimination of Discrimination against Women, é realizada uma grande reunião com o tema sobre a desigualdade de gênero no mundo, e eu tenho a oportunidade de participar. Então pra mim essa vinculação entre os cursos que eu dou, o tipo de pesquisa que eu faço, e ai uma possibilidade de militância com mulheres do mundo inteiro, que eu acho super legal, super bacana, eu adoro. Mas, como eu entrei na área de globalização de gênero, e sendo brasileira, na realidade, é um fator, ser brasileira é um fator super positivo para alguém que está dando um curso sobre globalização e gênero na universidade americana. Então eu acho que isso me coloca em uma posição melhor do que uma americana dando um curso sobre globalização e gênero numa universidade americana. Porque há muita discussão sobre o feminismo do sul global, do norte global, e vindo do sul global, eu acho que me coloca numa posição de encarar alguns debates epistemológicos, alguns debates sobre a produção do conhecimento, me dão uma posição, acho que privilegiada de poder fazer à crítica, determinadas críticas que as americanas brancas eu acho que se sentiriam desconfortáveis em fazer.

Agora, para finalizar, Marlise, como o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (NEPEM), que você coordena, acompanha essa trajetória da institucionalização dos estudos de Gênero e feminismo no Brasil?

Marlise Matos: Eu acho que é importante mencionar que se precisa de espaços institucionais para realizar projetos. Porque você não pode tratar os desafios como uma coisa endereçada a você, pessoa física. Você precisa ter lugares institucionais que abarquem. E eu acho que o NEPEM é uma instituição muito importante e a gente já está aqui na UFMG já mais de 30 anos. Se não me engano é o terceiro núcleo de Gênero que foi criado no Brasil. E é uma honra pra mim, uma alegria estar à frente da coordenação do NEPEM. A história de constituição do NEPEM tem a ver com a história dos estudos de Gênero e feministas nas ciências humanas. O NEPEM teve um protagonismo muito importante na Sociologia, na Antropologia, na Psicologia, que são as áreas que já se permearam, e já institucionalizaram esses estudos de forma muito anterior à própria Ciência Política. Eu acho que é um espaço institucional que é importante você o defender, e o manter existindo, porque ele abriga e abrigou, e eu espero que continue abrigando, as pesquisas de alunos de graduação, de pós-graduação, de fazer aquilo que é uma vocação fundamental, vertebradora do campo do feminismo, que é o trabalho de extensão universitária. Onde de fato se há uma produção militante, e pra mim não é um demérito, o trabalho militante do feminismo, porque justamente o feminismo se propõe do ponto de vista epistemológico, a ser uma intervenção e transformação do conhecimento a serviço da transformação do mundo, e, portanto, a área da extensão universitária é o lugar onde é possível você produzir essas formas de intervenção e de ação para modificar as relações, para você se aproximar da vida como ela é, se aproximar da vida real das mulheres, como a gente faz em inúmeros projetos. Na formação extensionista no Vale do Jequitinhonha, na região metropolitana de Belo Horizonte, com mulheres em situação de vulnerabilidade, em situação de risco, em situação de violência. Então eu acho que o espaço do NEPEM é o espaço para o acolhimento dessas iniciativas, de pesquisas que têm dado continuidade a esse desafio de continuar produzindo conhecimento qualificado sobre as mulheres e sobre as relações de Gênero. E o NEPEM é um espaço interdisciplinar. Que é o que é a vocação mesmo do campo dos estudos feministas e de gênero. Ser esse lugar da inter e da transdisciplinaridade. Que a gente tem tanta dificuldade em fazer acontecer nas nossas universidades. A gente fala como um valor, como um princípio, como uma direção, mas a gente não pratica. E o campo de gênero e feminista é um campo da prática interdisciplinar por excelência. Sempre foi. Nasceu assim e continua exercitando a sua existência assim dessa forma. Inclusive com os desafios e os dilemas que isso implica. Mas, o NEPEM é um espaço importante, de referência nacional, e eu espero em algum momento também internacional, eu tenho construído essas pontes, na região latino-americana, tentado fazer esse esforço de aproximar o NEPEM, o nosso núcleo, com os nossos trabalhos, as nossas pesquisas, os nossos alunos, da produção regional latino-americana. Eu acho que vale a pena abrir o NEPEM para esse diálogo, que hoje está nessa agenda do pós e do decolonial, é um trabalho que eu tenho interessado em fazer esforços nessa direção, para que a gente não seja mais uma a desconhecer o resto da América Latina, e a gente construa essa identidade também como América Latina.

