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O futuro da biodiversidade no nosso planeta: qual caminho “normal” queremos voltar a seguir depois da quarentena?

Todo dia a gente vê um meme diferente sobre o que faremos quando a quarentena acabar (sobre a pandemia do Covid-19) e a vida voltar ao normal. Depois da crise que estamos vivendo e das discussões que ela traz, a perspectiva de querer voltar ao que vivíamos antes da pandemia, em vez de pensarmos em melhores alternativas de lidar com a realidade, me parece equivocada, já que foi aquela normalidade que nos trouxe até aqui. Hoje vou dar um exemplo dos frutos que a nossa antiga normalidade deve colher daqui a algumas décadas e porque precisamos pensar desde já em nova normalidade: a extrema perda da biodiversidade causada pela perda de habitat em todo o mundo. 

Para discutir esse tema, vou apresentar os resultados de um estudo que acabou de ser publicado na revista Biological Conservation pelos pesquisadores Daniel Gonçalves-Souza, Ricardo Dobrovolski (Universidade Federal da Bahia) e Peter H. Verburg (VU University Amsterdam, Holanda). Eles utilizaram um modelo para prever a perda da biodiversidade a partir da perda de habitat que vai acontecer daqui a 20 anos e os resultados dessa pesquisa não são nem um pouco promissores.

Não dá pra dizer que esse prognóstico é surpreendente. A perda da biodiversidade no nosso planeta está acontecendo em uma velocidade cada vez mais acelerada. O aumento da população combinado com nossos padrões de consumos extremos estimulam a perda de áreas naturais e consequentemente, a perda do habitat de inúmeros seres vivos que viveriam nessas áreas. Isso resulta na extinção de diversas espécies, além da perda de serviços ecossistêmicos fundamentais realizadas por elas para o bem-estar humano. As atividades de agropecuária são as principais responsáveis pela redução de áreas naturais e, apesar de estarmos sentindo que a pandemia levou a uma redução geral das atividades econômicas do país, o desmatamento na Amazônia só acelerou  — com 51% de aumento em relação ao mesmo momento no ano passado (se liguem na importância de deixar as florestas intactas aqui). 

Com o objetivo de ter valores mais claros acerca dessa perda de biodiversidade para guiar o desenvolvimento de melhores estratégias de conservação em todo o mundo, os pesquisadores responsáveis pelo estudo intitulado “Perda de habitat, previsibilidade da extinção e esforços de conservação das ecorregiões terrestres”  (em inglês “Habitat loss, extinction predictability and conservation efforts in the terrestrial ecoregions”) construíram um modelo para quantificar a ameaça de extinção de espécies de vertebrados terrestres como resultado da perda de habitat. Esse modelo é baseado numa relação espécie/área, considerando que o aumento de áreas disponíveis, também resulta em um aumento de espécies na área em questão (e vice-versa). Os pesquisadores utilizaram os dados de mais de 600 espécies de vertebrados distribuídos em diversas ecorregiões globais para aplicá-lo.

Esse modelo foi criado em duas etapas. Como uma das formas de quantificar a perda de biodiversidade é utilizar o número das espécies em extinção, eles primeiro avaliaram o risco de extinção atual, considerando a perda de habitat até o presente momento. Após terem uma previsão, eles compararam os resultados com os valores reais da lista vermelha de espécies em extinção da União Internacional pela Conservação da Natureza (ou IUCN em inglês). Esse passo é importante porque se os dados que o modelo previu para os valores atuais são iguais aos dados reais registrados de espécies ameaçadas, nos certificamos que as previsões do modelo se adequam à realidade. O modelo previu que 2073 espécies deveriam estar ameaçadas hoje e este número está muito próximo ao número real que consta na lista da IUCN. 

A segunda etapa do modelo foi construir uma previsão para o ano de 2040, depois de 20 anos de destruição. E é aqui que nossa velha normalidade entra em jogo. Os pesquisadores utilizaram as taxas de perda de habitat até a atualidade para prever a perda da biodiversidade que esperamos daqui a 20 anos. Infelizmente, se continuarmos os mesmos hábitos, essas taxas também irão se manter iguais e, mais de quatro mil espécies podem estar ameaçadas de extinção nas próximas décadas.

