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Marcha das Mulheres: ativismo além do movimento feminista

Conhecem aquela história de que se cada um fizer a sua parte as coisas vão pra frente? Pois foi assim que a aposentada Theresa Shook, do Havaí (EUA), pensou quando criou um evento para mobilizar mulheres um dia após a eleição de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Sua ideia era a de que mulheres marchassem em Washington D.C. no dia seguinte à posse do presidente, para mostrar o descontentamento frente à eleição de um candidato sabidamente machista, misógino e sobre quem pesam alegações de abuso sexual.

Sua vontade era a de mobilizar mulheres a mostrar que seus direitos não seriam esquecidos. Só não imaginava que o evento se tornaria viral e que com tanta repercussão, a coordenação teria de passar às mãos de ativistas veteranas de Nova Iorque (Tamika D. Mallory, Carmen Perez, Linda Sarsour e Bob Bland) . Com um time de mulheres entendidas do assunto à frente, os primeiros passos para a consolidação da marcha foram tomados, também foi criado um site onde todas as informações pertinentes à marcha podiam ser acessadas, incluindo a inscrição para a participação no evento. Essa inscrição serviu apenas como modo de saber quantas pessoas participariam para a organização da logística.

Embora o site fosse voltado para a marcha em Washington, mulheres de outros países também se inscreveram. Excursões de outras partes dos EUA começaram a ser organizadas ao mesmo tempo em que marchas em outras cidades foram marcadas. Aos poucos, cidades em todo o mundo entraram no mapa das marchas e foram chamadas de “sister marches” (marchas irmãs). O que começou como um protesto contra Trump acabou mobilizando mulheres no mundo todo, lutando pelos mesmos direitos.

Com o nome de “Women’s March on Washington” (Marcha das mulheres em Washington) ela teve uma abrangência muito maior do que apenas a pauta feminista. Um dos motes do protesto é “Direitos das mulheres são Direitos humanos e Direitos humanos são Direitos das mulheres”. Ele veio com uma nova visão sobre o feminismo a partir do momento em que englobou pautas de grupos que também sofrem preconceitos e desafios no dia-a-dia como afro-americanos, a comunidade LGBTQIA, imigrantes, e refugiados. A demanda da intersecção de causas cresce e torna a inclusão de outras pautas uma necessidade, como forma de fortalecer o movimento e aumentar seu alcance.

Apesar de liderada por ativistas de diferentes causas, o movimento chama a atenção pela ausência de agenda partidária e por abraçar outros movimentos. Um dos pontos chave de sua missão é reconhecer que a defesa de grupos mais marginalizados é defender a todos e que a marcha é o primeiro passo para a unificação das diferentes comunidades, com o objetivo de gerar mudanças. Esse é um dos motivos que tornou a marcha tão bem sucedida: a participação é aberta a todos que lutam por direitos humanos, independente de sua visão político-partidária. A defesa por uma sociedade mais justa é o que foi capaz de unir milhares de pessoas numa única manifestação.

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Outra maneira que as participantes encontraram para se manifestar foi usar uma touca cor de rosa com orelhas de gato. O nome é trocadilho com “pussycat”, que significa “gatinho”. Em inglês a palavra “pussy” também é usada pejorativamente para designar a genitália feminina e foi proferida por Trump em 2005 numa frase em que ele dizia que atualmente é possível pegar as mulheres por sua genitália e fazer o que quiser. O “Pussyhat Project”, além de criar uma identidade visual única para a marcha, permitiu que pessoas em qualquer lugar do mundo demonstrassem seu apoio aos direitos das mulheres. Valorizando as artes manuais, as fundadoras do projeto (Krista Suh e Jayna Zweiman) disponibilizaram em seu site o modelo para a confecção das toucas (tricô, crochê e costura). Estimulando que cada mulher confeccionasse seu próprio “pussyhat”, a iniciativa empodera mulheres artesãs ao mesmo tempo em que fortalece a individualidade criativa de cada uma.