[1] Um diagnóstico sobre a presença das mulheres nas Ciências Sociais pode ser visto aqui: https://revistaescuta.wordpress.com/2016/03/24/a-voz-das-ciencias-sociais-e-masculina/

[2] As professoras Marlise Matos, Solange Simões e Yumi Garcia coordenam um projeto de pesquisa intitulado: O impacto do programa bolsa família sobre a vida das mulheres nos meios rural e urbano em Minas Gerais – Gestão do cotidiano e projeções para a autonomia, do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher.

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Nós, que resolvemos falar

O machismo é naturalizado. A violência é diária e se manifesta de diversas maneiras.
Cada uma de nós têm uma história que não queremos contar

Deitada no sofá em um dia quente, eu tentava me encolher e esquecer tudo aquilo que tinha acontecido horas antes. Segurava o choro e pensava calada “não foi nada, você também pediu por isso”, afinal, ele era o bonitão do colégio, mais velho e qualquer menina teria gostado de ficar com ele. Só que eu não sentia a euforia do beijo, nem o frio na barriga, ou o calor nas bochechas. Na verdade, era o oposto de tudo isso. Era um misto de vergonha, culpa e pesar. Eu não sabia o que tinha acontecido direito, então me calei.

Deitada no sofá em um dia frio, eu lembrei desse episódio. Hoje, sei o que aconteceu comigo, e não comporto mais o sentimento de culpa, e também não acho que a garota de anos atrás era burra. Sinto-me mais uma vítima, agarrada a uma sociedade naturalizada do machismo, patriarcal, e que me obrigou a ter os sentimentos do passado. Não mais. Escrevo essas palavras de coração aberto, porque fui acolhida por tantas outras garotas que, como eu, foram vítimas e se calaram. E por que nos calamos? Nossa, é muito difícil responder. São tantas coisas… Vergonha? Medo? Culpa? Acho que tudo isso e mais um pouco.

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A cada 11 minutos, um a mulher é estuprada no Brasil. São cerca de 130 abusos por dia. Foto: Nayara Kobori

De acordo com dados divulgados pelo Banco Mundial, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil – o que resulta em 130 estupros todos os dias. E desses números, apenas 10% das mulheres violentadas denunciam o agressor. Isso sem contar os assédios (fiu fiu não é cantada, viu?), as tentativas de silenciamento, a subordinação da mulher pelo homem, etc.

Pois é. Somos todas filhas de Eva, a grande culpada pela desgraça do mundo. As histórias que vocês vão ler a seguir são de mulheres próximas do meu convívio, e que por trás de sorrisos, escondem muitas histórias. O pequeno trecho que relatei no começo do texto é apenas um. Somos muitas. Optei por não divulgar o nome das mulheres, por dois motivos: resguardar o direito dessas meninas (nunca é fácil falar sobre isso), e porque elas representam todas nós. São meninas sem rosto, mas que tem todos os rostos do mundo dentro delas.