Adicionado a isso, o estudo identificou as ecorregiões que estão mais ameaçadas de perder biodiversidade. Os esforços de conservação estão normalmente voltados para áreas chamadas de hotspots de biodiversidade, que, basicamente, são áreas com um grande número de espécies importantes de serem conservadas, a exemplo das endêmicas (aquelas espécies que tem uma área de vida restrita a um certo local).  O interessante é que o estudo identificou algumas ecorregiões em perigo que estão fora desses hotspots de biodiversidade, chamando atenção para a necessidade de ampliação das estratégias de conservação no nosso planeta.  

Este mapa retirado do artigo em questão mostra a relação entre o número de vertebrados endêmicos previstos para extinção devido à perda de habitat acumulada projetada até 2040 (em vermelho – tons escuros indicam mais extinção) e a porcentagem da área de ecorregião que está protegida (em azul – tons escuros indicam mais área protegida). Fonte: Biological Conservation, volume 246 – Elsevier, 2020.

É importante pontuar que os autores afirmam que este não deve ser o único modelo utilizado para fazer essas previsões. Como é um modelo geral, ele simplifica as respostas diversas que as diferentes espécies podem apresentar em relação a perda de habitat, além de necessitar de dados das espécies que não estão sempre disponíveis. Precisamos de mais informações sobre a nossa biodiversidade para fazer previsões cada vez mais seguras sobre seu futuro. 

Mas, com certeza o artigo nos dá um grande exemplo para se repensar sobre qual mundo queremos (re)construir, quando sairmos desta pandemia. O jeito que estamos lidando com a natureza, da qual inclusive fazemos parte, não tem gerado consequências favoráveis. Agora que saímos do velho normal, talvez seja o momento perfeito para se pensar em um novo normal, muito mais responsável, consciente e ativo.

Fonte:

Gonçalves-Souza D., Verburg P. H., Dobrovolski R. (2020) Habitat loss, extinction predictability and conservation efforts in the terrestrial ecoregions. Biological Conservation, Volume 246, 2020, 108579.

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Por que as aves sobreviveram à extinção dos dinossauros?

De todas as espécies que já existiram no planeta, mais de 90% foram extintas. A vida na Terra enfrentou 5 grandes eventos de extinção em massa conhecidos e, após cada um desses eventos, os poucos organismos sobreviventes foram capazes de ocupar e recolonizar o novo ambiente. Mas… por que algumas espécies sobrevivem, enquanto muitas outras desaparecem durante eventos de extinção em massa? O que faz com que as vidas dessas espécies seja viável após eventos tão catastróficos?

Apesar de não ter sido a mais severa, a extinção em massa que marcou o final do Cretáceo e inicio do Terciário (K-T) é a mais estudada e também a mais famosa, pois corresponde ao final da “era dos dinossauros”. Sobre esse evento, uma das questões mais intrigantes para os paleontólogos refere-se à sobrevivência de apenas um grupo de dinossauros – as aves. Muitas hipóteses já foram sugeridas para tentar explicar por que as aves se deram bem naquele momento. Por exemplo, a presença de penas, o voo e o tamanho reduzido poderiam ter proporcionado boas condições de sobrevivência no ambiente pós-catastrófico do final do Cretáceo. Entretanto, são conhecidos fósseis de outros animais, incluindo outros répteis e dinossauros, que também apresentavam essas características e não tiveram a mesma sorte. Uma pesquisa recente, desenvolvida por Derek Larson e seu grupo, sugere que o segredo para a sobrevivência das aves poderia estar na boca, ou melhor, no bico.

Imagine o seguinte cenário: há 66 milhões de anos, asteroides de até 10km atingiram o planeta. O impacto foi tão intenso que causou diversos efeitos globais. Inicialmente, acredita-se que houve aumento de temperatura, terremotos e tsunamis. A colisão fez ainda com que se levantasse muita “poeira”, causando o bloqueio da luz solar e levando o planeta a um inverno prolongado e ao colapso do ecossistema existente até então. Muitas espécies que haviam tido muito sucesso por milhares de anos, de Tyranosaurus a Velociraptors, não conseguiram sobreviver à mudança brusca das condições ambientais.