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Mulheres usando seus “pussyhats”. (Foto retirada do twitter de @rmayersinger)

Impacto

Contabilizando a participação de cerca de dois milhões de pessoas nos EUA e o total de cinco milhões de pessoas em todo o mundo em 914 marchas (653 só nos EUA), ela é considerada a maior de toda a história norte-americana a ocorrer num mesmo dia. Além disso, fotos mostram que mais pessoas participaram na marcha do que na inauguração de Trump. Inclusive informes oficiais do metrô na cidade de Washington avisavam sobre a superlotação dos trens, que ocasionaram atrasos nas viagens.

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“Estejam preparados, possíveis atrasos no sistema devido a multidão. Cartões SmartTrip devem ser utilizados para entrada e saída do sistema.”

Uma marcha-irmã ocorreu inclusive em Paradise Bay, na Antártica, onde cerca de 30 mulheres e homens se reuniram num navio com sinais de protesto.

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Manifestantes em navio de pesquisa em Pirate Bay, Antártica. (Foto de Linda Zunas)

A maior marcha registrada ocorreu em Los Angeles na Califórnia com 750 mil participantes, seguida por Washington, D.C. com 500 mil, Nova Iorque (Nova Iorque) com 450 mil, Chicago (Illinois) com 250 mil e Seattle (Washington), Boston (Massachusetts), Oakland e San Francisco (Califórnia) contabilizando entre 100 e 200 mil participantes.

Ciência > Opinião

A veterinária Isabelle Tancioni, moradora de San Diego (Califórnia), participou da marcha que começou no Civic Center. Com a estimativa de 30 a 40 mil participantes, Isabelle conta que estudantes preocupados com as políticas do novo governo com relação à ciência também compareceram.

Um dos primeiros atos de Trump foi apagar todos os dados referentes ao aquecimento global da página da Casa Branca, além de proibir que cientistas da EPA (Agência de Proteção Ambiental) falem publicamente sobre suas pesquisas sem que antes os resultados passem por uma avaliação interna. A preocupação é tanta que já foi criada uma página com o intuito de organizar uma marcha de cientistas, que busca mostrar a importância da ciência baseada em fatos.

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Cartazes durante a Marcha das Mulheres em San Diego: à esquerda “Ciência é real”; à direita “Ciência > Opinião”. (Fotos de Isabelle Tancioni)

É possível que nenhuma das organizadoras da marcha tenha imaginado tamanha repercussão do movimento. O que inicialmente eram páginas de evento agora se tornam grupos públicos e páginas com a finalidade de manter o movimento vivo e forte por todo os EUA. A força que o movimento mostrou ao mobilizar diferentes causas num mesmo protesto pode inspirar uma nova fase do ativismo não só nos EUA, mas em todo o mundo. Entramos numa nova fase de mobilização coletiva. Teremos ainda muitos frutos a colher.

Para saber mais:

Dados sobre o número de participantes nas marchas: https://docs.google.com/spreadsheets/d/1xa0iLqYKz8x9Yc_rfhtmSOJQ2EGgeUVjvV4A8LsIaxY/htmlview?sle=true#

Marcha para a ciência: https://www.marchforscience.com/

Pussyhat Project: https://www.pussyhatproject.com/

Marcha das Mulheres: https://www.womensmarch.com/ e https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcha_das_Mulheres_em_Washington

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Para lembrar quando faltar coragem

[Aviso: O sexismo enfrentado por mulheres tem aspectos distintos e agravantes dependendo da sua classe social, meio cultural, raça, religião, orientação sexual, restrições físicas e/ou psicológicas. Nesse texto, entretanto, por simplicidade, tratamos da questão de gênero na ciência, em particular, na área de física, de maneira binária: mulheres e homens. E, além de poucas citações superficiais, também não estão representadas questões raciais e religiosas.]