Falar sobre mim

“Acho que a coisa mais difícil do mundo é falar sobre mim! Adoro conversar com as meninas e ajudar com tudo o que posso, sempre que posso. Eu tive um relacionamento que durou mais de dois anos, tinha acabado de fazer 15, quando comecei a namorar um rapaz que iria fazer 18 naquele ano. O meu “não” parecia graça para ele – não aceitava. Se mantinha insistente, até eu ceder. Começou com coisas bobas, por assim dizer, como sentar no colo, dar uns amassos mais quentes e tudo mais. Mas, foi evoluindo. Primeiro, houve insistência para masturbação, e eu sempre demonstrei meu desconforto. Eu não queria, mas ele queria. Eu era namorada dele, eu devia fazer isso, porque era o meu papel. Houve um dia em que ele me segurou com força pelos cabelos para que eu fizesse sexo oral nele. Foi aí que eu percebi que tinha muita coisa errada”.

Não vou receber ordens de mulher

 “Aqui no meio rural em que trabalho, eu tenho muita dificuldade às vezes pelo ambiente machista, em liderar e isso prejudica meu desenvolvimento profissional. Cheguei a ter um funcionário que se demitiu porque não aceitava receber ordens de mulher. A esposa desse funcionário veio esbravejando pra mim que só ela dava ordem pra ele (no meio rural, geralmente as famílias moram dentro da propriedade, a gente tem casa para isso). Depois disso, ficou insustentável! Levei o assunto pro meu pai (que é diretor) e o cara se demitiu porque não aceitava que fosse uma mulher a chefe direta dele. Meu pai fica do meu lado quando surge alguma questão assim. Mas, ele é daqueles que analisa a roupa pra não ~dar motivos para termos problemas~”.

Você me deixou muito irritado

“Meu namoro era sim abusivo, mas eu não sabia. Achava que era normal, me habituei à aquela situação. Mas, dentro de mim eu sabia que alguma coisa estava errada. O término foi desastroso. Eu acabei saindo com um cara uma noite só, daí meu ex descobriu. Estávamos em casa, quando eu fui tomar banho e ele mexeu em tudo no meu quarto, e aí soube que eu tinha saído com esse cara. Foi um inferno! Ele destruiu tudo onde colocou a mão e chegou a me bater, fiquei até desnorteada quando a minha irmã – por sorte – chegou e ele, com medo de dar alguma coisa mais errada, foi embora. Ele me perseguiu nas redes sociais por um bom tempo, pra me fazer sentir culpada, e com sucesso! Passei quase um ano me culpando por todo o relacionamento. E essa não foi a primeira vez que ele me agrediu. Houveram duas outras ocasiões em que eu deixei “muito irritado”. Eu simplesmente não sabia o que estava rolando, mas me sentia como se não tivesse valor nenhum. Eu tinha um medo sincero de apontar os erros que ele estava cometendo, por achar que eu o irritava. Então ficava na minha, porque afinal, ele era o único homem que me amaria pra sempre”.

É difícil sair de um relacionamento abusivo

“Eu tive um relacionamento que acabou este ano e durou dois anos e nove meses. Foi um relacionamento extremamente abusivo, mas no inicio eu não percebia isso, porque eu acreditava que certos comportamentos eram normais apesar de horríveis. Isso acontecia porque eu não sabia que merecia ter mais amor e respeito do que eu recebia, era meu segundo namoro e era a primeira vez que aparentemente eu estava sendo correspondida. O que as manas feministas precisam entender é que quem está em um relacionamento abusivo não sai dele rapidamente por diversos motivos. As pessoas pensam que esse tipo de relacionamento é ruim o tempo todo e que são só brigas, lagrimas e sofrimento diário, mas não é exatamente assim. Nele também existe companheirismo, carinho, etc. e é por isso que leva tempo para tomarmos coragem e sair, leva tempo para colocar na balança e perceber que presentes, flores, desculpas, ajuda na limpeza de casa, caronas para o médico não justificam mentiras, xingamentos, sexo não consensual, gaslighting, proibição de uso de roupa, proibição de ter amigos e frequentar festas. O pior sentimento que eu nutri nessa relação foi a culpa, tudo o que eu sofria era, porque eu tinha merecido aquilo, era porque eu reclamei, eu vi problema onde não tinha e essas coisas deixam marcas”.