Para entender a dinâmica de extinção de espécies durante a extinção K-T, a equipe de Larson estudou mais de 3000 dentes de pequenos dinossauros carnívoros. Estudar dentes fossilizados pode parecer estranho, à primeira vista. Entretanto, dentes podem contar histórias muito interessantes por indicarem o tipo de dieta que o animal apresentava. Sabendo a dieta, podemos imaginar que tipo de ambiente aquela espécie ocupava e que comportamentos poderia exibir, por exemplo. O grupo de pesquisadores descobriu que antes da extinção K-T, havia uma grande diversidade de especializações de dietas entre os pequenos dinossauros carnívoros, como peixes, insetos ou caças, por exemplo. Perceberam também que essa diversidade não mudou durante o Cretáceo. Isso significa que não houve uma diminuição gradual da variedade de tipos de dentes. Ao contrário, parece que esses pequenos carnívoros desapareceram de repente ao final do Cretáceo.

Essa extinção em massa também fez desaparecer muitos pequenos dinossauros com penas, que possivelmente se comportavam de forma muito semelhante às aves verdadeiras. Entretanto, apenas um grupo de aves – os Neornithines – tiveram sucesso em sobreviver no novo ambiente. Uma das poucas diferenças entre essas aves e outras que não conseguiram sobreviver era que, enquanto outros animais possuíam dentes, os Neornithines possuíam bicos queratinosos –  o que realmente é um dos traços que apenas as aves modernas apresentam em comum. Ainda, o tipo de bico que essas aves apresentavam era relacionado a uma dieta herbívora, e elas provavelmente comiam sementes.

Então, você se lembra como era o ambiente após o impacto? Não havia luz solar por causa do acúmulo de poeira, o que significa que também não havia fotossíntese. Sem fotossíntese, muitas plantas acabavam morrendo. Com a escassez deste recurso, muitos animais que dependiam de folhas e frutos, por exemplo, acabaram morrendo. Apesar de imaginarmos que o grande número de animais mortos poderia ser uma boa fonte de alimento para dinossauros carnívoros, esse é um recurso que se deteriora muito rapidamente. Entretanto, sementes são alimentos altamente nutritivos, e estoques de sementes dispersadas por plantas podem continuar viáveis por mais de 50 anos, como boas fontes de nutrientes. Assim, não é difícil imaginar que animais capazes de absorver nutrientes desses bancos de sementes, e de sementes encontradas no meio dos detritos, tiveram uma grande vantagem de sobrevivência. Bem, aves com bicos queratinosos podiam fazer isso. Assim, é possível que a especialização da dieta em sementes de algumas linhagens de aves tenha sido um dos fatores fundamentais para sua sobrevivência ao final do Cretáceo.

Como todo avanço em Ciência, esse provavelmente não é o final dessa história. Novas hipóteses devem ser testadas pois há, provavelmente, outras características fisiológicas e morfológicas dos Neornithines que proporcionaram a este grupo melhores condições para sobrevivência após o impacto do asteroide. Entretanto, essa pesquisa demonstra que até mesmo dentes de dinossauros podem nos contar uma história interessante sobre o passado. Ainda, o conhecimento do que acontece durante eventos de extinção em massa pode ser muito relevante para entender nosso planeta atual, já que a Terra está passando por mudanças bruscas, por exemplo no clima e condições atmosféricas, levando ao colapso de ecossistemas e à extinção de muitas espécies.

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 Cladograma de dinossauros e grupos relacionados, mostrando os grupos extintos (em vermelho) e sobreviventes (em verde) na extinção em massa do final do Cretáceo. (Current Biology v.26, 2016, R416)

 
Referências:

Larson, D.W., Brown, C.M., and Evans, D.C. (2016). Dental disparity and ecological stability in bird-like dinosaurs prior to the end-Cretaceous mass extinction. Current Biology 26, 1325–1333.

Brusatte S. L. (2016). Evolution: How Some Birds Survived When All Other Dinosaurs Died. Current Biology 26, R408–R431.