Ao contrário do que se imagina, numa sociedade com o mesmo recorte cultural, o machismo não diminui quanto maior o nível educacional dos indivíduos, e, sim, transfigura-se em formas mais elaboradas de discriminação. A vivência dentro da academia não é imune às suas construções sociais e reflete a estrutura patriarcal na qual as ciências foram concebidas. Nós, mulheres, enquanto cientistas, devemos nos enquadrar em sistema feito por homens e para homens. Isso cria desafios particulares para mulheres que desejam seguir carreiras científicas, que já começam em desvantagem com relação as dos seus colegas do sexo masculino.

A mentoria, por exemplo, é extremamente importante para todo jovem cientista, seja como forma de obter treinamento na sua área de especialização, como para ter acesso a rede de colaborações. Ela é, principalmente, o mecanismo pelo qual se aprender toda a parte não escrita sobre o funcionamento do mundo acadêmico: negociar com outros cientistas, apresentar trabalhos, pleitear verbas, oportunidades em projetos, etc, fundamentais para o avanço da carreira. Poucas mulheres usufruem dessa rede de oportunidades através de mentoria, enquanto o engajamento, histórico e estrutural, entre os homens leva-os a carreiras mais bem sucedidas.

Foi pensando em um ambiente que proporcionasse troca de experiências entre jovens mulheres cientistas que a Dra. Elizabeth Simmons da Universidade Estadual de Michigam (E.U.A.) e Dra. Shobhana Narasimhan do Centro de Pesquisa Cientifica Avançada Jawaharial Nehru (Índia) idealizaram um workshop focado no desenvolvimento das carreiras das jovens pesquisadoras na área de física. As duas foram colegas de pós-graduação durante o doutorado na Universidade de Harvard (E.U.A.), entre o final da década de oitenta e o início dos anos noventa. Das conversas entre as duas amigas, elas perceberam que mulheres cientistas, sendo poucas, enfrentam um certo isolamento e possuem poucos espaços para networking, troca de experiências e meios de adquirir certas habilidade não-acadêmicas, as quais seus colegas homens têm acesso tão facilmente através do “clube dos meninos”.

E, assim, foi criado o “Workshop para Desenvolvimento das Carreiras de Mulheres em Física”, com duas edições realizadas num dos institutos de física teórica mais respeitado do mundo, o Centro Internacional de Física Teórica. A última edição, em 2015, contou com 16 palestrantes, a maioria absoluta de mulheres e físicas, e 45 participantes vindas de 26 países e, sim, vou listar porque só a lista de países por si só já é linda: Alemanha, Armênia, Argentina, Benim, Bielorrúsia, Botswana, Brasil, Camarão, Canadá, Cuba, Egito, Gabão, Gana, Índia, Itália, Irã, México, Nigéria, Palestina, Paquistão, Quênia, Senegal, Sri Lanka, Sudão, Turquia e Ucrânia. Imagina só: você entra num auditório. Tem mais de 40 cientistas em física. TodAs mulheres! E a maioria absoluta não é branca! Com muçulmanas, cristãs, atéias trabalhando juntas! Você nem consegue imaginar, não é? Eu vi! Eu vi, gente! Eu estava lá! *_*

Nessa atmosfera multicultural, multirracial, multirreligiosa, nós tivemos a oportunidade de discutir sobre as melhores formas de apresentar currículos, negociar financiamento de pesquisa, escrever propostas, entre outros tópicos. E, também, pudemos tratar sobre aspectos diretamente ligados com as dificuldades de sermos mulheres enquanto cientistas (e vice versa!). As organizadoras convidaram ainda cientistas reconhecidas internacionalmente como Dama Dra. Jocelyn Bell Burnell, que descobriu as primeiras estrelas de nêutrons e Dra. Sossina Haile, uma das pioneiras em células de energia limpa, cujas palestras inspiradoras mesclaram depoimentos pessoais e percurso acadêmico.

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Era mais fácil me darem parabéns pelo meu noivado do que pela minha descoberta científica.” — Jocelyn Bell Burnell sobre a época de seu doutorado na Universidade de Cambridge (Inglaterra).

Jocelyn montou o rádio telescópio que detectou as primeiras estrelas de nêutrons, sendo dela a descoberta das quatro primeiras. As características não usuais desses objetos causaram tanta comoção que até o seu supervisor, Antony Hewish, desacreditou os dados. Bell Burnell defendeu a tese (1968) mesmo sem o apoio do seu orientador.

Em 1974, Hewish divide o prêmio Nobel Prize de física com Martin Ryle, ignorando as contribuições de Bell. O prêmio desse ano ficou conhecido como “No Bell” (Sem Bell, em tradução livre)…

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“Eu era a única mulher na minha turma. E toda a vez que eu entrava na sala de aula, meus colegas batiam os pés no chão até eu sentar.” — Jocelyn Bell Burnell sobre sua graduação em Glasgow (Escócia) na década de 1960.

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“Perdi as contas de quantas vezes eu entrei numa sala de reunião e me pediram para trazer o café.” — Sossina Haile, pioneira na pesquisa com células combustíveis.

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“Uma vez um estudante entrou no meu escritório procurando pelo Prof. Haile. Nós começamos a conversar e ficou claro que ele achava que eu era a secretária do Prof. Haile. Em algum momento ele perguntou se o Prof. Haile estaria interessado na supervisão de novos alunos, como ele. Eu disse: “Hum… Eu acho que não…”. (risadas!) “E essa é uma das formas que encontrei de enfrentar situações de sexismo ou racismo.” — Sossina Haile

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O clima do evento foi de confissões, desabafos e histórias de superação. Tivemos mesas redondas, dinâmicas de grupo, grupos de trabalho, além de palestras e apresentação dos trabalhos científicos das participantes. Foi um evento para levar para vida toda. Com todas essas mulheres fortes contando como lutam todo o dia para fazer ciência, não tinha como não se emocionar e aprender muito: como fazer ciência quando não acreditam em você e no seu trabalho porque você é mulher, porque você é negra, porque você é muçulmana, porque o seu país está em guerra. Como fazer ciência quando ao seu redor as pessoas esperam que você, antes de tudo, seja mãe e esposa. Como fazer ciência quando você é a responsável pelos familiares doentes. Como fazer ciência quando se é pobre… Como fazer ciência depois do abuso verbal, depois do abuso sexual… Como fazer ciência quando se está só… Uma mulher faz ciência simplesmente porque ela quer, mas ela precisa de coragem para continuar.

Algumas de nós engajadas em projetos voltados para atrair meninas para carreiras em física e matemática. Outras, trabalhando em políticas de inclusão e de incentivo à permanência de mulheres na carreira científica. Outras de nós, abertamente feministas. Outras, nem tanto. Todas, porém, reconhecendo duas razões principais para estar ali, naquele workshop. Primeiramente, para aprender mais sobre como o sistema acadêmico funciona e, assim, ter recursos não apenas para permanecer dentro dele, como também crescer e, eventualmente, ocupar posições de prestígio, na academia ou até mesmo fora dela. E, em segundo lugar, uma vez como cientistas, pesquisadoras e professoras, melhorar o sistema para as garotas que escolham carreiras científicas tenham vidas melhores do que as nossas.

Todas nós, apesar de diferentes culturas, raças e religiões (ou não religiosas), nos vimos unidas enquanto mulheres e cientistas. E, não importa em que lugar do mundo a gente viva, agora nenhuma de nós luta sozinha, no isolamento dos nossos departamentos. Nós lutamos juntas!

“Quando era jovem, eu não me considerava feminista. O meu feminismo surgiu ao longo dos anos. Agora, quanto mais velha eu fico, mais feminista também. Hoje eu sou GRRRR!!! feminista!” — Dame Dra. Jocelyn Bell Burnell

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Links interessantes (foi mal, mas é tudo em inglês :/ ):

Se você está no doutorado ou tem doutorado em física, super recomendo que você acompanhe os programas do Centro Internacional de Física Teórica para mulheres.

Gostou da Liz e da Shobhana? Então, dá uma olhada aqui na entrevista que elas deram ano passado.

Mais sobre energia limpa e Sossina Haile na website do The Haile Group.